segunda-feira, 17 de maio de 2010

Uma nova Copa do Mundo

Escrevi este artigo para a Copa de 2006. Vejam se o tema não continua atual. Por isso, mantive até as referências aos jogadores e clubes daquele momento.


Antes que você pense que sou doido ou, quem sabe, um espião, sei lá que mais, adianto que sou normal. Na Copa do Mundo, torço pelo Brasil. Até visto a camisa, grito quanto sai gol. Também não discuto com ninguém a respeito de não sermos, como está garantido por todos, penta campeões, em busca do hexa campeonato. Quem ganha duas vezes seguidas, é bi. Três vezes, é tri. E assim por diante. O Brasil é bi campeão mundial (Suécia 58 – Chile 62), embora já tenha conquistado a Copa do Mundo por cinco vezes. Você deve estar me achando, no mínimo, impertinente. Então, tudo bem. Não quero atrapalhar a comoção nacional. Mas é que de vez em quando o cérebro lembra da razão e adverte. Não estrague sua festa, mas guarde a informação para si. É bom.

Estávamos reunidos, aguardando a hora de começar uma pelada. Na televisão, um jogo da Taça dos Campeões, ou algo assim, na Europa. Em campo, mais de dez jogadores brasileiros, vestindo camisas de Milan e Lyon. Foi ali, com os olhos grudados na tela, que comecei a dizer algumas coisas. Aos poucos, meus amigos foram virando as cadeiras, deixando de lado os lances de Kaká e participando da discussão.

A Copa do Mundo, que teve no francês Jules Rimet um de seus maiores patrocinadores, foi criada inicialmente para ser uma festa de congraçamento entre esportistas europeus, chiquérrimos. Mais tarde, o Uruguai, com influência britânica, resolveu sediar. Poucos vieram à América do Sul. Guerra, pós Guerra, essas coisas. O Brasil, vizinho, foi. Imagino que após os jogos havia banquetes, bailes, tudo muito romântico e bonito. O mundo foi mudando. O futebol, também. Atletas substituíram dandys. Homens de negócio substituíram Rimets. Já em 1970, quando o Brasil venceu a Copa do México, o futebol já era um grande negócio no mundo. A tv mexicana ganhou dinheiro. Mais ainda com a transmissão dos jogos. Jogadores foram valorizados. Mas uma Copa do Mundo ainda era, essencialmente, um encontro de nacionalidades. Encontro de escolas de futebol. Havia os russos, com suas táticas cerebrais. Os alemães e seu jogo sério. Ingleses e sua fleugma. Brasileiros com sua alegria. Um grande encontro. Antes da Copa, os jogadores deixavam seus clubes e passavam de um a dois meses treinando. Vestir a camisa nacional era um orgulho. Um brasileiro entrar em campo e enfrentar um russo. Se olhavam com até curiosidade. Para nós, ganhar a Copa significava um desagravo às distancias para o Primeiro Mundo. Mostrava que em alguma coisa, éramos superiores. O mundo nos admirava. No futebol, estávamos em primeiro lugar. Saíamos da cozinha para a sala da frente.

Hoje mudou. A globalização veio e transformou tudo. Futebol é um dos maiores negócios do planeta. Transmissões por satélite colocam em nossas casas, aos domingos, por exemplo, jogos desde as dez da manhã, da Itália, Inglaterra, Alemanha, França e Espanha. Vende-se tudo. Até a bola. Camisas, calções, chuteiras, meias. O uniforme do juiz. Por causa de nossa fragilidade econômica, Europa, África e Ásia vieram e levaram nossos melhores jogadores. Levaram e continuam levando crianças que se destacam em brincadeiras de rua. Inglaterra, Itália, Alemanha, França e Espanha formam no primeiro pelotão de países que levaram nossas estrelas. Rússia e Japão também chegam próximos. Como resistir? É muito dinheiro, a maior parte direto para o bolso dos dirigentes que enriquecem pessoalmente e empobrecem os clubes que dizem amar. Quanta mentira.

Então ligamos a tv para assistir Real Madri e Barcelona se enfrentando. No Real, Cicinho, Roberto Carlos, Julio Batista, Robinho e Ronaldo. Todos da seleção brasileira. No Barça, Beletti, Edmilson, Silvinho, Thiago, Ronaldinho e até Deco, brasileiro revelado no futebol português. Estão todos na Europa. Aqui, apenas veteranos, alguns que foram e voltaram, jovens loucos para ir e os ruins, que ninguém quer.

