segunda-feira, 20 de abril de 2009

A Arte do Macaco

Ainda não assisti a nenhum capítulo da novela das sete. Pensando bem, acho que não assistirei nenhum, como sempre. Mas é que li e assisti nas chamadas de lançamento, que um dos protagonistas é um grande artista plástico, na verdade um falsário, pois seus quadros são "pintados" por um chimpanzé, bicho de sua estimação. A princípio parece uma brincadeira tola, mero golpe para uma simples novela. Mas é que dado o momento que vivemos, creio ser algo bastante arriscado. Talvez esteja fazendo tempestade em copo d'água. Pode ser. Mas nunca a Cultura esteve em tão baixo nível de consideração por parte da sociedade brasileira, como neste instante. Nossa Cultura, nossos artistas, onde estão? Música, Teatro, sei lá. Li uma crônica de Nelson Motta, reclamando da atenção recebida, agora que procura por patrocínio para uma obra. Rodrigo Santoro também diz a mesma coisa. E olha que são grandes nomes, envolvidos com a mídia e tudo. Aí vem a novela e em horário nobre, apresenta a arte, aquilo que críticos de arte festejam e colocam alto preço, como sendo algo irracional, feita por um macaco. Ou seja, a Arte é qualquer coisa, uma bobagem meramente decorativa, que pode ser feita acidentalmente por um bicho. Quanto vale a Arte? Os bobalhões, esses que vibram porque enfim, a arte está nivelada, não lhes está distante através do conhecimento, da Cultura, vão festejar. Arte é um negócio que não dá pra entender e até um macaco faz e vem um crítico desses metido a entender e diz que é coisa de gênio.. Entendem? Horário nobre, Tv Globo.
E como nos sentimos, nós que fazemos Cultura no Pará? Agora mesmo foram abertas novas inscrições para a Lei Semear. Li também que a governadora mandou aumentar a desistência do governo em impostos, para a lei. Sinto-me devastado. Como agitador cultural, seja como autor teatral ou literário, compositor ou como produtor do Cuíra, não me considero acima de ninguém, nem de nada. Era o que faltava. Mas também não posso me considerar abaixo de qualquer coisa. Afinal, estando na briga há tantos anos, tendo publicado uma dezena de livros, encenado uma dezena de peças, composto algumas trilhas e produzido alguns espetáculos, já dá para achar que ao chegar ao departamento de marketing de uma das maiores empresas do Estado, não vá lidar com alguém bem jovem que me olhará com a curiosidade de um ET, perguntando de maneira desinteressada se faço teatro, literatura ou exatamente o quê. Mas é isso que ocorre. Erram-nos o nome. Nunca ouviram falar em nossas atividades, quanto mais nos nomes. Pior, uma vez dado o recado, começam a falar com orgulho de suas próprias iniciativas, tirando partido da lei. E chamam de "nosso projeto", apesar de entrar com um dinheiro que não é seu e sim do governo em forma de imposto, mas que do qual, mesmo assim, auferirão lucro em imagem e prestígio. Finalmente, perguntam se haverá uma volta financeira. Sim, a lei prevê que o empresário invista 20% do total do projeto em dinheiro próprio, para demonstrar estar perfeitamente de acordo com a iniciativa. Pois pedem o dinheiro de volta. Nem esse querem dar. E você, artista, que ao invés de estar trabalhando, está vendendo seu trabalho, que ouviu todo esse discurso contendo-se para não dar respostas tortas, ainda tem que sorrir e pensar se vai fazer aquilo mesmo, ou ficar sem fazer seu trabalho.
Ao entregar a decisão da realização de projetos culturais a departamentos de marketing das empresas, o governo lavou as mãos e deixou os artistas em pior situação. A última resposta que ouvi, de um dos maiores supermercados da cidade, e ouvi de uma mulher da área administrativa, à qual fui passado pela jovem e desinformada diretora de marketing, foi que o governo é muito chato, pois fiscaliza as empresas que querem patrocinar a cultura, com muita burocracia. Por isso, não iria apoiar nada.
Por minha conta, desisto. Meus próximos livros, vou dar meu jeito, ainda não sei como, mas não passo novamente por tudo isso. Tenho um cd com músicas inéditas de meu pai, projeto aprovado na Semear, que imagino que não sairá. Finalmente, o novo projeto do Cuíra, aos 47 do segundo tempo, parece que consegui. E é alguém desinteressado, tranquilo. O processo apenas começou, mas estou torcendo. Também imagino que sem dinheiro de Lei, o Cuíra vai desaparecer. A situação já está terrível o suficiente para isso. É como está a Cultura, hoje no Pará. O secretário Edson se esconde dos artistas. Quando é imperativa sua presença, vai direto para a mesa dos trabalhos de onde retira-se antes do final, estrategicamente. Deverá se tornar o secretário mais ausente, desconhecido e descompromissado da história do Pará. Li no jornal, mas não dá para garantir ser verdade ou apenas política, que o Centur passará a fechar às 14hs, por falta de dinheiro. Adeus Teatro, Cinema, shows de música. Adeus tudo. Ficam somente os funcionários ganhando seu dimdim. A atividade fim, tem seu fim.
No âmbito nacional os artistas se movimentam, peitam o atual Ministro, que é do time de Gil, que adora um lero lero. Levou oito anos com a Lei Rouanet no lero lero e agora propõe mais. O Secretário Edson, daqui, também adora. Tempo que passa, dinheiro no bolso e tudo adiado. Mas continuamos no bom combate. No próximo final de semana, Danilo Bracchi e sua Companhia Investigativa de Dança se apresentam no Cuíra. Estamos sobrevivendo. O pulso ainda pulsa.

Um comentário:

mell disse...

eu quero ver uma foto de macaco