sexta-feira, 21 de julho de 2017

O MELHOR LUGAR DO MUNDO

Assisti ao filme “Divinas Divas”, de Leandra Leal, apresentando famosos travestis e suas vidas, após longos anos sob holofotes. O resultado é muito bom, mas confesso que o que me tocou realmente foi o Teatro Rival, ali na Cinelândia, Rio de Janeiro, deixado pelo avô de Leandra e que ao longo do tempo tem permanecido vivo, apesar de todas as crises e concorrência. Seus bastidores, camarins, o palco nu ou já com cenário, mas ainda vazio, momentos antes da abertura das portas para a entrada do público. Se vocês soubessem da vida intensa que existe ali, nos bastidores! Para mim, um teatro é um templo, uma igreja. Para pisar no palco e nos bastidores, há de haver respeito por tudo o que representam. Lembrei do Teatro Cuíra, levado a ferro e fogo, sem ajuda dos órgãos de Cultura do Estado e Município, geridos, há tempos, por ignorantes irritados pelo teatro continuar existindo apesar deles. A epopeia, a luta desigual levou nove anos. Nove belíssimos anos, com grandes espetáculos, mas principalmente, uma vida interna gloriosa. O primeiro dia, quando o elenco se reúne, nos bastidores, em torno de uma mesa, nas poltronas, com o diretor no palco, definindo as primeiras tarefas. As sessões de leitura de texto. As primeiras movimentações, estudos de iluminação, os cenários sendo levantados, figurinos testados, a trilha sonora sendo composta. Principalmente, os atores vestindo, aos poucos, aqueles personagens, trocando ideias. No teatro, tudo se discute. O resultado é absolutamente coletivo. Me deu saudade. Um aperto no coração. E vem o dia da estréia. Há um público lá fora. Ouvimos seu burburinho. Atores terminam a maquiagem. Outros se alongam. Fazem exercícios vocais. Discutem as últimas situações. Iluminadores e sonoplastas estão em suas cabines. Fazemos soar a primeira campa. Alguns olham por algum furinho, através das cortinas, tentando reconhecer alguém. Ouvimos alguém rindo de alguma piada. Vem a segunda campa. Todos reunidos, mãos dadas, até o famoso grito de “merda”. Estamos prontos. Corações acelerados. Agora, apresentaremos o resultado de dois, três meses de ensaios. Somos uma família. Durante aquele tempo todo trocamos opiniões, fazemos confissões, reavaliamos nossas crenças. Alguém avisa que aguardará mais alguns minutos porque ainda há público entrando. Um fica em frente à parede, murmurando prece. Outro silencia. Aquele vai ao banheiro para um último pipi. Nos abraçamos, nos beijamos. As ferragens estão expostas. O piso é gasto. Nas paredes dos bastidores, reflexos de outras montagens. A mesa de maquiagem é improvisada. Em instantes eles estarão no palco e serão outras pessoas. A mágica é feita ali, frente ao público. Tudo é possível. As pessoas nào têm idéia como tudo foi ensaiado, cuidadosamente, para que pareça natural. Fechamos o teatro. Uma tristeza imensa. Ninguém veio nos salvar. Talvez tenham festejado. Retirar as poltronas. Desmontar o palco. As ferragens. Som, iluminação. De repente, um vão livre, um vazio. Um vazio nas nossas almas. Eu via e ouvia um mix de tudo o que se passou. As palmas, os risos. Atores dizendo textos. O caminhão partiu com as poltronas, doadas a uma igreja na periferia. O silêncio. Lá fora a cidade em sua correria. Ali dentro, personagens me perguntavam por quê? O silêncio era a resposta. O uivo do vento entoando uma canção triste. Mas o Teatro vive. Agora estamos em uma casa. Estamos, inclusive ensaiando. Vivendo novamente o processo. O melhor lugar do mundo está nos bastidores, antes de soar a terceira campa. Garanto.

sexta-feira, 14 de julho de 2017

BÁRBARA, BELA, TELA DE TV

A imagem transmitida para os mais diferentes receptores, a realidade transportada, a imagem inventada chegando até nós, se apresentando e se impondo, ficando gravada em nossas mentes, não diminuindo a capacidade de imaginação, ao contrário, aumentando, até colaborando, de alguma maneira armazenando, inclusive em quem não tem acesso à alfabetização, os fatos culturais. Quem será o dono das imagens? A quem interessa transmitir esta ou aquela imagem, manipulada ou não? Influir na opinião pública. Criando mocinhos e vilões. 
Londres é talvez a cidade mais vigiada do mundo. Todos são filmados nas ruas, recintos fechados, públicos - quem sabe também em privados? Razões de segurança. Em Belém, políticos usam imagens para mostrar que estão trabalhando bem, embora todos discordem.
É possível sobreviver em Brasília sem se envolver com irregularidades? Milhares de imagens, todos os dias. O que assistimos é a realidade? Ou é uma dança coreografada diariamente para nosso deleite? Olhos rútilos garantem honestidade. A falta de investimento em Educação e Cultura, a deterioração do tecido social, trocado pela sobrevivência diária. Quem lê jornais? Quem lê análises políticas? Quem lê tanta notícia? Nossas autoridades são mestras na dissimulação frente às câmeras. Não sabem, não viram, mas vão mandar apurar rigorosamente. Há um descompasso entre a imprensa, como tambor da sociedade, e a verdade anunciada pelos políticos, que parecem, hoje, atuar apenas para evitar que sejam descobertos em ações ilícitas. Qual será a verdade?
Há como que realidades superpostas. Diariamente, no “Jornal Nacional”, há cobertura da ação policial no Rio de Janeiro. Ou em Belém. Soldados camuflados, com armas pesadas e postura de guerra, escondem-se nos becos, apontando, procurando inimigos. Como nos filmes. Na mesma cena, despreocupados, moradores, homens, mulheres e crianças passam pra lá e pra cá, na sua azáfama diária. Lojas, casas, ambulantes, mais soldados. Como realidades superpostas. Como se filmados separadamente e depois sincronizados. A guerra de uns e outros, diferente da outra guerra, a da sobrevivência, à margem, criando outra sociedade, sem controle, a sociedade do descontrole, onde o lema é sobreviver. E os corpos empilhados, crimes sem solução. 
E nessa sociedade tudo é pirata, como uma sociedade cover, sociedade falsa, com outro padrão. É pirata porque não tem dinheiro para ser a verdadeira. Porque, ao contrário de morrer, desaparecer, luta para continuar viva e se reinventar a partir do instinto de sobrevivência. Não há Cultura ou Educação como conhecemos. Uma nova escala de valores é criada. A vida e a morte na TV. Está na imagem e a mídia, tem fome. A sociedade imagética. A sociedade espetáculo tem fome. A quem vamos devorar nesta semana? 
A nós não basta desnudar as pessoas em seus 15 minutos de fama, naquilo que representa sua vida, sua ação profissional ou particular. Queremos tirar-lhe a roupa, escanear poro por poro de seu corpo. Queremos ver sua vagina, seu ânus, saber se é depilada, se as fotos precisaram de Photoshop, se os seios têm silicone. Devoramos seu corpo e, após o gozo, queremos mais. Nos faces e instas, maridos expõem suas mulheres em ação que visa, com o exibicionismo, a excitação. O espetáculo. Pageviews. Ou aquela mulher, que como Jabor diz, é apenas uma bunda. Como é seu nome? Bunda. Em todas as telas. Das menores às maiores. Editadas ou não. Soa um ruído. Todos os olhares voltam-se para as telas. Está tudo na bárbara, bela, tela de tv.

sexta-feira, 7 de julho de 2017

AOS MEUS PROFESSORES

Acabo de assistir a uma reportagem na televisão sobre professores inesquecíveis de cada um de nós. Não conheço profissão mais nobre. A importância de alguém que nos ensina as primeiras letras, a escrever e ler. Tive ao longo da vida professores de fundamental presença e aproveito o mote para lembrar deles. Aos oito anos, meus pais conseguiram que Beatriz Kup, filha do cônsul da Inglaterra, quinze ou dezesseis anos, me ensinasse a falar inglês. Além de linda e inteligente, ela me passou o fascínio da Língua, embora a tenha feito passar vergonha. Em uma recepção, apresentou-me ao pai que, brincando, perguntou “How do you do”, ao que respondi, encabulado, “ainda não dei isso”. Cinquenta anos depois a reencontrei, com a mesma beleza e vivacidade. Parecia um encontro marcado. Semanas depois, repentinamente, faleceu. Estudei o Primário no Colégio Suiço Brasileiro. Lembro pouco. Mas no Colégio Nazaré fiquei até seguir para a Universidade. Logo no primeiro dia de aula, aprendi todos os palavrões que sei até hoje. Mas também aprendi muito. Não esqueço de alguns Irmãos, sobretudo Irmão Machado, nordestino, que criou um Clube de Leitura. Fiquei encarregado de ser um dos redatores do jornal “O Caminho”, impresso em mimeógrafo. Após as aulas matinais, voltava à tarde para reuniões onde aprendia Educação Sexual, Leitura e discutíamos Religião. Confesso que minha assiduidade era devida ao futebol que jogávamos ao final das discussões, mas sei, que toda a reflexão feita sobre os assuntos, me fizeram ser quem sou, hoje. Havia o querido Irmão Afonso, alemão que diziam ser vítima de guerra, o que nos dava curiosidade e um certo medo. É uma pessoa doce, adorável, ainda hoje com uma legião de amigos, ex-alunos. E os professores? Havia o Camarão, de Língua Portuguesa, excelente, boêmio, às vezes dando aula com muita ressaca. O Padre Tocantins, figura ao mesmo tempo engraçada e complicada. O professor Gabriel Leal, adiante, parceiro de jogos de futebol, que tocava em uma eletrola “My Bonnie” e caminhava pela sala, cantando. O professor Manoel Leite, apaixonado por sua matemática. Professor Nogueira, de Química Mineral de quem me tornei muito amigo, mesmo que faltasse, com outros, às suas aulas, para jogar futebol. O Irmão Porfírio, preocupado que não estudássemos demais e chegássemos ao Vestibular cansados. Lembro então de uma das pessoas mais importantes da minha vida, meu amigo Abílio Cruz, que estudava dando aulas para nosso grupo de estudo. Um professor, adiante, no Curso de Engenharia da Ufpa. Foi-se muito cedo e até hoje deixou uma lacuna enorme nos nossos corações. Mas quero prestar homenagem, principalmente ao professor Edson Berbary. Sua cadeira era Português. Embora eu já devorasse todos os livros de aventuras de capa e espada da biblioteca de meu avô, ele dividiu nossa turma em grupos, oferecendo livros de autores brasileiros diversos para que lêssemos e fizéssemos um trabalho a respeito. A mim coube “Menino de Engenho”, de José Lins do Rego. Meu avô emprestou-me. Havia uma dedicatória do escritor para ele. Li em seguida os outros dois livros e isso despertou em mim, definitivamente, a leitura, a reflexão e nunca mais parei. Berbary também estava sempre conosco em acantonamentos, projetos, diversão. Com sua inteligência, sua postura, sua integridade, é um Professor com “P” maiúsculo, que nunca vou esquecer. Muito obrigado. Há alguns bons anos atrás, também dei aulas no Curso de Jornalismo na Ufpa. Confirmei a importância da missão. Não há nenhuma profissão mais importante. O meu agradecimento a todos eles que me fizeram ser quem eu sou, hoje.

sexta-feira, 30 de junho de 2017

EU VOS DEIXO A PAZ. EU VOS DOU A MINHA PAZ.

