Às vezes vou lá no velho baú de prata onde guardo minhas lembranças e me delicio. Um dia desses, alguém comentou do tempo em que se dançava de "rosto colado". Me fez pensar no assunto. Não fui desses adolescentes que cedo já é chefe de turma e trata as meninas de igual para igual, trafegando com naturalidade em território hostil. Que vai às festas, dança com todas, namora com duas, três de cada vez e é disputado. Pelo contrário. Minha infância durou muito tempo, o que acho determinante para a maioria das minhas atividades, para a imaginação, encantamento e ingenuidade. Mas ali, a partir dos 13 anos, começaram a haver os aniversários, 15 anos, tertúlias (como eram chamadas as "Pipocas" de hoje) e os amigos me levavam. Era natural. UM amigo me chamou em sua casa. As vizinhas de apartamento, duas irmãs, fariam uma festa somente para nós, em seu quarto. Apagavam a luz. Não pensem que acontecia algo moralmente discutível. Era para dançar, flertar. Havia as festas. O problema era o que fazer, uma vez ali dentro. Pouca luz, Esmeril Band ou Guilherme Coutinho tocando, ou toca discos, e a garotada em volta. Meu primo corria e pegava a primeira que via, saindo dançando pelo salão. Aquilo é que era coragem! Uma vez, férias de julho, Mosqueiro, o saudoso Dr. Rubem Ohana chega em casa com sua kombi cheia de meninos e meninas do Chapéu Virado. Alguém põe discos. Todos dançam. Eu, assistindo. O que fazer? Onde estava a coragem de chegar, frente a uma das meninas e dizer a fatídica frase: quer dançar comigo? E se a resposta fosse "não"? Pior, "estou cansada".. Pior, pior, bem pior. A garota topa dançar. Vai uma música, outra, mais outra. Ultrapassando três músicas, Houston, temos um problema. A menina cola seu corpo no seu. Cola sua cabeça no seu peito. Temos um problema. Você não estava a fim da garota. Chamou apenas para dançar. O que fazer, então? Decepcioná-la? Uma vez, uma garota com quem dançava foi embora, faltando duas ou três músicas para o encerramento da "tertúlia", na boate da Assembléia Paraense. Inebriado pela música, olhei em volta, disposto a ficar até o fim na pista, dançando. Havia uma moça, linda. Não quis nem saber. - Quer dançar? - Não, estou cansada. Acabou com a minha noite. Ou então, é a garota dos seus sonhos e finalmente ela está ali, de "rosto colado", todos estão vendo e uma atitude terá de ser tomada. Vamos levando, a música vai, o rosto continua colado e nossa cabeça, dá cambalhotas nos pensamentos. Dizer a ela, no pescoço, que a amamos? Pedir para namorar, assim, no pé do ouvido? Convidar para ir até lá fora, onde podemos formalizar o pedido? Parece tão fácil, não é? Jogar para trás a forma de criança e assumir a adolescência. Tomar uma atitude por si próprio. É a idade dos primeiros amores. Aqueles que não esqueceremos jamais. Minha primeira namorada formal, teve de, corajosamente, ter o destemor de me perguntar, uma noite, na boate Papa Jimi, onde dançávamos há horas, como já vínhamos fazendo desde a boate Ressaca, no Mosqueiro, se estávamos ou não namorando.. Que alívio! Sim.. O tempo que levei ensaiando de inúmeras formas, aquele pedido. O que essa garotada de hoje, com toda sua liberdade não sabe, é que nós, garotos, principalmente como eu, mais pro infantil do que para o adolescente, víamos as garotas como seres diferentes. Lindas, audaciosas ou tímidas, com suas vozes, seus rostos, seus corpos a nos enlouquecer e principalmente, sem nos deixar perceber como, realmente, pensavam. E, de repente, ter ali, em seus braços, "rosto colado", corpo junto, corações disparados, "My Cherie Amour", com Stevie Wonder rolando, a garota com que você sonhou. Gente, é uma dessas ocasiões em que melhor seria ir para uma "Situation Room" como nos melhores seriados, e discutir a questão. E então, dar aquele beijo, meu Deus, como será beijar de língua?
