sexta-feira, 18 de agosto de 2017

REPULSA

Como todos sabem, o Rio de Janeiro hoje é uma cidade falida, cheia de problemas gravíssimos, milhares de pessoas sem emprego ou sem receber salários. Nas ruas, uma guerra civil conta agora com o Exército na fiscalização, sem deter a violência. E, no entanto, empresários que parecem ser sócios em uma corretora de valores, acabam de inaugurar um teatro. Um teatro! Fica em uma área no terreno do Jockey Clube onde antes havia uma sala onde algumas peças foram apresentadas. Agora é uma casa para as Artes Cênicas, com todos os equipamentos necessários. Quando leio uma notícia dessas e olho à minha volta, sinto-me insultado. Sinto repulsa. Até uns 25 anos atrás, Belém contava com uma cena teatral cheia de atrações e casas cheias. Sim, ao longo do tempo, muita concorrência surgiu, mas principalmente, houve um desmonte do setor. Um abandono. Pior, uma deliberada ação para minar o movimento, pela negação dos espaços aos grupos locais, com uma lei cultural que inibe patrocinadores, todos com medo de terem seus livros abertos pela fiscalização. Pela falta completa de qualquer programa de investimento na criação de plateias, formação de mercado, apoio para que os grupos possam, aos poucos se manter, certos de ter um retorno de bilheteria aos seus trabalhos. Funcionários públicos, orgulhosos de sua ignorância, preferem promover um festival de ópera, gastando muito dinheiro, tendo, com récitas lotadas, um total de oito mil pessoas, talvez, enquanto milhões de outros paraenses, em todo o Estado, nada têm para desfrutar de Cultura. Ao longo desse tempo todo, sem nenhuma fonte de renda, atores e técnicos procuraram outros empregos, até mesmo no Estado e por isso, sem disposição para manifestações contrárias. Têm medo de perseguições. Outros, fizeram concurso e agora são Doutores e Mestres na Escola de Teatro da Ufpa, formando atores e técnicos a cada semestre, ao que parece, interessados mais em atuar como professores. O que isso resultará, não sei. Nesse tempo todo, a Cultura se profissionalizou. Hoje, é geradora de empregos, impostos, fora seu imenso valor de ser ponto de partida para a discussão em sociedade, dos assuntos que são de todos. Um povo que não consegue refletir sobre o mundo em que vive, está perdido. Por isso, estamos perdidos. O que sei é que poucos grupos suportaram toda essa pressão e continuam, depois de terem vivido de prêmios da Funarte e Ministério da Cultura e agora, por sua própria conta, fazendo Teatro. Apresentam-se em palcos alternativos, espaços em casas, praças, pela missão de espalhar Cultura e para resistir. Os que ainda tentam teatros menores, são constrangidos em pagar, além de taxas altíssimas, um “por fora” aos funcionários por, estranhamente, não serem contratados para trabalhar no horário em que os teatros funcionam. Tudo isso sem contar que é preciso levar garrafão de água, papel higiênico, fabricar ingressos, fatores mais que evidentes que não são bem vindos. Em cidades como São Paulo, shoppings são obrigados a ter equipamentos para arte, principalmente teatro. Aqui, em Belém, nenhum teatro consta dos planos desses empresários que ficam ricos na cidade, mas a odeiam. E leio e vejo fotos da inauguração de um novo teatro no Rio de Janeiro em meio à maior crise que já enfrentou. Esperaremos até o ano que vem para nos livrar-nos desse funcionário público que odeia Cultura paraense? O mal que já foi feito não tem tamanho. Quantas gerações foram perdidas nesses 25 anos? Serão precisos vários anos para a recuperação de tudo o que foi destruído.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

