sexta-feira, 21 de julho de 2017

O MELHOR LUGAR DO MUNDO

Assisti ao filme “Divinas Divas”, de Leandra Leal, apresentando famosos travestis e suas vidas, após longos anos sob holofotes. O resultado é muito bom, mas confesso que o que me tocou realmente foi o Teatro Rival, ali na Cinelândia, Rio de Janeiro, deixado pelo avô de Leandra e que ao longo do tempo tem permanecido vivo, apesar de todas as crises e concorrência. Seus bastidores, camarins, o palco nu ou já com cenário, mas ainda vazio, momentos antes da abertura das portas para a entrada do público. Se vocês soubessem da vida intensa que existe ali, nos bastidores! Para mim, um teatro é um templo, uma igreja. Para pisar no palco e nos bastidores, há de haver respeito por tudo o que representam. Lembrei do Teatro Cuíra, levado a ferro e fogo, sem ajuda dos órgãos de Cultura do Estado e Município, geridos, há tempos, por ignorantes irritados pelo teatro continuar existindo apesar deles. A epopeia, a luta desigual levou nove anos. Nove belíssimos anos, com grandes espetáculos, mas principalmente, uma vida interna gloriosa. O primeiro dia, quando o elenco se reúne, nos bastidores, em torno de uma mesa, nas poltronas, com o diretor no palco, definindo as primeiras tarefas. As sessões de leitura de texto. As primeiras movimentações, estudos de iluminação, os cenários sendo levantados, figurinos testados, a trilha sonora sendo composta. Principalmente, os atores vestindo, aos poucos, aqueles personagens, trocando ideias. No teatro, tudo se discute. O resultado é absolutamente coletivo. Me deu saudade. Um aperto no coração. E vem o dia da estréia. Há um público lá fora. Ouvimos seu burburinho. Atores terminam a maquiagem. Outros se alongam. Fazem exercícios vocais. Discutem as últimas situações. Iluminadores e sonoplastas estão em suas cabines. Fazemos soar a primeira campa. Alguns olham por algum furinho, através das cortinas, tentando reconhecer alguém. Ouvimos alguém rindo de alguma piada. Vem a segunda campa. Todos reunidos, mãos dadas, até o famoso grito de “merda”. Estamos prontos. Corações acelerados. Agora, apresentaremos o resultado de dois, três meses de ensaios. Somos uma família. Durante aquele tempo todo trocamos opiniões, fazemos confissões, reavaliamos nossas crenças. Alguém avisa que aguardará mais alguns minutos porque ainda há público entrando. Um fica em frente à parede, murmurando prece. Outro silencia. Aquele vai ao banheiro para um último pipi. Nos abraçamos, nos beijamos. As ferragens estão expostas. O piso é gasto. Nas paredes dos bastidores, reflexos de outras montagens. A mesa de maquiagem é improvisada. Em instantes eles estarão no palco e serão outras pessoas. A mágica é feita ali, frente ao público. Tudo é possível. As pessoas nào têm idéia como tudo foi ensaiado, cuidadosamente, para que pareça natural. Fechamos o teatro. Uma tristeza imensa. Ninguém veio nos salvar. Talvez tenham festejado. Retirar as poltronas. Desmontar o palco. As ferragens. Som, iluminação. De repente, um vão livre, um vazio. Um vazio nas nossas almas. Eu via e ouvia um mix de tudo o que se passou. As palmas, os risos. Atores dizendo textos. O caminhão partiu com as poltronas, doadas a uma igreja na periferia. O silêncio. Lá fora a cidade em sua correria. Ali dentro, personagens me perguntavam por quê? O silêncio era a resposta. O uivo do vento entoando uma canção triste. Mas o Teatro vive. Agora estamos em uma casa. Estamos, inclusive ensaiando. Vivendo novamente o processo. O melhor lugar do mundo está nos bastidores, antes de soar a terceira campa. Garanto.

