sexta-feira, 26 de maio de 2017

A MÚSICA EM NOSSA VIDA

Escuto música no carro. Trabalho em rádio há muitos anos e durante o dia, ouço a emissora o tempo todo. Em casa, há outras atrações nos livros e televisão, além da família, claro. Mais novo, peguei o tempo dos cartridges que tocavam músicas nos veículos. Mais tarde, vieram os cassetes. Bem, estou começando, somente agora, a ouvir, no carro, a partir de um pen drive. É diferente de tudo. Estou tentando me adaptar, sou de outro tempo. Cresci em um lar musical, por conta de meus pais. Adiante, meu irmão mais velho ganhou da avó uma eletrola, portátil, funcionando por corda, que tocava 78 rpm. Havia discos diversos. Não esqueço de Dorival Caymmi, em forma, cantando “Dora”, em um arranjo que nunca mais ouvi, onde a abertura e encerramento, maravilhosa, era com metais de frevo. Havia também uma ária de “O Barbeiro de Sevilha”. Pedro Vargas cantando “Farolito”. Adiante, o Edgar ganhou um prato, pequeno, que funcionava acoplado a um rádio para aproveitar o amplificador. Meu primo Tom, que morava nos Estados Unidos, veio passar férias. Ao ir embora, deixou-nos uns 50 compactos da parada americana. Para os que nasceram há pouco, eram vinis pequenos, onde cabia apenas uma música de três minutos. Verdadeiras jóias. Nat King Cole, Pat Boone, Elvis Presley, todos em grande forma. Os disquinhos tinham um buraco no meio. Havia uma briga entre gravadoras pelo padrão em 33 rpm. Para tocar, era necessário um adaptador. Uma verdadeira mina de ouro para garotos que se interessavam por música. E então, de repente, os Beatles invadiram nossa vida. Com eles, Rolling Stones, Hollies, Animals, you name it. Anos 60, com a Jovem Guarda, Roberto, Erasmo, Wanderléa, Wanderley Cardoso, Jerry Adriani e companhia. A bossa nova era algo chic, sério, para um determinado número de pessoas. Os Festivais da Record e toda uma geração maravilhosa que apronta até hoje. Caetano, Gil, Gal, Bethania, Milton, Chico, vocês sabem. Ganhei uma eletrola portátil. Gigantesca. Funcionava com oito pilhas grandes. Um dia meu irmão chegou com um disco de um tal Jimi Hendrix e botou para tocar em outra eletrola, agora portátil, mas com duas caixas pequenas de som. Meu mundo mudou. A vida era diferente. Os discos, para nós, duravam vários meses. Ouvíamos e conhecíamos todas as músicas, a sequencia. Depois, além das capas maravilhosas, passamos a saber quem tocava o quê e onde. Agora já tinha uma eletrola Telespark, de móvel. No meu carro, um roadstar. Enfim, veio o cd. Demorei a aceitar. A capa, pequena, nomes quase ilegíveis. Houve o MD, lembram? Vida curta. No carro, cd player. Tudo mudou novamente. Mp4 ou outros padrões. Compro no iTunes. Na maioria das vezes, não vem ficha técnica. Tenho costume ainda hoje de ouvir todo o disco, mas as pessoas, não têm mais essa preocupação. Acabaram os álbuns conceito. É só a música. Acho que nem querem saber quem canta. Tem Spotify. Ando ouvindo discos antigos, todos em cds relançados remasterizados, uma delícia para perceber os instrumentos. Anteriormente era tudo em mono. Essa onda da volta do vinil é somente espuma, de uma galera que gosta de ser diferente. Agora, está tudo na nuvem. Penso que é a próxima onda, se já não for agora. Talvez seja saudosista. Temi, por muito tempo, sentir-me assim. Não tenho medo do novo. Do hardware. Mas tenho saudade do software, da música, que antes, era melhor. O fato é que agora ouço músicas no meu carro, em pen drive.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

EDYR PROENÇA, FARIA 97 ANOS

Hoje seria o aniversário de Edyr Proença, meu pai. Ele faria 97 anos. Já passaram 19 anos de sua morte, que ocorreu neste mesmo mês, no dia 5. Decidi escrever pensando nele, que me acompanha de onde está, me iluminando e mostrando o melhor caminho, como sempre. 
Sabiam que foi remador? Contou-me que o ensinaram a nadar simplesmente jogando-o na maré. Foi também grande jogador de vôlei. Tudo pelo Remo. Também campeão de basquete. Sem vaga na equipe azulina, recebeu convite do clube Júlio César. O pai, Edgar, não aprovou. Sem avisar, jogou e ganhou campeonato. No ano seguinte, foi chamado para o time do Leão Azul. 
Mais velho, havia uma pelada de veteranos no Ginásio Serra Freire. Ai de quem se atrevesse a entrar batendo bola em qualquer garrafão. Dava para ouvir as pancadas. Uma vez, a bola bate no aro. Meu pai salta para pegar o rebote. Mais alto, mais forte, um querido tio pega a bola, vira-se e como uma arma, desfere-lhe uma pancada na cabeça. Zonzo, ele olha atônito. Desculpe, Edyr, pensei que fosse o fulano (outro tio queridíssimo)! Ele também era bom jogador de futebol. Meia armador, mas nessa, apenas peladas com amigos, em vários lugares, mas principalmente no Lago Azul. Em campo de areia, mas iluminado com potentes refletores. Havia outra, aos domingos. 
Conheci e lembro de tantos amigos dele. Difícil citar todos. Cresci e passei a jogar. Lembro o dia em que parou. Já era escalado na ponta direita. Veio uma bola rápida e não conseguiu dominar. Pediu para sair. O corpo não obedecia ao pensamento. 
Desde cedo, nos estádios de futebol, sentado ao seu lado, narrando. “O tempo passa, a barba cresce”, a propaganda da Gilette Azul. Depois, comentando. Às vezes, na volta, no carro, argumentava sobre alguma opinião dele, ao microfone. Lá, não tinha nada de opinião não se discute. Nós discutíamos. Eu aprendia. Era bom. 
E a música? Sabiam que ele teve um conjunto chamado Bando da Estrela? E que minha mãe, Celeste, era a cantora? Fazia a linha do que chamamos de “Regional”, violões, pandeiro e vocais, como o Bando da Lua, de Carmem Miranda. Meu irmão tem ainda um acetato com duas músicas, de Edyr, tocadas pelo Bando. Eu as aproveitei no espetáculo dos 80 anos da PRC5. 
Depois de casado, havia muita responsabilidade. Muitos empregos. Onde estava a música? Os filhos foram crescendo. O violão, de vez em quando pegava e mostrava Noel Rosa e outros grandes. Quando Francisco Alves, o “Rei da Voz”, o “Chico Viola”, veio a Belém, escondeu-se no Teatro da Paz para ouvi-lo ensaiar “Boa noite, meu grande amor!”. Aos poucos foi chegando à Bossa Nova e sobretudo a Paulinho da Viola. Mas era algo esparso, na família. Continuamos crescendo e agora ela rejuvenescia, fazendo companhia, conhecendo os novos grandes artistas. 
Tive a sorte de fazê-lo voltar a compor. Dei uma letra a ele. Escrevi pensando em sua estética. Foi o estopim para uma carreira de compositor maravilhosa, que tem seu maior sucesso em “Bom dia Belém”, dele com minha tia Adalcinda. Juntos, fomos campeões de samba-enredo pelo Quem São Eles. Teve parceiros diversos, como Ruy Barata, Antônio Carlos Maranhão, Ronaldo Franco e minha mãe em várias músicas. Lançou um solo e mais tarde tocou com amigos no Clube do Camelo. Espero, ano que vem, mostrar um CD de inéditas que deixou. Pois é, pensando nele, meu maior ídolo, meu melhor amigo, professor. Meu pai, hoje, faria 97 anos.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

