sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

O NOVO LIVRO DE LEONARDO PADURA

Leonardo Padura é um dos maiores escritores da língua espanhola em todo o mundo, tendo recebido, recentemente, o prêmio “Princesa das Astúrias”, a premiação mais importante da Língua Espanhola. Em novembro passado, recebeu o Prêmio Barcino, de novela histórica. Já havia sido lançado no Brasil alguns de seus livros, mas eu não os tinha lido. Isso aconteceu a partir de “O Homem que Amava os Cachorros”, pela Boitempo Editorial, que foi aclamado nacionalmente. Logo depois veio “Os Hereges”, também excelente. Estive ao seu lado, no Recife, visitando a primeira sinagoga do Brasil, o que tem a ver com o romance. E então, a editora relançou os trabalhos com aventuras do detetive Mário Conde, que muitos dizem ser seu alter ego. Quatro livros maravilhosos, na linha noir, mas fundamentalmente nos revelando Havana e cubanos na sua essência, sem cores publicitárias ou políticas. A vida, simplesmente, em seu dia a dia. Também está na Netflix, ainda, suponho, uma série espanhola com as histórias desses livros. Imperdível. Mas é que agora, a Boitempo apresenta seu novo trabalho, “A Transparência do Tempo”, onde mais que uma nova aventura de Conde, Padura se defronta com a chegada dos 60 anos de idade e o que isso representa para cada um de nós. Seus medos, sensação da passagem inexorável do tempo e os poucos sonhos ainda faltando realizar.
A história, datada de 2014 é esplendida, por situar-se em um breve período de esperanças por melhores dias, em função dos gestos do presidente americano Obama, em reatar relações diplomáticas e outras possibilidades. Sonho furado. Trump foi eleito e tudo voltou ao zero. Conde é um policial aposentado, que vive de pequenos bicos. Sua namorada, cinquentona, é descrita como legítima cubana, mulher de opinião, com apetite sexual e dotes culinários. Cada um mora em sua casa. Melhor assim. Também acho. Amigos de uma vida inteira são visitados quase todos os dias. Reunem-se para comer, beber e ouvir Creedence Clearwater Revival. Ajudam nas investigações, dão palpites.
Há sempre um que está prestes a se mandar para Miami, onde já vivem parentes. Conde fica triste. Se não fomos quando éramos jovens e cheios de sonhos, conhecer o mundo foi porque éramos proibidos. Agora, velhos, temos mais é que ficar por aqui, junto aos amigos. Para quê viajar para uma cidade desconhecida, mundo novo, refazer uma vida que durará poucos anos? Há uma certa melancolia em todos. A dificuldade em comer bem, beber do melhor, fumar charutos ou cigarros (Leonardo nem prova outras marcas, tem sempre um maço cubano), casas arruinadas, ruas esburacadas, engenheiros trabalhando como garçons, médicos dirigindo carros americanos pré históricos e autoridades vivendo em mansões maravilhosas, deixadas por seus antigos donos, que fugiram quando Fidel Castro tomou a cidade. Aposentado, vive de comprar e vender livros antigos, importantes, encontrados em sebos ou na mão de viúvas que desejam ver-se livres da papelada colecionada pelo falecido.

O chefe de polícia é um ex-comandado por Conde. Vivem às turras por ele investigar assuntos perigosos, expondo-se muitas vezes e sem avisar aos órgãos competentes. Um antigo amigo de colégio o procura para um trabalho. Especialista no mercado negro de arte, faz com que o detetive desça aos porões da cidade, as zonas, diria, vermelho rubro, em termos de perigo, pobreza, fome e desespero. Eu adorei e recomendo.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

PARAENSES NA CIDADE MARAVILHOSA

O Rio de Janeiro ainda é um sonho para os paraenses? Vi em várias colunas sociais fotografias feitas em réveillons e na praia, claro, maior verão. Há uma parte de Copacabana, logo no começo, onde famílias paraenses ainda têm apartamentos. Era chique morar ali. A classe média, que passava as férias de julho em Mosqueiro, transformando a ilha em uma Camelot, jogava-se para a Cidade Maravilhosa nas férias de começo de ano. O Rio era e é um grande chamariz, mesmo com as balas zunindo as cabeças e arrastões sejam mostrados nos jornais da televisão. Os cariocas bem que tentam, convenhamos, mas não conseguem destruir paisagem tão linda. Penso que muitos outros brasileiros, de outros Estados, também amem a cidade. Uma vez, em Oriximiná, para a festa dos bois, ouvi diálogo em mesa próxima, em um navio onde estavam os vips da região. Entre outros bafos, a coisa de veranear na cidade. Lembrei de nós. Lembrei de mim.

