sexta-feira, 17 de março de 2017

A FEIRA DO SOM

Tive a sorte de dar o nome ao “Feira do Som”, programa que está completando 45 anos em atividade. Além disso, são 50 anos de profissão de Edgar Augusto, meu irmão mais velho. Quando um programa de rádio atinge essa longevidade, e na comemoração ganha páginas e colunas em jornal, além de programa em televisão, é porque realmente é importante. 
Foi ali nos anos 1970. Havia várias sugestões. A minha foi acatada. Era uma época fantástica. A Cultura reagia maravilhosamente à ditadura e censura. Cinema, Artes Plásticas, Literatura, Teatro e Música viviam momentos incríveis. Os Beatles pararam. Hendrix e Janis morreram. Mas havia o rock progressivo e muita gente boa surgindo. Aqui tínhamos os baianos, Chico, Milton, pernambucanos como Alceu, mais Elba, Geraldo, Ramalho, cearenses como Fagner. Muita coisa boa. Talvez tenha uma inspiração no programa do Flávio Cavalcanti, que falava de música, embora de maneira tragicamente retrógada. Bem, havia Nelson Motta. 
Edgar já era apresentador do “Cantinho dos Beatles”, com fã-clube e tudo. E também, um dos melhores narradores de futebol que ouvi, perdoem se sou totalmente suspeito. Havia também o “Sábado Gente Jovem”. E a “Feira do Som” inovando, ousando com as novidades, fazendo a cabeça de tanta gente, principalmente pela informação. 
Veio a FM e o programa foi para a Rádio Cidade Morena. O estúdio era pequeno, como são hoje os estúdios onde o locutor também opera a mesa, põe músicas e comerciais. Tive a dádiva de dividir com ele o microfone. Ficava manobrando a mesa de som, enquanto ele, sentado no chão do estúdio, espalhava as notícias. Muita gente boa foi entrevistada ali e sentou no chão. Era tudo muito à vontade. Lembro de Nara Leão, que veio lançar o disco em que canta “Nasci para Bailar”, de Donato e Paulo André. Ela voltou com Roberto Menescal, cantando bossa nova. Lembro de Geraldinho Azevedo, Flávio Venturini, tanta gente... 
Mas a rádio era comercial e o programa acabou por ocupar sua melhor posição na Rádio Cultura, da qual, permitam-me, Edgar já fazia parte desde a Cultura Ondas Tropicais, em uma equipe por mim montada. Com uma voz especial e vocabulário de “dia de semana”, ele usa várias técnicas para prender os ouvintes. As novidades a cada dia. A menção aos músicos presentes em cada música executada. O noticiário local, muito importante para os artistas da terra, criando inclusive apelidos que duram até hoje, como “Operário da Noite”, para Pedrinho Cavallero. Os bordões, repetidos diariamente, estão no pensamento dos ouvintes. Outra técnica de fidelização. 
Se os artistas locais conseguem, nessas trevas em que vivemos há mais 20 anos, ainda existir, apresentar-se, alguns com carreira, gravando CDs e shows em outras cidades, a “Feira” tem parte nisso. Trata os estreantes e os veteranos da mesma maneira, sempre com uma palavra de alento e incentivo. Recebe-os no programa, que ainda tem seções fixas, em que premia os ouvintes e, claro, o “Cantinho dos Beatles”, para os empedernidos. 
Todo esse tempo no ar e com um público de A a Z, em várias faixas etárias, faz esse programa um patrimônio cultural de uma cidade tão sofrida nessa área. Quanto a mim, mesmo à frente de uma emissora comercial, não deixo de ouvi-lo. Edgar é um ídolo. Irmãos, somos amigos. Forneço discos, notícias. O som do programa é o meu preferido, entre outros. Mais do que nunca, continuemos a ouvir, de segunda a sexta, “aqui fala o Edgar Augusto!”. Parabéns!

