sexta-feira, 25 de maio de 2018

MINHAS LEITURAS

Como sabem, sou um leitor vulgar. Leio sem parar os livros que me agradam pela capa, informações, trechos ou críticas. Hoje decidi dividir com vocês alguns desses livros que tenho lido e que creio, vocês poderão gostar também. A sorte, a chance, aquele momento pode se oferecer a qualquer instante. Como dizia Shakespeare, “para tudo, é preciso estar pronto”. É o caso de Geovani Martins, um carioca que morou em várias favelas do Rio de Janeiro e que começou a escrever para se divertir. Paralela à Flip, feira que acontece em Paraty, com autores internacionais, acontece a Flup, em favelas, visando o surgimento de novos escritores. Um deles é Geovani Martins, que teve um conto publicado em uma coletânea a partir do evento. Ano seguinte, Geovani foi dar um rolê na Flip. Encontrou um dos promotores da Flup, flanando por lá. Este, o apresentou a um dos donos da Companhia das Letras. Pronto. Virou sucesso. Lançamentos, promoções, programas de televisão. Seu livro é “O Sol Na Cabeça”, com vários contos, todos focalizando a vida de jovens nas favelas. E qual será o segredo de Geovani para se destacar, além da sorte de assinar com uma das maiores editoras do Brasil? A linguagem. É como se ele nos colocasse nos morros, nas rodinhas, amigos e traficantes, trabalhadores e vapores, nos ônibus em que a moçada dá um teco e vai para Copacabana, ou Ipanema, agitar e assustar a classe média. Sobretudo no aplaudido “Rolezim”. Geovani como que nos coloca dentro da cena, abicorados, em segurança, mas sacando tudo. E não é isso? Os telejornais cada vez mais mostram reportagens com câmeras nervosas, correndo entre os barracos, visando flagrantes. Geovani nos põe do outro lado. Nem todos os contos mantém o nível e agora ele se prepara para o primeiro romance. Terá fôlego? Vamos ver. Sem ser exatamente o outro lado da moeda, recomendo “Fiel”, romance de Jessé Andarilho, da mesma turma de Geovani, morador de favelas, que já começa contando história de gente lá de dentro do morro. As gírias, medos, alegrias e tensões de um garoto bom de bola e de conta que aos poucos torna-se chefão da droga e cai, claro, como sempre ocorre. A narrativa é muito boa, mas Geovani parece mais esperto, mais comunicativo. Jessé lança seu livro pela Objetiva, selo Favela, sem os fogos de artifício da Companhia das Letras, mas recomendo a leitura. Outro livro interessante é “Tudo pode ser roubado”, de Giovana Madalosso, lançado pela Editora Todavia. Uma garçonete que trabalha nos Jardins, São Paulo, e que também faz programas sexuais, aproveitando para roubar peças de grife por onde passa. Giovana é outra estreante com linguagem rápida, agradável, urbana e sem preocupação alguma de erudição. Um cara oferece dinheiro para se aproximar de um professor e roubar um livro raro. Para quem conhece a cidade, muito legal por permitir que nos situemos nas cenas. Finalmente, um dos grandes livros do ano, de Martha Batalha, também pela Companhia das Letras, “Nunca houve um castelo”, seu segundo trabalho, após o festejado “a vida invisível de Eurídice Gusmão”, que não li. Martha mistura fatos e ficção. No começo do século passado, Ipanema era uma praia selvagem, no meio do mato. Um casal sueco, ele embaixador, ela levemente biruta, veio para o Rio de Janeiro. Uma casa em forma de castelo foi construída. Filhos nasceram. E outros habitantes foram chegando. A espevitada Laura Alvim, é uma. A vida segue. Veio Getulio. Bossa nova, revolução. Gente que morre, gente que nasce. Uma praia, um bairro famoso no mundo inteiro. Martha tem um talento especial para traduzir as famílias da classe média carioca. E para contar história. E houve, mesmo, um castelo em Ipanema? Recomendo.

