Vai
ser aí nesse Teatro, todo chic, importante? Ih, olhei pra minha roupa e
pensei.. a Doutora vai passar é vergonha comigo. Mas já estou aqui e seja o que
Deus quiser. Sentamos, assim, na primeira fila. Todo mundo chique, mulheres
lindas, e eu ali. O que será isso? Começa uma música e entram bailarinos e
bailarinas! Eu nunca tinha visto um balé! Gente, que coisa mais linda, aquelas
roupas, aquela dança, meninas lindas, rapazes.. epa, pera aí, não, não pode
ser, aquele ali não é o meu filho? Olhei pra doutora e ela riu pra mim.
Reconheceu seu filho? Eu nem respondi. Não podia tirar os olhos dele. Alto,
forte, um corpo lindo. Aquele negro era o solista, o ponto central do balé.
Tinha até orquestra tocando, maestro e tal, mas eu só olhava pro meu filho! Que
marotas essas minhas amigas! Deviam ter me contado! Eu não vejo ele há alguns
anos! Olha só o que ele fez! E eu me lembro, ele ali, sentadinho e levei uns
papeis e lápis de cor para ele ficar brincando. E agora esse tipão aí! A minha
vontade era gritar olha aí, olha que esse é meu filho! Mas eu me segurava.
Tinha um nó no peito que não sabia o que era. Ele não tinha pra onde ir e eu
levei pra casa. Virou meu filho. Filho, mesmo, amor de mãe, porque não precisa
sair do ventre pra sentir amor de mãe. E aí, um dia a professora veio me dizer
que ele estava fazendo parte de um show de hip hop, sei lá, no colégio e que
levava jeito pra dançar. Põe ele no balé.. Eu, hein. Pra depois ele ficar
falado, sei lá, falam tanta coisa. Mas eu conversei com a Doutora, porque a
irmã dela tem uma escola de dança. Ele foi. Espera aí. Agora ele está só no
palco. Ele gira, gira, faz piruetas. Parece de plástico, meu Deus. Será que não
cansa? Sabe lá se eu devia levar um copo d’água pelo menos pra ele. Ia, assim,
escondidinha, ali pelo lado. Psiu... Toma essa água, meu filho. Rápido, ninguém
vai ver e volta lá pro palco. Pois é, ele passou em um concurso e levaram ele
pra outra cidade. Fiquei com medo. É uma criança. É o meu filho. Me disseram
que ele tinha talento. Que eu não podia impedir. Então eu cheguei pra ele e
perguntei: meu filho, tu queres mesmo fazer isso? Ele disse sim. E foi. Manda
cartas. Telefona. Mas de uns anos pra cá, nem teve tempo. E agora ali, na minha
frente, esse teatro lotado de gente rica, chic, inteligente e ele lá, tão
lindo, grande, alto, meu Deus como está alto! Terminou. Batem palmas. Eu
levanto e bato palmas! Grito meu filho! Meu filho! Ele não ouve. Fecham as
cortinas. Não param de bater palmas. As cortinas abrem novamente. Meu filho! E
então pedem para fazer silêncio. Alguém traz um ramalhete de flores. Um
microfone. Ele vai lá. Agora tem uma voz grossa! De onde vem esse voz grossa
assim, seu moleque! E diz que há uma pessoa muito especial na platéia. E para
esta pessoa ele quer dedicar o espetáculo. Mais que isso, quer dedicar toda a
vida. Ele diz minha mãe, minha querida mãe, pode subir aqui no palco? Não
entendo. Não sei o que fazer. Sinto-me parva. A doutora me tira do torpor.
