sexta-feira, 16 de agosto de 2019

3 DIAS DE AMOR, PAZ E MÚSICA, NUNCA MAIS

Neste agosto, completam 50 anos da realização do Festival de Woodstock, realizado em 1969, em um descampado da fazenda de Max Yasgur, em Bethel. Há pouco tempo havia acontecido o Festival de Monterrey, onde a juventude da época iniciou o que se chamou de “Flower Summer”. Os Estados Unidos estavam em guerra no Vietnã e havia passeatas e movimentos combatidos ferozmente pelas autoridades. Era a geração pós Segunda Guerra Mundial, que se levantava contra a caretice dos tempos. A idéia dos hippies era paz e amor. Havia comunidades onde tudo era de todos, inclusive sexo. Alguns estacionados, outros vivendo em kombis que circulavam pelo país. Michael Lang resolveu fazer o festival. Teve dificuldade em fechar contratos por conta da inexperiência. Havia ingressos sendo vendidos, mas de repente, como um tsunami, multidões jovens começaram a se dirigir até a tranquila cidade de Bethel, cujos moradores viviam da criação de animais e agricultura. O primeiro problema foi conter aqueles sem ingressos. As cercas foram ultrapassadas. Agora era gratuito. Aos poucos, juntaram-se 300 mil pessoas para assistir aos shows, em uma época em que as caixas de som não davam conta daquele espaço todo, muito menos o delay da música. As autoridades determinaram estado de sítio. As estradas ficaram imprestáveis. Até artistas não conseguiram chegar. Joni Mitchell voltou para casa e compôs “Woodstock”, um de seus maiores sucessos, sem ter estado lá. Outros tiveram de ir de helicóptero. Houve algumas overdoses, nascimentos, namoros rápidos e permanentes e um quase nada de violência. Veio a chuva e tudo virou lamaçal. Foram todos tomar banho nus, homens, mulheres e crianças. Havia quem desse aula de yoga, meditação transcendental e se apresentasse tocando suas músicas. Alguém não havia chegado. Jon Sebastian, que era do Lovin Spoonful estava lá e foi cantar. Dedicou aos nenéns e mães de Woodstock. Crosby, Stills, Nash & Young nunca haviam tocado ao vivo. Tremiam. Santana tinha um horário. Anteciparam em oito horas. Estavam relaxados, drogados. Foram ao palco e arrasaram. Grateful Dead tocou muito. The Who e “Tommy”. Janis. Michael Wadleigh decidiu filmar. Quando viu o tamanho da coisa, voltou a NY e catou todos os carretéis de filmes da cidade. Ganhou Oscar. Um gravador na beira do palco registrou o som. Incrível como até ficou bom. Hoje, 50 anos depois, tudo está restaurado e relançado. Jimi Hendrix fechou, com atraso, manhã cedo, o festival. Testou nova banda que não foi adiante. Tocou celebremente o hino americano na guitarra, com sons de bombas e aviões. O mundo nunca mais foi o mesmo. Para lançar o álbum triplo, as gravadoras que não a Atlantic, liberaram apenas canções menos famosas de seus artistas. Por causa delas, do filme, da trilha, muitos desses artistas estouraram mundialmente. Os Beatles tinham acabado. Os Stones estavam de férias. Agora imaginem um moleque magro, cabeçudo, orelhudo, curioso, 16 anos, assistindo sete vezes no Olímpia esse filme. Mudou minha vida. Houve outro festival, que terminou com brigas, incêndio e drogas pesadas. Michael Lang quis festejar os 50 anos. Lutou muito, mas não conseguiu. Artistas cancelaram, patrocinadores caíram fora. Os tempos são outros. Vivemos um tempo de guerra, animosidade e infantilismo musical. Paz, amor e música, nunca mais.

