quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Laerte de saias

Li a entrevista em que Laerte, o ótimo cartunista da Folha de São Paulo tenta explicar as razões pelas quais, a partir de agora, passará a se vestir com roupas de mulher, além de maquiagem. Acompanhado de sua namorada, Laerte garantiu sua bissexualidade e que não vê nada demais em preferir andar vestido assim. Também já vi fotos feitas em lugares públicos onde ele transita para a aparente normalidade de todos. Não é. Há milhões de explicações e também vou direto para os travestis das esquinas, que sob a desculpa da necessidade de dinheiro para viver, prostituem-se. Uma coisa é ser gay, corpo de homem, mente de mulher, sentir-se mulher, vestir-se assim. Outra é a prostituição. Claro, pode haver casos específicos de prostituição por dinheiro. As mulheres, principalmente, optam por isso por questões financeiras. E olha que tenho histórias ótimas, colhidas ali nos arredores do Cuíra. Mas os travestis, sei lá. Conheço um rapaz, das mais altas aptidões na área universitária, que na estréia da peça "Quando a sorte te solta um cisne na noite", apareceu travestido. Ponto. Mas o Laerte, hein..

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Enfarruscado

Quando chega novembro, dezembro, não interessa se ainda é verão, começo de inverno, vêm dias enfarruscados. Ouvia minha mãe chamar assim os dias cinzentos, gris, nublados. A temperatura às vezes cai um pouco, o suficiente para aliviar. Mas eu lembro mesmo é da minha infância e adolescência. As férias. A lembrança mais antiga é de estar reunido com meus irmãos na ampla sala do apartamento em que vivíamos, na Presidente Vargas, mesmo prédio em que moro, embora em outro andar. Parecia uma sala imensa. Hoje ainda é bem grande. Ficávamos jogados, largados, naquela doce falta do que fazer. E vinha o Edgar Augusto e botava para tocar um vinil dos Beatles. Ouvíamos contritos. Às vezes, na frente do espelho, fazendo mímica, inventando guitarras. Edgar, mais velho, claro, era sempre Paul ou John. Eu podia ser George. Janjo, às vezes, podia ser Ringo. Minha irmã Celina olhava. Ana Carolina talvez fosse muito pequena. E olhava para o céu e estava nublado. Férias de final de ano. Adiante, estou subindo a então São Jerônimo. Ia à casa de meu grande amigo Abílio Cruz, de quem sinto tanta falta. De repente, nem lembro a razão, puxo do bolso a caderneta e confiro as notas. Me dou conta que, apesar de ter média para passar sem fazer prova final, por qualquer regulamento exdrúxulo, precisa fazer a prova, mesmo que tirasse zero, imagino. Uma correria. Minha mãe no Nazaré. Que bobagem. Mas eram dias enfarruscados. Ia à pé ou de bicicleta para a casa de Abílio. O que fazer? Andar de bicicleta, jogar peteca ou jogar futebol? Ou jogar botão? Ou montar aquelas miniaturas Revell de aviões de guerra americanos? Era novembro, dezembro, férias! Nada para fazer. Tudo para fazer. O mundo era nosso. E o tempo era enfarruscado.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

A Piscina

Eu tinha 14 anos e entre a infância e adolescência, entrei no cinema e assisti "A Piscina", filme de Jacques Deray com música de Michel Legrand. Saí apaixonado. Já havia revisto por conta de uma amiga que me trouxe de Paris. O problema é que meu francês não chega a ser recomendável e muito perdi dos diálogos. Agora assisto com legendas. Não é grande coisa. Há muitos problemas de roteiro. Juntou o casal 20 do cinema francês, Alain Delon e Romy Schneider, que na época também namoravam, ocupando o noticiário fait divers. Junte a eles Maurice Ronet e Jane Birkin.
Alain é um escritor em crise. Vai passar o verão em uma casa maravilhosa, na Côte D'Azur. Passam o dia na piscina, namorando. Maurice Ronet é um produtor de discos. Grande amigo de Alain, já namorou Romy. Telefona e vai passar uns dias. Chega na companhia de Jane Birkin, filha de um de seus casamentos. Vem a tensão. Maurice corteja Romy, que aceita. Para vingar-se, Alain vai atrás de Jane. Há um crime.
Alain Delon é péssimo ator. Maurice Ronet é muito bom. Jane Birkin muito jovem, estreando, mal. Romy, linda, boa atriz. Saí apaixonado por Romy e Jane. Posso dizer que até hoje, minha admiração pelas mulheres corre pelos dois modelos. Romy, corpo anos 60, bronzeada, seios, quadris, rosto, olhos azuis, deep blue. Jane magrinha, branquinha, seios pequenos, pernas arqueadas, charme puro.
É apenas isso. Um filme que marcou minha vida e que tive prazer em assistir, como, noite dessas, rever alguém especial, de longe, claro, que também conheci com 13, 14 anos e nunca esqueci.