sexta-feira, 10 de março de 2017

PSSICA NA FRANÇA

A Literatura, mais uma vez, me levou a lugares bem distantes e melhor ainda, ao encontro de pessoas interessadas naquilo que escrevo. Em todos os lugares onde passei, havia mais que curiosidade. Antes do encontro, todos fizeram seu “trabalho de casa”, lendo, pesquisando. Meu livro mais recente, “Pssica”, foi lançado na França. É o quarto romance editado por lá, pela querida Asphalte Editions, comandada pelas adoráveis Estelle e Claire, que além de profissionais competentes, são apaixonadas por seu ofício, criando verdadeiros objetos de arte. E traduzido pelo genial Diniz Galhos. A convite do amigo Pierre-Michel Pranville, grande tradutor, amante do que eles chamam de “Polar” e professor, e da professora Brigitte Thiérion, especializada em Estudos Lusófonos, da Université Sorbonne Nouvelle, Paris 3, fui recebido por um grande grupo de estudantes de nível adiantado para falar sobre minha Literatura e demais aspectos. É realmente algo a deixar qualquer um emocionado e orgulhoso. Depois, fui à Livraria Le Comptois de Mots para apresentar “Pssica” aos leitores e perceber seu interesse pelos escritores brasileiros. Adiante, estive também em Toulouse, ampliando mais ainda o conhecimento que passo a ter por esse fabuloso país onde ler é decididamente importante, exercício que começa nos primeiros anos de vida das crianças, seja através de seus pais, seja da escola. Lá, fui recebido pelos amigos Jean Paul e sua esposa Dominick, que me levaram à Livraria Renaissance para conversar com grande público. Discutimos Literatura e a vida no Brasil. Interessante encontrar lá duas paraenses, uma senhora da família Travassos e outra, a jovem Marilene, que estuda Antropologia. Como tradutora, a professora Emanuelle, que trabalha na Universidade de lá na área de Teatro, com impressão em livro de peças teatrais, traduzidas e discutidas com os alunos. Já iniciamos démarches para também trabalhar na área de Artes Cênicas, inclusive com festival em agosto. Em outubro, Jean Paul dirige um grande Festival especializado em Literatura Policial. Querem levar até lá meu amigo Leonardo Padura. Tomara que consigam. Toulouse é uma bela cidade de 350 mil habitantes, junto aos Pireneus, próxima à fronteira com a Espanha. É lá, também, que os franceses fabricam os gigantescos Airbus que voam pelo mundo, além de satélites. O clima é sempre ensolarado e a temperatura, agradabilíssima. Passear pelo centro da cidade é circular por um casario antigo belo, ruas perfeitas, limpas e jovens, muitos jovens a festejar a vida. Em Paris, desta vez, havia muita chuva, vento, e uma sensação térmica de 3 graus. Os aviões da Latam são novos e muito bons. As viagens são sempre completamente lotadas, o que me faz perguntar a razão para tanto choro das empresas. O que, definitivamente é muito ruim, pela falta de concorrência e fazer passageiros cansados da longa travessia, chegando aqui lá pelas seis da manhã, enfrentar, após a alfandega, longas e desgastantes filas, que duram mais que uma hora de espera, para fazer as conexões para as outras cidades. Pior é chegar à querida cidade e enfrentar novamente o horror que vivemos. Imundície, buracos, pichações, agressão aos mais pobres e tudo o que causa infelicidade. Por quê se reelegeu? O que já é trágico ainda ficará pior?