sexta-feira, 18 de maio de 2018

TODOS TÊM SEU DIA

Foi o mau cheiro que chamou a atenção. Começou o disse me disse. O Pássaro Preto morreu. Ninguém tinha coragem de entrar no barraco. Chamaram o Samu. Chama a Polícia? Tédoidé? Os caras vão entrar quebrando tudo. Vai sobrar pra gente. Demorou. O cheiro piorou. A ambulância chegou. Porta fechada. Bateram. Nada. Ele morava só. Arromba ou não arromba. Entraram. Tudo humilde. Pequeno. Fogão, filtro, televisão antiga, ainda de “bunda grande”. O corpo estava na rede. Ainda chamaram. Seu Pássaro Preto! Nada. Estava começando a endurecer. Alguém foi até a porta e disse que estava morto. Mas ninguém entrou. Medo. Até morto o cara metia medo. Os enfermeiros ligaram pro IML. Mexeram nas coisas. O documento. Ariovaldo Brasil de Seixas. Da porta, disseram: é o Pássaro Preto! Quem? Ele. O morto. Vocês que são vizinhos, não viram nada suspeito? Ninguém entrou na casa? Todos balançaram a cabeça. Nem que tivessem visto, diriam alguma coisa. Me arranja uma vela? Deitaram o corpo do morto em uma mesa. Acenderam uma vela. Foram embora. Outro chamado. Ali ficou. Ninguém em seu velório. Um dos moleques, curioso, fez que entrava. Um grito da mãe e parou. Chegou uma viatura. O que foi que houve? Desembucha. O vizinho morreu. O Samu veio, né? Ligaram pra gente. Está morto. Sabem como foi? Silêncio. Viram alguém estranho entrando? O corpo não tem sinal de luta, nada. Os policiais entraram. O mais velho saiu abalado. O Pássaro Preto morreu. Todo mundo tem seu dia. Aí chegaram uns e fizeram uma roda. Ele não prestava. Era muito calado. Não falava com ninguém. Soube que ele matou uns caras aí. Quer dizer, ouvi falar, né? Sai outro soldado com um revolver e munição. O mais velho disse que, se não tivesse de apreender, ficaria com a arma, de recordação. Isso é uma relíquia. Sim, o Pássaro Preto era pistoleiro. Matava por encomenda. Talvez o mais velho. Estava acomodado. Superado. Agora tinha poucas encomendas. E tu contas assim, tranquilamente? Porquê nunca foi preso? Esse monstro devia era estar na cadeia pra vida inteira. Ele era esperto, matreiro. Não matava por prazer. Era um trabalho como outro qualquer. Sem emoção. Matou um cara no banheiro do estádio da Curuzu. O cara foi mijar durante o jogo. Matou e depois foi comer churrasquinho de gato. Ficou assistindo a confusão. Um tiro. Não gostava de gastar bala. Começaram a chegar outras viaturas. Uma romaria. A gente não dá nada por ele, né? Baixinho, velhinho. É? Te mete. O moleque foi abelhudar pela fresta da casa, ele pegou pela orelha. Foi pro hospital com a orelha descolada. Pergunta se o pai do moleque foi tomar satisfação. Uma mulher perguntou se o soldado sabia se ele tinha algum parente. Alguém para reclamar o corpo. Não. Acho que ele era só. Ninguém vai entrar na casa por medo? O cara está morto, gente. Sabe lá. Ele parecia ter parte com o diabo. Se vestia de preto. Usava um desses chapéus de boêmio, sabe? Dormia de dia. Saía de noite. Uma vez chegou bêbado, tropeçando. Não conseguiu abrir a porta da casa. Dormiu sentado. A minha mulher disse que eu devia ir lá ajudar. Tédoidé? O IML chegou. Vai fazer a autópsia. O camburão foi embora. Os vizinhos invadiram a casa para levar o que pudessem. O corpo ficou na geladeira. Disseram que foi ataque no coração. Fulminante. Mas o enterro foi de luxo. Ninguém sabe quem pagou. Caixão de luxo, coroas e cemitério particular. Não tinha ninguém na hora de enterrar. Mas o enterro foi de primeira. Todo mundo tem seu dia.

sexta-feira, 11 de maio de 2018

BOM DEMAIS!

