sexta-feira, 12 de julho de 2019

CRIATURAS DESPREZÍVEIS E MARAVILHOSAS



A maior parte dos meus livros é cheia de personagens de baixo nível, segundo padrões da sociedade. Além da influência de Rubem Fonseca, Dashell Hammett e James Ellroy entre outros, o mundo que me cercava no prédio em que morei uma vida inteira, me seduziu. Pessoas que vivem no limite, vivendo cada dia, sem saber o amanhã. Acordam e não sabem se terão café da manhã, almoço ou jantar. Estão para o que ocorrer. Cafetões, prostitutas, traficantes, camelôs, engraxates, gente que toma conta de carros, magarefes, formam uma quadrilha informal irresistível. São criaturas desprezadas em nome de nossa hipócrita sociedade de homens de bem. Eu os adoro. Caminhando no meu entorno, fiz amizades, me sentia protegido e principalmente, os assistia no seu dia a dia. Ouvia com atenção seus reclamos, xingamentos e alegrias. Lembrei agora de Roni, que toma conta de carros parados em frente ao prédio do INSS. Baixinho, responsável até tomar uns gorós, quando toma seu balde plástico onde põe água para lavar carros, agora transformado em tambor. Batuca e canta melodias que nunca ouvi antes. Um fim de tarde, ele me aborda e me pede uns trocados. Não vou mentir, doutor, é pra tomar uns gorós. Há, neles, uma dose imensa de humanidade, com sentimentos à flor da pele, necessidades urgentes e emoção, muita emoção. Nas prostitutas no seu eterno aguardar por clientes. Amor? Amor? Vamos fazer um amorzinho gostoso, lançam propostas aos passantes. Lá de cima, vejo esconderem trouxinhas em seus decotes e vão passando, incólumes, raspando guardas que revistam suspeitos na clássica posição de braços na parede, pernas abertas. Quando encontro uma literatura que fala desse mundo, leio sofregamente. É o caso de três livros que indico a vocês.
“Marafa”, de Marques Rebelo, foi escrito em 1935, retratando o Rio de Janeiro com seu carnaval, boemia, malandragens, brigas, com um linguajar delicioso e cheio de humor. Malandros, putas, trabalhadores, circulam por subúrbios, cortiços e bordeis jogando, apostando, fazendo amor e crimes. O título é palavra que segundo Aurélio, significa “vida desregrada, licenciosa, libertina”. Adoro. Uma delícia ler o romance do malandro Teixeirinha com a prostituta Rizoleta.
Outro que tal é “Criaturas que o mundo esqueceu”, de João Carlos Rodrigues - HumanaLetra, novamente ambientado no Rio de Janeiro de algumas décadas atrás, reunindo contos que mostram um nobre francês, uma condessa italiana, cronista social, cantora do rádio, travestis, gays, malandros, garotos de programa, uma fauna na Cidade Maravilhosa, em festas que podem ser em Copacabana ou em Xerém, ruas e praias de Ipanema, ou cabarés no centro.

Para terminar, “Eles e elas – Contos da Broadway”, de Damon Runyon – Carambaia, em contos que reúnem toda a fauna que habitava a Broadway, New York, entre 1920 e 1930, basicamente reunidos no restaurante Lindy’s. Runyon, jornalista, cobria esportes, levava uma vida de observação. Sentava e assistia o balé de coristas, contrabandistas, mafiosos, putas, gays e bem adiante, precisando de dinheiro, começou a publicar e a fazer sucesso. Leiam, urgentemente.

