quarta-feira, 21 de outubro de 2009

PRC5 no Teatro da Paz

Vai ser neste final de semana, sexta, sábado e domingo, a apresentação de "Prc5 - A Voz que Fala e Canta para a Planície", que escrevi para o Grupo Cuíra, comemorando os 80 anos da Rádio Clube do Pará. Será um grande momento e penso que ficarei muito emocionado. Os aniversários da emissora eram comemorados no TP, com a presença de artistas de renome nacional, além dos locais. Tenho uma foto de meu avô, ao microfone, naquele palco. Lá ele também encenou peças de sua autoria e foi diretor da casa. O final de semana é por conta de uma oportunidade que o Estado oferece, a título de política cultural, recebendo ofertas de ocupaçao pelos grupos locais de determinadas datas que por qualquer motivo, ficaram em branco, e que são oferecidas sem o pagamento de qualquer taxa. Normalmente, por noite, algo em torno de 1500 e 2000 reais é cobrado. Sei porque já fiz Convite de Casamento por lá, pagando a taxa. O Teatro da Paz também é o lugar onde estreei como autor, em Foi Boto Sinhá. Não esquecerei a emoção do blackout, seguido do som do tambor de carimbó, iniciando o espetáculo. Adiante, escrevi Angelim, o Outro Lado da Cabanagem, novamente com Geraldo Sales e Grupo Experiência. Foi a primeira montagem profissional local. Tão preocupada em pagar suas contas, que devolvemos, integralmente, o valor que o Banco do Estado do Pará emprestou, esquecendo tudo o que lhe demos em imagem promocional, durante três meses. Também lá estive com A Menina do Rio Guamá. Em todas essas oportunidades, tive casa lotada. É inesquecível. O que acontecerá agora, não sei. Vivemos outros tempos. Vai ser a oportunidade de muita gente, que ainda tem preconceito contra a localização do Teatro Cuíra, assistir. O ingresso também está indecentemente barato. Imaginem que a tal "política cultural", te dá o teatro sem taxa, mas não se pode cobrar mais de 15 reais o ingresso. Talvez, ganhar dinheiro com Teatro, muito dinheiro, seja apenas para o pessoal do Zorra Total, que vem bamburrando nos últimos tempos, por aqui..
Mas já está sendo uma grande alegria. Logo no primeiro dia de ensaios, a turma voltando a reunir. Elenco grande. Grande elenco. Eles cantam, dançam, atuam. E tudo isso com muito talento, felicidade. Um elenco feliz. Feliz por encontrar. Botar o papo em dia. Uma está grávida, outra volta de uma hepatite, outro foi contratado pela Globo e está em Malhação, por isso uma substituição. Vamos lembrar as coreografias. Diversas técnicas são empregadas e logo, tudo está certo. Memória cênica. E toca a música, eles se emocionam, eu também e todos cantamos. Miles Davis disse uma vez que felicidade era reunir um grupo de músicos para tocar um uníssono. Pois eu digo que felicidade é reunir um grande elenco para ensaiar e se apresentar. É claro que vou estar bem emocionado. Escrevi a peça para homenagear a emissora, falar de meu avô querido e muito mais, falar de meus pais, das pessoas. Me sinto honrado, feliz, de bem com a vida. Nem precisa muito, não é? Espero que tenhamos um bom público. O elenco merece. A Prc5, também. Muito mais as pessoas que não sabem o que perderam até agora.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

