sexta-feira, 23 de junho de 2017

EU VEJO O FUTURO REPETIR O PASSADO

Há uma onda de nostalgia no ar. Mesmo em um momento em que os programas populares apresentam somente os tristes e deploráveis artistas do momento, em que Elba Ramalho fala em nome da cultura nordestina, protestando contra os sertanojos, contratados a peso de ouro e tirando o lugar de artistas do forró nas festas juninas, o passado está aí. Na Rede Globo é uma festa. Começa na abertura da novela das sete, com uma versão de “A Hard Day’s Night”, dos Beatles. Prossegue na série “Os Dias Eram Assim”, com toda a trilha formada por sucessos dos anos 60. Duas ou três mereceram fraquíssimas versões de cantores atuais. Nas emissoras em canal fechado, acabou de passar o documentário “Dunas do Barato”, Rio de Janeiro, anos 70, quando a produção cultural, mesmo enfrentando muita censura, foi profícua. Houve, na praia de Ipanema, a construção de um emissário de esgoto em mar distante. Com isso, um pontilhão apareceu, como que rompendo o mar e com isso, proporcionando ondas boas para o surf. Na areia, um sem número de artistas e jovens em geral pegava sol, debatia os assuntos e marcava onde todos estariam à noite. Foram focalizados artistas das Artes Plásticas, os poetas marginais, o surgimento das boutiques modernas, a partir das novidades internacionais e dos trajes desses jovens da praia, o teatro principalmente de Rubens Correia e Ivan Albuquerque, no lendário Teatro Ipanema e os shows e discos de Novos Baianos, Gal Costa, Raul Seixas e outros. Eu vivi tudo isso. “O Imperador Assírio”, “A China é Azul”, “Hoje é dia de rock”, “Hair”. Toda essa turma na praia, à noite, se reencontrava. Ou então para assistir “Fa-tal”, o melhor momento de toda a carreira de Gal Costa, linda, cantando um repertório sensacional. José Wilker era o ator da moda. Eu o vi uma vez, lanchando no Bob’s, bem jovem, cabeludo, famoso. E assisti “Artaud”, com Rubens Correa, no porão do Teatro Ipanema, peça que chegou a ser apresentada em Belém e que considero, com “Macunaíma”(Caca Carvalho), os dois espetáculos mais importantes da minha vida. Pouco mais adiante apareceu o Circo Voador e os anos 80 e o rock nacional, o último grito de criatividade na música brasileira. Agora, temos apenas ruído ruim. Também no canal fechado, um documentário em vários capítulos sobre a carreira de Gal Costa. E vêm Caetano, Gil, Duprat, Macalé, Waly Sailormoon e a cantora Maria da Graça. Tudo isso após ler a biografia de Caetano Veloso, que está nas livrarias. Uma onda de nostalgia que faz os mais velhos reencontrar a juventude, lagrimar em alguns momentos e perceber que tudo era muito rico, audacioso, feliz. Onde foi parar tudo isso? Na sociedade de consumo? Afundou com o fracasso da Educação e da Cultura? Esqueci de dizer que também, agora, pedimos eleições diretas. O passado retorna. Embora tivéssemos muita atividade criativa nos anos 70, aqui em Belém, no teatro, por exemplo, creio que a década seguinte trouxe a maior parte das grandes figuras que até hoje ainda estão por aqui. Esses jovens liam, discutiam, montavam espetáculos na marra e depois iam debater tudo em pontos como Bar do Parque e ¾. A impressão que tenho é que a juventude atual não sente vontade de lutar por seus direitos, por seu espaço, para dizer a que veio. Reúne-se em guetos separados. Vão aos shows, batem palmas e somente se unem para xingar os coxinhas. É pouco.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