Princesa, hoje vamos para a festa de São João da tia Carola! É, festa de aniversário. Eu sei que já teve festa no colégio, mas essa da tia Carola é festa de verdade. Com fogueira e tudo. Sim. Não tem perigo, é no sítio do seu tio Vavá. Lá não tem problema. Não tem prédio por perto, nada. Pode, pode usar seu vestido do colégio. Pede pra mamãe pintar seu rosto, igual a uma caipira. O que é uma caipira? Bem, é isso aí que fizeram no colégio. Galinha caipira? Bom isso já é um prato, olha, pergunta pra sua mãe que é melhor. Quando chegaram, a casa já estava animada. Carola passava o dia no sítio, preparando tudo. Tinha até banho de cheiro, coroa de São João para quem quisesse, quentão, enfim. Dávamos abraços e acudi minha Princesa. Ela encarava, estática, uma galinha. A cada movimento, observava atenta. Pai, onde bota as pilhas? Ou bateria? Um trio de sanfona, zabumba e triangulo já tocava para alguns dançarem. E pelo meio, passavam feito essas motos no trânsito, crianças correndo, gritando, driblando, caindo ao chão, aos prantos com joelhos ralados, enfim, uma beleza.. Os homens estão em um canto enchendo a cara. As mulheres do outro. Black out. As mulheres gritam. As crianças correm. Todas chamam por todos. A turma da companhia estava regulando o motor de luz. O Ricardinho, que é muito curioso, nem foi brincar. Quis ver melhor o conserto. Para ter equilíbrio, apoiou-se na chaminé, que estava bem quente. Agora aquele bolo de mães em volta dando palpites. Chama o Ademar que ele é médico, né? Mas passou. Agora vai ter show. Show de quem? Os moradores da região têm um boi para dançar. Pai, um boi que dança? Boi bumbá. Você vai gostar. Fica junto do papai. Pai, eles são como a gente? Claro. São diferentes. A cor da pele. As roupas. São iguais. O resto é porque nós somos da cidade e eles são daqui. Pegam muito sol. É só isso. Presta atenção. E o boi dançou pra valer. Palmas, muitas palmas. Adorei, pai. Todos voltaram a seus lugares. A Princesa foi atrás deles, na copa, onde comeram. Tia Carola veio e botou uma coisa dentro da camisa do chefe deles. O boi agora estava de lado, apoiado na parede. Veio a Clara, da minha sala. O Beto quis me beijar. Mentira, mana, me conta. Nem viram, no escurinho, o Bernardo Augusto pedindo pra namorar com a Teka. Uma noite para ser lembrada. Querida, já comeu alguma coisa? Não gosta de aluá? Irc. Tem cheesburger, pizza? Tá bom. O Bernardo Augusto passou com um carão. A Teka deu pau na testa dele! Não zanga, Bebê, há tanta menina bonita por aqui. O pai levantou para fazer um discurso. Tonteou. Não empurra, cara. Ninguém havia empurrado. Também, estavam entornando todas! Vamos passar fogueira? Eu, naquela fogueira de verdade? Nem morta! Quem quer ser minha comadre? Não podia dar certo. Tropeçaram e o fogo deu na bainha da calça do Tio Alfredo. Foi aquela correria. Mãe, ta todo mundo lá no quarto. A Fernandinha bebeu aquele negócio escuro, cheio de planta, que estava na bacia, lá no quintal. Ela bebeu o banho de cheiro! E tem sempre aquele tio com mania de fogueteiro. Enquanto estavam na base da estrelinha e traques, ele chegou com aquele canhão. Uma maravilha. Fica um dia. Abre lá em cima uma cascata de estrelas. E as crianças em volta. Espera aí, Orlando, o pai se pronunciou. Assim já é demais. Isso é perigoso. Tem criança por perto. Que nada, deixa de ser medroso. Medroso nada. Tá bom, mas chama seu Otávio aqui. O caseiro. O senhor tem coragem de soltar esse foguete? Otávio olhou para o artefato, olhou em volta, sentiu a expectativa, encheu-se de brios e aceitou. Afastem-se! Ficou aquele silêncio. A música parou. A correria. A conversa. Seu Otávio no centro, sério, compenetrado. Acenderam o foguete. Fumaça. Disparou. Ih, em vez de subir, desceu ao chão fazendo imenso barulho. A fumaça tomou conta. Seu Otávio sumiu na fumaça. Tio Vavá e papai correram. O senhor está bem? Seu Otávio olhou em volta e gritou: estou soorrdooo!!! A música recomeçou: olha que isso aqui tá muito bom, isso aqui tá bom demais!