SAUDADE MARAVILHOSA

Muito poucos o conhecem, mas Mário Adnet é um dos melhores músicos brasileiros há tempos. Tem mais discos no Japão do que no Brasil. Cultor da bossa nova, melodicista de primeira, músico, maestro, amante de Tom Jobim, dedicando um CD sinfônico à sua obra e também passando em revista o grande Moacir Santos, Adnet apresenta seu novo trabalho. 
Logo aos primeiros acordes de “Ancestral”, dedicada a Armando Marçal, nos faz embarcar na maravilhosa música popular brasileira. Melodia e execução. Mário ao violão, Marcos Nimrichter ao piano, Jorge Helder no baixo, Rafael Barata na bateria, Marçal na percussão, mais os metais de Eduardo Neves, Aquiles Moraes e Everson Moraes. Que beleza! Onde foi que nos perdemos da MPB? Ou, hoje, seria MBC, música brasileira culta? 
Há bossa nova, samba jazz, baque virado, Ricardo Silveira na faixa título, valsa, uma versão espetacular de “Viver de Amor”, de Toninho Horta e Ronaldo Bastos, e uma versão sambajazz para “Caravan”, o standard de Duke Ellington e Juan Tizol, dedicada a Moacir Santos. Que beleza! 
O lançamento é do Sesc São Paulo. Quem mais se atreveria a lançar um CD com tanta qualidade? Inspirado, corri para minha coleção. O primeiro CD que peguei foi de Caetano Veloso. Ouvi “Paisagem Útil”, a primeira canção tropicalista que ele compôs. O primeiro a ouvi-la foi Paulinho da Viola. “Paisagem Útil”, é a primeira letra a partir de uma paisagem, a do Aterro do Flamengo, Rio de Janeiro. É uma das minhas favoritas. “Uma lua oval da Esso, comove e ilumina os beijos dos pobres, tristes, felizes, corações amantes do nosso Brasil”. Uma marcha rancho. 
Caetano e Gil tinham um passado de MPB e não de rock, que desenvolveram depois. “Alegria, Alegria”, com guitarras, é uma valsa portuguesa. A orquestração seria de Rogério Duprat ou Briamonte? Há outra de Caetano, que lembro agora, “Trem das Cores” já anos depois, “teu cabelo preto, explícito objeto, castanhos lábios, ou pra ser exato, lábios cor de açaí”. 
Caetano está na Europa, fazendo shows com Teresa Cristina. Paula Lavigne, a mãinha, nos bastidores, faz “lives” através do Instagram de alguns números. Deve ser uma grande felicidade um artista desfilar pelas grandes cidades com ingressos totalmente vendidos. 
Ele cantou “Reconvexo” em Londres. Depois estava em Lisboa. Adiante, vemos a turma conversando, cinco minutos antes de subir ao palco em Madri. Como era boa a nossa música. 
E Belchior? Eu o conheci. Veio a Belém. Conversamos. Papo viajandão como quem recita um monólogo de improviso, conversando consigo próprio. Eu começara a trabalhar em rádio. Ele, mais Ednardo, Fagner, mais Sérgio Sampaio e Luiz Melodia, todos estreando. Como eram bons! Tinham tudo a ver com nossa idade. 
Acho que Belchior, antes de estourar, já trouxe com ele suas melhores músicas. Depois não acho que tenha composto algo de mesmo nível. Quanto ao sumiço, como explicar as pessoas? Como explicar? Vejo moças lindas, formadas, inteligentes (ao que parece), chics e vem a música de sua preferência: sertanojo. Pronto, aí não dá. 
Falta de Educação e Cultura, de ética, da compreensão, do pensamento rico em argumentos, da identificação da beleza a partir da língua. Ou o funk, cujas melodias são inferiores a “Atirei o pau no gato” e as letras, sexo lixo. Passo de carro e vejo casas de shows lotadas de cowboys do asfalto. Ah, como era boa a nossa música. Saudade Maravilhosa

sexta-feira, 5 de maio de 2017

GUERRA E BONDADE

São duas coisas completamente conflitantes? Depende. Assisti, a princípio querendo não gostar, o filme “Até o Último Homem”, dirigido por Mel Gibson. Levou para as telas uma história real, do primeiro soldado considerado “O.C.”, que é algo como Objection of Conscience”, permitido a partir de gestões de Igrejas de Adventistas do Sétimo Dia. O pai de Desmond Doss e o irmão, lutou na Primeira Guerra e voltou para casa cheio de traumas. Espancava diariamente os filhos e a esposa. Em uma dessas vezes, Doss, revoltado, imobilizou o pai, tirou-lhe o revolver das mãos e apontou para sua cabeça. Quase atirava. Quando tudo passou, jurou que nunca teria uma arma. Veio a Segunda Guerra, o irmão alistou-se e foi lutar. Pouco tempo depois, Doss também alistou-se. No campo de treinamento, ao recusar pegar e manusear um fuzil, deu início a um tormento. Seu sargento e os companheiros o humilhavam e até espancavam. Ele envergonhava a todos. Passou pelo psicólogo, general e acabou em um tribunal. O pai irrompeu na sala com um documento que mostrava que a constituição lhe dava o direito de ir para a guerra como médico, sem portar arma. Mesmo com todas as ameaças e pressões, Doss não voltou atrás. Seu pelotão foi travar a grande batalha da guerra no Pacífico, contra os japoneses, pela ilha de Okinawa. Havia uma serra a conquistar. Dois batalhões já haviam sido dizimados. Uma face em abismo vertical era o início. Lá no alto, os japoneses. Não há espaço aqui para discutir o lado certo. É apenas um filme e com o cansaço dos filmes western, americanos transformaram os índios em alemães e japoneses. Estes, correm para a morte, com seus gritos assustadores. Morrem aos magotes e ainda surgem muitos outros. Doss corre de um para outro ferido, dando atendimento e mandando para a retaguarda. Parecem ter uma vitória. O inimigo fugiu. Passam a noite nos buracos feitos por bombas. Não sabiam que os japoneses tinham um túnel por onde sumiam e reapareciam com mais força. Isso acontece. Os americanos batem retirada. Sobraram 32 vivos, que desceram pelas cordas em pânico. Doss, ficou. Veio a noite. Às escondidas, começou a buscar cada ferido e levar para baixo. Descia-os amarrados em cordas. Alguns inimigos surgem, dando golpes de misericórdia em feridos. Ele se esconde. A cada um que descia, pedia a Deus mais força para trazer outro. Foram 75 companheiros, a noite inteira. Enfim, conseguiu descer. Chegando, os companheiros foram felicita-lo mas reagiu com golpes. Estado de choque. Belo ator. Me fez chorar, confesso. O filme ganhou Oscar de melhor mixagem de som. Gibson dirigiu ótimas cenas de batalha. Dá pra sentir o medo a empurrar a coragem de todos. E à noite, a tensão para que Doss trouxesse os feridos. Um por um. Talvez tenha sido essa aflição e o olhar do ator que me tenha emocionado. Mas logo compreendi que foi o impacto da bondade. Essa, tão violenta em um ambiente tão agressivo, me atingiu frontalmente. Doss salvou até o sargento que tanto o humilhava. Morreu no início dos anos 2000. Ao final, vemos fotos e  depoimentos. Em um mundo que estamos vivendo, com tanta maldade, me impressiona a força da bondade. Tento compreender essas pessoas que largam tudo e vão distribui-la no mundo. Esses médicos sem fronteira, por exemplo. Os que cuidam daqueles que perderam tudo. Eu, humano cheio de defeitos, procuro ser bom. Quero seguir meu pai que me disse que tudo o que queria era que eu fosse um homem bom. Distribuir bondade nesse mundo selvagem em que estamos. O filme me emocionou. A bondade, sempre.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

