sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

VOU BEIJAR-TE AGORA , NÃO ME LEVE A MAL

Talvez eu tenha utilizado, alguma vez, quando criança, em Bailes Infantis de Carnaval, uma lança perfume. Mas certamente para jogar o líquido gelado nas costas dos coleguinhas. Minha melhor lembrança já vem do tempo de adolescente. Ao contrário dos rapazes de hoje que aos 13 anos já sabem de tudo, nós éramos ingênuos, entrando em contato com a vida aqui fora. Tempo dos bailes de carnaval. Pará Clube, Iate, Assembléia Paraense, AABB, Clube do Remo e algum outro que esqueço, promoviam suas festas, lotadas. Para entrar na AP era necessário smoking. Mas quem teria um smoking, na nossa idade? Algum de nós entrava e jogava pela janela, da sede da Presidente Vargas, as jaquetas, gravatas e faixas. E era assim, mesmo, afinal, após entrar, todos ficavam apenas de camisa, suados de tanto pular carnaval. Talvez os mais velhos utilizassem cheirinho da loló e outros, mas eu não via. Meus olhos estavam no salao de danças, onde um cinturão em volta se fazia, com rapazes de olhos compridos, esperando a vez de poder dançar com alguma garota. E já não era apenas Baile dos Brotinhos e sim um Baile das Máscaras, por exemplo. A orquestra podia ser de Orlando Pereira. Lembro dele, sorridente, à frente da banda, marcando o compasso com os braços. Os pares passavam dançando como em um carrossel. E aquela garota com a qual você sonhava a semana toda, passava, às vezes dançando com uma amiga, em outra com aquele bonitão, mais velho, experiente, cantando e sussurrando em seus ouvidos. Um sofrimento. Mais do que isso, minha timidez evitava que em ato de extrema coragem, saísse daquele cordão, atravessasse o salao e, impávido,  fosse até a mesa em que ela estava sentada com mãe, pai e irmãos, pedindo para dançar. Significava passar por um exame completo, como um scanner feroz. Pior, o altíssimo risco dela dizer que estava cansada. O retorno, arrasado, humilhado por não conseguir tirar nem uma menina para dançar era terrível. Para dar coragem, íamos em grupo e comprávamos meia garrafa de rum e algumas cocas. Aos poucos íamos inflando o ego e achando que éramos invencíveis. Às favas as possibilidades. Atravessarei este salao e direi a ela: vamos dançar? Estenderei a mão que ela pegará e ficaremos juntos a noite inteira. Um dos bons momentos de abordagem é quando começavam a tocar marchas rancho. O ritmo diminuía, alguns iam tomar alguns drinques e se nào fosse ali, era melhor ir embora para casa, derrotado. Então, cheio de coragem você olha e nem percebe que ela o aguardou a noite inteira por aquele convite. Que passava dançando com a irmã somente para provocar. A voz falha na hora do “vamos dançar”, mas logo nos encaminhamos ao salao. Bandeira Branca, amor, nào posso mais. Na mesma máscara negra que esconde teu rosto, eu quero matar a saudade. E então vêm as marchinhas mais animadas e ela não pede para parar. Agora nos olhamos e rimos, andando no círculo e cantando. O tempo que durou, não faço idéia. Veio mais uma sequencia de marcha rancho e ela continuou. Deveria convida-la a ir até o terraço, sei lá, outro canto, para conversar e, vocês sabem como é.. Mas não. E então tocou “Viva o Zé Pereira, viva o carnaval”. A mãe fez sinal. Ela virou para me dizer adeus. Estávamos com os rostos tão próximos que o beijo foi natural e também um susto para ambos. Olhamo-nos perguntando um ao outro. Consegui balbuciar: na porta do Colégio Moderno?