sexta-feira, 14 de julho de 2017

BÁRBARA, BELA, TELA DE TV

A imagem transmitida para os mais diferentes receptores, a realidade transportada, a imagem inventada chegando até nós, se apresentando e se impondo, ficando gravada em nossas mentes, não diminuindo a capacidade de imaginação, ao contrário, aumentando, até colaborando, de alguma maneira armazenando, inclusive em quem não tem acesso à alfabetização, os fatos culturais. Quem será o dono das imagens? A quem interessa transmitir esta ou aquela imagem, manipulada ou não? Influir na opinião pública. Criando mocinhos e vilões. 
Londres é talvez a cidade mais vigiada do mundo. Todos são filmados nas ruas, recintos fechados, públicos - quem sabe também em privados? Razões de segurança. Em Belém, políticos usam imagens para mostrar que estão trabalhando bem, embora todos discordem.
É possível sobreviver em Brasília sem se envolver com irregularidades? Milhares de imagens, todos os dias. O que assistimos é a realidade? Ou é uma dança coreografada diariamente para nosso deleite? Olhos rútilos garantem honestidade. A falta de investimento em Educação e Cultura, a deterioração do tecido social, trocado pela sobrevivência diária. Quem lê jornais? Quem lê análises políticas? Quem lê tanta notícia? Nossas autoridades são mestras na dissimulação frente às câmeras. Não sabem, não viram, mas vão mandar apurar rigorosamente. Há um descompasso entre a imprensa, como tambor da sociedade, e a verdade anunciada pelos políticos, que parecem, hoje, atuar apenas para evitar que sejam descobertos em ações ilícitas. Qual será a verdade?
Há como que realidades superpostas. Diariamente, no “Jornal Nacional”, há cobertura da ação policial no Rio de Janeiro. Ou em Belém. Soldados camuflados, com armas pesadas e postura de guerra, escondem-se nos becos, apontando, procurando inimigos. Como nos filmes. Na mesma cena, despreocupados, moradores, homens, mulheres e crianças passam pra lá e pra cá, na sua azáfama diária. Lojas, casas, ambulantes, mais soldados. Como realidades superpostas. Como se filmados separadamente e depois sincronizados. A guerra de uns e outros, diferente da outra guerra, a da sobrevivência, à margem, criando outra sociedade, sem controle, a sociedade do descontrole, onde o lema é sobreviver. E os corpos empilhados, crimes sem solução. 
E nessa sociedade tudo é pirata, como uma sociedade cover, sociedade falsa, com outro padrão. É pirata porque não tem dinheiro para ser a verdadeira. Porque, ao contrário de morrer, desaparecer, luta para continuar viva e se reinventar a partir do instinto de sobrevivência. Não há Cultura ou Educação como conhecemos. Uma nova escala de valores é criada. A vida e a morte na TV. Está na imagem e a mídia, tem fome. A sociedade imagética. A sociedade espetáculo tem fome. A quem vamos devorar nesta semana? 
A nós não basta desnudar as pessoas em seus 15 minutos de fama, naquilo que representa sua vida, sua ação profissional ou particular. Queremos tirar-lhe a roupa, escanear poro por poro de seu corpo. Queremos ver sua vagina, seu ânus, saber se é depilada, se as fotos precisaram de Photoshop, se os seios têm silicone. Devoramos seu corpo e, após o gozo, queremos mais. Nos faces e instas, maridos expõem suas mulheres em ação que visa, com o exibicionismo, a excitação. O espetáculo. Pageviews. Ou aquela mulher, que como Jabor diz, é apenas uma bunda. Como é seu nome? Bunda. Em todas as telas. Das menores às maiores. Editadas ou não. Soa um ruído. Todos os olhares voltam-se para as telas. Está tudo na bárbara, bela, tela de tv.