A Praça

Sou o que chamam de "garoto de apartamento". Nasci e cresci morando no quinto andar do Edifício Renascença, um dos primeiros de Belém, na esquina da Presidente Vargas com Riachuelo. A Praça da República, foi meu playground. Quando me vi como gente, lembro de ver, distante, a testada da Basílica de Nazaré, hoje inteiramente vedada pelos prédios da modernidade. Lembro da noite em que os operários liberaram para o passeio das pessoas, a Presidente Vargas totalmente asfaltada, no que antes eram paralelepípedos. Lembro de passear em minha bicicleta, sobre o betume. E lembro da Praça da República. É porque agora tenho um cachorro, sobre o qual escreverei próximamente. E aos finais de semana, levo-o para passear na Praça, em um ótimo exercício de observação de pessoas e do lugar que tanto amo. Primeiro bem criança, brincando de cowboy nos coretos, começando por aquele atrás da Banca do Alvino, que chamávamos "Gruta", com seus esguichos de água e iluminação à noite. O outro, junto a outro chafariz, próximo à Assis de Vasconcelos, onde pedras, em nossa imaginação, transformavam-se em cavalos e diligências a serem assaltadas, com muitos tiros, animado pelo seriado de Bill Eliott, que minha saudosa Babá Bia me levava, no Paramazon, ali próximo, na Piedade, aos domingos. Uma manhã, desci à praça, evidentemente armado até os dentes, como convinha a um pistoleiro perigoso e encontrei Jacinto Castro, de quatro, rosnando tremendamente. Era um leão. Preferia ser um leão, pelo barulho e medo que inspirava. Bom. Nas férias, todas as tardes, havia "Cemitério", um jogo disputado por meninas contra meninos, ali próximo ao anfiteatro onde Alberto Silva, recentemente, apresentou sua Mandrágora. E vieram as bicicletas. Tornei-me um ás. A brincadeira era de "tranca". Trancávamos a passagem de nossos adversários, com habilidade e equilíbrio, em volta do monumento, com suas estátuas belas, impávidas, seus postes no estilo Boulevard de Paris, seu piso colorido. Corríamos por toda a praça, feito cavaleiros da Távola Redonda em eterna ronda e procura pelo Cálice Sagrado. Por falar nisso, houve a onda de capa e espada. Na casa dos pais de Nelson Lima, cortávamos compensado para fazer escudos pintados conforme os Cruzados, bem como espadas. Chegamos a brincar, temerariamente, com chuços improvisados, correndo e tocando nos escudos. Certa vez, um de nós, querendo tomar de assalto o segundo andar, pela escada, tomou uma espadada na cabeça, abrindo um bom golpe. Houvemos por bem encerrar a batalha, por aquele dia, tendo em vista os castigos que vieram, por conta do acidente. Em alguma de nossas expedições, invadimos e exploramos a Escola de Química, onde hoje está a Livraria da Universidade, que fica fechada aos sábados, quando posso comprar alguma coisa. Pelo chão, jogadas peças de Química em vidro e borracha. Uma emoção. Nem tudo foram flores. Fui assaltado, na praça. À bordo de minha bicicleta, armado até os dentes com uma "besta" e uma espécie de alforje, feito a partir de uma capa térmica da mamadeira de minha irmã Ana Carolina, fazia minha "ronda" quando fui parado por um garoto, agressivo, com uma faca nas mãos. Não vão rir, mas o objeto de seu assalto não foi a bicicleta, o que seria normal. Bom, tambem não levava dinheiro, celular, relógio... Ele queria meu alforje. Levou. Pior, levei algum tempo até recuperar a calma. O garoto havia quebrado meu escudo pessoal de defesa, absolutamente ingênuo, infantil, mas um escudo. Boa lembrança. Bons tempos. No colégio, voltava e disputava renhidas partidas de peteca com motoristas de praça que ali faziam seu ponto. Mais adiante, estudando para o vestibular, parávamos no posto de gasolina que havia na esquina da Assis de Vasconcelos com Osvaldo Cruz e cada um comparecia com 1 cruzeiro. Era o suficiente para o Belair de Nelson Lima circular pelo Moderno, Nazaré, Gentil, enfim, o que nos interessava. Hoje, circulo com Brownie pela praça, tropeçando em minhas lembranças, ouvindo gritos de crianças, meus gritos, em uma época em que tudo se resumia em ser feliz, correr de braços abertos, contra o vento, pedalando firme, esquivando-me da bola do cemitério e disparando intermináveis balas de meu 45. Conheço cada centímetro da praça. Em cada um deles está impressa minha infância e pré adolescência. Ali acontecia tudo. A boate da Assembléia Paraense em frente. O Porão, tão convidativo, por conta do ar proibido para menores. O Papa Jimi, onde Ivan Novais, um de seus inúmeros discotecários me mostrou um vinil onde, em um lado, Jimi Hendrix tocava no Monterrey Festival. Praça da República, quanta saudade e quanta revolta sinto ao te ver violentada, cuspida, suja, imunda, fedendo, tratada como lixo, seja pelas autoridades, seja por seus frequentadores. E caminho, cabisbaixo, ruminando ações que deixo para depois, por imaginar ser um solitário, bradando no deserto. Nós, aqueles que estudam, que lêem, assistem, fazem, diminutos diante do gigantismo da cretinice vigente. A Gruta quebrada, imunda de fezes. Vagabundos dormindo nos bancos, fedendo. A maconha dividida entre jovens, com toda a tranquilidade, em qualquer dia da semana, como se a Praça fosse em Amsterdam. A falta de cuidado com a grama, que sumiu, trocada por imensos formigueiros, raízes a descoberto, lutando para segurar suas árvores. Os quiosques reunindo não somente jovens a namorar, mas a fazer sexo, pessoas mal encaradas, vendedores de bombom, cerveja e drogas, instalados à vontade, afrontando as pessoas de bem com sua sem cerimônia de se saberem seguros em sua avacalhação. O monumento todo pixado, quebrado, com guardas municipais mais interessados em namorar entre si, conversar, do que tomar qualquer medida mínima, justificando seu uniforme. A imensa sujeira que fica após os domingos, onde a praça deixa de ser somente um local ao ar livre, para seus habitantes respirarem, para incluir venda de bobagens e comida, bebida, com nenhuma higiene, absolutamente nenhuma, para um povo mal educado, que tudo joga no chão, como se o mundo não fosse sua casa. E mais tarde, estranhas crianças, vestidas de preto, sem nenhuma ideologia, objetivo, reunindo-se para conversar, fazer sexo, drogar-se, beber, sem que nenhuma ação seja feita. A praça é território livre, inclusive para ser agredida, violentada. Assim, a Praça da República, a bela praça, uma das mais bonitas que já vi, está, como a cidade, entregue à sanha de quem se apresentar. E a cada vez que volto para casa, estou dividido entre a emoção de pisar em local tão importante, para mim, e penso, para cidade e seus habitantes, e ao mesmo tempo, a revolta por encontrá-la do jeito que está.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Rosto Colado

