sexta-feira, 18 de setembro de 2015

IT'S SHOWTIME!

Eu estava no ginásio da Ufpa lá pelo começo dos anos 70, na arquibancada, aguardando o início do show. O Som Imaginário, com todos os gênios que conhecemos, inicia um estrondo uníssono. O som vai reverberando e então surge Milton Nascimento e canta “chegou no porto um canhão”. Sinto uma corrente elétrica atravessar o corpo. A plateia vibra. Claro, havia insinuações políticas, mas para mim, valeu a emoção. Nunca esqueci. Estava ouvindo no carro, pela enésima vez a abertura do “Get Yer Ya Ya’s Out”, dos Rolling Stones, ainda com Mick Taylor na guitarra. O apresentador se esgoela, a plateia vibra, Jagger diz alguma coisa, aproveitando para testar o microfone e lá vem “Jumpin Jack Flash”. Querem um início de show melhor que esse? Impossível ficar parado. Quem estiver ao lado do meu carro, talvez perceba que ele esteja balançando. Como as aberturas dos shows de Michael Jackson, com fogos, projeções, metais em fogo e lá está ele, esguio, dançando. Não dá para esquecer. Agora o show é de Joe Cocker, Mad Dogs and Englishmen, que virou filme, final dos anos 70, todos em um avião circulando pela América, troupe de hippies, mulheres e filhos. Leon Russel nos arranjos e piano. E eles iniciam uma abertura espetacular, com os metais ardendo, bateria, guitarra, piano, até que surge Cocker e o som encaminha para Honky Tonk Women. E não posso esquecer do final de show de Jackson Browne, e a música que fala dos técnicos que chegam antes e são os últimos a deixar o palco. E da estrada, pois enquanto todos já dormem tranquilos em suas casas, os caras já estão a caminho de outra cidade. O King Crimson, com Fripp calado, soturno, alguns toques aqui e ali para saber se está tudo ok e lá vem desmoronando com tudo um prédio inteiro na imagem de “Twentieth Century Schizoid Man”. Cara, não dá para resistir. Lembrei agora do primeiro show de Jimi Hendrix Experience, no Festival de Monterrey. Ele que circulava pelo país anônimo, foi para a Inglaterra e agora retornava chamado de deus. Tímido, desconhecido, ele dá os primeiros toques do riff e explica que está afinando a guitarra e que vai tocar algo que todos ali conheciam, autoria de um certo Bob Dylan. E lá vem desabando com tudo em “Like a Rolling Stone”. Esse show chegou até mim em um vinil com lados diferentes, um com Otis Redding e outro com Jimi. É ouvir e ser nocauteado, tão bem feito é o som. Noel Redding segurando a onda e Mitch Mitchell socando seus tambores. O próprio Roberto Carlos, mesmo melado de todo o castelo de doces que está sempre cercado, quando canta “Emoções”, é bem interessante. Lembro de um show de Nilson Chaves, no Teatro da Paz, acompanhado de orquestra. Todos aguardando um início retumbante, cheio de cordas e ele vem pela entrada do público, cantando a cappela, lentamente, percorrendo a plateia até subir no palco, aplaudido delirantemente.

Fico pensando no que se passa na cabeça de um artista assim, já acostumado às ovações, talvez com um certo enfado de, noite após noite, repetir o mesmo show. Há o lado profissional, que faz com que todos façam o máximo, até porque é impossível não reagir às grandes plateias, apaixonadas, cantando os hits. Essas bandas que brigam por motivos alheios e se apresentam sorrindo, um para o outro, de mentirinha. Os que tomam alguma coisa para manter a emoção e o embalo. It’s showtime! Um frisson percorre os corpos. Que comece o show!

