quarta-feira, 26 de agosto de 2009

As embalagens. Qual a sua embalagem?

Vivemos em uma sociedade de espetáculo. A aparência é importante. A embalagem. Designers são altamente importantes ao criar embalagens para os produtos. A briga pelo consumo é feroz. Sou muito influenciado por embalagens. Mesmo quando vou a uma livraria, loja de discos, banca de revistas. Fico ali como criança em loja de doces. No supermercado, também. É claro que há mil técnicas de arrumação de prateleiras, displays, tudo para afetar nossa disposição de consumir, uma vez que entremos nesses templos de consumo. Não há nada de errado nisso, desde que os produtos cumpram o que dizem, pelo que são fiscalizados e tal, mesmo que me dê raiva quando leio, por exemplo, que gordura trans faz mal e no entanto, justamente os melhores biscoitos são assim, e ninguém faz nada, afinal, se é ruim para a saúde, as autoridades não poderiam permitir, blábláblá. O problema está no que fazer com a embalagem, uma vez cumpridas suas finalidades iniciais, digamos, primeiro nos convidar e convencer a compra, ficando em segundo embalar, servir de invólucro para o produto adquirido.
Uma lata de refrigerante. Após ser consumido seu conteúdo, será descartada. Para se desintegrar inteiramente, muitos anos. As pets, também, creio. Porque não apostar em uma garrafa parecida com as tradicionais, de vidro, retornáveis? Vou ao McDonald’s. O Big Mac, no trajeto entre a cozinha, balcão e minha travessa, trinta segundos, talvez, vai-se a embalagem, caixa de papelão. Quantas árvores vieram abaixo somente para esse pequeno tráfego? Peço uma pizza pelo telefone. Chega aquela embalagem grande. Após comer, vai aquilo tudo para o lixo. Bem, faça a sua lista. É interminável. Não é querer ser ecochato. Isso, definitivamente, não sou. Mas, é claro perceber que ao comprar uma latinha de refrigerante, já compro também o lixo, que representa a latinha, após ser ingerido seu conteúdo. Imagine milhões, a cada minuto. Será que esses designers são tão bons assim? Porque imagino também que essas grandes empresas mundiais sabem que se parecerem preocupadas com a ecologia, ganharão muitos pontos na imagem institucional. As embalagens são cada vez mais lindas, modernas, mas são também lixo. O tempo de validade da beleza ao lixo é pequeno, a partir do momento do Shazam, quando o adquirimos. Então, nos transformamos em bruxos. Mal tocamos aquela beleza que ambicionamos, é efêmero seu reinado e já vira lixo. Compre um Chicabom. Retire o papel. Lixo. E o palito? Lixo. Enfim, o Chicabom, após algum tempo, nosso organismo também o descartará.. Tem alguma coisa errada aí.
Qual é sua embalagem? Você se preocupa com isso? O que passa? O que veste conta sobre sua pessoa? Você usa alguma coisa diferente, dependendo do lugar ou a quem vai ver? Na medida em que troca de roupa, de embalagem, você também muda alguma coisa no seu comportamento? Mais simples. Durante a semana, paletó e gravata, você é mais sério? Sente-se mais importante? No final de semana, de bermudas, você muda? Você é advogado, usa terno e gravata, tem uma imagem severa, séria, mas vai até o boteco da esquina, encontrar com amigos e muda de postura? E a mulher? Cor do cabelo, alisamento japonês, isso pode ser considerado mudança de embalagem? Você entregaria sua imagem visual a um dress designer? Não se sentiria incomodado com uma embalagem que não é a sua? Você se veste tal qual sua turma? Você é mauricinho, alternativo, largadão, afinal, qual é sua embalagem? Você já sofreu preconceito por ser considerado mauricinho e querer freqüentar os petistas, com roupas de mauricinho? Você, mulher, veste sempre aquele saião, camisa regata, sandália baixa, cabelão, e te convidam para um jantar social. Qual será a roupa? E quem se deixa despir totalmente, pela mídia, quem se desnuda, se oferece em sacrifício, como no filme Apocalypto? Explico. No Apocalypto, no alto de uma escadaria, prisioneiros são degolados, para saciar o deus e trazer de volta as boas colheitas. Hoje, a mídia sacrifica diariamente modelos e políticos para saciar nossa fome. Lembro daquela bandeirinha de futebol, belíssima, por sinal. Ela revoltava os torcedores machistas ao ficar, na lateral do campo, em posição de mando, sobre vinte e dois homens, com uniformes apertados, realçando a beleza do corpo. Quando errava, o mundo vinha abaixo. Era preciso desnudá-la. Alimentar a mídia. Tirar seu uniforme. Sua autoridade. Escarafunchar sua vagina, ânus, seios, estrias, celulites, certamente tiradas em photoshop. Depois ela vem em entrevista, dizer que fez por dinheiro. Sacrificou-se por dinheiro. Fica até constrangida. Diz que precisou beber alguns goles para relaxar. Chamá-la de prostituta pareceria careta? Não houve coquetel, noite de lançamento, por conta de ameaças vindas de torcidas organizadas. Como assim? Não estão satisfeitos em humilhá-la pagando uma fortuna para se despir, perder uniforme, autoridade, apresentar-se em público? Irá a programas de televisão explicar seu constrangimento. Jô Soares vai mostrar algumas fotos. Ficará ruborizada.
Enquanto alguns precisam de embalagem para se vender, outros precisam perder a embalagem para saciar a sociedade do consumo, do desperdício, do estupro midiático. E tudo vira lixo, rápido.

Um comentário:

Carlos Barretto disse...

Meu amigo, em se tratando de embalagens de produtos da Apple, digo-lhe de pés juntos: estas jamais alimemntarão a lata do lixo.
Guardo-as TODAS! Desde a do primeiro iPod até a do último Mac Mini.
São, definitivamente, uma pérola do marketing(???) moderno.

Abs