quinta-feira, 20 de maio de 2010

Os 90 anos de Edyr Proença

Fernando Jares Martins é um velho amigo que escreveu em seu blog, magnífico, esta homenagem pelos 90 anos de meu querido pai.
Obrigado, Fernando. Está lindo.

NO LEQUE DE ESTRELAS


90 ANOS DO CANTOR DA CIDADE SESTROSA

"Há muito que aqui no meu peito
Murmuram saudades azuis do teu céu
Respingos de ausência me acordam
Luando telhados que a chuva cantou
."

Você conhece essa música? Já até leu no ritmo? Essa é a melhor homenagem que podemos fazer ao autor: Edyr Proença.

Da minha geração todos conhecem Edyr Proença, pelo menos “de voz”. Das gerações seguintes muitos, mas muitos mesmo, o conhecem de voz, de escritos, de músicas, de filhos.

Hoje faria 90 anos Edyr de Paiva Proença, jornalista, letrista, compositor, advogado, escritor, bancário, cronista, radialista, pai do Edgar Augusto, do Janjo, do Edyr Augusto, amigos e colegas com quem já trabalhei. Infelizmente Edyr se foi em 1998, deixando um rastro de competência, de amizades, de reconhecimento.

Sua grande marca popular foi como radialista, pioneiro na Rádio Clube do Pará, filho de Edgar Proença, um dos criadores da emissora – que é a quarta mais antiga do país. Narrador esportivo e, depois, comentarista muito respeitado. Quantos jogos o ouvi comentar, desde antes de eu imaginar, um dia, ser radialista – na mesma rádio que me acompanhava desde a infância.

Mas não é menos conhecido como compositor: autor da música de um dos maiores clássicos que canta o viver pelas ruas de Belém – “Bom dia, Belém”, (a desse trechinho aí em cima), com letra de sua cunhada Adalcinda Camarão. Esta é, provavelmente, a música paraense com maior número de gravações. E todas ótimas, porque as pessoas cantam não apenas com a voz, mas também com a alma e com o coração. Você quer ouvir? Então clique aqui, para acessar, no site do BregaPop a versão com o próprio Edyr Proença, Fafá de Belém, Leila Pinheiro, Edgar Augusto e Jane Duboc. Vê só que time fantástico? É pra quem merece!


Escrevo e ouço diversas de suas criações, em um CD produzido pela UFPA, em 1993, que leva o nome do autor, e reúne muita gente boa na interpretação, como Walter Bandeira, Nilson Chaves, Maca Maneschy, Edgar Augusto, Lucinnha Bastos, Almirzinho Gabriel. Deste CD não tenho o libreto, comprei-o já assim, degolado, mas com a beleza da composição integral, em uma Feira do Livro. Consegui informações das faixas na internet, inclusive uma capa, autografada para seu grande amigo e também compositor, Almir Morrison. Depois vou ouvir o “Clube do Camelo”, uma turma de amigos talentosos e onde ele participa em algumas faixas.

Dele registra Vicente Sales, em “Música e Músicos do Pará”, a grande enciclopédia de nossa melhor produção musical:

Sempre gostou de dedilhar o seu violão e cantar em serestas, produzindo uma e outra canção sem compromissos formais. Escrevia versos para outros musicarem. Durante algum tempo fez parceria com o pianista Guiães de Barros. A dupla produziu: Fracassada, Adeus, Saci Pererê, Roguei, Maria Rosa, Mademoiselle Cinema, Minha Negra, João Ninguém e outras. Um dia o filho Edyr Augusto apresentou-lhe uma letra para que musicasse. Assim, nasceu “Amor Perfeito”, e a situação quase se inverteu, tornando-se EP também criador de melodias. Com Edyr Augusto produziu para o carnaval de 1976 o samba-tema “Cobra-Norato, Pesadelo Amazônico”, apresentado pelo Império de Samba Quem São Eles. Para a mesma agremiação carnavalesca, compôs músicas exaltativas, destacando-se sua parceria com J. J. Paes Loureiro em “Barca da Nostalgia”, 1974. Participou de outro concurso interno do Quem São Eles com “Largo de Nazaré, fantasia do passado”, com Edyr Augusto, carnaval de 1976, e, no ano seguinte, participou do Festival Três Canções Para Belém. Ganhou a 4ª colocação com “Bom dia, Belém”, letra de Adalcinda Camarão, gravado por Edgar Augusto no disco do Festival, por Fafá de Belém e por Leila Pinheiro. No carnaval, integrou a Ala de Compositores do Quem São Eles, com parceiros como Edyr Augusto, António Carlos Maranhão, J. J. Paes Loureiro, Lauri Garcia, Alcyr Guimarães, Alfredo Oliveira, David Miguel e Ronaldo Franco, participando ainda da criação dos sambas “Pai D'Égua”,” O Escambau do Comendador Sobral”, “Waldemar Henrique, o Canto da Amazônia” e “Preamar, cultura do Pará”. No carnaval de 1978, o grande sucesso foi a marchinha “Cala-te boca!”, que fez de parceria com Ruy Guilherme Barata. Eleny gravou “Presença”, com letra de Celeste, sua mulher; o Grupo Oficina e Lucinha Bastos gravaram “Meu Pajé”, de parceria com Ruy e Paulo André Barata”.

Fiquemos com estes versos de amor a sua terra natal, a cidade morena, que Edgar Proença cronicava, que Edyr cantava, que um dia, nas mãos dos filhos, virou nome de rádio:

Belém que é morena sestrosa
Recendendo a baunilha e jasmim,
Que às vezes se faz de dengosa
E passa fingida diante de mim.
Você que é toda a cidade,
Cidade Nova, Largo da Sé
É Santa, é Senhora, é Maria,
É Belém, que é Nazaré.

3 comentários:

Itajaí de Albuquerque disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Itajaí de Albuquerque disse...

Meus caros Edires, do presente e do passado, um depositante e outro depositário, e logo misturados, de uma tradição tão nortista, tão Belém e sobretudo Pará:
O tempo se renova na criação ou recriação de nosso olhar sobre nossas coisas diante as coisas do mundo. Pela universalidade diz-nos o Benedito, sem com isto, com razão, propor qualquer uni-vos!
Mas o primeiro Edir, aqui dito o velho não em sentido depreciativo, está gravado em minha memória; no registro auditivo porque implantado remoto a partir da experiência de meus pais, que do Edir senior foram contemporâneos.
Do júnior sigo aprendendo, desde a admiração compartilhada com outro amigo, hoje por igual faltoso e não menos presente quando aos meus olhos chegam esses assuntos de literatura no Pará.
Aos dois minha homenagem.

Arthur disse...

Obrigado, Itajaí. Estou diariamente em Flanar, acompanhando suas postagens e também, claro, aprendendo.
Abraços
Edyr