sexta-feira, 7 de julho de 2017

AOS MEUS PROFESSORES

Acabo de assistir a uma reportagem na televisão sobre professores inesquecíveis de cada um de nós. Não conheço profissão mais nobre. A importância de alguém que nos ensina as primeiras letras, a escrever e ler. Tive ao longo da vida professores de fundamental presença e aproveito o mote para lembrar deles. Aos oito anos, meus pais conseguiram que Beatriz Kup, filha do cônsul da Inglaterra, quinze ou dezesseis anos, me ensinasse a falar inglês. Além de linda e inteligente, ela me passou o fascínio da Língua, embora a tenha feito passar vergonha. Em uma recepção, apresentou-me ao pai que, brincando, perguntou “How do you do”, ao que respondi, encabulado, “ainda não dei isso”. Cinquenta anos depois a reencontrei, com a mesma beleza e vivacidade. Parecia um encontro marcado. Semanas depois, repentinamente, faleceu. Estudei o Primário no Colégio Suiço Brasileiro. Lembro pouco. Mas no Colégio Nazaré fiquei até seguir para a Universidade. Logo no primeiro dia de aula, aprendi todos os palavrões que sei até hoje. Mas também aprendi muito. Não esqueço de alguns Irmãos, sobretudo Irmão Machado, nordestino, que criou um Clube de Leitura. Fiquei encarregado de ser um dos redatores do jornal “O Caminho”, impresso em mimeógrafo. Após as aulas matinais, voltava à tarde para reuniões onde aprendia Educação Sexual, Leitura e discutíamos Religião. Confesso que minha assiduidade era devida ao futebol que jogávamos ao final das discussões, mas sei, que toda a reflexão feita sobre os assuntos, me fizeram ser quem sou, hoje. Havia o querido Irmão Afonso, alemão que diziam ser vítima de guerra, o que nos dava curiosidade e um certo medo. É uma pessoa doce, adorável, ainda hoje com uma legião de amigos, ex-alunos. E os professores? Havia o Camarão, de Língua Portuguesa, excelente, boêmio, às vezes dando aula com muita ressaca. O Padre Tocantins, figura ao mesmo tempo engraçada e complicada. O professor Gabriel Leal, adiante, parceiro de jogos de futebol, que tocava em uma eletrola “My Bonnie” e caminhava pela sala, cantando. O professor Manoel Leite, apaixonado por sua matemática. Professor Nogueira, de Química Mineral de quem me tornei muito amigo, mesmo que faltasse, com outros, às suas aulas, para jogar futebol. O Irmão Porfírio, preocupado que não estudássemos demais e chegássemos ao Vestibular cansados. Lembro então de uma das pessoas mais importantes da minha vida, meu amigo Abílio Cruz, que estudava dando aulas para nosso grupo de estudo. Um professor, adiante, no Curso de Engenharia da Ufpa. Foi-se muito cedo e até hoje deixou uma lacuna enorme nos nossos corações. Mas quero prestar homenagem, principalmente ao professor Edson Berbary. Sua cadeira era Português. Embora eu já devorasse todos os livros de aventuras de capa e espada da biblioteca de meu avô, ele dividiu nossa turma em grupos, oferecendo livros de autores brasileiros diversos para que lêssemos e fizéssemos um trabalho a respeito. A mim coube “Menino de Engenho”, de José Lins do Rego. Meu avô emprestou-me. Havia uma dedicatória do escritor para ele. Li em seguida os outros dois livros e isso despertou em mim, definitivamente, a leitura, a reflexão e nunca mais parei. Berbary também estava sempre conosco em acantonamentos, projetos, diversão. Com sua inteligência, sua postura, sua integridade, é um Professor com “P” maiúsculo, que nunca vou esquecer. Muito obrigado. Há alguns bons anos atrás, também dei aulas no Curso de Jornalismo na Ufpa. Confirmei a importância da missão. Não há nenhuma profissão mais importante. O meu agradecimento a todos eles que me fizeram ser quem eu sou, hoje.

sexta-feira, 30 de junho de 2017

EU VOS DEIXO A PAZ. EU VOS DOU A MINHA PAZ.