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

ODEIO VOCÊ, CULTURA

Assisti ao espetáculo “5 Vezes Comédia”, semana passada, no Teatro da Paz. Foram três sessões gloriosas, lotadas. Em um cálculo apressado, seriam três mil pessoas a R$100. Uma boa soma, mesmo descontando as despesas. No palco, comediantes conhecidos em programas da Tv Globo. E curioso perceber um padrão ditado pela emissora, no humor feito pelos atores. Esse padrão domina hoje o cinema nacional em comédias leves que conseguem milhões de espectadores. São cinco monólogos rápidos. Engraçado como, ao final, em poucos minutos, esquecemos o que assistimos, assim como acontece nos programas de tv. Divertem no momento. Nada para pensar ou refletir. Pior, a propaganda do departamento de Seguros do Banco do Brasil. Um casal senta na plateia. Ele vira para a mulher e diz que após uma semana de stress, um trânsito pesado até chegar ali, espera que a peça não seja daquelas “sérias”, e faz uma voz gutural. Emenda dizendo que deveria haver um “seguro-teatro”, para prevenir “peças ruins”. E creio que todos, ali, concordaram. A classe média paraense lota o Teatro da Paz a cada vinda de artistas globais e suas comédias baratas. Não é somente um fenômeno paraense. A Cultura saiu do cotidiano das pessoas. Fernanda Torres, entrevistada por Bial no GNT disse que antigamente, íamos ao cinema assistir Fellini, Buñuel, Kubrick, sei lá quem mais e saíamos tão impressionados que ficávamos na porta do cinema querendo falar sobre e depois conversávamos noite adentro em algum restaurante ou bar. Havia um impacto. E no Teatro? E na Música? A própria Globo recorre, agora, a músicas dos anos 80 e até Caetano Veloso das antigas em suas trilhas de novela. O que é produzido hoje é lixo. Saudosista? Será? Hoje, aqui em Belém, nosso teatro é feito em casas, como os primeiros cristãos em Roma, orando nas catacumbas. Somos vítimas de uma crueldade produzida por insensatez, boçalidade e ignorância, em mais de vinte anos de governo. Uma geração inteira foi desmantelada. Hoje, se perguntasse a uma daquelas pessoas no TP se assistiria a uma peça com artistas locais, ela talvez risse, debochando. Os governantes acabam de dar outra demonstração do seu ódio pela Cultura, nomeando uma advogada que talvez nunca nem tenha entrado em um teatro. Bom, talvez estivesse na plateia do TP. Ela própria confessou sua ignorância quanto ao tema. Somos vítimas? Somente porque deixamos que nos vitimassem. Somos desunidos. Muitos de nós, para sustentar a família, conseguiram emprego no Estado. Participar de manifestação? Nem pensar. O Estado é vingativo. Onde está a Escola de Teatro da Universidade, que tem como professores alguns dos mais brilhantes expoentes de Belém? E para quê, a cada semestre, apresentam novos profissionais? Para quem? E esse jovens, no fulgor da mocidade, quedam-se na base do não é comigo a cena que se apresenta? Desculpem a expressão, mas seja o Estado, a Prefeitura e nós mesmos, parecemos estar “cagando” para isso. Deixemos que tudo morra. Assistimos esses cretinos fazerem festivais de ópera, para cinco mil pessoas, enquanto milhões no Pará nada tem. Que um empresário de brega comande a Fumbel. Os algozes enfiam a faca sorrindo e sorrimos de volta para eles? Não me calei. Me prejudicou mas não evitou que seguisse com minhas obras. E vocês? Onde estão os jovens com sua força, lutando por uma brecha para mostrar seu valor? Vão ficar calados por quanto tempo?