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

NÓS, OS INVISÍVEIS

É a segunda vez que escrevo sobre esse assunto. Na quarta passada, lancei meu sexto romance em edição nacional para a Boitempo Editorial, chamado “Pssica”, que felizmente está sendo extremamente bem recebido em São Paulo e Rio de Janeiro, onde é maior o consumo de Literatura. Na próxima semana, volto à França, para um festival, ainda por conta dos três livros traduzidos e lançados por lá pela Asphalte Editions. Na volta, fico em São Paulo para mais atividades. Devo ir à Bienal de Pernambuco. Estou muito contente pela boa receptividade à noite de autógrafos, na Livraria da Fox. Devo isso à divulgação do “Pssica”, dos prêmios europeus e, como não dizer, à presença semanal em O Diário do Pará. Não posso esquecer que também, semanalmente, republico a crônica em mídia social. Talvez pudesse dizer que devia estar satisfeito. Para o que alcancei, como querer mais? Quero mais. Vivo no Pará. Em Belém. Todo meu trabalho foi feito a partir da cidade e seus arredores, mesmo em outros gêneros, como poesia, contos, teatro e jornalismo. Gostaria de não ser invisível em minha própria cidade. Esse é um problema meu e de todos os outros que militam na Cultura. Todas as áreas. Mas particularizo, aqui, a Literatura. Recebo grandes elogios nos maiores jornais brasileiros. Mas isso não é motivo para entrar em uma Saraiva, ou na livraria do Pátio Belém e encontrar meu livro, lançado nacionalmente, à venda. Um autor paraense frequenta essas livrarias como um anônimo. Ninguém sabe quem é. Ninguém está interessado. Uma repórter me entrevista e depois, curiosa, pergunta se sou irmão do Edgar Augusto. É que achei o nome parecido, diz. Meu irmão mais velho milita nas diferentes áreas da Mídia de maneira excelente e merece todo o reconhecimento. Mas penso que depois de escrever dezesseis livros, escrever outras tantas peças de teatro, escrever semanalmente em jornal, receber prêmios internacionais, essa repórter, que deve trabalhar na editoria cultural, devia saber quem sou. Não sabe. Se não sabe de mim, imagine dos outros. Não temos política cultural do Estado. Pior, muito pior, não temos nada do município. Nossa arte talvez seja vista como uma excentricidade. Escrevemos um livro, lutamos para publicar, na maioria das vezes com nossos recursos. Na noite de autógrafos, recebemos a família e os amigos. E depois? Dos colegas de imprensa, só tenho a agradecer. Mereci toda a atenção nos diversos meios de comunicação. Lamento pelo Liberal, certamente não divulgando porque escrevo no Diário. Que pena. É a segunda vez que escrevo sobre nossa invisibilidade. Na abertura da FLiPa, Feira Literária do Pará, ano passado, perguntei à plateia se nos estava vendo. Estávamos ali, escritores, expondo nossos trabalhos. É que nos outros dias, ninguém sabe quem somos. Escritores como Haroldo Maranhão e Adalcinda Camarão, expoentes da nossa Cultura, estão esquecidos. Escritores de todas as idades esperam um aceno para lançar trabalhos, mas principalmente, para se tornarem visíveis. Leio entrevistas. As dicas de leitura. A maioria, best sellers ou auto ajuda. Nada do Pará. O resultado de tudo isso está na violência, no analfabetismo funcional, na falta de horizontes sobretudo dos mais jovens, nas letras bisonhas do funk, nas pichações e nas postagens em facebook com flagrantes erros de gramática. Sou invisível em minha própria terra. Eu e todos os colegas que fazem Literatura. Que fazem Cultura no Pará. Quando isso terá fim?