A BIOGRAFIA DE CAETANO VELOSO

Caetano Veloso é o ídolo da minha geração. Se vindo de fora já era época de Beatles, Stones e chegando Hendrix, Doors e Joplin, aqui no Brasil pairava um som entre o romântico bolero e a Bossa Nova. Eu me lembro de assisti-lo na televisão em p&b lançando “Alegria, Alegria”, com roqueiros argentinos acompanhando. Aquela linguagem de imagens superpostas me encantou. Caetano na TV no programa “Esta Noite Se Improvisa”. O casamento com Dedé, em Salvador, com a multidão e eles andando rumo à Igreja. Deu no Jornal Nacional. Tudo em p&b. 
Eu me lembro de Caetano no Ginásio Serra Freire, do Clube do Remo. Em meio ao show, sentava sobre um tapete e comia uma flor. Para a época, muito doido. Caetano e Gil, presos. O disco inglês com uma foto deprê e um repertório ao qual vim dar valor tempos depois. A volta com o “Transa”. Caetano e Chico, ao vivo. Eu estava na praia, Rio de Janeiro, e a Rádio Mundial não parava de tocar “Diz que deu, diz que dá”. A revista “Bondinho”. O jornal “Rolling Stone”. Outros jornais como “A Flor do Mal”. Eu me lembro. 
Caetano de batom vermelho, bustiê e tamancos holandeses. Eu tive um. Bicha! Bicha! Essa ansiedade em desafiar, explicar, confundir, me encantava. Ele me ensinou a cantar. Nos trouxe de volta bolerões com novos arranjos. Relançou Luiz Gonzaga. Em 1968, veio a Belém, com Gil, participando de um show da Rhodia, empresa que na época fabricava os tecidos que as mulheres compravam. “Momento 68”, em pleno Theatro da Paz. Eu estava lá. 
Chegava a gostar menos de Chico Buarque. Ele parecia muito careta. Hoje eu sei, claro. Sei também que a carreira e discografia de Caetano é muito desequilibrada. Em muitas músicas, parece ter acabado a letra apressadamente. Os arranjos, também. Se nos primeiros tinha ótimos maestros arranjando, quando voltou do exílio, no auge, gravou “Araçá Azul”, o álbum experimental, recorde de devolução das lojas. Há joias ali, mas há também um pouco de soberba em inventar, na base do foda-se. Adiante, em “Joia” e “Qualquer Coisa”, também. 
Para mim, o melhor momento de sua vida foi ao lado da Banda Nova, com Vinícius Cantuária, Tavinho Fialho e outros. Começa em “Muito Por Dentro da Estrela Azulada”, que abria com “Terra”. Incrível, sabiam que foi muito criticado? Então vêm “Cinema Transcedental”, “Outras Palavras” e “Cores, Nomes”. 
Esqueci “Os Doces Bárbaros”, grande momento ao lado de Gil, Gal e Bethânia. Caetano circulava pelo Brasil com a banda, namorava, via, lia, ouvia e o resultado está nos discos. Ele diz que muitas músicas poderiam ficar melhores. Pode ser. Mas creio que foi quando se aproximou de Arto Lindsay e casou com Paula Lavigne, alguma coisa se partiu. Os discos continuaram bons, mas a chama começava a murchar. Veio o fenomenal “Fina Estampa”, delicioso como cantor. O mundo agora o amava. Mas, curiosamente, raras músicas, para mim, tinham o mesmo nível. 
Recentemente entrou na fase rock, que considero terrível, muito ruim. Agora circula escolhendo pérolas do imenso repertório para cantar. Ele pode. Acabei de ler “Caetano, Uma Biografia”, de Carlos Eduardo Drummond e Márcio Nolasco, um livro pronto há alguns anos e não autorizado por Caetano não gostar do português da dupla, realmente cheio de clichês. Agora que caiu a lei, está nas livrarias. Para quem quer saber detalhes, sobretudo do início de carreira, sensacional. “Trilhos Urbanos” é Santo Amaro, em detalhes. “Trem das Cores” foi feito quando viajava no Trem Prata, do Rio para SP, namorando com Sonia Braga. “Você é Linda”, foi feita para uma adolescente que namorou com ele durante uma turnê. Há muitas outros detalhes. Agora Caetano anuncia outro disco. Compro todos. Quero gostar. Tomara.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