Alguém estende a mão. Olho para mim, meu vestido e caminho até ele. Batem
palmas. Palmas pra mim? Ele me entrega as flores e me abraça. E me beija. E me
abraça com aquele abraço que só nós dois conhecemos. O teatro inteiro bate
palmas, mas não consigo olhar para nada. Só para ele, meu filho. Tão grande,
tão lindo, meu filho! Essa foi a noite mais feliz da minha vida.
sexta-feira, 20 de julho de 2018
UMA NOITE ESPECIAL
Eles
me enganaram direitinho. Eu devia ter desconfiado. Vem a minha chefe dizer que
viria um tal de Dr. Sei lá o quê, proferir uma palestra que eu não poderia
perder por nada desse mundo. Mas quando eu, já, Doutora? Acho até que estou de
plantão.. Não te preocupa, eu já mandei te substituir. fica pronta que eu vou
te apanhar de carro. A senhora vai me apanhar? Vou. Bem, se é assim.. procurei
algum vestido apresentável, porque enfermeira só se veste de branco a vida
inteira. E eu lá vou ter tempo pra comprar vestido?
sexta-feira, 13 de julho de 2018
DAR O FORA DE BELÉM?
O
comediante paraense Sergio Cunha é mais um a anunciar sua partida para
apresentações em rio de Janeiro e São Paulo, com uma esticada até Portugal,
onde pretende levar seu show. Aqui, não há espaço para ele. Gostaria de
dizer-lhe que aguardasse um pouco, pois essa nuvem negra que se abateu sobre
nossos artistas há uns 25 anos, está prestes a sumir. É claro que não podemos
saber quem vai ganhar e se colocará, no cargo de Secretário de Cultura alguém
minimamente preparado para tal. O estrago feito pelo funcionário público que há
tanto tempo ocupa a posição, não tem tamanho. Não há como mensurar. Mas certeza
mesmo é que haverá outro Secretário. Quem sabe? Mas reconheço que é quase
impossível esperar. Nào nos roubaram apenas espaços e datas em teatros locais,
muito menos nas demais cidades do Estado. Fizeram com que passássemos a ser
invisíveis. Não existimos para o grande público. Uma peça de teatro local,
apresentada em espaços alternativos, quando recebe 40 pessoas é considerada de
muito sucesso. Diferentemente, quando um global, traz comédias caça níquel,
cobrando preço alto, lota o Teatro da Paz. Estive conversando com um dos nossos
excelentes músicos. Não revelo o nome porque não pedi autorização. No momento,
com seu grupo, viaja pelo Brasil com uma das mais famosas cantoras nacionais.
Quantas pessoas levaria a um show somente da banda, aqui em Belém? Corajoso, o
conjunto vai lançar como que um clipe com quase 30 minutos de música
instrumental e cenas maravilhosas da Belém que poucos conhecem. O caso dos músicos
é mais complicado. Gravar cd? Quem ouvirá as músicas todas? Lançar apenas
singles? Não há mercado para artistas locais. Mesmo a rádio Cultura, dispara em
várias direções e não acerta. Toca blocos de mpb excelentes, com artistas como
Chico Buarque, Milton Nascimento, Caetano Veloso e uma música local. A quem
quer atingir? Que tipo de público? Que faixa etária e econômica? Uma emissora
que não depende de anúncios, que tem a palavra “Cultura” em seu nome, precisa
trabalhar apenas para a música paraense. E de maneira profissional, sem
pruridos absurdos. Hoje, com a facilidade da gravação, temos ótimas músicas
rodando por aí, candidatas a sucesso, se devidamente, tecnicamente programadas.
Mas isso é outro papo. Agora nas férias, artistas famosos, desses que fazem
versos tipo “dim dim dim”, irão a algumas praias, cobrando cachês fabulosos e
sendo assistidos por multidões. E quem quer saber dos artistas locais? Há
poucos dias, a Escola Livre de Teatro, uma parceria entre o Grupo Cuíra e o
Teatro de Apartamento, apresentou o resultado de seu primeiro curso. Um grupo
de dez pessoas, quase todas sem qualquer experiência de palco, apresentou-se
por 1 mês. É claro que convidaram amigos e parentes. O mais incrível é que a
maioria, nunca havia assistido a uma peça de teatro. Vocês precisavam olhar
para suas expressões, sua curiosidade, a mágica ali, sendo feita a alguns
poucos metros, sem uma tela de tv como intermediária. O grupo, que saiu, quer
prosseguir e procura salas onde se mostrar. Bem vindo ao clube. Eu faço parte.