O MAGUENHÉFICO

Quando conheci meu avô, ele já estava bem velhinho. Passava pouco tempo em sua escrivaninha, no segundo andar do Palácio do Rádio, sobre a qual havia sempre muitos recortes de jornal e papéis escritos à mão em uma caligrafia nervosa e difícil de entender. Baixinho, magro e cabeçudo, seus amigos diziam que eu era uma miniatura dele. Nas ruas, andava lentamente, atendendo conhecidos e pedindo-lhes para escrever seus nomes em uma caderneta amassada, dizendo que era para mencioná-los em sua crônica. Na verdade, não lembrava seus nomes.. Às vezes, no imenso pátio da casa em Mosqueiro, antes de sentar e ficar acenando para os amigos, danava a lembrar acontecimentos. Eu bebia o que contava. Uma época maravilhosa, romântica, como uma Paris em plena Amazônia, com homens de paletó de linho, chapéus de palha, cafés lotados.
Nascido em fevereiro de 1892, cedo perdeu o pai, largou os estudos e foi trabalhar para sustentar mãe e três irmãs. Aos sábados, um padrinho reunia amigos em sua casa para almoçar. Ele levava o jornal “O Pau”, que passava de mão em mão entre os convivas que pagavam para ler. O dinheiro servia para comprar livros e cadernos. Foi despachante representando várias empresas, entre elas, a Fábrica Palmeira. Jornalista, escreveu em A Província do Pará, A Tribuna, Folha do Norte e O Estado do Pará, tornando-se um dos grandes nomes do setor, recebendo o título “Príncipe dos Cronistas Esportivos do Norte”. Criou o apelido “Leão Azul”, para o Clube do Remo. Foi um dos fundadores da Aclep, Associação dos Cronistas Esportivos do Pará. Nada disso era suficiente. Edgar Proença também foi redator de revistas como A Semana e Pará Ilustrado, sendo um dos primeiros colunistas sociais, sob o pseudônimo Miracy, crônicas depois reunidas no livro “Gravetos”. Ou ainda “Crônica da Cidade Morena”, o apelido que deu a Belém.
Juntamente com Eriberto Pio dos Santos e Roberto Camelier, fundou em 1928 a querida Rádio Clube do Pará, na qual foi homem de todos os instrumentos, como primeiro locutor esportivo, apresentador de programas, rádio ator e redator. Nas praças esportivas, me contaram, deixava de narrar o jogo em andamento para saudar a chegada de alguma senhorita de grande beleza. Naquela época, eram acontecimentos sociais os jogos de futebol. Imagine se fosse hoje..
Tendo a chance, já adulto, voltou a estudar e formou-se em Direito em 1936, chegando às funções de Juiz Substituto da capital.
Além de “Gravetos”, publicou os livros “Colcha de Retalhos” e “Melodias do Coração”, o que lhe deu lugar na Academia Paraense de Letras. Também atuou no Teatro, sendo autor de peças como “Taça Vazia”, “Blusa de Chita”, “A Mulher que Passa” e “Vestido de Noiva”, apresentadas no Teatro da Paz, casa que dirigiu anos mais tarde.
Quando a Rádio Clube completou 80 anos, escrevi a peça “A Voz que Fala e Canta para a Planície”, encenada pelo Grupo Cuíra, com grande êxito. Foi uma ocasião única para mergulhar na história desse homem esplêndido, realizador, ousado, que a tudo vencia com trabalho, inteligência, talento e verve. Casado com Celina Proença, teve dois filhos, Edyr e Célia. E os netos, todos mexendo em Comunicação, de uma maneira ou outra, caminho, também de alguns bisnetos.

Quando morreu, eu já era adolescente e tinha perfeita idéia da trajetória e dos feitos daquele meu avozinho baixinho e cabeçudo, que andava de pijamas e chinelos arrastando, lendo seus jornais. Um gigante o meu avô. O maguenhéfico!