Comecei a ir aos nove anos, para ficar com meus avós, na Barata Ribeiro com Bolívar. Depois, muitos outros endereços. Meu pai foi transmitir Santos x Milan. Noite chuvosa. No dia seguinte, até notas de dinheiro estavam para secar. Mas andar por Copacabana, sobretudo, era ouvir “éguas”, “maninha e “tu viste”, por exemplo, em cada esquina. Paraense gostava e gosta de andar em bando. Assim, levam consigo sua cidade, seu ambiente e amigos. Também são encontrados assistindo peças de teatro. Não faltam. Menos aqui em Belém, onde nunca vão. Quando vão à praia, as meninas logo são cercadas por meninos cariocas e a eles concedem todos os mimos. Em segundos, adquirem um sotaque genuíno, verdadeiras “garotas de Ipanema”. Tudo isso me fez escrever uma peça de teatro, “A Menina do Rio Guamá”, que fez muito sucesso, nos anos 90. Há muitos “causos” a serem contados. Como aquela família que frequentava os restaurantes mais caros, mas a mãe sempre levava, em uma lata de leite Ninho, a farofa feita aqui, para no devido momento, colocar no prato de seus filhotes. E aquela namorada que terminou o namoro em outro restaurante? O namorado, já estava há mais tempo veraneando. Ela chegou, foram jantar. Quando chegou o garçom, o namorado, já enturmado, o chamou pelo nome e apresentou a namorada, dizendo que ela tinha acabado de chegar de Belém e ainda não conhecia a cidade. Audácia! Paraenses também não perdiam shows no Canecão. E como sempre andam em grupo, este era sempre o mais ruidoso do local. Mas as meninas, todas com seu “pet namorado carioca” e seu sotaque praiano, estavam bem colocadas. Nada de passeios a Corcovado e Pão de Açucar. Brega, totalmente brega. Vão para os barzinhos, quem sabe a Lapa, mas as mães todas também vão e ficam em mesa especial, de onde podem vigiar as meninas, loucas para fugir com seus “pets”. Hoje, que as viagens ficaram mais fáceis e passageiros viajam de calção, chinela de dedo e camiseta, já são poucos os grupos de paraense em ação. Houve época de Fortaleza e seu carnaval fora de época. Há muito que todos estão em Miami, com apartamentos abertos somente durante a temporada, mesmo que nos EUA seja inverno. Sim, vão todos em uma grande turma, locomovendo-se em vans enormes, de onde saem em hordas para Outlets gigantescas. Compram desde assento de privada e outras cafonices. Logo cedo, nos lobbys dos hotéis, fazem montinho, praguejando contra esta ou aquela, que sempre está atrasada. Eles saem de Belém, do Brasil, mas na verdade, não saem, entendem? Lembrei de tudo isso quando vi as fotos de gente feliz em suas férias e nos réveillons no Rio de Janeiro.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

