sexta-feira, 15 de junho de 2018
A NOVA COPA
Será
que nos animaremos para a Copa do Mundo? Creio que sim. Aguardaremos a primeira
vitória e as ruas vibrarão. Com nossa alma de cachorro vira lata, como dizia
Nelson Rodrigues, ergueremos os punhos gritando, diante do mundo “dobrem-se ao talento
brasileiro!”. Ao menos no futebol. Não me lembro da primeira Copa em 1958.
Tinha apenas quatro anos, mas havia um elepê contendo a narração de todos os
gols da seleção. O irmão mais velho tocava sem parar. Um problemão. A
transmissão chegava com má qualidade. Assim, meu pai trancou-se em seu
gabinete, no apartamento, colocou fones de ouvido e passou a dublar a narração.
Uma façanha. Quanto a nós, ficamos proibidos sequer de falar, quanto mais
correr e gritar em brincadeiras, para não atrapalhar seu trabalho. Imaginem as
ameaças que recebemos. Enfim, certamente, a de maior envolvimento emocional foi
a de 1982. Eram meus ídolos em ação, o Flamengo campeão do mundo, dando show de
bola, até aparecer Paulo Rossi. Pessoas choraram pelas ruas. Baixo astral. Foi
como tomar pirulito de criança. O futebol começou a mudar. As contratações.
Nossos craques, como Falcão, Zico, Sócrates, Júnior, Oscar, sei lá quem mais,
foram encantar os europeus. E chegamos hoje, em que os clubes europeus são
verdadeiras seleções com os melhores jogadores do mundo. O esporte globalizou.
Isso me fez pensar. Tenho uma idéia. Quero dividir com vocês. Deixem todas as
opiniões de lado, por um instante. Quando as Copas começaram, há muito tempo
atrás, as equipes viajavam de navio. As comunicações também eram difíceis.
Então, os encontros eram surpreendentes. Escolas diferentes de futebol. Lembro
que em 1958, todos aguardavam a seleção russa, que praticaria o futebol
científico. Bem, Mané Garrincha acabou com tudo. Mas havia a Italia e seu
ferrolho. Os ingleses e o jogo aéreo. Os húngaros geniais. E os brasileiros,
que jogavam sambando. Até tinha sentido cantar o hino nacional antes dos jogos,
como se fossem dois exércitos para a guerra. Hoje, tudo mudou. Para a maioria
de jogadores consagrados e ricos, a Copa é um torneio de verão, já que deviam
estar de férias após estafante temporada, mas que paga bons prêmios, renova
contratos de publicidade, enfim. O resto é propaganda. Experimentem passar uma
semana fora do Brasil. Provavelmente não lerão ou assistirão nenhuma notícia
daqui. Imaginem um jogador de futebol, distante de casa, treino e jogo,
conquistas, riqueza, um, dois, quatro anos. Perdem a ligação, nem lembram da
torcida brasileira. Chegam aos treinos de helicóptero. Joga-se da mesma
maneira, globalizada, hoje, no mundo inteiro. Minha idéia, preparem-se: cada
seleção é escolhida entre melhores jogadores em ação em cada país. Nada de
nacionalidade. A seleção será de jogadores vistos a cada jogo, em cada país.
Sim, dirão que Espanha e Inglaterra, por exemplo, serão favoritas. Pode ser,
mas a seleção brasileira, acho, jogará da maneira que jogamos aqui. Com os
ídolos locais. Perdemos referencia. Somente quem assiste a jogos internacionais por canais
fechados, acompanha os craques brasileiros. A seleção nem faz amistosos por
aqui. É mais barato reunir os jogadores na Inglaterra, por exemplo. Estranho?
Ficamos mais fracos e não seremos mais o destaque? Pode ser. Mas será o espelho
do futebol em cada país. Penso também que torceremos mais fervorosamente por
craques aos quais assistimos durante a semana, em nossos campeonatos. Minha
idéia. O que acham?
sexta-feira, 8 de junho de 2018
REUNIÃO DE FAMÍLIA
Não
sei se isso continua a acontecer. Nos dias de hoje, todos parecem preferir a
solidão, andando pelas ruas com seus fones de ouvido, como se não quisessem ser
perturbados por nada. Mas eu me lembro, antigamente, mês de julho, Mosqueiro,
ou Moscow. O pai chegava depois das seis, no Presidente Vargas, sexta feira.