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

PARA BERNARDO PROENÇA

Quando era criança, andava muito com meu avô Edgar. Os amigos nos paravam, nas ruas e ele me apresentava a todos. Um deles me apelidou de “Miniatura de Edgar Proença”. Eu era baixinho, magrinho, cabeçudo, orelhudo”. Não sei se era um elogio a mim ou a ele. Vovô começava a deixar de ser aquele homem de todos os instrumentos. O empreendedor, trabalhador, líder de turma. “Seu Colega”, ele dizia, “a velhice é uma merda”. Posso imagina-lo, após tantas conquistas, desafios e situações, lidando com a passagem inexorável do tempo. E sim, é claro que ele tinha razão, embora minha geração venha quebrando paradigmas, alongando essa questão da “melhor idade”, postergando ao máximo o que eles chamam de “nova adolescência”. Os filhos cresceram, saíram de casa, há mais segurança na vida e agora podemos viajar, passear, ir a cinema, teatro, jogos de futebol, enfim, curtir mais a vida. Sim, eu sei, não está nada fácil, com a crise que enfrentamos. Mas pensem em seus avós e digam se hoje não vivemos mais intensamente, ainda participando do giro do mundo. Naquele pouco tempo em que fui a “miniatura de Edgar Proença”, percebi, apreendi um mundo de conhecimento, gestos, ironias, inteligência e vida, principalmente, vida. Isso me moldou. Não sei se ele se dava conta disso. Passava muito tempo lendo livros e os pacotes de Lux Jornal, que era uma assinatura que lhe enviava recortes de jornais de todo o país com os assuntos que ele previamente escolhera. O gosto pela leitura. Notícias. Jornais. Tenho sonhado com jornais. Muitos. Hoje, fora os daqui, leio diversos pela internet, diariamente. Mas há alguns anos atrás, o amigo Edwaldo Martins me cedia, às segundas, os jornais da semana anterior. Jornal do Brasil, O Globo, Estadão, Folha de São Paulo, Jornal dos Sports, e vários outros. Depois, passei a compra-los. Meu sonho é que por algum motivo, vou à Banca do Alvino, depois passo na Banca do Plínio, atrás de jornais. Há um monte sob meus braços e não estou satisfeito. Em casa, mergulhava naquele mundo maravilhoso. Isso veio de meu avô. Lembrei disso nesses dias em que ele faria mais um aniversário. Edgar Proença, nome de estádio, pioneiro em tantas coisas, trabalhador incessante. Como ele, também faço rádio, jornal, escrevo livros e peças de teatro. Meu amado e idolatrado avô. E assim como lembro do “Maguenhéfico”, quero registrar a passagem de mais um aniversário do meu neto, Bernardo Proença. Ele nem se dá conta disso, mas ilumina toda minha vida, me enche de orgulho, meramente por existir. Por conta de seus quatro anos, deixando de ser dependente de alguns cuidados, ainda não nos tornamos “unha e carne”. Os netos são nossa continuação. Eu o observo manuseando gadgets eletrônicos com especial confiança. Liga para mim através de Facetime. Basta ouvi-lo dizer “vovô Edyr” e me derreto todo. É como se uma paleta completa de cores fortes invadisse meu céu. Suas palavras são ordens, mesmo que tolices infantis. E saímos de mãos dadas pelas ruas, como atletas que acabam de ser campeões em algum torneio importante, “como um Deus e um poeta”, como diz Fernando Pessoa. Confiantes, orgulhosos. Chega e ocupa meu computador. Tecla com facilidade, sabe os caminhos. Sua paixão atual são carros de corrida, suas miniaturas adquiridas semanalmente para mantê-lo feliz. Não, por falar em miniaturas, ele tem a sorte de parecer com o pai, Felipe e não comigo. Mas sua capacidade de apreensão de tudo o que o cerca já demonstra ter a genética da família. Meu neto querido, pelo presente, pelo futuro, por infinita felicidade, parabéns pra você!

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

VOU BEIJAR-TE AGORA , NÃO ME LEVE A MAL

Talvez eu tenha utilizado, alguma vez, quando criança, em Bailes Infantis de Carnaval, uma lança perfume. Mas certamente para jogar o líquido gelado nas costas dos coleguinhas. Minha melhor lembrança já vem do tempo de adolescente. Ao contrário dos rapazes de hoje que aos 13 anos já sabem de tudo, nós éramos ingênuos, entrando em contato com a vida aqui fora. Tempo dos bailes de carnaval. Pará Clube, Iate, Assembléia Paraense, AABB, Clube do Remo e algum outro que esqueço, promoviam suas festas, lotadas. Para entrar na AP era necessário smoking. Mas quem teria um smoking, na nossa idade? Algum de nós entrava e jogava pela janela, da sede da Presidente Vargas, as jaquetas, gravatas e faixas. E era assim, mesmo, afinal, após entrar, todos ficavam apenas de camisa, suados de tanto pular carnaval. Talvez os mais velhos utilizassem cheirinho da loló e outros, mas eu não via. Meus olhos estavam no salao de danças, onde um cinturão em volta se fazia, com rapazes de olhos compridos, esperando a vez de poder dançar com alguma garota. E já não era apenas Baile dos Brotinhos e sim um Baile das Máscaras, por exemplo. A orquestra podia ser de Orlando Pereira. Lembro dele, sorridente, à frente da banda, marcando o compasso com os braços. Os pares passavam dançando como em um carrossel. E aquela garota com a qual você sonhava a semana toda, passava, às vezes dançando com uma amiga, em outra com aquele bonitão, mais velho, experiente, cantando e sussurrando em seus ouvidos. Um sofrimento. Mais do que isso, minha timidez evitava que em ato de extrema coragem, saísse daquele cordão, atravessasse o salao e, impávido,  fosse até a mesa em que ela estava sentada com mãe, pai e irmãos, pedindo para dançar. Significava passar por um exame completo, como um scanner feroz. Pior, o altíssimo risco dela dizer que estava cansada. O retorno, arrasado, humilhado por não conseguir tirar nem uma menina para dançar era terrível. Para dar coragem, íamos em grupo e comprávamos meia garrafa de rum e algumas cocas. Aos poucos íamos inflando o ego e achando que éramos invencíveis. Às favas as possibilidades. Atravessarei este salao e direi a ela: vamos dançar? Estenderei a mão que ela pegará e ficaremos juntos a noite inteira. Um dos bons momentos de abordagem é quando começavam a tocar marchas rancho. O ritmo diminuía, alguns iam tomar alguns drinques e se nào fosse ali, era melhor ir embora para casa, derrotado. Então, cheio de coragem você olha e nem percebe que ela o aguardou a noite inteira por aquele convite. Que passava dançando com a irmã somente para provocar. A voz falha na hora do “vamos dançar”, mas logo nos encaminhamos ao salao. Bandeira Branca, amor, nào posso mais. Na mesma máscara negra que esconde teu rosto, eu quero matar a saudade. E então vêm as marchinhas mais animadas e ela não pede para parar. Agora nos olhamos e rimos, andando no círculo e cantando. O tempo que durou, não faço idéia. Veio mais uma sequencia de marcha rancho e ela continuou. Deveria convida-la a ir até o terraço, sei lá, outro canto, para conversar e, vocês sabem como é.. Mas não. E então tocou “Viva o Zé Pereira, viva o carnaval”. A mãe fez sinal. Ela virou para me dizer adeus. Estávamos com os rostos tão próximos que o beijo foi natural e também um susto para ambos. Olhamo-nos perguntando um ao outro. Consegui balbuciar: na porta do Colégio Moderno?