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

NA GALERA

A primeira vez em que fui a um campo de futebol assistir a um jogo, fiz vergonha. Ao terminar o primeiro tempo, fui chamar meu irmão para que ele contemplasse o tamanho das orelhas de uma pessoa, na arquibancada. Depois, passei grande parte da infância e adolescência assistindo a jogos, sentado ao lado de meu pai, que primeiro era o locutor e depois comentarista. Estava no Leônidas Castro quando Amoroso fez aquele gol em que toda a torcida bicolor avisava o goleiro Omar e o zagueiro Abel que ele estava furtivamente vindo tomar-lhes a bola e fazer o gol. Estava no Evandro Almeida, na inauguração dos refletores, com Pelé em campo e vestindo o manto sagrado azulino. Também quando Eusébio esteve aqui com o Benfica. Grandes vitórias, grandes derrotas. O importante para mim foi aprender a “ler” o que se passava em campo. A dinâmica do jogo, as estratégias, formação e jogadas. Tudo isso me valeu para, mais tarde, escrever sobre futebol e comentar partidas para a Mais Tv. Também serviu para me tornar um espectador frio, muito diferente de estar na torcida. Sim, já estive em arquibancadas, poucas vezes, na companhia de amigos do colégio. Junto ao alambrado, xingando o bandeirinha. Uma vez, garoto, estava no Maracanã. Era Flamengo e Vasco. O rubro negro venceu, com gol de Espanhol, cujo nome era José Ufarte. Após o gol, com o estádio em festa, correu na direção da torcida. Naquele momento de emoção, compreendi tudo o que o futebol provoca nas pessoas. Uma mistura de gozo, vitória, consagração e a desgraça do rival. Há uns que pulam e se abraçam. Outros, de joelho, erguem-se cabisbaixos, outro reclama com o bandeirinha, aquele parece culpar o companheiro. Era um jogo interestadual. Equipes de rádio de fora presentes. Não havia lugar para mim, nas cabines. Meu pai me deixou junto aos conselheiros do Remo. Aqueles senhores me receberam com carinho, me ofereceram picolés, refrigerantes. Senti-me seguro. Mas então o juiz apitou, a bola veio na nossa direção, o jogador azulino dividiu e levou a pior. Então, como uma onda vibrante, aqueles senhores bonachões, bonzinhos, feito lobos ferozes se atiraram à grade proferindo os piores palavrões que já havia escutado, xingando juiz, jogador e quem mais aparecesse. Fiquei encolhido no canto. Todas essas palavras vos escrevo porque meu cunhado esteve no “Edgar Proença” assistindo ao jogo Remo x Cametá, levando seu filho. Mineiro, sem nada entender do jogo, fez a vontade de Gabriel, remista doente, mesmo morando em Brasília. Emocionado, conta do clima a partir da ida ao estádio, com ônibus carregados e cantando hino. Como engenheiro, prestou atenção aos detalhes da obra. Encantou-se com a emoção presente. Jovens, mulheres com crianças de colo, senhores com filhos e netos. Os hinos cantados antes do jogo. Os xingamentos aos juízes, ao atacante que perdeu a chance, ao rival que quase marcava. E na volta, a mesma festa. Li que ao contrário disso tudo, houve também violência, roubos, o de sempre em terra sem Segurança. Do jogo e suas estratégias, pouco pode dizer. O Remo venceu de goleada, mas foi a emoção, aquelas vozes cantando em côro improvável que lhe marcou. Esse é o segredo do amor ao futebol. Não é possível que continuemos em nossa terra a ser tão amadores, incompetentes, ladinos, com algo que provoca a enchente de gente para assistir equipes fracas, sem jogadores de nível, sem um regulamento, gramados em condição e pior, transmitindo a partida para a cidade. É incrível. É insuportável. Mas o torcedor vai e se emociona. É isso.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

ARISTIDES, O SANTO

Lembro de meu pai, um dos maiores contadores de anedotas que vi em ação. É preciso saber dosar as palavras, a pontuação, a melodia sendo o detalhe mais importante. Ser ator, sim, saber mostrar um personagem com mudança no tom da voz, talvez um ou outro movimento do corpo e no ritmo certo, chegar ao final retumbante. Meu pai tinha a mania de dar pequenos tapas ao final, nos ombros daqueles que ouviam a piada. Era um arremate, um chamamento, uma provocação ao riso, que era o aplauso. Eu o assisti, seja em anedotas “familiares”, seja nas mais sujas e impublicáveis, estas, contadas em círculos masculinos, a maioria das vezes nas rodas que se formavam após trabalhar transmitindo alguma partida de futebol. Uma dessas piadas, antiga, tentarei contar. Claro, a voz, os gestos, tudo isso fica faltando. É necessário também não fazer análise crítica sobre os acontecimentos. Procurar nexos, precisões, enfim. Será que vão gostar?