sexta-feira, 5 de julho de 2019

FOI ASSIM QUANDO EU VI O MAR

A primeira vez em que mergulhei nas águas de uma praia no Rio de Janeiro, tinha apenas nove anos. Minha avó, de vestido, sombrinha, vigiava do calçadão meus movimentos. À época, a água não ficava tão distante da rua. Indômito garoto mosqueirense, armado com minha prancha de pegar jacaré, respirei fundo e iniciei uma corrida vitoriosa, até mergulhar para aguardar as ondas. Aos primeiros passos na água, senti algo diferente. Em seguida, ao mergulhar no melhor estilo Johnny Weissmuller, senti a temperatura diferente. Ao invés da água quente e lodosa da Praia do Farol, aquela água de oceano estava ge-la-da! Retornei à margem perdendo toda a pose de campeão, sem poder preocupar-me com o olhar dos outros moleques que pareciam estar muito à vontade, dentro d’água. Assustado, sentindo ainda o frio do mergulho, percebi que era um verdadeiro Rubicão. Com cautela, fui andando lentamente, deixando a água tocar-me o corpo aos poucos. Não foi possível. Na primeira onda que apareceu retirei-me, tentando ser garboso, de tal forma que pensassem que não estava satisfeito com a altura das ondas, naquele dia, digamos. Paraenses, naqueles dias do século passado, viajavam em magotes para o Rio de Janeiro, nas férias de janeiro. Ainda viajam, apesar de Miami estar competindo. Encontravam-se pelas ruas e perguntavam: Quando tu chegaste? Quando tu vais? Lembro de meus tios levando a mim e meu irmão até São Conrado para conhecer o mitológico Bar Ben, patrocinador do programa de Big Boy, o lendário dj da Rádio Mundial, que ouvíamos em Belém. O bar era meio chinfrim. São Conrado ainda era pouco visitado, a não ser por rapazes em seus bólidos levando garotas para assistir “corridas de submarino”. Adolescente, chegávamos às praias, agora, Ipanema, com várias turmas, dependendo do posto ou da rua. Escavávamos a areia, esticávamos toalhas ou cangas, de tal maneira que o montinho virava um travesseiro e ali ficávamos lagarteando ao sol, besuntados de Rayito Del Sol. Parte dessas lembranças escrevi em uma peça chamada “A Menina do Rio Guamá”, sobre uma paraense que ao viver na Cidade Maravilhosa e esquecer de sua origem e seu sotaque, recebe a família, estabelecendo-se o choque cultural. Foi muito legal. Adulto, fui esquecendo da praia e preferindo São Paulo. Agora, 35 anos depois, talvez, na Praia do Pepê reencontrei o vento, a maresia, areia e seus personagens. Sim, ambulantes vendendo biscoito Globo, olha o Mate! Sorvete Kibon, olha o queijo coalho! Vendedores de chapéus e biquínis. Superando a barreira das ofertas de cadeira e guarda sol, fiquei ali, com protetor 200, chapéu e camisa contra UV. Passam belas mulheres em biquínis audaciosos e outras, mais velhas, ou acima do peso, qualquer coisa, também em biquínis audaciosos, demonstrando não estar nem aí para quem quiser achar ruim. Tiozinhos aposentados, fit, bronzeados, circulam. Garotos em pranchas de surf e Paddle. Desta vez, os praticantes de kite surf não apareceram. E vamos dar um mergulho. Cauteloso, inicio a caminha lentamente, até tomar coragem e tibum, que água maravilhosamente gelada, transparente e convidativa. E lembrem que se trata de inverno. Não há uma nuvem no céu e já admiti que nada mudará até ir embora. Pego um livro de Sergio Rodrigues, abrindo em um conto sobre a visita de João Gilberto aos Novos Baianos, em seu sítio, no Rio. Acabo de ler e prefiro contemplar a paisagem. Limpa a mente, faz bem aos olhos e penso que o Rio de Janeiro, apesar de tudo, continua lindo!