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

JIMI HENDRIX, NOVAMENTE

Jimi Hendrix mudou a minha vida. Tinha uns 13 ou 14 anos quando meu irmão Edgar chegou com “Electric Ladyland” e pôs para tocar em nosso quarto. “And the gods made love” foi a primeira faixa. Uma tosqueira nos dias de hoje, a voz em rotação menor e guitarras distorcidas. Aquilo me tocou. E vieram as outras músicas. Havia poucas notícias a respeito. Até hoje guardo uma radiofoto UPI com Jimi mordendo as cordas da guitarra. Até então, ouvia Beatles, Stones e todos os outros. Músicas com 3 minutos de duração. A guitarra de Jimi explodia em notas absurdas e profundas. Pouco adiante, morando no Rio de Janeiro, comprei, ao mesmo tempo, “Are you experienced?” e “Axis: Bold as Love”. De uma vez. Misturaram tudo. E veio a performande em Woodstock. Toda essa introdução para falar sobre o mais novo disco de Jimi Hendrix, “Live in Atlanta”. É um absurdo que passados quase 50 anos, ainda haja gravações desse artista que se foi tão jovem e alcançou o estrelato como um raio. Gil, Caetano e Gal o replicaram na Tropicália. Tal como um hendrixmaníaco empedernido, como diria o Edgar, tenho todos os discos, filmes e livros. Um garoto sem convivência familiar, que rodava os EUA acompanhando os mais diferentes artistas. Brincavam que ele era “doidinho” por fazer truques na guitarra. Little Richard o despediu dizendo que ele queria aparecer mais que a estrela, ele. E de repente ele está na Inglaterra, tocando em clubes, assistido com respeito e inveja por Eric Clapton, George Harrison, Keith Richards, you name it. Não tinha casa, não tinha família, não tinha namorada fixa, seus amigos eram os que encontrava por aí. Entre os shows, passava as noites em jam sessions ou com várias namoradas. Abusava das drogas à disposição naquela época. Quando voltou e estourou na América, os Panteras Negras cobraram mais atitude política. Era um tempo efervescente com Guerra no Vietnã, protestos por liberdades civis, direitos humanos, final dos anos 60. Parecia finalmente mais centrado e declarou que desejava dar um upgrade em seu som. Na Ilha de Wight, começou sério, até que alguém na plateia gritou para ele fazer “todas aquelas coisas sujas”. Há muitas teorias sobre a causa de sua morte. Nenhuma resolve o assunto. Não havia ninguém para ajudar? Dar uma força? Jimi se foi. Foi? A partir daí, ensaios, jam, shows, peças inacabadas, tudo isso vem sendo montado, transformado pela tecnologia e lançado. O pior é que consegue ser melhor do que tudo por aí. Nesse “Live in Atlanta”, está com Mitch Mitchell na bateria e Billy Cox no baixo. São dois shows, com repertórios diferentes. Há uma falsa introdução para “All along the watchtower”, a maravilhosa música de Bob Dylan que ele transformou e se apropriou. Errou o tom? A bateria não veio junto? Quando recomeça, é como um trovão. De resto, estão todos os sucessos, algumas peças longas, blues, naturalmente e o som perfeito, guitarra atacando, tirando notas inesperadas e uma gravação de altíssima qualidade para um show lá no final dos anos 60. Você já ouviu todas essas músicas milhares de vezes, mas compra o disco, talvez como uma homenagem a alguém que mexeu na sua vida, na sua estética, na maneira de compreender a música. Mas chama o filho, mostra e conclui que ele era e é, realmente, sensacional.

* Gostaria de convidar todos os leitores para o lançamento de meu novo romance, “Pssica”, pela Editora Boitempo, no próximo dia 9, a partir das 18.00 horas, na Livraria da Fox. Espero vocês.

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

MÁRTIRES DO SUCESSO

Estava ouvindo mais jazz do que outra coisa. Tinha até um programa, “Jazzmania”. Meu filho mais velho voltou de uma viagem e me apresentou Nirvana. Voltei ao rock and roll. O som pesado, com riffs, refrão melodioso e a voz de Kurt Cobain. Poucos discos depois, o suicídio. Da banda, apenas Dave Ghrol seguiu e faz muito sucesso. Christ Novoselic revelou-se apenas um baixista normal, chegou a gravar disco solo e parou. Acabo de assistir “Montage of Heck”, documentário sobre a vida de Kurt Cobain, recheado de imagens inéditas, gravações e detalhes que afinal explicam os acontecimentos. Ele seguiu outros grandes artistas como Jimi Hendrix, Jim Morrison e Janis Joplin, falecendo aos 27 anos. Foi uma pessoa cheia de problemas, o principal deles, o sentimento de rejeição. Os pais separaram e ele passou a infância e adolescência de uma casa para outra. O rock foi uma bela válvula de escape. Era um grupo underground e de repente, um estouro mundial, multidões nos shows, vendas milionárias e principalmente, um holofote sobre sua vida. Penso sobre a razão de ninguém, com um mínimo de responsabilidade, ter interferido no que parecia um caminho direto para a morte, a libertação dos problemas. Penso que se o sucesso não tivesse acontecido, ele poderia conviver melhor com suas deficiências. Mas temos fome. Queremos devorar os artistas. Mergulhar no seu íntimo. Encarcera-los à vista do mundo. Eram jovens, porra loucas como muitos jovens sem a presença da família, pobres que viraram milionários. A mulher, Courtney Love. Kurt sentia dores terríveis no estomago. Veio o vício da heroína. Veio a filha, Frances. Boatos de drogas na gravidez fizeram com que perdessem a guarda da menina. As letras das músicas eram gritos pedindo socorro. Ao invés de repeti-las com enfado a cada show, serviam como um desabafo. Se o público soubesse o que estava em jogo! Ninguém parece ter se aproximado para cuidar desse rapaz, brilhante, bonito e suicida. Que pena. Transformou-se em um mártir do sucesso.
O mesmo caso, por outras razões, é Nina Simone. Assisti a “What happened Miss Simone”. Sofreu com o racismo. Venceu como pianista e cantora de jazz. Mas vieram os protestos, Martin Luther King, a luta pelos direitos dos negros e ela engajou-se. Anos 60. Mudou o repertório. Ficou séria. O marido, seu empresário, a explorava e não gostou da mudança do repertório. Dava-lhe surras. Ela tinha medo dele. Também tinha uma filha. Teve um colapso psicológico. Parecia sempre aborrecida, séria demais. Naquele tempo, eu era muito novo para compreender. Seu rosto fechado, as músicas, não me atraíram. Resolveu morar na Libéria, sozinha. Fez muitas ações beneficentes. O dinheiro acabou. Os alemães a receberam e ela voltou a cantar para grandes plateias. Mas ninguém foi ouvir a mulher. A pessoa. Suas carências. A revolta contra a sociedade. Morreu pouco depois. Muito cedo.