sexta-feira, 4 de maio de 2018

GRANDE TEMPO!

Nelson e Haroldo Maués foram meus ídolos na adolescência. Irmãos, jogavam basquete no Clube do Remo. O ginásio “Serra Freire”, recém inaugurado, lotava para ver as partidas. Nelson depois trocou o Remo pelo Payssandu em ação muito criticada ou elogiada, dependendo dos lados. Eu também os via jogando futebol em uma pelada que acontecia, acho, às quartas feiras, no Lago Azul, em campo de terra, mas com holofotes. Haroldo, também conhecido por “Manolinho”, era o mais agitado, fazendo muitos lances de efeito. Nelson, mais pragmático, era certeiro. Os jogos do campeonato juvenil brasileiro foram um grande momento. Poucos minutos antes do fim de uma partida, houve uma dúvida se a bola tocara ou não em Haroldo, antes de sair pela lateral. Ele confirmou, naturalmente, e o Pará perdeu. Pior, em outro momento, Nelson, que não atuava pelo Pará e sim na mesa como o cara que toma conta do placar, precisou intervir e dizer a contagem certa, dando a vitória à outra equipe, para desespero dos perdedores. Honestidade, simples assim. Ele lançou um livro sobre sua vida, na boate da Assembléia Paraense. Parecia um álbum de figurinhas antigas. Todas as grandes figuras do basquete estavam presentes, azulinos e bicolores irmanados pela amizade que sempre houve, apesar da rivalidade. E haja lembrar de fatos marcantes, inesquecíveis. Belém era outra, ali da metade dos anos 60 para os primeiros anos 70. Encontrei com Sônia Regina, a quem todos chamam de “Sonhão”. E começamos a lembrar. Naqueles dias, a informação era rara, mas a vontade de viver novos tempos vibrava em todos. No Teatro, era tempo de “Aquarius”, “Jesus Christ Superstar”. Então, aqui, tínhamos o Grupo Experiência, mais pensadores como Luiz Otávio Barata, ainda hoje influenciando tanta gente. Escrevi minha primeira peça, a qual intitulei com a petulância da idade, de “carimbopera”. Era “Foi Boto Sinhá”, com o auxílio luxuoso de José Maria Villar. Gilberto Coutinho vestia a rapeize com sua “Carnaby”, no sub solo da galeria da AP, onde também havia a boate “Porão”, que sonhávamos frequentar, embora ainda não tivéssemos idade. Lá da boate da AP, ficávamos com olhos compridos. Sonia Coutinho era a modista jovem, com mil idéias. Havia também Pampolha, o “Pampy”. Criatividade a mil. E de repente, havia um grande desfile, na rua, com Sonhão, Rui Nobre de Brito, e outras lindas. Quase no final veio o Zeppelin, com meu irmão Janjo e Luiz Braga. Dançavamos disco music na Signo’s Club, com som de Tarrika, Alberto Pinheiro, Floriano até o sol raiar. Edwaldo Martins comandava os colunáveis e badalava os artistas. Eurico Mendes e Juan, o chileno, mandavam nos cabelos das mulheres. E fofoca, muita fofoca. Um número do Zeppelin chegou a ser abortado, apenas por anunciar uma entrevista com Juan, que iria “contar tudo”, em um domingo de julho. As dondocas tremeram. Poderes mais altos se “alevantaram” e foi preciso pensar em outro entrevistado. Foi tempo da 33 ¼, loja de discos que abri, com Floriano, na esquina da Brás com Rui Barbosa. Também dançávamos na Papa Jimi, com uma foto imensa do guitarrista, na porta. Na música, Fafá de Belém começava a aparecer, antes cantando acompanhada do mestre Álvarito, na boate do hotel do Comendador Marques dos Reis. Em julho, a cidade ficava vazia porque todos iam para o Mosqueiro, dançar no Netuno Iate Clube, Praia Bar e no Ariramba. Grandes tempos. A geração dos anos 80 também aprontou muito. A partir daí, acho que o mundo perdeu um pouco do gás. Às vezes acho que a garotada, hoje, prefere bater palmas, na plateia, do que ir para o palco influir na cena. Ah, o livro do Nelson Maués, “De Belém a Xangai”, está à venda na Fox.