Disparando para todos os lados

Li a entrevista de Walmir Bispo, superintendente da Fundação Curro Velho, publicada no Diário do Pará, creio. Walmir foi uma das boas figuras do governo Ana Júlia. Agradeço a ele a contribuição para algumas realizações feitas em parceria com o Cuíra. Contudo, creio que é o momento do Curro Velho ter seu trabalho realmente planejado. Para que serve? Quando foi criado, parece que a idéia era trabalhar com o público do bairro ao lado, extremamente pobre. Se montaram um Curro Velho em Belém, deveria haver outros em todo o Estado. Ou então deveria ter sido iniciativa municipal. Trabalhar com a comunidade, realizar oficinas para jovens. Ao longo do tempo, embora sempre haja crianças chegando, houve uma estagnação. E veio o Iap, que também realiza oficinas, mais direcionadas a artistas que visam um crescimento profissional. O erro que Jatene cometeu ao fatiar a Cultura, erro seguido pelo PT, foi que os órgãos passaram a disparar para todos os lados, sem acertar o alvo. O Curro, segundo Walmir, teve diversas ações no interior. Para quem? Ligadas ao quê? Assim, são tiros n'água. Ouvi certa vez o diretor do Waldemar Henrique anunciando iniciativas no interior. Mas o "Waldemar" é apenas um teatro.
Cultura hoje é algo sério, profissional, não só cumprindo o que está na Constituição, mas também dando empregos e trazendo impostos. Precisa funcionar como um sistema, uma idéia articulada.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Jatene e a Cultura

O que esperar do governo de Jatene na área cultural? Da primeira vez em que foi eleito, já sofreu uma imposição de seu padrinho, o ex governador Almir Gabriel, que forçou a presença daquela figura na Secretaria de Cultura. Jatene permitiu, mas também tirou grande parte de seu poder, retalhando todo o setor, entregue, como sempre, a pessoas sem perfil nem técnica, que passaram quatro anos atirando para todos os lados, sem acertar o alvo. No governo de Ana Júlia foi pior, porque a Cultura foi entregue a um vereador que se aproveitou do cargo para circular, candidatar-se e eleger-se deputado, enquanto que nos demais cargos, pessoas de partidos diferentes, aquinhoadas com cargos, mas nenhuma verba, nada puderam fazer. E agora?
A Cultura precisa funcionar de maneira profissional. Com uma gestão técnica. O falecido La Penha dizia que era importante ser Secretário e Presidente da Fundaçao Tancredo Neves, porque tinha a importância do cargo e a agilidade do outro. Pode ser. O importante é que o Secretário presida a Secretaria chefiando um sistema que tenha no Iap um auxiliar na formação de técnicos e na Secretaria programas de formação de um mercado regional. Que tenha na Funtelpa um instrumento de divulgação disso, tudo funcionando perfeitamente. Será muito difícil, pelo tamanho do Estado. Coisa para alguns governos, mas se as bases forem sólidas, nem governantes de oposição poderão destruir algo que estiver bem feito.
Ao contrário de tudo o que foi dito na campanha, a situação cultural é péssima. Perdemos público, não temos espaços, programas, a Lei Cultural do Estado não funciona porque os patrocinadores desapareceram. Voltamos para uns 30 anos atrás, enquanto que no resto do mundo a Cultura se tornou algo extremamente rentável, seja para artistas, produtores, público, seja para os governos, na forma de impostos e de prestígio. Fico aguardando os acontecimentos.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