Sei que depois de “Pssica”, muita gente passou a me conhecer como escritor, mas
dependendo do público, sou invisível, desconhecido. Posso ter feito um
brilhareco na frança e no sudeste, mas aqui, na minha terra, sou igualzinho a
qualquer outro escritor local, querendo ser lido e tendo meus livros vendidos
somente em uma livraria, a fox. Serginho Cunha, eu te compreendo. Vai na boa,
faz sucesso, não esquece da gente. Mas essa nossa desgraça vai acabar depois
das eleições.
sexta-feira, 6 de julho de 2018
APROVEITAR A JUVENTUDE
Danuza
Leão escreve crônicas dominicais em um dos jornais cariocas. No último domingo,
citou uma frase do grande historiador Pedro Nava: Todas as pessoas, entre 18 e
25 anos, não deviam fazer nada a não ser aproveitar a vida. Fiquei pensando a
respeito. É claro que isso é impossível em nossa sociedade atual e, falando
especificamente da classe média, que consegue pagar colégios e faculdades a
seus filhos. As pessoas mais pobres simplesmente nem vão às escolas e quando
vão, nada de Educação recebem de proveitoso. Sem nenhum horizonte ou preparo,
ingressam em carreiras criminosas ou vivem de “bicos”, camelôs. E sim, penso
que os garotos da classe média, deviam, todos, talvez, voltar ao primário para
aprender de verdade a ler, escrever, multiplicar, dividir e somar. Devido a
gestões desastrosas, temos algumas gerações completamente perdidas, o que nos
garante um futuro, como nação, sombrio. Os que podem estudar, aos 15 anos, já
são forçados a escolher profissão e enfrentar o vestibular ou as outras
maneiras de entrar nas universidades, isso porque no Brasil, além de tudo, se
não for doutor, com pós graduação e que tais, não se vale nada. Sinto que
digressionei. Queria escrever sobre a beleza de desfrutar da vida, entre 18 e
25 anos, quando todos somos jovens, românticos, sonhadores e o mundo se
apresenta com mil planos. Em alguns países da Europa, após concluir o segundo
grau, os jovens têm um ano de folga para viajar, conhecer outros lugares e
escolher suas carreiras. Já é alguma coisa. Comecei cedo. Aos 18 já havia
escrito peça, trabalhava em rádio e já era compositor da ala do Quem São Eles.
Mesmo assim, poderia ter feito muito mais. Trabalhava. Muito. Não podia dizer
não a nenhuma oferta. Casei cedo, havia filho. Havia o jornal Zeppelin, a loja
33 ¼ e a fundação da Rádio Cultura do Pará OT. E veio meu primeiro livro com
poemas, “Navio dos Cabeludos”. E mesmo assim eu já lia todos os jornais,
revistas e livros que podia. Assistia às sessões das sextas feiras no Cine
Palácio e ouvia a produção musical de Caetano, Gil, Chico, Milton, desculpem
aí. As informações eram difíceis de obter. Radiofotos, revistas enviadas por
amigos e discos que passávamos meses ouvindo, uma por uma das músicas, sem a
sofreguidão de hoje. Mas o que fazer, entre 18 e 25 anos, com tempo e digamos,
algum dinheiro, para conhecer o mundo, ler, assistir, ouvir e principalmente, namorar?
O mundo ficou pequeno com a internet. Visitamos os grandes lugares através das
telas, mas desculpem, somos humanos e nada como estar lá, pessoalmente,
sentindo na pele e na sensibilidade a grandeza dos grandes monumentos. Alguém
foi para a Índia aprender a meditar. Outro para a África, alguém para a Europa,
Estados Unidos, Chile, Panamá, sei lá. Alguém para percorrer o Brasil, esse
nosso país que é, na verdade, a reunião de vários países unidos apenas por uma
língua. Eu jogaria futebol quase todos os dias. Assistiria a todos os filmes,
leria os livros, iria às exposições. E depois dos 25, que tipo de cidadãos
poderíamos ser? Meu amigo está completando 40 anos. Lembrei de mim próprio. Meu
pai entrou em minha sala, me cumprimentou pelo aniversário e percebeu que
estava melancólico. Qual a razão? Respondi que era por ter entrado nos “enta”e
não sair mais. Ele pensou um pouco e me disse: pois eu era tão jovem quando
tinha 40 anos! Nunca esqueci. Foi uma lição. Mas quando lembro da fase entre 18
e 25, as dúvidas, a luta do trabalho, a respiração através da arte, penso que
Pedro Navas, utopicamente, tinha razão.
sexta-feira, 29 de junho de 2018
SEREI UM POETA?