THE WALL

Uma parede. Acho que nos dias em que vivemos existe uma parede entre minha geração e as nascidas, talvez,  partir dos anos 90. Jornalistas que alcançaram o direito a um espaço nas mídias para escrever crônicas, artigos, opiniões, escrevem para quem? Leio Elias Pinto, como um avohai pela Campina, procurando Alceu Valença, falando dos bares que fecharam. O múltiplo Adriano Barroso insistindo que Clodô, Climério e Clésio, do Pessoal do Ceará são os melhores em noites de vinyl. O mano Edgar diariamente falando aos empedernidos. Estive Em SP e RJ assistindo muito teatro. Sempre, a expressiva maioria da plateia, de cabeça branca. Quando esses grisalhos nào estiverem mais aqui, quem estará na plateia? Percebo olhos de interrogação quando digo que o melhor filme que já assisti foi “Amarcord”, de Federico Fellini. Quem? Lembro quando, bem jovem, anos 70, o olhar perplexo das vendedoras da Radiolux, quando perguntava se havia chegado o disco novo da Mahavishnu Orchestra. Quê? Sempre gozei da amizade de meus colegas jornalistas, quando precisei de divulgação aos meus livros e peças de teatro, mas já há muito que repórteres chegam e perguntam quem é o senhor? O que faz? É ator? Escreveu este livro sobre o quê? Sequer leram o release enviado. Um locutor, dizendo a programação teatral da cidade, à qual quase ninguém atende, informou que o grupo Gruta apresentava a peça “Antigona”, talvez pensando que por ter sido escrita nos tempos da Grécia antiga, fosse bem antiga, mesmo, se me entendem. São informações que não fazem parte do seu mundo. Já não é hora de alguém, sutilmente, para não revelar ainda mais a ignorância do autor da idéia, tirar a placa no interior do estádio “Jornalista Edgar Proença”, onde está escrito “Jornalista Edgar Augusto”? O mano foi um excelente narrador esportivo, foda-se a suspeição, mas o nome é homenagem a meu avô, fundador da Rádio Clube e de muitas outras glórias. A burrice vem dos tempos tucanos e continua. O imenso fosso causado pela destruição da Educação e Cultura no Brasil, criou essa massa de pessoas que pensam que o mundo começou no dia em que nasceram. Jogadores famosos que nunca ouviram falar de Pelé, Garrincha, Zico, Tostão, sei lá. Os leitores que ainda nos lêem, seja em jornais, seja em mídias sociais, já percebi, adoram quando escrevemos sobre o passado, lembrando acontecimentos, modas, gírias, pessoas. Lembram do seu tempo. Nosso tempo. E ainda são pessoas que compram cds em tempos de streaming, frequentam livrarias e até alugam dvds em que possam assistir os grandes filmes, ao invés dos “Vingadores” de hoje, para uma plateia infantilizada. João de Jesus Paes Loureiro, uma glória paraense, completou 80 anos e lançou livro. Mereceu algum espaço. Merecia muito mais. Cadernos, documentários, entrevistas extensas, releituras, debates. Mas, não. Há uma parede entre nós e algumas gerações que considero perdidas. Não sabem de nada. Não tem consciência crítica. A música virou atirei o pau no gato. Teatro vira um erro de locutor. O que haverá quando formos embora? A escuridão. Na Praia do Pepê, RJ, passam moças lindas em seus sumários biquínis, tão bonitas que fazem mal à saúde e eu fico pensando no seu universo cultural. Vou pagar o barraqueiro que nos serviu de bebidas. Chega uma moça, escultural, molhada, saída de um mergulho. O rapaz pergunta se ela quer alguma coisa e ela responde que precisa que ele a leve até a barraca onde estão suas amigas. Estou bêbada e me perdi. Está rolando um vinho muito gostoso por lá. Mesmo em Belém, passam carros importados, com jovens orgulhosos, ao volante, ouvindo a todo volume sertanojos e que tais. Sim, a Educação e a Cultura nunca estiveram em nível tão baixo quanto hoje, mas imagino que esses jovens puderam estudar nos melhores colégios e deveriam receber os melhores ensinamentos, de forma a saber refletir e julgar o que ouvem, assistem, lêem. Mas, não. Livros ocupam espaço, devem achar. São infantilizados, culturalmente, já escrevi antes. E quando os grisalhos se forem, o que restará?