AS CERTEZAS DE UM NOVO TEMPO

Acho um avanço, sem querer achar muito por faltar-me um conhecimento técnico melhor, a Base Nacional Comum Curricular, que está sendo lançada no Brasil. Aos 16 anos, ainda não havia amadurecido e não sabia que carreira pretendia seguir. O fato é que cursei alguns anos de Engenharia Civil, na UFPa, para enfim formar-me em Jornalismo, onde me encontrei, já adulto. Se a Base já funcionasse, desde cedo meus pendores seriam identificados as escolhas melhores, definindo uma direção. Mais do que nunca, a Educação me parece o assunto mais importante. Estamos atrasados em relação à maioria dos países. Temos, diria, gerações perdidas, com analfabetos funcionais, jovens em idade de trabalho mas sem qualquer qualificação em um mercado cada vez mais exigente. Segundo o World Development Report 2019, apresentado pelo Banco Mundial, todos precisaremos adquirir novas competências. Os robôs estão aprendendo cada vez mais, extinguindo profissões, diminuindo a demanda por empregados. Isso nos leva para o começo do século XX, Revolução Industrial quando os cocheiros, por exemplo, perderam emprego para os chaufferes dos carros. E, recentemente, os fabricantes de máquinas de datilografar, para os teclados dos notebooks. Isso apenas para citar dois casos. O mundo está em pleno movimento e as descobertas, invenções são quase diárias, deixando obsoletas coisas que ontem considerávamos essenciais. Eric Ries, que escreveu o livro The Start Up Way, disse que vamos utilizar cada vez mais o empreendedorismo como veículo de modernização e mudança cultural para enfrentar os novos tempos. Ou seja, invente, crie, ofereça sua novidade, pense. Pensar. Aí reside um dos grandes obstáculos. Lembram de Henry Kissinger, o Secretário americano que agiu predominantemente na época da Guerra do Vietnã?  Nem todos, claro. Ele declarou que a  cognição humana está perdendo velozmente seu caráter pessoal. A internet está afastando as pessoas da História ou Filosofia. Querem respostas rápidas, práticas. Informação rasteira. Ou seja, não pensamos, não refletimos, não analisamos. E assim, não formamos opinião própria a partir de argumentos positivos e negativos, alcançando um equilíbrio. Concordamos com o que nos afirmam. Fica tudo muito simples e ralo. Sem o conhecimento, sem o argumento, sem a Filosofia, não somos nada. Qualquer um que tiver minimamente esses instrumentos, digamos, nos reduzirá a pó em segundos. As frases são cada vez mais curtas. Se há mais de três linhas ainda avisam “ih, lá vem textão”.. O resultado está claro nas músicas de sucesso, com letras cada vez mais tolas, até onomatopaicas. Digital Influencers, jovens que vivem de expor a tolice de suas vidas para um público que não tem vida. O vocabulário está cada vez menor. No cinema, apenas as comédias lotam as salas. Ninguém quer pensar. Teatro é chato. Livro me dá sono. Quero apenas os destaques. Mesmo assim, parece que o melhor do cinema está nas séries. Está tudo na Nuvem. Ninguém mais precisa ter cds, livros, dvds. Tudo por streaming. Confesso que nunca pensei que chegaríamos a isso. Foi tudo tão rápido. Olho para meus poucos vinis que guardo mais como lembrança, para os cds e sinto que são passado. Nem mais tenho em casa um cd player, por exemplo. Nesse mundo de velocidade, será que chegaremos ao implante de dados culturais em nossos cérebros? Porque já percebo a falta de tempo para alguém sentar e ouvir um cd inteiro, ler um livro inteiro, assistir a um filme com mais de duas horas. Onde isso vai dar?






sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

AOS SOBREVIVENTES

Colegas artistas e envolvidos com a produção cultural de maneira geral, sobreviventes que conseguiram chegar até aqui e assistir à segunda saída de alguém que durante mais de vinte anos trabalhou incansavelmente para nos destruir, humilhar e afastar do povo paraense. É a segunda vez. Da primeira, o resultado não foi bom. Agora tem tudo para dar certo. Vai ser preciso controlar a ansiedade. Não esperem um Messias que a tudo dará solução e num passe de mágica nos dará plenas condições de exercer nossa arte e um público que voltará a acorrer às nossas apresentações. Tudo foi destruído. A mentalidade, hoje, grosso modo, é confundir Cultura com Lazer. A Cultura virou algo chato. Livro começo a ler e dá sono. Peça de teatro é chato e problemas, já tenho os meus. Músicas hoje basta ouvir em streaming minhas cantoras favoritas. E assim por diante. Vai ser difícil. Lembrem que nosso Estado tem o tamanho de um país. E salvo uma ou duas obras, a Secult atuou somente para Belém, como se fosse uma secretaria municipal. Sim, precisamos reconquistar o público da capital que, afinal, como muito bem a tal pessoa queria, passou a achar que nós, artistas, somos feios, cafonas, toscos, mal vestidos e sem talento. Também precisamos saber que, sem conquistar esse público da capital e principalmente, das grandes cidades do Pará, qualquer brilhareco obtido por força de talento e internet, fora daqui, não é suficiente. Não tem base. Enfim, começar do zero. Fazer estruturas, definir conceitos, parcerias, eventos a partir do ápice de ações coordenadas. Difícil. Bem difícil. Mas nós sobrevivemos. Nós, do Teatro, em espetáculos de rua, em casas, escolas, até em ônibus. Nós teimamos. Chegamos até aqui. Nós, da Literatura, nos unimos na Flipa e mais do que isso, suscitamos o surgimento de diversos grupos de escritores e leitores jovens que agitam a área em um sem número de reuniões, mesas redondas, debates, leituras dramáticas, provando que há vida no setor. E como! Eventos corajosos como Se Rasgum ou Psica demonstram a aparição de novos artistas, querendo espaço, querendo público, precisando de um Estado que fomente a Cultura, não como política paternalista como um idiota disse, mas para a constituição de um mercado, que após estar em pleno funcionamento, vai possibilitar à uma Secult, inclinar-se para outros artistas, em áreas que por qualquer motivo ainda necessitem de apoio. Não queremos esmola. Aqui as leis de incentivo não funcionam. Não há patrocinadores à vista, porque não querem abrir seus livros contábeis para a Secretaria de Finanças. E não, nenhuma lei de incentivo, dá dinheiro para a Cultura. O dinheiro que o patrocinador dará, é relativo a percentual de imposto que, no caso, pagaria ao Estado, que deixa de receber. Artista leva a culpa de tudo. Ainda tem de aturar 50% de desconto no ingresso. Se em retorno, artistas tivessem uma carteira que ao apresentar no super mercado, farmácia, onde quer que fosse, também obtivessem 50%, de maneira a equilibrar o que deixou de receber.. Não. Somos pobres. Lá na Casa Cuíra, vivemos de ingressos e de matrículas em uma Escola Livre de Teatro. Os figurinos são todos a partir do acervo do Grupo. O resto é fazer Teatro porque é isso que fazemos. E foda-se. Assim, todos os outros. Somos sobreviventes. Se perguntarem como conseguimos chegar até aqui, respiraremos fundo e após uma reflexão e diante da curiosidade de quem perguntou, diremos: foi muito difícil. Mas aqui estamos.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

