sexta-feira, 14 de junho de 2019

ROXY BAR, 35 ANOS DE PRAZER

Neste sábado, o Roxy Bar completa 35 anos de serviços prestados ao bem viver, ao prazer da companhia de amigos, desfrutando de um ambiente festivo, com músicas, vídeos e até shows musicais. Em uma terra cruel para iniciativas de bom gosto, é uma façanha chegar até aqui, mantendo o mesmo padrão de atendimento e, mais importante, um público fiel que aguarda pacientemente em bancos corridos, a chamada para ocupar mesas. No Roxy, há permanentemente festejos para aniversários, formaturas e encontros de amigos de uma vida inteira. Ali, pessoas se encontraram, constituíram família e hoje, seus filhos, já acompanhados de rebentos, continuam frequentando. Mas afinal, qual é o segredo do Roxy Bar?
Meu irmão Janjo. Ali nos anos 80, do século passado, boêmio, queria estar em um lugar criativo, alegre, com mesas grandes, para passar a noite em boa companhia. Primeiro veio o Gato & Sapato, com o saudoso Paulo Magá. Roxy Bar em homenagem ao velho cinema de Copacabana, Rio de Janeiro. E a homenagem ensejou, também nomear os pratos com nomes de grandes artistas, a partir da eterna Marilyn Monroe, que virou musa do bar. Um prédio na esquina da Almirante Wandenkolk com Senador Lemos, estava fechado há muito. Já havia sido local de comércio de madeiras e muitos outros fins. Uma brincadeira para julho? João Carlos Braga e José Franco aderiram. Para o cardápio, escolheram os pratos que gostavam de comer. Uma cozinheira de mão cheia, Luzia, traduziu tudo em delícias. Receitas presentes até hoje. Na época, a grande novidade era a MTV, continuamente passando vídeo clips de músicas de sucesso. Ainda não havia no Brasil, muito menos em Belém. Um amigo, morando em Miami, no horário de almoço, gravava em vídeo cassete e no esquema de “deixa que eu levo”, mantinha vários monitores espalhados no salão, perfeitamente antenados com os sucessos do momento. O vídeo bar. Um jingle vitorioso, primeiro executado na Rádio Cidade Morena e depois na Jovem Pan, periodicamente atualizado, em arranjos diferentes, definiu, em seu final, o que se tornou seu slogan: o prazer de estar lá. Deu certo. O saudoso Henrique Penna, arquiteto, criou o primeiro visual. José Franco saiu. Janjo e João Carlos, ficaram. Vieram shows musicais. Foram embora. Veio a Mona Lisa gorda. Sadam Hussein a pedido dos frequentadores. Nunca mais foram embora. Alguns pratos novos entraram. O cardápio passou a ser imitado. A equipe de garçons é quase a mesma, desde o início. Entrou ar condicionado. O delivery a todo vapor. E um telão, maravilhoso, com vídeos interessantes, criando a atmosfera propícia ao que chamamos de joy of life. Uma mudança nos costumes, também ajudou o Roxy. Ninguém mais quer ser velho. Todos queremos ser jovens, na atitude em relação à vida. Queremos ir a um local para celebrar a vida. Sim, o Roxy Bar é a criação de Janjo Proença, o big, o barão, como muitos o chamam. Mas é também João Carlos Braga mantendo o que é mais importante, o padrão reconhecido por todos. Agora é Marina Braga a responsável pelo funcionamento perfeito da máquina. Veio o desafio do Roxy Bosque. Sucesso, novamente. Quanto a mim, acompanho tudo. Sinto amor profundo pelo empreendimento. Torço para que continue assim. Torço por João, Marina e torço pelo meu irmão, parceiro, sócio e amigo Janjo Proença!