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

UM OBSERVADOR

Uma das melhores qualidades de um escritor é a observação. Quando alguém me chama a atenção, por qualquer motivo, observo. Assisto seus movimentos, tiques, fala, o jeito como anda. É quase uma mania. Lá adiante, em um romance, essas observações surgem na constituição de um personagem. Atores são grandes observadores. Cacá Carvalho usa um método interessante. Manda os atores escolherem alguém para seguir na rua, atentos aos seus movimentos. No dia seguinte, mostram no ensaio. Quando encenamos “Hamlet, um extrato de nós”, a primeira cena era o banquete do novo rei, elenco todo no palco. O público assistia a uma peça mas os atores, na verdade, embora dizendo seu texto, tinham outras motivações. Havia uma moça se maquiando no ônibus, um guarda noturno que teve a atenção chamada para um ruído, uma senhora pagando com cartão de crédito sua compra, outra pagando promessa para Nossa Senhora de Lourdes, enfim. Uma vez contou que em determinado espetáculo, em cena, ele dizia seu texto mas na verdade, estava na cozinha de sua casa, conversando com a mãe que passava a ferro algumas roupas. Fotógrafos, pintores, enfim, todos são observadores. Minhas melhores fotos, se é que uma figura tosca como eu pode gerar boas fotos, foram feitas por Luiz Braga. Amigo antigo, já diversas vezes o assisti fotografando. O que o fotografado não sabe é que, desde que entra no estúdio, está sob observação. Luiz pergunta, ri, relaxa, oferece cafezinho. Enquanto isso, vai encontrando aquele que mora dentro daquele corpo e seu melhor angulo. Em meu livro mais recente, que espero ardentemente lançar via Boitempo, aprendi sobre o poder da observação de um jogador profissional de pôquer. Você, pessoa comum, decide ir a um cassino, se divertir. Separa um dinheiro (sem dinheiro, nem chegue perto) e vai disposto a sentir a adrenalina, considerar se vai ganhar aquela “mão”, quem sabe blefar e ao final da noite, satisfeito, mas sem dinheiro, achar que valeu a pena. O profissional não está ali para se divertir e sim para trabalhar. Ele vai mirar em você, avaliando quanto tem para perder. Observará por tempo suficiente, seus tiques, expressões, corpo, tudo. Ganhará e perderá na medida certa, até que você aposta pesado com a certeza de ganhar. E ele ganha. Você vai feliz pelas emoções e ele com seu dinheiro.

Na madrugada de segunda, fui à janela do prédio fumar um cigarro. Rua deserta, as pessoas dormindo cansadas da farra do final de semana. Vejo ao longe uma pessoa. Pelo andar, era um homem. Mais próximo, percebi estar de vestido, saia curta. Um travesti. Rua deserta, sem ninguém para impressionar, andava de maneira masculina, inclusive parando atrás de um carro para ajeitar seus, digamos, atributos. Eu, observando. Notou. Olhou e pediu um cigarro. Joguei do terceiro andar. O cigarro caiu no asfalto e começou a deslizar para a vala. Rápida, com um gritinho, ciente da plateia, recolheu o cigarro, acendeu, tragou, soltou fumaça e agradeceu com um volteio bem feminino. Claro, saiu andando rebolando, exageradamente, para sua plateia. Quando passo de carro pela Manoel Barata, à noite, assisto às movimentações das “moças”. Algumas com um olhar distante, tipo modelos, outras agarradas a um poste, fazendo as carentes e sim, há despojadas, que mostram os seios e muito mais. Mais do que tudo, elas querem ser vistas, desejadas, observadas. Ih, acabou o espaço.