Mas estávamos falando de Copa do Mundo, certo? Seguindo o espírito do grande encontro das diferentes escolas, não há como chegar a lugar algum. O futebol europeu, com algumas pequenas características, está automatizado. As raras diferenças ficam por conta de algumas jogadas aéreas na Inglaterra, brutalidade na Alemanha, defensivismo na Itália e arte na Espanha e França. No mais, um jogador que se transferir da Espanha para a Itália, sentirá pouca diferença, sobretudo nos esquemas táticos. E chega no momento da Copa, essa legião estrangeira, formada por muitos brasileiros e outras nacionalidades, retorna a seus países com pouco mais de duas semanas para treinar e constituir sua seleção. O calendário não deixa mais tempo. Os clubes é que mandam, com justa razão. A Copa é uma festa da Fifa, não dos clubes. Esqueça o patriotismo de que é revestida nossa torcida, insuflada por uma onda monumental de propaganda. É um grande negócio. Bilhões. Ganham em tudo. Estamos chegando próximos do ponto a que desejo chegar. Em campo, ao invés de patriotas com a camisa nacional, temos atletas calejados, experientes e, sobretudo, milionários, ganhando mais uma fortuna para entrar em campo. Se forem campeões, muito mais. Por isso, considero hipocrisia cantar o hino nacional antes dos jogos. É uma representação, creio, dos tempos medievais, quando antes das batalhas se cantavam hinos para encher o peito de orgulho e morrer feliz. Pode ser que nas primeiras Copas e demais competições, em outro tempo, fosse parte da cordialidade, do grande encontro ao qual me referi. Hoje, é hipocrisia. E na maior parte dos jogos, de cada lado, atletas que durante todo o ano se encontram em jogos de suas equipes, seja em campeonatos locais ou nas taças européias.

E vem a pergunta: Se a Copa deixou de ser o grande encontro. Deixou de ser a reunião de escolas diferentes. Se para assistir nossos principais jogadores, tomando por exemplo o Brasil, temos que ter tv a cabo e torcer para Real Madri, Milan, Arsenal, Lyon e outros. Se a Copa do Mundo é uma competição do futebol que se joga nos países, porque não são seleções formadas pelos melhores atletas que jogam naquele país, deixando de lado a questão da nacionalidade? Não me bata, não me xingue, gosto do Brasil, torço na Copa e quero ser hexa!!! Mas pense bem. Sem hipocrisia, é a verdade. E se tivéssemos de ir para a Alemanha com uma seleção dos atletas que estão aqui, creio que Tevez seria nossa estrela.. E daí? Argentinos teriam um ataque, quem sabe. A seleção inglesa teria uma mistura de africanos, alguns franceses e até brasileiro, bem como alguns britânicos. A mesma coisa na França. Agora, o jogo entre Itália e Espanha, seria bem legal de assistir. Só brasileiros em campo. Desculpem, somos os melhores. Mas seria sem hipocrisia. Se correríamos o grave risco de não ser mais hexa? Claro. E daí? Nós nunca seremos hexa, de verdade, não é? Podemos conquistar a Copa do Mundo pela sexta vez, isso já sabemos. Mas assim, em campo, teríamos a verdadeira representação do futebol que é jogado nos países, ainda que as seleções européias fossem influenciadas pelos brasileiros, por exemplo. Ainda que nossa seleção tivesse jogadores considerados inferiores aos brasileiros atuando por Itália e Espanha, por exemplo. Pois é.

Após as primeiras manifestações de revolta, daqueles que falam primeiro e pensam depois, a discussão com meus colegas foi ficando mais inteligente. Não tivemos tempo de terminar. Na tv, o jogo acabou e nossa pelada ia começar. E você, o que acha?