Aristides era um boêmio. Conhecido em todas as boates que percorria durante a semana. Em casa, no entanto, portava-se como um santo. À mulher, compreensiva, queixava-se que tinha o azar de ter agradado ao chefe. Que este o sobrecarregava de obrigações. Tinha serão quase todos os dias. Isso está me acabando, querida, choramingava. Mas certo dia, sabendo que o aniversário da esposa estava chegando, antecipou-se e a convidou para comemorar pegando um cineminha, ou jantar bem cedinho, enfim, querida, é o jeito, porque já fui convocado por este maldito chefe! Tide, eu não quero nada disso. Poxa, há quanto tempo a gente não sai e vai a uma boate, dançar agarradinho, tomar algumas e depois voltar para casa e fazer um amorzinho gostoso? Aristides tentou evitar. Querida, essas boates, hoje, são um antro de marginais, vagabundos e prostitutas perigosas. Eu tenho até medo de me aproximar delas. A gente nunca sabe. Não preferes um jantarzinho gostoso, com aquele prato que tu adoras, ou então um filminho desses românticos? Não, Tide. Dessa vez eu quero ir a uma boate! Mas querida, pode ser perigoso. Você é uma mulher educada, de nível, pode ficar chocada com o que pode ver? E como tu sabes disso, Tide? Trabalhas que nem um cavalo e não te divertes também, não é? Pois eu já decidi. Vamos a uma boate. Se não for assim, também não quero mais nada. Aristides, desesperado, teve de concordar. Pensou em uma casa noturna na qual já não ia há muito tempo. Quem sabe, não seria reconhecido. Os problemas começaram na chegada. O porteiro abriu a porta do taxi, solícito. Aristides, meu querido, há quanto tempo! Pensei que tivesse esquecido da gente! A mulher perguntou o que era aquilo. Respondeu que era alguma confusão. Na porta, o maitre abriu o sorrisão. Aristides, mon ami! Vou te levar pra tua mesa de sempre, reservada! Foram para a mesa. Trago aquele drink famoso que leva teu nome? Apreensivo, Aristides disse que queria apenas uma cerveja. Passou a moça que vende bombons e cigarros. Tidinho, querido, vai me dar aquela gorjeta de sempre, hoje? Fez que não ouviu. A mulher, no entanto, já começava a tufar de raiva. Quando a cantora disse que ia cantar aquele bolero que a gente gosta de ouvir e namorar, ela explodiu. Sacripanta, mentiroso, patife! Todo esse tempo me enrolando com essa história de serão! Tu vinhas era para a farra! E começou a dar bolsadas no Aristides que, cabisbaixo, levantou e se encaminhou em fuga para a porta. Luzes acenderam. E a mulher gritando e batendo. Entraram no primeiro taxi que viram. Rodaram uns dois quarteirões. A mulher batendo e xingando. O motorista freia o carro: Porra Aristides, bota pra fora essa puta maluca e vamos procurar uma melhor! Mais não conto por ser muito traumático...

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

ALGUÉM QUE MUITO TE AMA


A mulher do Leo é fogo. O cara demora a chegar em casa e ela já pega o carro e circula até encontrar. Aí ele ouve todos os desaforos e volta com ela, caladinho. Mas o Leo é boa gente, tranqüilo. Apenas gosta de passar um tempo com os amigos, jogando dominó, porrinha, bebendo umas cervejas, batendo papo. Essas mesas são absolutamente mansas. Os caras ficam ali, até mexem com algumas meninas que passam, mas não dá em nada. É apenas chinfra, nada de mais. Passam em revista os acontecimentos do dia, contam umas mentirinhas e é só. Mas a mulher do Leo queria o controle. Vamos combinar, talvez ele gostasse disso. Ia se atrasando, se atrasando, a galera incentivava, ela ligava algumas vezes para o celular, ele desconversava e após algum tempo, não atendia mais. Ficava ali, tocando e ele fazendo pose de “não to nem aí”, para gáudio da galera. De vez em quando, para despistar, procuravam um bar diferente, para dar trabalho à mulher do Leo. Mas a danada achava e quando chegava, já viu. “Minha mulher é uma santa. Ela apenas não gosta que eu fique na rua. Tem ciúmes. Imagina”. Pois é. Mas daquela vez, a situação escapou um pouco do controle. Era uma tarde de sábado. Estavam na mesa, descolando umas louras, rolando dadinho, jogando papo fora, essas coisas. Alguém disse que deviam ir para a Mercedes, aquela casa onde as garotas ficam à disposição dos fregueses. O Leo foi o primeiro a agitar. “Se é pra ir, vamos logo”. Chegaram, ficaram uns instantes. Estava fraco o movimento. Logo alguém sugeriu o Alfa Clube, mais animado, que segundo informações, estava “pegando fogo”. Lá se foi a caravana de bebuns conferir a dica. A mulher do Leo já havia ligado duas vezes. Agora ele não atendia mais, como de praxe. O Alfa estava ótimo. Um “sonoro” tocava brega e um locutor, a cada instante mandava mensagens, registrava presenças e fazia seu “chem”. Não havia condição para porrinha ou qualquer outro jogo. Sentaram em uma mesa, pediram bebida e ficaram apreciando o ambiente, cheio de garotas das mais diversas faixas etárias e promessas. Não que eles fossem atacar. Perigava serem chamados de “tios”. Mas a remota possibilidade já justificava estar ali. Quem sabe? O Leo era dos mais animados. Até acenou para umas duas, que devolveram sorrisos enigmáticos. “E aí, vou ou não vou até lá?”. Pois é. Pede mais umas louras e já fico no ponto. Foi quando o locutor interrompeu a aparelhagem para um recado romântico: Atenção Leonardo. Atenção Leonardo Rodrigues. Alguém, que muito te ama, está aguardando atrás do palco, para lhe dar muito carinho. Repetindo: Atenção Leonardo Rodrigues. Alguém, que muito te ama, está aguardando atrás do palco para lhe dar muito carinho”. “Tu ouviste? Era comigo. Vai ver é aquela morena que passou, aquela de calça apertadinha. Desculpa aí que o papai aqui vai se dar bem”. Os amigos ficaram entre o estupefato e o preocupado. Perguntaram se tinha camisinha. Se estava em condições. Se não havia bebido muito. “Vocês estão é com inveja. Eu vou me dar bem. Depois eu conto. Sorry, periferia..”. Todo confiante, andar malemolente, Leo foi atrás do palco onde encontrou sua esposa. Baixou a cabeça e foi ouvindo aquela torrente de reclamações, alguns pescoções, ameaças e tudo o mais, até o carro. A mulher do Leo é fogo.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