Aquele beijo de perder o fôlego, sorrir e se despedir, porque a mãe ou a tia com quem veio já está indo embora. E então, voltar ao convívio dos amigos, como um herói retornando de mais uma façanha, coberto de glórias, peito estufado, tirar por menos, aquela que foi sua primeira conquista na vida e enfim, mais tarde, sozinho, em sua cama, sem conseguir dormir de excitação pura, de espírito, sem malícia, sentir-se feliz, conquistador, poderoso, por saber-se amado, admirado por uma mulher, uma garota que somente ao olhar, piscar ou dizer qualquer coisa, fará você ir até a lua. Você agora é alguém, não mais a criancinha da casa. Você tem uma namorada. Alguém com quem dançará, a partir daí, de rosto colado. Os amigos sentirão ciúmes dela e ela, deles. E voce dividido, tendendo para ela, claro, como um vapor que vai desatracando do porto, as pessoas acenando. Meu Deus, como era bom!
quarta-feira, 30 de setembro de 2009
A Paradinha
Quer dizer então que o Sr. Blatter quer proibir a "paradinha" em cobrança de pênaltis? Quanta burrice! Então, terá de proibir ou punir o jogador que ao cobrar um lateral, refugar e tentar novamente. Proibir uma cobrança de falta onde, quase no momento de tocar na bola, o jogador decida outra ação. É um absurdo. Na "paradinha", o jogador não toca na bola. E enquanto não tocar, ela não estará em jogo. Pior, sua perna está no ar, movimentando-se, ou driblando. Ele não refuga, volta, toma outra distância e bate o pênalti. Como punir algo que não ocorre em momento propício, já que a bola não está em jogo? Sim, eu acho que em muitos casos, o cobrador chega a humilhar o goleiro com sua habilidade, sua sonsidão, malícia. Lembro daquele jogador, Djalminha, aguardando até o último segundo, como caçador experiente, a presa mover-se, para, com algum nojo, tocar a bola, mansamente, em outro lugar enquanto o goleiro se arrebentava, perdido. É preciso muito sangue frio e sonsidão, qualidades boas em um batedor. Quanto ao goleiro, só pode mover-se após a bola ser chutada. Se ela não sai do lugar, o que fazem, caindo antes? Pior, o pênalti é a penalidade mais grave do futebol. Porque dar mais chance aos goleiros? Vamos então a essa disposição mundial, que vai de encontro ao princípio básico do futebol, que é o gol. Hoje, por todos os motivos, desmarca-se um gol. Não se marca pênaltis por diversas e malucas interpretações. Marca-se impedimento por qualquer dúvida. E a disposição é contrária! Na dúvida, deixe seguir o lance. Na dúvida, marque o pênalti!
Tem cada uma! Será que Blatter já jogou futebol?
Tem cada uma! Será que Blatter já jogou futebol?
Teatrinho
Foi muito desagradável ler, pela segunda vez, em menos de três meses, o Comendador Mário Sobral escrever em sua coluna diária em O Diário do Pará, que o Teatro Cuíra é um teatrinho, indigno de receber o grande Cláudio Barradas, que em companhia de Zê Charone, acaba de completar dois meses em cartaz na primeira temporada da peça "Abraço". Sobral sempre faz elogios a Barradas, de quem foi colega em rádio novelas e novelas de televisão para o grupo Marajoara. E sempre deplora que, ao invés de estar em um Teatro da Paz, por exemplo, e como merecia, está num "teatrinho" como o Cuíra, em plena zona do meretrício. Barradas pode dizer porque está no Cuíra. Mas posso, também, dizer aqui o que ele acha, porque me disse e é meu amigo. Barradas sabe a barra pesada de fazer teatro em Belém e não é de hoje. Também acha que o tipo de texto da peça em questão, é melhor para teatros com menor capacidade de público, de maneira a travar-se um encontro mais íntimo, cara a cara, ator e platéia. Isso é uma coisa. A outra é o preconceito de Sobral, que insistindo em chamar de "teatrinho" para o Cuíra, favorece apenas a prosperidade para o preconceito que só faz crescer, entre os belemenses, contra o teatro local. O Teatro da Paz, o Schivazapa e o Maria Nunes, estão todos lotados, aos finais de semana, com peças caça níqueis vindas do Rio de Janeiro, com artistas globais, atuando em novelas ou até em humorísticos de qualidade duvidosa como Zorra Total. Sei perfeitamente que ele não faz isso para nos agredir, por nos desprezar, por má vontade. É por ignorancia, uma vez que sua coluna, hoje não tão muito lida como antes, pela repetição das piadas e pouca graça, sempre defendeu a Cultura local. Sobral não vai a teatro, não sei se nesses espetáculos "globais", mas não tem idéia da complicação em montar um espetáculo em uma terra sem