A Nova Ordem

Não diria que é tudo culpa nossa, mas estamos envolvidos, sem dúvida, nessa “Bomba Z”, que era citada em um dos últimos discos do cearense Ednardo. No mínimo porque votamos, muitas vezes movidos por raivinhas, contra nós próprios, apenas para não permitir que aquele outro vencesse. E é absolutamente paraense o “morremos abraçados, mas se não for eu, nenhum de nós vencerá”. Temos um país com enormes condições de se tornar uma potência do futuro, mas em função de toda essa incompetência e maldade, nosso povo, nossa juventude, nossas instituições, nossa infra estrutura, nosso caráter, representado em Brasília, é uma vergonha. Quando focamos o Pará, Belém, por exemplo, tudo fica ainda pior. Batemos tanto no peito dizendo-nos patriotas, ufanistas mas é mentira. Sabemos que somos maus mas preferimos dizer que é implicância do Sul. E confundimos hospitalidade com complexo de vira lata, ao recebermos as visitas com tantos mimos, suplicando para que digam as palavras mágicas: como aqui é lindo! Como a vossa comida é gostosa! E por aí, vai. Chegamos a incomodar visitantes com excesso de mesuras. E como sabe, quem se abaixa muito, deixa o .. à mostra. Sem Educação e Cultura, afundamos no poço da ignorância. Quero chegar aí. Quero defender a idéia de um “recuo para a floresta”. Um recuo na civilização. Uma reinvenção da civilização, que mistura o retorno aos procedimentos mais antigos, à adaptação a qualquer custo, das últimas tecnologias que por aqui chegam. Um caboclo, em uma loja de informática, lendo as instruções, com maioria de palavras em inglês técnico. Nós, da classe média, não temos idéia da grande Belém que se expandiu descontroladamente, junto ao descaso absoluto das autoridades. Nós da classe média, somos diariamente atacados, caçados, ameaçados, não somente por ladrões, lado terrível da falta de emprego, esperança e violência, mas sobretudo por essa Nova Ordem que cresce à nossa volta, a despeito de nós, que temos TV a cabo, computadores, viajamos e vivemos algo bem próximo da civilização que se verifica em cidades de pleno desenvolvimento.

Autoridade

Vivemos um momento em que as autoridades desapareceram. Transformaram-se em mundo à parte, onde grandes roubos são operados. Onde está o prefeito? Onde estão os vereadores? Tenho uma amiga que mora em invasão de Icoaraci. Autoridade, lá, é o traficante da área. Para entrar ali, precisa ser amiga, moradora. E quando há alguém doente, deixa entrar o taxi para levar ao PSM. O chefe indígena local. De volta à floresta.

Educação

Professores que não sabem sequer falar. Ouvi a história de uma menina, que decorava o texto para o teste de leitura. Tecnicamente, não sabe ler. E se conseguir, não conseguirá explicar o que leu. A Nova Ordem tem um dialeto próprio, completamente diferente do português. Como uma língua indígena, na floresta. Não é somente o "pra mim ir", "pra ti fazer". Há outras expressões que não entendemos.

Transformação

É uma civilização de transformação. Aquilo que ontem era uma placa de propaganda do cartão Mastercard, com uma mulher linda, sorrindo, hoje é o telhado do barraco lá da invasão. Calçadas, ruas, saneamento, iluminação pública, não há nada. Uma espécie de floresta toma conta, sem arruamento, qualquer organização. Cada um vira a casa para onde bem entende. Estamos na floresta. Não há leis, organização, nada.

Cultura

E o que é a Cultura? A TV ligada o dia inteiro, não na Rede Globo, como o Ibope colhido em São Paulo quer dizer. Está ligado ou no SBT ou Record, este, por força de religião. Uma questão, sobretudo de estética, criando mocinhas que se vestem como prostitutas, desde cedo. Cultura de programas de auditório, onde o que interessa é levar vantagem. O rádio também, ligado em programas policiais, berrando a todo instante que pegaram, por exemplo, o vizinho em flagrante, enquanto os outros ouvem, deliciados, antes ele do que nós.. E a música, hoje o tecnobrega, cada vez pior, pois os jovens dominam os programas de computador, sem saber sequer como funcionam e ali vão compondo pequenas quadras, de linguagem lasciva, a voz da cantora em rotação alta, tudo agudo, tudo beliscando, mordendo, colorido, gritando sua pobreza, imoralidade, sua falta de tudo. Já não importa mais saber cantar, tocar, compor melodia, escrever versos. São quadrinhas lascivas, cantadas aos berros, como a propagar a violência verbal, agredir a ordem, a simetria do nosso mundo. Sou cretino e tenho orgulho!