Desembarcava do ônibus que ia parando nas praias, para que os pais de família
passassem o final de semana com os seus. A vida começava a melhorar. O pai, que
antes trabalhava de manhã, de tarde e de noite, para alimentar cinco bocas
famintas, agora tinha os finais de semana. Os filhos adolesceram e ele, também.
Tivera um conjunto musical quando solteiro. A mãe era a cantora. Quando
casaram, guardou o violão e foi à luta. Ela chefiou aquela gang de cinco,
usando sua imaginação delirante. Deu no que deu. Dos cinco, quatro são
jornalistas e três, radialistas também. Sim, aquele final de semana. Trazia
jornais, claro, revistas e alguns mimos para os filhos. E mais tarde, banho
tomado, jantado, ia até o pátio levando o violão. Sentávamos em volta. E
tocava. Primeiro as músicas que gostava, para matar a saudade da semana
difícil. E depois, apontava para cada um, que também tinha de cantar.
Deixávamos de lado músicas autorais e fazíamos sua vontade. Músicas antigas, as
quais sabíamos as letras. Caetano, Paulinho da Viola, bossa nova. Ele
acompanhava. Fazíamos côro. Quer algo melhor que um pai, cercado dos filhos e
da mãe, cantando juntos. Bem, não posso garantir, principalmente por meu lado,
qualquer qualidade no canto, mas isso não era esperado. Bom era estar juntos.
Mais tarde, saía com a mãe para encontrar amigos de seresta. Imagino que em
outras casas, isso também acontecia. Talvez não fosse o pai, mas alguém levava
o violão. Cantavam Chico, Caetano. Cantavam Jovem Guarda. Era tão bom!
Foi
disso que lembrei quando ouvi o disco gravado por Caetano Veloso e seus filhos,
em show que vem percorrendo o país e até já esteve aqui. Não, não estive no
Hangar. Não ia machucar meus ouvidos com o som horrível dos shows que lá
acontecem. Assisti a algumas gravações em programas de tv e instagram. Imagino
que a idéia tenha vindo em alguns dos saraus que Paula Lavigne promove no
apartamento onde moram. Penso no peso que deve ser ter um pai como Caetano
Veloso. Em outra esfera, claro, eu e meus irmãos nunca sentimos isso, mas sei
lá, talvez todos esperem a mesma genialidade, apesar disso quase nunca
acontecer. Caetano, Moreno, Zeca e Tom. O repertório foi ajustado para que
todos tivessem alguma música de sua autoria para cantar. E todos dividem vários
instrumentos. Quem assistiu ao show, deve ter visto. A abertura é com “Alegria,
Alegria”, com Tom participando. Depois vem “O seu amor”, uma das mais belas
músicas de Gilberto Gil, feita para os Doces Bárbaros, com solo de Moreno. E lá
vem “Boas Vindas”, samba de prato, seguida por “Todo Homem”, que virou single e
tema de minissérie, autoria e solo de Tom. Sim, é curioso que tenha escolhido o
falsete para se expressar. A frase “todo homem precisa de uma mãe” emocionou a
todos. Há algumas das últimas safras de Caetano, que não gosto. Quando começa a
ficar chato vem “Oração ao Tempo”. Canções feitas para Dona Canô ou para
Paulinha. Músicas como “Reconvexo”, que fez para Bethania e “Força Estranha”,
que Gal gravou. É um show que está correndo o Brasil, mas é como se estivessem
no apartamento, família, todos em volta. Claro, quando o pai canta, é
maravilhoso. Me lembrei dos julhos de Mosqueiro, de meu pai e de um tempo
inesquecível.
