sexta-feira, 28 de junho de 2019
O OUTONO NÃO É GLACIAL
Escapar
por alguns dias desse pré verão que já se anuncia em chamas foi a idéia. Marina
Lima já cantou que o outono no Rio é glacial. Acreditei. Já estive em outros
anos, na mesma estação, na cidade. Escolhi algumas roupas próprias para
temperaturas mais baixas. Logo na chegada, aquele azul de um céu maravilhoso,
embora isso não dissesse nada. Às vezes, quanto mais azul, mais frio. Mas não
estava frio. Estava quente. Muito quente. Verão total. Botei a sunga e fui à
praia. Aqui na Praia do Pepê ainda não chegou, ao menos nos dias de semana,
aquela multidão disputando palmo a palmo um lugar na areia. Há kite surf no ar,
fazendo belas acrobacias. Aposentados disputam alegre partida de futvolei.
Perto está outro aposentado. Bronzeado, corpo fit, está sentado lendo seu
livro. Chega outro e atrapalha a leitura. À direita, parece ser um grupo de
malhadores. Todos têm corpos musculosos, até com exagero. As moças são muito
bonitas. Logo na chegada, dois, três, quatro vêm oferecer aluguel de cadeira e
guarda sol. Nina, dona de uma barraca, oferece bebidas e até salgadinhos. Há
espaço para todos. O vento, delicioso, o ar salgado também. Não fiquei muito
tempo. Não levei nenhum protetor 200, sei lá e nos últimos anos, estive exposto
somente à iluminação de escritório. Calor, muito calor. Assisto à estréia do
espetáculo de Saulo Sisnando, teoricamente infantil, mas com bela mensagem de
amor perfeita para adultos. Torço por ele. Tem muito talento e uma linguagem
atual, com influencias do cinema americano da primeira metade do século XX. Não
é o caso da peça que assisto, que tem outro tema. No outro dia, um verdadeiro
êxtase. No Flamengo, foi recuperado o famoso teatro Manchete, agora com o nome
Prudential. Lá, em seu último dia, a peça “Pi – Panorâmica Insana”, com direção
de Bia Lessa e destacando Leandra Leal e Claudia Abreu. Uma colagem de textos magnífica,
direção maravilhosa, cenário, trilha sonora e por ser the last, ultimíssima
sessão, presença de famosos como Malu Mader e Tony Belotto, Fernanda
Montenegro, Fernandinha e muitos outros. Uma celebração à arte da interpretação
e que maravilha um teatro lotado para assistir algo que faz pensar. O calor
continua. Olho no aplicativo e teremos mais calor nos próximos dias. Acho que
errei nesse outono. Não era glacial? Daqui da Praia do Pepê, até a Zona Sul e
seus teatros, basta pegar o metrô. Mão na roda. Quanto à Barra da Tijuca, nunca
pude desfrutar. Se antigamente já era uma área inóspita para alguém que passou
a vida entre Flamengo, Copacabana, Ipanema e Leblon, agora ficou mais evidente.
Uma outra cidade. Outra arquitetura. Parece Miami. Ao contrário da Zona Sul,
aqui, quem manda é o carro, para cobrir as grandes distâncias. À noite, quando
escrevo e no prazo de entrega do material, Maju avisa que uma frente fria está
chegando ao sul, com queda brusca de temperatura. Rezo para que chegue por aqui
ou vou me queixar ao Procon. Na quinta, assistirei “Antígona”, no Teatro
Poeira, com Marieta Severo. Quando lerem, já terei ido. O mesmo acontece com “O
Mistério de Irma Vap”, que assisti com elenco original, Ney Latorraca e Marcos
Nanini em performances lendárias. Agora tem grande elenco, no Teatro
Casagrande. O melhor de assistir Teatro é renovar o amor ao gênero, atualizar
suas opiniões, admirar as performances e deixar-se influenciar pelas novas
idéias. Quanto à Cidade Maravilhosa, que coisa linda no pôr do sol através dos
Dois Irmãos, água transparente e gelada. Uma delícia.