O fim do Cinema tesouro e a magia do Teatro viva

Peter Greenaway deu entrevistas esses dias. Esteve no Rio ou SP. É um grande artista. Nem tenho Cultura cinematográfica suficiente para discutir mas assisti algumas de suas obras extasiado. Seus últimos trabalhos foram sobre Rembrandt. Está morando na Holanda. Ficou louco pela técnica do pintor em luz artificial. Imagino o que deve ter feito. Mas Peter está desencantado com o Cinema. Acha que está morto. Acha que webmasters inventaram a arte do cinema participativo, não passivo, onde entramos naquele útero escuro e nos postamos, sentados confortavelmente, para receber aquela carga de informação que vem da tela, daquele ser, daquela boca luminosa. Peter acha que o cinema acabou com a invenção do controle remoto. Talvez esteja falando comigo. Quase não vou ao cinema. Tenho uma boa tela e assisto no conforto de minha casa. Xixi, Coke, biscoitinhos, sabe como é. Disse que não tem twitter pois ou passava o dia atento aos outros e respondendo, ou ia criar. Bem, também não tenho twitter. E Arnaldo Jabor? A Folha não gostou, mas o Estadão fez elogios ao seu "Suprema Felicidade", um "Amarcord" brasileiro. Gosto do Jabor jornalista. Lembro ter assistido "Eu te amo" e ter gostado mais do texto do que do filme. Jabor disse que o cinema tesouro acabou. A ilusão que levava ao êxtase. Agora é o cinema como realidade alternativa. Ou às vezes, como documentário. Leio críticas sobre "Tropa de Elite 2" e acho que as pessoas comentam o filme como se tivessem assistido a um documentário. Como se o Coronel Nascimento existisse e temos de discutir suas ações. É somente um filme. Também penso na espetacularização da violência feita por Hollywood. Há muito que não vamos ao cinema para ouvir o que o filme diz. Ouvir e pensar. É somente aquela torrente de agressões visuais e sonoras, como uma picareta querendo invadir nossa alma. Meu filho me mostrou um jogo em BluRay. Você escolhe quem quer ser. É um sujeito encarregado de matar uma outra em Manhattan. Ih, a Polícia já está atrás. Você sai correndo, atira, mata, toma um carro, segue pelas ruas de Manhattan, logo uma rádio patrulha aciona a sirene, há um mapa da ilha, por onde ir? Deixar o carro, se esconder no Central Park, onde era, mesmo, que estava o cara que iria matar? A veracidade e qualidade do Game me fazem pensar no garoto com pouco preparo intelectual e psicológico, que após passar doze horas seguidas jogando, sai de casa e vai à Academia malhar e de repente, fica pilhado, ligado, máquina de matar pronta para arremedar o Game. Vai à festa não para ver as meninas, mas para estraçalhar outros garotos. Que vai no seu carro e vem um bobo e encosta, bate, sei lá, tranca. É perseguido e estraçalhado. Penso nisso com grande preocupação e estou na porta do Teatro Cuíra, recebendo o público das Gatosas. Muita gente vindo pela primeira vez ao Cuíra. E que só esteve em Teatro para assistir qualquer global que passou por aqui. E ali, naquele lugar simples, mas com o público bem próximo, dá-se a química. Olho seus rostos, olhos atentos, sorriso na face, a mágica acontecendo na sua frente, quase pele com pele. E saem dizendo que gostaram, já perguntaram uma vez se elas são atrizes paraenses, pois parecem de fora, enfim, essas coisas. A mágica do teatro. Semana que vem estreamos "Sem Dizer Adeus" e usamos projeção de imagens. O cinema com o teatro, no caso, o cinema como coadjuvante, como um instrumento a mais para fazer a mágica funcionar. Tomara que gostem.

Estamos começando nossa descida

Acabei de ler este romance, autoria de James Meek e o que me fez comprá-lo foi o fato do autor ter sido repórter de guerra e o tema do livro passar sobre esse cenário. É curioso que após a Segunda Guerra Mundial, exceto o Japão, os americanos terem se metido em guerras que acontecem em países que em tudo diferem de sua Cultura. Coréia, Vietnã, Ásia e África, fazendo com que seus garotos se sintam como o astronauta que desceu na lua. Agora são livros que se passam no Afeganistão, Iraque e Irã. O cara é um repórter do The Citizen, inglês, no Afeganistão, no tempo da guerra contra os talibãs. Realidade inóspita de guerra, perigo, pobreza, deserto de dia, frio à noite, cadáveres aqui e ali. Encontra uma repórter americana. Boy meets girl and. Pois é. O intérprete arranja um lugar para terem uma noite de amor tranquila. Tranquila? Em um abandonado aeroporto russo, de onde podem ver a movimentação do inimigo. Americanos, pra valer, somente em aviões ou nos foguetes que vão direto e explodem os caras. No outro dia, um cara se aproxima da repórter. Fala um pouco de sérvio, esteve na Bulgária. Vamos disparar um tiro naquela árvore ali, só de brincadeira pra ver quem acerta? Mas em vez disso, dispara e acerta um caminhão talibã, ao longe. Duas pessoas saem em chamas e devem ter morrido. Eles foram enganados pelo cara, mas e aí? Por qualquer motivo, talvez trabalho, eles se separam. Ela volta pra casa. Ele também, mas apaixonado. Havia entregue os originais de um livro que foi comprado por uma editora americana, através de um contratado em Paris, que leu e gostou. Haveria um adiantamento de 65 mil libras. O repórter se despede do jornal. Nesse ínterim, dois aviões comerciais são desviados de sua rota e arremessados contra as Torres Gêmeas em NY. Ele vai a uma reunião na casa de amigos. Explodiu aquele acúmulo que os repórteres de guerra vão acumulando silenciosamente em toda a violência que assistem. Brigou com todos. Em casa, um email da repórter dando seu endereço e dizendo que se quisesse ficar com ela, que fosse até lá. Compra uma passagem de primeira classe e atravessa o Atlântico, com a roupa do corpo. Chega e vai direto à Editora. Uma moça vem e lhe diz que a empresa foi vendida há uns três dias e resolveram não lançar mais seu trabalho. Seu livro contava de uma guerra entre Estados Unidos e Europa. "Você está louco em querer publicar algo assim nestes tempos?" Esse foi um momento terrível. Fiquei arrasado por ele. Sabe o que é ter o livro aceito, grandes planos, adiantamento, turnê de lançamento, atravessar o Atlântico de primeira classe e perceber que está duro e desempregado, em NY onde começa a nevar? Ele vai atrás da repórter. Quando enfim a encontra, sabe que foi vítima de um desses vírus que entra na caixa de endereços das pessoas e se espalha. Que situação, hein? Bom livro. Vai adiante, claro.