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

SILÊNCIOS DE LAR

Estava passando de carro e havia um engarrafamento. Aguardando, prestei atenção em uma casa antiga, fechada, aparentando abandono. Me detive nos enfeites na fachada. Havia uma data, como muitas vezes ocorre. 1913. Fotografei e postei no Facebook. Muita gente comentou sobre o abandono, outros reclamando ação do Iphan. A casa onde funcionou o Teatro Cuíra também é antiga, de 1915. Ali chegou a funcionar até uma fábrica de algodão. Nunca morei em casa. Sou de apartamento. Mas quando era adolescente, frequentei muito a residência da família de meu amigo inesquecível, Abílio Cruz, ali na São Jerônimo, permitam chamar assim. Uma porta grande, escada comprida, sala grande, alcova, outra sala e então o que chamam de puxada, ou seja, longo corredor com vários quartos, até chegar à cozinha e então o quintal. A Casa Cuíra, na Cidade Velha é assim. Na parte da frente, grandes salas onde ensaiamos e apresentamos peças. Mais atrás, o antigo proprietário como que construiu outra residência, moderna, mas guardando o longo corredor e quartos. Há muitas dessas casas em Belém, sobretudo na Cidade Velha. Não sou da área, mas penso que o Município, Estado e União já deviam ter melhores idéias para sua preservação. Não vou fazer sugestões. Não é possível que não pensem nisso, ou só acham possível com dinheiro oficial, que nunca virá.  Mas foi passando diante dessas moradias, final da tarde, vendo senhorinhas na janela, banho tomado, entalcadas, cheirosas, apreciando o movimento, que decidi escrever a peça “Toda minha vida por ti”. O que atiçou minha curiosidade foi saber as histórias que essas casas, essas senhorinhas guardavam. Os tempos de fausto. Da juventude. Os amores. E aos poucos, a vida se esvaindo, os filhos e netos batendo asas e ficando aquele espaço vazio, onde o vento chora, uivando de saudade. Minha tia Adalcinda chamou isso de “silêncios de lar”, na “Bom Dia Belém”, musicada por meu pai. Os móveis, ainda com as marcas de uso, ou envolvidos em capas brancas. O relógio antigo, à corda, batendo melancolicamente as horas. A vida, agora, está nas recordações. O relógio serve apenas para saber os momentos de tomar os remédios, aguardando, aguardando. Mas tem a televisão com suas novelas. Ficam ali, aparentemente prestando atenção, mas na verdade, passa um filme, talvez seja o mesmo, repetindo, repetindo, dos grandes e alegres momentos, das chegadas e partidas, das viagens, das cerimônias, da casa cheia. Não, não estão sós, mas cercadas de todos os entes queridos, que enxergam em todos os cantos. O sorriso da netinha, que havia nascido. É a cara de quem? O filho, bem adolescente, aborrecido por não ter tido permissão para ir à festa de noite. O mundo de hoje, com sua instantaneidade, nos escravizou e estamos sempre correndo para algo que nos oferecem nas milhares de telas que nos dirigem. Sim, o grande Irmão algoritmo que agora já sabe de nossas preferencias e opiniões mais veladas. Entro no carro e o celular avisa que chegarei em meu destino em tantos minutos. Estava me acompanhando? Sim. Lembro do “Prc5”, em seus 80 anos, que aproveitei a deixa de Ítalo Calvino e suas “Cidades Invisíveis”, para mostrar que muitos acham que o mundo começou no dia em que nasceram. Não querem saber quem esteve aqui antes, construiu, amou, venceu, perdeu, pisou nestas calçadas e proporcionou para que esses nascessem. Talvez, quando penso nesses casas antigas e seu interior, esteja falando de mim.

sexta-feira, 26 de julho de 2019

O DIA DO ESCRITOR

Acho que se nasce escritor. Genética. Meu avô, minha tia, meus pais. Desde cedo me apaixonei por livros de capa e espada. Adiante, o professor Berbary me proporcionou conhecer José Lins do Rego. Adolescente, acompanhando de longe o sucesso das óperas rock e resultando de uma educação que me fez acreditar que tudo poderia ser feito, e responder por isso, junto a um irmão, comecei a escrever “Foi Boto, Sinhá”. Minha mãe forneceu um glossário de expressões amazônicas e fui em frente. Um dia desses descobri texto mais antigo, pretensiosamente “psicodélico”, claro, sem qualquer droga envolvida, chamado “A Medéia Lisérgica”, escrito à mão. Me interessei pela poesia marginal após algumas viagens ao Rio de Janeiro. Encontrava livros artesanais, cópias xerox e me identificava com a linguagem. Lancei meu primeiro livro, “Navio dos Cabeludos”. O que me impulsionava? O consumo era mínimo. Poucos acompanhavam o que estava fazendo. A seguir, lancei uma fita cassete com poemas não declamados, mas “ditos”, usando sons, criando quadros. Minha poesia sempre teve tudo a ver com o teatro, a cidade, as pessoas comuns. Aí vieram as crônicas. Meu pai foi um excelente cronista e desde cedo nos fez ler Nelson Rodrigues, Oto Lara Rezende e outros ótimos. Hoje estou por aqui. E os romances? Pois é, nem eu sabia que tinha tantas histórias para contar. O primeiro veio da idéia de relançar as radionovelas. Elas não aconteceram mas eu já estava curioso sobre o que desenvolvia. Pura diversão. Conseguir o interesse de uma editora paulista, a Boitempo foi uma grande e essencial vitória. Ivana Jinkings apostou em mim. Continua apostando. Hoje tenho seis livros na Boitempo, contos no Peru e no México. Um livro na Inglaterra e quatro na França. O próximo, já está garantido também na Asphalte. O que move o escritor a escrever? Acho que escrevo para respirar. Com toda a sorte de ter livros nacionais e internacionais, sou absolutamente invisível em minha terra. Quase trinta anos de escuridão cultural acentuam isso. Mas desde que iniciamos a Flipa, alguma coisa mudou. Há novos escritores. Precisamos valorizar os que já estão aí, sobreviventes dessa intensa nuvem que nos faz invisíveis. Se pudesse dar um conselho, diria aos jovens escritores que falem do seu chão. Seu cenário. Muitos, influenciados por Stephen King e séries de tv, ainda dirigem suas histórias para um bolo em que estão milhares de outros, ao invés de se distinguirem com algo de sua região. Acho que esse foi um de meus trunfos. Mas se conselho fosse bom... Cada um tem sua maneira, seu tempo, sua idéia. Ontem foi o Dia do Escritor. Quando alguém me pergunta sobre a profissão, digo, agora, aposentado do rádio, que sou escritor. Levantam a vista, exclamam admirados, olham tentando reconhecer um Paulo Coelho, mas nunca leram nada. Acabam de ler meus livros e dizem que é um roteiro de filme, pronto. Mas é o roteiro de cada um leitor. Como não me estendo em descrições e sabendo que em nosso mundo imagético, todos têm uma grande coleção em seus cérebros, faço com que montem seus filmes. Quem vai ao cinema, assiste ao que o montador apresenta, Não há que imaginar. Ah, o livro é muito melhor. Sinto muito orgulho, felicidade, alegria, mesmo, por ser escritor. Sem juízo de valor. Desejo a todos, mais que sucesso, que sejam lidos. Parabéns!