Eu queria escrever sobre intolerância, após assistir aos vídeos em que o ator Fábio Assumpção, fora de si, ao invés de ser contido e até mesmo protegido contra si próprio, é xingado e estimulado por um grupo de pessoas simples, de Arcoverde, Pernambuco. Gritavam impropérios, gozavam a cena, “olha o ator da Globo drogado”, diziam. Parecia uma delícia, o homem bonito, galã, ator de tv e cinema, ali, dando vexame, descontrolado. Havia uma vibração de quem curte ver o que está por cima, agora jogado na lama. O tal do homem cordial brasileiro, já não há. Penso nas mídias sociais onde insensatos ainda repetem o tal “nós e eles”, “coxinhas contra sei lá o que”, insuflando a luta entre classes. Já não há. Agora, somos todos “nós”. Mas continuam de maneira insana. O resultado de longos anos de abandono de Educação e Cultura como base de uma cidadania, deram nisso. Há ódio incontido. Há falta de amor. Amor puro entre as pessoas. Compaixão, compreensão. Há assassinatos e violência diários e autoridades incompetentes para lidar. Educação e Cultura não estão nos planos desses que tomaram conta do país. E o país não é deles. É nosso. Joguemos fora esses slogans irritantes, bandeiras de sindicatos que temem perder regalias financeiras. Somos um só. Tomemos o que é nosso, de volta. E acima de tudo, vamos recuperar o amor. Se me permitem, lembro o amor que perdi, meu amigo, meu melhor amigo, o melhor de todos. Chegou aos 45 dias de vida. Belo, grande, o maior da turma. Conquistou a todos. Tornou-se um imperador na Praça da República onde circulava atendendo aos chamados de quem queria saudá-lo e fazer carinho. Aos domingos, ficava cercado de crianças que faziam fila para bater foto. Abria um sorriso e estava à vontade. Tinha uma aura brilhante. Onde chegava, era notado, tanto pelo tamanho, como pela beleza. Seu nome era Antonio. O dono da casa. Responsável, quando andava em grupo, cuidava para que nenhum de nós se afastasse muito, como um pastor e seu rebanho. Suportou a chegada de mais um companheiro, de outra raça, porte menor, danadíssimo a importuná-lo mordendo suas orelhas em provocação constante às brincadeiras. Inteligente, entendia as palavras chave. Esperava-me no terraço do prédio, atento ao movimento da rua e uma vez identificando-me ao atravessar, ao subir, já o encontrava pronto, guia entre os dentes, para seu passeio diário. Apaixonado por água, ao chegarmos na Praia do Farol, Moscow, aberta a porta já corria e mergulhava na água com grande prazer, onde ficava nadando. Me fazia companhia. Estava sempre ao lado, pronto. Sua partida foi rápida, silenciosa. Antes, passeou longamente por sua adorada Praça da República, como uma despedida. Deixou um imenso vazio. Um deserto onde a beleza e principalmente o amor, reinavam. Hoje, quando lembro dele, o que é uma constante, lembro principalmente do seu olhar. De vez em quando o pegava me encarando. Dele, emanava uma paz, uma compaixão, um amor puro e leal que se espalhava não apenas ao nosso redor, mas por todo o mundo, por todos os lugares onde circulava. É disso que sinto falta nesta realidade terrível em que nos encontramos. Dessa intolerância, incompreensão, impossibilidade de buscar, juntos, uma solução. Lembrei de um trecho da missa que diz: eu vos deixo a paz. Eu vos dou a minha paz. Era tudo o que ele fazia. Sua missão. Espalhar o amor e a paz. Deve estar agora correndo nos campos, o vento batendo no pelo dourado e lindo, levando sua mensagem, sua missão a outros mundos. Saudades, Antonio, meu amigo. Meu melhor amigo.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

EU VEJO O FUTURO REPETIR O PASSADO

Há uma onda de nostalgia no ar. Mesmo em um momento em que os programas populares apresentam somente os tristes e deploráveis artistas do momento, em que Elba Ramalho fala em nome da cultura nordestina, protestando contra os sertanojos, contratados a peso de ouro e tirando o lugar de artistas do forró nas festas juninas, o passado está aí. Na Rede Globo é uma festa. Começa na abertura da novela das sete, com uma versão de “A Hard Day’s Night”, dos Beatles. Prossegue na série “Os Dias Eram Assim”, com toda a trilha formada por sucessos dos anos 60. Duas ou três mereceram fraquíssimas versões de cantores atuais. Nas emissoras em canal fechado, acabou de passar o documentário “Dunas do Barato”, Rio de Janeiro, anos 70, quando a produção cultural, mesmo enfrentando muita censura, foi profícua. Houve, na praia de Ipanema, a construção de um emissário de esgoto em mar distante. Com isso, um pontilhão apareceu, como que rompendo o mar e com isso, proporcionando ondas boas para o surf. Na areia, um sem número de artistas e jovens em geral pegava sol, debatia os assuntos e marcava onde todos estariam à noite. Foram focalizados artistas das Artes Plásticas, os poetas marginais, o surgimento das boutiques modernas, a partir das novidades internacionais e dos trajes desses jovens da praia, o teatro principalmente de Rubens Correia e Ivan Albuquerque, no lendário Teatro Ipanema e os shows e discos de Novos Baianos, Gal Costa, Raul Seixas e outros. Eu vivi tudo isso. “O Imperador Assírio”, “A China é Azul”, “Hoje é dia de rock”, “Hair”. Toda essa turma na praia, à noite, se reencontrava. Ou então para assistir “Fa-tal”, o melhor momento de toda a carreira de Gal Costa, linda, cantando um repertório sensacional. José Wilker era o ator da moda. Eu o vi uma vez, lanchando no Bob’s, bem jovem, cabeludo, famoso. E assisti “Artaud”, com Rubens Correa, no porão do Teatro Ipanema, peça que chegou a ser apresentada em Belém e que considero, com “Macunaíma”(Caca Carvalho), os dois espetáculos mais importantes da minha vida. Pouco mais adiante apareceu o Circo Voador e os anos 80 e o rock nacional, o último grito de criatividade na música brasileira. Agora, temos apenas ruído ruim. Também no canal fechado, um documentário em vários capítulos sobre a carreira de Gal Costa. E vêm Caetano, Gil, Duprat, Macalé, Waly Sailormoon e a cantora Maria da Graça. Tudo isso após ler a biografia de Caetano Veloso, que está nas livrarias. Uma onda de nostalgia que faz os mais velhos reencontrar a juventude, lagrimar em alguns momentos e perceber que tudo era muito rico, audacioso, feliz. Onde foi parar tudo isso? Na sociedade de consumo? Afundou com o fracasso da Educação e da Cultura? Esqueci de dizer que também, agora, pedimos eleições diretas. O passado retorna. Embora tivéssemos muita atividade criativa nos anos 70, aqui em Belém, no teatro, por exemplo, creio que a década seguinte trouxe a maior parte das grandes figuras que até hoje ainda estão por aqui. Esses jovens liam, discutiam, montavam espetáculos na marra e depois iam debater tudo em pontos como Bar do Parque e ¾. A impressão que tenho é que a juventude atual não sente vontade de lutar por seus direitos, por seu espaço, para dizer a que veio. Reúne-se em guetos separados. Vão aos shows, batem palmas e somente se unem para xingar os coxinhas. É pouco.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