Quando
criança, lembro de uma noite especial em minha casa. Vieram pessoas
importantes. De repente, minha tia Adalcinda subiu em uma cadeira e declamou um
de seus poemas. Minha mãe tinha alguma coisa guardada e fui ler. Ainda não
tinha capacidade de entender. Quando veio a Tropicália e os baianos, tudo
parecia encaixar. Antes, lembro da dificuldade em traduzir letras dos Beatles,
em sua fase psicodélica. Não parecia fazer sentido. Essa turma criava imagens,
paisagens, era preciso reunir isso para compor um quadro e entender. Rosenildo
Franco me mostrou Fernando Pessoa. E então, vieram os poetas marginais. Já
tinha fome de informação àquela época. Eles fizeram um grupo, Nuvem Cigana e
começaram a vender livros a partir de mimeógrafos, porque as editoras não
achavam aquilo ser poesia. E, no entanto, era tudo o que eu já queria dizer,
mas também não sabia como. Ia ao Rio de Janeiro e voltava cheio das publicações
mimeografadas de gente como Chacal, Bernardo Vilhena, Cacaso, Paulo Leminski,
Alice Ruiz e vários outros. Havia um livro tese de uma escritora, de sobrenome
Buarque de Holanda, acho, explicando aquilo tudo. Virou uma Bíblia. E quanto a
mim? Escrevia algumas coisas. Curtas. Procurava sempre um drible interessante
ao final. Depois, passei a colecionar palavras. Reunia umas cinco e a partir
delas, criava. Eram poesias? Seriam pequenas cenas a partir da minha
experiência com Teatro? Ou eram bobagens, mera reunião de palavras? Não
respeitava métrica nem qualquer outra questão comum à poesia, seguindo a linha
dos marginais. Criei coragem e mostrei aos amigos. Era digno ou ridículo?
Gostaram. Lancei “Navio dos Cabeludos”, com capa de Rosenildo Franco. O grande
João de Jesus Paes Loureiro, com sua generosidade de sempre, escreveu um
prefácio destacando o momento em que a poesia se aproximava das letras das
músicas pop. Decidi lançar uma fita cassete com áudio poemas. Nada de
declamação. Para cada poesia, uma voz, um fundo musical, uma interpretação.
Aproximação com teatro? Talvez. Chamei de “Mr. Bentley”, com uma capa genial de
Luiz Braga e design de meu irmão Janjo, que passou a criar todas as capas que
vieram em seguida. Um crítico da revista Manchete, Roberto Mugiatti registrou o
lançamento e achou interessante. Então veio “O Rei do Congo”, reunindo as
poesias que estavam na fita e outras, novas. Nenhum interesse maior, se me
entendem. Escrevia para mim. Publicava para mim e pronto. Veio outra fita,
“Óleo, porque faz a língua passear no céu da boca. E então veio “Surfando na
Multidão”, com Janjo criando família de letras e fotos de Luiz Braga. E depois,
“Incêndio nos Cabelos” onde, acredito, cheguei ao melhor do que me propunha. Iniciei
carreira como romancista e somente alguns anos mais tarde, fiz uma antologia,
“O Tempo do Cabelo Crescer” e o “Ávida Vida”. Nunca pertenci a nenhum grupo
local de poetas. Tenho amizade com muitos, mas percebo que escrevem de maneira
totalmente diferente e festejada. Isso me deixa cheio de dúvidas. É poesia o
que escrevo? Agora aproveito o facebook e publico. Muita gente gosta. Mas é
poesia? Paulo Nunes me convidou para conversar com alunos de Letras. O que
direi? Direi que acredito que os poetas deviam ser tão populares quanto os artistas
pop. Refletir seu tempo. Falar sua linguagem. Talvez até como alguns raps de
Marcelo D2. Mas, realmente, não consigo me colocar.