Parabéns Roxy Bar, 35 anos de prazer!

sexta-feira, 7 de junho de 2019

JUNHO

Minha mãe adorava o mês de junho, principalmente por ser o mês de seu aniversário. Ainda bem crianças, comprava aqueles ramos para fazer coroinhas de São João, que hoje ninguém mais usa. Também banho de cheiro, cheiroso como nunca. Havia uma casa no Lago Azul, antes de transformar-se nessa Shangrila dos mais ricos. A casa foi uma das primeiras do loteamento e há até uma rua com o nome de meu avô. No aniversário, mamãe passava o dia para lá, arrumando tudo. Quando chegávamos, após as aulas, já livres de compromisso, a música era forró. Bandeirinhas atravessavam o quintal e lá adiante, a fogueira que tanto me hipnotizava. Quando já estava nos estertores, passávamos correndo, pulando, naquela brincadeira de virar compadres. E claro, o banho cheiroso. Nunca fomos muito chegados a soltar fogos. Meu pai não gostava. Logo mais volto ao assunto. Ainda não havia luz elétrica para aquelas bandas. A casa tinha um motor que, como sempre ocorre, dava problemas justamente quando era muito necessário. Uma equipe de técnicos da Rádio Clube, cuidava. Wilson Assunção, o “Mucuim”, comandando as ações. As crianças brincavam correndo pelo quintal, menos uma. Aquela “junta técnica” debruçada sobre o motor me atraía. Olhava maravilhado as ferramentas apertando, aparafusando, trocando peças, até que, finalmente, o motor começou a funcionar, com algumas tosses. Mucuim apressa-se a corrigir a velocidade da máquina, regulando seu ritmo. Era demais. Como ele fazia aquilo? Debrucei-me e para ter melhor equilíbrio, amparei-me em algo que, percebi aos berros, era a chaminé do motor, que estava bem quente. Foi aquela correria. Um sugere manteiga, outro apenas água, pasta de dentes. Eu urrava. Foi meu batismo junino. Minha curiosidade sendo punida. Bem, talvez até hoje. Como escrevi antes, meu pai não gostava de fogos. Considerava-os perigosos. Também acho. No colégio, colegas mais desinibidos já operavam bombas de diversos tamanhos, inclusive “cabeça de nêgo”, que explodiam, sorrateiramente, no banheiro, após o início das aulas, causando barulhão, investigações e cpis que não davam em nada. Meu tio José Leal, gostava de foguetes. Compatível com seu gênio bem humorado, cervejeiro fanático. Ele apresentou a nós algumas dessas pistolas que no ar, transformam-se em chuva de pétalas de rosas e outros desenhos, assobiando ao subir ao céu. Temerosos, ficamos na dúvida, inclusive meu primo, Antonio José. Debochando de nossa coragem, ele prepara-se para acender o pavio. Meu pai vê e resolve intervir. Disse que era perigoso, que havia muitas crianças, essas coisas. Aos nossos protestos, decidiu chamar o caseiro. Seu Antonio era pessoa simples, caboco da terra, participando daqueles primeiros dias do loteamento. Soltar um foguete daqueles era brincadeira de criança. Recebeu instruções. Fizemos um círculo, com alguns metros de distância. Acendeu o pavio. Foi rápido. Por um defeito qualquer, a pistola em vez de disparar para o alto, tomou a direção do chão, enchendo o ambiente de fumaça e estrondo. Assustados, não víamos mais Seu Antonio, que até então estava no meio do círculo. Atento, meu pai corre até ele, que permanece rígido, de pé, o braço ainda erguido com o resto da pistola nas mãos. O senhor está bem? Não foi ferido? Ele abre os olhos, encara a todos e declara “Estou sordo”! Felizmente não houve nada, meu pai pegou o violão e começou a seresta sem hora para terminar. Como minha mãe gostava do mês de junho!