A BIOGRAFIA DE CAETANO VELOSO

Caetano Veloso é o ídolo da minha geração. Se vindo de fora já era época de Beatles, Stones e chegando Hendrix, Doors e Joplin, aqui no Brasil pairava um som entre o romântico bolero e a Bossa Nova. Eu me lembro de assisti-lo na televisão em p&b lançando “Alegria, Alegria”, com roqueiros argentinos acompanhando. Aquela linguagem de imagens superpostas me encantou. Caetano na TV no programa “Esta Noite Se Improvisa”. O casamento com Dedé, em Salvador, com a multidão e eles andando rumo à Igreja. Deu no Jornal Nacional. Tudo em p&b. 
Eu me lembro de Caetano no Ginásio Serra Freire, do Clube do Remo. Em meio ao show, sentava sobre um tapete e comia uma flor. Para a época, muito doido. Caetano e Gil, presos. O disco inglês com uma foto deprê e um repertório ao qual vim dar valor tempos depois. A volta com o “Transa”. Caetano e Chico, ao vivo. Eu estava na praia, Rio de Janeiro, e a Rádio Mundial não parava de tocar “Diz que deu, diz que dá”. A revista “Bondinho”. O jornal “Rolling Stone”. Outros jornais como “A Flor do Mal”. Eu me lembro. 
Caetano de batom vermelho, bustiê e tamancos holandeses. Eu tive um. Bicha! Bicha! Essa ansiedade em desafiar, explicar, confundir, me encantava. Ele me ensinou a cantar. Nos trouxe de volta bolerões com novos arranjos. Relançou Luiz Gonzaga. Em 1968, veio a Belém, com Gil, participando de um show da Rhodia, empresa que na época fabricava os tecidos que as mulheres compravam. “Momento 68”, em pleno Theatro da Paz. Eu estava lá. 
Chegava a gostar menos de Chico Buarque. Ele parecia muito careta. Hoje eu sei, claro. Sei também que a carreira e discografia de Caetano é muito desequilibrada. Em muitas músicas, parece ter acabado a letra apressadamente. Os arranjos, também. Se nos primeiros tinha ótimos maestros arranjando, quando voltou do exílio, no auge, gravou “Araçá Azul”, o álbum experimental, recorde de devolução das lojas. Há joias ali, mas há também um pouco de soberba em inventar, na base do foda-se. Adiante, em “Joia” e “Qualquer Coisa”, também. 
Para mim, o melhor momento de sua vida foi ao lado da Banda Nova, com Vinícius Cantuária, Tavinho Fialho e outros. Começa em “Muito Por Dentro da Estrela Azulada”, que abria com “Terra”. Incrível, sabiam que foi muito criticado? Então vêm “Cinema Transcedental”, “Outras Palavras” e “Cores, Nomes”. 
Esqueci “Os Doces Bárbaros”, grande momento ao lado de Gil, Gal e Bethânia. Caetano circulava pelo Brasil com a banda, namorava, via, lia, ouvia e o resultado está nos discos. Ele diz que muitas músicas poderiam ficar melhores. Pode ser. Mas creio que foi quando se aproximou de Arto Lindsay e casou com Paula Lavigne, alguma coisa se partiu. Os discos continuaram bons, mas a chama começava a murchar. Veio o fenomenal “Fina Estampa”, delicioso como cantor. O mundo agora o amava. Mas, curiosamente, raras músicas, para mim, tinham o mesmo nível. 
Recentemente entrou na fase rock, que considero terrível, muito ruim. Agora circula escolhendo pérolas do imenso repertório para cantar. Ele pode. Acabei de ler “Caetano, Uma Biografia”, de Carlos Eduardo Drummond e Márcio Nolasco, um livro pronto há alguns anos e não autorizado por Caetano não gostar do português da dupla, realmente cheio de clichês. Agora que caiu a lei, está nas livrarias. Para quem quer saber detalhes, sobretudo do início de carreira, sensacional. “Trilhos Urbanos” é Santo Amaro, em detalhes. “Trem das Cores” foi feito quando viajava no Trem Prata, do Rio para SP, namorando com Sonia Braga. “Você é Linda”, foi feita para uma adolescente que namorou com ele durante uma turnê. Há muitas outros detalhes. Agora Caetano anuncia outro disco. Compro todos. Quero gostar. Tomara.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

MEU CORAÇÃO É BANDEIRA AO VENTO NA PRAIA DO FAROL

Minha amiga Silvana acaba de publicar fotos do Hotel Farol, em Mosqueiro, onde passa alguns dias com sua mãe. Comentei, no Facebook, que meu coração está ali, naquele cenário, não enterrado, mas empinado, ao vento, como uma bandeira feliz, acenando para o dia. 
A praia do Farol é o local dos meus sonhos e devaneios. A casa de meus avós. Uma das lembranças mais antigas foi uma madrugada em sussurros de minha mãe e suas auxiliaries. Íamos pegar o ônibus das seis, até a Vila, e de lá, no Presidente Vargas, para Belém. Elas não queriam nos acordar. Outra lembrança é acordar, um domingo, ouvindo o vento nas palmeiras e a algazarra da criançada, na praia. Como eu era feliz. Como um dia em que meus pais e um ou dois dos meus irmãos tinha ido a Belém e eu fiquei. Era depois do almoço, dia de semana, julho, e naquela calmaria, fui até a praça em frente da casa, subi em uma árvore e lá fiquei pensando na vida. A vida! O que seria, o que haveria à frente? 
O Farol da minha meninice era muita praia, bicicleta e futebol. Mas foi lá, também, que conheci meu primeiro amor, que até hoje me afeta. O sentimento de paixão, alterando, trazendo desvarios mentais ao meu cotidiano até então. Aos finais de semana, noitinha de sexta, chegavam os pais, vindos de Belém, pelo navio. Traziam revistas para as crianças. Nosso vizinho, Sr. Harley, passeava em um carrinho, levando uma criança de cada vez para uma volta. Mais tarde, vinha fazer mágicas. Junte isso com as narrativas de minha mãe, teatralizando uma Amazônia misteriosa, ocupando, municiando nossas mentes, abrindo portas para o livre pensamento. Meus avós, sentados em cadeiras no imenso patio, saudando os amigos que passam em direção à praia. 
Quem chegava, de violão para tocar com meu pai. E já chegou ali a kombi do Seu Rubem Ohana, carregada de meninos e meninas que ao toque de uma eletrola, botavam-se a dançar e namorar. Eu olhava comprido, ainda tão menino, mas em transformação. Agora a moda era jogar vôlei nos quintais. Com a ajuda do querido Zé Zumero, levantamos uma rede e aprendemos a jogar. Mas já a vontade do futebol me levava à praia, nas tardes, para enfrentar adversários maiores e mais fortes. Meus moinhos de vento? Não interessava. Aprendia. Lá vem um rapaz, da Ilha, driblando seus oponentes, rumo ao gol. Pensei em impedí-lo. Claro, eu conseguiria. Aprumei o corpo para prensar a bola. Houve um choque. 
Caído ao chão, vi-o seguir, célere, adiante, enquanto eu estava destroçado. Saí capengando. Um dedo estava quebrado. O rapaz, nem sentira. Mesmo assim, à noite, estávamos no Netuno Iate Clube, luz negra, Esmeril Band tocando rock and roll. Em um interval, “I started a joke”, dos Bee Gees e aí o mundo rodava, se transformava, um rodopio, um mundo inteiro se transformando, amores impossíveis, para mim, as meninas cobiçadas dando atenção aos mais velhos e já aprumados e o barulho das ondas do mar, batendo na arrebentação. A gente olhava para o céu, procurava a lua e suspirava. Quando chegará a minha vez? De vez em quando vou ao Mosqueiro. Escrevi um livro quebrando esse vidro de paraíso, chamado “Moscow”. Mas isso é arte. Meu Mosqueiro está intacto. Vou no meio de semana, um dia qualquer. Vou à praia com meu cachorro, volto e me ponho sentado na pracinha. Vou até a casa, hoje do amigo Mariano Klautau. Olho o patio e fico em devaneio. Todo aquele mundo passa diante de mim. Tão felizes, tão lindos! Eu os vejo, juro e penso como era feliz! Não me arrependo de nada, nem de ter amadurecido mais tarde, sendo criança por mais tempo. Meu coração está linda, bandeira despregada, rindo infantilmente, como um sinalizador de que tudo na vida vale a pena. Boas férias neste julho que vem aí.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

OS CANÁRIOS PRECISAM CANTAR

Meu pai tinha passarinhos. Curiós em gaiolas. Aos sábados, de madrugada, partia, com outros “passarinheiros”, para onde ainda havia mata fechada. Seus curiós eram especiais. “Preseiros”. Quando chegavam ao ponto onde sabiam haver outros curiós, cada vez mais raros, paravam e colocavam suas gaiolas em pontos diferentes. Havia sempre uma “curiola” na área e para ela, o “preseiro” cantava, paquerando, ao que vinha, feroz, o macho, defender sua área, sua namorada. Ao atacar a gaiola, o “preseiro” com habilidade ímpar, prendia, com patas e bicos, o atacante, o qual soltava apenas quando meu pai se aproximava. Mas, ao invés de apreender mais um curio, meu pai o soltava, para que houvesse mais diversão no sábado seguinte. No mais, aproveitavam para conversar, tomar banho de igarapé e respirar ar puro. A idade chegou, as idas rarearam até parar. Os curiós morreram de velhice. Foi bom. Meu pai era de outra geração. Outra criação. Moleque, empinou tantos papagaios que sofreu grave inflamação ocular. Coisa de moleque de rua. Os passarinhos, também. Chegou a levar alguns deles a festivais onde o vencedor era o que cantava mais. O comércio dessas aves ainda é pesado. De vez em quando o Ibama apreende animais cativos e seus proprietários. Foi bom que acabou. Nós, os filhos, de outra geração, não gostávamos. Todos os dias, logo cedo, lá estava ele a limpar gaiolas e colocar água e comida. Sempre me perguntei o que fazia um pássaro cativo transformar-se em caçador e ao invés de repelir outras possíveis vítimas, seus iguais, prende-las e oferece-las ao carcereiro. Nunca me conformei. Aves foram criadas para voar, cantar, cada uma com sua tarefa na Natureza. A leitura também dá asas. Muito da minha imaginação devo às estórias de minha mãe, mas outro tanto, aos livros aos quais me abracei desde cedo, pilhando a biblioteca de meu avô de seus Dumas e tantas aventuras. Na mente, a selva amazônica se transformava nos campos da floresta de Sherwood, nas ruas da Paris dos mosqueteiros, em batalhas navais, enfim. Foi o que mediou meu comportamento “endiabrado”, na época. Quando havia silêncio na casa, eu estava lendo. Hoje, ainda estou abraçado aos livros, nas aventuras, de “Game of Thrones” ou “Outlander”, também em series de tv. Estive, a convite da amiga Olga, na Defensoria Pública do Estado, acompanhando o lançamento do jornal “Os Canários”, primeiro resultado do projeto de Remição de Pena “A Leitura que Liberta”, onde presos, a partir da leitura de livros, diminuem suas penas. Lá, conheci a defensora Izabel, bem como Idajane, que acompanham, empolgadas, o progresso. Ao invés de ações desastrosas na área da Cultura, o governo estadual acerta nesse projeto. Um coral de detentas cantou, outros leram, há poesias e artigos. Emocionante. Quando penso em uma pessoa apenada, na solidão, no silêncio, na contagem das horas, mas com a imaginação, viajando em liberdade, feliz, por outros mundos e ao mesmo tempo ganhando informação, vocabulário e diminuindo seu castigo, sinto-me impelido a participar com o maior empenho. Nos próximos dias farei doação de livros de minha autoria e outros que já li. Há uma carência de literatura adulta. Também moverei o grupo ao qual pertenço, que realiza a Feira Literária do Pará a se fazer presente em doações e em conversas com essas pessoas, ávidas por liberdade, imaginação e cultura. Parabéns!