sexta-feira, 14 de junho de 2019
ROXY BAR, 35 ANOS DE PRAZER
Neste
sábado, o Roxy Bar completa 35 anos de serviços prestados ao bem viver, ao
prazer da companhia de amigos, desfrutando de um ambiente festivo, com músicas,
vídeos e até shows musicais. Em uma terra cruel para iniciativas de bom gosto,
é uma façanha chegar até aqui, mantendo o mesmo padrão de atendimento e, mais
importante, um público fiel que aguarda pacientemente em bancos corridos, a
chamada para ocupar mesas. No Roxy, há permanentemente festejos para
aniversários, formaturas e encontros de amigos de uma vida inteira. Ali,
pessoas se encontraram, constituíram família e hoje, seus filhos, já
acompanhados de rebentos, continuam frequentando. Mas afinal, qual é o segredo
do Roxy Bar?
Meu
irmão Janjo. Ali nos anos 80, do século passado, boêmio, queria estar em um
lugar criativo, alegre, com mesas grandes, para passar a noite em boa
companhia. Primeiro veio o Gato & Sapato, com o saudoso Paulo Magá. Roxy
Bar em homenagem ao velho cinema de Copacabana, Rio de Janeiro. E a homenagem
ensejou, também nomear os pratos com nomes de grandes artistas, a partir da
eterna Marilyn Monroe, que virou musa do bar. Um prédio na esquina da Almirante
Wandenkolk com Senador Lemos, estava fechado há muito. Já havia sido local de
comércio de madeiras e muitos outros fins. Uma brincadeira para julho? João
Carlos Braga e José Franco aderiram. Para o cardápio, escolheram os pratos que
gostavam de comer. Uma cozinheira de mão cheia, Luzia, traduziu tudo em
delícias. Receitas presentes até hoje. Na época, a grande novidade era a MTV,
continuamente passando vídeo clips de músicas de sucesso. Ainda não havia no
Brasil, muito menos em Belém. Um amigo, morando em Miami, no horário de almoço,
gravava em vídeo cassete e no esquema de “deixa que eu levo”, mantinha vários
monitores espalhados no salão, perfeitamente antenados com os sucessos do
momento. O vídeo bar. Um jingle vitorioso, primeiro executado na Rádio Cidade
Morena e depois na Jovem Pan, periodicamente atualizado, em arranjos
diferentes, definiu, em seu final, o que se tornou seu slogan: o prazer de estar
lá. Deu certo. O saudoso Henrique Penna, arquiteto, criou o primeiro visual.
José Franco saiu. Janjo e João Carlos, ficaram. Vieram shows musicais. Foram
embora. Veio a Mona Lisa gorda. Sadam Hussein a pedido dos frequentadores. Nunca
mais foram embora. Alguns pratos novos entraram. O cardápio passou a ser
imitado. A equipe de garçons é quase a mesma, desde o início. Entrou ar
condicionado. O delivery a todo vapor. E um telão, maravilhoso, com vídeos
interessantes, criando a atmosfera propícia ao que chamamos de joy of life. Uma
mudança nos costumes, também ajudou o Roxy. Ninguém mais quer ser velho. Todos
queremos ser jovens, na atitude em relação à vida. Queremos ir a um local para
celebrar a vida. Sim, o Roxy Bar é a criação de Janjo Proença, o big, o barão,
como muitos o chamam. Mas é também João Carlos Braga mantendo o que é mais
importante, o padrão reconhecido por todos. Agora é Marina Braga a responsável
pelo funcionamento perfeito da máquina. Veio o desafio do Roxy Bosque. Sucesso,
novamente. Quanto a mim, acompanho tudo. Sinto amor profundo pelo
empreendimento. Torço para que continue assim. Torço por João, Marina e torço
pelo meu irmão, parceiro, sócio e amigo Janjo Proença!