sexta-feira, 27 de abril de 2018

A ÚLTIMA FARSA PAN AMAZÔNICA?

Não dá para afirmar que será a última. No intervalo de um mandato, vencido por candidata de outro partido, a gestão conseguiu ser ainda pior. Mas é preciso acreditar que essa nuvem negra que se abateu sobre os artistas paraenses e já dura mais de vinte anos, vai passar. Hoje, há pelo menos duas gerações que nunca puderam exercer plenamente seus talentos. No mesmo período, tanto a Cultura quanto a Educação pioraram tanto que as pessoas, nas mais diversas classes, se apartaram completamente do desfrute da Arte. De maneira implacável, a expulsão dos artistas da cena acabou por fazê-los desconhecidos da maioria. E mesmo assim, aqui e ali, alguns conquistaram posições, seja aqui, seja no Brasil e até mesmo em nível internacional. A brutal incompetência do funcionário público que ocupa o cargo de Sectário de Cultura, se estende à sua equipe. É incrível que isso dure tanto tempo. Suas idéias são paroquiais, amadoras, despropositadas. São profissionais formados que não parecem saber exercer seu ofício. Não se informam, não pesquisam. Por um momento, admitamos que o certo é apostar em ópera. Então, deveriam passar o ano difundindo o gênero, realizando cursos de canto lírico e apresentações, no mínimo, nas cidades polo do Estado, para enfim, em um ápice, fazer o tal festival em Belém, a capital. Mas não. Comportam-se como se fossem gestores da Cultura municipal. E o que dizer da tal Feira Pan Amazônica? De Pan não tem nada. Para isso, teria de contar com a participação decisiva dos outros Estados e países da Amazônia. Há uns dois anos, realizam Feiras em duas ou três cidades do interior. Levam sua festinha, autores locais apadrinhados e algumas atrações bem pagas. E depois voltam sem deixar nada. Não há programas para a Literatura. Não realizam oficinas, não debatem sequer as obras do autor homenageado, que na verdade é usado e depois descartado. Não incentivam os autores interioranos. Não levam os autores da capital para trocar idéias. Não revelam ninguém. Nào relançam livros importantes. Nada. A tal da Feira é uma bobagem que custa alguns milhões. Trazem autores nacionais que saem satisfeitos porque ganham bem, passeiam, comem nossas iguarias e não se dão conta da farsa da qual participaram. Há poucas editoras locais a participar. As livrarias colocam seu estoque, seu refugo, para vender a preços que nem são baixos. A Academia Paraense de Letras se sujeita a ocupar um stand mal iluminado e sem atrações, com autores que se recusam a perceber que colaboram com o que há de pior na Cultura. Insensíveis, cometeram, agora, mais um erro grosseiro, em tempos de empoderamento feminino com um cartaz que uma vez detonado nas redes sociais, foi retirado. A jovem escritora Paloma Amorim de início de carreira bem festejado, tem escrito diariamente contra essa farsa. Acusa de racismo, de não atender escritoras brancas, negras e indígenas. Enfim, percebeu tudo o que cerca o evento. Foi por tudo isso que escritores locais reuniram-se e formaram a Feira Literária do Pará. No terceiro final de semana de outubro, por dois dias, ficam na Livraria Fox, parceira, divulgando seus trabalhos, recebendo seus leitores. Mais ainda, há palestras sobre os patronos escolhidos. Relança livros importantes e fora de catálogo. Com a parceria da Empíreo Editora, lança novos autores. Tudo isso deveria ser o trabalho de uma Secretaria da Cultura, em todo o Estado. Já perdemos muito tempo e levará outro tanto para nos recuperarmos do mal que foi feito. Sim, eu espero que esta seja a última Farsa Pan Amazônica. Chega!