DELÍCIAS DO TIO

Pois é, eu que vivo me queixando que não há nada de novo para ouvir, estou, como se diz, empapuçado com tantos discos bons que acabaram de ser lançados. Vou discorrer sobre alguns deles, porque penso que nem todo mundo tem a obrigação de estar ligado em lançamentos, mas gosta de ser informado para consumir boa música. Saiu disco novo de Joyce Moreno, a maravilhosa cantora, compositora e violonista com uma carreira mais dedicada a plateias internacionais, que consomem vorazmente seus trabalhos. “Palavra e Som” é o nome. Também comprei mas ainda vou ouvir, Simone Mazzeo e Cotonete, que tem recebido ótimas críticas. É o primeiro disco que ouvirei da cantora que tem considerável fã clube até em Belém. Juntou-se ao grupo francês Cotonete e o repertório é ótimo. Tomara que goste. A cantora de jazz Diana Kral também lançou trabalho, “Turn up the quiet”, eleganterrima, ela que começou a carreira apenas como pianista, mas foi apertada pelo mercado a assumir também o canto. Casada com Elvis Costello, canta standards com um grupo dedicado e excelente. Muito bom para ouvir à noite, passeando pela cidade (tomara que não seja assaltado em sinal), com a pessoa amada. Quer algo ainda mais elegante? Foi relançado o álbum em que Frank Sinatra canta Tom Jobim. O célebre que contém “Garota de Ipanema”. Com a remasterização, detalhes que antes não eram percebidos, saltam aos ouvidos. O violão de Tom na abertura da canção, metais e a voz do “Old blue eyes”, em forma. Há bombons como três ou quatro versões de “Garota”, com Frank pedindo mais uma tentativa, apesar de estar ótimo em todas. Se ouço Diana, ouço também a brasileira Eliane Elias, radicada nos EUA, onde chegou como pianista e também passou a cantar, ela que é casada com o grande instrumentista Randy Brecker. Com um contrabaixo maravilhoso e um balanço irresistível, abre com “O Pato”, standard da bossa nova com levada fantástica. Sem querer ser genial, Eliane está perfeita, divertida e brilhante em “Dance of Time”. Dá vontade de correr para a pista de danças. Outra brasileira, filha de cubanos, Marina de la Riva, dedica seu álbum à obra de Dorival Caymmi, procurando sua proximidade com a umbanda e o mar e sempre trabalhando a percussão. Estou ouvindo, mas as primeiras faixas são ótimas. João Donato participa, bem como Danilo Caymmi. Há sempre uma canção cubana permeando o repertório. E para vocês perceberem como meu gosto é elástico, adorei o disco novo da banda Bush, comandada por Gavin Rossdale. O título é “Black and White raimbows”. Mais do mesmo. E o que esperavam? Gavin é um ótimo cantor e o som, bem desenhado, pesado e melódico é muito bom de ouvir. Para quem ainda não sacou, a banda é a daquele hit “Glycerine”. Um relançamento importante é “Maravilhas Contemporâneas”, de Luiz Melodia, a quem desejo melhoras, já que está doente. Remasterizado, o disco realça os metais, além da voz de Melô que está fantástico. É o disco que tem “Juventude Transviada”, entre outras. Há também disco novo de Ricardo Silveira, o guitarrista, mas ainda nào ouvi. Um álbum póstumo do “deus” do baixo, Jaco Pastorius, show ao vivo, em Toquio, de Steve Hackett, tocando músicas do Genesis e do King Crimson, já que conta com Ian McDonald, integrante da formação inicial da melhor banda do mundo. Tocam “I talk to the Wind”, entre outras. Também foi relançado, com faixas extras, “Works II”, do Emerson, Lake & Palmer e a principal delícia, “Sgt Peppers’Lonely Hearts Club Band”, dos Beatles, para ouvir com lenços e enxugar as lágrimas. Som maravilhoso e extras geniais. Penso que ainda escreverei somente sobre ele. Como vêem, estou ótimo.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

A MÚSICA EM NOSSA VIDA

Escuto música no carro. Trabalho em rádio há muitos anos e durante o dia, ouço a emissora o tempo todo. Em casa, há outras atrações nos livros e televisão, além da família, claro. Mais novo, peguei o tempo dos cartridges que tocavam músicas nos veículos. Mais tarde, vieram os cassetes. Bem, estou começando, somente agora, a ouvir, no carro, a partir de um pen drive. É diferente de tudo. Estou tentando me adaptar, sou de outro tempo. Cresci em um lar musical, por conta de meus pais. Adiante, meu irmão mais velho ganhou da avó uma eletrola, portátil, funcionando por corda, que tocava 78 rpm. Havia discos diversos. Não esqueço de Dorival Caymmi, em forma, cantando “Dora”, em um arranjo que nunca mais ouvi, onde a abertura e encerramento, maravilhosa, era com metais de frevo. Havia também uma ária de “O Barbeiro de Sevilha”. Pedro Vargas cantando “Farolito”. Adiante, o Edgar ganhou um prato, pequeno, que funcionava acoplado a um rádio para aproveitar o amplificador. Meu primo Tom, que morava nos Estados Unidos, veio passar férias. Ao ir embora, deixou-nos uns 50 compactos da parada americana. Para os que nasceram há pouco, eram vinis pequenos, onde cabia apenas uma música de três minutos. Verdadeiras jóias. Nat King Cole, Pat Boone, Elvis Presley, todos em grande forma. Os disquinhos tinham um buraco no meio. Havia uma briga entre gravadoras pelo padrão em 33 rpm. Para tocar, era necessário um adaptador. Uma verdadeira mina de ouro para garotos que se interessavam por música. E então, de repente, os Beatles invadiram nossa vida. Com eles, Rolling Stones, Hollies, Animals, you name it. Anos 60, com a Jovem Guarda, Roberto, Erasmo, Wanderléa, Wanderley Cardoso, Jerry Adriani e companhia. A bossa nova era algo chic, sério, para um determinado número de pessoas. Os Festivais da Record e toda uma geração maravilhosa que apronta até hoje. Caetano, Gil, Gal, Bethania, Milton, Chico, vocês sabem. Ganhei uma eletrola portátil. Gigantesca. Funcionava com oito pilhas grandes. Um dia meu irmão chegou com um disco de um tal Jimi Hendrix e botou para tocar em outra eletrola, agora portátil, mas com duas caixas pequenas de som. Meu mundo mudou. A vida era diferente. Os discos, para nós, duravam vários meses. Ouvíamos e conhecíamos todas as músicas, a sequencia. Depois, além das capas maravilhosas, passamos a saber quem tocava o quê e onde. Agora já tinha uma eletrola Telespark, de móvel. No meu carro, um roadstar. Enfim, veio o cd. Demorei a aceitar. A capa, pequena, nomes quase ilegíveis. Houve o MD, lembram? Vida curta. No carro, cd player. Tudo mudou novamente. Mp4 ou outros padrões. Compro no iTunes. Na maioria das vezes, não vem ficha técnica. Tenho costume ainda hoje de ouvir todo o disco, mas as pessoas, não têm mais essa preocupação. Acabaram os álbuns conceito. É só a música. Acho que nem querem saber quem canta. Tem Spotify. Ando ouvindo discos antigos, todos em cds relançados remasterizados, uma delícia para perceber os instrumentos. Anteriormente era tudo em mono. Essa onda da volta do vinil é somente espuma, de uma galera que gosta de ser diferente. Agora, está tudo na nuvem. Penso que é a próxima onda, se já não for agora. Talvez seja saudosista. Temi, por muito tempo, sentir-me assim. Não tenho medo do novo. Do hardware. Mas tenho saudade do software, da música, que antes, era melhor. O fato é que agora ouço músicas no meu carro, em pen drive.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

EDYR PROENÇA, FARIA 97 ANOS

Hoje seria o aniversário de Edyr Proença, meu pai. Ele faria 97 anos. Já passaram 19 anos de sua morte, que ocorreu neste mesmo mês, no dia 5. Decidi escrever pensando nele, que me acompanha de onde está, me iluminando e mostrando o melhor caminho, como sempre. 
Sabiam que foi remador? Contou-me que o ensinaram a nadar simplesmente jogando-o na maré. Foi também grande jogador de vôlei. Tudo pelo Remo. Também campeão de basquete. Sem vaga na equipe azulina, recebeu convite do clube Júlio César. O pai, Edgar, não aprovou. Sem avisar, jogou e ganhou campeonato. No ano seguinte, foi chamado para o time do Leão Azul. 
Mais velho, havia uma pelada de veteranos no Ginásio Serra Freire. Ai de quem se atrevesse a entrar batendo bola em qualquer garrafão. Dava para ouvir as pancadas. Uma vez, a bola bate no aro. Meu pai salta para pegar o rebote. Mais alto, mais forte, um querido tio pega a bola, vira-se e como uma arma, desfere-lhe uma pancada na cabeça. Zonzo, ele olha atônito. Desculpe, Edyr, pensei que fosse o fulano (outro tio queridíssimo)! Ele também era bom jogador de futebol. Meia armador, mas nessa, apenas peladas com amigos, em vários lugares, mas principalmente no Lago Azul. Em campo de areia, mas iluminado com potentes refletores. Havia outra, aos domingos. 
Conheci e lembro de tantos amigos dele. Difícil citar todos. Cresci e passei a jogar. Lembro o dia em que parou. Já era escalado na ponta direita. Veio uma bola rápida e não conseguiu dominar. Pediu para sair. O corpo não obedecia ao pensamento. 
Desde cedo, nos estádios de futebol, sentado ao seu lado, narrando. “O tempo passa, a barba cresce”, a propaganda da Gilette Azul. Depois, comentando. Às vezes, na volta, no carro, argumentava sobre alguma opinião dele, ao microfone. Lá, não tinha nada de opinião não se discute. Nós discutíamos. Eu aprendia. Era bom. 
E a música? Sabiam que ele teve um conjunto chamado Bando da Estrela? E que minha mãe, Celeste, era a cantora? Fazia a linha do que chamamos de “Regional”, violões, pandeiro e vocais, como o Bando da Lua, de Carmem Miranda. Meu irmão tem ainda um acetato com duas músicas, de Edyr, tocadas pelo Bando. Eu as aproveitei no espetáculo dos 80 anos da PRC5. 
Depois de casado, havia muita responsabilidade. Muitos empregos. Onde estava a música? Os filhos foram crescendo. O violão, de vez em quando pegava e mostrava Noel Rosa e outros grandes. Quando Francisco Alves, o “Rei da Voz”, o “Chico Viola”, veio a Belém, escondeu-se no Teatro da Paz para ouvi-lo ensaiar “Boa noite, meu grande amor!”. Aos poucos foi chegando à Bossa Nova e sobretudo a Paulinho da Viola. Mas era algo esparso, na família. Continuamos crescendo e agora ela rejuvenescia, fazendo companhia, conhecendo os novos grandes artistas. 
Tive a sorte de fazê-lo voltar a compor. Dei uma letra a ele. Escrevi pensando em sua estética. Foi o estopim para uma carreira de compositor maravilhosa, que tem seu maior sucesso em “Bom dia Belém”, dele com minha tia Adalcinda. Juntos, fomos campeões de samba-enredo pelo Quem São Eles. Teve parceiros diversos, como Ruy Barata, Antônio Carlos Maranhão, Ronaldo Franco e minha mãe em várias músicas. Lançou um solo e mais tarde tocou com amigos no Clube do Camelo. Espero, ano que vem, mostrar um CD de inéditas que deixou. Pois é, pensando nele, meu maior ídolo, meu melhor amigo, professor. Meu pai, hoje, faria 97 anos.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