sexta-feira, 1 de junho de 2018
UMA HISTÓRIA DE AMOR
É
impressionante como nos mais inóspitos lugares do planeta, encontramos
sentimentos como amor, paixão, traição, ambição, vingança, como nos textos de
Shakespeare. Laura Restrepo é uma festejada jornalista investigativa. Estava
pesquisando um assunto de tráfico de drogas quando topou com a cidade de Tora,
na selva colombiana, próxima a um poço de petróleo, administrado pela Tropical
Oil Company. Uma vez por mês, os petroleiros descem das montanhas e vão gastar
seu dinheiro na zona de prostituição da cidade, La Catunga. E aí, tudo
acontece. Laura começa entrevistando as velhas prostitutas e cafetinas e
descobre uma grande história de amor. Há um garoto, Sacramento, criado sem pai
nem mãe. Um dia, chega a La Catunga uma menina, pedindo para ser levada para a
zona. Uma criança. A cafetina a examina e percebe que a menina tem algo a
oferecer. Dá-lhe banho, tira piolhos e a alimenta. Inseparáveis, ela e o
menino. O tempo passa. Chega o momento dela virar puta. Escolheram o parceiro a
desvirgina-la. Sacramento, apaixonado, sai pelo mundo disposto a fazer
dinheiro, retornar e casar com ela. O nome da agora mulher é Sayonara, porque
tinha algo de oriental nos olhos. Vira lenda. Seu nome vira poesia na boca dos
felizardos clientes. Enquanto isso, o garoto arruma um parceiro de desventuras,
Payanés. Trabalha no poço de petróleo. Como quase todos, pega malária e
amebíase. Fica à morte. Dá ao parceiro o dinheiro que guardara para levar à
menina, para que saísse de La Catunga. Payanés vai e se apaixona. Sayonara
também. E lhe dá uma mecha de cabelo, como compromisso. Quando o parceiro
volta, o amigo se recuperou. Sem graça, entrega-lhe a mecha. Em torno, há
muitas e muitas histórias. Houve uma grande greve, tiros, mortes. Sayonara
pensa que vai casar com Payanés. Não. Ele prefere daquele jeito. Ela se
aborrece, ele sai por aí sem rumo. Mas o Sacramento, agora homem, volta. Com a
greve, a companhia agora oferece casas aos petroleiros. Pede em casamento. Ela
aceita, mesmo sem o amar, a não ser como um irmão. Ele a prende em casa,
durante o dia. Morre de ciúmes e de que alguém a reconheça. Não pode ser assim.
Sai da cidade. Trabalha em uma serraria, na selva. Na hora do almoço, as
esposas levam a comida. Mas quando Sayonara surge, todos fazem silêncio. O
garoto não pode aceitar. Muda-se para outra cidade. Agora, ela trabalha como
dama de companhia de uma senhora que tem dinheiro. Passa o dia trancada. Uma
prostituta de La Catunga a vê. Fala que todos têm saudade. Sayonara não está
mais suportando aquela vida e retorna. Deixa o marido que não ama. Lucia
examina a história de Sayonara. De onde veio, menina, querendo ser prostituta?
Descobre a cidade. Havia um branco que casou com uma índia. Teve quatro meninas
e um rapaz. Este, se apaixonou por uma filha de família rica. O irmão da moça
não gostou. Era do exército. O rapaz também servia e agora era submetido
diariamente a todo tipo de humilhação. Um dia, reage. O irmão da moça o prende
em um buraco até que ele morre. Ao saber, a mãe, índia, vai para a frente do
quartel, derrama-se álcool e toca fogo. A menina foge. Quanta história! Quando
Sayonara retorna a La Catunga, já não está tão lúcida. Põe-se diariamente a
esperar o retorno do seu amor, Payanés, nem que fosse para os encontros
mensais, como prostituta. Mas ele não retorna, nem Sayonara sai da beira do
rio. Um texto magnífico! Lançamento da Companhia das Letras.
sexta-feira, 25 de maio de 2018
MINHAS LEITURAS
Como
sabem, sou um leitor vulgar. Leio sem parar os livros que me agradam pela capa,
informações, trechos ou críticas. Hoje decidi dividir com vocês alguns desses
livros que tenho lido e que creio, vocês poderão gostar também. A sorte, a
chance, aquele momento pode se oferecer a qualquer instante. Como dizia
Shakespeare, “para tudo, é preciso estar pronto”. É o caso de Geovani Martins,
um carioca que morou em várias favelas do Rio de Janeiro e que começou a escrever
para se divertir. Paralela à Flip, feira que acontece em Paraty, com autores
internacionais, acontece a Flup, em favelas, visando o surgimento de novos
escritores. Um deles é Geovani Martins, que teve um conto publicado em uma
coletânea a partir do evento. Ano seguinte, Geovani foi dar um rolê na Flip.