POR UMA CUIA DE TACACÁ

Feliz Natal para todos. Espero que estejam bem felizes para comemorar a data. A mim pouco importa se é o dia certo ou não. Tenho meus assuntos com Cristo razoavelmente bem conduzidos. Gosto do Natal. Me emociona. Lembro da infância. Tive uma mãe com uma imaginação fértil. Quando a época chegava, inventava mil estratagemas para ficarmos ligados. Como já contei, descobri sobre Papai Noel e levei meu irmão menor para confirmar. Paciência. Não me venham com esse negócio de festa do consumo e tal. Adoro presentear. Escolho presentes que acho que o presenteado vai gostar. É bom fazer as outras pessoas felizes. Lamento que nem todos possam ter a festa que desejavam. Sim, a festa do nascimento do Cristo devia ser a celebração do amor, da amizade entre as pessoas. O renascimento. Jesus viveu entre os pobres. Mas importante mesmo é o que vai no coração. Não me venham também com essa de não ter saco de passar a noite com o cunhado detestável, a prima que bebe e enferniza, enfim. Sugiro uma trégua. Dá um tempo, cara. Não perde o melhor. Uma noite apenas, poxa. Sinto saudade da minha família. De meus irmãos crianças. Do acordar, correr e abrir os presentes. Minha mãe se foi no começo do ano e estou assim, meio sem rumo. Carlos Eduardo Novaes conta de um dia 25, almoço, o menino veio chorando queixar-se à mãe. Porque você não está em seu quarto, jogando seu novo game? Não posso. Papai e os tios estão lá, jogando e me mandaram sair. Todos viramos crianças, claro. Encontrei amigos de uma vida inteira, desde o tempo do colégio. Cabelos brancos, barrigas proeminentes, a verdade é que nos vemos ainda baixinhos, magrelos, caneludos e com olhos espertos, danados. E nos deliciamos em lembrar nossas antigas aventuras. Lembraram uma delas, que tentarei contar, aqui. O Nando veio com a notícia que agora tinha um galo de briga, desses de rinha. E haja a contar vantagem. Procuramos todos nos informar sobre o assunto. A alimentação correta, os treinamentos. O Nando ia dizendo que obedecia e que o galo, a cada dia que passava, ficava mais forte e capaz de lutar e ser um grande campeão. Na hora do recreio, juntos, como que guardando um grande segredo, conversávamos sobre seu desempenho. Outro veio com a notícia de uma rinha próximo à sua casa. Foi lá e contou do “nosso” galo de briga, que apelidamos logo de Ali. Sim, Ali, de Mohammed Ali, claro. Disse maravilhas e logo apareceu alguem que fez o desafio. Iam apostar. Quanto? Ficou no ar. Fomos todos ao Nando. O Ali já está pronto? Claro! Só mais uns ajustes. E as esporas dele? Estou dando um tratamento diário, para ficarem bem afiadas. Sabiam que o nome delas é Batoque? Não. Enfim, chegou o dia. Marchamos em cortejo até o rinheiro para o grande embate. Era um ambiente de adultos, mas fizemos pose de acostumados àquilo. Quando o desafiante olhou para o Ali, até sorriu. Pensamos que era de medo. Vamos apostar! Bom, todos botamos as mãos nos bolsos e conseguimos 15 reais! Foi uma gritaria. Acho que riram, mas era nossa aposta. Estávamos nervosos. Bem, a luta não durou dez segundos. O galo rival foi direto na papilha do Ali e acabou a luta. O Ali era mutuca. Ficamos arrasados. Perdemos dinheiro. Nando recolheu o galo. Percebemos que o ali nunca havia enfrentado um galo na vida. O Nando esqueceu de aulas práticas, digamos. O que fazemos com ele? Acabamos em uma tacacazeira que ficava na esquina. Ela trocou o galo morto por uma cuia de tacacá, que dividimos, pensativos. Feliz Natal.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