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

O TÓPLIS NÃO APARECEU

Naquela sexta o Tóplis não foi trabalhar na birosca ali perto da Presidente Vargas. Sabe lá, dormiu muito, arranjou algum esquema, se deu bem, ele merece, grande figura. No sábado, também não foi trabalhar. Ele não tinha, assim, um vínculo empregatício, carteira assinada ou sequer contrato. Foi aparecendo, chegando, ficando por ali, conversando, disposto a qualquer tarefa, primeiro de boas, só pela amizade e adiante, faturando alguma ponta dos bicos que pegava. Parece que o apelido vinha dele tentar dizer “Topless”. Começamos a ligar pro celular do Tóplis. Chamava e ninguém atendia. Estava ficando estranho. Arrumou uma coroa e foi passar o fim de semana em Algodoal? Ele tinha uns macetes. Quase setenta anos, mas não passava recibo. O que queria da vida, o Tóplis? A essa altura, ficar por ali batendo papo, arengando com uns e outros e no fim do dia, tomar seu chopinho em paz, até a leveza bater e ir dormir. E não é que encontrou a medida certa? Quais eram as outras ambições? Uma coroa, como já disse. Me contava que aos finais de semana ia ao shopping tomar suas cervas. Ficava por ali, sorvendo o líquido e admirando a paisagem, no caso, as mulheres que circulavam. Tem muita mulher solteira. Não entendo esses homens. Chegam de turma, bebem, riem, fofocam e saem sozinhas, como chegaram. Eu fico por ali abicorando. Umas solitárias. Parecem aguardar alguém, que não chega nunca. De vez em quando rola um papo, sabe como é. O Tóplis aqui se dá bem, de vez em quando. Esses caras de hoje nào sabem tratar uma mulher. Mulher quer atenção, carinho, alguém que ouça suas queixas, que concorde com suas opiniões. Ao final ainda pagam minha consumação e olha, bem, tu sabes como é, né? E soltava aquela gargalhada. O Tóplis era um solitário. Seu mundo estava ali, ao redor da birosca. De vez em quando contava aventuras de sua mocidade, aprontando todas, com amigos que ele ia lembrando, dizendo os nomes, como se eu os conhecesse. Eu já estive nas altas rodas, cara. Eles vinham comer na minha mão, mas depois vi que isso não valia nada. Quando eu passava na frente, vinha me mostrar as mulheres nuas nos jornais. E ainda tem gente que não gosta disso, ria. Quando Remo ou Paysandu perdiam, um brincava com o outro, mas sempre com muito humor. O Tóplis não atendeu ao telefone. No domingo, pegamos o endereço da pensão em que morava. Um quarto humilde, mas no centro da cidade. Não, ninguém sabia de nada. Batemos à porta. Nada. O zelador veio com a chave. Estava caído, ao lado da cama, um lado do corpo paralisado. Passara aquele tempo todo sem água ou alimento. Sem medicação. Um AVC em algum momento o deixou tonto. Tentou levantar mas caiu e ali ficou. Chamamos Samu e médicos. Fazíamos perguntas. Não conseguia falar. Os olhos mexiam. Quando me olhavam, desviavam em direção a algum lugar. Não foi logo que percebi. Muito simples, o quarto. Assim era o Tóplis. Umas duas calças, quatro camisas e um sapato. Ganhava uma merreca de aposentadoria. Complementava com os bicos. Os médicos o levaram. Não suportou. Morreu. Família espalhada. Um irmão pareceu responsável. Enterramos. Ficamos tristes a lembrar seus causos. O Carlão, dono da vendinha é que disse que o Tóplis tinha mexido com jogo clandestino da pesada, quando era mais novo. Foi quando me lembrei dos avisos que ele me dava ao desviar o olhar em uma direção, em seu quarto. Voltei à pensão. Havia, sobre uma mesinha, um bolo de papéis manuscritos, um título simples, “Meu Jogo da Vida”. Sentei e comecei a ler. Ali estava uma vida cheia de acontecimentos maravilhosos, começando em São Miguel do Guamá e tendo seu auge nos cassinos de Belém. Mas esse Tóplis! E essa história, hein?

