sexta-feira, 20 de abril de 2018

MY PLEDGE OF LOVE

Foi após assistir a um vídeo no Facebook, mostrando várias pessoas na chamada Terceira Idade, dançando em coreografia, uma música chamada “My pledge of love”, que me deu vontade de escrever sobre aquela época aqui em Belém. Serve para os colegas de geração lembrarem e para os novos leitores, algo bem curioso. Final dos anos 60, primeiros da década de 70. Tinha uns 14 anos, sei lá. Estava de férias no Rio de Janeiro, alguém me levou a uma boate no Joá. Elevador com luz negra e todos dançando. De repente o dj tocou “Na Na Na Hey Hey Kiss Him Goodbye” com Steam e me conquistou. Corajosamente fui até a cabine e meu espanto foi encontrar Ademir, um dos lendários djs da época. Dias depois, fui ao Canecão para mais um dos “Bailes da Pesada”, promovido por outra lendária figura, Big Boy, que tinha programas demolidores na Rádio Mundial AM, sim, ainda nesse tempo. Como estava cedo, Big Boy disse ao microfone que mostraria o primeiro disco solo de John Lennon, que havia chegado com um piloto, amigo, que veio da Inglaterra. As coisas eram assim. E também tocou “Sex Machine”, com James Brown e outra do 100 Proof, com “Somebody’s. Trouxe tudo para Belém. E já tocava Joe Jeffrey com “My Pledge of Love”. O instrumental era curioso. Metais, violinos, guitarra fazendo ritmo e bateria acelerada. Não era rock. Era dançante. Eu frequentava uma “Pipoca” na boate da Assembléia Paraense onde tocava até “Whole lotta of love”, com Led Zeppelin. E naquele miolo da música, onde há apenas sons e a voz de Robert Plant, as luzes, principalmente a luz negra brilhava e todos dançavam. Claro, após algumas músicas, vinha a música romântica. Criávamos coragem e íamos até as mesas, onde estavam com as meninas com os pais e convidávamos para dançar. Sentir seu corpo, cheiro, respiração, a conversa, tudo isso era uma experiência inenarrável. E quando alguns, mais atirados, colavam o rosto, o mundo podia explodir que ninguém sentiria. O próximo som anunciando a era da discotheque foi de Harold Melvin and the Blue Notes, que se apresentavam em um programa na Filadélfia, juntamente com O’Jays e tantos outros. Melvin, irresistível, baixo forte, violinos, piano, metais, vinha com “The Love I Lost, was a sweet love” e lotava as pistas. Melodia fortíssima, crescendos e explosões de metais que incendiavam as almas, bem como O’Jays com seu “Love Train”. Aqui em Belém, vários djs usavam essa música no encerramento dos trabalhos em alto astral. Sem querer perder trabalho para o som mecânico, Guilherme Coutinho trazia gravadores com sons pré gravados, aos quais acrescentava seu trio, já tocando Wilson Simonal com “País Tropical”, por exemplo, talvez Toni Tornado e sobrevivendo ao momento. Guilherme era insuperável, principalmente quando Walter Bandeira estava ao comando. Já era tempo do T1, ali na Base Aérea? No Pará Clube, entrávamos e mostrávamos qualquer carteira ao porteiro, com uma nota guardada, por baixo, que ele, com indescritível habilidade, guardava e deixava entrar. Não fui um grande dançarino ou participante assíduo, mas gostava. A Maloca, com Rosenildo Franco ao comando. Eu sei, havia a ditadura com vários agravantes. Desculpem, naquela faixa de idade, vivendo em um lar onde meu pai não discutia esse assunto e encarando um momento mundial onde a música, a literatura, teatro, cinema, poesia, tudo estava em revolução, confesso que não tive olhos para isso, o que me fez, mais tarde, comprar todos os livros possíveis, de todas as opiniões, até formar idéia a respeito. Enfim, eu fui muito feliz. Muito. E vocês?

sexta-feira, 13 de abril de 2018

O HORROR. O HORROR.