nenhuma ação cultural por parte do Governo do Estado ou Prefeitura, reunir dinheiro, ensaiar, figurinos, enfim, tanta coisa e depois de três meses de ensaio para mostrar um bom produto, ter apenas um final de semana disponível nos teatros da terra. Três meses em três dias. Não sabe que foi por isso que o pessoal do Cuíra teve o peito de alugar o Teatro, bem na zona do meretrício. Não sabe dos trabalhos sociais e culturais que são desenvolvidos. Que agora será um Ponto de Cultura. Não lembra mais que antigamente, atores e prostituras tinham a mesma carteira de identificação para a Polícia e assim, nada de estranho em estar ali, na Primeiro de Março com Riachuelo. Não sabe que o Cuíra, ou os diversos grupos que já ocuparam seu ótimo palco, precisam ficar, no mínimo, 30 dias em cartaz! Não sabe que há cem confortáveis poltronas. Não sabe que não temos ar condicionado, mas vários ventiladores garantindo um mínimo de conforto para todos. Não sabe. Ele acha que Cláudio Barradas se diminui indo para o "teatrinho" Cuíra, mas não vê que ele, Sobral, se diminui e ajuda a aumentar o fosso existente entre os artistas locais e o público. Fosso para ele, também, como se ler colunas compradas no sul do país, fosse melhor que a dele, no mesmo jornal. Puxa, que mancada, que decepção, caro Sobral! Teatrinho!
sexta-feira, 28 de agosto de 2009
Bônus de Woodstock
A Saraiva está vendendo com exclusividade, uma caixa com 4 Dvds de Woodstock. Nos dois primeiros, a versão do diretor, que já havia sido lançada uns dez anos atrás. O melhor vem nos dois outros dvds. Em um, série de entrevistas com o diretor do documentário, músicos presentes, o produtor do festival, e outras figuras que vemos, tão jovens, no filme original. Compreede-se que Woodstock, foi um raro momento, desses em que parece, todos os deuses decidiram que daria certo, diante de qualquer coisa inusitada que fosse acontecer. O local foi decidido quase no momento de desistir. Woodstock foi em Bethel, mas ficou o nome do local onde o conselho de cidadãos da região não permitiu. Cento e vinte mil ingressos foram vendidos com antecedência, mas foram até lá 500 mil pessoas. As estradas, engarrafadas, foram interditadas. Calamidade pública. Fazendeiros e até o exército ajudaram com alimentos e medicamentos. Houve uma morte, parece, alguns partos, overdoses e certamente uma ou outra desavença. Em uma comunidade de meio milhão de pessoas, um sonho. Não havia, estocado, em NY, carreteis de filme em número suficiente. Foram chamados os melhores cinematografistas americanos. Os carretéis foram chegando de helicóptero. Como os artistas. O Ten Years After recusou a primeira oferta para se apresentar. Depois, quando os caras souberam que Janis, Jimi e Who estavam na lista, correram. O líder do Sha Na Na confessa. Woodstock foi tudo. O grupo entrou, contratado para ser uma novidade, algo engraçado, pois fazia uma linha primórdios do rock com muito glitter. "Dali, seguimos adiante, gravamos dez discos, rodamos o mundo, ganhamos dinheiro", disse o cara. Problemas com energia. Com falta de luz suficiente para filmar à noite. Eddie Kramer, trancado em uma casinha, gravando tudo em gravador de rolo.. E então vem o último dvd. Um por um, passam as tomadas dos artistas que estiveram lá em performances inéditas. Alguns, nunca tinham sido mostrados. Jimi e Janis assistindo, divertidos, Sha Na Na. Canned Heat, o mais mostrado. Bandas com dois guitarristas solo, dando show. The Who em My Generation e outras. Grateful Dead em duas longas, sensacionais em sua mistura de anarquia e precisão, jazz, blues, rock and roll. Creedence Clearwater Revival pleno de energia em Born on the Bayou e I Put a Spell on You. Santana em Evil Ways. Johnny Winter, maravilhoso. Paul Butterfield Blues Band. Jimi em Spanish Castle Magic. Mountain, com o gordo e excelente guitarrista Felix Papallardi. Uma loucura. E os caras ali, com um mínimo, 1%, penso, do que hoje seria necessário para algo daquele tamanho e todo mundo curtindo, se amando, percebendo o tamanho de estar ali. Meu filho pergunta se nunca havia visto Grateful Dead tocando. Ele é de hoje, quando tudo está ao nosso alcance. Meu primeiro contato com Hendrix, guardo até hoje, uma foto, radiofoto da UPI onde ele toca a guitarra com a língua. Agora aguardo uma caixa com 6 cds, aumentando os 4 que foram lançados 10 anos atrás. E há o livro. E vem um filme passado durante o festival. Está bem, nostalgia, mas da boa.