sexta-feira, 28 de julho de 2017

A VOZ DOS OLHOS

Sempre tive a impressão de que Elza Lima já tinha nascido com uma máquina fotográfica nas mãos. Já a conheci alerta, perspicaz. Um olhar que procura o tempo todo pelo quadro definitivo. Conversa com a gente e o olhar passeia em volta, quem sabe, de repente, talvez pense. 
Uma das grandes fotógrafas paraenses, veio no pioneirismo de Miguel Chikaoka e da Fotoativa. Em algum lugar vi fotos em preto e branco, que me conquistaram. Algumas estão aqui neste livro da “Coleção Ipsis de Fotografia Brasileira”, lançado no ano passado e não suficientemente promovido aqui entre nós, o que não é novidade, com tantos torcendo, oficialmente contra, nossa Cultura. 
A foto “O Encantado”, feita em Capanema, 1992, é linda, bem como a “Rio Trombetas”, de 1997. São incríveis, como é ressaltado nos comentários e entrevista com ela, no livro, os numerosos planos a cada foto, a impressão que o quadro ainda era bem maior, excedendo os limites, convidando-nos a imaginar. Os cortes, nada convencionais e, principalmente, o olhar. Como ela diz, a voz dos olhos. 
A imaginação foi excitada ainda criança, pelos avós em incontáveis viagens pela Amazônia, esse mundo de possíveis e impossíveis, mundo em movimento, exercendo a cada instante fascínio sobre quem olha, sobre a voz dos olhos. 
Elza conta que muitas vezes espera. Olha, foca e parece faltar alguma coisa, que vem em seguida, absolutamente inesperada ou, diria, esperada, como se fosse a parte do quebra-cabeças necessária para compor o ideal. A convivência maravilhosa entre o homem, a natureza e os animais. O olhar de esperteza, ironia, do caboco, fotografado. Ou o homem forte, que encara uma iemanjá pintada na parede do bar. O garoto negro, todo ensaboado, tendo atrás de si vários outros planos, outras leituras. 
Nesse período, dos anos 1980 aos 1990, Elza fotografou em preto e branco, lembrando da ilha dos daltônicos, onde as pessoas viam tudo sem cor. A textura das asas de anjos nas crianças, nas procissões. A Santa, sentada em um banco corrido, circunspecta como uma imagem, tendo ao lado senhores com suas melhores roupas, respeitadores, uma corte, uma escolta à santidade. 
Sou um comum. Não tenho grande conhecimento técnico de fotografia. Acredito na força do olhar. Na poesia. Na voz dos olhos e a imaginação. Penso que a criação de Elza foi parecida com a minha, livre, inteiramente livre para imaginar e fazer o que quisesse. A leitura dos livros. Ouvir a música por trás da música. E olhar para o mundo com interesse genuíno. O que há para olhar de verdade? A vida. As pessoas. Como a natureza nos afeta. Pessoas simples, vivendo seu mundo perfeitamente integradas. 
Como diz Eder Chiodetto, a fotografia de Elza é irrequieta, indomável, passando por cima das convenções para obter a verdade. Fotografando uma Amazônia multicolorida, ela ousa procurar essa verdade nas fotos em p&b. “A Amazônia é muito imagética. Você vê o rio e uma árvore escondida. Daí passa um bicho, passa um homem. Não é tão linear quanto uma cidade construída; ela é feita de entremeios, de sombras... Acho que as pessoas que vivem na Amazônia têm essas nuances. É um treinamento do olho, natural de quem vive lá”. 
E essas pessoas nos olham, indagam. A foto de um menino. Ele parece quer saber o que há por trás daquela câmera que o foca. O caboclo que parece fazer troça. O casal que se beija na boca enquanto os outros contemplam. Belo livro. Que venham outros. Gostaria que o procurassem. Talvez na internet. Será que a Fox traz por encomenda? Vale a pena