HOTEL FLORIDA

Após ler “Hotel Florida”, de Amanda Vidal, Editora Objetiva, confesso ter ficado bem impressionado. É um livro sobre a Guerra Civil na Espanha, que serviu como uma introdução à Segunda Guerra Mundial. Muito bem documentado, o livro foca principalmente em figuras ilustres que estiveram presentes, de alguma maneira, divulgando tudo o que acontecia por lá. Em um momento tenso que todos vivemos, com Putin, Trump, o garoto norte coreano, China, unidade da Europa, desmanche total da esquerda na América do Sul, vale a pena ler. Também não sei porque até hoje esse evento foi pouco utilizado seja pelo cinema ou livros, por tudo o que o envolve. Poucos anos após a Primeira Guerra Mundial, após muitas pressões, o Rei Afonso XIII deixa a Espanha e vai para o exílio e em seu lugar, surge a Segunda República, de ideologia socialista, de alguma maneira ecoando os acontecimentos de 1912, na Russia, com a deposição do czar e a chegada de Lenin, Trotsky e Stalin ao poder. O novo governo espanhol inicia promovendo mudanças sociais que agradam ao povo. Nem todos. A direita não se dá por vencida e começa a reunir-se, principalmente com o general Jose Sanjuijo, para dar um golpe. Agora percebam como estava o mundo. Além do comunismo na Russia, Hitler assume a chancelaria da Alemanha em 1933. Dois anos depois, Benito Mussolini, na Italia, vem com o fascismo e no mesmo ano, Stalin dá início ao grande expurgo que o transformou em novo czar, embora o resto do mundo não se desse conta disso. Pior, Estados Unidos, França e Inglaterra assinaram tratado de não intervenção. Em 36, vem a revolta da direita, com apoio de alemães e italianos, elegendo Franco como seu comandante político. Os socialistas do governo mandam todo o ouro para a Russia, onde ficaria protegido.. Foi a última guerra romântica, se é que se pode dizer isso, diante de uma mortandade terrível, fome, frio e muitas outras dores para os civis. De todos os lados do mundo, correram para defender o socialismo milhares de jovens, formando as Brigadas Internacionais. E aí vêm as grandes figuras presentes. Entre americanos, o escritor John dos Passos, sempre em litígio com Ernest Hemingway e sua namorada Martha Gellhorn (seu romance virou um filme recente), Herbert Matthews, correspondente do NY Times, Maxwell Perkins, editor de Hemingway, Scott FitzGerald e também em filme recente. Entre os ingleses, um certo Eric Blair, cognome de George Orwell. As peripécias são por conta do húngaro Andre Friedmann e sua namorada Gerta Pohorylle, que sem conseguir publicar suas fotos, mudaram seus nomes para Robert Capa e Gerda Tow e ficaram para a história. Um grande amor. Outra história, a dos austríacos Ilsa Kulcson e Leopold, marido e mulher, ela tornando-se figura de proa dos nacionalistas ao lado de seu novo amor, Arturo Barsa, secretario de imprensa, ele, Leopold, virando agente duplo. Querem saber, até Saint Exupery esteve em Madri para ver o que acontecia. Andre Gide foi à Russia, escreveu um livro dizendo umas verdades e poucos quiserem acreditar. Entre bombas e tiros, reuniam-se, à noite, no Hotel Florida para beber, jogar, namorar e conversar. Até um filme americano estava sendo feito, com intervenções de Hemingway. Lilian Hellman devia ter sido roteirista. Pablo Neruda, consul chileno, teve a casa destruída. Erroll Flynn apareceu pedindo uma bebida. Lorca foi fuzilado. Guernica foi bombarbeada por ordem do alemão Göering e Picasso mostrou sua obra no Pavilhão Espanhol na Exposição Internacional em Paris. Ufa! Amor, sedução, ódio, mortes, romance, está tudo em Hotel Florida.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

OS ESPECIALISTAS

Costumo ler os artigos escritos pelo jornalista Helio Schwartsman na “Folha de São Paulo”. Um desses dias, escreveu sobre um livro chamado “The Death of Expertise”, de Tom Nichols, que trata de um assunto que muito me interessou. Lembrei de um amigo jovem, que após passar um desses feriados prolongados ouvindo a discografia do King Crimson, começou a discorrer sobre a banda. O KG é um conjunto de rock progressivo que brilhou na década de 1970, sendo considerado por alguns, como eu, a melhor banda de todos os tempos. Não se trata de ciúme, como se meu jovem amigo quisesse me tirar a expertise, porque foi ao iTunes, baixou a discografia e agora já sabe tudo. É que, por mais conhecimento que possa passar a internet, há outras coisas que penso importantes, na construção do conhecimento. 
O livro de Tom Nichols é exatamente sobre isso. Meu cachorro está doente. Vou ao Google, pesquiso e quando chego no médico, passo a discutir com ele os sintomas e melhor tratamento. A internet seria a morte da especialização? 
 Há pouco tempo esteve em Belém ministrando uma oficina um diretor de teatro russo. Em uma entrevista, disse que em pouco tempo, as universidades fecharão as portas. Tudo estará no Google, na internet. Quem quiser saber, que estude. Frases como essa me fazem pensar. De início, parece ter muita razão, mas, após refletir, penso que esse conhecimento não é algo que possa ser, digamos, injetado em alguém em cursos de final de semana, ou em ampolas, sei lá. O conhecimento não vem apenas dessa informação, publicada e passada por outros. 
O ser humano está sempre em progresso, principalmente quando jovem. Volto ao meu pobre exemplo, sobre a banda King Crimson. Era adolescente. Tempo do vinil. Há o tempo de ouvir, descobrir, ouvir novamente várias vezes. A vida que segue correndo. Os acontecimentos. O mundo à volta. A música maturando. E no ano seguinte, vem outro disco. Notamos o desenvolvimento, novos integrantes, outros sons. E assim por diante. E a Medicina, por exemplo? Como ser expert sem experiência dentro de consultório ou sala de operação? O conhecimento teórico está lá e certamente, em vídeos, quem sabe, projeções holográficas, o acompanhamento de operações. Mas será a mesma coisa que estar ali, verdadeiramente, tocando no paciente e, depois, maturando sobre o que aconteceu, recapitulando mentalmente, desenvolvendo sua expertise aos poucos? 
Vi recentemente o filme sobre Elis Regina. Tinha a voz, mas nada mais sabia sobre o palco. O fantástico Lennie Dale a ajudou, mas diria que, anos depois, já casada com César Camargo Mariano, é que surgiu a verdadeira maior cantora do Brasil. A que sabia o que dizia a letra e a interpretava, mistura de técnica e emoção, domínio absoluto do palco. Aos poucos. A vida passando paralela com todos os seus acontecimentos. 
Então você aprende na internet a cantar como Elis? A operar como um experiente neurocirurgião e tantas outras profissões? Sim, é um perigo que atravessamos no momento, esse momento que hoje muda a cada instante, proporcionando novidades, novas perguntas que precisamos saber responder. E como evitar que alguém, realmente curioso, vá à internet informar-se sobre tudo? Meu outro amigo tem oito anos de idade e pergunta tudo ao Google. O que é estupro? A máquina responde. O futuro chegou e já passou. Precisamos responder a essas questões. Informação nunca é demais, é verdade, mas o tempo de maturação da informação ainda é importante?

sexta-feira, 14 de abril de 2017

A TRAVESTRISTE

Quando o mundo discute a questão da aceitação normal na sociedade dos trans e demais siglas, penso que conheço o travesti mais triste, ou talvez nem seja isso e eu apenas tenha criado um personagem a partir do pequeno contato que tive, e também por vê-la nos arredores de meu prédio, a partir de sábado e às vezes ainda no domingo. Pensei nela e resolvi escrever alguma coisa ao passar de carro, domingo, meio da manhã, pela Riachuelo e encontrar Blake e ela, discutindo. O Blake vocês conhecem, um moreno baixinho, meia idade, grisalho, que certamente por conta de poliomielite na infância, tem duas pernas prejudicadas. Por seu andar, o apelido deveria ser “Break”, por conta daquela dança nos anos 90, talvez. Mas como a pronúncia fica difícil, acabou sendo Blake. Como mantêm-se vivos esses personagens, confesso que não sei. Consumindo o que consomem, não comendo o que deveriam comer, dormindo ao relento, sujeitos a todas as intempéries, por muito menos eu já estaria em uma UTI. Mas estava falando do, vamos chamar de “Travestriste”. Infelizmente não sei o nome dela. Uma vez, estava andando, sábado, pela manhã, na Praça da República, com meu golden Antonio e ela estava lá, lânguida, estirada em um dos bancos. Mexeu comigo por dever de ofício. O rosto melado da noite, olhos vermelhos, cansados, um bafo de bebida terrível, foi pelo costume. Ao agradecer e recusar, ela, como todos os moradores da rua, pediu um cigarro. Aproveitei para perguntar se trabalhava durante a semana, em um ofício, digamos, menos radical. Sou cozinheiro em um restaurante próximo daqui. Só me monto no final de semana. Penso que inicia sua história, seu filme, seu enredo, na sexta à noite. Depila-se, faz maquiagem, unhas e sai, orgulhosa, certa de sua sedução. É agora uma mulher magérrima e creio que esconde pernas finas em calças com boca de sino. Sapatos de salto altíssimos. Uma camisa de manga comprida, colares, brincos gigantescos e um enorme rabo de cavalo no aplique. Sai por aí, rondando bares e inferninhos como um que dá a frente para o Boulevard e o fundo para a Manoel Barata. Para meu próximo livro, vou visitar esse antro, claro. Aquele centro da cidade é sua Broadway, o lugar onde desfila. Quando a vejo é sempre no sábado, virada, como se diz de alguém que não dormiu. No sol quente das nove da manhã, ela às vezes está jogada na calçada, guardando um mínimo de charme. Em outras, lutando contra o cansaço, a bebida, a ressaca, faz gestos em direção aos homens e motoristas que passam. Palavras doces, convites ao sexo, propostas. Gestos estudados no espelho, super femininos, lânguidos, repito a palavra. Quando a vi, no tal domingo, Blake a empurrou e ela deixou-se chocar com a parede de uma casa, mas lá caiu em uma pose de foto, lembrei da expressão “Strike a pose”. Ri. E no entanto seu olhar encerra uma tristeza imensa. Tristeza de não viver plenamente sua feminilidade? Tristeza do mundo que vive, ante seus sonhos de grandeza? Por saber que no dia seguinte estará de volta a uma cozinha cheia de fumaça e cheiro de alho? O que pensa quando sai, toda semana, montada, rebolando, pelas ruas escuras e perigosas do centro?