sexta-feira, 31 de maio de 2019

VAMOS AO TEATRO, MAS NÃO ME CHAME

Em um momento terrível para a Cultura, no Brasil, dois filmes nacionais recebem prêmios importantes no aclamado Festival de Cannes, na França. Mais interessante ainda, filmes dirigidos por cineastas do nordeste, um cearense, dois pernambucanos. Os jornais do sul e sudeste correram a noticiar e comentar. Penso que, quando apresentados por aqui, devam ter razoável bilheteria, baseado na curiosidade e na importante láurea do sucesso “lá fora”. Tive, há pouco tempo, a mesma experiência, após tantos anos escrevendo e com uma editora do porte da Boitempo. Foi após um prêmio recebido em Lyon, que os grandes jornais deram alarde ao “Pssica”, meu mais recente trabalho. Será que é suficiente? Claro que não. Do meu livro tive e tenho um consumo acima das expectativas, mas ainda muito distante do que poderia acontecer em um país tão grande quanto o nosso. O mesmo posso dizer dos filmes premiados. Nos últimos anos, houve um grande avanço na venda de ingressos para assistir filmes nacionais, do gênero comédia, filão percebido sobretudo por comediantes “globais”, que levaram às telas o mesmo tom de sucesso de alguns programas da tv. O setor vive problemas sérios a serem resolvidos pela Ancine. Tão sérios que para o lançamento dos “Vingadores”, blockbuster americano, uma comédia nacional, lotando todas as salas, foi retirada para dar lugar aos super heróis. É claro que defendo nosso cinema e sou contra o que aconteceu. A comédia é um gênero excelente. Mas essa preferência fará com que os filmes de Karim Ainouz, Kleber Mendonça e Juliano Dornelles, acabem em cine clubes, ou streaming. Aproveito e trago a situação para o Teatro. Deixo de lado a imensa quantidade de jovens, vítima da falta de Educação e Cultura, para quem o Cinema é apenas aquela profusão de explosões e super heróis, bem infantilizados, o Teatro é algo chato e Literatura, dá vontade de dormir. Deixo de lado. Quero aqui fazer um apelo a todas aquelas pessoas que saíam de casa para assistir os bons filmes, as boas peças de teatro, liam os lançamentos literários, frequentavam as galerias de arte. Voltem. Saiam de suas casas. Deixem as novelas, noticiários. Voltem a frequentar. Nós encontramos essas pessoas, gente amiga, inteligente, estudiosa e nos perguntam de nossas atividades. Estamos em cartaz com tal peça. Já viste tal filme? Meu livro vai ser lançado em tais dias, enfim. Não faltaremos, dizem. Mas não vão. Há muitas desculpas, todas esfarrapadas. Há alguns meses, conversava com uma amiga, minutos antes de iniciar um espetáculo na Casa Cuíra. Contou que leu alguma publicação minha, viu a propaganda da peça e decidiu sair de casa, vir ao teatro. Havia superado a preguiça. Chego em casa cansado do trabalho. Tomo banho, janto, cuido das crianças, do marido ou da esposa, a televisão está ligada e acabamos ali, feito zumbis. Todos nós temos usado bastante as mídias sociais. Nelas, gente bacana, que nos conhece, que admiramos, comenta desejando “merda” e anunciando que irá assistir. Mas não vai. Onde estão essas pessoas que tanto gostam de Cinema, Teatro, Literatura, Artes Plásticas? Outro dia, fui assistir Jô Soares em São Paulo. Não estava lotado. A plateia toda de cabeças brancas.  Os jovens perderam a conexão. Educação e Cultura. E os que sabemos que gostam, onde estão? Cansaço, preguiça, tédio, onde vamos parar desta maneira?

