Parabéns
Roxy Bar, 35 anos de prazer!
sexta-feira, 7 de junho de 2019
JUNHO
Minha
mãe adorava o mês de junho, principalmente por ser o mês de seu aniversário.
Ainda bem crianças, comprava aqueles ramos para fazer coroinhas de São João, que
hoje ninguém mais usa. Também banho de cheiro, cheiroso como nunca. Havia uma
casa no Lago Azul, antes de transformar-se nessa Shangrila dos mais ricos. A
casa foi uma das primeiras do loteamento e há até uma rua com o nome de meu
avô. No aniversário, mamãe passava o dia para lá, arrumando tudo. Quando
chegávamos, após as aulas, já livres de compromisso, a música era forró.
Bandeirinhas atravessavam o quintal e lá adiante, a fogueira que tanto me
hipnotizava. Quando já estava nos estertores, passávamos correndo, pulando,
naquela brincadeira de virar compadres. E claro, o banho cheiroso. Nunca fomos
muito chegados a soltar fogos. Meu pai não gostava. Logo mais volto ao assunto.
Ainda não havia luz elétrica para aquelas bandas. A casa tinha um motor que,
como sempre ocorre, dava problemas justamente quando era muito necessário. Uma
equipe de técnicos da Rádio Clube, cuidava. Wilson Assunção, o “Mucuim”,
comandando as ações. As crianças brincavam correndo pelo quintal, menos uma.
Aquela “junta técnica” debruçada sobre o motor me atraía. Olhava maravilhado as
ferramentas apertando, aparafusando, trocando peças, até que, finalmente, o
motor começou a funcionar, com algumas tosses. Mucuim apressa-se a corrigir a
velocidade da máquina, regulando seu ritmo. Era demais. Como ele fazia aquilo?
Debrucei-me e para ter melhor equilíbrio, amparei-me em algo que, percebi aos
berros, era a chaminé do motor, que estava bem quente. Foi aquela correria. Um
sugere manteiga, outro apenas água, pasta de dentes. Eu urrava. Foi meu batismo
junino. Minha curiosidade sendo punida. Bem, talvez até hoje. Como escrevi
antes, meu pai não gostava de fogos. Considerava-os perigosos. Também acho. No
colégio, colegas mais desinibidos já operavam bombas de diversos tamanhos,
inclusive “cabeça de nêgo”, que explodiam, sorrateiramente, no banheiro, após o
início das aulas, causando barulhão, investigações e cpis que não davam em
nada. Meu tio José Leal, gostava de foguetes. Compatível com seu gênio bem
humorado, cervejeiro fanático. Ele apresentou a nós algumas dessas pistolas que
no ar, transformam-se em chuva de pétalas de rosas e outros desenhos,
assobiando ao subir ao céu. Temerosos, ficamos na dúvida, inclusive meu primo,
Antonio José. Debochando de nossa coragem, ele prepara-se para acender o pavio.
Meu pai vê e resolve intervir. Disse que era perigoso, que havia muitas
crianças, essas coisas. Aos nossos protestos, decidiu chamar o caseiro. Seu
Antonio era pessoa simples, caboco da terra, participando daqueles primeiros
dias do loteamento. Soltar um foguete daqueles era brincadeira de criança.
Recebeu instruções. Fizemos um círculo, com alguns metros de distância. Acendeu
o pavio. Foi rápido. Por um defeito qualquer, a pistola em vez de disparar para
o alto, tomou a direção do chão, enchendo o ambiente de fumaça e estrondo.