sexta-feira, 21 de julho de 2017

O MELHOR LUGAR DO MUNDO

Assisti ao filme “Divinas Divas”, de Leandra Leal, apresentando famosos travestis e suas vidas, após longos anos sob holofotes. O resultado é muito bom, mas confesso que o que me tocou realmente foi o Teatro Rival, ali na Cinelândia, Rio de Janeiro, deixado pelo avô de Leandra e que ao longo do tempo tem permanecido vivo, apesar de todas as crises e concorrência. Seus bastidores, camarins, o palco nu ou já com cenário, mas ainda vazio, momentos antes da abertura das portas para a entrada do público. Se vocês soubessem da vida intensa que existe ali, nos bastidores! Para mim, um teatro é um templo, uma igreja. Para pisar no palco e nos bastidores, há de haver respeito por tudo o que representam. Lembrei do Teatro Cuíra, levado a ferro e fogo, sem ajuda dos órgãos de Cultura do Estado e Município, geridos, há tempos, por ignorantes irritados pelo teatro continuar existindo apesar deles. A epopeia, a luta desigual levou nove anos. Nove belíssimos anos, com grandes espetáculos, mas principalmente, uma vida interna gloriosa. O primeiro dia, quando o elenco se reúne, nos bastidores, em torno de uma mesa, nas poltronas, com o diretor no palco, definindo as primeiras tarefas. As sessões de leitura de texto. As primeiras movimentações, estudos de iluminação, os cenários sendo levantados, figurinos testados, a trilha sonora sendo composta. Principalmente, os atores vestindo, aos poucos, aqueles personagens, trocando ideias. No teatro, tudo se discute. O resultado é absolutamente coletivo. Me deu saudade. Um aperto no coração. E vem o dia da estréia. Há um público lá fora. Ouvimos seu burburinho. Atores terminam a maquiagem. Outros se alongam. Fazem exercícios vocais. Discutem as últimas situações. Iluminadores e sonoplastas estão em suas cabines. Fazemos soar a primeira campa. Alguns olham por algum furinho, através das cortinas, tentando reconhecer alguém. Ouvimos alguém rindo de alguma piada. Vem a segunda campa. Todos reunidos, mãos dadas, até o famoso grito de “merda”. Estamos prontos. Corações acelerados. Agora, apresentaremos o resultado de dois, três meses de ensaios. Somos uma família. Durante aquele tempo todo trocamos opiniões, fazemos confissões, reavaliamos nossas crenças. Alguém avisa que aguardará mais alguns minutos porque ainda há público entrando. Um fica em frente à parede, murmurando prece. Outro silencia. Aquele vai ao banheiro para um último pipi. Nos abraçamos, nos beijamos. As ferragens estão expostas. O piso é gasto. Nas paredes dos bastidores, reflexos de outras montagens. A mesa de maquiagem é improvisada. Em instantes eles estarão no palco e serão outras pessoas. A mágica é feita ali, frente ao público. Tudo é possível. As pessoas nào têm idéia como tudo foi ensaiado, cuidadosamente, para que pareça natural. Fechamos o teatro. Uma tristeza imensa. Ninguém veio nos salvar. Talvez tenham festejado. Retirar as poltronas. Desmontar o palco. As ferragens. Som, iluminação. De repente, um vão livre, um vazio. Um vazio nas nossas almas. Eu via e ouvia um mix de tudo o que se passou. As palmas, os risos. Atores dizendo textos. O caminhão partiu com as poltronas, doadas a uma igreja na periferia. O silêncio. Lá fora a cidade em sua correria. Ali dentro, personagens me perguntavam por quê? O silêncio era a resposta. O uivo do vento entoando uma canção triste. Mas o Teatro vive. Agora estamos em uma casa. Estamos, inclusive ensaiando. Vivendo novamente o processo. O melhor lugar do mundo está nos bastidores, antes de soar a terceira campa. Garanto.