sexta-feira, 28 de junho de 2019

O OUTONO NÃO É GLACIAL

Escapar por alguns dias desse pré verão que já se anuncia em chamas foi a idéia. Marina Lima já cantou que o outono no Rio é glacial. Acreditei. Já estive em outros anos, na mesma estação, na cidade. Escolhi algumas roupas próprias para temperaturas mais baixas. Logo na chegada, aquele azul de um céu maravilhoso, embora isso não dissesse nada. Às vezes, quanto mais azul, mais frio. Mas não estava frio. Estava quente. Muito quente. Verão total. Botei a sunga e fui à praia. Aqui na Praia do Pepê ainda não chegou, ao menos nos dias de semana, aquela multidão disputando palmo a palmo um lugar na areia. Há kite surf no ar, fazendo belas acrobacias. Aposentados disputam alegre partida de futvolei. Perto está outro aposentado. Bronzeado, corpo fit, está sentado lendo seu livro. Chega outro e atrapalha a leitura. À direita, parece ser um grupo de malhadores. Todos têm corpos musculosos, até com exagero. As moças são muito bonitas. Logo na chegada, dois, três, quatro vêm oferecer aluguel de cadeira e guarda sol. Nina, dona de uma barraca, oferece bebidas e até salgadinhos. Há espaço para todos. O vento, delicioso, o ar salgado também. Não fiquei muito tempo. Não levei nenhum protetor 200, sei lá e nos últimos anos, estive exposto somente à iluminação de escritório. Calor, muito calor. Assisto à estréia do espetáculo de Saulo Sisnando, teoricamente infantil, mas com bela mensagem de amor perfeita para adultos. Torço por ele. Tem muito talento e uma linguagem atual, com influencias do cinema americano da primeira metade do século XX. Não é o caso da peça que assisto, que tem outro tema. No outro dia, um verdadeiro êxtase. No Flamengo, foi recuperado o famoso teatro Manchete, agora com o nome Prudential. Lá, em seu último dia, a peça “Pi – Panorâmica Insana”, com direção de Bia Lessa e destacando Leandra Leal e Claudia Abreu. Uma colagem de textos magnífica, direção maravilhosa, cenário, trilha sonora e por ser the last, ultimíssima sessão, presença de famosos como Malu Mader e Tony Belotto, Fernanda Montenegro, Fernandinha e muitos outros. Uma celebração à arte da interpretação e que maravilha um teatro lotado para assistir algo que faz pensar. O calor continua. Olho no aplicativo e teremos mais calor nos próximos dias. Acho que errei nesse outono. Não era glacial? Daqui da Praia do Pepê, até a Zona Sul e seus teatros, basta pegar o metrô. Mão na roda. Quanto à Barra da Tijuca, nunca pude desfrutar. Se antigamente já era uma área inóspita para alguém que passou a vida entre Flamengo, Copacabana, Ipanema e Leblon, agora ficou mais evidente. Uma outra cidade. Outra arquitetura. Parece Miami. Ao contrário da Zona Sul, aqui, quem manda é o carro, para cobrir as grandes distâncias. À noite, quando escrevo e no prazo de entrega do material, Maju avisa que uma frente fria está chegando ao sul, com queda brusca de temperatura. Rezo para que chegue por aqui ou vou me queixar ao Procon. Na quinta, assistirei “Antígona”, no Teatro Poeira, com Marieta Severo. Quando lerem, já terei ido. O mesmo acontece com “O Mistério de Irma Vap”, que assisti com elenco original, Ney Latorraca e Marcos Nanini em performances lendárias. Agora tem grande elenco, no Teatro Casagrande. O melhor de assistir Teatro é renovar o amor ao gênero, atualizar suas opiniões, admirar as performances e deixar-se influenciar pelas novas idéias. Quanto à Cidade Maravilhosa, que coisa linda no pôr do sol através dos Dois Irmãos, água transparente e gelada. Uma delícia.

sexta-feira, 14 de junho de 2019

ROXY BAR, 35 ANOS DE PRAZER

Neste sábado, o Roxy Bar completa 35 anos de serviços prestados ao bem viver, ao prazer da companhia de amigos, desfrutando de um ambiente festivo, com músicas, vídeos e até shows musicais. Em uma terra cruel para iniciativas de bom gosto, é uma façanha chegar até aqui, mantendo o mesmo padrão de atendimento e, mais importante, um público fiel que aguarda pacientemente em bancos corridos, a chamada para ocupar mesas. No Roxy, há permanentemente festejos para aniversários, formaturas e encontros de amigos de uma vida inteira. Ali, pessoas se encontraram, constituíram família e hoje, seus filhos, já acompanhados de rebentos, continuam frequentando. Mas afinal, qual é o segredo do Roxy Bar?
Meu irmão Janjo. Ali nos anos 80, do século passado, boêmio, queria estar em um lugar criativo, alegre, com mesas grandes, para passar a noite em boa companhia. Primeiro veio o Gato & Sapato, com o saudoso Paulo Magá. Roxy Bar em homenagem ao velho cinema de Copacabana, Rio de Janeiro. E a homenagem ensejou, também nomear os pratos com nomes de grandes artistas, a partir da eterna Marilyn Monroe, que virou musa do bar. Um prédio na esquina da Almirante Wandenkolk com Senador Lemos, estava fechado há muito. Já havia sido local de comércio de madeiras e muitos outros fins. Uma brincadeira para julho? João Carlos Braga e José Franco aderiram. Para o cardápio, escolheram os pratos que gostavam de comer. Uma cozinheira de mão cheia, Luzia, traduziu tudo em delícias. Receitas presentes até hoje. Na época, a grande novidade era a MTV, continuamente passando vídeo clips de músicas de sucesso. Ainda não havia no Brasil, muito menos em Belém. Um amigo, morando em Miami, no horário de almoço, gravava em vídeo cassete e no esquema de “deixa que eu levo”, mantinha vários monitores espalhados no salão, perfeitamente antenados com os sucessos do momento. O vídeo bar. Um jingle vitorioso, primeiro executado na Rádio Cidade Morena e depois na Jovem Pan, periodicamente atualizado, em arranjos diferentes, definiu, em seu final, o que se tornou seu slogan: o prazer de estar lá. Deu certo. O saudoso Henrique Penna, arquiteto, criou o primeiro visual. José Franco saiu. Janjo e João Carlos, ficaram. Vieram shows musicais. Foram embora. Veio a Mona Lisa gorda. Sadam Hussein a pedido dos frequentadores. Nunca mais foram embora. Alguns pratos novos entraram. O cardápio passou a ser imitado. A equipe de garçons é quase a mesma, desde o início. Entrou ar condicionado. O delivery a todo vapor. E um telão, maravilhoso, com vídeos interessantes, criando a atmosfera propícia ao que chamamos de joy of life. Uma mudança nos costumes, também ajudou o Roxy. Ninguém mais quer ser velho. Todos queremos ser jovens, na atitude em relação à vida. Queremos ir a um local para celebrar a vida. Sim, o Roxy Bar é a criação de Janjo Proença, o big, o barão, como muitos o chamam. Mas é também João Carlos Braga mantendo o que é mais importante, o padrão reconhecido por todos. Agora é Marina Braga a responsável pelo funcionamento perfeito da máquina. Veio o desafio do Roxy Bosque. Sucesso, novamente. Quanto a mim, acompanho tudo. Sinto amor profundo pelo empreendimento. Torço para que continue assim. Torço por João, Marina e torço pelo meu irmão, parceiro, sócio e amigo Janjo Proença!