sexta-feira, 24 de maio de 2019

CIDADÃO

Escrevo como cidadão. Não sou especialista em Segurança Pública, nem tenho informações privilegiadas. Talvez, quando estiverem lendo este texto, que por questões industriais precisa ser entregue ao jornal com alguma antecedência, tudo já tenha sido elucidado. É que desde a noite de domingo, circulando por lojas 24horas, lanchonetes, portarias, não há outro assunto a não ser a tragédia ocorrida no Guamá. Em uma lanchonete, a proprietária explicava que havia pouca gente por conta dos crimes. As pessoas ficam com medo, se trancam em casa, disse. Sou escritor. Em meus livros, há sempre confronto entre pessoas e alguns crimes, motivados por diversos fatores. Roubo, vingança, competição, traição, enfim. Um amigo já disse que os ficcionistas estão em desvantagem. A realidade é uma forte concorrente. Li alguns jornais, assisti a telejornais. Sei do esforço do Governador em resolver o problema, com a Guarda Nacional. É claro que ele sabe que há muito mais a ser feito, no campo da Educação, Cultura e oferta de trabalho. O cidadão comum hoje não sabe de onde vem a ameaça. Se de ladrões ou milicianos. Sou classe média, alvo principal de roubo, nas partes centrais da cidade. Mas diariamente lemos assassinatos cruéis, nos subúrbios, envolvendo tráfico de drogas ou disputa por território. O governo passado nada fez. A coisa cresceu, desmedidamente. A chacina pode ter sido por uma necessidade premente de ação contra inimigos, ou para desafiar as autoridades. Oito das vítimas não tinham ficha criminal. O dj estava dormindo. Outra vendia cosméticos. Vi fotos onde algumas mulheres portavam revolveres. Fake? Não sei. Sem grandes opções de diversão, paraenses costumam passar o domingo junto a amigos em algum bar próximo. Bebem, comem salgados e ficam arengando, rindo, se divertindo até cada um voltar para casa, no limite de suas condições. As ruas são estreitas, tortuosas e esburacadas, enlameadas. Todo mundo sabe da vida de todo mundo. O Bar da Wanda estava, segundo informação, com 80 pessoas na casa, divididas em dois andares. Casa cheia. Animada. Dj tocando brega. Calor total. Muito barulho. Também, segundo a Polícia, era conhecido ponto de tráfico. Aí vem a primeira pergunta: qual a razão de ainda estar aberto? Recebia vigilância, queriam pegar algum peixe grande? Se os criminosos sabiam, a Policia também sabia. Assisti reportagem da Tv, entrevistando alguém que escapou. Nada de interessante. Porquê o repórter não foi atrás da vizinhança, alguém que escapou e pode contar por onde? Alguém para dizer como era o dia a dia daquele bar? Não filmou o interior e o segundo andar para podermos entender como aconteceu? Se mataram onze, uns 69, grosso modo, fugiram pelos fundos. Se dos 11 mortos, 8 não tinham ficha, havia apenas três bandidos? E os que escaparam, procurarão vingança? E como chegar ao mandante? A sociedade cobra respostas rápidas para não continuar vivendo apavorada. Talvez seja caro, mas considero efetiva a instalação de câmeras de vigilância nessas ruas estreitas, além de um centro de vigilância a receber, tempo real, as imagens. Proporcionaria reação imediata e até mesmo seguir a rota de fuga. Mais uma vez, o governo passado não atuou como deveria. Há muito a fazer. É impossível fiscalizar apenas com guardas e viaturas. A viatura passa na ronda, um minuto depois alguém é assaltado e a viatura está distante, completando seu percurso. Enfim, tomara que tudo já tenha sido resolvido.

sexta-feira, 17 de maio de 2019

OS INFANTILIZADOS

Estava no taxi, em SP e o motorista ouvia o programa Pânico, na Jovem Pan. O entrevistado era um tal de Régis, que após ser produtor musical, tem agora um canal no You Tube, seguido por milhares de pessoas. Desbocado, bem humorado, gostando da polêmica, disse algo bem interessante sobre o estágio da música brasileira. O atual ouvinte de música no Brasil é infantilizado. Dizia que após ter criticado uma banda dessas coreanas que andam infestando os ares, recebeu reclamação da chefe de um fã clube, com 37 anos. Claro que qualquer pessoa tem o direito de gostar de qualquer música em qualquer idade e ninguém tem nada a ver com isso, mas é um sintoma grave do estágio em que anda a Cultura nacional. Sempre houve artistas apelando para um nível mais baixo de qualidade em seus discos, claro. Mas era possível, para alguém que, com Educação e Cultura, preferisse ouvir músicas mais melodiosas, com letras bem feitas, bem tocadas e cantadas de maneira a elogiar e encontrasse artistas que tais. Hoje não. O nível de nossos sucessos de hoje é lamentável. Letras tatibitate, dignas de “Atirei o pau no gato”. Melodias pífias. Ou então esse funk claramente pornográfico, por mal feito. E ainda temos sertanojos com aqueles vocais de quem tem graves problemas estomacais. Difícil de aturar. Mas você olha ao lado e pega as pessoas cantando, gostando. O nível de entendimento e exigência chegou a um ponto insuportavelmente baixo. Hoje são raros os discos de novos artistas a me interessar. Roberta Sá está bem no disco feito para ela por Gilberto Gil. Bianca Gismonti, filha de Egberto, também fez um disco muito bom. Délia Fischer. Pode haver mais um ou outro que tenha esquecido, mas é só. Muito pouco. As gravadoras perderam até seu poder de julgamento daquilo que vale a pena vender. Tudo vem da rua e por isso, reflexo do momento cultural em que vivemos. E se distribui por todas as outras áreas. “De pernas para o ar 3”, acho, comédia no estilo dos programas do gênero na Globo, era a grande bilheteria, até os cinemas serem invadidos por esses Vingadores. Filmes mais densos, com enredo, bons atores, não conseguem furar o bloqueio. Hoje, estão em cinemas de arte e no streaming, no máximo. O público exigiu e agora todos os filmes são dublados. As pessoas não conseguem acompanhar a leitura das legendas. Analfabetos funcionais. Sobram as séries, mas o grande público ainda não chegou nelas. Algumas são realmente boas. E ninguém mais vai ao Teatro, a não ser que seja comédia e com atores globais. Nem assistem. Fazem selfies o tempo todo. Se é teatro local ninguém vai porque é chato, pobre e os atores são feios, exatamente o que aquele nefando armou, criou e impôs em vinte e tantos anos de desgraça à frente da Secretaria de Cultura. E quem lê? Não me furto, gosto muito de conversar com interessados, principalmente em colégios e faculdades. Mas sempre começo me apresentando, afinal, ninguém ali comprou e leu sequer um livro meu. Quem tenta ler, dorme ou não entende. Quem ouve música de qualidade acha chata. Assistir filmes que fazem pensar, nem pensar. Sim, o tal do Régis tem razão. O público está infantilizado. As mídias sociais deram espaço aos idiotas que se recusam a refletir, raciocinar. Tudo tem que ser mais raso do que piscina para crianças. Acho, como cidadão, que a Educação de base precisa ser encarada de frente em um choque. Só assim formaremos uma nova geração que tenha opinião, reflita, discorde, argumente. Até lá, o que será de nós com esse público infantilizado?