Essa falta de tempo me impede de chegar próximo, mais uma vez, resistir à cantada de hábito e perguntar por sua vida, suas crenças, seus amores. O que somos nessa vida sem os nossos sonhos, nossos objetivos? O que nos faz, todos os dias, levantar, tomar uma chuveirada e sair para o mundo? Penso que se dermos tudo o que ela gostaria de ter, roupas, sonhos realizados, um amor, um mundo, ela nem saberia o que fazer. É preciso cuidado com o que sonhamos. Ela estará lá, a travestriste, neste final de semana, novamente.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

QWERTY

Eu ia emburrado para o curso de datilografia. Minha mãe me matriculara, prevendo (talvez) meu futuro como jornalista. Foi uma das melhores ações em relação a mim. Também aprendi inglês a partir dos oito anos. As pretinhas, como chamava as teclas o grande Millor Fernandes, fazem parte da minha vida. Tenho até uma mania. Ao ouvir determinadas palavras que me interessam, as escrevo com os dedos tocando a palma das mãos. Tique nervoso, sei lá. Meu pai tinha uma portátil, Royal, belíssima. Minha primeira máquina, penso que era uma de trabalho, negra, difícil de domar. Depois, quando comecei a trabalhar em rádio, era mais moderna, estrutura em plástico, onde desenvolvi a habilidade usando todos os dedos. Lembro, redigindo o jornal Zeppelin, da velocidade que alcançava. Houve a breve experiência com uma Facit, elétrica, mas que constantemente dava problemas em imprimir o texto. Já era o tempo da fita de correção. Mas ainda não era o fim do revisor de texto. Antes, riscávamos o erro, acrescentávamos às laudas, comentários paralelos, enfim, um borrão. Então vieram as máquinas elétricas com esfera redonda. Eram uma delícia de escrever. Lembro do meu irmão Edgar e de meu pai Edyr escrevendo. O primeiro fez curso de datilografia, mas meu pai, velocíssimo, usava apenas dois dedos de cada mão, um pouquinho do que hoje é feito pela maioria, nos computadores. Então os PCs invadiram nossas vidas. Millor reclamava do silêncio que agora havia nas redações, antes tão barulhentas, com as máquinas manuais. O Jornal do Brasil lançou um manual. Millor escreveu mais. Da vergonha de uma máquina nos corrigir a cada vez que cometêssemos um erro. Naquele silêncio, ao ouvir o som, todos na redação olhavam e ele ficava humilhado. Maldita máquina. Então me entregaram um computador e o programa Carta Certa, ancestral do Word. Preguei acima da máquina, a sequencia de botões necessárias para liga-lo. Havia também AltControlDel. Era tudo muito difícil, diferente, o que hoje qualquer criança faz. A leveza do toque, em comparação à violência das manuais. Outro mundo. Vieram os notebooks, os padrões diferentes e hoje não conseguimos viver sem um teclado, seja no relógio, celular, iPad e outros. Ao contrário de mim, os jovens usam os dois polegares para teclar no celular, mais rapidamente. Sou da geração do dedo indicador. E não é que acabo de ter uma grande surpresa? Algo que nunca pensei que existisse. Estive na França e pensei em comprar um novo notebook, com mais possibilidades. Em Toulouse, tarde de folga, circulei pelo centro da cidade, tão bela. Dou de cara com uma revendedora da máquina pretendida. Havia um ainda mais moderno. O rapaz cheio de orgulho, me explicando. Comprei. Feliz, ansioso, retornei ao hotel para usar a novidade. Os primeiros toques, ensinando a máquina a seu jeito, são com teclas indicadoras. Finalmente, tentei escrever. Havia algo errado. As teclas fora de lugar. Como assim? Com defeito? No preço que paguei? Voltei correndo. Todos ficaram loucos. Haviam errado. Não me disseram. Na França, ao contrário de quase todo o mundo ocidental, a posição das teclas é AZERTY e não QWERTY, como sempre trabalhei. Pena, para conseguir um como queria, somente fazendo encomenda. Não havia tempo. Devolvi o notebook. Pensamos às vezes saber de tudo, mas não. Há sempre o que aprender no mundo. QWERTY e não AZERTY.

sexta-feira, 31 de março de 2017

BELÉM, A CIDADE QUE APODRECEU

Hoje volto a um tema sobre o qual já escrevi. Mas é que há algumas semanas, voltando de viagem, saudoso dos meus, das minhas coisas e da cidade, levei logo uma bofetada ao trafegar em direção à minha casa. Talvez nunca Belém tenha estado tão mal. Após duas administrações seguidas, uma delas (será que chegará ao final?) mal iniciada. Após um Átila, rei dos hunos, passar pela Prefeitura, temos outra figura que se destaca pela inação. Onde foi parar o dinheiro de Belém? Faliu? Logo após a reeleição, discutida na Justiça que, ao que parece, está docemente convencida a perdoar os erros, esperou-se pelas promessas. Nada veio. As ruas estão esburacadas, sem sinalização, sem fiscalização, com fiscais preocupados apenas em multar. Não há lei com um número de mortes, no centro e na periferia, superior ao de guerras no Oriente Médio. Diariamente. Há poucos dias, onze da noite, ouço cinco tiros na Riachuelo. Tá lá um corpo estendido no chão. Convenientemente alguns minutos depois, uns dez carros de Polícia chegaram para conferir. É a Polícia que está matando, sem uniforme e com a aquiescência dos superiores? São os traficantes? O povo no meio disso. E balas zumbem em nossos ouvidos. A falta de lei reflete nos mínimos deveres civilizatórios. É a lei da selva. Faz-se o que quer. Penso que, de maneira pensada, se alguém decidir sair nu e cometer toda a série de crimes, nada lhe acontecerá, sequer aparecerá alguém reclamando. Lojas fecham. Camelôs se instalam onde bem entendem. São avisados da alguma blitz. Está tudo dominado. O governador sumiu. Se não há mais nada a fazer, qual a razão da reeleição? Pergunto o mesmo ao prefeito. Em alguns bairros, a lei do silêncio e o toque de recolher é decretado por outros poderes. E o que fazemos aqui? Tive várias chances quando jovem, de ir embora. Boas tentações. Não fui. Devia ter ido? Sei lá. Mas hoje, novamente, vem a vontade de “capar o gato”. Ir para outro país, como Portugal. Estávamos em uma cidade estrangeira. Minha mulher sai e tem a bolsa firmemente segura, braços cruzados até que, de repente, cai na risada e deixa a bolsa em seu lugar normal. Não estamos em Belém. Claro, nenhum lugar é um paraíso, mas aqui estamos longe, muito longe de ter qualquer segurança. Pior para os jovens. O que há para eles? Nada. Os que escapam para São Paulo, por exemplo, amargam longa procura por emprego. Um deles declarou : nos disseram que bastava estudar muito para depois ter um emprego muito bom. Não é verdade. Têm pós graduação e outros e conseguem emprego com nível de primeiro grau. Mas ficar aqui? Vivendo no quarto, ligado na internet, tv a cabo, a garota que dorme com ele e dependendo dos pais? E a galera da periferia? Muito pior. Universidades soltam a cada semestre um sem número de próximos desempregados. Não há mercado de trabalho. Talvez como camelô, tão adorados pelos prefeitos. Não produzimos nada. Nossa elite passa finais de semana em Miami, pelo mundo, e não traz nada para usar aqui. Vive em mansões de 50 andares, palácios, mas quando sai à rua, pisa na lama. Esse BRT é um erro brutal, grandioso, que nunca ficará pronto. Dane-se a cidade. Vêm aí novas eleições. Nova chance para, mais uma vez, errarmos. E dizemos que amamos Belém? Ouvimos Fafá cantar a música do pai e da tia Adalcinda e choramos. Devíamos era chorar de raiva. Ir para as ruas. Quebrar tudo. Botar pra fora esses incompetentes. Esses caras têm sorte de sermos um povo frouxo. Que pena, Belém. O último a sair, apague a luz, se já não estiver cortada.