Saúde

É uma agressão inadmissível passar em Postos de Saúde e encontrar pessoas tristes, doentes, esfomeadas, aguardando para serem tratadas com violência, grosseria, ou nem serem atendidas. São humilhações diárias, como as que sofrem aguardando em paradas ou dentro de ônibus, feito sardinha, apertadas.

Saneamento

Que cidade é essa com tantos e maravilhosos espigões, adquiridos ainda na planta, e ao mesmo tempo, sabemos, pouco mais de 10% da urbe conta com serviço de esgoto? Desamor total. Moram em castelos mas ao botar o pé na rua, pisam na lama, ou passam direto para seus carrões monumentais. A cidade que se foda.

Transporte

A Nova Ordem, nos leva de volta à floresta. Lá não há ruas, mão e contramão, estacionamento, fila dupla, acostamento, nenhuma lei a não ser a do mais forte e mais esperto. Os mais pobres compram bicicletas. Andam na contramão em avenidas de alta velocidade, levando crianças à garupa e um ar zen. Alguns, mais aborrecidos, querem agredir se algum carro lhes atrapalha a passagem. Pior são as motocicletas. É a volta à floresta, mas com cavalos, no melhor estilo bang bang. As motocicletas não obedecem nenhuma lei. Nas invasões, atravessam quintais, calçadas, fazem o que bem entendem. Não usam capacete, nenhuma proteção. Há uma certa zombaria em relação às leis. Questão de postura. São os centauros. O capacete é utilizado apenas quando são enviados da morte. Chegam na frente de qualquer um e atiram. Morrem às dúzias, todos os dias. E as vans? É preciso destruir o sistema de transportes. Ônibus que têm linhas definidas, paradas definidas. As vans derrubam todo o conceito. É a Nova Ordem que visa desorganizar tudo e fazer valer a vontade de quem quer fazer, onde quiser fazer. E por isso, mijam em qualquer lugar. Como na floresta. Atrás de uma árvore ou arbusto. Os homens tiram o bilau e mijam.

Ruas

Que ruas? Onde haviam, estão tomadas de camelôs. Que se lixem aqueles que pagam impostos, empregados, água, luz, telefone, sei lá que mais, para ter seu negócio. Os camelôs querem, justamente, o melhor pedaço. Na aglomeração, fecham a rua. E fica como um bosque, ou floresta fechada, onde caminhamos lentamente, desviando de árvores/camelôs, oferecendo de um tudo. Ônibus? Ocupam todas as paradas. Pior, retirados, são as próprias pessoas a recusar permanecer na calçada, aguardando, preferindo invadir a rua. Queixem-se ao Bispo. É preciso desorganizar para a Nova Ordem imperar.

Comércio

Filmes, CDs, tudo é pirata. Tudo tem outro tipo de procedimento, artesanal, sem impostos, controle, nada. Tudo tem utilidade efêmera. E tudo fica abafado, como é sob as árvores da floresta amazônica. O progresso é lento, sendo abalroado por todos os lados com ofertas. Um dia desses, fui à Ótica Pará, quase na confluência da Santo Antonio com Presidente Vargas. Deve ser um exercício e tanto manter uma loja dentro de um padrão razoável, com mercadorias de qualidade, preço alto, cercado por camelôs de todos os tipos, gritando, manchando, maltratando, agredindo o comerciante, com a Nova Ordem.

Tecnologia

É algo muito interessante pois, absolutamente alheios ao domínio da Língua Inglesa, mas através da experimentação, acabam criando outras maneiras de utilização, o que se verifica na música, nos vídeos pornôs que as crianças fazem no colégio e nos celulares. Assim, esses aparelhos, transformados em seu uso, também se tornam parte da Nova Ordem.

Os culpados somos nós, que muitas vezes sabemos o que está em jogo, nas eleições, mas por conta de ódios, raivinhas, brigas paroquiais, invejinhas, morremos abraçados, mas não permitimos que nada funcione. É assim neste instante. E aí nos queixamos de viver ameaçados, trancados, atrás de grades, instalando câmeras, ao invés de lutar pelo melhor. Para todos. Agora vão nos dividir. Nosso Pará ficará ainda menor. Mais pobre. A Nova Ordem vai mandar. Seremos minoria. Eu duvido que façamos alguma coisa. Morreremos abraçados.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Cem Anos da Praça da República?