Eu queria escrever sobre intolerância, após assistir aos vídeos em que o ator Fábio Assumpção, fora de si, ao invés de ser contido e até mesmo protegido contra si próprio, é xingado e estimulado por um grupo de pessoas simples, de Arcoverde, Pernambuco. Gritavam impropérios, gozavam a cena, “olha o ator da Globo drogado”, diziam. Parecia uma delícia, o homem bonito, galã, ator de tv e cinema, ali, dando vexame, descontrolado. Havia uma vibração de quem curte ver o que está por cima, agora jogado na lama. O tal do homem cordial brasileiro, já não há. Penso nas mídias sociais onde insensatos ainda repetem o tal “nós e eles”, “coxinhas contra sei lá o que”, insuflando a luta entre classes. Já não há. Agora, somos todos “nós”. Mas continuam de maneira insana. O resultado de longos anos de abandono de Educação e Cultura como base de uma cidadania, deram nisso. Há ódio incontido. Há falta de amor. Amor puro entre as pessoas. Compaixão, compreensão. Há assassinatos e violência diários e autoridades incompetentes para lidar. Educação e Cultura não estão nos planos desses que tomaram conta do país. E o país não é deles. É nosso. Joguemos fora esses slogans irritantes, bandeiras de sindicatos que temem perder regalias financeiras. Somos um só. Tomemos o que é nosso, de volta. E acima de tudo, vamos recuperar o amor. Se me permitem, lembro o amor que perdi, meu amigo, meu melhor amigo, o melhor de todos. Chegou aos 45 dias de vida. Belo, grande, o maior da turma. Conquistou a todos. Tornou-se um imperador na Praça da República onde circulava atendendo aos chamados de quem queria saudá-lo e fazer carinho. Aos domingos, ficava cercado de crianças que faziam fila para bater foto. Abria um sorriso e estava à vontade. Tinha uma aura brilhante. Onde chegava, era notado, tanto pelo tamanho, como pela beleza. Seu nome era Antonio. O dono da casa. Responsável, quando andava em grupo, cuidava para que nenhum de nós se afastasse muito, como um pastor e seu rebanho. Suportou a chegada de mais um companheiro, de outra raça, porte menor, danadíssimo a importuná-lo mordendo suas orelhas em provocação constante às brincadeiras. Inteligente, entendia as palavras chave. Esperava-me no terraço do prédio, atento ao movimento da rua e uma vez identificando-me ao atravessar, ao subir, já o encontrava pronto, guia entre os dentes, para seu passeio diário. Apaixonado por água, ao chegarmos na Praia do Farol, Moscow, aberta a porta já corria e mergulhava na água com grande prazer, onde ficava nadando. Me fazia companhia. Estava sempre ao lado, pronto. Sua partida foi rápida, silenciosa. Antes, passeou longamente por sua adorada Praça da República, como uma despedida. Deixou um imenso vazio. Um deserto onde a beleza e principalmente o amor, reinavam. Hoje, quando lembro dele, o que é uma constante, lembro principalmente do seu olhar. De vez em quando o pegava me encarando. Dele, emanava uma paz, uma compaixão, um amor puro e leal que se espalhava não apenas ao nosso redor, mas por todo o mundo, por todos os lugares onde circulava. É disso que sinto falta nesta realidade terrível em que nos encontramos. Dessa intolerância, incompreensão, impossibilidade de buscar, juntos, uma solução. Lembrei de um trecho da missa que diz: eu vos deixo a paz. Eu vos dou a minha paz. Era tudo o que ele fazia. Sua missão. Espalhar o amor e a paz. Deve estar agora correndo nos campos, o vento batendo no pelo dourado e lindo, levando sua mensagem, sua missão a outros mundos. Saudades, Antonio, meu amigo. Meu melhor amigo.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