Encontrou um dos promotores da Flup, flanando por lá. Este, o apresentou a um
dos donos da Companhia das Letras. Pronto. Virou sucesso. Lançamentos,
promoções, programas de televisão. Seu livro é “O Sol Na Cabeça”, com vários
contos, todos focalizando a vida de jovens nas favelas. E qual será o segredo
de Geovani para se destacar, além da sorte de assinar com uma das maiores
editoras do Brasil? A linguagem. É como se ele nos colocasse nos morros, nas
rodinhas, amigos e traficantes, trabalhadores e vapores, nos ônibus em que a
moçada dá um teco e vai para Copacabana, ou Ipanema, agitar e assustar a classe
média. Sobretudo no aplaudido “Rolezim”. Geovani como que nos coloca dentro da
cena, abicorados, em segurança, mas sacando tudo. E não é isso? Os telejornais
cada vez mais mostram reportagens com câmeras nervosas, correndo entre os
barracos, visando flagrantes. Geovani nos põe do outro lado. Nem todos os
contos mantém o nível e agora ele se prepara para o primeiro romance. Terá
fôlego? Vamos ver. Sem ser exatamente o outro lado da moeda, recomendo “Fiel”,
romance de Jessé Andarilho, da mesma turma de Geovani, morador de favelas, que
já começa contando história de gente lá de dentro do morro. As gírias, medos,
alegrias e tensões de um garoto bom de bola e de conta que aos poucos torna-se
chefão da droga e cai, claro, como sempre ocorre. A narrativa é muito boa, mas
Geovani parece mais esperto, mais comunicativo. Jessé lança seu livro pela
Objetiva, selo Favela, sem os fogos de artifício da Companhia das Letras, mas
recomendo a leitura. Outro livro interessante é “Tudo pode ser roubado”, de
Giovana Madalosso, lançado pela Editora Todavia. Uma garçonete que trabalha nos
Jardins, São Paulo, e que também faz programas sexuais, aproveitando para
roubar peças de grife por onde passa. Giovana é outra estreante com linguagem
rápida, agradável, urbana e sem preocupação alguma de erudição. Um cara oferece
dinheiro para se aproximar de um professor e roubar um livro raro. Para quem
conhece a cidade, muito legal por permitir que nos situemos nas cenas.
Finalmente, um dos grandes livros do ano, de Martha Batalha, também pela
Companhia das Letras, “Nunca houve um castelo”, seu segundo trabalho, após o
festejado “a vida invisível de Eurídice Gusmão”, que não li. Martha mistura
fatos e ficção. No começo do século passado, Ipanema era uma praia selvagem, no
meio do mato. Um casal sueco, ele embaixador, ela levemente biruta, veio para o
Rio de Janeiro. Uma casa em forma de castelo foi construída. Filhos nasceram. E
outros habitantes foram chegando. A espevitada Laura Alvim, é uma. A vida segue.
Veio Getulio. Bossa nova, revolução. Gente que morre, gente que nasce. Uma
praia, um bairro famoso no mundo inteiro. Martha tem um talento especial para
traduzir as famílias da classe média carioca. E para contar história. E houve,
mesmo, um castelo em Ipanema? Recomendo.
sexta-feira, 18 de maio de 2018
TODOS TÊM SEU DIA
Foi
o mau cheiro que chamou a atenção. Começou o disse me disse. O Pássaro Preto
morreu. Ninguém tinha coragem de entrar no barraco. Chamaram o Samu. Chama a
Polícia? Tédoidé? Os caras vão entrar quebrando tudo. Vai sobrar pra gente. Demorou.
O cheiro piorou. A ambulância chegou. Porta fechada. Bateram. Nada. Ele morava
só. Arromba ou não arromba. Entraram. Tudo humilde. Pequeno. Fogão, filtro,
televisão antiga, ainda de “bunda grande”. O corpo estava na rede. Ainda
chamaram. Seu Pássaro Preto! Nada. Estava começando a endurecer. Alguém foi até
a porta e disse que estava morto. Mas ninguém entrou. Medo. Até morto o cara
metia medo. Os enfermeiros ligaram pro IML. Mexeram nas coisas. O documento.