Posso estar errado. Mas é que estava passeando com meu Brownie pela Praça da República e claro, contemplando toda a maldade com que o logradouro é tratado, sentindo o cheiro da cannabis, passando entre bebuns, malucos, casais héteros e homos, pivetões, enfim, quando olhei para o chão, ali no belo e tristemente machucado monumento à República. Li 1o. de Fevereiro de 1910, Parque João Coelho. Bem, Parque João Coelho é o nome oficial da praça, até onde enxergo. Com o tempo, esqueci quem foi a figura e acho que bem poucos sabem. Moro ali desde que nasci e a praça foi meu playground, minha Disney, em todas as fases pelas quais passou. Mas é que, se o Parque foi oficialmente inaugurado em 1910, teríamos deixado passar em branco seu centenário? Puxa, seria o cúmulo. Se for verdade, ainda haverá tempo para alguma coisa? Sem Cultura, sem saber da nossa História, andamos em cidades sobre cidades, ruas sobre ruas, sem saber onde estamos pisando, quem pisou antes de nós e deixou tudo isso que encontramos e ao que parece, tentamos ferozmente destruir. E domingo vem aquele pessoal para fazer churrasco ao ar livre, manifestações de todos os matizes, comércio desenfreado, bêbados, ladrões, a pisoteá-la, feri-la de morte. Olho para a estátua, solene, majestosa, pensando que mantém a fronte erguida, com medo de olhar para baixo, em volta e ver no que nos transformamos.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Tyson

Não gosto de assistir lutas de boxe, a não ser quando são dois peso pesados, e sei que um vai para o chão. Dois touros. Vira algo selvagem. Assim esses Ultimate Fightings. Imagina se isso é esporte. Não gosto, mas há uma energia que atrai meu olhar para a luta. Fico entre o impressionado, mente excitada com a violência e algo que minha cultura não consegue explicar, fico ligado no espetáculo deprimente, embora mediado por juízes. Eu sentia uma mistura de medo e respeito por Mike Tyson. Não perdia nenhuma de suas lutas. Ainda não sei explicar se torcia contra ou a favor, mas ficava ligado. Meu pai também. Dizia ficar tão excitado com a violência, que precisava tomar um banho gelado após a luta, para poder dormir. Tyson vinha para o ringue sem roupão, nada. Logo ao entrar, mirava no oponente com olhos ferozes, cheios de ódio. Girava, aquecendo os músculos e o olhar estava lá, direto. Pantera prestes a saltar sobre a vítima. Em uma luta, lembro, o gongo bateu e ele partiu de seu corner para o oponente, e chegou lá antes que levantasse do banco onde estava. Chegou socando. Não tão alto quanto a média dos peso pesados, mas muito forte, tinha pouco jogo de pernas. Batia em todas as direções, velozmente, não dando tempo ao adversário de se defender. Foi campeão por duas vezes. Hoje, ainda circula por aí ganhando uns trocados. Acabo de assistir ao documentário "Tyson", feito por James Toback. Excelente. Compreendi que todo aquele gestual até subir ao ringue, foi ensaiado por seu mentor, Cus D'Amato. Ele diz que não era raiva e sim técnica, a maneira de ganhar os combates. Que percebia o medo nos olhos dos adversários, provocado por suas atitudes. Ali, sabia que a luta estava ganha. Infelizmente, Cus morreu e ele perdeu a direção. Todos os espertalhões se atiraram sobre ele e seu dinheiro. Perdeu e ganhou. "Para mim é oito ou oitenta. Ou estou rico ou pobre". Conta o tamanho de seu mêdo dos adversários. De ser batido, humilhado. Toda aquela encenação era para encobrir seu medo. E fala isso com uma voz fina, frágil e aqueles olhos ferozes. Uma figura e tanto, que ainda mete medo. Não entendo nada de técnica de boxe, mas até hoje compreendo as mordidas na orelha, que deu em Evander Hollyfield. Foi a tática de Evander, fazendo clinch sistemáticamente, usando a cabeça para machucá-lo e um juiz que nada fez para coibir isso. E é exatamente quando o ódio passa por cima da razão é que perde a luta. Evander tem punhos fracos. Ele conta que ficava ouvindo o ruído dos murros de Evander e nada sentia. Até cair. Gostaria que Capote estivesse vivo e escrevesse sobre essa luta, como fez com Mohamed Ali e Joe Frazier, para a Rolling Stone. Mike Tyson não tem nenhuma felicidade aqui, fora do ringue. Conheço pessoas assim. Médicos, a maioria. Na sala de operação ou no consultório, estão no seu terreno, rápidos no raciocínio, atos, senhores da situação. Fora, são tolos sem direção na vida. Por isso as drogas, bebida, mulheres e espertalhões que lhe atacaram. Foi campeão mundial aos 22 anos. Cus morreu. E ele ali, de frente para a câmera, relatando sua vida, seus erros, suas vitórias. No rosto, uma gigantesca tatuagem, aquilo, também, compondo uma máscara para assustar as ameaças, estas sim, que o assustam tanto. Um homenzarrão, um homem fera, com medo do mundo. Como a vida é curiosa.