EU VEJO O FUTURO REPETIR O PASSADO

Há uma onda de nostalgia no ar. Mesmo em um momento em que os programas populares apresentam somente os tristes e deploráveis artistas do momento, em que Elba Ramalho fala em nome da cultura nordestina, protestando contra os sertanojos, contratados a peso de ouro e tirando o lugar de artistas do forró nas festas juninas, o passado está aí. Na Rede Globo é uma festa. Começa na abertura da novela das sete, com uma versão de “A Hard Day’s Night”, dos Beatles. Prossegue na série “Os Dias Eram Assim”, com toda a trilha formada por sucessos dos anos 60. Duas ou três mereceram fraquíssimas versões de cantores atuais. Nas emissoras em canal fechado, acabou de passar o documentário “Dunas do Barato”, Rio de Janeiro, anos 70, quando a produção cultural, mesmo enfrentando muita censura, foi profícua. Houve, na praia de Ipanema, a construção de um emissário de esgoto em mar distante. Com isso, um pontilhão apareceu, como que rompendo o mar e com isso, proporcionando ondas boas para o surf. Na areia, um sem número de artistas e jovens em geral pegava sol, debatia os assuntos e marcava onde todos estariam à noite. Foram focalizados artistas das Artes Plásticas, os poetas marginais, o surgimento das boutiques modernas, a partir das novidades internacionais e dos trajes desses jovens da praia, o teatro principalmente de Rubens Correia e Ivan Albuquerque, no lendário Teatro Ipanema e os shows e discos de Novos Baianos, Gal Costa, Raul Seixas e outros. Eu vivi tudo isso. “O Imperador Assírio”, “A China é Azul”, “Hoje é dia de rock”, “Hair”. Toda essa turma na praia, à noite, se reencontrava. Ou então para assistir “Fa-tal”, o melhor momento de toda a carreira de Gal Costa, linda, cantando um repertório sensacional. José Wilker era o ator da moda. Eu o vi uma vez, lanchando no Bob’s, bem jovem, cabeludo, famoso. E assisti “Artaud”, com Rubens Correa, no porão do Teatro Ipanema, peça que chegou a ser apresentada em Belém e que considero, com “Macunaíma”(Caca Carvalho), os dois espetáculos mais importantes da minha vida. Pouco mais adiante apareceu o Circo Voador e os anos 80 e o rock nacional, o último grito de criatividade na música brasileira. Agora, temos apenas ruído ruim. Também no canal fechado, um documentário em vários capítulos sobre a carreira de Gal Costa. E vêm Caetano, Gil, Duprat, Macalé, Waly Sailormoon e a cantora Maria da Graça. Tudo isso após ler a biografia de Caetano Veloso, que está nas livrarias. Uma onda de nostalgia que faz os mais velhos reencontrar a juventude, lagrimar em alguns momentos e perceber que tudo era muito rico, audacioso, feliz. Onde foi parar tudo isso? Na sociedade de consumo? Afundou com o fracasso da Educação e da Cultura? Esqueci de dizer que também, agora, pedimos eleições diretas. O passado retorna. Embora tivéssemos muita atividade criativa nos anos 70, aqui em Belém, no teatro, por exemplo, creio que a década seguinte trouxe a maior parte das grandes figuras que até hoje ainda estão por aqui. Esses jovens liam, discutiam, montavam espetáculos na marra e depois iam debater tudo em pontos como Bar do Parque e ¾. A impressão que tenho é que a juventude atual não sente vontade de lutar por seus direitos, por seu espaço, para dizer a que veio. Reúne-se em guetos separados. Vão aos shows, batem palmas e somente se unem para xingar os coxinhas. É pouco.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