HOUSE OF CARDS


Hesitei muito antes de assistir as temporadas de House of Cards, uma das séries mais vistas e premiadas da tv americana. Não sei a razão. Talvez uma antipatia, ou para não fazer o que todos estavam fazendo. Um erro. Quando enfim decidi conhecer Frank Underwood e sua esposa Claire, enfrentei maratonas até chegar ao fim. Agora, aguardo a nova temporada, ainda no primeiro semestre. As atuações de Kevin Spacey e Robin Wright são perfeitas. A série recebeu 33 prêmios Emmy, incluindo premiações individuais para Kevin e Robin. Ganhou também oito Golden Globe Awards, e novos prêmios para o casal. Uma história de pragmatismo, manipulação, cinismo e poder. Um casal disposto a tudo. Uma festa de ódio, roubos, assassinatos, infâmia e arrogância. Com a chegada de Hillary Clinton às eleições, houve até espaço para sugerir Claire Underwood. Não sei o que virá. Beau Willimon adaptou a partir de uma série inglesa, de mesmo título. Esta, a partir dos livros de Michael Dobbs. Estreou em 2013. Underwood foi um dos artífices do presidente eleito. Esperava o cargo de Secretário de Estado. Foi-lhe negado. A partir daí começa uma grande vingança. No cargo que ocupava, no Senado americano, Líder da Maioria, tinha em arquivo todos os podres de seus colegas. A partir daí, usando engenhosidade e maldade, vai derrubando os oponentes até chegar à Casa Branca. Não sabia da série inglesa. Vou procurar. Mas recentemente li os livros, achados na Fox. O autor é membro da Câmara dos Lordes no Parlamento britânico. Foi conselheiro de Margaret Thatcher, John Major e David Cameron. Li que após todo esse trabalho, teve férias longas, quando veio a idéia do livro. Sabia o que tinha de escrever. Aqui é Francis Urquhart, líder da bancada governista do Parlamento, que também ao ser preterido após uma eleição, decide vingar-se de todos e chegar ao cargo máximo. Tal como nos EUA, desperta a curiosidade de um jornalista. Usando todos os seus truques e deslealdade, é eleito Primeiro Ministro. Curioso que aqui, sua esposa não tem o mesmo destaque da série americana. Agora, Dobbs insinua que a Rainha Elizabeth abdicou em favor do filho, Charles, que tem idéias próprias para o governo, mesmo que nada possa mandar. É motivo de aborrecimento e outro obstáculo para Francis. No terceiro livro, ‘Último Ato”, há bom tempo decorrido e ele já está cansado, extenuado de tantas brigas. Vai bater o recorde de permanência no cargo no século XX. Pretendentes ao cargo, mais jovens, surgem de todos os lados. Quer largar tudo e ao mesmo tempo, não pode perder, sair, entregar os pontos. Uma luta consigo mesmo. É impossível deixar de notar as semelhanças nas patifarias que vemos todos os dias nos jornais, sobre a política brasileira. Acho, mesmo, que o modo de fazer política, e aí serve para a Inglaterra e EUA, está falido completamente. Não elegemos representantes, mas baronetes que formam uma grande quadrilha onde se abastecem de muito dinheiro e poder, claro. Em uma outra série que acompanho, “Designated Survivor”, um presidente que nunca fez política, parece um ingênuo em meio a trapaças, vinganças e cobiça dos que o cercam, cada um com uma idéia diferente para se dar bem. Quanto aos três livros de Michael Dobbs, editora Benvirá, sugiro vigorosamente. São muito bons.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