Às vezes vou lá no velho baú de prata onde guardo minhas lembranças e me delicio. Um dia desses, alguém comentou do tempo em que se dançava de "rosto colado". Me fez pensar no assunto. Não fui desses adolescentes que cedo já é chefe de turma e trata as meninas de igual para igual, trafegando com naturalidade em território hostil. Que vai às festas, dança com todas, namora com duas, três de cada vez e é disputado. Pelo contrário. Minha infância durou muito tempo, o que acho determinante para a maioria das minhas atividades, para a imaginação, encantamento e ingenuidade. Mas ali, a partir dos 13 anos, começaram a haver os aniversários, 15 anos, tertúlias (como eram chamadas as "Pipocas" de hoje) e os amigos me levavam. Era natural. UM amigo me chamou em sua casa. As vizinhas de apartamento, duas irmãs, fariam uma festa somente para nós, em seu quarto. Apagavam a luz. Não pensem que acontecia algo moralmente discutível. Era para dançar, flertar. Havia as festas. O problema era o que fazer, uma vez ali dentro. Pouca luz, Esmeril Band ou Guilherme Coutinho tocando, ou toca discos, e a garotada em volta. Meu primo corria e pegava a primeira que via, saindo dançando pelo salão. Aquilo é que era coragem! Uma vez, férias de julho, Mosqueiro, o saudoso Dr. Rubem Ohana chega em casa com sua kombi cheia de meninos e meninas do Chapéu Virado. Alguém põe discos. Todos dançam. Eu, assistindo. O que fazer? Onde estava a coragem de chegar, frente a uma das meninas e dizer a fatídica frase: quer dançar comigo? E se a resposta fosse "não"? Pior, "estou cansada".. Pior, pior, bem pior. A garota topa dançar. Vai uma música, outra, mais outra. Ultrapassando três músicas, Houston, temos um problema. A menina cola seu corpo no seu. Cola sua cabeça no seu peito. Temos um problema. Você não estava a fim da garota. Chamou apenas para dançar. O que fazer, então? Decepcioná-la? Uma vez, uma garota com quem dançava foi embora, faltando duas ou três músicas para o encerramento da "tertúlia", na boate da Assembléia Paraense. Inebriado pela música, olhei em volta, disposto a ficar até o fim na pista, dançando. Havia uma moça, linda. Não quis nem saber. - Quer dançar? - Não, estou cansada. Acabou com a minha noite. Ou então, é a garota dos seus sonhos e finalmente ela está ali, de "rosto colado", todos estão vendo e uma atitude terá de ser tomada. Vamos levando, a música vai, o rosto continua colado e nossa cabeça, dá cambalhotas nos pensamentos. Dizer a ela, no pescoço, que a amamos? Pedir para namorar, assim, no pé do ouvido? Convidar para ir até lá fora, onde podemos formalizar o pedido? Parece tão fácil, não é? Jogar para trás a forma de criança e assumir a adolescência. Tomar uma atitude por si próprio. É a idade dos primeiros amores. Aqueles que não esqueceremos jamais. Minha primeira namorada formal, teve de, corajosamente, ter o destemor de me perguntar, uma noite, na boate Papa Jimi, onde dançávamos há horas, como já vínhamos fazendo desde a boate Ressaca, no Mosqueiro, se estávamos ou não namorando.. Que alívio! Sim.. O tempo que levei ensaiando de inúmeras formas, aquele pedido. O que essa garotada de hoje, com toda sua liberdade não sabe, é que nós, garotos, principalmente como eu, mais pro infantil do que para o adolescente, víamos as garotas como seres diferentes. Lindas, audaciosas ou tímidas, com suas vozes, seus rostos, seus corpos a nos enlouquecer e principalmente, sem nos deixar perceber como, realmente, pensavam. E, de repente, ter ali, em seus braços, "rosto colado", corpo junto, corações disparados, "My Cherie Amour", com Stevie Wonder rolando, a garota com que você sonhou. Gente, é uma dessas ocasiões em que melhor seria ir para uma "Situation Room" como nos melhores seriados, e discutir a questão. E então, dar aquele beijo, meu Deus, como será beijar de língua?
Aquele beijo de perder o fôlego, sorrir e se despedir, porque a mãe ou a tia com quem veio já está indo embora. E então, voltar ao convívio dos amigos, como um herói retornando de mais uma façanha, coberto de glórias, peito estufado, tirar por menos, aquela que foi sua primeira conquista na vida e enfim, mais tarde, sozinho, em sua cama, sem conseguir dormir de excitação pura, de espírito, sem malícia, sentir-se feliz, conquistador, poderoso, por saber-se amado, admirado por uma mulher, uma garota que somente ao olhar, piscar ou dizer qualquer coisa, fará você ir até a lua. Você agora é alguém, não mais a criancinha da casa. Você tem uma namorada. Alguém com quem dançará, a partir daí, de rosto colado. Os amigos sentirão ciúmes dela e ela, deles. E voce dividido, tendendo para ela, claro, como um vapor que vai desatracando do porto, as pessoas acenando. Meu Deus, como era bom!