É claro que estamos em guerra civil. Os números mostram. Enquanto isso, o Secretário de Segurança, de maneira irresponsável, demonstrando até um certo escárnio, declara andar pelas ruas tranquilamente, sentindo-se seguro. Mas após assistir ao documentário “Os Últimos Homens em Aleppo”, que concorreu ao Oscar, fiquei chocado. Nada é esclarecido sobre que facção mulçumana é aquela, nem possíveis combatentes são mostrados. Somente a ação da organização Capacetes Brancos, que simplesmente ajuda a todas as vítimas dos bombardeios. Ahmad e Mahmoud são irmãos. Abu Youasef tem mulher e filhos. A cidade está em ruínas. Carcaças de prédios. Creio não ser possível reconstruí-la. Precisariam demolir os esqueletos de concreto e depois levantar novos edifícios. Não dá. Tudo é poeira, pó, fumaça, destroços. Eles mostram os jatos russos que atacam e despejam bombas. A visão delas, à noite, feito fogos de artifício, caindo, mistura o belo e o trágico. Eles trabalham febrilmente, cavando com pás e mãos, encontrando sobretudo crianças. Algumas estão mortas. Outras, com ferimentos graves na cabeça. Cenas terríveis. Um tempo depois, os capacetes brancos fazem uma visita à casa de uma das crianças. O pai conta que perdeu três filhos. O sobrevivente agarra seu salvador, agradecido. O olhar desses meninos é de perplexidade. Em uma idade de brincar, imaginar, sonhar, eles vivem uma realidade atroz. Aqui e ali, recolhem pés, braços, pernas, que colocam em sacos. Penso se suportaria tudo isso. Creio que por minha índole, faria de um tudo. Mas tenho certeza que uma melancolia, tristeza profunda, iria me afogar, invadir, pouco a pouco, até ficar inerte, sorumbático, preso em minha solidão, como que guardando um oceano de emoções para jogar não sei onde. Pensam diferente alguns fotógrafos que estão sempre aqui e ali, viciados em adrenalina. Todos praguejam contra Bashar El Assad, o presidente da Síria. Em dado momento, um dos capacetes brancos pergunta onde estão os árabes, ninguém ajuda. O mundo todo está contra nós. Abu pensa em levar a família para a Turquia, mas logo assistem na Tv que os que chegaram lá não são bem tratados. Outros dizem que não vão sair. É sua cidade e somente sairão mortos. Quando não são jatos ou helicópteros, até drones sobrevoam procurando alvos. Então decretam uma trégua. Eles levam as crianças até um parquinho. Brincam, também, como se crianças fossem. E então o rádio avisa que virá um bombardeio. Todos correm para se proteger. Mas é uma loteria. A bomba cai, o prédio desaba e vários morrem. O menino ouve o aviso e pede ao pai para voltar para casa. Jato joga bomba. Então, no meio de uma busca por soterrados, um deles avisa que precisa sair mais cedo. Estará em uma festa de casamento. Aqui, algumas pessoas morrem, enquanto outras casam. Estão dançando e lá vem aviso de bomba. E entre os desesperados que cavam e carregam mortos e feridos, um homem vestindo uma t-shirt do Kiss. Bem irônico. É um mundo diferente do nosso. Nas casas, há móveis, sofás, cadeiras, mas sentam em roda, todos, no chão. Não, as mulheres nem aparecem ou quando passam ao fundo, estão cobertas de negro. Desculpem os mulçumanos, mas não há interpretação possível, além da dominação dos homens, para manter as mulheres em casa, apenas como procriadoras, sem estudar, como inferiores. Sim, vivemos uma guerra civil em Belém. O inimigo veste-se quase sempre de maneira parecida com a nossa. Não sabemos de onde virá o tiro, nem o motivo. Não temos nem capacetes brancos para nos ajudar. Estamos perdidos.

sexta-feira, 6 de abril de 2018

CHEGAREMOS LÁ?