quarta-feira, 26 de agosto de 2009
As embalagens. Qual a sua embalagem?
Vivemos em uma sociedade de espetáculo. A aparência é importante. A embalagem. Designers são altamente importantes ao criar embalagens para os produtos. A briga pelo consumo é feroz. Sou muito influenciado por embalagens. Mesmo quando vou a uma livraria, loja de discos, banca de revistas. Fico ali como criança em loja de doces. No supermercado, também. É claro que há mil técnicas de arrumação de prateleiras, displays, tudo para afetar nossa disposição de consumir, uma vez que entremos nesses templos de consumo. Não há nada de errado nisso, desde que os produtos cumpram o que dizem, pelo que são fiscalizados e tal, mesmo que me dê raiva quando leio, por exemplo, que gordura trans faz mal e no entanto, justamente os melhores biscoitos são assim, e ninguém faz nada, afinal, se é ruim para a saúde, as autoridades não poderiam permitir, blábláblá. O problema está no que fazer com a embalagem, uma vez cumpridas suas finalidades iniciais, digamos, primeiro nos convidar e convencer a compra, ficando em segundo embalar, servir de invólucro para o produto adquirido.
Uma lata de refrigerante. Após ser consumido seu conteúdo, será descartada. Para se desintegrar inteiramente, muitos anos. As pets, também, creio. Porque não apostar em uma garrafa parecida com as tradicionais, de vidro, retornáveis? Vou ao McDonald’s. O Big Mac, no trajeto entre a cozinha, balcão e minha travessa, trinta segundos, talvez, vai-se a embalagem, caixa de papelão. Quantas árvores vieram abaixo somente para esse pequeno tráfego? Peço uma pizza pelo telefone. Chega aquela embalagem grande. Após comer, vai aquilo tudo para o lixo. Bem, faça a sua lista. É interminável. Não é querer ser ecochato. Isso, definitivamente, não sou. Mas, é claro perceber que ao comprar uma latinha de refrigerante, já compro também o lixo, que representa a latinha, após ser ingerido seu conteúdo. Imagine milhões, a cada minuto. Será que esses designers são tão bons assim? Porque imagino também que essas grandes empresas mundiais sabem que se parecerem preocupadas com a ecologia, ganharão muitos pontos na imagem institucional. As embalagens são cada vez mais lindas, modernas, mas são também lixo. O tempo de validade da beleza ao lixo é pequeno, a partir do momento do Shazam, quando o adquirimos. Então, nos transformamos em bruxos. Mal tocamos aquela beleza que ambicionamos, é efêmero seu reinado e já vira lixo. Compre um Chicabom. Retire o papel. Lixo. E o palito? Lixo. Enfim, o Chicabom, após algum tempo, nosso organismo também o descartará.. Tem alguma coisa errada aí.