MEU CORAÇÃO É BANDEIRA AO VENTO NA PRAIA DO FAROL

Minha amiga Silvana acaba de publicar fotos do Hotel Farol, em Mosqueiro, onde passa alguns dias com sua mãe. Comentei, no Facebook, que meu coração está ali, naquele cenário, não enterrado, mas empinado, ao vento, como uma bandeira feliz, acenando para o dia. 
A praia do Farol é o local dos meus sonhos e devaneios. A casa de meus avós. Uma das lembranças mais antigas foi uma madrugada em sussurros de minha mãe e suas auxiliaries. Íamos pegar o ônibus das seis, até a Vila, e de lá, no Presidente Vargas, para Belém. Elas não queriam nos acordar. Outra lembrança é acordar, um domingo, ouvindo o vento nas palmeiras e a algazarra da criançada, na praia. Como eu era feliz. Como um dia em que meus pais e um ou dois dos meus irmãos tinha ido a Belém e eu fiquei. Era depois do almoço, dia de semana, julho, e naquela calmaria, fui até a praça em frente da casa, subi em uma árvore e lá fiquei pensando na vida. A vida! O que seria, o que haveria à frente? 
O Farol da minha meninice era muita praia, bicicleta e futebol. Mas foi lá, também, que conheci meu primeiro amor, que até hoje me afeta. O sentimento de paixão, alterando, trazendo desvarios mentais ao meu cotidiano até então. Aos finais de semana, noitinha de sexta, chegavam os pais, vindos de Belém, pelo navio. Traziam revistas para as crianças. Nosso vizinho, Sr. Harley, passeava em um carrinho, levando uma criança de cada vez para uma volta. Mais tarde, vinha fazer mágicas. Junte isso com as narrativas de minha mãe, teatralizando uma Amazônia misteriosa, ocupando, municiando nossas mentes, abrindo portas para o livre pensamento. Meus avós, sentados em cadeiras no imenso patio, saudando os amigos que passam em direção à praia. 
Quem chegava, de violão para tocar com meu pai. E já chegou ali a kombi do Seu Rubem Ohana, carregada de meninos e meninas que ao toque de uma eletrola, botavam-se a dançar e namorar. Eu olhava comprido, ainda tão menino, mas em transformação. Agora a moda era jogar vôlei nos quintais. Com a ajuda do querido Zé Zumero, levantamos uma rede e aprendemos a jogar. Mas já a vontade do futebol me levava à praia, nas tardes, para enfrentar adversários maiores e mais fortes. Meus moinhos de vento? Não interessava. Aprendia. Lá vem um rapaz, da Ilha, driblando seus oponentes, rumo ao gol. Pensei em impedí-lo. Claro, eu conseguiria. Aprumei o corpo para prensar a bola. Houve um choque. 
Caído ao chão, vi-o seguir, célere, adiante, enquanto eu estava destroçado. Saí capengando. Um dedo estava quebrado. O rapaz, nem sentira. Mesmo assim, à noite, estávamos no Netuno Iate Clube, luz negra, Esmeril Band tocando rock and roll. Em um interval, “I started a joke”, dos Bee Gees e aí o mundo rodava, se transformava, um rodopio, um mundo inteiro se transformando, amores impossíveis, para mim, as meninas cobiçadas dando atenção aos mais velhos e já aprumados e o barulho das ondas do mar, batendo na arrebentação. A gente olhava para o céu, procurava a lua e suspirava. Quando chegará a minha vez? De vez em quando vou ao Mosqueiro. Escrevi um livro quebrando esse vidro de paraíso, chamado “Moscow”. Mas isso é arte. Meu Mosqueiro está intacto. Vou no meio de semana, um dia qualquer. Vou à praia com meu cachorro, volto e me ponho sentado na pracinha. Vou até a casa, hoje do amigo Mariano Klautau. Olho o patio e fico em devaneio. Todo aquele mundo passa diante de mim. Tão felizes, tão lindos! Eu os vejo, juro e penso como era feliz! Não me arrependo de nada, nem de ter amadurecido mais tarde, sendo criança por mais tempo. Meu coração está linda, bandeira despregada, rindo infantilmente, como um sinalizador de que tudo na vida vale a pena. Boas férias neste julho que vem aí.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