A Paradinha

Quer dizer então que o Sr. Blatter quer proibir a "paradinha" em cobrança de pênaltis? Quanta burrice! Então, terá de proibir ou punir o jogador que ao cobrar um lateral, refugar e tentar novamente. Proibir uma cobrança de falta onde, quase no momento de tocar na bola, o jogador decida outra ação. É um absurdo. Na "paradinha", o jogador não toca na bola. E enquanto não tocar, ela não estará em jogo. Pior, sua perna está no ar, movimentando-se, ou driblando. Ele não refuga, volta, toma outra distância e bate o pênalti. Como punir algo que não ocorre em momento propício, já que a bola não está em jogo? Sim, eu acho que em muitos casos, o cobrador chega a humilhar o goleiro com sua habilidade, sua sonsidão, malícia. Lembro daquele jogador, Djalminha, aguardando até o último segundo, como caçador experiente, a presa mover-se, para, com algum nojo, tocar a bola, mansamente, em outro lugar enquanto o goleiro se arrebentava, perdido. É preciso muito sangue frio e sonsidão, qualidades boas em um batedor. Quanto ao goleiro, só pode mover-se após a bola ser chutada. Se ela não sai do lugar, o que fazem, caindo antes? Pior, o pênalti é a penalidade mais grave do futebol. Porque dar mais chance aos goleiros? Vamos então a essa disposição mundial, que vai de encontro ao princípio básico do futebol, que é o gol. Hoje, por todos os motivos, desmarca-se um gol. Não se marca pênaltis por diversas e malucas interpretações. Marca-se impedimento por qualquer dúvida. E a disposição é contrária! Na dúvida, deixe seguir o lance. Na dúvida, marque o pênalti!
Tem cada uma! Será que Blatter já jogou futebol?