A BIOGRAFIA DE CAETANO VELOSO

Caetano Veloso é o ídolo da minha geração. Se vindo de fora já era época de Beatles, Stones e chegando Hendrix, Doors e Joplin, aqui no Brasil pairava um som entre o romântico bolero e a Bossa Nova. Eu me lembro de assisti-lo na televisão em p&b lançando “Alegria, Alegria”, com roqueiros argentinos acompanhando. Aquela linguagem de imagens superpostas me encantou. Caetano na TV no programa “Esta Noite Se Improvisa”. O casamento com Dedé, em Salvador, com a multidão e eles andando rumo à Igreja. Deu no Jornal Nacional. Tudo em p&b. 
Eu me lembro de Caetano no Ginásio Serra Freire, do Clube do Remo. Em meio ao show, sentava sobre um tapete e comia uma flor. Para a época, muito doido. Caetano e Gil, presos. O disco inglês com uma foto deprê e um repertório ao qual vim dar valor tempos depois. A volta com o “Transa”. Caetano e Chico, ao vivo. Eu estava na praia, Rio de Janeiro, e a Rádio Mundial não parava de tocar “Diz que deu, diz que dá”. A revista “Bondinho”. O jornal “Rolling Stone”. Outros jornais como “A Flor do Mal”. Eu me lembro. 
Caetano de batom vermelho, bustiê e tamancos holandeses. Eu tive um. Bicha! Bicha! Essa ansiedade em desafiar, explicar, confundir, me encantava. Ele me ensinou a cantar. Nos trouxe de volta bolerões com novos arranjos. Relançou Luiz Gonzaga. Em 1968, veio a Belém, com Gil, participando de um show da Rhodia, empresa que na época fabricava os tecidos que as mulheres compravam. “Momento 68”, em pleno Theatro da Paz. Eu estava lá. 
Chegava a gostar menos de Chico Buarque. Ele parecia muito careta. Hoje eu sei, claro. Sei também que a carreira e discografia de Caetano é muito desequilibrada. Em muitas músicas, parece ter acabado a letra apressadamente. Os arranjos, também. Se nos primeiros tinha ótimos maestros arranjando, quando voltou do exílio, no auge, gravou “Araçá Azul”, o álbum experimental, recorde de devolução das lojas. Há joias ali, mas há também um pouco de soberba em inventar, na base do foda-se. Adiante, em “Joia” e “Qualquer Coisa”, também. 
Para mim, o melhor momento de sua vida foi ao lado da Banda Nova, com Vinícius Cantuária, Tavinho Fialho e outros. Começa em “Muito Por Dentro da Estrela Azulada”, que abria com “Terra”. Incrível, sabiam que foi muito criticado? Então vêm “Cinema Transcedental”, “Outras Palavras” e “Cores, Nomes”. 
Esqueci “Os Doces Bárbaros”, grande momento ao lado de Gil, Gal e Bethânia. Caetano circulava pelo Brasil com a banda, namorava, via, lia, ouvia e o resultado está nos discos. Ele diz que muitas músicas poderiam ficar melhores. Pode ser. Mas creio que foi quando se aproximou de Arto Lindsay e casou com Paula Lavigne, alguma coisa se partiu. Os discos continuaram bons, mas a chama começava a murchar. Veio o fenomenal “Fina Estampa”, delicioso como cantor. O mundo agora o amava. Mas, curiosamente, raras músicas, para mim, tinham o mesmo nível. 
Recentemente entrou na fase rock, que considero terrível, muito ruim. Agora circula escolhendo pérolas do imenso repertório para cantar. Ele pode. Acabei de ler “Caetano, Uma Biografia”, de Carlos Eduardo Drummond e Márcio Nolasco, um livro pronto há alguns anos e não autorizado por Caetano não gostar do português da dupla, realmente cheio de clichês. Agora que caiu a lei, está nas livrarias. Para quem quer saber detalhes, sobretudo do início de carreira, sensacional. “Trilhos Urbanos” é Santo Amaro, em detalhes. “Trem das Cores” foi feito quando viajava no Trem Prata, do Rio para SP, namorando com Sonia Braga. “Você é Linda”, foi feita para uma adolescente que namorou com ele durante uma turnê. Há muitas outros detalhes. Agora Caetano anuncia outro disco. Compro todos. Quero gostar. Tomara.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