OS CANÁRIOS PRECISAM CANTAR

Meu pai tinha passarinhos. Curiós em gaiolas. Aos sábados, de madrugada, partia, com outros “passarinheiros”, para onde ainda havia mata fechada. Seus curiós eram especiais. “Preseiros”. Quando chegavam ao ponto onde sabiam haver outros curiós, cada vez mais raros, paravam e colocavam suas gaiolas em pontos diferentes. Havia sempre uma “curiola” na área e para ela, o “preseiro” cantava, paquerando, ao que vinha, feroz, o macho, defender sua área, sua namorada. Ao atacar a gaiola, o “preseiro” com habilidade ímpar, prendia, com patas e bicos, o atacante, o qual soltava apenas quando meu pai se aproximava. Mas, ao invés de apreender mais um curio, meu pai o soltava, para que houvesse mais diversão no sábado seguinte. No mais, aproveitavam para conversar, tomar banho de igarapé e respirar ar puro. A idade chegou, as idas rarearam até parar. Os curiós morreram de velhice. Foi bom. Meu pai era de outra geração. Outra criação. Moleque, empinou tantos papagaios que sofreu grave inflamação ocular. Coisa de moleque de rua. Os passarinhos, também. Chegou a levar alguns deles a festivais onde o vencedor era o que cantava mais. O comércio dessas aves ainda é pesado. De vez em quando o Ibama apreende animais cativos e seus proprietários. Foi bom que acabou. Nós, os filhos, de outra geração, não gostávamos. Todos os dias, logo cedo, lá estava ele a limpar gaiolas e colocar água e comida. Sempre me perguntei o que fazia um pássaro cativo transformar-se em caçador e ao invés de repelir outras possíveis vítimas, seus iguais, prende-las e oferece-las ao carcereiro. Nunca me conformei. Aves foram criadas para voar, cantar, cada uma com sua tarefa na Natureza. A leitura também dá asas. Muito da minha imaginação devo às estórias de minha mãe, mas outro tanto, aos livros aos quais me abracei desde cedo, pilhando a biblioteca de meu avô de seus Dumas e tantas aventuras. Na mente, a selva amazônica se transformava nos campos da floresta de Sherwood, nas ruas da Paris dos mosqueteiros, em batalhas navais, enfim. Foi o que mediou meu comportamento “endiabrado”, na época. Quando havia silêncio na casa, eu estava lendo. Hoje, ainda estou abraçado aos livros, nas aventuras, de “Game of Thrones” ou “Outlander”, também em series de tv. Estive, a convite da amiga Olga, na Defensoria Pública do Estado, acompanhando o lançamento do jornal “Os Canários”, primeiro resultado do projeto de Remição de Pena “A Leitura que Liberta”, onde presos, a partir da leitura de livros, diminuem suas penas. Lá, conheci a defensora Izabel, bem como Idajane, que acompanham, empolgadas, o progresso. Ao invés de ações desastrosas na área da Cultura, o governo estadual acerta nesse projeto. Um coral de detentas cantou, outros leram, há poesias e artigos. Emocionante. Quando penso em uma pessoa apenada, na solidão, no silêncio, na contagem das horas, mas com a imaginação, viajando em liberdade, feliz, por outros mundos e ao mesmo tempo ganhando informação, vocabulário e diminuindo seu castigo, sinto-me impelido a participar com o maior empenho. Nos próximos dias farei doação de livros de minha autoria e outros que já li. Há uma carência de literatura adulta. Também moverei o grupo ao qual pertenço, que realiza a Feira Literária do Pará a se fazer presente em doações e em conversas com essas pessoas, ávidas por liberdade, imaginação e cultura. Parabéns!