sexta-feira, 22 de junho de 2018
NOSSOS ÍDOLOS ENVELHECERAM
Li
no jornal Estado de São Paulo, matéria referente ao estágio das vozes de
algumas das maiores figuras da música popular brasileira. Todos eles com idades
acima dos 70 anos. A maioria surgida ali nos anos 60, aproveitando ao máximo
todos os acontecimentos que revolucionaram os costumes e também os excessos das
experimentações com drogas. Ney Matogrosso está com 76, Roberto e Erasmo com
77, Gil, Caetano e Milton com 75, Chico com 73, Gal com 72 e Bethânia com 71.
Eles e mais alguns outros, poucos, fizeram nossa geração cantar, aprender e
compreender. Ainda estão na luta, embora já não tenham público renovado, devido
à debacle da qualidade musical hoje vigente, na base do “atirei o pau no gato”,
nível de compreensão atual dos nossos jovens. Confesso sentir um certo
constrangimento ao ouvir os astros da minha juventude. Não eram apenas letras e
músicas, mas a maneira de cantar. Ney e sua voz aguda, Roberto perfeito em
técnica, Erasmo feito roqueiro, Caetano e Milton maravilhosos, Chico discreto,
Gal e Bethania sensacionais. De todos eles, meu incômodo é maior com Gilberto
Gil. Cantor espetacular, improvisador, ele tinha orgulho de seu potencial
vocal. Problemas na garganta, operações e ele agora é um artista que sofre para
atingir as notas mais fáceis. Alguns me repreendem dizendo que eu não podia
esperar mais de um artista com mais de 70 anos. Está bem. Mas é que ele me
acostumou mal. Ao ouvi-lo cantar os clássicos, sinto saudade, vontade até de
pedir para que ele ou não cante mais ou vá para os tons mais baixos, seguros,
sei lá. Mas como pedir a um artista vitorioso, ídolo, orgulhoso de sua
produção, que pare? Perguntado sobre sua voz, Caetano, com humor, disse que por
isso, agora, deixava os filhos cantarem por ele. Caetano mantém boa
performance, grande técnica, o que não ocorre com Milton Nascimento, que vem
superando alguns problemas físicos. Aquela voz poderosa, potente em graves e
agudos, agora perdeu o tônus, o brilho. E suas músicas exigem, exatamente, tudo
aquilo que o fez encantar plateias do mundo todo. Roberto Carlos e Chico
Buarque, que nunca foram de arroubos, estão bem. Fazem aulas, claro. Roberto,
bem técnico e Chico procurando se aplicar. E quanto a Gal e Bethânia? A
primeira, em seu último show, com músicas bem roqueiras, aguentou a potencia
toda, mas, sinceramente, ao interpretar músicas de seu emblemático “Fa-tal”,
não alcançou, o que é lógico, a intensidade daquele tempo. Mas é extremamente
técnica enquanto Maria Bethânia é toda emoção e cuidados com os agudos. Envolve
o público na emoção e nem precisa, digamos, exibir alcance de notas altas.
O
artigo do Estadão ainda cita Elton John, Paul McCartney e Rod Stewart, o
primeiro sentindo efeitos da velhice. Paul, corajoso, mantém as músicas nos
tons originais, confia no aquecimento das cordas vocais e faz seu show inteiro.