sexta-feira, 10 de maio de 2019

MINHA FAMA DE BOM

Não paro de ouvir a trilha do filme que conta a vida de Erasmo Carlos, “Minha fama de Mau”. Chay Suede, Gabriel Leone e Malu Rodrigues fazem as vozes que originalmente foram gravadas por Erasmo, Roberto Carlos e Wanderléa. Eles desempenham da melhor maneira o serviço, até uma audácia para clássicos da Jovem Guarda intocáveis. A banda que acompanha toca um rock and roll dos mais competentes, com um peso instrumental impossível de obter na época. Não assisti ao filme, mas a trilha é ótima. Me animei e fui atrás das gravações de Roberto Carlos. Passou um filme maravilhoso na mente. Era uma época em que o mundo passava por transformações. Aqui no Brasil, de um lado, saiam grandes artistas do chamado “dó no peito”, substituídos, de um lado, pelas crias de João Gilberto, com voz miúda mas precisa e letras leves, poéticas, amorosas, cantando sol, mar, garotas lindas cariocas e do outro, jovens suburbanos que se encontraram em São Paulo, influenciados pelo ritmo que enlouqueceu a Inglaterra e Estados Unidos. Em SP, havia também os festivais de música, Elis Regina, Jair Rodrigues e outros. Roberto e Erasmo, cariocas, o primeiro uma tentativa frustrada bossanovista, encontrando em Carlos Imperial o estímulo para outro gênero. As letras, baseadas em traduções do rock americano, não tinham a riqueza poética da língua latina, mas traduziam de maneira simples, aspirações da juventude. Erasmo sempre foi o cara. Mais tímido, não tinha a estrela de Roberto, embora seja parceiro da maioria dos hits. O Tremendão sempre foi roqueiro. Inventaram gírias, venderam produtos. Usei calça Tremendão, bota Tremendão, anel de brucutu, enfim. Saía por aí, ridículo, mas me sentindo ótimo. Alguns radicais da mpb fizeram até passeata contra a guitarra, para adiante, adotar. E veio a Tropicália, enlouquecedora, propondo mais revolução, o deus Mudança. E lá fui eu, seduzido por aquele liquidificador do mundo. Sim, lamento informar, mas a gravação de Chay Suede, instrumentalmente, é superior à de RC. O ator dá conta do recado. Ouço Roberto cantando “Essa garota é papo firme” e rio, rio de lembranças passando na tela. A luz negra iluminando corpos nas pistas de dança e eu olhando, olho comprido, ainda sem a ousadia de pedir à garota dos sonhos para dançar. A bossa nova tinha grupos que se reuniam em apartamentos, como uma seita, mas nos subúrbios, só dava Jovem Guarda, que influenciou de maneira incrível a música que ouvimos até hoje nas rádios mais populares. Nosso brega é uma mistura dessa Jovem Guarda com os boleros delirantes de Edith Veiga, mais o carimbo e o merengue caribenho. Há rádios até hoje com programas dedicados a Roberto Carlos. Um camelô, na calçada dos Correios, toca em altíssimo som “Capri, c’est fini” e “F comme Femme” como se o tempo nunca tivesse passado. As pessoas passam e vão assoviando, cantarolando. Mas tudo passou, como tinha de passar. Roberto virou adulto e escolheu, a partir do Festival de San Remo, tornar-se artista romântico. Conservador, adotou uma linha sem erro, que leva até hoje. Pena essa falta de coragem pois tinha tudo para também cantar um repertório mais criativo. Erasmo ousou mais, inclusive no samba, letras mais políticas, sem o apelo do parceiro, mas manteve o cetro. Mas como foi bom ouvir a trilha desse filme. Mais ainda, ouvir novamente aqueles belos tempos, belos dias, como lembra RC em um de seus sucessos.