Teatrinho

Foi muito desagradável ler, pela segunda vez, em menos de três meses, o Comendador Mário Sobral escrever em sua coluna diária em O Diário do Pará, que o Teatro Cuíra é um teatrinho, indigno de receber o grande Cláudio Barradas, que em companhia de Zê Charone, acaba de completar dois meses em cartaz na primeira temporada da peça "Abraço". Sobral sempre faz elogios a Barradas, de quem foi colega em rádio novelas e novelas de televisão para o grupo Marajoara. E sempre deplora que, ao invés de estar em um Teatro da Paz, por exemplo, e como merecia, está num "teatrinho" como o Cuíra, em plena zona do meretrício. Barradas pode dizer porque está no Cuíra. Mas posso, também, dizer aqui o que ele acha, porque me disse e é meu amigo. Barradas sabe a barra pesada de fazer teatro em Belém e não é de hoje. Também acha que o tipo de texto da peça em questão, é melhor para teatros com menor capacidade de público, de maneira a travar-se um encontro mais íntimo, cara a cara, ator e platéia. Isso é uma coisa. A outra é o preconceito de Sobral, que insistindo em chamar de "teatrinho" para o Cuíra, favorece apenas a prosperidade para o preconceito que só faz crescer, entre os belemenses, contra o teatro local. O Teatro da Paz, o Schivazapa e o Maria Nunes, estão todos lotados, aos finais de semana, com peças caça níqueis vindas do Rio de Janeiro, com artistas globais, atuando em novelas ou até em humorísticos de qualidade duvidosa como Zorra Total. Sei perfeitamente que ele não faz isso para nos agredir, por nos desprezar, por má vontade. É por ignorancia, uma vez que sua coluna, hoje não tão muito lida como antes, pela repetição das piadas e pouca graça, sempre defendeu a Cultura local. Sobral não vai a teatro, não sei se nesses espetáculos "globais", mas não tem idéia da complicação em montar um espetáculo em uma terra sem nenhuma ação cultural por parte do Governo do Estado ou Prefeitura, reunir dinheiro, ensaiar, figurinos, enfim, tanta coisa e depois de três meses de ensaio para mostrar um bom produto, ter apenas um final de semana disponível nos teatros da terra. Três meses em três dias. Não sabe que foi por isso que o pessoal do Cuíra teve o peito de alugar o Teatro, bem na zona do meretrício. Não sabe dos trabalhos sociais e culturais que são desenvolvidos. Que agora será um Ponto de Cultura. Não lembra mais que antigamente, atores e prostituras tinham a mesma carteira de identificação para a Polícia e assim, nada de estranho em estar ali, na Primeiro de Março com Riachuelo. Não sabe que o Cuíra, ou os diversos grupos que já ocuparam seu ótimo palco, precisam ficar, no mínimo, 30 dias em cartaz! Não sabe que há cem confortáveis poltronas. Não sabe que não temos ar condicionado, mas vários ventiladores garantindo um mínimo de conforto para todos. Não sabe. Ele acha que Cláudio Barradas se diminui indo para o "teatrinho" Cuíra, mas não vê que ele, Sobral, se diminui e ajuda a aumentar o fosso existente entre os artistas locais e o público. Fosso para ele, também, como se ler colunas compradas no sul do país, fosse melhor que a dele, no mesmo jornal. Puxa, que mancada, que decepção, caro Sobral! Teatrinho!

