segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

A Nova Civilização

Coincidência ler em Flanar um desabafo sobre todo o desrespeito, estupidez, falta de educação, cultura e tudo o mais que chocou quem esteve no Mosqueiro, no Reveillon. Os incomodados que se retirem. Eles devem ter se divertido muito. A nova lei. A nova civilização se reinventando. No sábado, o Repórter Diário divulgou pesquisa realizada pelo sociólogo Valber Pires, sobre os camelôs atuantes no centro de Belém. O resultado é desamparo, falta de qualificação técnica e violência. Imaginem que a maioria dos camelôs já está na faixa etária de 30 anos, com 70% na informalidade, há mais de cinco anos, ou seja, ingressou na área em plena juventude e não deverá mais sair. A maioria não tem carteira profissional e 90% não paga Previdência. Mais de 70% dos entrevistados não possui Ensino Médio e muitos, sequer concluíram o Fundamental. Segundo Dados do IBGE e do Anuário Estatístico do Município de Belém, apesar do crescimento da economia acima dos 10%, registrou-se também um aumento no trabalho informal na cidade. Leio também, no Jornal Pessoal de Lúcio Flávio Pinto, que dos 7 milhões de paraenses, 6% é de analfabetos ou analfabetos funcionais. Dos 126 mil professores da rede pública de ensino médio, 1/3 não possui nível superior. E os que têm formação universitária, vieram de escolas particulares. Das 1216 escolas, 80% tem infra estrutura deficitária e obsoleta. Dados da Seduc.
Chega de números. Este é o abismo em que nos encontramos. Nosso povo não tem Cultura e por isso não tem Educação, Saúde, Saneamento e seguimos adiante. Não tendo nada disso, mas assistindo na Tv, diariamente, tudo o que o mundo moderno pode oferecer, age. E quando não obtém roubando, e nisso, deixando de lado tênis, relógios, celulares, mas colocando comida, por exemplo, inventa. A Nova Civilização. São novas leis, que podemos perceber em coisas simples. A motocicleta, por exemplo, virou sonho de consumo, depois da bike. Em ambos os transportes, não há lei a ser obedecida, a não ser a de quem está na direção. As motos também se transformaram em instrumentos ideais para matar e fugir rápidamente. O capacete, o disfarce ideal. Os jornais, parece, adequando-se à nova era, enchem suas páginas de cadáveres nas mais grotescas posições, encharcados de sangue. A reinvenção do mercado fonográfico, através do Calypso, negociando diretamente, estimulando a venda de piratas por camelôs, faturando nos shows. E se reinventam no visual, assistindo Shakiras e Madonnas, para dar seu jeito. Os números da Seduc mostram a gravidade do assunto. Sua mera revelação bastaria para cair um governo. E nem é somente culpa deste, claro. Pergunto o que Ana Júlia pensa disso. Como consegue dormir com esse barulho? E o tal prefeito, que também não é culpado único? Quanto à pesquisa entre os camelôs, percebam que eles são propagadores de Cultura no centro da cidade, por onde passa, diáriamente, boa parte da população. Vendem roupas, adornos, filmes, cds e outras coisinhas, digamos assim. Vendem seu mundo. O mundo reinventado. Tudo pirata. Bolsas e tênis Nike. Quem compra, sabe que é falso. Todo mundo sabe. E daí? Não é para ser Nike? Quem manda custar tão caro?
Agora mesmo, um grupo de lúmpens, deslocado de uma casa na Riachuelo onde a Polícia encontrou laboratório de drogas, achou de ocupar a esquina do Cuíra, Riachuelo com Primeiro de Março. Ocupar, simplesmente. Homens e mulheres em idade de trabalho, passam seus dias jogados em colchonetes pútridos, namorando, fazendo sexo, necessidades fisiológicas, bebendo, se drogando, brigando, discutindo, a qualquer hora do dia ou da noite, sem distinção. O mais interessante é que não tentam, de maneira alguma, se esconder, ocultar sua vadiagem, suas roupas andrajos, ou a trouxa onde guardam petecas de crack, que vendem para comprar PFs e bebida. Procuram exatamente o foco do holofote que ilumina a frente do Teatro Cuíra. Estão no palco, entendem? O mundo é deles. Infelizmente, a culpa é toda nossa. Nós, com nossas briguinhas internas, nossos ódios eternos, antipatias, nossos lucros pessoais, nos inviabilizamos políticamente desde que o Pará é Pará. Leiam o livro de Carlos Rocque sobre Magalhães Barata. Leiam sobre o velho Lemos. Nossa elite é uma elite de merda. Viaja o mundo inteiro e não traz nada de bom para a cidade. Pelo contrário. Nossos ricos, ao invés de agradecer à cidade por ter proporcionado sua riqueza, nada fazem. Está certo que pagamos impostos exorbitantes, mas também somos responsáveis por votar nesses pulhas que ao longo de nossa história, nos deixaram assim. Nossos jornais, aos domingos, repetem as mesmas fotos, das mesmas pessoas, nas mesmas festas, ou festejando os mesmos negócios. Um dia desses, ingênuo, Luizão tornou pública a má educação de Edu Lobo. Pra quê. Li mensagens que já o detratavam apenas por ter trazido o artista. Luta de classes, ainda. Lutamos entre nós. Queremos morrer abraçados. E somos caçados feito ratazanas prenhas, como diria Nelson Rodrigues, mortos a vassouradas, apenas porque ou nascemos em um lar de classe média ou conseguimos chegar lá, por mérito, por estudo, educação, cultura, e tentamos sobreviver com altivez nesta que tentou ser uma metrópole, mas voltou a ser uma selva. A floresta voltou e está engolindo a cidade. É a nova civilização. Tudo está por ser reinventado, segundo cada um de nós. Há esperança? Somos minoria.

2 comentários:

douglas D. disse...

poderia dizer, barbárie. mas não. há violência demais. com ou sem sangue. com ou sem corpos, vítimas, testemunhas. sem culpa ou perdão. não, não é barbárie. fomos além.conseguimos. há muito, nossas preces ribeirinhas perderam as margens, ficaram pra trás. invadimo-nos por um rio de vozes, num misto de erosão com antropofagia. vozes ocas. ecos. ecos. ecos que se propagam velozmente em cada esquina. ecos que se proliferam desordenadamente em cada coração. se ontem éramos cio da terra, hoje parimos mediocridade. sim, há um camelô em todos nós. barateando sentimentos. banalizando esperanças. falsificando sonhos. fazendo circular valores corruptíveis. há um camelô em cada um de nós, versão tropical do kleinen mann reicheano. nós, zé- ninguéns, não soubemos escutar. ou soubemos?

Carlos Barretto disse...

Excelente e instigante texto!
Já estou aficcionado.
Abs