Os mártires do sucesso. São devorados. Gente jovem, pobre, problemas familiares, mas com imenso talento. A mídia, nós, os devoramos. Ofertas de todos os lados os deixam tontos. Amores pagos, drogas pesadas, vontades realizadas e muito trabalho. Dia e noite e a pressão por dar sempre tudo de si. E quando morrem, ainda queremos comprar gravações deixadas, aquilo que não queriam que ninguém ouvisse. Morreram e continuamos querendo mais. Os mártires do sucesso.

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

EXTREMA VIOLÊNCIA

Extrema é uma cidade com uns 30 mil habitantes, na divisa entre Minas Gerais e São Paulo. Era um entreposto comercial que aos poucos ascendeu a município. Enriqueceu quando indústrias se instalaram, gozando de isenções fiscais de um Estado, e tendo outro para vender. É uma cidade limpa, sem pichações, com população tranquila e aparentemente preocupada com a beleza. Há muitos salões anunciando diversos procedimentos. Na praça principal, há uma bela igreja que  a todo instante toca seus sinos. Apesar de não ter uma livraria sequer em um raio de 50 quilômetros, realizou pela segunda vez sua Feira Literária, mercê do esforço de alguns abnegados, comandados por Marcelo Spomberg, que conseguiu levar até lá um grupo seleto de escritores brasileiros, tendo como tema “A violência na Literatura”. Chego de madrugada a São Paulo. Um homem vem e me pergunta se sol Ariovaldo. Volta mais tarde e desculpa-se. Era a mim que buscava. Gabriel é alto, gestos largos, origem italiana. Dentista, gosta de música, pensa em escrever, mas está feliz em participar da iniciativa. Em Extrema, Júlio trabalha na Secretaria de Cultura. A seu lado, uma moça bem jovem, não lembro o nome. É cantora. Não, não está na programação. Canta rock. Na praça, há um palanque onde estudantes disputam um “soletrando”. Ao lado, tendas abrigam livrarias, contratadas especialmente. Seu Toninho é dono da Queenbooks. Está lá para colaborar. Levou todos os meus livros e dos demais companheiros para vender. Seu Toninho é muito legal e me faz bom desconto nos livros. Aparecem professores pedindo que escreva alguma coisa nos meus trabalhos. Há shows musicais, teatro infantil e oficinas de literatura na programação. A primeira mesa fala sobre Rubem Fonseca. Cadão Volpato, que foi líder da banda Fellini, nos anos 80 e promete uma volta breve, é o excelente mediador. O professor Ariovaldo Vidal, que tem livro sobre o recluso escritor carioca e Paula Parisot, escritora e performer, sua amiga, dão um show. Vamos todos almoçar em um restaurante tipicamente mineiro. Na volta, Ilana Casoy debate com o psiquiatra forense Guido Palomba “Violência: ameaça real e silenciosa”. Ele é teatral. Ela é certeira. Por pouco não vão às vias de fato. Cadão teve trabalho. Ilana me contou que o verdadeiro assassino das crianças emasculadas de Altamira está preso em São Luiz, por outro delito. Confessou a ela detalhes de cada criança vitimada. Quanto ao médico que está preso, é inocente. No sábado, dividi com Marcelino Freire, a mesa “Realidade e outras emoções”. Marcelino é um dos grandes escritores brasileiros. Após outro restaurante mineiro, assistimos Reinaldo Moraes e Raphael Montes debateram “Literatura escrita com sangue”. Reinaldo é quase um mito em SP. Raphael trabalha em roteiros na Globo. Em seguida, Lourenço Mutarelli e Beto Brant conversaram sobre “Cinema Adaptado”. Mais tarde, no cinema da cidade, “Muta” assiste pela enésima vez seu “Cheiro de Ralo”. Todos os escritores na plateia onde uma garrafa de whisky circulava. A noite foi longe, juntamente com a galera da cidade, na praça, festejando sua noite de sábado. Tão pequena, tão simples, Extrema realiza essa Feira porque acredita na Cultura. Lembrei de Belém e da nossa FLiPa. Gente fazendo força pela Literatura. Há sempre idealistas por aí, lutando sozinhos contra a maré braba da cretinice orgulhosa.