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Bônus de Woodstock

A Saraiva está vendendo com exclusividade, uma caixa com 4 Dvds de Woodstock. Nos dois primeiros, a versão do diretor, que já havia sido lançada uns dez anos atrás. O melhor vem nos dois outros dvds. Em um, série de entrevistas com o diretor do documentário, músicos presentes, o produtor do festival, e outras figuras que vemos, tão jovens, no filme original. Compreede-se que Woodstock, foi um raro momento, desses em que parece, todos os deuses decidiram que daria certo, diante de qualquer coisa inusitada que fosse acontecer. O local foi decidido quase no momento de desistir. Woodstock foi em Bethel, mas ficou o nome do local onde o conselho de cidadãos da região não permitiu. Cento e vinte mil ingressos foram vendidos com antecedência, mas foram até lá 500 mil pessoas. As estradas, engarrafadas, foram interditadas. Calamidade pública. Fazendeiros e até o exército ajudaram com alimentos e medicamentos. Houve uma morte, parece, alguns partos, overdoses e certamente uma ou outra desavença. Em uma comunidade de meio milhão de pessoas, um sonho. Não havia, estocado, em NY, carreteis de filme em número suficiente. Foram chamados os melhores cinematografistas americanos. Os carretéis foram chegando de helicóptero. Como os artistas. O Ten Years After recusou a primeira oferta para se apresentar. Depois, quando os caras souberam que Janis, Jimi e Who estavam na lista, correram. O líder do Sha Na Na confessa. Woodstock foi tudo. O grupo entrou, contratado para ser uma novidade, algo engraçado, pois fazia uma linha primórdios do rock com muito glitter. "Dali, seguimos adiante, gravamos dez discos, rodamos o mundo, ganhamos dinheiro", disse o cara. Problemas com energia. Com falta de luz suficiente para filmar à noite. Eddie Kramer, trancado em uma casinha, gravando tudo em gravador de rolo.. E então vem o último dvd. Um por um, passam as tomadas dos artistas que estiveram lá em performances inéditas. Alguns, nunca tinham sido mostrados. Jimi e Janis assistindo, divertidos, Sha Na Na. Canned Heat, o mais mostrado. Bandas com dois guitarristas solo, dando show. The Who em My Generation e outras. Grateful Dead em duas longas, sensacionais em sua mistura de anarquia e precisão, jazz, blues, rock and roll. Creedence Clearwater Revival pleno de energia em Born on the Bayou e I Put a Spell on You. Santana em Evil Ways. Johnny Winter, maravilhoso. Paul Butterfield Blues Band. Jimi em Spanish Castle Magic. Mountain, com o gordo e excelente guitarrista Felix Papallardi. Uma loucura. E os caras ali, com um mínimo, 1%, penso, do que hoje seria necessário para algo daquele tamanho e todo mundo curtindo, se amando, percebendo o tamanho de estar ali. Meu filho pergunta se nunca havia visto Grateful Dead tocando. Ele é de hoje, quando tudo está ao nosso alcance. Meu primeiro contato com Hendrix, guardo até hoje, uma foto, radiofoto da UPI onde ele toca a guitarra com a língua. Agora aguardo uma caixa com 6 cds, aumentando os 4 que foram lançados 10 anos atrás. E há o livro. E vem um filme passado durante o festival. Está bem, nostalgia, mas da boa.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

As embalagens. Qual a sua embalagem?