Assisti nos últimos dias alguns filmes que me fizeram pensar a respeito da democracia e a tal coisa da liberdade de dizer e fazer, claro, dentro dos limites da lei e principalmente, do outro. Americanos adoram explodir a Casa Branca. São inúmeros os filmes em que os presidentes ou são tolos, ou perigosos, agentes de algum inimigo e não raro liquidados após serem combatidos por patriotas. No cinema espetáculo que exportam para o mundo, as grandes explosões, canhões, armas absurdas, servem como uma propaganda cultural de sua pujança e de seu modo de vida. Imaginem se os cineastas brasileiros fizessem um filme explodindo o Cristo Redentor, Pão de Açucar, sei lá, monumentos importantes para nós. Nossa democracia é recente e nossa forma de fazer política chegou ao ponto de descrença que deixa a todos sem resposta sobre o que fazer. O amanhã ninguém sabe. Dois filmes são passados na Inglaterra, país europeu, muito mais antigo que o nosso e com seu sistema próprio de fazer política, mantendo inclusive uma rainha. Também tem seus problemas, mas é um dos mais desenvolvidos no mundo. O primeiro filme mostra a amizade de uma rainha por um indiano. Idosa, aborrecida com todos aqueles compromissos, sem tempo para si, ela tem a atenção voltada para um indiano e contar como ele foi parar na corte seria longo. A amizade revolta aqueles que a cercam, disputando sua atenção e favores. Quanto ao indiano, também desenvolve historias mentirosas sobre sua origem e suas qualidades. No entanto, desperta na rainha a vontade de viver e enfrentando as dificuldades e armadilhas impostas à amizade, encerra a vida mais feliz, tendo um diálogo final bem bonito. Faríamos um filme, retratando personagens, digamos, recentes, com prós e contras, sem atiçar emoções partidárias daqui e dali? Outro filme, este feito pela BBC, emissora oficial do governo. Alguns anos adiante, Elizabeth morre e seu filho, Charles, assume. Seus dois filhos são adultos. O primeiro, casado com Kate, a moça bonita. O outro, atormentado pela vida sem liberdade que leva. Apaixona-se por uma negra de idéias socialistas. Planeja abandonar tudo para viver como uma pessoa simples. E aí, o Primeiro Ministro quer que Charles assine uma lei que controla a imprensa. Ele recusa. Vem uma crise. Ao invés de contar com a aprovação de sua decisão, o que seria de se esperar, há revoltas em várias cidades. O filho mais velho, em cenas fortes, ameaça o pai e toma o poder. O outro filho também concorda. E Kate, instigando o marido, é um dos artífices do golpe de Estado. Todos acham que a imprensa deve ter freios. Como assim? A BBC? Freios à imprensa, na Inglaterra? Golpe? A cena final é a coroação do filho. Somente um país onde a Educação, Cultura e outros estão em alto nível, a BBC faria o filme e até cometeria o erro sobre a imprensa. E retrataria uma possível rebelião dos filhos contra Charles. Também assisto “O Mecanismo”, de Padilha, bem como acompanho o mar de críticas que a série vem recebendo. Não estamos preparados. Há sempre uma salvaguarda sobre o roteiro ser ficcional. Nào adianta. Aqui e ali, reclamam de falas em boca de outros, perseguição, postura partidária, enfim. Pois estou gostando. Assisto como ficção. A voz do Selton Melo não foi bem mixada. É interessante perceber como corruptos, até então certos da impunidade, sofrem ao serem descobertos. Outros confiam até o final que sairão livres. É ficção e pronto. E também, quem não gostar, pode preferir outras tantas excelentes séries da Netflix, ao invés de reclamar como se fosse documentário. Não é. Chegaremos ao ponto de explodir Brasília, matar presidentes, tudo como ficção, sem a confusão de hoje? Chegaremos lá?

sexta-feira, 30 de março de 2018

VOCÊ ACHA QUE EU ESTOU GORDA?