Assustados, não víamos mais Seu Antonio, que até então estava no meio do
círculo. Atento, meu pai corre até ele, que permanece rígido, de pé, o braço
ainda erguido com o resto da pistola nas mãos. O senhor está bem? Não foi
ferido? Ele abre os olhos, encara a todos e declara “Estou sordo”! Felizmente
não houve nada, meu pai pegou o violão e começou a seresta sem hora para
terminar. Como minha mãe gostava do mês de junho!
sexta-feira, 31 de maio de 2019
VAMOS AO TEATRO, MAS NÃO ME CHAME
Em
um momento terrível para a Cultura, no Brasil, dois filmes nacionais recebem
prêmios importantes no aclamado Festival de Cannes, na França. Mais
interessante ainda, filmes dirigidos por cineastas do nordeste, um cearense, dois
pernambucanos. Os jornais do sul e sudeste correram a noticiar e comentar.
Penso que, quando apresentados por aqui, devam ter razoável bilheteria, baseado
na curiosidade e na importante láurea do sucesso “lá fora”. Tive, há pouco
tempo, a mesma experiência, após tantos anos escrevendo e com uma editora do
porte da Boitempo. Foi após um prêmio recebido em Lyon, que os grandes jornais
deram alarde ao “Pssica”, meu mais recente trabalho. Será que é suficiente?
Claro que não. Do meu livro tive e tenho um consumo acima das expectativas, mas
ainda muito distante do que poderia acontecer em um país tão grande quanto o
nosso. O mesmo posso dizer dos filmes premiados. Nos últimos anos, houve um
grande avanço na venda de ingressos para assistir filmes nacionais, do gênero
comédia, filão percebido sobretudo por comediantes “globais”, que levaram às
telas o mesmo tom de sucesso de alguns programas da tv. O setor vive problemas
sérios a serem resolvidos pela Ancine. Tão sérios que para o lançamento dos
“Vingadores”, blockbuster americano, uma comédia nacional, lotando todas as
salas, foi retirada para dar lugar aos super heróis. É claro que defendo nosso
cinema e sou contra o que aconteceu. A comédia é um gênero excelente. Mas essa
preferência fará com que os filmes de Karim Ainouz, Kleber Mendonça e Juliano
Dornelles, acabem em cine clubes, ou streaming. Aproveito e trago a situação
para o Teatro. Deixo de lado a imensa quantidade de jovens, vítima da falta de
Educação e Cultura, para quem o Cinema é apenas aquela profusão de explosões e
super heróis, bem infantilizados, o Teatro é algo chato e Literatura, dá
vontade de dormir. Deixo de lado. Quero aqui fazer um apelo a todas aquelas
pessoas que saíam de casa para assistir os bons filmes, as boas peças de
teatro, liam os lançamentos literários, frequentavam as galerias de arte.
Voltem. Saiam de suas casas. Deixem as novelas, noticiários. Voltem a
frequentar. Nós encontramos essas pessoas, gente amiga, inteligente, estudiosa
e nos perguntam de nossas atividades. Estamos em cartaz com tal peça. Já viste
tal filme? Meu livro vai ser lançado em tais dias, enfim. Não faltaremos,
dizem. Mas não vão. Há muitas desculpas, todas esfarrapadas. Há alguns meses,
conversava com uma amiga, minutos antes de iniciar um espetáculo na Casa Cuíra.
Contou que leu alguma publicação minha, viu a propaganda da peça e decidiu sair
de casa, vir ao teatro. Havia superado a preguiça. Chego em casa cansado do
trabalho. Tomo banho, janto, cuido das crianças, do marido ou da esposa, a
televisão está ligada e acabamos ali, feito zumbis. Todos nós temos usado
bastante as mídias sociais. Nelas, gente bacana, que nos conhece, que
admiramos, comenta desejando “merda” e anunciando que irá assistir. Mas não
vai. Onde estão essas pessoas que tanto gostam de Cinema, Teatro, Literatura,
Artes Plásticas? Outro dia, fui assistir Jô Soares em São Paulo. Não estava
lotado. A plateia toda de cabeças brancas.