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

ODEIO VOCÊ, CULTURA

Assisti ao espetáculo “5 Vezes Comédia”, semana passada, no Teatro da Paz. Foram três sessões gloriosas, lotadas. Em um cálculo apressado, seriam três mil pessoas a R$100. Uma boa soma, mesmo descontando as despesas. No palco, comediantes conhecidos em programas da Tv Globo. E curioso perceber um padrão ditado pela emissora, no humor feito pelos atores. Esse padrão domina hoje o cinema nacional em comédias leves que conseguem milhões de espectadores. São cinco monólogos rápidos. Engraçado como, ao final, em poucos minutos, esquecemos o que assistimos, assim como acontece nos programas de tv. Divertem no momento. Nada para pensar ou refletir. Pior, a propaganda do departamento de Seguros do Banco do Brasil. Um casal senta na plateia. Ele vira para a mulher e diz que após uma semana de stress, um trânsito pesado até chegar ali, espera que a peça não seja daquelas “sérias”, e faz uma voz gutural. Emenda dizendo que deveria haver um “seguro-teatro”, para prevenir “peças ruins”. E creio que todos, ali, concordaram. A classe média paraense lota o Teatro da Paz a cada vinda de artistas globais e suas comédias baratas. Não é somente um fenômeno paraense. A Cultura saiu do cotidiano das pessoas. Fernanda Torres, entrevistada por Bial no GNT disse que antigamente, íamos ao cinema assistir Fellini, Buñuel, Kubrick, sei lá quem mais e saíamos tão impressionados que ficávamos na porta do cinema querendo falar sobre e depois conversávamos noite adentro em algum restaurante ou bar. Havia um impacto. E no Teatro? E na Música? A própria Globo recorre, agora, a músicas dos anos 80 e até Caetano Veloso das antigas em suas trilhas de novela. O que é produzido hoje é lixo. Saudosista? Será? Hoje, aqui em Belém, nosso teatro é feito em casas, como os primeiros cristãos em Roma, orando nas catacumbas. Somos vítimas de uma crueldade produzida por insensatez, boçalidade e ignorância, em mais de vinte anos de governo. Uma geração inteira foi desmantelada. Hoje, se perguntasse a uma daquelas pessoas no TP se assistiria a uma peça com artistas locais, ela talvez risse, debochando. Os governantes acabam de dar outra demonstração do seu ódio pela Cultura, nomeando uma advogada que talvez nunca nem tenha entrado em um teatro. Bom, talvez estivesse na plateia do TP. Ela própria confessou sua ignorância quanto ao tema. Somos vítimas? Somente porque deixamos que nos vitimassem. Somos desunidos. Muitos de nós, para sustentar a família, conseguiram emprego no Estado. Participar de manifestação? Nem pensar. O Estado é vingativo. Onde está a Escola de Teatro da Universidade, que tem como professores alguns dos mais brilhantes expoentes de Belém? E para quê, a cada semestre, apresentam novos profissionais? Para quem? E esse jovens, no fulgor da mocidade, quedam-se na base do não é comigo a cena que se apresenta? Desculpem a expressão, mas seja o Estado, a Prefeitura e nós mesmos, parecemos estar “cagando” para isso. Deixemos que tudo morra. Assistimos esses cretinos fazerem festivais de ópera, para cinco mil pessoas, enquanto milhões no Pará nada tem. Que um empresário de brega comande a Fumbel. Os algozes enfiam a faca sorrindo e sorrimos de volta para eles? Não me calei. Me prejudicou mas não evitou que seguisse com minhas obras. E vocês? Onde estão os jovens com sua força, lutando por uma brecha para mostrar seu valor? Vão ficar calados por quanto tempo?