SAUDADE MARAVILHOSA

Muito poucos o conhecem, mas Mário Adnet é um dos melhores músicos brasileiros há tempos. Tem mais discos no Japão do que no Brasil. Cultor da bossa nova, melodicista de primeira, músico, maestro, amante de Tom Jobim, dedicando um CD sinfônico à sua obra e também passando em revista o grande Moacir Santos, Adnet apresenta seu novo trabalho. 
Logo aos primeiros acordes de “Ancestral”, dedicada a Armando Marçal, nos faz embarcar na maravilhosa música popular brasileira. Melodia e execução. Mário ao violão, Marcos Nimrichter ao piano, Jorge Helder no baixo, Rafael Barata na bateria, Marçal na percussão, mais os metais de Eduardo Neves, Aquiles Moraes e Everson Moraes. Que beleza! Onde foi que nos perdemos da MPB? Ou, hoje, seria MBC, música brasileira culta? 
Há bossa nova, samba jazz, baque virado, Ricardo Silveira na faixa título, valsa, uma versão espetacular de “Viver de Amor”, de Toninho Horta e Ronaldo Bastos, e uma versão sambajazz para “Caravan”, o standard de Duke Ellington e Juan Tizol, dedicada a Moacir Santos. Que beleza! 
O lançamento é do Sesc São Paulo. Quem mais se atreveria a lançar um CD com tanta qualidade? Inspirado, corri para minha coleção. O primeiro CD que peguei foi de Caetano Veloso. Ouvi “Paisagem Útil”, a primeira canção tropicalista que ele compôs. O primeiro a ouvi-la foi Paulinho da Viola. “Paisagem Útil”, é a primeira letra a partir de uma paisagem, a do Aterro do Flamengo, Rio de Janeiro. É uma das minhas favoritas. “Uma lua oval da Esso, comove e ilumina os beijos dos pobres, tristes, felizes, corações amantes do nosso Brasil”. Uma marcha rancho. 
Caetano e Gil tinham um passado de MPB e não de rock, que desenvolveram depois. “Alegria, Alegria”, com guitarras, é uma valsa portuguesa. A orquestração seria de Rogério Duprat ou Briamonte? Há outra de Caetano, que lembro agora, “Trem das Cores” já anos depois, “teu cabelo preto, explícito objeto, castanhos lábios, ou pra ser exato, lábios cor de açaí”. 
Caetano está na Europa, fazendo shows com Teresa Cristina. Paula Lavigne, a mãinha, nos bastidores, faz “lives” através do Instagram de alguns números. Deve ser uma grande felicidade um artista desfilar pelas grandes cidades com ingressos totalmente vendidos. 
Ele cantou “Reconvexo” em Londres. Depois estava em Lisboa. Adiante, vemos a turma conversando, cinco minutos antes de subir ao palco em Madri. Como era boa a nossa música. 
E Belchior? Eu o conheci. Veio a Belém. Conversamos. Papo viajandão como quem recita um monólogo de improviso, conversando consigo próprio. Eu começara a trabalhar em rádio. Ele, mais Ednardo, Fagner, mais Sérgio Sampaio e Luiz Melodia, todos estreando. Como eram bons! Tinham tudo a ver com nossa idade. 
Acho que Belchior, antes de estourar, já trouxe com ele suas melhores músicas. Depois não acho que tenha composto algo de mesmo nível. Quanto ao sumiço, como explicar as pessoas? Como explicar? Vejo moças lindas, formadas, inteligentes (ao que parece), chics e vem a música de sua preferência: sertanojo. Pronto, aí não dá. 
Falta de Educação e Cultura, de ética, da compreensão, do pensamento rico em argumentos, da identificação da beleza a partir da língua. Ou o funk, cujas melodias são inferiores a “Atirei o pau no gato” e as letras, sexo lixo. Passo de carro e vejo casas de shows lotadas de cowboys do asfalto. Ah, como era boa a nossa música. Saudade Maravilhosa

sexta-feira, 5 de maio de 2017

GUERRA E BONDADE

São duas coisas completamente conflitantes? Depende. Assisti, a princípio querendo não gostar, o filme “Até o Último Homem”, dirigido por Mel Gibson. Levou para as telas uma história real, do primeiro soldado considerado “O.C.”, que é algo como Objection of Conscience”, permitido a partir de gestões de Igrejas de Adventistas do Sétimo Dia. O pai de Desmond Doss e o irmão, lutou na Primeira Guerra e voltou para casa cheio de traumas. Espancava diariamente os filhos e a esposa. Em uma dessas vezes, Doss, revoltado, imobilizou o pai, tirou-lhe o revolver das mãos e apontou para sua cabeça. Quase atirava. Quando tudo passou, jurou que nunca teria uma arma. Veio a Segunda Guerra, o irmão alistou-se e foi lutar. Pouco tempo depois, Doss também alistou-se. No campo de treinamento, ao recusar pegar e manusear um fuzil, deu início a um tormento. Seu sargento e os companheiros o humilhavam e até espancavam. Ele envergonhava a todos. Passou pelo psicólogo, general e acabou em um tribunal. O pai irrompeu na sala com um documento que mostrava que a constituição lhe dava o direito de ir para a guerra como médico, sem portar arma. Mesmo com todas as ameaças e pressões, Doss não voltou atrás. Seu pelotão foi travar a grande batalha da guerra no Pacífico, contra os japoneses, pela ilha de Okinawa. Havia uma serra a conquistar. Dois batalhões já haviam sido dizimados. Uma face em abismo vertical era o início. Lá no alto, os japoneses. Não há espaço aqui para discutir o lado certo. É apenas um filme e com o cansaço dos filmes western, americanos transformaram os índios em alemães e japoneses. Estes, correm para a morte, com seus gritos assustadores. Morrem aos magotes e ainda surgem muitos outros. Doss corre de um para outro ferido, dando atendimento e mandando para a retaguarda. Parecem ter uma vitória. O inimigo fugiu. Passam a noite nos buracos feitos por bombas. Não sabiam que os japoneses tinham um túnel por onde sumiam e reapareciam com mais força. Isso acontece. Os americanos batem retirada. Sobraram 32 vivos, que desceram pelas cordas em pânico. Doss, ficou. Veio a noite. Às escondidas, começou a buscar cada ferido e levar para baixo. Descia-os amarrados em cordas. Alguns inimigos surgem, dando golpes de misericórdia em feridos. Ele se esconde. A cada um que descia, pedia a Deus mais força para trazer outro. Foram 75 companheiros, a noite inteira. Enfim, conseguiu descer. Chegando, os companheiros foram felicita-lo mas reagiu com golpes. Estado de choque. Belo ator. Me fez chorar, confesso. O filme ganhou Oscar de melhor mixagem de som. Gibson dirigiu ótimas cenas de batalha. Dá pra sentir o medo a empurrar a coragem de todos. E à noite, a tensão para que Doss trouxesse os feridos. Um por um. Talvez tenha sido essa aflição e o olhar do ator que me tenha emocionado. Mas logo compreendi que foi o impacto da bondade. Essa, tão violenta em um ambiente tão agressivo, me atingiu frontalmente. Doss salvou até o sargento que tanto o humilhava. Morreu no início dos anos 2000. Ao final, vemos fotos e  depoimentos. Em um mundo que estamos vivendo, com tanta maldade, me impressiona a força da bondade. Tento compreender essas pessoas que largam tudo e vão distribui-la no mundo. Esses médicos sem fronteira, por exemplo. Os que cuidam daqueles que perderam tudo. Eu, humano cheio de defeitos, procuro ser bom. Quero seguir meu pai que me disse que tudo o que queria era que eu fosse um homem bom. Distribuir bondade nesse mundo selvagem em que estamos. O filme me emocionou. A bondade, sempre.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

HOTEL FLORIDA

Após ler “Hotel Florida”, de Amanda Vidal, Editora Objetiva, confesso ter ficado bem impressionado. É um livro sobre a Guerra Civil na Espanha, que serviu como uma introdução à Segunda Guerra Mundial. Muito bem documentado, o livro foca principalmente em figuras ilustres que estiveram presentes, de alguma maneira, divulgando tudo o que acontecia por lá. Em um momento tenso que todos vivemos, com Putin, Trump, o garoto norte coreano, China, unidade da Europa, desmanche total da esquerda na América do Sul, vale a pena ler. Também não sei porque até hoje esse evento foi pouco utilizado seja pelo cinema ou livros, por tudo o que o envolve. Poucos anos após a Primeira Guerra Mundial, após muitas pressões, o Rei Afonso XIII deixa a Espanha e vai para o exílio e em seu lugar, surge a Segunda República, de ideologia socialista, de alguma maneira ecoando os acontecimentos de 1912, na Russia, com a deposição do czar e a chegada de Lenin, Trotsky e Stalin ao poder. O novo governo espanhol inicia promovendo mudanças sociais que agradam ao povo. Nem todos. A direita não se dá por vencida e começa a reunir-se, principalmente com o general Jose Sanjuijo, para dar um golpe. Agora percebam como estava o mundo. Além do comunismo na Russia, Hitler assume a chancelaria da Alemanha em 1933. Dois anos depois, Benito Mussolini, na Italia, vem com o fascismo e no mesmo ano, Stalin dá início ao grande expurgo que o transformou em novo czar, embora o resto do mundo não se desse conta disso. Pior, Estados Unidos, França e Inglaterra assinaram tratado de não intervenção. Em 36, vem a revolta da direita, com apoio de alemães e italianos, elegendo Franco como seu comandante político. Os socialistas do governo mandam todo o ouro para a Russia, onde ficaria protegido.. Foi a última guerra romântica, se é que se pode dizer isso, diante de uma mortandade terrível, fome, frio e muitas outras dores para os civis. De todos os lados do mundo, correram para defender o socialismo milhares de jovens, formando as Brigadas Internacionais. E aí vêm as grandes figuras presentes. Entre americanos, o escritor John dos Passos, sempre em litígio com Ernest Hemingway e sua namorada Martha Gellhorn (seu romance virou um filme recente), Herbert Matthews, correspondente do NY Times, Maxwell Perkins, editor de Hemingway, Scott FitzGerald e também em filme recente. Entre os ingleses, um certo Eric Blair, cognome de George Orwell. As peripécias são por conta do húngaro Andre Friedmann e sua namorada Gerta Pohorylle, que sem conseguir publicar suas fotos, mudaram seus nomes para Robert Capa e Gerda Tow e ficaram para a história. Um grande amor. Outra história, a dos austríacos Ilsa Kulcson e Leopold, marido e mulher, ela tornando-se figura de proa dos nacionalistas ao lado de seu novo amor, Arturo Barsa, secretario de imprensa, ele, Leopold, virando agente duplo. Querem saber, até Saint Exupery esteve em Madri para ver o que acontecia. Andre Gide foi à Russia, escreveu um livro dizendo umas verdades e poucos quiserem acreditar. Entre bombas e tiros, reuniam-se, à noite, no Hotel Florida para beber, jogar, namorar e conversar. Até um filme americano estava sendo feito, com intervenções de Hemingway. Lilian Hellman devia ter sido roteirista. Pablo Neruda, consul chileno, teve a casa destruída. Erroll Flynn apareceu pedindo uma bebida. Lorca foi fuzilado. Guernica foi bombarbeada por ordem do alemão Göering e Picasso mostrou sua obra no Pavilhão Espanhol na Exposição Internacional em Paris. Ufa! Amor, sedução, ódio, mortes, romance, está tudo em Hotel Florida.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