sexta-feira, 17 de março de 2017

A FEIRA DO SOM

Tive a sorte de dar o nome ao “Feira do Som”, programa que está completando 45 anos em atividade. Além disso, são 50 anos de profissão de Edgar Augusto, meu irmão mais velho. Quando um programa de rádio atinge essa longevidade, e na comemoração ganha páginas e colunas em jornal, além de programa em televisão, é porque realmente é importante. 
Foi ali nos anos 1970. Havia várias sugestões. A minha foi acatada. Era uma época fantástica. A Cultura reagia maravilhosamente à ditadura e censura. Cinema, Artes Plásticas, Literatura, Teatro e Música viviam momentos incríveis. Os Beatles pararam. Hendrix e Janis morreram. Mas havia o rock progressivo e muita gente boa surgindo. Aqui tínhamos os baianos, Chico, Milton, pernambucanos como Alceu, mais Elba, Geraldo, Ramalho, cearenses como Fagner. Muita coisa boa. Talvez tenha uma inspiração no programa do Flávio Cavalcanti, que falava de música, embora de maneira tragicamente retrógada. Bem, havia Nelson Motta. 
Edgar já era apresentador do “Cantinho dos Beatles”, com fã-clube e tudo. E também, um dos melhores narradores de futebol que ouvi, perdoem se sou totalmente suspeito. Havia também o “Sábado Gente Jovem”. E a “Feira do Som” inovando, ousando com as novidades, fazendo a cabeça de tanta gente, principalmente pela informação. 
Veio a FM e o programa foi para a Rádio Cidade Morena. O estúdio era pequeno, como são hoje os estúdios onde o locutor também opera a mesa, põe músicas e comerciais. Tive a dádiva de dividir com ele o microfone. Ficava manobrando a mesa de som, enquanto ele, sentado no chão do estúdio, espalhava as notícias. Muita gente boa foi entrevistada ali e sentou no chão. Era tudo muito à vontade. Lembro de Nara Leão, que veio lançar o disco em que canta “Nasci para Bailar”, de Donato e Paulo André. Ela voltou com Roberto Menescal, cantando bossa nova. Lembro de Geraldinho Azevedo, Flávio Venturini, tanta gente... 
Mas a rádio era comercial e o programa acabou por ocupar sua melhor posição na Rádio Cultura, da qual, permitam-me, Edgar já fazia parte desde a Cultura Ondas Tropicais, em uma equipe por mim montada. Com uma voz especial e vocabulário de “dia de semana”, ele usa várias técnicas para prender os ouvintes. As novidades a cada dia. A menção aos músicos presentes em cada música executada. O noticiário local, muito importante para os artistas da terra, criando inclusive apelidos que duram até hoje, como “Operário da Noite”, para Pedrinho Cavallero. Os bordões, repetidos diariamente, estão no pensamento dos ouvintes. Outra técnica de fidelização. 
Se os artistas locais conseguem, nessas trevas em que vivemos há mais 20 anos, ainda existir, apresentar-se, alguns com carreira, gravando CDs e shows em outras cidades, a “Feira” tem parte nisso. Trata os estreantes e os veteranos da mesma maneira, sempre com uma palavra de alento e incentivo. Recebe-os no programa, que ainda tem seções fixas, em que premia os ouvintes e, claro, o “Cantinho dos Beatles”, para os empedernidos. 
Todo esse tempo no ar e com um público de A a Z, em várias faixas etárias, faz esse programa um patrimônio cultural de uma cidade tão sofrida nessa área. Quanto a mim, mesmo à frente de uma emissora comercial, não deixo de ouvi-lo. Edgar é um ídolo. Irmãos, somos amigos. Forneço discos, notícias. O som do programa é o meu preferido, entre outros. Mais do que nunca, continuemos a ouvir, de segunda a sexta, “aqui fala o Edgar Augusto!”. Parabéns!

sexta-feira, 10 de março de 2017

PSSICA NA FRANÇA

A Literatura, mais uma vez, me levou a lugares bem distantes e melhor ainda, ao encontro de pessoas interessadas naquilo que escrevo. Em todos os lugares onde passei, havia mais que curiosidade. Antes do encontro, todos fizeram seu “trabalho de casa”, lendo, pesquisando. Meu livro mais recente, “Pssica”, foi lançado na França. É o quarto romance editado por lá, pela querida Asphalte Editions, comandada pelas adoráveis Estelle e Claire, que além de profissionais competentes, são apaixonadas por seu ofício, criando verdadeiros objetos de arte. E traduzido pelo genial Diniz Galhos. A convite do amigo Pierre-Michel Pranville, grande tradutor, amante do que eles chamam de “Polar” e professor, e da professora Brigitte Thiérion, especializada em Estudos Lusófonos, da Université Sorbonne Nouvelle, Paris 3, fui recebido por um grande grupo de estudantes de nível adiantado para falar sobre minha Literatura e demais aspectos. É realmente algo a deixar qualquer um emocionado e orgulhoso. Depois, fui à Livraria Le Comptois de Mots para apresentar “Pssica” aos leitores e perceber seu interesse pelos escritores brasileiros. Adiante, estive também em Toulouse, ampliando mais ainda o conhecimento que passo a ter por esse fabuloso país onde ler é decididamente importante, exercício que começa nos primeiros anos de vida das crianças, seja através de seus pais, seja da escola. Lá, fui recebido pelos amigos Jean Paul e sua esposa Dominick, que me levaram à Livraria Renaissance para conversar com grande público. Discutimos Literatura e a vida no Brasil. Interessante encontrar lá duas paraenses, uma senhora da família Travassos e outra, a jovem Marilene, que estuda Antropologia. Como tradutora, a professora Emanuelle, que trabalha na Universidade de lá na área de Teatro, com impressão em livro de peças teatrais, traduzidas e discutidas com os alunos. Já iniciamos démarches para também trabalhar na área de Artes Cênicas, inclusive com festival em agosto. Em outubro, Jean Paul dirige um grande Festival especializado em Literatura Policial. Querem levar até lá meu amigo Leonardo Padura. Tomara que consigam. Toulouse é uma bela cidade de 350 mil habitantes, junto aos Pireneus, próxima à fronteira com a Espanha. É lá, também, que os franceses fabricam os gigantescos Airbus que voam pelo mundo, além de satélites. O clima é sempre ensolarado e a temperatura, agradabilíssima. Passear pelo centro da cidade é circular por um casario antigo belo, ruas perfeitas, limpas e jovens, muitos jovens a festejar a vida. Em Paris, desta vez, havia muita chuva, vento, e uma sensação térmica de 3 graus. Os aviões da Latam são novos e muito bons. As viagens são sempre completamente lotadas, o que me faz perguntar a razão para tanto choro das empresas. O que, definitivamente é muito ruim, pela falta de concorrência e fazer passageiros cansados da longa travessia, chegando aqui lá pelas seis da manhã, enfrentar, após a alfandega, longas e desgastantes filas, que duram mais que uma hora de espera, para fazer as conexões para as outras cidades. Pior é chegar à querida cidade e enfrentar novamente o horror que vivemos. Imundície, buracos, pichações, agressão aos mais pobres e tudo o que causa infelicidade. Por quê se reelegeu? O que já é trágico ainda ficará pior?