Um craque! Rod Stewart sempre teve a voz rascante e com a velhice, escapou do
rock para paragens mais amenas, gravando álbuns de sucesso com canções
clássicas americanas que venderam muito bem. Em tudo isso que já foi dito,
também preciso dizer que fora Chico Buarque, em alguns momentos, Gal e
Bethânia, estas, na escolha de repertório, a fonte secou para nossos heróis,
que há muito já perderam o entusiasmo e a força de composição. E poxa, eles
fizeram muito. Demais. Transformaram nossas vidas. Mas prefiro ouvir os discos
de antes do que os que ainda estão gravando. Compro, ouço, por paixão, mas
prefiro os de antes, tão lindos e inesquecíveis.
sexta-feira, 15 de junho de 2018
A NOVA COPA
Será
que nos animaremos para a Copa do Mundo? Creio que sim. Aguardaremos a primeira
vitória e as ruas vibrarão. Com nossa alma de cachorro vira lata, como dizia
Nelson Rodrigues, ergueremos os punhos gritando, diante do mundo “dobrem-se ao talento
brasileiro!”. Ao menos no futebol. Não me lembro da primeira Copa em 1958.
Tinha apenas quatro anos, mas havia um elepê contendo a narração de todos os
gols da seleção. O irmão mais velho tocava sem parar. Um problemão. A
transmissão chegava com má qualidade. Assim, meu pai trancou-se em seu
gabinete, no apartamento, colocou fones de ouvido e passou a dublar a narração.
Uma façanha. Quanto a nós, ficamos proibidos sequer de falar, quanto mais
correr e gritar em brincadeiras, para não atrapalhar seu trabalho. Imaginem as
ameaças que recebemos. Enfim, certamente, a de maior envolvimento emocional foi
a de 1982. Eram meus ídolos em ação, o Flamengo campeão do mundo, dando show de
bola, até aparecer Paulo Rossi. Pessoas choraram pelas ruas. Baixo astral. Foi
como tomar pirulito de criança. O futebol começou a mudar. As contratações.
Nossos craques, como Falcão, Zico, Sócrates, Júnior, Oscar, sei lá quem mais,
foram encantar os europeus. E chegamos hoje, em que os clubes europeus são
verdadeiras seleções com os melhores jogadores do mundo. O esporte globalizou.
Isso me fez pensar. Tenho uma idéia. Quero dividir com vocês. Deixem todas as
opiniões de lado, por um instante. Quando as Copas começaram, há muito tempo
atrás, as equipes viajavam de navio. As comunicações também eram difíceis.
Então, os encontros eram surpreendentes. Escolas diferentes de futebol. Lembro
que em 1958, todos aguardavam a seleção russa, que praticaria o futebol
científico. Bem, Mané Garrincha acabou com tudo. Mas havia a Italia e seu
ferrolho. Os ingleses e o jogo aéreo. Os húngaros geniais. E os brasileiros,
que jogavam sambando. Até tinha sentido cantar o hino nacional antes dos jogos,
como se fossem dois exércitos para a guerra. Hoje, tudo mudou. Para a maioria
de jogadores consagrados e ricos, a Copa é um torneio de verão, já que deviam
estar de férias após estafante temporada, mas que paga bons prêmios, renova
contratos de publicidade, enfim. O resto é propaganda. Experimentem passar uma
semana fora do Brasil. Provavelmente não lerão ou assistirão nenhuma notícia
daqui. Imaginem um jogador de futebol, distante de casa, treino e jogo,
conquistas, riqueza, um, dois, quatro anos. Perdem a ligação, nem lembram da
torcida brasileira. Chegam aos treinos de helicóptero. Joga-se da mesma
maneira, globalizada, hoje, no mundo inteiro. Minha idéia, preparem-se: cada
seleção é escolhida entre melhores jogadores em ação em cada país. Nada de
nacionalidade. A seleção será de jogadores vistos a cada jogo, em cada país.
Sim, dirão que Espanha e Inglaterra, por exemplo, serão favoritas. Pode ser,
mas a seleção brasileira, acho, jogará da maneira que jogamos aqui. Com os
ídolos locais. Perdemos referencia. Somente quem assiste a jogos internacionais por canais
fechados, acompanha os craques brasileiros. A seleção nem faz amistosos por
aqui. É mais barato reunir os jogadores na Inglaterra, por exemplo. Estranho?