Foi um daqueles momentos em que a constante vigilância que Cláudio tinha sobre as respostas que dava a Selma, sua mulher, falhou. Falhou fragorosamente. Era uma sexta feira à noite e se aprontavam para ir jantar no Roxy Bar. Cláudio sabia do risco. É um momento delicado, sempre, quando uma mulher fica frente a frente com um espelho e se analisa, microscopicamente, à procura de defeitos, alguns verdadeiros, outros, nada mais que a paranóia normal desses seres fantásticos. E aí fazem aquelas perguntas, cujas respostas elas sabem muito bem e, principalmente, das respostas que damos, mentirosas, o que elas também sabem, mas que naquele grave instante, atenuam suas preocupações, como que “eu sei que ele sabe que isso é verdade, mas é tão educado e tão devotado a mim que nunca diria”.. Cláudio disse. Escapou. Ato falho. Assim como quem fala por falar, naquela melodia perigosa, que os homens conhecem, ela perguntou “você não acha que eu estou gorda?” E Cláudio respondeu “um pouquinho, querida”. Ela se voltou abruptamente. Mudou a melodia. Tinha algo de desespero na voz. “Eu estou enorme!”. De nada adiantou Cláudio dizer que não era nada disso, que era só uma impressão, que ela estava maravilhosa, que talvez fosse o ângulo que ele estava olhando, que aquele espelho estava precisando ser trocado, que, enfim, ele não a trocaria por nenhuma dessas lambisgóias dos desfiles da tv. Que ela estava, como sempre, linda, gostosa... “Gostosa? Isso quer dizer que eu estou uma baleia! Porque você não diz a verdade, hein? Vai ver que todos por aí, os seus amigos, a Cláudia, aquela mulher do Ribeiro, com aquela língua de jararaca, já deve ter comentado! Meu Deus, eu saio com você por aí, assim, gigantesca e nem sequer um aviso!” Cláudio também já se desesperava: “meu bem, pára com isso, eu já nem me lembro o que disse, acho até que entendi mal.. Acho que pensei se você tinha perguntado se estávamos atrasados e eu disse, um pouquinho..” Ela estava irredutível: “meu querido, só agora me dou conta da gorda em que me transformei” E já começou a tirar o vestido que levara horas, escolhendo, para sair. “O que é isso? Não vamos, mais, sair?”, perguntou Cláudio. “Não. Eu tenho até vergonha de sair, assim, enorme, como estou. Depois, o que vou comer? Tu achas que eu vou pro Roxy Bar me atracar com um Sadam Hussein? Hein? Hein?” Desesperado, Cláudio retruca “meu bem, você come apenas um catfood...” Meu querido, eu tenho simancol. Acho até que não saio mais de casa até conseguir... já sei! Eu tenho que fazer uma lipo! Uma lipo geral! Tu me pagas uma lipo? Não, não vem com essa tua cara! Tu estás me devendo uma lipo, no mínimo, por todos esse anos te aturando! Esses teus porres de cerveja, aquela pelada muito estranha, toda quarta de noite, não vem que não tem! Eu quero uma lipo!” Cláudio não acreditava. Em minutos, a noite de sexta, que ia ser ótima, estava destruída e ele ainda recebia ameaças.. “Querida os Sampaio já devem até estar lá no Roxy, esperando. Deixa essa discussão pra amanhã..” “Esquece de mim, Cláudio. Aliás, não fala comigo. Nem me olha, enquanto não tiver marcado a minha operação!” E foi andando em círculos, na sala, que ele decidiu reagir. Irrompeu pelo quarto. “O que é? Já deu até no Jornal Nacional”. Não, Cláudio disse. “Estou entrando assim para não deixar você cometer um erro grotesco, movido por uma brincadeira despropositada que fiz, em uma hora errada. Você sempre me pergunta e eu sempre digo que você está linda. E está. Como sempre. Magra, elegante, nem parece que teve filhos. Mas é que hoje, em má hora, resolvi brincar um pouco e você não entendeu. Você é linda e magra, querida. A mais magra de todas. Pode ter certeza”. Não se sabe se foi pelo rompante com que Cláudio disse tudo aquilo, mas o certo é que ela deu mais uma olhada no espelho, olhou para ele e disse: “Você acha, mesmo, isso?” Cláudio, prontamente “claro que sim. Sabe de uma coisa, eu acho até que nós dois podíamos, né, quem sabe, aproveitar esta sexta aqui na cama..” Selma, de bate pronto: “Nada disso. Os Sampaio não estão nos esperando, principalmente a Célia?” Ágil, Cláudio respondeu: “Quem? Aquela gorda?” “Exatamente. Me passa o vestido. Ela vai morder a calçada de inveja deste corpitcho” “Bravo, querida, é assim que eu gosto!” E mais não disse. Apenas, ao entrar no Roxy, ela murmurou “Cláudio, você não estava mentindo, estava?” Ao que ele, “imagina, querida, imagina” E pensou “ufa!”

sexta-feira, 23 de março de 2018

VAMOS DISCUTIR A RELAÇÃO?