Os jovens perderam a conexão. Educação e Cultura. E os que sabemos que
gostam, onde estão? Cansaço, preguiça, tédio, onde vamos parar desta maneira?
sexta-feira, 24 de maio de 2019
CIDADÃO
Escrevo
como cidadão. Não sou especialista em Segurança Pública, nem tenho informações
privilegiadas. Talvez, quando estiverem lendo este texto, que por questões
industriais precisa ser entregue ao jornal com alguma antecedência, tudo já
tenha sido elucidado. É que desde a noite de domingo, circulando por lojas
24horas, lanchonetes, portarias, não há outro assunto a não ser a tragédia
ocorrida no Guamá. Em uma lanchonete, a proprietária explicava que havia pouca
gente por conta dos crimes. As pessoas ficam com medo, se trancam em casa,
disse. Sou escritor. Em meus livros, há sempre confronto entre pessoas e alguns
crimes, motivados por diversos fatores. Roubo, vingança, competição, traição,
enfim. Um amigo já disse que os ficcionistas estão em desvantagem. A realidade
é uma forte concorrente. Li alguns jornais, assisti a telejornais. Sei do
esforço do Governador em resolver o problema, com a Guarda Nacional. É claro
que ele sabe que há muito mais a ser feito, no campo da Educação, Cultura e
oferta de trabalho. O cidadão comum hoje não sabe de onde vem a ameaça. Se de
ladrões ou milicianos. Sou classe média, alvo principal de roubo, nas partes
centrais da cidade. Mas diariamente lemos assassinatos cruéis, nos subúrbios,
envolvendo tráfico de drogas ou disputa por território. O governo passado nada
fez. A coisa cresceu, desmedidamente. A chacina pode ter sido por uma
necessidade premente de ação contra inimigos, ou para desafiar as autoridades.
Oito das vítimas não tinham ficha criminal. O dj estava dormindo. Outra vendia
cosméticos. Vi fotos onde algumas mulheres portavam revolveres. Fake? Não sei.
Sem grandes opções de diversão, paraenses costumam passar o domingo junto a
amigos em algum bar próximo. Bebem, comem salgados e ficam arengando, rindo, se
divertindo até cada um voltar para casa, no limite de suas condições. As ruas
são estreitas, tortuosas e esburacadas, enlameadas. Todo mundo sabe da vida de
todo mundo. O Bar da Wanda estava, segundo informação, com 80 pessoas na casa,
divididas em dois andares. Casa cheia. Animada. Dj tocando brega. Calor total.
Muito barulho. Também, segundo a Polícia, era conhecido ponto de tráfico. Aí
vem a primeira pergunta: qual a razão de ainda estar aberto? Recebia
vigilância, queriam pegar algum peixe grande? Se os criminosos sabiam, a
Policia também sabia. Assisti reportagem da Tv, entrevistando alguém que
escapou. Nada de interessante. Porquê o repórter não foi atrás da vizinhança,
alguém que escapou e pode contar por onde? Alguém para dizer como era o dia a
dia daquele bar? Não filmou o interior e o segundo andar para podermos entender
como aconteceu? Se mataram onze, uns 69, grosso modo, fugiram pelos fundos. Se
dos 11 mortos, 8 não tinham ficha, havia apenas três bandidos? E os que
escaparam, procurarão vingança? E como chegar ao mandante? A sociedade cobra
respostas rápidas para não continuar vivendo apavorada. Talvez seja caro, mas
considero efetiva a instalação de câmeras de vigilância nessas ruas estreitas,
além de um centro de vigilância a receber, tempo real, as imagens.
Proporcionaria reação imediata e até mesmo seguir a rota de fuga. Mais uma vez,
o governo passado não atuou como deveria. Há muito a fazer. É impossível
fiscalizar apenas com guardas e viaturas. A viatura passa na ronda, um minuto
depois alguém é assaltado e a viatura está distante, completando seu percurso.