Ariovaldo Brasil de Seixas. Da porta, disseram: é o Pássaro Preto! Quem? Ele. O
morto. Vocês que são vizinhos, não viram nada suspeito? Ninguém entrou na casa?
Todos balançaram a cabeça. Nem que tivessem visto, diriam alguma coisa. Me
arranja uma vela? Deitaram o corpo do morto em uma mesa. Acenderam uma vela.
Foram embora. Outro chamado. Ali ficou. Ninguém em seu velório. Um dos
moleques, curioso, fez que entrava. Um grito da mãe e parou. Chegou uma
viatura. O que foi que houve? Desembucha. O vizinho morreu. O Samu veio, né?
Ligaram pra gente. Está morto. Sabem como foi? Silêncio. Viram alguém estranho
entrando? O corpo não tem sinal de luta, nada. Os policiais entraram. O mais
velho saiu abalado. O Pássaro Preto morreu. Todo mundo tem seu dia. Aí chegaram
uns e fizeram uma roda. Ele não prestava. Era muito calado. Não falava com
ninguém. Soube que ele matou uns caras aí. Quer dizer, ouvi falar, né? Sai
outro soldado com um revolver e munição. O mais velho disse que, se não tivesse
de apreender, ficaria com a arma, de recordação. Isso é uma relíquia. Sim, o
Pássaro Preto era pistoleiro. Matava por encomenda. Talvez o mais velho. Estava
acomodado. Superado. Agora tinha poucas encomendas. E tu contas assim,
tranquilamente? Porquê nunca foi preso? Esse monstro devia era estar na cadeia
pra vida inteira. Ele era esperto, matreiro. Não matava por prazer. Era um
trabalho como outro qualquer. Sem emoção. Matou um cara no banheiro do estádio
da Curuzu. O cara foi mijar durante o jogo. Matou e depois foi comer
churrasquinho de gato. Ficou assistindo a confusão. Um tiro. Não gostava de
gastar bala. Começaram a chegar outras viaturas. Uma romaria. A gente não dá
nada por ele, né? Baixinho, velhinho. É? Te mete. O moleque foi abelhudar pela
fresta da casa, ele pegou pela orelha. Foi pro hospital com a orelha descolada.
Pergunta se o pai do moleque foi tomar satisfação. Uma mulher perguntou se o
soldado sabia se ele tinha algum parente. Alguém para reclamar o corpo. Não.
Acho que ele era só. Ninguém vai entrar na casa por medo? O cara está morto,
gente. Sabe lá. Ele parecia ter parte com o diabo. Se vestia de preto. Usava um
desses chapéus de boêmio, sabe? Dormia de dia. Saía de noite. Uma vez chegou
bêbado, tropeçando. Não conseguiu abrir a porta da casa. Dormiu sentado. A
minha mulher disse que eu devia ir lá ajudar. Tédoidé? O IML chegou. Vai fazer
a autópsia. O camburão foi embora. Os vizinhos invadiram a casa para levar o
que pudessem. O corpo ficou na geladeira. Disseram que foi ataque no coração.
Fulminante. Mas o enterro foi de luxo. Ninguém sabe quem pagou. Caixão de luxo,
coroas e cemitério particular. Não tinha ninguém na hora de enterrar. Mas o
enterro foi de primeira. Todo mundo tem seu dia.
sexta-feira, 11 de maio de 2018
BOM DEMAIS!
Princesa,
hoje vamos para a festa de São João da tia Carola! É, festa de aniversário. Eu
sei que já teve festa no colégio, mas essa da tia Carola é festa de verdade.
Com fogueira e tudo. Sim. Não tem perigo, é no sítio do seu tio Vavá. Lá não
tem problema. Não tem prédio por perto, nada. Pode, pode usar seu vestido do colégio.