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

OUTRA VEZ O TITANIC?

“Sentado, no trilho do trem, todo amarrado e amordaçado, sabendo que o maquinista não é seu parente, nem olha pra frente, o que é que você faria? Eu nesse caso, nem me mexia”. Esse é um trecho de uma marchinha que meus pais cantavam com seu Bando da Estrela. Lembrei disso ao ler o relançamento “Uma noite fatídica”, de Walter Lord, original de 1955 e considerado, entre tantas publicações a respeito do afundamento do “Titanic”, a melhor. O cineasta James Cameron, autor da mais recente filmagem, utilizou-o como fonte de informações. Bem, um mês após o naufrágio, estreava no cinema “Saved from the Titanic”, com Dorothy Gibson, atriz que estava no navio, quando do naufrágio. Mais incrível foi ter saído um livro, alguns meses antes da primeira viagem do Titanic, contando a história do navio Atlantic, em sua primeira viagem, também, e afundando por colidir com um iceberg.

O livro de Lord é excelente porque não tem nenhum roteiro com personagens e um objetivo. É um relato de entrevistas que fez com os sobreviventes e algum estudo, para explicar dados mais técnicos. O sinistro também serviu para uma melhora nas relações. Um mundo novo estava se apresentando e velhos costumes, acabando. Mais de mil pessoas, a maioria que viajava na Terceira Classe, morreu afogada, sem conseguir chegar aos botes, que como sabem, eram insuficientes. Mesmo assim, vários dos botes estavam com apenas 40 ou 60% dos lugares ocupados. Tudo por conta do nervosismo, falta de preparo e absurdos como não permitir que as classes mais baixas tivessem acesso direto ao convés onde estavam embarcando. Os costumes! O senhor Guggenheim, quando percebeu que apenas mulheres e crianças embarcavam, curtiu sua bebida e charuto até morrer. Outro, responsável técnico, não suportou e nos últimos instantes, jogou-se ao mar e conseguiu chegar a um dos botes. Depois, amargurado para o resto da vida, trancou-se em casa. A grande pergunta que o livro fica fazendo, com o relato das vítimas é “o que é que você faria”. Nem se mexia, como diz a marchinha, ou lutava? Confesso que eu pularia no mar. Melhor morrer lutando. Sim, tentaria chegar a um dos botes não totalmente cheios. O pedido de socorro era QDT e o SOS estava começando a vingar. Operadores de rádio não trabalhavam 24 horas. Um navio, bem próximo, fez que não entendeu os pedidos de socorro. Outro, o Carpathia, mudou sua direção e salvou quase mil passageiros, mulheres e crianças a maior parte, congelando, após quatro horas no mar, entre icebergs, com a temperatura da água em -2o. Outros trinta homens, que saltaram para a água, equilibraram-se, a noite inteira, em um bote emborcado. Em terra, aguardando por mensagens os jornais oscilavam entre manchetes esperançosas ou escandalosas. As ações da companhia fabricante do navio despencaram. Lembro que o Titanic tinha um irmão, Olympic, se não estou enganado. Os inafundáveis! E a sensação de estar no meio do mar, gelado? A solidão. A imensidão. Um homem escapou vestido de mulher. Descoberto mais tarde, perdeu-se na multidão, mas com vida. Algumas mulheres decidiram ficar no Titanic e acompanhar seus maridos até o fim. É verdade que a orquestra tocou vibrantemente até o ultimo instante. Assisti o filme de Cameron. Mesmo com Kate Winslet, não é melhor do que este livro de Walter Lord, escrito em 1955 e que no entanto conserva a mesma força, concisão, informação e ritmo. Recomendo.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