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

PARA BERNARDO PROENÇA

Quando era criança, andava muito com meu avô Edgar. Os amigos nos paravam, nas ruas e ele me apresentava a todos. Um deles me apelidou de “Miniatura de Edgar Proença”. Eu era baixinho, magrinho, cabeçudo, orelhudo”. Não sei se era um elogio a mim ou a ele. Vovô começava a deixar de ser aquele homem de todos os instrumentos. O empreendedor, trabalhador, líder de turma. “Seu Colega”, ele dizia, “a velhice é uma merda”. Posso imagina-lo, após tantas conquistas, desafios e situações, lidando com a passagem inexorável do tempo. E sim, é claro que ele tinha razão, embora minha geração venha quebrando paradigmas, alongando essa questão da “melhor idade”, postergando ao máximo o que eles chamam de “nova adolescência”. Os filhos cresceram, saíram de casa, há mais segurança na vida e agora podemos viajar, passear, ir a cinema, teatro, jogos de futebol, enfim, curtir mais a vida. Sim, eu sei, não está nada fácil, com a crise que enfrentamos. Mas pensem em seus avós e digam se hoje não vivemos mais intensamente, ainda participando do giro do mundo. Naquele pouco tempo em que fui a “miniatura de Edgar Proença”, percebi, apreendi um mundo de conhecimento, gestos, ironias, inteligência e vida, principalmente, vida. Isso me moldou. Não sei se ele se dava conta disso. Passava muito tempo lendo livros e os pacotes de Lux Jornal, que era uma assinatura que lhe enviava recortes de jornais de todo o país com os assuntos que ele previamente escolhera. O gosto pela leitura. Notícias. Jornais. Tenho sonhado com jornais. Muitos. Hoje, fora os daqui, leio diversos pela internet, diariamente. Mas há alguns anos atrás, o amigo Edwaldo Martins me cedia, às segundas, os jornais da semana anterior. Jornal do Brasil, O Globo, Estadão, Folha de São Paulo, Jornal dos Sports, e vários outros. Depois, passei a compra-los. Meu sonho é que por algum motivo, vou à Banca do Alvino, depois passo na Banca do Plínio, atrás de jornais. Há um monte sob meus braços e não estou satisfeito. Em casa, mergulhava naquele mundo maravilhoso. Isso veio de meu avô. Lembrei disso nesses dias em que ele faria mais um aniversário. Edgar Proença, nome de estádio, pioneiro em tantas coisas, trabalhador incessante. Como ele, também faço rádio, jornal, escrevo livros e peças de teatro. Meu amado e idolatrado avô. E assim como lembro do “Maguenhéfico”, quero registrar a passagem de mais um aniversário do meu neto, Bernardo Proença. Ele nem se dá conta disso, mas ilumina toda minha vida, me enche de orgulho, meramente por existir. Por conta de seus quatro anos, deixando de ser dependente de alguns cuidados, ainda não nos tornamos “unha e carne”. Os netos são nossa continuação. Eu o observo manuseando gadgets eletrônicos com especial confiança. Liga para mim através de Facetime. Basta ouvi-lo dizer “vovô Edyr” e me derreto todo. É como se uma paleta completa de cores fortes invadisse meu céu. Suas palavras são ordens, mesmo que tolices infantis. E saímos de mãos dadas pelas ruas, como atletas que acabam de ser campeões em algum torneio importante, “como um Deus e um poeta”, como diz Fernando Pessoa. Confiantes, orgulhosos. Chega e ocupa meu computador. Tecla com facilidade, sabe os caminhos. Sua paixão atual são carros de corrida, suas miniaturas adquiridas semanalmente para mantê-lo feliz. Não, por falar em miniaturas, ele tem a sorte de parecer com o pai, Felipe e não comigo. Mas sua capacidade de apreensão de tudo o que o cerca já demonstra ter a genética da família. Meu neto querido, pelo presente, pelo futuro, por infinita felicidade, parabéns pra você!

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

VOU BEIJAR-TE AGORA , NÃO ME LEVE A MAL

Talvez eu tenha utilizado, alguma vez, quando criança, em Bailes Infantis de Carnaval, uma lança perfume. Mas certamente para jogar o líquido gelado nas costas dos coleguinhas. Minha melhor lembrança já vem do tempo de adolescente. Ao contrário dos rapazes de hoje que aos 13 anos já sabem de tudo, nós éramos ingênuos, entrando em contato com a vida aqui fora. Tempo dos bailes de carnaval. Pará Clube, Iate, Assembléia Paraense, AABB, Clube do Remo e algum outro que esqueço, promoviam suas festas, lotadas. Para entrar na AP era necessário smoking. Mas quem teria um smoking, na nossa idade? Algum de nós entrava e jogava pela janela, da sede da Presidente Vargas, as jaquetas, gravatas e faixas. E era assim, mesmo, afinal, após entrar, todos ficavam apenas de camisa, suados de tanto pular carnaval. Talvez os mais velhos utilizassem cheirinho da loló e outros, mas eu não via. Meus olhos estavam no salao de danças, onde um cinturão em volta se fazia, com rapazes de olhos compridos, esperando a vez de poder dançar com alguma garota. E já não era apenas Baile dos Brotinhos e sim um Baile das Máscaras, por exemplo. A orquestra podia ser de Orlando Pereira. Lembro dele, sorridente, à frente da banda, marcando o compasso com os braços. Os pares passavam dançando como em um carrossel. E aquela garota com a qual você sonhava a semana toda, passava, às vezes dançando com uma amiga, em outra com aquele bonitão, mais velho, experiente, cantando e sussurrando em seus ouvidos. Um sofrimento. Mais do que isso, minha timidez evitava que em ato de extrema coragem, saísse daquele cordão, atravessasse o salao e, impávido,  fosse até a mesa em que ela estava sentada com mãe, pai e irmãos, pedindo para dançar. Significava passar por um exame completo, como um scanner feroz. Pior, o altíssimo risco dela dizer que estava cansada. O retorno, arrasado, humilhado por não conseguir tirar nem uma menina para dançar era terrível. Para dar coragem, íamos em grupo e comprávamos meia garrafa de rum e algumas cocas. Aos poucos íamos inflando o ego e achando que éramos invencíveis. Às favas as possibilidades. Atravessarei este salao e direi a ela: vamos dançar? Estenderei a mão que ela pegará e ficaremos juntos a noite inteira. Um dos bons momentos de abordagem é quando começavam a tocar marchas rancho. O ritmo diminuía, alguns iam tomar alguns drinques e se nào fosse ali, era melhor ir embora para casa, derrotado. Então, cheio de coragem você olha e nem percebe que ela o aguardou a noite inteira por aquele convite. Que passava dançando com a irmã somente para provocar. A voz falha na hora do “vamos dançar”, mas logo nos encaminhamos ao salao. Bandeira Branca, amor, nào posso mais. Na mesma máscara negra que esconde teu rosto, eu quero matar a saudade. E então vêm as marchinhas mais animadas e ela não pede para parar. Agora nos olhamos e rimos, andando no círculo e cantando. O tempo que durou, não faço idéia. Veio mais uma sequencia de marcha rancho e ela continuou. Deveria convida-la a ir até o terraço, sei lá, outro canto, para conversar e, vocês sabem como é.. Mas não. E então tocou “Viva o Zé Pereira, viva o carnaval”. A mãe fez sinal. Ela virou para me dizer adeus. Estávamos com os rostos tão próximos que o beijo foi natural e também um susto para ambos. Olhamo-nos perguntando um ao outro. Consegui balbuciar: na porta do Colégio Moderno?