terça-feira, 27 de abril de 2010

O Mago

Sou um leitor vulgar. Leio o que me interessar. Li os dois primeiros livros de Paulo Coelho, Diario de um Mago e Alquimista. Cheguei a tentar ler o das Valkírias no Deserto, algo assim. Não consegui. Foi demais. Ele é muito ruim. Ruim de Português e de contar as histórias. É o que acho, correndo todos os riscos. Afinal, toda a crítica nacional também acha isso, o que é combustível para ele, que se sente injustiçado e perseguido, já que é um dos mais importantes escritores do mundo, com milhares de traduções, condecorações, amizades importantes, idolatria, enfim. E mesmo assim, no Brasil, seus livros vendem aos milhares. Seríamos todos uns invejosos?
Acabo de ler O Mago, a biografia escrita por Fernando Morais deste escritor que tem raízes paraenses, ao ser da família Queima Coelho de Souza. Um jovem perturbado, querendo encontrar seu lugar, ser famoso, mas com um pai que não o entendia e uma mãe que nada discutia. Absurdo, chegou a ser internado três vezes em hospício, por fumar maconha e discordar do pai. Tentou teatro, jornalismo. Interessou-se pelo satanismo. Aí, penso, seus delírios de imaginação. Foi fundo. Conheceu Raul Seixas e tentou levá-lo para lá. Juntos, fizeram a Sociedade Alternativa e ficaram ricos com os três primeiros discos, que tanto sucesso fizeram, em uma época em que se vendia 500 mil álbuns, brincando. Bons tempos. Baixo, feio, cabeçudo, sempre com mulheres bonitas em volta. Uma delas, apaixonada, topou deixá-lo apagar um cigarro em sua coxa, como prova de amor. Veio um negócio meio vira lata, dessas editoras que lançam livros financiados pelos próprios autores, que pagam para que suas poesias saiam nessas "Antologias" sem nexo. Tinha dinheiro, foi com a mulher, prima, Christina Oiticica, morar em Londres. Num passeio, foi falar com um homem que jurava ter visto na Alemanha. Um mago que logo o convidou a cumprir etapas, se também quisesse ser um. E começam os delírios mais fortes. E os livros começam a vender horrores. Cada vez piores, os livros, cada vez maior, o sucesso. Disse que faria chover, se quizesse. Nunca demonstrou querer, ao menos na frente de pessoas idôneas. Um dia, sentiu ao seu lado, a presença de seu Anjo da Guarda. Da maneira que ele explica, é muito difícil acreditar. É um homem avaro, que sempre quis ser famoso a qualquer preço e pronto a dizer frases que parecem significar algo, mas não são, verdadeiramente, nada. E os fatos? O mundo o adora. E os fatos? Talvez ele seja, mesmo, um mago, ao fazer as pessoas consumirem merda, acreditando, piamente, ser ouro. Fernando Morais é um grande escritor, embora discorde frontalmente de suas opiniões políticas. Ele não poupa o biografado, revelando inclusive ter tido relações homossexuais, por ter dúvidas sobre sua orientação. Mas ao final, cede aos fatos, parecendo concordar tratar-se de inveja brutal o que sentimos por Coelho, membro da Academia Brasileira de Letras.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Onde o mundo se divide