DELÍCIAS DO TIO

Pois é, eu que vivo me queixando que não há nada de novo para ouvir, estou, como se diz, empapuçado com tantos discos bons que acabaram de ser lançados. Vou discorrer sobre alguns deles, porque penso que nem todo mundo tem a obrigação de estar ligado em lançamentos, mas gosta de ser informado para consumir boa música. Saiu disco novo de Joyce Moreno, a maravilhosa cantora, compositora e violonista com uma carreira mais dedicada a plateias internacionais, que consomem vorazmente seus trabalhos. “Palavra e Som” é o nome. Também comprei mas ainda vou ouvir, Simone Mazzeo e Cotonete, que tem recebido ótimas críticas. É o primeiro disco que ouvirei da cantora que tem considerável fã clube até em Belém. Juntou-se ao grupo francês Cotonete e o repertório é ótimo. Tomara que goste. A cantora de jazz Diana Kral também lançou trabalho, “Turn up the quiet”, eleganterrima, ela que começou a carreira apenas como pianista, mas foi apertada pelo mercado a assumir também o canto. Casada com Elvis Costello, canta standards com um grupo dedicado e excelente. Muito bom para ouvir à noite, passeando pela cidade (tomara que não seja assaltado em sinal), com a pessoa amada. Quer algo ainda mais elegante? Foi relançado o álbum em que Frank Sinatra canta Tom Jobim. O célebre que contém “Garota de Ipanema”. Com a remasterização, detalhes que antes não eram percebidos, saltam aos ouvidos. O violão de Tom na abertura da canção, metais e a voz do “Old blue eyes”, em forma. Há bombons como três ou quatro versões de “Garota”, com Frank pedindo mais uma tentativa, apesar de estar ótimo em todas. Se ouço Diana, ouço também a brasileira Eliane Elias, radicada nos EUA, onde chegou como pianista e também passou a cantar, ela que é casada com o grande instrumentista Randy Brecker. Com um contrabaixo maravilhoso e um balanço irresistível, abre com “O Pato”, standard da bossa nova com levada fantástica. Sem querer ser genial, Eliane está perfeita, divertida e brilhante em “Dance of Time”. Dá vontade de correr para a pista de danças. Outra brasileira, filha de cubanos, Marina de la Riva, dedica seu álbum à obra de Dorival Caymmi, procurando sua proximidade com a umbanda e o mar e sempre trabalhando a percussão. Estou ouvindo, mas as primeiras faixas são ótimas. João Donato participa, bem como Danilo Caymmi. Há sempre uma canção cubana permeando o repertório. E para vocês perceberem como meu gosto é elástico, adorei o disco novo da banda Bush, comandada por Gavin Rossdale. O título é “Black and White raimbows”. Mais do mesmo. E o que esperavam? Gavin é um ótimo cantor e o som, bem desenhado, pesado e melódico é muito bom de ouvir. Para quem ainda não sacou, a banda é a daquele hit “Glycerine”. Um relançamento importante é “Maravilhas Contemporâneas”, de Luiz Melodia, a quem desejo melhoras, já que está doente. Remasterizado, o disco realça os metais, além da voz de Melô que está fantástico. É o disco que tem “Juventude Transviada”, entre outras. Há também disco novo de Ricardo Silveira, o guitarrista, mas ainda nào ouvi. Um álbum póstumo do “deus” do baixo, Jaco Pastorius, show ao vivo, em Toquio, de Steve Hackett, tocando músicas do Genesis e do King Crimson, já que conta com Ian McDonald, integrante da formação inicial da melhor banda do mundo. Tocam “I talk to the Wind”, entre outras. Também foi relançado, com faixas extras, “Works II”, do Emerson, Lake & Palmer e a principal delícia, “Sgt Peppers’Lonely Hearts Club Band”, dos Beatles, para ouvir com lenços e enxugar as lágrimas. Som maravilhoso e extras geniais. Penso que ainda escreverei somente sobre ele. Como vêem, estou ótimo.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