Pede pra mamãe pintar seu rosto, igual a uma caipira. O que é uma caipira? Bem,
é isso aí que fizeram no colégio. Galinha caipira? Bom isso já é um prato,
olha, pergunta pra sua mãe que é melhor. Quando chegaram, a casa já estava
animada. Carola passava o dia no sítio, preparando tudo. Tinha até banho de
cheiro, coroa de São João para quem quisesse, quentão, enfim. Dávamos abraços e
acudi minha Princesa. Ela encarava, estática, uma galinha. A cada movimento,
observava atenta. Pai, onde bota as pilhas? Ou bateria? Um trio de sanfona,
zabumba e triangulo já tocava para alguns dançarem. E pelo meio, passavam feito
essas motos no trânsito, crianças correndo, gritando, driblando, caindo ao
chão, aos prantos com joelhos ralados, enfim, uma beleza.. Os homens estão em
um canto enchendo a cara. As mulheres do outro. Black out. As mulheres gritam.
As crianças correm. Todas chamam por todos. A turma da companhia estava
regulando o motor de luz. O Ricardinho, que é muito curioso, nem foi brincar.
Quis ver melhor o conserto. Para ter equilíbrio, apoiou-se na chaminé, que
estava bem quente. Agora aquele bolo de mães em volta dando palpites. Chama o
Ademar que ele é médico, né? Mas passou. Agora vai ter show. Show de quem? Os
moradores da região têm um boi para dançar. Pai, um boi que dança? Boi bumbá.
Você vai gostar. Fica junto do papai. Pai, eles são como a gente? Claro. São
diferentes. A cor da pele. As roupas. São iguais. O resto é porque nós somos da
cidade e eles são daqui. Pegam muito sol. É só isso. Presta atenção. E o boi
dançou pra valer. Palmas, muitas palmas. Adorei, pai. Todos voltaram a seus
lugares. A Princesa foi atrás deles, na copa, onde comeram. Tia Carola veio e
botou uma coisa dentro da camisa do chefe deles. O boi agora estava de lado,
apoiado na parede. Veio a Clara, da minha sala. O Beto quis me beijar. Mentira,
mana, me conta. Nem viram, no escurinho, o Bernardo Augusto pedindo pra namorar
com a Teka. Uma noite para ser lembrada. Querida, já comeu alguma coisa? Não
gosta de aluá? Irc. Tem cheesburger, pizza? Tá bom. O Bernardo Augusto passou
com um carão. A Teka deu pau na testa dele! Não zanga, Bebê, há tanta menina
bonita por aqui. O pai levantou para fazer um discurso. Tonteou. Não empurra,
cara. Ninguém havia empurrado. Também, estavam entornando todas! Vamos passar
fogueira? Eu, naquela fogueira de verdade? Nem morta! Quem quer ser minha
comadre? Não podia dar certo. Tropeçaram e o fogo deu na bainha da calça do Tio
Alfredo. Foi aquela correria. Mãe, ta todo mundo lá no quarto. A Fernandinha
bebeu aquele negócio escuro, cheio de planta, que estava na bacia, lá no
quintal. Ela bebeu o banho de cheiro! E tem sempre aquele tio com mania de
fogueteiro. Enquanto estavam na base da estrelinha e traques, ele chegou com
aquele canhão. Uma maravilha. Fica um dia. Abre lá em cima uma cascata de
estrelas. E as crianças em volta. Espera aí, Orlando, o pai se pronunciou. Assim
já é demais. Isso é perigoso. Tem criança por perto. Que nada, deixa de ser
medroso. Medroso nada. Tá bom, mas chama seu Otávio aqui. O caseiro. O senhor
tem coragem de soltar esse foguete? Otávio olhou para o artefato, olhou em
volta, sentiu a expectativa, encheu-se de brios e aceitou. Afastem-se! Ficou
aquele silêncio. A música parou. A correria. A conversa. Seu Otávio no centro,
sério, compenetrado. Acenderam o foguete. Fumaça. Disparou. Ih, em vez de
subir, desceu ao chão fazendo imenso barulho. A fumaça tomou conta. Seu Otávio
sumiu na fumaça. Tio Vavá e papai correram. O senhor está bem? Seu Otávio olhou
em volta e gritou: estou soorrdooo!!! A música recomeçou: olha que isso aqui tá
muito bom, isso aqui tá bom demais!
sexta-feira, 4 de maio de 2018
GRANDE TEMPO!