Para mim, o mundo se divide na esquina da Tiradentes com a Quintino Bocaiúva. Ao menos, para os que usam a Tiradentes, em direção ao centro. Explico: o trânsito é forte e recebe carros da Antonio Barreto, bem como da Doca. É uma subida intensa, e desafia a habilidade dos motoristas em manter o carro embreado, mas parado. Quase chegando na tal esquina, uma faixa contínua avisa, segundo as Leis de Trânsito, que está proibida a ultrapassagem. Portanto, quem quiser dobrar à direita, para a Quintino, deve, bem antes, escolher o seu lado, bem como os que seguirão em frente. Mas aí é que está. Enquanto uma minoria, que seguirá em frente, obedece às instruções, a maioria, fiel à máxima de “sou brasileiro e tenho de levar vantagem em tudo”, aproveita-se e vem, lépida, esperta, alegre e saltitante, ultrapassando os “idiotas obedientes”, seguindo em frente, ganhando alguns metros, se tanto. Vale a pena se preocupar com isso? Bem, eu me preocupo. Infelizmente, para mim, vem de dentro uma espécie de espírito punitivo, talvez de outra encarnação em que posso ter sido um professor durão, um daqueles legionários que surrava escravos na nau onde estava Ben Hur, sei lá, pois vem de dentro, num crescendo, e preciso reagir. Acho que faço a minha parte.
Há motoristas de táxi, e me vem uma baba sagrada, por sabê-los interessados em qualquer nesga por onde possam levar vantagem. Há garotos em carros fantásticos, enormes, ansiosos para demonstrar sua ousadia e competência, em driblar os bobalhões, ali, na fila. Há estúpidos, sempre aborrecidos, que cometem o ato, meramente por grosseria. E mulheres com falso ar ingênuo, tentando levar vantagem. Eu gosto. Antevejo. Percebo sua chegada discreta, atabalhoada, dissimulada, agressiva. Vejo nisso, um quadro da nossa sociedade. Toda a má educação, a falta de cultura e civismo que nos assola, não interessa a marca e o ano do carro. Eles se aproximam, certos que no momento preciso, me cortarão a frente e ganharão os tais metros, saindo felizes, sorriso no rosto, pensando “mais um idiota para trás”. Só de pensar, me dá um arrepio. Eles vêm, com a certeza da impunidade. Não tem a ver com superioridade econômica, luta de classes, sei lá. É Cultura contra Barbárie, essa, mesmo, que se instala, lentamente nesta cidade de arranha céus desertos, mas com apartamentos vendidos, totalmente, ainda na planta. É preciso boa noção de espaço, domínio do carro e do tempo. Sangue frio. Dissimulação. Estamos lado a lado. Com um discreto olhar, de relance, percebo sua intenção, a respiração do carro, com seu pé no acelerador, a posição em diagonal para realizar a manobra. Percebo sua intenção. Permaneço estático, como um leso, mais um leso a ser enganado, vencido. Fico ali, inerte. É preciso manter mínima distância do carro à frente, mesmo que seja uma subida. É agora. Uma pequena aceleração e o bico do meu automóvel toma a frente, para susto do oponente. Ué, o que aconteceu? Pior, a partir daquela esquina, a Tiradentes fica mais estreita, exatamente para a esquerda, de onde vêm os obedientes “idiotas”. Assim, com o bico do carro à frente, resta ao então confiante e panaca do outro carro, a calçada, a não ser que freie, repentinamente, inesperadamente, um corte nas suas certezas, e aguarde a próxima nesga, para, ainda assim, fazer valer sua manobra irregular.
Minha mulher se irrita com meu ato, por mais que concorde ser um absurdo aquela esquina. Estamos juntos e vamos chegando ao ponto. Ela, no banco do carona, percebe o “adversário”. Sabe o que vou fazer. Reclama. Eu sei que ela me olha, mas estou ocupado, trabalhando. Digo para não torcer contra. Quero sua cumplicidade. Depois, é só olhar pelo retrovisor suas pragas, reclamações, como garotos apanhados em travessura. Alguns vêm atrás, ligam farol alto, querem vingar-se, mas a rua é estreita, não permitindo ultrapassagem e alguns metros adiante, a maioria cai em si e percebe que estava errada, deixando para lá. Também não é toda vez que venço a parada. Há alguns mais rápidos, sagazes, audaciosos ao ponto, último ponto, em que decido perder a parada a talvez, machucar meu carro. Fico irritado, mas alguns metros depois, já passou. Minha mulher não gosta, mas já me confessou ter feito a mesma coisa, estando ao volante, talvez, ela me disse, por estar na TPM. Não tenho TPM, nada assim, a não ser as irritações do dia a dia, mas para mim, o mundo se divide naquela esquina. É mais forte. Já vi outros “colegas” fazendo a mesma manobra. Que bom não estar sozinho nesta guerra. Alivia o peito. Amansa o tal “espírito punitivo”. Mas antes de tudo, é um pedido a cada um, para que retornemos à civilização e suas leis. No mais simples ato, como esse, na esquina da Tiradentes com a Quintino, está resumido todo o nosso problema. O mundo se divide ali. De que lado você está?