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

NA GALERA

A primeira vez em que fui a um campo de futebol assistir a um jogo, fiz vergonha. Ao terminar o primeiro tempo, fui chamar meu irmão para que ele contemplasse o tamanho das orelhas de uma pessoa, na arquibancada. Depois, passei grande parte da infância e adolescência assistindo a jogos, sentado ao lado de meu pai, que primeiro era o locutor e depois comentarista. Estava no Leônidas Castro quando Amoroso fez aquele gol em que toda a torcida bicolor avisava o goleiro Omar e o zagueiro Abel que ele estava furtivamente vindo tomar-lhes a bola e fazer o gol. Estava no Evandro Almeida, na inauguração dos refletores, com Pelé em campo e vestindo o manto sagrado azulino. Também quando Eusébio esteve aqui com o Benfica. Grandes vitórias, grandes derrotas. O importante para mim foi aprender a “ler” o que se passava em campo. A dinâmica do jogo, as estratégias, formação e jogadas. Tudo isso me valeu para, mais tarde, escrever sobre futebol e comentar partidas para a Mais Tv. Também serviu para me tornar um espectador frio, muito diferente de estar na torcida. Sim, já estive em arquibancadas, poucas vezes, na companhia de amigos do colégio. Junto ao alambrado, xingando o bandeirinha. Uma vez, garoto, estava no Maracanã. Era Flamengo e Vasco. O rubro negro venceu, com gol de Espanhol, cujo nome era José Ufarte. Após o gol, com o estádio em festa, correu na direção da torcida. Naquele momento de emoção, compreendi tudo o que o futebol provoca nas pessoas. Uma mistura de gozo, vitória, consagração e a desgraça do rival. Há uns que pulam e se abraçam. Outros, de joelho, erguem-se cabisbaixos, outro reclama com o bandeirinha, aquele parece culpar o companheiro. Era um jogo interestadual. Equipes de rádio de fora presentes. Não havia lugar para mim, nas cabines. Meu pai me deixou junto aos conselheiros do Remo. Aqueles senhores me receberam com carinho, me ofereceram picolés, refrigerantes. Senti-me seguro. Mas então o juiz apitou, a bola veio na nossa direção, o jogador azulino dividiu e levou a pior. Então, como uma onda vibrante, aqueles senhores bonachões, bonzinhos, feito lobos ferozes se atiraram à grade proferindo os piores palavrões que já havia escutado, xingando juiz, jogador e quem mais aparecesse. Fiquei encolhido no canto. Todas essas palavras vos escrevo porque meu cunhado esteve no “Edgar Proença” assistindo ao jogo Remo x Cametá, levando seu filho. Mineiro, sem nada entender do jogo, fez a vontade de Gabriel, remista doente, mesmo morando em Brasília. Emocionado, conta do clima a partir da ida ao estádio, com ônibus carregados e cantando hino. Como engenheiro, prestou atenção aos detalhes da obra. Encantou-se com a emoção presente. Jovens, mulheres com crianças de colo, senhores com filhos e netos. Os hinos cantados antes do jogo. Os xingamentos aos juízes, ao atacante que perdeu a chance, ao rival que quase marcava. E na volta, a mesma festa. Li que ao contrário disso tudo, houve também violência, roubos, o de sempre em terra sem Segurança. Do jogo e suas estratégias, pouco pode dizer. O Remo venceu de goleada, mas foi a emoção, aquelas vozes cantando em côro improvável que lhe marcou. Esse é o segredo do amor ao futebol. Não é possível que continuemos em nossa terra a ser tão amadores, incompetentes, ladinos, com algo que provoca a enchente de gente para assistir equipes fracas, sem jogadores de nível, sem um regulamento, gramados em condição e pior, transmitindo a partida para a cidade. É incrível. É insuportável. Mas o torcedor vai e se emociona. É isso.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