Os dois times estavam em campo e o juiz preparava-se para iniciar a partida. Freitas jantara, tomara seu banho rapidamente e estava em sua poltrona preferida, diante da televisão, ansioso pelo jogo, decisivo. Foi quando Mara, sua esposa, chegou e ele pressentiu o perigo. Ela sentou sobre o braço da cadeira, passou a mão sobre seus cabelos e perguntou, com aquela melodia especial, como havia sido o seu dia.
-       Bom
-       Bom como?
-       Bom. Só isso.
-       Freitas, você já reparou como nós nunca mais conversamos direito?
-       É?
-       Ta vendo? Ainda fala comigo com monossílabos
-       Ah, Mara, ta tudo bem..
-       Freitas, pode olhar pra mim?
-       Querida, é que o jogo..
-       Jogo tem todo dia. Freitas, por favor! Não suporto falar com ninguém de perfil. Dá pra olhar pra mim?
-       Não dá para esperar nem o primeiro tempo, Mara? Puxa vida, você sabe como eu estava esperando esse jogo..
-       Qualquer jogo, Freitas, qualquer jogo é mais importante do que eu. Acho que está na hora de nós discutirmos a nossa relação
-       Ai meu Deus
-       Lá vem você! É sempre assim. Você sabe que os casais precisam conversar a relação de tempos em tempos, pra saber se vai tudo bem, o que anda faltando..
-       Uhhhhhhh!!
-       Que foi?
-       Quase era gol
-       Freitas, olha pra mim, por favor! Há quanto tempo você não me beija?
-       Ainda hoje..
-       Não estou falando de beijinho de bom dia, boa noite, tchau e oi, desses de encostar a boca no rosto. To falando de beijo, me entende? Há quanto tempo, me diz! Olha que começa assim, viu? O casal vai se afastando, se afastando..
-       Mara, pelo amor de Deus.. escuta, você está na tpm?
-       Lá vem você apelar! Não apela! Toda vez que a gente vai discutir algo importante da nossa vida, você me vem com essa.
-       Está ou não está?
-       Não interessa. Não desvia a discussão.
-       Meu Deus! Meu Deus! Meu Deus!
-       Não adianta apelar pra Deus. Olha pra mim, Freitas!
-       Olha, querida, o que quer que seja que você esteja sentindo falta, vamos fazer uma coisa: eu aceito. Você está com a razão. Eu vou procurar me esforçar. Tenho ignorado você, tenho passado as noites vendo jogo
-       Ainda tem a pelada de sábado
-       A pelada de sábado
-       O jogo de futebol na quarta
-       O jogo de futebol na quarta. Enfim, querida, prometo me esforçar
-       Ta debochando, é?
-       Como assim, debochando?
-       Você concorda com tudo, desde que eu vá embora e deixe de lado a nossa discussão?
-       Minha santinha, por favor.. escuta, sabe aquele sapato que você me falou que viu no shopping?
-       Não vem me subornar!
Há certos momentos, e Freitas sabia muito bem, que todos os truques falhavam. Mara ficava impossível e a cada tentativa, ficava cada vez pior. Apelou, desligando a televisão.
-       Pronto. Não tem problema, eu perco o jogo, tudo. Pode falar. Vamos discutir a relação
-       Agora vai ficar fazendo teatro, é? Quer passar por vítima? Eu é que sou a megera, que não te deixa assistir o jogo, é?
-       Você não queria conversar? Pronto, vamos conversar
-       Assim não quero. Olha, um dia você vai se surpreender comigo, viu?