Vivemos em uma sociedade de espetáculo. A aparência é importante. A embalagem. Designers são altamente importantes ao criar embalagens para os produtos. A briga pelo consumo é feroz. Sou muito influenciado por embalagens. Mesmo quando vou a uma livraria, loja de discos, banca de revistas. Fico ali como criança em loja de doces. No supermercado, também. É claro que há mil técnicas de arrumação de prateleiras, displays, tudo para afetar nossa disposição de consumir, uma vez que entremos nesses templos de consumo. Não há nada de errado nisso, desde que os produtos cumpram o que dizem, pelo que são fiscalizados e tal, mesmo que me dê raiva quando leio, por exemplo, que gordura trans faz mal e no entanto, justamente os melhores biscoitos são assim, e ninguém faz nada, afinal, se é ruim para a saúde, as autoridades não poderiam permitir, blábláblá. O problema está no que fazer com a embalagem, uma vez cumpridas suas finalidades iniciais, digamos, primeiro nos convidar e convencer a compra, ficando em segundo embalar, servir de invólucro para o produto adquirido.
Uma lata de refrigerante. Após ser consumido seu conteúdo, será descartada. Para se desintegrar inteiramente, muitos anos. As pets, também, creio. Porque não apostar em uma garrafa parecida com as tradicionais, de vidro, retornáveis? Vou ao McDonald’s. O Big Mac, no trajeto entre a cozinha, balcão e minha travessa, trinta segundos, talvez, vai-se a embalagem, caixa de papelão. Quantas árvores vieram abaixo somente para esse pequeno tráfego? Peço uma pizza pelo telefone. Chega aquela embalagem grande. Após comer, vai aquilo tudo para o lixo. Bem, faça a sua lista. É interminável. Não é querer ser ecochato. Isso, definitivamente, não sou. Mas, é claro perceber que ao comprar uma latinha de refrigerante, já compro também o lixo, que representa a latinha, após ser ingerido seu conteúdo. Imagine milhões, a cada minuto. Será que esses designers são tão bons assim? Porque imagino também que essas grandes empresas mundiais sabem que se parecerem preocupadas com a ecologia, ganharão muitos pontos na imagem institucional. As embalagens são cada vez mais lindas, modernas, mas são também lixo. O tempo de validade da beleza ao lixo é pequeno, a partir do momento do Shazam, quando o adquirimos. Então, nos transformamos em bruxos. Mal tocamos aquela beleza que ambicionamos, é efêmero seu reinado e já vira lixo. Compre um Chicabom. Retire o papel. Lixo. E o palito? Lixo. Enfim, o Chicabom, após algum tempo, nosso organismo também o descartará.. Tem alguma coisa errada aí.
Qual é sua embalagem? Você se preocupa com isso? O que passa? O que veste conta sobre sua pessoa? Você usa alguma coisa diferente, dependendo do lugar ou a quem vai ver? Na medida em que troca de roupa, de embalagem, você também muda alguma coisa no seu comportamento? Mais simples. Durante a semana, paletó e gravata, você é mais sério? Sente-se mais importante? No final de semana, de bermudas, você muda? Você é advogado, usa terno e gravata, tem uma imagem severa, séria, mas vai até o boteco da esquina, encontrar com amigos e muda de postura? E a mulher? Cor do cabelo, alisamento japonês, isso pode ser considerado mudança de embalagem? Você entregaria sua imagem visual a um dress designer? Não se sentiria incomodado com uma embalagem que não é a sua? Você se veste tal qual sua turma? Você é mauricinho, alternativo, largadão, afinal, qual é sua embalagem? Você já sofreu preconceito por ser considerado mauricinho e querer freqüentar os petistas, com roupas de mauricinho? Você, mulher, veste sempre aquele saião, camisa regata, sandália baixa, cabelão, e te convidam para um jantar social. Qual será a roupa? E quem se deixa despir totalmente, pela mídia, quem se desnuda, se oferece em sacrifício, como no filme Apocalypto? Explico. No Apocalypto, no alto de uma escadaria, prisioneiros são degolados, para saciar o deus e trazer de volta as boas colheitas. Hoje, a mídia sacrifica diariamente modelos e políticos para saciar nossa fome. Lembro daquela bandeirinha de futebol, belíssima, por sinal. Ela revoltava os torcedores machistas ao ficar, na lateral do campo, em posição de mando, sobre vinte e dois homens, com uniformes apertados, realçando a beleza do corpo. Quando errava, o mundo vinha abaixo. Era preciso desnudá-la. Alimentar a mídia. Tirar seu uniforme. Sua autoridade. Escarafunchar sua vagina, ânus, seios, estrias, celulites, certamente tiradas em photoshop. Depois ela vem em entrevista, dizer que fez por dinheiro. Sacrificou-se por dinheiro. Fica até constrangida. Diz que precisou beber alguns goles para relaxar. Chamá-la de prostituta pareceria careta? Não houve coquetel, noite de lançamento, por conta de ameaças vindas de torcidas organizadas. Como assim? Não estão satisfeitos em humilhá-la pagando uma fortuna para se despir, perder uniforme, autoridade, apresentar-se em público? Irá a programas de televisão explicar seu constrangimento. Jô Soares vai mostrar algumas fotos. Ficará ruborizada.
Enquanto alguns precisam de embalagem para se vender, outros precisam perder a embalagem para saciar a sociedade do consumo, do desperdício, do estupro midiático. E tudo vira lixo, rápido.