ARISTIDES, O SANTO

Lembro de meu pai, um dos maiores contadores de anedotas que vi em ação. É preciso saber dosar as palavras, a pontuação, a melodia sendo o detalhe mais importante. Ser ator, sim, saber mostrar um personagem com mudança no tom da voz, talvez um ou outro movimento do corpo e no ritmo certo, chegar ao final retumbante. Meu pai tinha a mania de dar pequenos tapas ao final, nos ombros daqueles que ouviam a piada. Era um arremate, um chamamento, uma provocação ao riso, que era o aplauso. Eu o assisti, seja em anedotas “familiares”, seja nas mais sujas e impublicáveis, estas, contadas em círculos masculinos, a maioria das vezes nas rodas que se formavam após trabalhar transmitindo alguma partida de futebol. Uma dessas piadas, antiga, tentarei contar. Claro, a voz, os gestos, tudo isso fica faltando. É necessário também não fazer análise crítica sobre os acontecimentos. Procurar nexos, precisões, enfim. Será que vão gostar?

Aristides era um boêmio. Conhecido em todas as boates que percorria durante a semana. Em casa, no entanto, portava-se como um santo. À mulher, compreensiva, queixava-se que tinha o azar de ter agradado ao chefe. Que este o sobrecarregava de obrigações. Tinha serão quase todos os dias. Isso está me acabando, querida, choramingava. Mas certo dia, sabendo que o aniversário da esposa estava chegando, antecipou-se e a convidou para comemorar pegando um cineminha, ou jantar bem cedinho, enfim, querida, é o jeito, porque já fui convocado por este maldito chefe! Tide, eu não quero nada disso. Poxa, há quanto tempo a gente não sai e vai a uma boate, dançar agarradinho, tomar algumas e depois voltar para casa e fazer um amorzinho gostoso? Aristides tentou evitar. Querida, essas boates, hoje, são um antro de marginais, vagabundos e prostitutas perigosas. Eu tenho até medo de me aproximar delas. A gente nunca sabe. Não preferes um jantarzinho gostoso, com aquele prato que tu adoras, ou então um filminho desses românticos? Não, Tide. Dessa vez eu quero ir a uma boate! Mas querida, pode ser perigoso. Você é uma mulher educada, de nível, pode ficar chocada com o que pode ver? E como tu sabes disso, Tide? Trabalhas que nem um cavalo e não te divertes também, não é? Pois eu já decidi. Vamos a uma boate. Se não for assim, também não quero mais nada. Aristides, desesperado, teve de concordar. Pensou em uma casa noturna na qual já não ia há muito tempo. Quem sabe, não seria reconhecido. Os problemas começaram na chegada. O porteiro abriu a porta do taxi, solícito. Aristides, meu querido, há quanto tempo! Pensei que tivesse esquecido da gente! A mulher perguntou o que era aquilo. Respondeu que era alguma confusão. Na porta, o maitre abriu o sorrisão. Aristides, mon ami! Vou te levar pra tua mesa de sempre, reservada! Foram para a mesa. Trago aquele drink famoso que leva teu nome? Apreensivo, Aristides disse que queria apenas uma cerveja. Passou a moça que vende bombons e cigarros. Tidinho, querido, vai me dar aquela gorjeta de sempre, hoje? Fez que não ouviu. A mulher, no entanto, já começava a tufar de raiva. Quando a cantora disse que ia cantar aquele bolero que a gente gosta de ouvir e namorar, ela explodiu. Sacripanta, mentiroso, patife! Todo esse tempo me enrolando com essa história de serão! Tu vinhas era para a farra! E começou a dar bolsadas no Aristides que, cabisbaixo, levantou e se encaminhou em fuga para a porta. Luzes acenderam. E a mulher gritando e batendo. Entraram no primeiro taxi que viram. Rodaram uns dois quarteirões. A mulher batendo e xingando. O motorista freia o carro: Porra Aristides, bota pra fora essa puta maluca e vamos procurar uma melhor! Mais não conto por ser muito traumático...