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

ODEIO VOCÊ, CULTURA

Assisti ao espetáculo “5 Vezes Comédia”, semana passada, no Teatro da Paz. Foram três sessões gloriosas, lotadas. Em um cálculo apressado, seriam três mil pessoas a R$100. Uma boa soma, mesmo descontando as despesas. No palco, comediantes conhecidos em programas da Tv Globo. E curioso perceber um padrão ditado pela emissora, no humor feito pelos atores. Esse padrão domina hoje o cinema nacional em comédias leves que conseguem milhões de espectadores. São cinco monólogos rápidos. Engraçado como, ao final, em poucos minutos, esquecemos o que assistimos, assim como acontece nos programas de tv. Divertem no momento. Nada para pensar ou refletir. Pior, a propaganda do departamento de Seguros do Banco do Brasil. Um casal senta na plateia. Ele vira para a mulher e diz que após uma semana de stress, um trânsito pesado até chegar ali, espera que a peça não seja daquelas “sérias”, e faz uma voz gutural. Emenda dizendo que deveria haver um “seguro-teatro”, para prevenir “peças ruins”. E creio que todos, ali, concordaram. A classe média paraense lota o Teatro da Paz a cada vinda de artistas globais e suas comédias baratas. Não é somente um fenômeno paraense. A Cultura saiu do cotidiano das pessoas. Fernanda Torres, entrevistada por Bial no GNT disse que antigamente, íamos ao cinema assistir Fellini, Buñuel, Kubrick, sei lá quem mais e saíamos tão impressionados que ficávamos na porta do cinema querendo falar sobre e depois conversávamos noite adentro em algum restaurante ou bar. Havia um impacto. E no Teatro? E na Música? A própria Globo recorre, agora, a músicas dos anos 80 e até Caetano Veloso das antigas em suas trilhas de novela. O que é produzido hoje é lixo. Saudosista? Será? Hoje, aqui em Belém, nosso teatro é feito em casas, como os primeiros cristãos em Roma, orando nas catacumbas. Somos vítimas de uma crueldade produzida por insensatez, boçalidade e ignorância, em mais de vinte anos de governo. Uma geração inteira foi desmantelada. Hoje, se perguntasse a uma daquelas pessoas no TP se assistiria a uma peça com artistas locais, ela talvez risse, debochando. Os governantes acabam de dar outra demonstração do seu ódio pela Cultura, nomeando uma advogada que talvez nunca nem tenha entrado em um teatro. Bom, talvez estivesse na plateia do TP. Ela própria confessou sua ignorância quanto ao tema. Somos vítimas? Somente porque deixamos que nos vitimassem. Somos desunidos. Muitos de nós, para sustentar a família, conseguiram emprego no Estado. Participar de manifestação? Nem pensar. O Estado é vingativo. Onde está a Escola de Teatro da Universidade, que tem como professores alguns dos mais brilhantes expoentes de Belém? E para quê, a cada semestre, apresentam novos profissionais? Para quem? E esse jovens, no fulgor da mocidade, quedam-se na base do não é comigo a cena que se apresenta? Desculpem a expressão, mas seja o Estado, a Prefeitura e nós mesmos, parecemos estar “cagando” para isso. Deixemos que tudo morra. Assistimos esses cretinos fazerem festivais de ópera, para cinco mil pessoas, enquanto milhões no Pará nada tem. Que um empresário de brega comande a Fumbel. Os algozes enfiam a faca sorrindo e sorrimos de volta para eles? Não me calei. Me prejudicou mas não evitou que seguisse com minhas obras. E vocês? Onde estão os jovens com sua força, lutando por uma brecha para mostrar seu valor? Vão ficar calados por quanto tempo?

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

NA GALERA

A primeira vez em que fui a um campo de futebol assistir a um jogo, fiz vergonha. Ao terminar o primeiro tempo, fui chamar meu irmão para que ele contemplasse o tamanho das orelhas de uma pessoa, na arquibancada. Depois, passei grande parte da infância e adolescência assistindo a jogos, sentado ao lado de meu pai, que primeiro era o locutor e depois comentarista. Estava no Leônidas Castro quando Amoroso fez aquele gol em que toda a torcida bicolor avisava o goleiro Omar e o zagueiro Abel que ele estava furtivamente vindo tomar-lhes a bola e fazer o gol. Estava no Evandro Almeida, na inauguração dos refletores, com Pelé em campo e vestindo o manto sagrado azulino. Também quando Eusébio esteve aqui com o Benfica. Grandes vitórias, grandes derrotas. O importante para mim foi aprender a “ler” o que se passava em campo. A dinâmica do jogo, as estratégias, formação e jogadas. Tudo isso me valeu para, mais tarde, escrever sobre futebol e comentar partidas para a Mais Tv. Também serviu para me tornar um espectador frio, muito diferente de estar na torcida. Sim, já estive em arquibancadas, poucas vezes, na companhia de amigos do colégio. Junto ao alambrado, xingando o bandeirinha. Uma vez, garoto, estava no Maracanã. Era Flamengo e Vasco. O rubro negro venceu, com gol de Espanhol, cujo nome era José Ufarte. Após o gol, com o estádio em festa, correu na direção da torcida. Naquele momento de emoção, compreendi tudo o que o futebol provoca nas pessoas. Uma mistura de gozo, vitória, consagração e a desgraça do rival. Há uns que pulam e se abraçam. Outros, de joelho, erguem-se cabisbaixos, outro reclama com o bandeirinha, aquele parece culpar o companheiro. Era um jogo interestadual. Equipes de rádio de fora presentes. Não havia lugar para mim, nas cabines. Meu pai me deixou junto aos conselheiros do Remo. Aqueles senhores me receberam com carinho, me ofereceram picolés, refrigerantes. Senti-me seguro. Mas então o juiz apitou, a bola veio na nossa direção, o jogador azulino dividiu e levou a pior. Então, como uma onda vibrante, aqueles senhores bonachões, bonzinhos, feito lobos ferozes se atiraram à grade proferindo os piores palavrões que já havia escutado, xingando juiz, jogador e quem mais aparecesse. Fiquei encolhido no canto. Todas essas palavras vos escrevo porque meu cunhado esteve no “Edgar Proença” assistindo ao jogo Remo x Cametá, levando seu filho. Mineiro, sem nada entender do jogo, fez a vontade de Gabriel, remista doente, mesmo morando em Brasília. Emocionado, conta do clima a partir da ida ao estádio, com ônibus carregados e cantando hino. Como engenheiro, prestou atenção aos detalhes da obra. Encantou-se com a emoção presente. Jovens, mulheres com crianças de colo, senhores com filhos e netos. Os hinos cantados antes do jogo. Os xingamentos aos juízes, ao atacante que perdeu a chance, ao rival que quase marcava. E na volta, a mesma festa. Li que ao contrário disso tudo, houve também violência, roubos, o de sempre em terra sem Segurança. Do jogo e suas estratégias, pouco pode dizer. O Remo venceu de goleada, mas foi a emoção, aquelas vozes cantando em côro improvável que lhe marcou. Esse é o segredo do amor ao futebol. Não é possível que continuemos em nossa terra a ser tão amadores, incompetentes, ladinos, com algo que provoca a enchente de gente para assistir equipes fracas, sem jogadores de nível, sem um regulamento, gramados em condição e pior, transmitindo a partida para a cidade. É incrível. É insuportável. Mas o torcedor vai e se emociona. É isso.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

ARISTIDES, O SANTO

Lembro de meu pai, um dos maiores contadores de anedotas que vi em ação. É preciso saber dosar as palavras, a pontuação, a melodia sendo o detalhe mais importante. Ser ator, sim, saber mostrar um personagem com mudança no tom da voz, talvez um ou outro movimento do corpo e no ritmo certo, chegar ao final retumbante. Meu pai tinha a mania de dar pequenos tapas ao final, nos ombros daqueles que ouviam a piada. Era um arremate, um chamamento, uma provocação ao riso, que era o aplauso. Eu o assisti, seja em anedotas “familiares”, seja nas mais sujas e impublicáveis, estas, contadas em círculos masculinos, a maioria das vezes nas rodas que se formavam após trabalhar transmitindo alguma partida de futebol. Uma dessas piadas, antiga, tentarei contar. Claro, a voz, os gestos, tudo isso fica faltando. É necessário também não fazer análise crítica sobre os acontecimentos. Procurar nexos, precisões, enfim. Será que vão gostar?

Aristides era um boêmio. Conhecido em todas as boates que percorria durante a semana. Em casa, no entanto, portava-se como um santo. À mulher, compreensiva, queixava-se que tinha o azar de ter agradado ao chefe. Que este o sobrecarregava de obrigações. Tinha serão quase todos os dias. Isso está me acabando, querida, choramingava. Mas certo dia, sabendo que o aniversário da esposa estava chegando, antecipou-se e a convidou para comemorar pegando um cineminha, ou jantar bem cedinho, enfim, querida, é o jeito, porque já fui convocado por este maldito chefe! Tide, eu não quero nada disso. Poxa, há quanto tempo a gente não sai e vai a uma boate, dançar agarradinho, tomar algumas e depois voltar para casa e fazer um amorzinho gostoso? Aristides tentou evitar. Querida, essas boates, hoje, são um antro de marginais, vagabundos e prostitutas perigosas. Eu tenho até medo de me aproximar delas. A gente nunca sabe. Não preferes um jantarzinho gostoso, com aquele prato que tu adoras, ou então um filminho desses românticos? Não, Tide. Dessa vez eu quero ir a uma boate! Mas querida, pode ser perigoso. Você é uma mulher educada, de nível, pode ficar chocada com o que pode ver? E como tu sabes disso, Tide? Trabalhas que nem um cavalo e não te divertes também, não é? Pois eu já decidi. Vamos a uma boate. Se não for assim, também não quero mais nada. Aristides, desesperado, teve de concordar. Pensou em uma casa noturna na qual já não ia há muito tempo. Quem sabe, não seria reconhecido. Os problemas começaram na chegada. O porteiro abriu a porta do taxi, solícito. Aristides, meu querido, há quanto tempo! Pensei que tivesse esquecido da gente! A mulher perguntou o que era aquilo. Respondeu que era alguma confusão. Na porta, o maitre abriu o sorrisão. Aristides, mon ami! Vou te levar pra tua mesa de sempre, reservada! Foram para a mesa. Trago aquele drink famoso que leva teu nome? Apreensivo, Aristides disse que queria apenas uma cerveja. Passou a moça que vende bombons e cigarros. Tidinho, querido, vai me dar aquela gorjeta de sempre, hoje? Fez que não ouviu. A mulher, no entanto, já começava a tufar de raiva. Quando a cantora disse que ia cantar aquele bolero que a gente gosta de ouvir e namorar, ela explodiu. Sacripanta, mentiroso, patife! Todo esse tempo me enrolando com essa história de serão! Tu vinhas era para a farra! E começou a dar bolsadas no Aristides que, cabisbaixo, levantou e se encaminhou em fuga para a porta. Luzes acenderam. E a mulher gritando e batendo. Entraram no primeiro taxi que viram. Rodaram uns dois quarteirões. A mulher batendo e xingando. O motorista freia o carro: Porra Aristides, bota pra fora essa puta maluca e vamos procurar uma melhor! Mais não conto por ser muito traumático...