OS ROMÁNOV

Compramos o livro de Simon Sebag Montefiore ao mesmo tempo, eu e Tenório, o mais famoso bibliófilo de Castanhal. Uma semana depois ele me perguntou se já havia encarado o calhamaço de quase mil páginas. Disse que somente chegara ao prefácio. Ele também. Talvez pelo desafio, resolvi ler. Montefiore é um dos grandes biógrafos europeus. Já havia lido, de sua autoria, “Stalin, a corte do czar vermelho”, maravilhoso e também longo. Ler a história dos Románov é ler sobre a Europa a partir de 1613, com Ivan, o Terrível, até 1917, com o assassinato de Nicolau e toda a família. Um país imenso, com áreas inexploradas. Línguas e religiões diferentes. Um relato de conquistas e derrotas. Mortes e nascimentos. Incompetência brutal, hesitações, feiticeiros, mulheres fortes, homens acreditando em uma ligação com Deus e muito, muito sexo. É impressionante como todos tinham amantes. Todos. No meio de tudo, passam Tolstoi, Tchaikovski, Puchkin e vários outros. E vem Pedro, o Grande, com uma corte bizarra que tinha até famílias de anões, usados inclusive para arremesso à distância. Os tsares ao assumir assinavam um contrato com a religião, o império, o nacionalismo e o exército. Achavam-se instrumentos de Deus. Vêm Alexandre e os irmãos Constantino e Nicolau. E sempre presente o desejo de anexar a Ucrânia e os Balcãs, do Cáucaso à Criméia, Síria e Jerusalém e Extremo Oriente (China e Japão), além da Índia e principalmente a Turquia, Constantinopla, por conta do estreito de Dardanellos. Não é engraçado como até hoje nada mudou, com o novo Tsar Putin? A decadência inicia com Alexandre III e vai a Nicolau II, chamado de Nicky. Mas saiba que Alexandre chegou a visitar os Estados Unidos, caçando em Nebraska com o General Custer e Bill Cody. Principalmente, Alexandre ficou encantado com Napoleão. Ficaram amigos, mesmo sabendo da incompatibilidade. Ambos eram conquistadores. Quando o francês invadiu a Rússia, cometeu o grave erro de confiar na sagrada incompetência dos militares, o atraso nos armamentos e falta de industrialização. Chegou a Moscou. Incendiou a cidade, vazia a essa altura. Veio o “general inverno” e Napoleão começou a retirada, açoitado pelos russos. Alexandre entrou em Paris vitorioso, montando um cavalo que havia sido dado pelo general, que foi enviado para a ilha de Malta. O tsar seguinte, Nicolau, Nicky, incompetente, começou cedendo territórios e depois que nasceu seu filho e herdeiro sofrendo de hemofilia, permitiu a chegada de malucos como Rasputin, que ficou famoso na história por mandar no Tsar e Tsarina, além de qualidade sexuais. A Revolução Francesa havia deixado interrogações. Agora havia os livros de Karl Marx. O distanciamento do Tsar e as necessidades do povo aumentaram. A cobiça, corrupção e traição também, não adiantando quantos foram mandados para a Sibéria. Começaram as manifestações. Bombas jogadas por terroristas. Lênin, Trotsky e o camponês Stalin comandando. Prenderam o tsar e a família. Decidiram mata-los. O sentimento pelo tsar, apesar de tudo era arraigado demais. Era preciso. O curioso é que Stalin, adiante, percebe que os russos somente acreditariam na autoridade de um novo tsar. É o que se tornou, deixando de lado a ideologia do comunismo. Matou milhões. Uma geração inteira. Precisava recomeçar. Tantos anos depois, temos um novo tsar, Putin. E o mais interessante: Tire o Ras de Rasputin. O que fica?