Qual é sua embalagem? Você se preocupa com isso? O que passa? O que veste conta sobre sua pessoa? Você usa alguma coisa diferente, dependendo do lugar ou a quem vai ver? Na medida em que troca de roupa, de embalagem, você também muda alguma coisa no seu comportamento? Mais simples. Durante a semana, paletó e gravata, você é mais sério? Sente-se mais importante? No final de semana, de bermudas, você muda? Você é advogado, usa terno e gravata, tem uma imagem severa, séria, mas vai até o boteco da esquina, encontrar com amigos e muda de postura? E a mulher? Cor do cabelo, alisamento japonês, isso pode ser considerado mudança de embalagem? Você entregaria sua imagem visual a um dress designer? Não se sentiria incomodado com uma embalagem que não é a sua? Você se veste tal qual sua turma? Você é mauricinho, alternativo, largadão, afinal, qual é sua embalagem? Você já sofreu preconceito por ser considerado mauricinho e querer freqüentar os petistas, com roupas de mauricinho? Você, mulher, veste sempre aquele saião, camisa regata, sandália baixa, cabelão, e te convidam para um jantar social. Qual será a roupa? E quem se deixa despir totalmente, pela mídia, quem se desnuda, se oferece em sacrifício, como no filme Apocalypto? Explico. No Apocalypto, no alto de uma escadaria, prisioneiros são degolados, para saciar o deus e trazer de volta as boas colheitas. Hoje, a mídia sacrifica diariamente modelos e políticos para saciar nossa fome. Lembro daquela bandeirinha de futebol, belíssima, por sinal. Ela revoltava os torcedores machistas ao ficar, na lateral do campo, em posição de mando, sobre vinte e dois homens, com uniformes apertados, realçando a beleza do corpo. Quando errava, o mundo vinha abaixo. Era preciso desnudá-la. Alimentar a mídia. Tirar seu uniforme. Sua autoridade. Escarafunchar sua vagina, ânus, seios, estrias, celulites, certamente tiradas em photoshop. Depois ela vem em entrevista, dizer que fez por dinheiro. Sacrificou-se por dinheiro. Fica até constrangida. Diz que precisou beber alguns goles para relaxar. Chamá-la de prostituta pareceria careta? Não houve coquetel, noite de lançamento, por conta de ameaças vindas de torcidas organizadas. Como assim? Não estão satisfeitos em humilhá-la pagando uma fortuna para se despir, perder uniforme, autoridade, apresentar-se em público? Irá a programas de televisão explicar seu constrangimento. Jô Soares vai mostrar algumas fotos. Ficará ruborizada.
Enquanto alguns precisam de embalagem para se vender, outros precisam perder a embalagem para saciar a sociedade do consumo, do desperdício, do estupro midiático. E tudo vira lixo, rápido.
Uma lata de refrigerante. Após ser consumido seu conteúdo, será descartada. Para se desintegrar inteiramente, muitos anos. As pets, também, creio. Porque não apostar em uma garrafa parecida com as tradicionais, de vidro, retornáveis? Vou ao McDonald’s. O Big Mac, no trajeto entre a cozinha, balcão e minha travessa, trinta segundos, talvez, vai-se a embalagem, caixa de papelão. Quantas árvores vieram abaixo somente para esse pequeno tráfego? Peço uma pizza pelo telefone. Chega aquela embalagem grande. Após comer, vai aquilo tudo para o lixo. Bem, faça a sua lista. É interminável. Não é querer ser ecochato. Isso, definitivamente, não sou. Mas, é claro perceber que ao comprar uma latinha de refrigerante, já compro também o lixo, que representa a latinha, após ser ingerido seu conteúdo. Imagine milhões, a cada minuto. Será que esses designers são tão bons assim? Porque imagino também que essas grandes empresas mundiais sabem que se parecerem preocupadas com a ecologia, ganharão muitos pontos na imagem institucional. As embalagens são cada vez mais lindas, modernas, mas são também lixo. O tempo de validade da beleza ao lixo é pequeno, a partir do momento do Shazam, quando o adquirimos. Então, nos transformamos em bruxos. Mal tocamos aquela beleza que ambicionamos, é efêmero seu reinado e já vira lixo. Compre um Chicabom. Retire o papel. Lixo. E o palito? Lixo. Enfim, o Chicabom, após algum tempo, nosso organismo também o descartará.. Tem alguma coisa errada aí.