sexta-feira, 20 de abril de 2018

MY PLEDGE OF LOVE

Foi após assistir a um vídeo no Facebook, mostrando várias pessoas na chamada Terceira Idade, dançando em coreografia, uma música chamada “My pledge of love”, que me deu vontade de escrever sobre aquela época aqui em Belém. Serve para os colegas de geração lembrarem e para os novos leitores, algo bem curioso. Final dos anos 60, primeiros da década de 70. Tinha uns 14 anos, sei lá. Estava de férias no Rio de Janeiro, alguém me levou a uma boate no Joá. Elevador com luz negra e todos dançando. De repente o dj tocou “Na Na Na Hey Hey Kiss Him Goodbye” com Steam e me conquistou. Corajosamente fui até a cabine e meu espanto foi encontrar Ademir, um dos lendários djs da época. Dias depois, fui ao Canecão para mais um dos “Bailes da Pesada”, promovido por outra lendária figura, Big Boy, que tinha programas demolidores na Rádio Mundial AM, sim, ainda nesse tempo. Como estava cedo, Big Boy disse ao microfone que mostraria o primeiro disco solo de John Lennon, que havia chegado com um piloto, amigo, que veio da Inglaterra. As coisas eram assim. E também tocou “Sex Machine”, com James Brown e outra do 100 Proof, com “Somebody’s. Trouxe tudo para Belém. E já tocava Joe Jeffrey com “My Pledge of Love”. O instrumental era curioso. Metais, violinos, guitarra fazendo ritmo e bateria acelerada. Não era rock. Era dançante. Eu frequentava uma “Pipoca” na boate da Assembléia Paraense onde tocava até “Whole lotta of love”, com Led Zeppelin. E naquele miolo da música, onde há apenas sons e a voz de Robert Plant, as luzes, principalmente a luz negra brilhava e todos dançavam. Claro, após algumas músicas, vinha a música romântica. Criávamos coragem e íamos até as mesas, onde estavam com as meninas com os pais e convidávamos para dançar. Sentir seu corpo, cheiro, respiração, a conversa, tudo isso era uma experiência inenarrável. E quando alguns, mais atirados, colavam o rosto, o mundo podia explodir que ninguém sentiria. O próximo som anunciando a era da discotheque foi de Harold Melvin and the Blue Notes, que se apresentavam em um programa na Filadélfia, juntamente com O’Jays e tantos outros. Melvin, irresistível, baixo forte, violinos, piano, metais, vinha com “The Love I Lost, was a sweet love” e lotava as pistas. Melodia fortíssima, crescendos e explosões de metais que incendiavam as almas, bem como O’Jays com seu “Love Train”. Aqui em Belém, vários djs usavam essa música no encerramento dos trabalhos em alto astral. Sem querer perder trabalho para o som mecânico, Guilherme Coutinho trazia gravadores com sons pré gravados, aos quais acrescentava seu trio, já tocando Wilson Simonal com “País Tropical”, por exemplo, talvez Toni Tornado e sobrevivendo ao momento. Guilherme era insuperável, principalmente quando Walter Bandeira estava ao comando. Já era tempo do T1, ali na Base Aérea? No Pará Clube, entrávamos e mostrávamos qualquer carteira ao porteiro, com uma nota guardada, por baixo, que ele, com indescritível habilidade, guardava e deixava entrar. Não fui um grande dançarino ou participante assíduo, mas gostava. A Maloca, com Rosenildo Franco ao comando. Eu sei, havia a ditadura com vários agravantes. Desculpem, naquela faixa de idade, vivendo em um lar onde meu pai não discutia esse assunto e encarando um momento mundial onde a música, a literatura, teatro, cinema, poesia, tudo estava em revolução, confesso que não tive olhos para isso, o que me fez, mais tarde, comprar todos os livros possíveis, de todas as opiniões, até formar idéia a respeito. Enfim, eu fui muito feliz. Muito. E vocês?

sexta-feira, 13 de abril de 2018

O HORROR. O HORROR.