Incontinenti, saiu pisando forte na direção do quarto. Ainda foi atrás, mas sabiam, os dois, estar cumprindo uma espécie de roteiro, encenado de trinta em trinta dias.

sexta-feira, 16 de março de 2018

INTERROMPIDOS

Era uma noite linda de verão. As filas eram enormes, mas lá dentro, dava para ouvir a alegria reinante. Edu e Márcia já estavam aguardando o show de Anete, cada um com sua latinha de cerveja. Edu, 18 anos, deu um tempo nos estudos para o vestibular. Aproveitou o show de Anete para dar uma relaxada, chutar o balde. Márcia, 16, faria vestibular no ano seguinte. Deixou para estudar no domingo, quando acordasse, Matemática, prova na segunda. Quando Alfredo chegou, Anete estava entrando no palco. Edu e Márcia estavam bem na frente. Alfredo, 27, foi rodeando até ficar próximo. Comprou duas latinhas. Na fila, já havia aberto os trabalhos. Ia passando um trenzinho. Foi atrás de Linda, de quem roubou o primeiro beijo da noite. Ã frente dela, José Carlos e Otávio, bem animados, roubando beijos. Era hit atrás de hit. Paravam apenas para reabastecer de cerveja. Veio Raimundo e botou um comprimido no copo de José Carlos. Alfredo era bancário e estava preocupado com o chefe novo que se apresentaria na segunda feira. Mas naquela noite, era tudo para Anete. Linda, 25, era realmente linda. Promotora de eventos, no dia seguinte, de emendada, ia trabalhar no lançamento de um produto no shopping. Mas quando se é jovem, ninguém se poupa de nada. José Carlos, 20, não trabalhava. Repetia vestibular ano após ano, mas ficava mesmo era em casa, ouvindo os discos de Anete. Os pais esperavam quando, enfim, iria amadurecer. Otávio, 32, era vendedor. Engravidou a namorada, casou, deixou os estudos para trabalhar. Descasou. Juntara dinheiro para o show. Raimundo, 23, traficava ecstasy. Bundeava pela cidade, aguardando os shows para faturar.
Linda estava passando mal. O trenzinho seguiu adiante, menos Otávio, que ficou preocupado e foi ajuda-la. Vomitou muito, pediu um tempo e saíram da muvuca. Ela o abraçou procurando conforto e ele gostou. Quando melhorou, tomou uma granada de água e o beijou. Ficaram se amassando num canto. José Carlos pulava como se não houvesse amanhã. O ecstasy pegou forte, misturado com a cerveja. Acabou esbarrando em um casal e o cara, malhado, deu um soco. Abriu clarão, mas José Carlos, caído, não oferecia perigo. Levantou e seguiu pulando e cantando. Edu e Márcia deram um tempo porque Márcia ia ao banheiro. E também porque o Edu achava que Márcia estava olhando para um bonitão, ao lado. Encontraram Linda e Otávio. Edu conhecia Linda. Já haviam paquerado. Então Márcia voltou e juntos, foram lá para a frente. A Márcia de olho no Edu e na Linda, que voltou a beber e Otávio já estava bem ligado. O show terminou. Mas continuou rolando som mecânico. O público foi saindo, mas Edu, Márcia, Linda e Otávio continuaram. Tá bom, vamos. Na saída, encontram José Carlos, com o rosto inchado, mas feliz. Alfredo estava encostado em um Gol. Era o carro de Linda. Já haviam se visto. Quem quer carona? Nós estamos indo lá para a Cidade Velha, continuar, sem hora pra acabar. Todos vibraram. José Carlos avisou que ficaria antes, em Nazaré. Fica no caminho? Vai todo mundo! Compraram mais umas latinhas. Vocês vão ficar aí, bebendo? Vamos no carro! Sentaram Linda e Otavio na frente. Atrás, quatro se apertaram, sendo que Márcia sentou no colo de Edu. Alfredo se acomodou no bagageiro. Uma farra. Linda ligou o som do carro e ouviram, novamente, Anete. Márcia estava apagando no colo de Edu, mesmo que rolasse uma leve excitação em ambos, prometendo, mais tarde, sexo. Os outros contavam piadas. Riam alto. Gritavam. Era um carro de festa. Linda dirigia rápido. Otávio com a mão em suas coxas. Na primeira curva, cantaram pneu. Oi! Todos gritaram, felizes. Sem hora pra terminar! Agora estavam na Avenida João Paulo, em alta velocidade. Havia um calombo na pista. Para quem estava dentro do carro, não houve tempo para nada. O mundo virou de cabeça para baixo, choques, tudo ficou escuro.

