segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Tiririm Tiririm Tiririm

Devo muito de minha inspiração para escrever à influência de minha mãe, que criou a mim e meus irmãos com muita fantasia, criatividade, bom humor e ironia. Lembro dela neste final de ano, ainda forte, dando aulas de Redação, aos 86 anos, porque inventava estórias sobre o Ano Velho e o Ano Novo, exercitando nossa imaginação. E próximo à passagem de ano, já deitado, presumidamente dormindo, ficava olhando pela janela, uma determinada sombra que qualquer luminária provocava no prédio ao lado, Edifício Piedade, imaginando que se movia, que talvez fosse o Ano Velho indo embora, cansado, desgastado pelo fim que chegava. Ouvia, ainda, som de batidas contra postes de ferro, características da época. E de repente, dormia.


 

Adiante, praia de Copacabana, RJ, com uma turma que incluía meu saudoso primo Avelino Henrique, passando por entre umbandistas, olhando, curioso, suas práticas, misturando respeito e felicidade.


 

Mais tarde, adulto, na Assembléia Paraense, smoking, com cara de criança, perfilado, orgulhoso, cantando o Hino Nacional. Em seguida, todos aqueles senhores respeitáveis, sérios, tiravam o casaco, adiante a camisa para fora da calça, sem gravata, despenteados, olhos rútilos, cantando a plenos pulmões "o meu carnaval eu quero fazer na base do berimbau. E eu vou cantando assim tiririm tiririm tiririm", segundo o maravilhoso Jackson do Pandeiro. Havia um espírito de confraternização, de pertencimento àquele grupo, sei lá. Hoje penso que parece aquela festa do filme Titanic ou Poseidon, antes do naufrágio, claro. A vida adulta me invadindo como as águas e eu me afogando em minha ingenuidade, querendo prorrogar ao máximo a adolescência.


 

A maturidade chegou e com ela, um enjôo completo por bebida alcoólica, além da pergunta eterna: preciso beber para ficar alegre ou me é suficiente estar alegre, sem precisar beber? Se preciso da bebida, a alegria não é legítima. Me pergunto até hoje se tem a ver deixar de beber com deixar de gostar desses eventos. Não é bem dos eventos. Até hoje ainda cantam o Jackson do Pandeiro, creiam, com o carnaval se tornando algo bastante estranho. Fui da ala de compositores do Quem São Eles, com dois sambas enredo cantados na avenida. Em alguns desfiles, bebi. Em outros, cheirei lança perfume. Mais tarde, nada e ainda assim, me diverti. Talvez a roda de amigos tenha ficado cada vez menor. Talvez tenha sido isso. Nem a bebida, nem a velhice, digamos assim, e sim a falta de turma. Também tenho vontade de passar o reveillon fora daqui, em um transatlantico, por exemplo (toc toc), nada de Poseidon, ou no Rio de Janeiro. Sentir aquela vibração que hoje já não sinto por aqui. E olha que fui o criador do reveillon da Assembléia Paraense ocupando toda a sede campestre, quando lá estive como diretor de Cultura, por quatro anos. Tive a idéia e muitos outros a desenvolveram, claro. Já não vou à Assembléia para o Reveillon. Passo com minha mãe, tudo muito simples e depois encontro com namorada, amigos poucos, talvez ,e vamos dormir. A emoção mais forte é receber telefonemas dos filhos. Ultrapassa todos os limites. Você que está ali, tão racionalmente tranquilo, desmorona ao desejar-lhes um feliz 2009. Pede juízo, torce por sucesso, saúde, amor, felicidade.


 

Este ano de 2008 foi muito bom para mim, seja para a minha Jovem Pan, seja para o meu Cuíra, ou para minhas atividades literárias. Lentamente, com dificuldades tremendas, o Cuíra se impõe como local onde se faz Cultura. Um palco aberto a várias possibilidades. Montamos dois espetáculos fortes, o primeiro festejando os 80 anos da Rádio Clube, onde encontrei a possibilidade de, também, festejar meus pais em momento radiante de suas vidas e adiante, em Quando a sorte te solta um cisne na noite, propor a discussão de temas polêmicos em cena aberta. Lancei meu livro de contos Um Sol Para Cada Um e ainda espero melhor divulgação em 2009, principalmente nas grandes cidades. Por aqui, meus amigos jornalistas ajudaram muito.


 

Segundo a numerologia, meu número é 1. No entanto, sempre simpatizei com o 9, buscando-o, muitas vezes, na soma de número de apartamento, telefone, placa de carro e outros. Pois deixo 2008, cuja soma é 1 para entrar em 2009, onde, por conveniência, não ligo para a soma e sim para a existência do 9. Nada sério. O racional fala mais alto. Como brincadeira. Um jogo. Tenho um, inclusive, que qualquer did esses explico. Coisa desde criança. Enfim, Feliz 2009. Que consigamos driblar nossas crises e esta que chega de fora. É mais um ano para lutar, individualmente, para fazer um mundo melhor, cheio de amor. De olhar o outro não como paisagem, mas como ser vivo. Para ser uma pessoa melhor. Feliz 2009


 


 

3 comentários:

Hiroshi Bogéa disse...

"A vida adulta me invadindo como as águas e eu me afogando em minha ingenuidade, querendo prorrogar ao máximo a adolescência".

Linda descrição, Edyr. Torrencialmente, também, ainda luto para não chegar de vez à velhice.

Pra ti, teus sonhos e todos seus, também um 2009 realisticamente fantástico.
Meu abraço.

Rejane Barros disse...

Edyr, isso foi a coisa mais linda que eu li de todas as mensagens de feliz ano. Um beijo. Rejane.

Silvana de Faria Ditcham disse...

Querido Edyr FELIZ ANO NOVO!!!!
Minha resolução: entre outras ESCREVER!!!!!!!!!!!!!
postei um texto hoje,
beijos