sexta-feira, 19 de julho de 2019

70 ANOS DE PAZ E ÀS NOVAS CANDIDATURAS

Henrique da Paz completou 70 anos. É um dos grandes nomes do Teatro Paraense. Está à frente do Grupo Gruta, um dos mais antigos e perfeitamente atuante. Acabou de reler “Antígona”, no Waldemar Henrique. Além de ótimo diretor, exigente, sábio, estive com ele na condição de ator em dois momentos marcantes de minha vida. Em 1985 ele foi Francisco Vinagre no espetáculo “Angelim, o outro lado da Cabanagem”, apresentado em uma segunda feira, 7 de janeiro, no Teatro da Paz, data da revolta. Era empolgante vê-lo em cena, o ator em seu auge. Ele “era” Francisco Vinagre. Dois meses de ensaio, lapidando cada gesto, melodia de voz. Bons anos depois, “Hamlet, um Extrato de Nós”, do Grupo Cuíra, dirigido por Cacá Carvalho, fazendo Polônio, magicamente envolvido naquele processo genial, vivido por um mês, 24 horas de ensaio e compromisso. Como há muito a Secult e a Escola de Teatro estão distantes do teatro, a primeira retornando, a segunda com seus alunos não assistindo às peças em cartaz, mesmo que oferecidos ingressos gratuitamente, até agora, os 70 anos passaram sem qualquer nota. Que pena de um Estado que não festeja seus nomes, pessoas que contribuíram e contribuem fortemente para a formação de um povo, doam-se a um trabalho cansativo, embora, para eles, não exista saída. São artistas. Vi uma foto, no Face, de um encontro entre Salustiano Vilhena, Neder Charone e Claudio Barradas. Quanto talento junto! Tenho ensaiado com Barradas a volta de “Abraço”, que fizemos no Teatro Cuíra, claro, como era praxe naquele tempo, sem qualquer apoio oficial. O que podemos fazer para o grande Salustiano voltar aos palcos? E Neder e seus cenários inesquecíveis? Impressionante é assistir Cláudio Barradas, 90 anos, dando seu texto, sugerindo gestos, vozes, movimento, pleno de sua sabedoria teatral. Eles continuam, mas as pessoas não acompanham. Não notam. Não percebem que dão as costas à vida, à Cultura, ao talento.