Nelson
e Haroldo Maués foram meus ídolos na adolescência. Irmãos, jogavam basquete no
Clube do Remo. O ginásio “Serra Freire”, recém inaugurado, lotava para ver as
partidas. Nelson depois trocou o Remo pelo Payssandu em ação muito criticada ou
elogiada, dependendo dos lados. Eu também os via jogando futebol em uma pelada
que acontecia, acho, às quartas feiras, no Lago Azul, em campo de terra, mas
com holofotes. Haroldo, também conhecido por “Manolinho”, era o mais agitado,
fazendo muitos lances de efeito. Nelson, mais pragmático, era certeiro. Os
jogos do campeonato juvenil brasileiro foram um grande momento. Poucos minutos
antes do fim de uma partida, houve uma dúvida se a bola tocara ou não em
Haroldo, antes de sair pela lateral. Ele confirmou, naturalmente, e o Pará
perdeu. Pior, em outro momento, Nelson, que não atuava pelo Pará e sim na mesa
como o cara que toma conta do placar, precisou intervir e dizer a contagem
certa, dando a vitória à outra equipe, para desespero dos perdedores.
Honestidade, simples assim. Ele lançou um livro sobre sua vida, na boate da
Assembléia Paraense. Parecia um álbum de figurinhas antigas. Todas as grandes
figuras do basquete estavam presentes, azulinos e bicolores irmanados pela
amizade que sempre houve, apesar da rivalidade. E haja lembrar de fatos
marcantes, inesquecíveis. Belém era outra, ali da metade dos anos 60 para os
primeiros anos 70. Encontrei com Sônia Regina, a quem todos chamam de “Sonhão”.
E começamos a lembrar. Naqueles dias, a informação era rara, mas a vontade de
viver novos tempos vibrava em todos. No Teatro, era tempo de “Aquarius”, “Jesus
Christ Superstar”. Então, aqui, tínhamos o Grupo Experiência, mais pensadores
como Luiz Otávio Barata, ainda hoje influenciando tanta gente. Escrevi minha
primeira peça, a qual intitulei com a petulância da idade, de “carimbopera”.
Era “Foi Boto Sinhá”, com o auxílio luxuoso de José Maria Villar. Gilberto
Coutinho vestia a rapeize com sua “Carnaby”, no sub solo da galeria da AP, onde
também havia a boate “Porão”, que sonhávamos frequentar, embora ainda não
tivéssemos idade. Lá da boate da AP, ficávamos com olhos compridos. Sonia
Coutinho era a modista jovem, com mil idéias. Havia também Pampolha, o “Pampy”.
Criatividade a mil. E de repente, havia um grande desfile, na rua, com Sonhão,
Rui Nobre de Brito, e outras lindas. Quase no final veio o Zeppelin, com meu
irmão Janjo e Luiz Braga. Dançavamos disco music na Signo’s Club, com som de
Tarrika, Alberto Pinheiro, Floriano até o sol raiar. Edwaldo Martins comandava
os colunáveis e badalava os artistas. Eurico Mendes e Juan, o chileno, mandavam
nos cabelos das mulheres. E fofoca, muita fofoca. Um número do Zeppelin chegou
a ser abortado, apenas por anunciar uma entrevista com Juan, que iria “contar
tudo”, em um domingo de julho. As dondocas tremeram. Poderes mais altos se
“alevantaram” e foi preciso pensar em outro entrevistado. Foi tempo da 33 ¼,
loja de discos que abri, com Floriano, na esquina da Brás com Rui Barbosa.
Também dançávamos na Papa Jimi, com uma foto imensa do guitarrista, na porta.
Na música, Fafá de Belém começava a aparecer, antes cantando acompanhada do
mestre Álvarito, na boate do hotel do Comendador Marques dos Reis. Em julho, a
cidade ficava vazia porque todos iam para o Mosqueiro, dançar no Netuno Iate
Clube, Praia Bar e no Ariramba. Grandes tempos. A geração dos anos 80 também
aprontou muito. A partir daí, acho que o mundo perdeu um pouco do gás. Às vezes
acho que a garotada, hoje, prefere bater palmas, na plateia, do que ir para o
palco influir na cena. Ah, o livro do Nelson Maués, “De Belém a Xangai”, está à
venda na Fox.
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