ESSE CORPO QUE ME VESTE

Lendo “Em busca de Jesus, fé, fatos e falsificações”, escrito por David Gibson e Michael McKinley, para a Editora Fontanar, deparei-me com uma frase que JC teria dito a Judas Iscariotes, quando revelou-lhe a traição que iria cometer. Disse também, algo como “em breve deixarei este corpo que me veste”. A frase não me deixou por dias. Deixando de lado a questão levantada por JC, lembrei de um artigo que escrevi, no dia em que completei 50 anos. Me olhara no espelho, diferentemente dos outros dias. Não mais, meramente para localizar seus contornos, na direção de escovar os dentes, lavar o rosto, fazer a barba. Não nos detemos nos detalhes. É quase mecânico. Nesse dia, não. O ser que me habita prestou atenção nos resultados que o tempo operou. Rugas, papas, bigode chinês, ralos cabelos brancos, nariz proeminente. A princípio, recusei. Não podia. O cara que me habita não podia ser aquele velho que estava enxergando, naquele dia, finalmente. Foi um choque. A pergunta então é como nos vemos, se é que nos vemos, sem prestar atenção na camisa, calça, sapato da moda. Você consegue se ver? Eu me imaginava mais novo, sem barriga, com essas roupas atemporais que hoje todos vestem, t-shirt, jeans e botas. Esse convívio com jovens que acontece uma vida inteira por conta da Rádio Cidade e Jovem Pan. Olhando para o espelho, para “o corpo que me veste”, me decepcionei um tanto. Felizmente, olhando para trás, não posso deixar de ficar feliz, com tudo o que realizei. E você? Fez a faculdade que queria? Conseguiu estudar ou teve logo de trabalhar? Você que seguiu a carreira do pai, mesmo não querendo. Hoje, estabelecido, familiares, você olha para trás e pode dizer que foi uma boa vida? Você que tinha uma carreira, casou, teve filhos, e hoje está em casa, assistindo Ana Maria Braga. Confesso que fui muito irresponsável com esse “corpo que me veste”. A sorte é ter sempre o esporte na vida. Não tenho hábitos alimentares saudáveis. Faço “o corpo” dormir em uma boa cama, embora, durante o dia, castigue-o com longos períodos sentado no mesmo lugar. O problema, mesmo, é aceitar o desgaste do tal “corpo”. Meu amigo regula de idade comigo. Na pelada, joga de centro avante. Lá vem o cruzamento para a área. Não é na direção de uma cabeçada. Rápido, ele gira o corpo, salta e tenta o que chamam de “bicicleta”. Muito antes de atingir qualquer ápice no salto, para alcançar a bola, ele se esborracha no gramado e fica se contorcendo em dores. Quantos anos pensava ter quando veio o cruzamento e em seu pensamento, a maravilhosa sensação de fazer um golaço? Penso nos jovens e sua disposição para estudar, dançar, praticar esportes, sem nunca denotar cansaço. Muitas vezes emendei direto da festa para um futebol matinal. E quem pensa no corpo que “veste”? Quem me habita gosta de rock and roll, futebol, viagens, livros, filmes, enfim. E quando passa uma “bundinha bonita”, me embriago, surto, lamento e lembro da minha fada”. Você cuida bem do corpo que lhe veste? Jesus não cuidou. Foi agredido, surrado, espetado, chicoteado, furado. Ficou em petição de miséria, como se diz. Mas no caso dÊle, havia muito mais em jogo. Imagino que você que me lê, não tenha que estragar o corpo que o veste, de tal forma que ele suporte muitos mais anos de vida. Como você se vê?