OS ESPECIALISTAS

Costumo ler os artigos escritos pelo jornalista Helio Schwartsman na “Folha de São Paulo”. Um desses dias, escreveu sobre um livro chamado “The Death of Expertise”, de Tom Nichols, que trata de um assunto que muito me interessou. Lembrei de um amigo jovem, que após passar um desses feriados prolongados ouvindo a discografia do King Crimson, começou a discorrer sobre a banda. O KG é um conjunto de rock progressivo que brilhou na década de 1970, sendo considerado por alguns, como eu, a melhor banda de todos os tempos. Não se trata de ciúme, como se meu jovem amigo quisesse me tirar a expertise, porque foi ao iTunes, baixou a discografia e agora já sabe tudo. É que, por mais conhecimento que possa passar a internet, há outras coisas que penso importantes, na construção do conhecimento. 
O livro de Tom Nichols é exatamente sobre isso. Meu cachorro está doente. Vou ao Google, pesquiso e quando chego no médico, passo a discutir com ele os sintomas e melhor tratamento. A internet seria a morte da especialização? 
 Há pouco tempo esteve em Belém ministrando uma oficina um diretor de teatro russo. Em uma entrevista, disse que em pouco tempo, as universidades fecharão as portas. Tudo estará no Google, na internet. Quem quiser saber, que estude. Frases como essa me fazem pensar. De início, parece ter muita razão, mas, após refletir, penso que esse conhecimento não é algo que possa ser, digamos, injetado em alguém em cursos de final de semana, ou em ampolas, sei lá. O conhecimento não vem apenas dessa informação, publicada e passada por outros. 
O ser humano está sempre em progresso, principalmente quando jovem. Volto ao meu pobre exemplo, sobre a banda King Crimson. Era adolescente. Tempo do vinil. Há o tempo de ouvir, descobrir, ouvir novamente várias vezes. A vida que segue correndo. Os acontecimentos. O mundo à volta. A música maturando. E no ano seguinte, vem outro disco. Notamos o desenvolvimento, novos integrantes, outros sons. E assim por diante. E a Medicina, por exemplo? Como ser expert sem experiência dentro de consultório ou sala de operação? O conhecimento teórico está lá e certamente, em vídeos, quem sabe, projeções holográficas, o acompanhamento de operações. Mas será a mesma coisa que estar ali, verdadeiramente, tocando no paciente e, depois, maturando sobre o que aconteceu, recapitulando mentalmente, desenvolvendo sua expertise aos poucos? 
Vi recentemente o filme sobre Elis Regina. Tinha a voz, mas nada mais sabia sobre o palco. O fantástico Lennie Dale a ajudou, mas diria que, anos depois, já casada com César Camargo Mariano, é que surgiu a verdadeira maior cantora do Brasil. A que sabia o que dizia a letra e a interpretava, mistura de técnica e emoção, domínio absoluto do palco. Aos poucos. A vida passando paralela com todos os seus acontecimentos. 
Então você aprende na internet a cantar como Elis? A operar como um experiente neurocirurgião e tantas outras profissões? Sim, é um perigo que atravessamos no momento, esse momento que hoje muda a cada instante, proporcionando novidades, novas perguntas que precisamos saber responder. E como evitar que alguém, realmente curioso, vá à internet informar-se sobre tudo? Meu outro amigo tem oito anos de idade e pergunta tudo ao Google. O que é estupro? A máquina responde. O futuro chegou e já passou. Precisamos responder a essas questões. Informação nunca é demais, é verdade, mas o tempo de maturação da informação ainda é importante?

sexta-feira, 14 de abril de 2017

A TRAVESTRISTE

Quando o mundo discute a questão da aceitação normal na sociedade dos trans e demais siglas, penso que conheço o travesti mais triste, ou talvez nem seja isso e eu apenas tenha criado um personagem a partir do pequeno contato que tive, e também por vê-la nos arredores de meu prédio, a partir de sábado e às vezes ainda no domingo. Pensei nela e resolvi escrever alguma coisa ao passar de carro, domingo, meio da manhã, pela Riachuelo e encontrar Blake e ela, discutindo. O Blake vocês conhecem, um moreno baixinho, meia idade, grisalho, que certamente por conta de poliomielite na infância, tem duas pernas prejudicadas. Por seu andar, o apelido deveria ser “Break”, por conta daquela dança nos anos 90, talvez. Mas como a pronúncia fica difícil, acabou sendo Blake. Como mantêm-se vivos esses personagens, confesso que não sei. Consumindo o que consomem, não comendo o que deveriam comer, dormindo ao relento, sujeitos a todas as intempéries, por muito menos eu já estaria em uma UTI. Mas estava falando do, vamos chamar de “Travestriste”. Infelizmente não sei o nome dela. Uma vez, estava andando, sábado, pela manhã, na Praça da República, com meu golden Antonio e ela estava lá, lânguida, estirada em um dos bancos. Mexeu comigo por dever de ofício. O rosto melado da noite, olhos vermelhos, cansados, um bafo de bebida terrível, foi pelo costume. Ao agradecer e recusar, ela, como todos os moradores da rua, pediu um cigarro. Aproveitei para perguntar se trabalhava durante a semana, em um ofício, digamos, menos radical. Sou cozinheiro em um restaurante próximo daqui. Só me monto no final de semana. Penso que inicia sua história, seu filme, seu enredo, na sexta à noite. Depila-se, faz maquiagem, unhas e sai, orgulhosa, certa de sua sedução. É agora uma mulher magérrima e creio que esconde pernas finas em calças com boca de sino. Sapatos de salto altíssimos. Uma camisa de manga comprida, colares, brincos gigantescos e um enorme rabo de cavalo no aplique. Sai por aí, rondando bares e inferninhos como um que dá a frente para o Boulevard e o fundo para a Manoel Barata. Para meu próximo livro, vou visitar esse antro, claro. Aquele centro da cidade é sua Broadway, o lugar onde desfila. Quando a vejo é sempre no sábado, virada, como se diz de alguém que não dormiu. No sol quente das nove da manhã, ela às vezes está jogada na calçada, guardando um mínimo de charme. Em outras, lutando contra o cansaço, a bebida, a ressaca, faz gestos em direção aos homens e motoristas que passam. Palavras doces, convites ao sexo, propostas. Gestos estudados no espelho, super femininos, lânguidos, repito a palavra. Quando a vi, no tal domingo, Blake a empurrou e ela deixou-se chocar com a parede de uma casa, mas lá caiu em uma pose de foto, lembrei da expressão “Strike a pose”. Ri. E no entanto seu olhar encerra uma tristeza imensa. Tristeza de não viver plenamente sua feminilidade? Tristeza do mundo que vive, ante seus sonhos de grandeza? Por saber que no dia seguinte estará de volta a uma cozinha cheia de fumaça e cheiro de alho? O que pensa quando sai, toda semana, montada, rebolando, pelas ruas escuras e perigosas do centro?

Essa falta de tempo me impede de chegar próximo, mais uma vez, resistir à cantada de hábito e perguntar por sua vida, suas crenças, seus amores. O que somos nessa vida sem os nossos sonhos, nossos objetivos? O que nos faz, todos os dias, levantar, tomar uma chuveirada e sair para o mundo? Penso que se dermos tudo o que ela gostaria de ter, roupas, sonhos realizados, um amor, um mundo, ela nem saberia o que fazer. É preciso cuidado com o que sonhamos. Ela estará lá, a travestriste, neste final de semana, novamente.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