Parabéns Roxy Bar, 35 anos de prazer!

sexta-feira, 7 de junho de 2019

JUNHO

Minha mãe adorava o mês de junho, principalmente por ser o mês de seu aniversário. Ainda bem crianças, comprava aqueles ramos para fazer coroinhas de São João, que hoje ninguém mais usa. Também banho de cheiro, cheiroso como nunca. Havia uma casa no Lago Azul, antes de transformar-se nessa Shangrila dos mais ricos. A casa foi uma das primeiras do loteamento e há até uma rua com o nome de meu avô. No aniversário, mamãe passava o dia para lá, arrumando tudo. Quando chegávamos, após as aulas, já livres de compromisso, a música era forró. Bandeirinhas atravessavam o quintal e lá adiante, a fogueira que tanto me hipnotizava. Quando já estava nos estertores, passávamos correndo, pulando, naquela brincadeira de virar compadres. E claro, o banho cheiroso. Nunca fomos muito chegados a soltar fogos. Meu pai não gostava. Logo mais volto ao assunto. Ainda não havia luz elétrica para aquelas bandas. A casa tinha um motor que, como sempre ocorre, dava problemas justamente quando era muito necessário. Uma equipe de técnicos da Rádio Clube, cuidava. Wilson Assunção, o “Mucuim”, comandando as ações. As crianças brincavam correndo pelo quintal, menos uma. Aquela “junta técnica” debruçada sobre o motor me atraía. Olhava maravilhado as ferramentas apertando, aparafusando, trocando peças, até que, finalmente, o motor começou a funcionar, com algumas tosses. Mucuim apressa-se a corrigir a velocidade da máquina, regulando seu ritmo. Era demais. Como ele fazia aquilo? Debrucei-me e para ter melhor equilíbrio, amparei-me em algo que, percebi aos berros, era a chaminé do motor, que estava bem quente. Foi aquela correria. Um sugere manteiga, outro apenas água, pasta de dentes. Eu urrava. Foi meu batismo junino. Minha curiosidade sendo punida. Bem, talvez até hoje. Como escrevi antes, meu pai não gostava de fogos. Considerava-os perigosos. Também acho. No colégio, colegas mais desinibidos já operavam bombas de diversos tamanhos, inclusive “cabeça de nêgo”, que explodiam, sorrateiramente, no banheiro, após o início das aulas, causando barulhão, investigações e cpis que não davam em nada. Meu tio José Leal, gostava de foguetes. Compatível com seu gênio bem humorado, cervejeiro fanático. Ele apresentou a nós algumas dessas pistolas que no ar, transformam-se em chuva de pétalas de rosas e outros desenhos, assobiando ao subir ao céu. Temerosos, ficamos na dúvida, inclusive meu primo, Antonio José. Debochando de nossa coragem, ele prepara-se para acender o pavio. Meu pai vê e resolve intervir. Disse que era perigoso, que havia muitas crianças, essas coisas. Aos nossos protestos, decidiu chamar o caseiro. Seu Antonio era pessoa simples, caboco da terra, participando daqueles primeiros dias do loteamento. Soltar um foguete daqueles era brincadeira de criança. Recebeu instruções. Fizemos um círculo, com alguns metros de distância. Acendeu o pavio. Foi rápido. Por um defeito qualquer, a pistola em vez de disparar para o alto, tomou a direção do chão, enchendo o ambiente de fumaça e estrondo. Assustados, não víamos mais Seu Antonio, que até então estava no meio do círculo. Atento, meu pai corre até ele, que permanece rígido, de pé, o braço ainda erguido com o resto da pistola nas mãos. O senhor está bem? Não foi ferido? Ele abre os olhos, encara a todos e declara “Estou sordo”! Felizmente não houve nada, meu pai pegou o violão e começou a seresta sem hora para terminar. Como minha mãe gostava do mês de junho!