sexta-feira, 14 de julho de 2017

BÁRBARA, BELA, TELA DE TV

A imagem transmitida para os mais diferentes receptores, a realidade transportada, a imagem inventada chegando até nós, se apresentando e se impondo, ficando gravada em nossas mentes, não diminuindo a capacidade de imaginação, ao contrário, aumentando, até colaborando, de alguma maneira armazenando, inclusive em quem não tem acesso à alfabetização, os fatos culturais. Quem será o dono das imagens? A quem interessa transmitir esta ou aquela imagem, manipulada ou não? Influir na opinião pública. Criando mocinhos e vilões. 
Londres é talvez a cidade mais vigiada do mundo. Todos são filmados nas ruas, recintos fechados, públicos - quem sabe também em privados? Razões de segurança. Em Belém, políticos usam imagens para mostrar que estão trabalhando bem, embora todos discordem.
É possível sobreviver em Brasília sem se envolver com irregularidades? Milhares de imagens, todos os dias. O que assistimos é a realidade? Ou é uma dança coreografada diariamente para nosso deleite? Olhos rútilos garantem honestidade. A falta de investimento em Educação e Cultura, a deterioração do tecido social, trocado pela sobrevivência diária. Quem lê jornais? Quem lê análises políticas? Quem lê tanta notícia? Nossas autoridades são mestras na dissimulação frente às câmeras. Não sabem, não viram, mas vão mandar apurar rigorosamente. Há um descompasso entre a imprensa, como tambor da sociedade, e a verdade anunciada pelos políticos, que parecem, hoje, atuar apenas para evitar que sejam descobertos em ações ilícitas. Qual será a verdade?
Há como que realidades superpostas. Diariamente, no “Jornal Nacional”, há cobertura da ação policial no Rio de Janeiro. Ou em Belém. Soldados camuflados, com armas pesadas e postura de guerra, escondem-se nos becos, apontando, procurando inimigos. Como nos filmes. Na mesma cena, despreocupados, moradores, homens, mulheres e crianças passam pra lá e pra cá, na sua azáfama diária. Lojas, casas, ambulantes, mais soldados. Como realidades superpostas. Como se filmados separadamente e depois sincronizados. A guerra de uns e outros, diferente da outra guerra, a da sobrevivência, à margem, criando outra sociedade, sem controle, a sociedade do descontrole, onde o lema é sobreviver. E os corpos empilhados, crimes sem solução. 
E nessa sociedade tudo é pirata, como uma sociedade cover, sociedade falsa, com outro padrão. É pirata porque não tem dinheiro para ser a verdadeira. Porque, ao contrário de morrer, desaparecer, luta para continuar viva e se reinventar a partir do instinto de sobrevivência. Não há Cultura ou Educação como conhecemos. Uma nova escala de valores é criada. A vida e a morte na TV. Está na imagem e a mídia, tem fome. A sociedade imagética. A sociedade espetáculo tem fome. A quem vamos devorar nesta semana? 
A nós não basta desnudar as pessoas em seus 15 minutos de fama, naquilo que representa sua vida, sua ação profissional ou particular. Queremos tirar-lhe a roupa, escanear poro por poro de seu corpo. Queremos ver sua vagina, seu ânus, saber se é depilada, se as fotos precisaram de Photoshop, se os seios têm silicone. Devoramos seu corpo e, após o gozo, queremos mais. Nos faces e instas, maridos expõem suas mulheres em ação que visa, com o exibicionismo, a excitação. O espetáculo. Pageviews. Ou aquela mulher, que como Jabor diz, é apenas uma bunda. Como é seu nome? Bunda. Em todas as telas. Das menores às maiores. Editadas ou não. Soa um ruído. Todos os olhares voltam-se para as telas. Está tudo na bárbara, bela, tela de tv.