QWERTY

Eu ia emburrado para o curso de datilografia. Minha mãe me matriculara, prevendo (talvez) meu futuro como jornalista. Foi uma das melhores ações em relação a mim. Também aprendi inglês a partir dos oito anos. As pretinhas, como chamava as teclas o grande Millor Fernandes, fazem parte da minha vida. Tenho até uma mania. Ao ouvir determinadas palavras que me interessam, as escrevo com os dedos tocando a palma das mãos. Tique nervoso, sei lá. Meu pai tinha uma portátil, Royal, belíssima. Minha primeira máquina, penso que era uma de trabalho, negra, difícil de domar. Depois, quando comecei a trabalhar em rádio, era mais moderna, estrutura em plástico, onde desenvolvi a habilidade usando todos os dedos. Lembro, redigindo o jornal Zeppelin, da velocidade que alcançava. Houve a breve experiência com uma Facit, elétrica, mas que constantemente dava problemas em imprimir o texto. Já era o tempo da fita de correção. Mas ainda não era o fim do revisor de texto. Antes, riscávamos o erro, acrescentávamos às laudas, comentários paralelos, enfim, um borrão. Então vieram as máquinas elétricas com esfera redonda. Eram uma delícia de escrever. Lembro do meu irmão Edgar e de meu pai Edyr escrevendo. O primeiro fez curso de datilografia, mas meu pai, velocíssimo, usava apenas dois dedos de cada mão, um pouquinho do que hoje é feito pela maioria, nos computadores. Então os PCs invadiram nossas vidas. Millor reclamava do silêncio que agora havia nas redações, antes tão barulhentas, com as máquinas manuais. O Jornal do Brasil lançou um manual. Millor escreveu mais. Da vergonha de uma máquina nos corrigir a cada vez que cometêssemos um erro. Naquele silêncio, ao ouvir o som, todos na redação olhavam e ele ficava humilhado. Maldita máquina. Então me entregaram um computador e o programa Carta Certa, ancestral do Word. Preguei acima da máquina, a sequencia de botões necessárias para liga-lo. Havia também AltControlDel. Era tudo muito difícil, diferente, o que hoje qualquer criança faz. A leveza do toque, em comparação à violência das manuais. Outro mundo. Vieram os notebooks, os padrões diferentes e hoje não conseguimos viver sem um teclado, seja no relógio, celular, iPad e outros. Ao contrário de mim, os jovens usam os dois polegares para teclar no celular, mais rapidamente. Sou da geração do dedo indicador. E não é que acabo de ter uma grande surpresa? Algo que nunca pensei que existisse. Estive na França e pensei em comprar um novo notebook, com mais possibilidades. Em Toulouse, tarde de folga, circulei pelo centro da cidade, tão bela. Dou de cara com uma revendedora da máquina pretendida. Havia um ainda mais moderno. O rapaz cheio de orgulho, me explicando. Comprei. Feliz, ansioso, retornei ao hotel para usar a novidade. Os primeiros toques, ensinando a máquina a seu jeito, são com teclas indicadoras. Finalmente, tentei escrever. Havia algo errado. As teclas fora de lugar. Como assim? Com defeito? No preço que paguei? Voltei correndo. Todos ficaram loucos. Haviam errado. Não me disseram. Na França, ao contrário de quase todo o mundo ocidental, a posição das teclas é AZERTY e não QWERTY, como sempre trabalhei. Pena, para conseguir um como queria, somente fazendo encomenda. Não havia tempo. Devolvi o notebook. Pensamos às vezes saber de tudo, mas não. Há sempre o que aprender no mundo. QWERTY e não AZERTY.

sexta-feira, 31 de março de 2017

BELÉM, A CIDADE QUE APODRECEU

Hoje volto a um tema sobre o qual já escrevi. Mas é que há algumas semanas, voltando de viagem, saudoso dos meus, das minhas coisas e da cidade, levei logo uma bofetada ao trafegar em direção à minha casa. Talvez nunca Belém tenha estado tão mal. Após duas administrações seguidas, uma delas (será que chegará ao final?) mal iniciada. Após um Átila, rei dos hunos, passar pela Prefeitura, temos outra figura que se destaca pela inação. Onde foi parar o dinheiro de Belém? Faliu? Logo após a reeleição, discutida na Justiça que, ao que parece, está docemente convencida a perdoar os erros, esperou-se pelas promessas. Nada veio. As ruas estão esburacadas, sem sinalização, sem fiscalização, com fiscais preocupados apenas em multar. Não há lei com um número de mortes, no centro e na periferia, superior ao de guerras no Oriente Médio. Diariamente. Há poucos dias, onze da noite, ouço cinco tiros na Riachuelo. Tá lá um corpo estendido no chão. Convenientemente alguns minutos depois, uns dez carros de Polícia chegaram para conferir. É a Polícia que está matando, sem uniforme e com a aquiescência dos superiores? São os traficantes? O povo no meio disso. E balas zumbem em nossos ouvidos. A falta de lei reflete nos mínimos deveres civilizatórios. É a lei da selva. Faz-se o que quer. Penso que, de maneira pensada, se alguém decidir sair nu e cometer toda a série de crimes, nada lhe acontecerá, sequer aparecerá alguém reclamando. Lojas fecham. Camelôs se instalam onde bem entendem. São avisados da alguma blitz. Está tudo dominado. O governador sumiu. Se não há mais nada a fazer, qual a razão da reeleição? Pergunto o mesmo ao prefeito. Em alguns bairros, a lei do silêncio e o toque de recolher é decretado por outros poderes. E o que fazemos aqui? Tive várias chances quando jovem, de ir embora. Boas tentações. Não fui. Devia ter ido? Sei lá. Mas hoje, novamente, vem a vontade de “capar o gato”. Ir para outro país, como Portugal. Estávamos em uma cidade estrangeira. Minha mulher sai e tem a bolsa firmemente segura, braços cruzados até que, de repente, cai na risada e deixa a bolsa em seu lugar normal. Não estamos em Belém. Claro, nenhum lugar é um paraíso, mas aqui estamos longe, muito longe de ter qualquer segurança. Pior para os jovens. O que há para eles? Nada. Os que escapam para São Paulo, por exemplo, amargam longa procura por emprego. Um deles declarou : nos disseram que bastava estudar muito para depois ter um emprego muito bom. Não é verdade. Têm pós graduação e outros e conseguem emprego com nível de primeiro grau. Mas ficar aqui? Vivendo no quarto, ligado na internet, tv a cabo, a garota que dorme com ele e dependendo dos pais? E a galera da periferia? Muito pior. Universidades soltam a cada semestre um sem número de próximos desempregados. Não há mercado de trabalho. Talvez como camelô, tão adorados pelos prefeitos. Não produzimos nada. Nossa elite passa finais de semana em Miami, pelo mundo, e não traz nada para usar aqui. Vive em mansões de 50 andares, palácios, mas quando sai à rua, pisa na lama. Esse BRT é um erro brutal, grandioso, que nunca ficará pronto. Dane-se a cidade. Vêm aí novas eleições. Nova chance para, mais uma vez, errarmos. E dizemos que amamos Belém? Ouvimos Fafá cantar a música do pai e da tia Adalcinda e choramos. Devíamos era chorar de raiva. Ir para as ruas. Quebrar tudo. Botar pra fora esses incompetentes. Esses caras têm sorte de sermos um povo frouxo. Que pena, Belém. O último a sair, apague a luz, se já não estiver cortada.

sexta-feira, 17 de março de 2017

A FEIRA DO SOM

Tive a sorte de dar o nome ao “Feira do Som”, programa que está completando 45 anos em atividade. Além disso, são 50 anos de profissão de Edgar Augusto, meu irmão mais velho. Quando um programa de rádio atinge essa longevidade, e na comemoração ganha páginas e colunas em jornal, além de programa em televisão, é porque realmente é importante. 
Foi ali nos anos 1970. Havia várias sugestões. A minha foi acatada. Era uma época fantástica. A Cultura reagia maravilhosamente à ditadura e censura. Cinema, Artes Plásticas, Literatura, Teatro e Música viviam momentos incríveis. Os Beatles pararam. Hendrix e Janis morreram. Mas havia o rock progressivo e muita gente boa surgindo. Aqui tínhamos os baianos, Chico, Milton, pernambucanos como Alceu, mais Elba, Geraldo, Ramalho, cearenses como Fagner. Muita coisa boa. Talvez tenha uma inspiração no programa do Flávio Cavalcanti, que falava de música, embora de maneira tragicamente retrógada. Bem, havia Nelson Motta. 
Edgar já era apresentador do “Cantinho dos Beatles”, com fã-clube e tudo. E também, um dos melhores narradores de futebol que ouvi, perdoem se sou totalmente suspeito. Havia também o “Sábado Gente Jovem”. E a “Feira do Som” inovando, ousando com as novidades, fazendo a cabeça de tanta gente, principalmente pela informação. 
Veio a FM e o programa foi para a Rádio Cidade Morena. O estúdio era pequeno, como são hoje os estúdios onde o locutor também opera a mesa, põe músicas e comerciais. Tive a dádiva de dividir com ele o microfone. Ficava manobrando a mesa de som, enquanto ele, sentado no chão do estúdio, espalhava as notícias. Muita gente boa foi entrevistada ali e sentou no chão. Era tudo muito à vontade. Lembro de Nara Leão, que veio lançar o disco em que canta “Nasci para Bailar”, de Donato e Paulo André. Ela voltou com Roberto Menescal, cantando bossa nova. Lembro de Geraldinho Azevedo, Flávio Venturini, tanta gente... 
Mas a rádio era comercial e o programa acabou por ocupar sua melhor posição na Rádio Cultura, da qual, permitam-me, Edgar já fazia parte desde a Cultura Ondas Tropicais, em uma equipe por mim montada. Com uma voz especial e vocabulário de “dia de semana”, ele usa várias técnicas para prender os ouvintes. As novidades a cada dia. A menção aos músicos presentes em cada música executada. O noticiário local, muito importante para os artistas da terra, criando inclusive apelidos que duram até hoje, como “Operário da Noite”, para Pedrinho Cavallero. Os bordões, repetidos diariamente, estão no pensamento dos ouvintes. Outra técnica de fidelização. 
Se os artistas locais conseguem, nessas trevas em que vivemos há mais 20 anos, ainda existir, apresentar-se, alguns com carreira, gravando CDs e shows em outras cidades, a “Feira” tem parte nisso. Trata os estreantes e os veteranos da mesma maneira, sempre com uma palavra de alento e incentivo. Recebe-os no programa, que ainda tem seções fixas, em que premia os ouvintes e, claro, o “Cantinho dos Beatles”, para os empedernidos. 
Todo esse tempo no ar e com um público de A a Z, em várias faixas etárias, faz esse programa um patrimônio cultural de uma cidade tão sofrida nessa área. Quanto a mim, mesmo à frente de uma emissora comercial, não deixo de ouvi-lo. Edgar é um ídolo. Irmãos, somos amigos. Forneço discos, notícias. O som do programa é o meu preferido, entre outros. Mais do que nunca, continuemos a ouvir, de segunda a sexta, “aqui fala o Edgar Augusto!”. Parabéns!