Enfim, tomara que tudo já tenha sido resolvido.
sexta-feira, 17 de maio de 2019
OS INFANTILIZADOS
Estava
no taxi, em SP e o motorista ouvia o programa Pânico, na Jovem Pan. O
entrevistado era um tal de Régis, que após ser produtor musical, tem agora um
canal no You Tube, seguido por milhares de pessoas. Desbocado, bem humorado,
gostando da polêmica, disse algo bem interessante sobre o estágio da música
brasileira. O atual ouvinte de música no Brasil é infantilizado. Dizia que após
ter criticado uma banda dessas coreanas que andam infestando os ares, recebeu
reclamação da chefe de um fã clube, com 37 anos. Claro que qualquer pessoa tem
o direito de gostar de qualquer música em qualquer idade e ninguém tem nada a
ver com isso, mas é um sintoma grave do estágio em que anda a Cultura nacional.
Sempre houve artistas apelando para um nível mais baixo de qualidade em seus
discos, claro. Mas era possível, para alguém que, com Educação e Cultura,
preferisse ouvir músicas mais melodiosas, com letras bem feitas, bem tocadas e cantadas
de maneira a elogiar e encontrasse artistas que tais. Hoje não. O nível de
nossos sucessos de hoje é lamentável. Letras tatibitate, dignas de “Atirei o
pau no gato”. Melodias pífias. Ou então esse funk claramente pornográfico, por
mal feito. E ainda temos sertanojos com aqueles vocais de quem tem graves
problemas estomacais. Difícil de aturar. Mas você olha ao lado e pega as
pessoas cantando, gostando. O nível de entendimento e exigência chegou a um
ponto insuportavelmente baixo. Hoje são raros os discos de novos artistas a me
interessar. Roberta Sá está bem no disco feito para ela por Gilberto Gil.
Bianca Gismonti, filha de Egberto, também fez um disco muito bom. Délia
Fischer. Pode haver mais um ou outro que tenha esquecido, mas é só. Muito
pouco. As gravadoras perderam até seu poder de julgamento daquilo que vale a
pena vender. Tudo vem da rua e por isso, reflexo do momento cultural em que
vivemos. E se distribui por todas as outras áreas. “De pernas para o ar 3”,
acho, comédia no estilo dos programas do gênero na Globo, era a grande
bilheteria, até os cinemas serem invadidos por esses Vingadores. Filmes mais
densos, com enredo, bons atores, não conseguem furar o bloqueio. Hoje, estão em
cinemas de arte e no streaming, no máximo. O público exigiu e agora todos os
filmes são dublados. As pessoas não conseguem acompanhar a leitura das
legendas. Analfabetos funcionais. Sobram as séries, mas o grande público ainda
não chegou nelas. Algumas são realmente boas. E ninguém mais vai ao Teatro, a
não ser que seja comédia e com atores globais. Nem assistem. Fazem selfies o
tempo todo. Se é teatro local ninguém vai porque é chato, pobre e os atores são
feios, exatamente o que aquele nefando armou, criou e impôs em vinte e tantos
anos de desgraça à frente da Secretaria de Cultura. E quem lê? Não me furto,
gosto muito de conversar com interessados, principalmente em colégios e
faculdades. Mas sempre começo me apresentando, afinal, ninguém ali comprou e
leu sequer um livro meu. Quem tenta ler, dorme ou não entende. Quem ouve música
de qualidade acha chata. Assistir filmes que fazem pensar, nem pensar. Sim, o
tal do Régis tem razão. O público está infantilizado. As mídias sociais deram
espaço aos idiotas que se recusam a refletir, raciocinar. Tudo tem que ser mais
raso do que piscina para crianças. Acho, como cidadão, que a Educação de base
precisa ser encarada de frente em um choque. Só assim formaremos uma nova
geração que tenha opinião, reflita, discorde, argumente. Até lá, o que será de
nós com esse público infantilizado?