Edu tinha prova na segunda. Márcia, prova de Matemática. Alfredo teria um novo chefe na agência. José Carlos não tinha nada para fazer. Otávio pensava em bater o recorde de vendas. Raimundo tinha dinheiro no bolso. Eram. Tinham. Que pena. Vidas interrompidas.

sexta-feira, 9 de março de 2018

ELA NÃO MORA MAIS AQUI

O apartamento está vazio. Ela não mora mais aqui. Saíram móveis, quadros, lembranças. Estão arrancando o carpete. Ressurge o piso de tacos, antigo e perfeito. O salão de entrada, vazio, parece ainda maior. Construção antiga. Janelas grandes, pé direito alto. Olho para o canto onde armava a árvore de natal. Do corredor vem um vento interessante, ao mesmo tempo levando para longe tudo o que ali aconteceu, mas também trazendo aquelas crianças levadas, correndo pela casa, circundando a grande mesa de jantar em algazarra. Lembrei de Adalcinda, certa noite, de pé sobre uma cadeira, declamando para convidados. Meu pai, após a passagem da Santa, distribuindo bebida e já com o violão, para iniciar os “trabalhos”. E agora, de onde assistirei o Círio? Nunca perdi nenhum. Sempre dali, abraçado a ela. Passo à sala de refeições onde não há mais nada, apenas um armário velho. O pai chegava mais tarde, da Radio, por causa do programa de esportes. Ela comandava. Os danados, se provocando. Vocês sabem. Sabem? Sigo um itinerário nào planejado. Deixo-me levar pelo vento, quem sabe, que desnuda os aposentos, já desnudados. As paredes também estão nuas. Ela gostava de pintores regionalistas. Amazônia, sempre. Um foto gigante, feita na fatídica final Brasil e Uruguai em 1950, na entrada. Em breve vocês a encontrarão em um bar/restaurante famoso. Existe um lugar. Passaram tantas empregadas, mas a rainha foi Adelina, a nossa Biá, que nos criou e encheu de afetos e mimos. Entro e me ponho a lembrar. Então percorro os quartos enormes, mais ainda, sem móveis. Revivo as brincadeiras, lembranças boas de uma infância e adolescência feliz. Uma vez, tão criança, outra mocinha, que trabalhava, me pedia para chutar uma bola. Eu hesitava. “Achuta, bestão!”. Recebeu graves reprimendas. Imaginem. Ou a cômoda, que não há mais, transformada em diligência de filme de  cowboys, perseguida por índios terríveis. A cama em que meu pai sentou e tocou, ao violão, a melodia que fez para meus versos, no samba enredo “Cobra Norato, Pesadelo Amazônico”, do Quem São Eles, cantado pelo irmão. Outros dois quartos já estavam divididos há muito, um escritório para cada um, pai e mãe. Seguro, apaixonado, uma máquina datilográfica “manual”, as aspas são pelo peso que tem, onde meu pai teclava rápida e velozmente, usando uns dois dedos de cada mão. Previdente, ela me inscreveu em um curso de Datilografia. Ia emburrado, hoje agradeço. Penso se devo entrar em seu quarto. Ela esteve ali nos últimos meses. Mesmo morando só, com cuidadoras, sua presença ocupava todo o apartamento. Passo uma vista d’olhos em seus escritos, à mão ou datilografados. Amazônia, sempre Amazônia. O quarto era lotado. Móveis, santos, livros, tv, penteadeira. No criado mudo, um verdadeiro exército, um time perfeito de imagens sagradas. Santo Antonio sempre foi o preferido. Agora é um vazio. Posto-me ao centro e giro memorizando cada coisa que ali fez a vida. O vento circula, talvez comece a chover. Será que vou embora? Estático, a mente cheia de recordações. Meu pai dublava em casa, trancado em um quarto, jogos do Brasil na Copa de 62. Ameaçados de torturas terríveis, não podíamos fazer barulho. Horas terríveis para crianças tão danadas. Nasci nesse prédio, onde passei infancia e adolescencia. Adulto, vim duas vezes por dia, todos os dias. Agora é como se alguém estivesse apagando o cenário em que vivi. Cenário físico. Na mente, nunca me esquecerei. Muito menos dela. Minha mãe.