A MÚSICA EM NOSSA VIDA

Escuto música no carro. Trabalho em rádio há muitos anos e durante o dia, ouço a emissora o tempo todo. Em casa, há outras atrações nos livros e televisão, além da família, claro. Mais novo, peguei o tempo dos cartridges que tocavam músicas nos veículos. Mais tarde, vieram os cassetes. Bem, estou começando, somente agora, a ouvir, no carro, a partir de um pen drive. É diferente de tudo. Estou tentando me adaptar, sou de outro tempo. Cresci em um lar musical, por conta de meus pais. Adiante, meu irmão mais velho ganhou da avó uma eletrola, portátil, funcionando por corda, que tocava 78 rpm. Havia discos diversos. Não esqueço de Dorival Caymmi, em forma, cantando “Dora”, em um arranjo que nunca mais ouvi, onde a abertura e encerramento, maravilhosa, era com metais de frevo. Havia também uma ária de “O Barbeiro de Sevilha”. Pedro Vargas cantando “Farolito”. Adiante, o Edgar ganhou um prato, pequeno, que funcionava acoplado a um rádio para aproveitar o amplificador. Meu primo Tom, que morava nos Estados Unidos, veio passar férias. Ao ir embora, deixou-nos uns 50 compactos da parada americana. Para os que nasceram há pouco, eram vinis pequenos, onde cabia apenas uma música de três minutos. Verdadeiras jóias. Nat King Cole, Pat Boone, Elvis Presley, todos em grande forma. Os disquinhos tinham um buraco no meio. Havia uma briga entre gravadoras pelo padrão em 33 rpm. Para tocar, era necessário um adaptador. Uma verdadeira mina de ouro para garotos que se interessavam por música. E então, de repente, os Beatles invadiram nossa vida. Com eles, Rolling Stones, Hollies, Animals, you name it. Anos 60, com a Jovem Guarda, Roberto, Erasmo, Wanderléa, Wanderley Cardoso, Jerry Adriani e companhia. A bossa nova era algo chic, sério, para um determinado número de pessoas. Os Festivais da Record e toda uma geração maravilhosa que apronta até hoje. Caetano, Gil, Gal, Bethania, Milton, Chico, vocês sabem. Ganhei uma eletrola portátil. Gigantesca. Funcionava com oito pilhas grandes. Um dia meu irmão chegou com um disco de um tal Jimi Hendrix e botou para tocar em outra eletrola, agora portátil, mas com duas caixas pequenas de som. Meu mundo mudou. A vida era diferente. Os discos, para nós, duravam vários meses. Ouvíamos e conhecíamos todas as músicas, a sequencia. Depois, além das capas maravilhosas, passamos a saber quem tocava o quê e onde. Agora já tinha uma eletrola Telespark, de móvel. No meu carro, um roadstar. Enfim, veio o cd. Demorei a aceitar. A capa, pequena, nomes quase ilegíveis. Houve o MD, lembram? Vida curta. No carro, cd player. Tudo mudou novamente. Mp4 ou outros padrões. Compro no iTunes. Na maioria das vezes, não vem ficha técnica. Tenho costume ainda hoje de ouvir todo o disco, mas as pessoas, não têm mais essa preocupação. Acabaram os álbuns conceito. É só a música. Acho que nem querem saber quem canta. Tem Spotify. Ando ouvindo discos antigos, todos em cds relançados remasterizados, uma delícia para perceber os instrumentos. Anteriormente era tudo em mono. Essa onda da volta do vinil é somente espuma, de uma galera que gosta de ser diferente. Agora, está tudo na nuvem. Penso que é a próxima onda, se já não for agora. Talvez seja saudosista. Temi, por muito tempo, sentir-me assim. Não tenho medo do novo. Do hardware. Mas tenho saudade do software, da música, que antes, era melhor. O fato é que agora ouço músicas no meu carro, em pen drive.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