E aproveito para sugerir, já que ando ouvindo comentários a respeito de candidaturas à Prefeitura – antecipação mais que necessária tendo em vista ao descalabro e abandono da cidade, algo para os candidatos pensarem sobre Cultura. Começa em considerar Cultura algo importante e não dar dinheiro para pequenos eventos apoiados por vereadores e que tais. Passa por analisar os bairros e locais onde poderá instalar mecanismos culturais. Salões paroquiais? Sedes de clubes? Nos maiores bairros, mais mecanismos. Levar oficinas, fazer com que crianças, jovens, adultos e idosos voltem a conviver com o fazer cultural. Realizar eventos nos finais de semana, principalmente à noite, entrando pela madrugada, evitando que esses jovens estejam à mercê do que não presta. Editais para artistas de várias áreas, de maneira a apresentar-se e conviver com as comunidades. Concurso arquitetônico para prédios a serem construídos nos bairros. Sugiro trabalhar com o Ibama para doação de madeira apreendida. Tudo feito de madeira, bem amazônico. Sugiro a construção do Teatro Municipal no Mercado de São Brás, onde como ápice, todas as ações estarão. Parece muito? Nada disso. Imaginem quanto já foi gasto no superado BRT. A última vez em que a cidade teve uma secretaria trabalhando Cultura foi quando Paes Loureiro lá esteve. Uma cidade inteira está sofrendo, brigando, morrendo, apanhando, sendo humilhada, sem qualquer horizonte, à espera de Cultura, acreditem, senhores candidatos.

sexta-feira, 12 de julho de 2019

CRIATURAS DESPREZÍVEIS E MARAVILHOSAS



A maior parte dos meus livros é cheia de personagens de baixo nível, segundo padrões da sociedade. Além da influência de Rubem Fonseca, Dashell Hammett e James Ellroy entre outros, o mundo que me cercava no prédio em que morei uma vida inteira, me seduziu. Pessoas que vivem no limite, vivendo cada dia, sem saber o amanhã. Acordam e não sabem se terão café da manhã, almoço ou jantar. Estão para o que ocorrer. Cafetões, prostitutas, traficantes, camelôs, engraxates, gente que toma conta de carros, magarefes, formam uma quadrilha informal irresistível. São criaturas desprezadas em nome de nossa hipócrita sociedade de homens de bem. Eu os adoro. Caminhando no meu entorno, fiz amizades, me sentia protegido e principalmente, os assistia no seu dia a dia. Ouvia com atenção seus reclamos, xingamentos e alegrias. Lembrei agora de Roni, que toma conta de carros parados em frente ao prédio do INSS. Baixinho, responsável até tomar uns gorós, quando toma seu balde plástico onde põe água para lavar carros, agora transformado em tambor. Batuca e canta melodias que nunca ouvi antes. Um fim de tarde, ele me aborda e me pede uns trocados. Não vou mentir, doutor, é pra tomar uns gorós. Há, neles, uma dose imensa de humanidade, com sentimentos à flor da pele, necessidades urgentes e emoção, muita emoção. Nas prostitutas no seu eterno aguardar por clientes. Amor? Amor? Vamos fazer um amorzinho gostoso, lançam propostas aos passantes. Lá de cima, vejo esconderem trouxinhas em seus decotes e vão passando, incólumes, raspando guardas que revistam suspeitos na clássica posição de braços na parede, pernas abertas. Quando encontro uma literatura que fala desse mundo, leio sofregamente. É o caso de três livros que indico a vocês.
“Marafa”, de Marques Rebelo, foi escrito em 1935, retratando o Rio de Janeiro com seu carnaval, boemia, malandragens, brigas, com um linguajar delicioso e cheio de humor. Malandros, putas, trabalhadores, circulam por subúrbios, cortiços e bordeis jogando, apostando, fazendo amor e crimes. O título é palavra que segundo Aurélio, significa “vida desregrada, licenciosa, libertina”. Adoro. Uma delícia ler o romance do malandro Teixeirinha com a prostituta Rizoleta.
Outro que tal é “Criaturas que o mundo esqueceu”, de João Carlos Rodrigues - HumanaLetra, novamente ambientado no Rio de Janeiro de algumas décadas atrás, reunindo contos que mostram um nobre francês, uma condessa italiana, cronista social, cantora do rádio, travestis, gays, malandros, garotos de programa, uma fauna na Cidade Maravilhosa, em festas que podem ser em Copacabana ou em Xerém, ruas e praias de Ipanema, ou cabarés no centro.