sexta-feira, 10 de maio de 2019
MINHA FAMA DE BOM
Não
paro de ouvir a trilha do filme que conta a vida de Erasmo Carlos, “Minha fama
de Mau”. Chay Suede, Gabriel Leone e Malu Rodrigues fazem as vozes que
originalmente foram gravadas por Erasmo, Roberto Carlos e Wanderléa. Eles desempenham
da melhor maneira o serviço, até uma audácia para clássicos da Jovem Guarda
intocáveis. A banda que acompanha toca um rock and roll dos mais competentes,
com um peso instrumental impossível de obter na época. Não assisti ao filme, mas
a trilha é ótima. Me animei e fui atrás das gravações de Roberto Carlos. Passou
um filme maravilhoso na mente. Era uma época em que o mundo passava por
transformações. Aqui no Brasil, de um lado, saiam grandes artistas do chamado
“dó no peito”, substituídos, de um lado, pelas crias de João Gilberto, com voz
miúda mas precisa e letras leves, poéticas, amorosas, cantando sol, mar,
garotas lindas cariocas e do outro, jovens suburbanos que se encontraram em São
Paulo, influenciados pelo ritmo que enlouqueceu a Inglaterra e Estados Unidos.
Em SP, havia também os festivais de música, Elis Regina, Jair Rodrigues e
outros. Roberto e Erasmo, cariocas, o primeiro uma tentativa frustrada
bossanovista, encontrando em Carlos Imperial o estímulo para outro gênero. As
letras, baseadas em traduções do rock americano, não tinham a riqueza poética
da língua latina, mas traduziam de maneira simples, aspirações da juventude.
Erasmo sempre foi o cara. Mais tímido, não tinha a estrela de Roberto, embora
seja parceiro da maioria dos hits. O Tremendão sempre foi roqueiro. Inventaram
gírias, venderam produtos. Usei calça Tremendão, bota Tremendão, anel de
brucutu, enfim. Saía por aí, ridículo, mas me sentindo ótimo. Alguns radicais
da mpb fizeram até passeata contra a guitarra, para adiante, adotar. E veio a
Tropicália, enlouquecedora, propondo mais revolução, o deus Mudança. E lá fui
eu, seduzido por aquele liquidificador do mundo. Sim, lamento informar, mas a
gravação de Chay Suede, instrumentalmente, é superior à de RC. O ator dá conta
do recado. Ouço Roberto cantando “Essa garota é papo firme” e rio, rio de
lembranças passando na tela. A luz negra iluminando corpos nas pistas de dança
e eu olhando, olho comprido, ainda sem a ousadia de pedir à garota dos sonhos
para dançar. A bossa nova tinha grupos que se reuniam em apartamentos, como uma
seita, mas nos subúrbios, só dava Jovem Guarda, que influenciou de maneira
incrível a música que ouvimos até hoje nas rádios mais populares. Nosso brega é
uma mistura dessa Jovem Guarda com os boleros delirantes de Edith Veiga, mais o
carimbo e o merengue caribenho. Há rádios até hoje com programas dedicados a
Roberto Carlos. Um camelô, na calçada dos Correios, toca em altíssimo som
“Capri, c’est fini” e “F comme Femme” como se o tempo nunca tivesse passado. As
pessoas passam e vão assoviando, cantarolando. Mas tudo passou, como tinha de
passar. Roberto virou adulto e escolheu, a partir do Festival de San Remo,
tornar-se artista romântico. Conservador, adotou uma linha sem erro, que leva
até hoje. Pena essa falta de coragem pois tinha tudo para também cantar um
repertório mais criativo. Erasmo ousou mais, inclusive no samba, letras mais
políticas, sem o apelo do parceiro, mas manteve o cetro. Mas como foi bom ouvir
a trilha desse filme. Mais ainda, ouvir novamente aqueles belos tempos, belos
dias, como lembra RC em um de seus sucessos.
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