terça-feira, 13 de abril de 2010

São Paulo com chuva, Rio de Janeiro com sol

São Paulo com sol não é São Paulo. Por isso, naquela manhã de domingo, quando vi, do meu hotel, na cobertura do prédio ao lado, dois homens e uma mulher esticados, pegando aquele mormaço da hora do almoço, pensei que aquilo não podia durar. Não durou. Mudou. Fechou. Choveu. A temperatura despencou. Ficou legal. Às cinco da tarde, no Teatro Eva Hertz, na Livraria Cultura, 130 lugares, palco da mesma largura, menos profundidade que o do Cuíra, assisti “As Meninas”, de Lygia Fagundes Telles, adaptada por Maria Adelaide Amaral. Não é tudo isso. Boas atrizes. O problema foi a adaptação, creio.
Na terça, peguei o metrô na Estação Trianon e fui até a Estação da Luz, descendo no centro, chuvoso, indo até a Estação Pinacoteca, belo prédio cheio de exposições, passando pelo lindo Parque da Luz, pensando no dia em que cuidaremos assim da Cultura no Pará. Fui ver Andy Warhol, tudo de bom e magnífico. Mas podia estar melhor situada, porque, por questões de espaço, está dividida em dois andares. Também podia estar em local de mais fácil acesso. Emendei para a Livraria Cultura, claro, onde assisti, mais uma vez, agora com pequenas adaptações ao tipo de palco, “A Poltrona Escura”, baseada em três contos de Pirandello, com direção de Roberto Bacci e atuação de Cacá Carvalho. Comigo, dois sobrinhos, mais dois maravilhados com a arte do meu amigo.
Na quarta feira, ligo a TV que mostra o aeroporto Santos Dumont fechado para pousos e decolagens. Vou ou não ao Rio de Janeiro. Fui. O aeroporto abriu, o pouso foi ótimo e apesar das desgraças, principalmente em Niterói, na área em que estive, na Zona Sul, estava tudo bem. De vez em quando uma pancada rápida e vento, muito vento. Ressaca na praia. A temperatura ótima. Rio de Janeiro sem sol não é Rio de Janeiro.
Estive na Livraria da Travessa, linda. Uma pena, passei na Letras e Expressões, antes tão orgulhosa e bonita, imponente, em Ipanema, como sede de Cultura, recebendo fãs de leitura para livros, revistas importadas, CDs, ou então em seus cafés maravilhosos. Um point. Está fechando. Há livros velhos à venda e vendedores diferentes dos que antes, estavam lá, sempre tão felizes e solícitos. Há uma dor no local. Fiquei triste, chateado. Não sei o que houve. Cada vez que um órgão de Cultura sofre, todos sofremos, também.
Com a ajuda de minha amiga Rita Ferradaes, fui assistir “A Gaiola das Loucas”, o novo musical em cartaz no Teatro Casagrande, com tradução e versões de Miguel Falabella, que atua, ao lado de Diogo Vilella. Mesmo com a chuva, o teatro estava praticamente lotado. Mas não é muito bom. Talvez as melodias não tenham facilitado as vozes graves dos dois intérpretes. Elas não chegam a ser as melhores, mas são boas, como “I a what I am”, um dos hinos gays e das discos, na voz de Gloria Gaynor. Talvez a falta de um talento maior de Falabella, eternamente fazendo seu Caco Antibes, meramente correto. Talvez o timbre dos dois, mais para o barítono, sei lá. Os figurinos são razoáveis, os cenários e iluminação, muito bons, bem como o instrumental. Atrás de mim, também comentavam não ser assim tão bom. “Hairspray”, que agora está em SP, é muuuuuito melhor.
E agora estou de volta a Belém, reabastecido de livros, CDs, DVDs, teatro e tal.