EDYR PROENÇA, FARIA 97 ANOS

Hoje seria o aniversário de Edyr Proença, meu pai. Ele faria 97 anos. Já passaram 19 anos de sua morte, que ocorreu neste mesmo mês, no dia 5. Decidi escrever pensando nele, que me acompanha de onde está, me iluminando e mostrando o melhor caminho, como sempre. 
Sabiam que foi remador? Contou-me que o ensinaram a nadar simplesmente jogando-o na maré. Foi também grande jogador de vôlei. Tudo pelo Remo. Também campeão de basquete. Sem vaga na equipe azulina, recebeu convite do clube Júlio César. O pai, Edgar, não aprovou. Sem avisar, jogou e ganhou campeonato. No ano seguinte, foi chamado para o time do Leão Azul. 
Mais velho, havia uma pelada de veteranos no Ginásio Serra Freire. Ai de quem se atrevesse a entrar batendo bola em qualquer garrafão. Dava para ouvir as pancadas. Uma vez, a bola bate no aro. Meu pai salta para pegar o rebote. Mais alto, mais forte, um querido tio pega a bola, vira-se e como uma arma, desfere-lhe uma pancada na cabeça. Zonzo, ele olha atônito. Desculpe, Edyr, pensei que fosse o fulano (outro tio queridíssimo)! Ele também era bom jogador de futebol. Meia armador, mas nessa, apenas peladas com amigos, em vários lugares, mas principalmente no Lago Azul. Em campo de areia, mas iluminado com potentes refletores. Havia outra, aos domingos. 
Conheci e lembro de tantos amigos dele. Difícil citar todos. Cresci e passei a jogar. Lembro o dia em que parou. Já era escalado na ponta direita. Veio uma bola rápida e não conseguiu dominar. Pediu para sair. O corpo não obedecia ao pensamento. 
Desde cedo, nos estádios de futebol, sentado ao seu lado, narrando. “O tempo passa, a barba cresce”, a propaganda da Gilette Azul. Depois, comentando. Às vezes, na volta, no carro, argumentava sobre alguma opinião dele, ao microfone. Lá, não tinha nada de opinião não se discute. Nós discutíamos. Eu aprendia. Era bom. 
E a música? Sabiam que ele teve um conjunto chamado Bando da Estrela? E que minha mãe, Celeste, era a cantora? Fazia a linha do que chamamos de “Regional”, violões, pandeiro e vocais, como o Bando da Lua, de Carmem Miranda. Meu irmão tem ainda um acetato com duas músicas, de Edyr, tocadas pelo Bando. Eu as aproveitei no espetáculo dos 80 anos da PRC5. 
Depois de casado, havia muita responsabilidade. Muitos empregos. Onde estava a música? Os filhos foram crescendo. O violão, de vez em quando pegava e mostrava Noel Rosa e outros grandes. Quando Francisco Alves, o “Rei da Voz”, o “Chico Viola”, veio a Belém, escondeu-se no Teatro da Paz para ouvi-lo ensaiar “Boa noite, meu grande amor!”. Aos poucos foi chegando à Bossa Nova e sobretudo a Paulinho da Viola. Mas era algo esparso, na família. Continuamos crescendo e agora ela rejuvenescia, fazendo companhia, conhecendo os novos grandes artistas. 
Tive a sorte de fazê-lo voltar a compor. Dei uma letra a ele. Escrevi pensando em sua estética. Foi o estopim para uma carreira de compositor maravilhosa, que tem seu maior sucesso em “Bom dia Belém”, dele com minha tia Adalcinda. Juntos, fomos campeões de samba-enredo pelo Quem São Eles. Teve parceiros diversos, como Ruy Barata, Antônio Carlos Maranhão, Ronaldo Franco e minha mãe em várias músicas. Lançou um solo e mais tarde tocou com amigos no Clube do Camelo. Espero, ano que vem, mostrar um CD de inéditas que deixou. Pois é, pensando nele, meu maior ídolo, meu melhor amigo, professor. Meu pai, hoje, faria 97 anos.