Para terminar, “Eles e elas – Contos da Broadway”, de Damon Runyon – Carambaia, em contos que reúnem toda a fauna que habitava a Broadway, New York, entre 1920 e 1930, basicamente reunidos no restaurante Lindy’s. Runyon, jornalista, cobria esportes, levava uma vida de observação. Sentava e assistia o balé de coristas, contrabandistas, mafiosos, putas, gays e bem adiante, precisando de dinheiro, começou a publicar e a fazer sucesso. Leiam, urgentemente.

sexta-feira, 5 de julho de 2019

FOI ASSIM QUANDO EU VI O MAR

A primeira vez em que mergulhei nas águas de uma praia no Rio de Janeiro, tinha apenas nove anos. Minha avó, de vestido, sombrinha, vigiava do calçadão meus movimentos. À época, a água não ficava tão distante da rua. Indômito garoto mosqueirense, armado com minha prancha de pegar jacaré, respirei fundo e iniciei uma corrida vitoriosa, até mergulhar para aguardar as ondas. Aos primeiros passos na água, senti algo diferente. Em seguida, ao mergulhar no melhor estilo Johnny Weissmuller, senti a temperatura diferente. Ao invés da água quente e lodosa da Praia do Farol, aquela água de oceano estava ge-la-da! Retornei à margem perdendo toda a pose de campeão, sem poder preocupar-me com o olhar dos outros moleques que pareciam estar muito à vontade, dentro d’água. Assustado, sentindo ainda o frio do mergulho, percebi que era um verdadeiro Rubicão. Com cautela, fui andando lentamente, deixando a água tocar-me o corpo aos poucos. Não foi possível. Na primeira onda que apareceu retirei-me, tentando ser garboso, de tal forma que pensassem que não estava satisfeito com a altura das ondas, naquele dia, digamos. Paraenses, naqueles dias do século passado, viajavam em magotes para o Rio de Janeiro, nas férias de janeiro. Ainda viajam, apesar de Miami estar competindo. Encontravam-se pelas ruas e perguntavam: Quando tu chegaste? Quando tu vais? Lembro de meus tios levando a mim e meu irmão até São Conrado para conhecer o mitológico Bar Ben, patrocinador do programa de Big Boy, o lendário dj da Rádio Mundial, que ouvíamos em Belém. O bar era meio chinfrim. São Conrado ainda era pouco visitado, a não ser por rapazes em seus bólidos levando garotas para assistir “corridas de submarino”. Adolescente, chegávamos às praias, agora, Ipanema, com várias turmas, dependendo do posto ou da rua. Escavávamos a areia, esticávamos toalhas ou cangas, de tal maneira que o montinho virava um travesseiro e ali ficávamos lagarteando ao sol, besuntados de Rayito Del Sol. Parte dessas lembranças escrevi em uma peça chamada “A Menina do Rio Guamá”, sobre uma paraense que ao viver na Cidade Maravilhosa e esquecer de sua origem e seu sotaque, recebe a família, estabelecendo-se o choque cultural. Foi muito legal. Adulto, fui esquecendo da praia e preferindo São Paulo. Agora, 35 anos depois, talvez, na Praia do Pepê reencontrei o vento, a maresia, areia e seus personagens. Sim, ambulantes vendendo biscoito Globo, olha o Mate! Sorvete Kibon, olha o queijo coalho! Vendedores de chapéus e biquínis. Superando a barreira das ofertas de cadeira e guarda sol, fiquei ali, com protetor 200, chapéu e camisa contra UV. Passam belas mulheres em biquínis audaciosos e outras, mais velhas, ou acima do peso, qualquer coisa, também em biquínis audaciosos, demonstrando não estar nem aí para quem quiser achar ruim. Tiozinhos aposentados, fit, bronzeados, circulam. Garotos em pranchas de surf e Paddle. Desta vez, os praticantes de kite surf não apareceram. E vamos dar um mergulho. Cauteloso, inicio a caminha lentamente, até tomar coragem e tibum, que água maravilhosamente gelada, transparente e convidativa. E lembrem que se trata de inverno. Não há uma nuvem no céu e já admiti que nada mudará até ir embora. Pego um livro de Sergio Rodrigues, abrindo em um conto sobre a visita de João Gilberto aos Novos Baianos, em seu sítio, no Rio. Acabo de ler e prefiro contemplar a paisagem. Limpa a mente, faz bem aos olhos e penso que o Rio de Janeiro, apesar de tudo, continua lindo!