sexta-feira, 10 de março de 2017

PSSICA NA FRANÇA

A Literatura, mais uma vez, me levou a lugares bem distantes e melhor ainda, ao encontro de pessoas interessadas naquilo que escrevo. Em todos os lugares onde passei, havia mais que curiosidade. Antes do encontro, todos fizeram seu “trabalho de casa”, lendo, pesquisando. Meu livro mais recente, “Pssica”, foi lançado na França. É o quarto romance editado por lá, pela querida Asphalte Editions, comandada pelas adoráveis Estelle e Claire, que além de profissionais competentes, são apaixonadas por seu ofício, criando verdadeiros objetos de arte. E traduzido pelo genial Diniz Galhos. A convite do amigo Pierre-Michel Pranville, grande tradutor, amante do que eles chamam de “Polar” e professor, e da professora Brigitte Thiérion, especializada em Estudos Lusófonos, da Université Sorbonne Nouvelle, Paris 3, fui recebido por um grande grupo de estudantes de nível adiantado para falar sobre minha Literatura e demais aspectos. É realmente algo a deixar qualquer um emocionado e orgulhoso. Depois, fui à Livraria Le Comptois de Mots para apresentar “Pssica” aos leitores e perceber seu interesse pelos escritores brasileiros. Adiante, estive também em Toulouse, ampliando mais ainda o conhecimento que passo a ter por esse fabuloso país onde ler é decididamente importante, exercício que começa nos primeiros anos de vida das crianças, seja através de seus pais, seja da escola. Lá, fui recebido pelos amigos Jean Paul e sua esposa Dominick, que me levaram à Livraria Renaissance para conversar com grande público. Discutimos Literatura e a vida no Brasil. Interessante encontrar lá duas paraenses, uma senhora da família Travassos e outra, a jovem Marilene, que estuda Antropologia. Como tradutora, a professora Emanuelle, que trabalha na Universidade de lá na área de Teatro, com impressão em livro de peças teatrais, traduzidas e discutidas com os alunos. Já iniciamos démarches para também trabalhar na área de Artes Cênicas, inclusive com festival em agosto. Em outubro, Jean Paul dirige um grande Festival especializado em Literatura Policial. Querem levar até lá meu amigo Leonardo Padura. Tomara que consigam. Toulouse é uma bela cidade de 350 mil habitantes, junto aos Pireneus, próxima à fronteira com a Espanha. É lá, também, que os franceses fabricam os gigantescos Airbus que voam pelo mundo, além de satélites. O clima é sempre ensolarado e a temperatura, agradabilíssima. Passear pelo centro da cidade é circular por um casario antigo belo, ruas perfeitas, limpas e jovens, muitos jovens a festejar a vida. Em Paris, desta vez, havia muita chuva, vento, e uma sensação térmica de 3 graus. Os aviões da Latam são novos e muito bons. As viagens são sempre completamente lotadas, o que me faz perguntar a razão para tanto choro das empresas. O que, definitivamente é muito ruim, pela falta de concorrência e fazer passageiros cansados da longa travessia, chegando aqui lá pelas seis da manhã, enfrentar, após a alfandega, longas e desgastantes filas, que duram mais que uma hora de espera, para fazer as conexões para as outras cidades. Pior é chegar à querida cidade e enfrentar novamente o horror que vivemos. Imundície, buracos, pichações, agressão aos mais pobres e tudo o que causa infelicidade. Por quê se reelegeu? O que já é trágico ainda ficará pior?

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

PARA BERNARDO PROENÇA

Quando era criança, andava muito com meu avô Edgar. Os amigos nos paravam, nas ruas e ele me apresentava a todos. Um deles me apelidou de “Miniatura de Edgar Proença”. Eu era baixinho, magrinho, cabeçudo, orelhudo”. Não sei se era um elogio a mim ou a ele. Vovô começava a deixar de ser aquele homem de todos os instrumentos. O empreendedor, trabalhador, líder de turma. “Seu Colega”, ele dizia, “a velhice é uma merda”. Posso imagina-lo, após tantas conquistas, desafios e situações, lidando com a passagem inexorável do tempo. E sim, é claro que ele tinha razão, embora minha geração venha quebrando paradigmas, alongando essa questão da “melhor idade”, postergando ao máximo o que eles chamam de “nova adolescência”. Os filhos cresceram, saíram de casa, há mais segurança na vida e agora podemos viajar, passear, ir a cinema, teatro, jogos de futebol, enfim, curtir mais a vida. Sim, eu sei, não está nada fácil, com a crise que enfrentamos. Mas pensem em seus avós e digam se hoje não vivemos mais intensamente, ainda participando do giro do mundo. Naquele pouco tempo em que fui a “miniatura de Edgar Proença”, percebi, apreendi um mundo de conhecimento, gestos, ironias, inteligência e vida, principalmente, vida. Isso me moldou. Não sei se ele se dava conta disso. Passava muito tempo lendo livros e os pacotes de Lux Jornal, que era uma assinatura que lhe enviava recortes de jornais de todo o país com os assuntos que ele previamente escolhera. O gosto pela leitura. Notícias. Jornais. Tenho sonhado com jornais. Muitos. Hoje, fora os daqui, leio diversos pela internet, diariamente. Mas há alguns anos atrás, o amigo Edwaldo Martins me cedia, às segundas, os jornais da semana anterior. Jornal do Brasil, O Globo, Estadão, Folha de São Paulo, Jornal dos Sports, e vários outros. Depois, passei a compra-los. Meu sonho é que por algum motivo, vou à Banca do Alvino, depois passo na Banca do Plínio, atrás de jornais. Há um monte sob meus braços e não estou satisfeito. Em casa, mergulhava naquele mundo maravilhoso. Isso veio de meu avô. Lembrei disso nesses dias em que ele faria mais um aniversário. Edgar Proença, nome de estádio, pioneiro em tantas coisas, trabalhador incessante. Como ele, também faço rádio, jornal, escrevo livros e peças de teatro. Meu amado e idolatrado avô. E assim como lembro do “Maguenhéfico”, quero registrar a passagem de mais um aniversário do meu neto, Bernardo Proença. Ele nem se dá conta disso, mas ilumina toda minha vida, me enche de orgulho, meramente por existir. Por conta de seus quatro anos, deixando de ser dependente de alguns cuidados, ainda não nos tornamos “unha e carne”. Os netos são nossa continuação. Eu o observo manuseando gadgets eletrônicos com especial confiança. Liga para mim através de Facetime. Basta ouvi-lo dizer “vovô Edyr” e me derreto todo. É como se uma paleta completa de cores fortes invadisse meu céu. Suas palavras são ordens, mesmo que tolices infantis. E saímos de mãos dadas pelas ruas, como atletas que acabam de ser campeões em algum torneio importante, “como um Deus e um poeta”, como diz Fernando Pessoa. Confiantes, orgulhosos. Chega e ocupa meu computador. Tecla com facilidade, sabe os caminhos. Sua paixão atual são carros de corrida, suas miniaturas adquiridas semanalmente para mantê-lo feliz. Não, por falar em miniaturas, ele tem a sorte de parecer com o pai, Felipe e não comigo. Mas sua capacidade de apreensão de tudo o que o cerca já demonstra ter a genética da família. Meu neto querido, pelo presente, pelo futuro, por infinita felicidade, parabéns pra você!

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

VOU BEIJAR-TE AGORA , NÃO ME LEVE A MAL

Talvez eu tenha utilizado, alguma vez, quando criança, em Bailes Infantis de Carnaval, uma lança perfume. Mas certamente para jogar o líquido gelado nas costas dos coleguinhas. Minha melhor lembrança já vem do tempo de adolescente. Ao contrário dos rapazes de hoje que aos 13 anos já sabem de tudo, nós éramos ingênuos, entrando em contato com a vida aqui fora. Tempo dos bailes de carnaval. Pará Clube, Iate, Assembléia Paraense, AABB, Clube do Remo e algum outro que esqueço, promoviam suas festas, lotadas. Para entrar na AP era necessário smoking. Mas quem teria um smoking, na nossa idade? Algum de nós entrava e jogava pela janela, da sede da Presidente Vargas, as jaquetas, gravatas e faixas. E era assim, mesmo, afinal, após entrar, todos ficavam apenas de camisa, suados de tanto pular carnaval. Talvez os mais velhos utilizassem cheirinho da loló e outros, mas eu não via. Meus olhos estavam no salao de danças, onde um cinturão em volta se fazia, com rapazes de olhos compridos, esperando a vez de poder dançar com alguma garota. E já não era apenas Baile dos Brotinhos e sim um Baile das Máscaras, por exemplo. A orquestra podia ser de Orlando Pereira. Lembro dele, sorridente, à frente da banda, marcando o compasso com os braços. Os pares passavam dançando como em um carrossel. E aquela garota com a qual você sonhava a semana toda, passava, às vezes dançando com uma amiga, em outra com aquele bonitão, mais velho, experiente, cantando e sussurrando em seus ouvidos. Um sofrimento. Mais do que isso, minha timidez evitava que em ato de extrema coragem, saísse daquele cordão, atravessasse o salao e, impávido,  fosse até a mesa em que ela estava sentada com mãe, pai e irmãos, pedindo para dançar. Significava passar por um exame completo, como um scanner feroz. Pior, o altíssimo risco dela dizer que estava cansada. O retorno, arrasado, humilhado por não conseguir tirar nem uma menina para dançar era terrível. Para dar coragem, íamos em grupo e comprávamos meia garrafa de rum e algumas cocas. Aos poucos íamos inflando o ego e achando que éramos invencíveis. Às favas as possibilidades. Atravessarei este salao e direi a ela: vamos dançar? Estenderei a mão que ela pegará e ficaremos juntos a noite inteira. Um dos bons momentos de abordagem é quando começavam a tocar marchas rancho. O ritmo diminuía, alguns iam tomar alguns drinques e se nào fosse ali, era melhor ir embora para casa, derrotado. Então, cheio de coragem você olha e nem percebe que ela o aguardou a noite inteira por aquele convite. Que passava dançando com a irmã somente para provocar. A voz falha na hora do “vamos dançar”, mas logo nos encaminhamos ao salao. Bandeira Branca, amor, nào posso mais. Na mesma máscara negra que esconde teu rosto, eu quero matar a saudade. E então vêm as marchinhas mais animadas e ela não pede para parar. Agora nos olhamos e rimos, andando no círculo e cantando. O tempo que durou, não faço idéia. Veio mais uma sequencia de marcha rancho e ela continuou. Deveria convida-la a ir até o terraço, sei lá, outro canto, para conversar e, vocês sabem como é.. Mas não. E então tocou “Viva o Zé Pereira, viva o carnaval”. A mãe fez sinal. Ela virou para me dizer adeus. Estávamos com os rostos tão próximos que o beijo foi natural e também um susto para ambos. Olhamo-nos perguntando um ao outro. Consegui balbuciar: na porta do Colégio Moderno?