DONA FERNANDA FALOU


Fernanda Montenegro usou programa dominical na Tv para defender os artistas, que principalmente durante a campanha política, foram acusados de enriquecer através da Lei Rouanet. Tinha de ser alguém inatacável como ela, para dizer. Fernanda, mais que tudo, defendeu os artistas espalhados pelo Brasil, a grande maioria exercendo sua arte sob as piores condições possíveis, para um público que cada vez mais se afasta da Cultura, seduzido por atrações aparentemente mais interessantes, mas que somente refletem o mais baixo e profundo nível de Educação e Cultura que aflige todo o país. Há várias gerações absolutamente perdidas, sem ter opinião, sem articular pensamentos, lendo mas não captando o que foi lido e lendo com muita dificuldade. Sem qualificação, não têm espaço no mercado de trabalho, digamos, onde os salários são minimamente condizentes e se não vão para a informalidade, construção civil, ingressam no tráfico e outros delitos. Mas os artistas foram mal falados por causa da Lei Rouanet. A maioria das pessoas nem sabe, que a Lei não dá dinheiro a ninguém. Os interessados submetem seus projetos a um comitê em Brasília, que julga os que considera melhores, concedendo-lhes um selo que lhes possibilita ir a empresas solicitar patrocínio, na forma de imposto que essas empresas iriam pagar ao governo. Grosso modo. Assim funcionam demais leis brasileiras, para a área, como a que temos no Pará e em Belém. Viajei por aí e conheci a National Endowment of Arts, nos EUA, onde grupos escolhidos, em várias áreas, recebem dinheiro para um ano inteiro, recebendo também contadores que fiscalizarão seu bom uso. Nem todos gostam, por lá. E quem fica fora da lista? E novos artistas que ainda precisam tornar-se conhecidos? Na Alemanha sei de uma crise no teatro, porque as companhias são subsidiadas e deixou de haver, digamos um desafio, para obter maior público, para desafiar os costumes, influenciar a sociedade. Temos aqui uma lei que nosso venerável prefeito recusa-se a obedecer, como é hábito em governos tucanos, que odeiam Cultura, a não ser ópera. O venerável, para não ficar atrás em ridículo, também é imortal da Academia Paraense de Letras, vejam só. A grande questão é como destinar recursos para a Cultura. Alguém dirá que isso é absurdo e que o artista é um profissional como qualquer um. Ganha dinheiro para fazer teatro? Não vou gastar espaço sobre o valor da Cultura. O artista não quer me dá um dinheiro aí. Ele quer e é obrigação do Estado, em qualquer instância, fomentar a criação de um mercado onde ele possa existir. Nas leis, da maneira que estão aí, o Governo na base do toma que o filho é teu, faz com que departamentos de marketing decidam quem, dos que receberam o selo da lei, vai receber patrocínio. O marketing escolherá aquele monólogo maravilhoso e importante ou aquela comédia fácil, que receberá mais público? Ele precisa pensar pelo produto. Esse é o problema. Dinheiro da Rouanet não vem para cá. Quais são nossos grandes patrocinadores? O Cuíra conseguiu patrocínio via Rouanet da Petrobrás. Raro. Mas acabou. Um espetáculo. Feito, contas prestadas e tal. Então, vão as grandes empresas destinar milhões para musicais da Broadway, para turnês de músicos como Ivete Sangalo, peças de famosos como Jô Soares, por exemplo, claro e a pergunta que faço é, mesmo sabendo que tudo isso custa caro, somente a fama desses artistas (muito justa, por sinal), não os faria arriscar seu próprio dinheiro, deixando o das leis para os 95%, talvez, dos artistas espalhados no Brasil? Aqui, nem a estadual funciona. As empresas não querem abrir seus livros para a Sefin. E pronto. A parceria entre o Teatro de Apartamento e a Casa Cuíra tem rendido belos espetáculos. Patrocínio? De ninguém. E ainda somos chamados de milionários da Rouanet...