É claro que estamos em guerra civil. Os números mostram. Enquanto isso, o Secretário de Segurança, de maneira irresponsável, demonstrando até um certo escárnio, declara andar pelas ruas tranquilamente, sentindo-se seguro. Mas após assistir ao documentário “Os Últimos Homens em Aleppo”, que concorreu ao Oscar, fiquei chocado. Nada é esclarecido sobre que facção mulçumana é aquela, nem possíveis combatentes são mostrados. Somente a ação da organização Capacetes Brancos, que simplesmente ajuda a todas as vítimas dos bombardeios. Ahmad e Mahmoud são irmãos. Abu Youasef tem mulher e filhos. A cidade está em ruínas. Carcaças de prédios. Creio não ser possível reconstruí-la. Precisariam demolir os esqueletos de concreto e depois levantar novos edifícios. Não dá. Tudo é poeira, pó, fumaça, destroços. Eles mostram os jatos russos que atacam e despejam bombas. A visão delas, à noite, feito fogos de artifício, caindo, mistura o belo e o trágico. Eles trabalham febrilmente, cavando com pás e mãos, encontrando sobretudo crianças. Algumas estão mortas. Outras, com ferimentos graves na cabeça. Cenas terríveis. Um tempo depois, os capacetes brancos fazem uma visita à casa de uma das crianças. O pai conta que perdeu três filhos. O sobrevivente agarra seu salvador, agradecido. O olhar desses meninos é de perplexidade. Em uma idade de brincar, imaginar, sonhar, eles vivem uma realidade atroz. Aqui e ali, recolhem pés, braços, pernas, que colocam em sacos. Penso se suportaria tudo isso. Creio que por minha índole, faria de um tudo. Mas tenho certeza que uma melancolia, tristeza profunda, iria me afogar, invadir, pouco a pouco, até ficar inerte, sorumbático, preso em minha solidão, como que guardando um oceano de emoções para jogar não sei onde. Pensam diferente alguns fotógrafos que estão sempre aqui e ali, viciados em adrenalina. Todos praguejam contra Bashar El Assad, o presidente da Síria. Em dado momento, um dos capacetes brancos pergunta onde estão os árabes, ninguém ajuda. O mundo todo está contra nós. Abu pensa em levar a família para a Turquia, mas logo assistem na Tv que os que chegaram lá não são bem tratados. Outros dizem que não vão sair. É sua cidade e somente sairão mortos. Quando não são jatos ou helicópteros, até drones sobrevoam procurando alvos. Então decretam uma trégua. Eles levam as crianças até um parquinho. Brincam, também, como se crianças fossem. E então o rádio avisa que virá um bombardeio. Todos correm para se proteger. Mas é uma loteria. A bomba cai, o prédio desaba e vários morrem. O menino ouve o aviso e pede ao pai para voltar para casa. Jato joga bomba. Então, no meio de uma busca por soterrados, um deles avisa que precisa sair mais cedo. Estará em uma festa de casamento. Aqui, algumas pessoas morrem, enquanto outras casam. Estão dançando e lá vem aviso de bomba. E entre os desesperados que cavam e carregam mortos e feridos, um homem vestindo uma t-shirt do Kiss. Bem irônico. É um mundo diferente do nosso. Nas casas, há móveis, sofás, cadeiras, mas sentam em roda, todos, no chão. Não, as mulheres nem aparecem ou quando passam ao fundo, estão cobertas de negro. Desculpem os mulçumanos, mas não há interpretação possível, além da dominação dos homens, para manter as mulheres em casa, apenas como procriadoras, sem estudar, como inferiores. Sim, vivemos uma guerra civil em Belém. O inimigo veste-se quase sempre de maneira parecida com a nossa. Não sabemos de onde virá o tiro, nem o motivo. Não temos nem capacetes brancos para nos ajudar. Estamos perdidos.