sexta-feira, 7 de julho de 2017

AOS MEUS PROFESSORES

Acabo de assistir a uma reportagem na televisão sobre professores inesquecíveis de cada um de nós. Não conheço profissão mais nobre. A importância de alguém que nos ensina as primeiras letras, a escrever e ler. Tive ao longo da vida professores de fundamental presença e aproveito o mote para lembrar deles. Aos oito anos, meus pais conseguiram que Beatriz Kup, filha do cônsul da Inglaterra, quinze ou dezesseis anos, me ensinasse a falar inglês. Além de linda e inteligente, ela me passou o fascínio da Língua, embora a tenha feito passar vergonha. Em uma recepção, apresentou-me ao pai que, brincando, perguntou “How do you do”, ao que respondi, encabulado, “ainda não dei isso”. Cinquenta anos depois a reencontrei, com a mesma beleza e vivacidade. Parecia um encontro marcado. Semanas depois, repentinamente, faleceu. Estudei o Primário no Colégio Suiço Brasileiro. Lembro pouco. Mas no Colégio Nazaré fiquei até seguir para a Universidade. Logo no primeiro dia de aula, aprendi todos os palavrões que sei até hoje. Mas também aprendi muito. Não esqueço de alguns Irmãos, sobretudo Irmão Machado, nordestino, que criou um Clube de Leitura. Fiquei encarregado de ser um dos redatores do jornal “O Caminho”, impresso em mimeógrafo. Após as aulas matinais, voltava à tarde para reuniões onde aprendia Educação Sexual, Leitura e discutíamos Religião. Confesso que minha assiduidade era devida ao futebol que jogávamos ao final das discussões, mas sei, que toda a reflexão feita sobre os assuntos, me fizeram ser quem sou, hoje. Havia o querido Irmão Afonso, alemão que diziam ser vítima de guerra, o que nos dava curiosidade e um certo medo. É uma pessoa doce, adorável, ainda hoje com uma legião de amigos, ex-alunos. E os professores? Havia o Camarão, de Língua Portuguesa, excelente, boêmio, às vezes dando aula com muita ressaca. O Padre Tocantins, figura ao mesmo tempo engraçada e complicada. O professor Gabriel Leal, adiante, parceiro de jogos de futebol, que tocava em uma eletrola “My Bonnie” e caminhava pela sala, cantando. O professor Manoel Leite, apaixonado por sua matemática. Professor Nogueira, de Química Mineral de quem me tornei muito amigo, mesmo que faltasse, com outros, às suas aulas, para jogar futebol. O Irmão Porfírio, preocupado que não estudássemos demais e chegássemos ao Vestibular cansados. Lembro então de uma das pessoas mais importantes da minha vida, meu amigo Abílio Cruz, que estudava dando aulas para nosso grupo de estudo. Um professor, adiante, no Curso de Engenharia da Ufpa. Foi-se muito cedo e até hoje deixou uma lacuna enorme nos nossos corações. Mas quero prestar homenagem, principalmente ao professor Edson Berbary. Sua cadeira era Português. Embora eu já devorasse todos os livros de aventuras de capa e espada da biblioteca de meu avô, ele dividiu nossa turma em grupos, oferecendo livros de autores brasileiros diversos para que lêssemos e fizéssemos um trabalho a respeito. A mim coube “Menino de Engenho”, de José Lins do Rego. Meu avô emprestou-me. Havia uma dedicatória do escritor para ele. Li em seguida os outros dois livros e isso despertou em mim, definitivamente, a leitura, a reflexão e nunca mais parei. Berbary também estava sempre conosco em acantonamentos, projetos, diversão. Com sua inteligência, sua postura, sua integridade, é um Professor com “P” maiúsculo, que nunca vou esquecer. Muito obrigado. Há alguns bons anos atrás, também dei aulas no Curso de Jornalismo na Ufpa. Confirmei a importância da missão. Não há nenhuma profissão mais importante. O meu agradecimento a todos eles que me fizeram ser quem eu sou, hoje.