sexta-feira, 3 de maio de 2019

DÉLI, DALI OU DAQUI

Nova Déli, ou simplesmente Déli, não é uma cidade que pretendo conhecer. Apesar da belíssima cultura indiana, há muitas outras cidades onde gostaria de visitar. Li há algum tempo, uma espécie de livro reportagem onde um indiano, após morar e estabelecer família nos EUA, decide voltar para mostrar aos filhos seu local de origem. Fica chocado com a realidade, após muitos anos em outra cultura. Atraído pelo título e por gostar de filmes“ policiais, decidi assistir “Crimes em Déli”, na Netflix. Fui até o fim dos oito capítulos. Prendeu-me, sobretudo, a cultura diferente. A mistura do novo e do velho.
Um casal sai do cinema, pega um ônibus independente (aqui em Belém há alguns) e é espancado e estuprado por seis homens. Jogados do veículo, nus, feridos, são socorridos. O rapaz, apenas escoriações. A moça, além de pancadas, foi mordida e estuprada com um cano de ferro. Não digo mais por chocante. A chefe de Polícia assume o caso com seus homens. Déli é uma megalópole com 17 milhões de habitantes. As autoridades falam inglês, mas o povo fala hindu. Há vários outros dialetos. Há diversas religiões tentando conviver. As diferenças sociais são absurdas. A filha da chefe de polícia estuda em um colégio inglês, com uniforme que inclui até gravata. Outras pessoas amontoam-se pelas ruas. As casas pobres não têm portas e são, realmente, escombros. A sujeira está em toda parte. O trânsito é caótico. Não há, aparentemente mão e contra mão. Para pior, a mão é inglesa, ou seja, direção no lado direito. Todos usam abusivamente o celular e claro, como é cinema, as ligações são imediatamente atendidas. Há quem coma sentado no chão e com as mãos. Mas há quentinhas e restaurantes chiques. Creio que as últimas afirmativas lembram claramente a nossa Belém de hoje, não?

Pois bem, o crime chega à imprensa e uma mobilização popular faz com que até o Primeiro Ministro interfira. Realmente, nos últimos anos, casos de estupro coletivo têm sido, infelizmente, constantes. No entanto, ao novamente comparar com Belém, onde a vida não vale mais do que vinte reais, fico espantado com a revolta de todos contra um ato isolado, acostumado que estou a banalizar assassinatos à luz do dia, em qualquer lugar, por motoqueiros que ao finalizar o serviço, saem tranquilamente, certos que nada lhes acontecerá. Os policiais civis de lá trabalham 24 horas, sem direito à hora extra e costumam ver as famílias duas vezes a cada três meses. Não usam armas. Não usam algemas. Seguram firmemente as mãos dos presos que, dóceis, seguem para a prisão. A polícia vai, um por um, prendendo os culpados. O respeito à lei e aos homens da lei parece total. Mais que tudo, o respeito às mães. Um dos estupradores consegue fugir mas estanca, ao ouvir que o policial iria contar tudo para sua mãe, que finalmente saberia o filho que tinha. Entrega-se. Um deles, na prisão, suicida-se, por conta da lembrança da mãe. Mulheres como investigadoras, todas usando aquelas roupas indianas, são comuns. Enfim, são todos enforcados. Sim, há pena de morte na Índia. Outro choque entre a modernidade e a cultura milenar está no casamento. Há que ter dote. Há quem anuncie nos classificados ter uma filha para casar. Mas há quem se apaixone e tudo bem. Talvez a colega Dominik Giusti, que esteve por lá, possa contar e explicar mais. Não quero ir, mas sinto que, no momento, com todos os problemas, Déli é melhor que Belém.