sexta-feira, 31 de maio de 2019

VAMOS AO TEATRO, MAS NÃO ME CHAME

Em um momento terrível para a Cultura, no Brasil, dois filmes nacionais recebem prêmios importantes no aclamado Festival de Cannes, na França. Mais interessante ainda, filmes dirigidos por cineastas do nordeste, um cearense, dois pernambucanos. Os jornais do sul e sudeste correram a noticiar e comentar. Penso que, quando apresentados por aqui, devam ter razoável bilheteria, baseado na curiosidade e na importante láurea do sucesso “lá fora”. Tive, há pouco tempo, a mesma experiência, após tantos anos escrevendo e com uma editora do porte da Boitempo. Foi após um prêmio recebido em Lyon, que os grandes jornais deram alarde ao “Pssica”, meu mais recente trabalho. Será que é suficiente? Claro que não. Do meu livro tive e tenho um consumo acima das expectativas, mas ainda muito distante do que poderia acontecer em um país tão grande quanto o nosso. O mesmo posso dizer dos filmes premiados. Nos últimos anos, houve um grande avanço na venda de ingressos para assistir filmes nacionais, do gênero comédia, filão percebido sobretudo por comediantes “globais”, que levaram às telas o mesmo tom de sucesso de alguns programas da tv. O setor vive problemas sérios a serem resolvidos pela Ancine. Tão sérios que para o lançamento dos “Vingadores”, blockbuster americano, uma comédia nacional, lotando todas as salas, foi retirada para dar lugar aos super heróis. É claro que defendo nosso cinema e sou contra o que aconteceu. A comédia é um gênero excelente. Mas essa preferência fará com que os filmes de Karim Ainouz, Kleber Mendonça e Juliano Dornelles, acabem em cine clubes, ou streaming. Aproveito e trago a situação para o Teatro. Deixo de lado a imensa quantidade de jovens, vítima da falta de Educação e Cultura, para quem o Cinema é apenas aquela profusão de explosões e super heróis, bem infantilizados, o Teatro é algo chato e Literatura, dá vontade de dormir. Deixo de lado. Quero aqui fazer um apelo a todas aquelas pessoas que saíam de casa para assistir os bons filmes, as boas peças de teatro, liam os lançamentos literários, frequentavam as galerias de arte. Voltem. Saiam de suas casas. Deixem as novelas, noticiários. Voltem a frequentar. Nós encontramos essas pessoas, gente amiga, inteligente, estudiosa e nos perguntam de nossas atividades. Estamos em cartaz com tal peça. Já viste tal filme? Meu livro vai ser lançado em tais dias, enfim. Não faltaremos, dizem. Mas não vão. Há muitas desculpas, todas esfarrapadas. Há alguns meses, conversava com uma amiga, minutos antes de iniciar um espetáculo na Casa Cuíra. Contou que leu alguma publicação minha, viu a propaganda da peça e decidiu sair de casa, vir ao teatro. Havia superado a preguiça. Chego em casa cansado do trabalho. Tomo banho, janto, cuido das crianças, do marido ou da esposa, a televisão está ligada e acabamos ali, feito zumbis. Todos nós temos usado bastante as mídias sociais. Nelas, gente bacana, que nos conhece, que admiramos, comenta desejando “merda” e anunciando que irá assistir. Mas não vai. Onde estão essas pessoas que tanto gostam de Cinema, Teatro, Literatura, Artes Plásticas? Outro dia, fui assistir Jô Soares em São Paulo. Não estava lotado. A plateia toda de cabeças brancas.  Os jovens perderam a conexão. Educação e Cultura. E os que sabemos que gostam, onde estão? Cansaço, preguiça, tédio, onde vamos parar desta maneira?