MEU CORAÇÃO É BANDEIRA AO VENTO NA PRAIA DO FAROL

Minha amiga Silvana acaba de publicar fotos do Hotel Farol, em Mosqueiro, onde passa alguns dias com sua mãe. Comentei, no Facebook, que meu coração está ali, naquele cenário, não enterrado, mas empinado, ao vento, como uma bandeira feliz, acenando para o dia. 
A praia do Farol é o local dos meus sonhos e devaneios. A casa de meus avós. Uma das lembranças mais antigas foi uma madrugada em sussurros de minha mãe e suas auxiliaries. Íamos pegar o ônibus das seis, até a Vila, e de lá, no Presidente Vargas, para Belém. Elas não queriam nos acordar. Outra lembrança é acordar, um domingo, ouvindo o vento nas palmeiras e a algazarra da criançada, na praia. Como eu era feliz. Como um dia em que meus pais e um ou dois dos meus irmãos tinha ido a Belém e eu fiquei. Era depois do almoço, dia de semana, julho, e naquela calmaria, fui até a praça em frente da casa, subi em uma árvore e lá fiquei pensando na vida. A vida! O que seria, o que haveria à frente? 
O Farol da minha meninice era muita praia, bicicleta e futebol. Mas foi lá, também, que conheci meu primeiro amor, que até hoje me afeta. O sentimento de paixão, alterando, trazendo desvarios mentais ao meu cotidiano até então. Aos finais de semana, noitinha de sexta, chegavam os pais, vindos de Belém, pelo navio. Traziam revistas para as crianças. Nosso vizinho, Sr. Harley, passeava em um carrinho, levando uma criança de cada vez para uma volta. Mais tarde, vinha fazer mágicas. Junte isso com as narrativas de minha mãe, teatralizando uma Amazônia misteriosa, ocupando, municiando nossas mentes, abrindo portas para o livre pensamento. Meus avós, sentados em cadeiras no imenso patio, saudando os amigos que passam em direção à praia. 
Quem chegava, de violão para tocar com meu pai. E já chegou ali a kombi do Seu Rubem Ohana, carregada de meninos e meninas que ao toque de uma eletrola, botavam-se a dançar e namorar. Eu olhava comprido, ainda tão menino, mas em transformação. Agora a moda era jogar vôlei nos quintais. Com a ajuda do querido Zé Zumero, levantamos uma rede e aprendemos a jogar. Mas já a vontade do futebol me levava à praia, nas tardes, para enfrentar adversários maiores e mais fortes. Meus moinhos de vento? Não interessava. Aprendia. Lá vem um rapaz, da Ilha, driblando seus oponentes, rumo ao gol. Pensei em impedí-lo. Claro, eu conseguiria. Aprumei o corpo para prensar a bola. Houve um choque. 
Caído ao chão, vi-o seguir, célere, adiante, enquanto eu estava destroçado. Saí capengando. Um dedo estava quebrado. O rapaz, nem sentira. Mesmo assim, à noite, estávamos no Netuno Iate Clube, luz negra, Esmeril Band tocando rock and roll. Em um interval, “I started a joke”, dos Bee Gees e aí o mundo rodava, se transformava, um rodopio, um mundo inteiro se transformando, amores impossíveis, para mim, as meninas cobiçadas dando atenção aos mais velhos e já aprumados e o barulho das ondas do mar, batendo na arrebentação. A gente olhava para o céu, procurava a lua e suspirava. Quando chegará a minha vez? De vez em quando vou ao Mosqueiro. Escrevi um livro quebrando esse vidro de paraíso, chamado “Moscow”. Mas isso é arte. Meu Mosqueiro está intacto. Vou no meio de semana, um dia qualquer. Vou à praia com meu cachorro, volto e me ponho sentado na pracinha. Vou até a casa, hoje do amigo Mariano Klautau. Olho o patio e fico em devaneio. Todo aquele mundo passa diante de mim. Tão felizes, tão lindos! Eu os vejo, juro e penso como era feliz! Não me arrependo de nada, nem de ter amadurecido mais tarde, sendo criança por mais tempo. Meu coração está linda, bandeira despregada, rindo infantilmente, como um sinalizador de que tudo na vida vale a pena. Boas férias neste julho que vem aí.