Ficamos mais fracos e não seremos mais o destaque? Pode ser. Mas será o espelho
do futebol em cada país. Penso também que torceremos mais fervorosamente por
craques aos quais assistimos durante a semana, em nossos campeonatos. Minha
idéia. O que acham?
sexta-feira, 8 de junho de 2018
REUNIÃO DE FAMÍLIA
Não
sei se isso continua a acontecer. Nos dias de hoje, todos parecem preferir a
solidão, andando pelas ruas com seus fones de ouvido, como se não quisessem ser
perturbados por nada. Mas eu me lembro, antigamente, mês de julho, Mosqueiro,
ou Moscow. O pai chegava depois das seis, no Presidente Vargas, sexta feira.
Desembarcava do ônibus que ia parando nas praias, para que os pais de família
passassem o final de semana com os seus. A vida começava a melhorar. O pai, que
antes trabalhava de manhã, de tarde e de noite, para alimentar cinco bocas
famintas, agora tinha os finais de semana. Os filhos adolesceram e ele, também.
Tivera um conjunto musical quando solteiro. A mãe era a cantora. Quando
casaram, guardou o violão e foi à luta. Ela chefiou aquela gang de cinco,
usando sua imaginação delirante. Deu no que deu. Dos cinco, quatro são
jornalistas e três, radialistas também. Sim, aquele final de semana. Trazia
jornais, claro, revistas e alguns mimos para os filhos. E mais tarde, banho
tomado, jantado, ia até o pátio levando o violão. Sentávamos em volta. E
tocava. Primeiro as músicas que gostava, para matar a saudade da semana
difícil. E depois, apontava para cada um, que também tinha de cantar.
Deixávamos de lado músicas autorais e fazíamos sua vontade. Músicas antigas, as
quais sabíamos as letras. Caetano, Paulinho da Viola, bossa nova. Ele
acompanhava. Fazíamos côro. Quer algo melhor que um pai, cercado dos filhos e
da mãe, cantando juntos. Bem, não posso garantir, principalmente por meu lado,
qualquer qualidade no canto, mas isso não era esperado. Bom era estar juntos.
Mais tarde, saía com a mãe para encontrar amigos de seresta. Imagino que em
outras casas, isso também acontecia. Talvez não fosse o pai, mas alguém levava
o violão. Cantavam Chico, Caetano. Cantavam Jovem Guarda. Era tão bom!
Foi
disso que lembrei quando ouvi o disco gravado por Caetano Veloso e seus filhos,
em show que vem percorrendo o país e até já esteve aqui. Não, não estive no
Hangar. Não ia machucar meus ouvidos com o som horrível dos shows que lá
acontecem. Assisti a algumas gravações em programas de tv e instagram. Imagino
que a idéia tenha vindo em alguns dos saraus que Paula Lavigne promove no
apartamento onde moram. Penso no peso que deve ser ter um pai como Caetano
Veloso. Em outra esfera, claro, eu e meus irmãos nunca sentimos isso, mas sei
lá, talvez todos esperem a mesma genialidade, apesar disso quase nunca
acontecer. Caetano, Moreno, Zeca e Tom. O repertório foi ajustado para que
todos tivessem alguma música de sua autoria para cantar. E todos dividem vários
instrumentos. Quem assistiu ao show, deve ter visto. A abertura é com “Alegria,
Alegria”, com Tom participando. Depois vem “O seu amor”, uma das mais belas
músicas de Gilberto Gil, feita para os Doces Bárbaros, com solo de Moreno. E lá
vem “Boas Vindas”, samba de prato, seguida por “Todo Homem”, que virou single e
tema de minissérie, autoria e solo de Tom. Sim, é curioso que tenha escolhido o
falsete para se expressar. A frase “todo homem precisa de uma mãe” emocionou a
todos. Há algumas das últimas safras de Caetano, que não gosto. Quando começa a
ficar chato vem “Oração ao Tempo”. Canções feitas para Dona Canô ou para
Paulinha. Músicas como “Reconvexo”, que fez para Bethania e “Força Estranha”,
que Gal gravou. É um show que está correndo o Brasil, mas é como se estivessem
no apartamento, família, todos em volta. Claro, quando o pai canta, é
maravilhoso. Me lembrei dos julhos de Mosqueiro, de meu pai e de um tempo
inesquecível.
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