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

EU, VOCÊ, NÓS DOIS, JÁ TEMOS UM PASSADO, MEU AMOR

Saiu a foto e a notícia da casa na Barão da Torre, Ipanema, RJ, onde Tom Jobim morou. Um de seus endereços. Foi vendida e um prédio será erguido no local. Alguns estão gritando. Já vi alguém dizendo que é melhor assim. Que no prédio morem outros artistas fazendo novas músicas. Bem, o que ainda não falta é espaço para construir novos prédios onde novos músicos irão morar e, quem sabe, compor maravilhas. Para mim foi interessante e me moveu para escrever estas linhas porque estive hoje na Rua Santo Antônio, já completamente destruída, tomada por barracas podres, vendendo produtos falsos, para um público que vem de longe para comprar. Há muito que pessoas, instituições, associações, o caralho a quatro bradam, pedem socorro, para que o que chamamos de “Comércio”, onde muito da cidade iniciou, seja acudido. O casario, lindo, desaparece, desmorona, é demolido, é dilacerado, vilipendiado, violentado, depredado, na sanha da ignorância, da estupidez, do cretinismo, tudo isso gerado pela falta de Educação e Cultura que nos assola, e políticos imbecis, bandidos, idiotas, néscios, ladrões, que têm comandado nossa urbe. Nosso tecido civilizatório está completamente esgarçado. É como se, lentamente, talvez rapidamente, sei lá, estejamos voltando à vida na selva, onde não há leis e onde tudo pode ser feito, por quem quiser fazer, onde e quando quiser, meramente por ter vontade de fazer. Impera a lei do mais forte, com armas, assaltos, reféns, tiros, mortes, a qualquer hora do dia, em qualquer lugar, à vista de todos, afrontando a mínima idéia de civilização.
Se embaixo o cenário e de ruínas, digamos, ao olhar para cima os olhos se enchem de lágrimas pelo choque em ver o que eram as casas, velas, azulejadas, janelões, enfeites, estátuas, acima dessa desgraça abaixo. As lojas, ao invés de preservar a beleza, a derrubam com gosto, instalando peças ridículas, que ofendem qualquer conceito de estética. No meio das ruas, essas barracas como nesses campos de refugiados de guerra, onde os produtos made in China são vendidos. E muita sujeira, caixas de som altíssimas, locutores falando português errado e sendo entendidos por todos os que também não sabem mais falar seu idioma.
Belém já está abaixo da civilização. Quanto custará para voltar aos mínimos padrões? Essas novas gerações de imbecilizados e mal educados, que não sabem somar dois mais dois, lendo mas sem saber dizer o que leram, acham que o mundo começou no dia em que nasceram. Não têm idéia de onde pisam, por onde passam e quem fez tudo isso existir. E quem tem idéia disso tudo, por boçalidade, tenta por todos os meios destruir o que foi feito, meramente porque não foi sua obra, ou por discordâncias políticas.
A Presidente Vargas está destruída, com prédios inteiros abandonados, mendigos e marreteiros, ladrões e crackeiros, circulando com olhos esgazeados de crack. Caixa Economica, Banco do Brasil, Bradesco, Banpará, C&A, o caralho (desculpem, mas não há como evitar), nenhum deles pensa em cuidar da avenida. Em usar os prédios para fins culturais ou educacionais. Em devolver à cidade o dinheiro que ganham a rodo. É escrotice. Muita. Desamor. Odeiam o Pará. Odeiam-nos. Vivem do nosso dinheiro e nos odeiam.

E nós? Você que teve a paciência de ler até aqui, deve concordar, xingar, também, depois, dizer que porra, alguém devia fazer alguma coisa. E pronto. Vida que segue. Não é, aparentemente, nenhuma agressão à sua pessoa, nada que aparentemente o afete. Mas afeta. Machuca. Agride. Diminui. A sua, a minha cidade está destruída, abandonada, achincalhada, humilhada. O que podemos fazer. Eu, por enquanto, ao menos, escrevo este. Vamos fazer mais?