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

ALGUÉM QUE MUITO TE AMA


A mulher do Leo é fogo. O cara demora a chegar em casa e ela já pega o carro e circula até encontrar. Aí ele ouve todos os desaforos e volta com ela, caladinho. Mas o Leo é boa gente, tranqüilo. Apenas gosta de passar um tempo com os amigos, jogando dominó, porrinha, bebendo umas cervejas, batendo papo. Essas mesas são absolutamente mansas. Os caras ficam ali, até mexem com algumas meninas que passam, mas não dá em nada. É apenas chinfra, nada de mais. Passam em revista os acontecimentos do dia, contam umas mentirinhas e é só. Mas a mulher do Leo queria o controle. Vamos combinar, talvez ele gostasse disso. Ia se atrasando, se atrasando, a galera incentivava, ela ligava algumas vezes para o celular, ele desconversava e após algum tempo, não atendia mais. Ficava ali, tocando e ele fazendo pose de “não to nem aí”, para gáudio da galera. De vez em quando, para despistar, procuravam um bar diferente, para dar trabalho à mulher do Leo. Mas a danada achava e quando chegava, já viu. “Minha mulher é uma santa. Ela apenas não gosta que eu fique na rua. Tem ciúmes. Imagina”. Pois é. Mas daquela vez, a situação escapou um pouco do controle. Era uma tarde de sábado. Estavam na mesa, descolando umas louras, rolando dadinho, jogando papo fora, essas coisas. Alguém disse que deviam ir para a Mercedes, aquela casa onde as garotas ficam à disposição dos fregueses. O Leo foi o primeiro a agitar. “Se é pra ir, vamos logo”. Chegaram, ficaram uns instantes. Estava fraco o movimento. Logo alguém sugeriu o Alfa Clube, mais animado, que segundo informações, estava “pegando fogo”. Lá se foi a caravana de bebuns conferir a dica. A mulher do Leo já havia ligado duas vezes. Agora ele não atendia mais, como de praxe. O Alfa estava ótimo. Um “sonoro” tocava brega e um locutor, a cada instante mandava mensagens, registrava presenças e fazia seu “chem”. Não havia condição para porrinha ou qualquer outro jogo. Sentaram em uma mesa, pediram bebida e ficaram apreciando o ambiente, cheio de garotas das mais diversas faixas etárias e promessas. Não que eles fossem atacar. Perigava serem chamados de “tios”. Mas a remota possibilidade já justificava estar ali. Quem sabe? O Leo era dos mais animados. Até acenou para umas duas, que devolveram sorrisos enigmáticos. “E aí, vou ou não vou até lá?”. Pois é. Pede mais umas louras e já fico no ponto. Foi quando o locutor interrompeu a aparelhagem para um recado romântico: Atenção Leonardo. Atenção Leonardo Rodrigues. Alguém, que muito te ama, está aguardando atrás do palco, para lhe dar muito carinho. Repetindo: Atenção Leonardo Rodrigues. Alguém, que muito te ama, está aguardando atrás do palco para lhe dar muito carinho”. “Tu ouviste? Era comigo. Vai ver é aquela morena que passou, aquela de calça apertadinha. Desculpa aí que o papai aqui vai se dar bem”. Os amigos ficaram entre o estupefato e o preocupado. Perguntaram se tinha camisinha. Se estava em condições. Se não havia bebido muito. “Vocês estão é com inveja. Eu vou me dar bem. Depois eu conto. Sorry, periferia..”. Todo confiante, andar malemolente, Leo foi atrás do palco onde encontrou sua esposa. Baixou a cabeça e foi ouvindo aquela torrente de reclamações, alguns pescoções, ameaças e tudo o mais, até o carro. A mulher do Leo é fogo.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

HOUSE OF CARDS


Hesitei muito antes de assistir as temporadas de House of Cards, uma das séries mais vistas e premiadas da tv americana. Não sei a razão. Talvez uma antipatia, ou para não fazer o que todos estavam fazendo. Um erro. Quando enfim decidi conhecer Frank Underwood e sua esposa Claire, enfrentei maratonas até chegar ao fim. Agora, aguardo a nova temporada, ainda no primeiro semestre. As atuações de Kevin Spacey e Robin Wright são perfeitas. A série recebeu 33 prêmios Emmy, incluindo premiações individuais para Kevin e Robin. Ganhou também oito Golden Globe Awards, e novos prêmios para o casal. Uma história de pragmatismo, manipulação, cinismo e poder. Um casal disposto a tudo. Uma festa de ódio, roubos, assassinatos, infâmia e arrogância. Com a chegada de Hillary Clinton às eleições, houve até espaço para sugerir Claire Underwood. Não sei o que virá. Beau Willimon adaptou a partir de uma série inglesa, de mesmo título. Esta, a partir dos livros de Michael Dobbs. Estreou em 2013. Underwood foi um dos artífices do presidente eleito. Esperava o cargo de Secretário de Estado. Foi-lhe negado. A partir daí começa uma grande vingança. No cargo que ocupava, no Senado americano, Líder da Maioria, tinha em arquivo todos os podres de seus colegas. A partir daí, usando engenhosidade e maldade, vai derrubando os oponentes até chegar à Casa Branca. Não sabia da série inglesa. Vou procurar. Mas recentemente li os livros, achados na Fox. O autor é membro da Câmara dos Lordes no Parlamento britânico. Foi conselheiro de Margaret Thatcher, John Major e David Cameron. Li que após todo esse trabalho, teve férias longas, quando veio a idéia do livro. Sabia o que tinha de escrever. Aqui é Francis Urquhart, líder da bancada governista do Parlamento, que também ao ser preterido após uma eleição, decide vingar-se de todos e chegar ao cargo máximo. Tal como nos EUA, desperta a curiosidade de um jornalista. Usando todos os seus truques e deslealdade, é eleito Primeiro Ministro. Curioso que aqui, sua esposa não tem o mesmo destaque da série americana. Agora, Dobbs insinua que a Rainha Elizabeth abdicou em favor do filho, Charles, que tem idéias próprias para o governo, mesmo que nada possa mandar. É motivo de aborrecimento e outro obstáculo para Francis. No terceiro livro, ‘Último Ato”, há bom tempo decorrido e ele já está cansado, extenuado de tantas brigas. Vai bater o recorde de permanência no cargo no século XX. Pretendentes ao cargo, mais jovens, surgem de todos os lados. Quer largar tudo e ao mesmo tempo, não pode perder, sair, entregar os pontos. Uma luta consigo mesmo. É impossível deixar de notar as semelhanças nas patifarias que vemos todos os dias nos jornais, sobre a política brasileira. Acho, mesmo, que o modo de fazer política, e aí serve para a Inglaterra e EUA, está falido completamente. Não elegemos representantes, mas baronetes que formam uma grande quadrilha onde se abastecem de muito dinheiro e poder, claro. Em uma outra série que acompanho, “Designated Survivor”, um presidente que nunca fez política, parece um ingênuo em meio a trapaças, vinganças e cobiça dos que o cercam, cada um com uma idéia diferente para se dar bem. Quanto aos três livros de Michael Dobbs, editora Benvirá, sugiro vigorosamente. São muito bons.