Qual é sua embalagem? Você se preocupa com isso? O que passa? O que veste conta sobre sua pessoa? Você usa alguma coisa diferente, dependendo do lugar ou a quem vai ver? Na medida em que troca de roupa, de embalagem, você também muda alguma coisa no seu comportamento? Mais simples. Durante a semana, paletó e gravata, você é mais sério? Sente-se mais importante? No final de semana, de bermudas, você muda? Você é advogado, usa terno e gravata, tem uma imagem severa, séria, mas vai até o boteco da esquina, encontrar com amigos e muda de postura? E a mulher? Cor do cabelo, alisamento japonês, isso pode ser considerado mudança de embalagem? Você entregaria sua imagem visual a um dress designer? Não se sentiria incomodado com uma embalagem que não é a sua? Você se veste tal qual sua turma? Você é mauricinho, alternativo, largadão, afinal, qual é sua embalagem? Você já sofreu preconceito por ser considerado mauricinho e querer freqüentar os petistas, com roupas de mauricinho? Você, mulher, veste sempre aquele saião, camisa regata, sandália baixa, cabelão, e te convidam para um jantar social. Qual será a roupa? E quem se deixa despir totalmente, pela mídia, quem se desnuda, se oferece em sacrifício, como no filme Apocalypto? Explico. No Apocalypto, no alto de uma escadaria, prisioneiros são degolados, para saciar o deus e trazer de volta as boas colheitas. Hoje, a mídia sacrifica diariamente modelos e políticos para saciar nossa fome. Lembro daquela bandeirinha de futebol, belíssima, por sinal. Ela revoltava os torcedores machistas ao ficar, na lateral do campo, em posição de mando, sobre vinte e dois homens, com uniformes apertados, realçando a beleza do corpo. Quando errava, o mundo vinha abaixo. Era preciso desnudá-la. Alimentar a mídia. Tirar seu uniforme. Sua autoridade. Escarafunchar sua vagina, ânus, seios, estrias, celulites, certamente tiradas em photoshop. Depois ela vem em entrevista, dizer que fez por dinheiro. Sacrificou-se por dinheiro. Fica até constrangida. Diz que precisou beber alguns goles para relaxar. Chamá-la de prostituta pareceria careta? Não houve coquetel, noite de lançamento, por conta de ameaças vindas de torcidas organizadas. Como assim? Não estão satisfeitos em humilhá-la pagando uma fortuna para se despir, perder uniforme, autoridade, apresentar-se em público? Irá a programas de televisão explicar seu constrangimento. Jô Soares vai mostrar algumas fotos. Ficará ruborizada.
Enquanto alguns precisam de embalagem para se vender, outros precisam perder a embalagem para saciar a sociedade do consumo, do desperdício, do estupro midiático. E tudo vira lixo, rápido.
quarta-feira, 19 de agosto de 2009
Segundo Abraço
Foi bom o segundo final de semana de "Abraço", peça que apresentamos às sextas, sábados e domingos, 21h, no Teatro Cuíra, com Cláudio Barradas e Zê Charone. Fazemos temporada de 1 mês, o que parece um sonho para quase 100% dos grupos locais. Ensaiamos por três meses e temos um final de semana, apenas, nos teatros oficiais. Não há tempo para formação de público, nem para a maturação do trabalho. Não no Cuíra. Lá, a oferta é de 1 mês em cartaz. Há quem não queira, tudo bem. Mas em "Abraço", é assim. Os atores vão ficando mais e mais à vontade, saboreando o texto, descobrindo nuances, percebendo respostas da platéia. O grande problema que enfrentamos agora, é conseguir novas pautas nos jornais locais, tão receptivos na estréia. É que, ao contrário do pessoal do Zorra Total, não vamos embora na segunda feira. Continuamos aqui, em cartaz, precisando convidar as pessoas a sair de suas casas e em vez de ir direto para os bares, passar antes no teatro e isso, não na expectativa de dar boas gargalhadas, mas de beber Cultura, assistir a performance de dois grandes atores, discutir o que o espetáculo mostra, enfim, degustar o que foi assistido. Alunos de uma turma do amigo Ismael Machado foram assistir e após, conversaram conosco. É muito curioso perceber que alguns, nunca haviam assistido a uma peça. Outras, somente as do Zorra Total. E agora, ali, parecem embevecidos, talvez constrangidos, diante dos atores, gente daqui, paraenses, que talvez sejam até vizinhos, sei lá. Fomos levados a acreditar que Cultura é Lazer. Não é. Amigos comentam que quando vão assistir peças sérias, lá pelo meio, sentem sono. Puxa, me dá pena. Desacostumaram a pensar, avaliar, discutir. Querem somente a superfície, nada profundo. Como essas crianças que baixam toda a história do rock pela internet e acham que já sabem tudo. Também sentimos falta de crítica, de comentários. Gostaram? Não? O que há de bom ou de ruim? Nos atores, na direção, texto, música. Procuramos na internet e não encontramos. Nos jornais, nada. O professor Meirevaldo Paiva, em sua coluna em O Liberal, fez menções, a partir de seu tema principal, que era um livro sobre consumismo no mundo moderno, creio. Que mais? Então, aqui, neste blog, onde vibro quando alguém que passa por aqui deixa um recado, novamente, convido a todos a assistir "Abraço". Tem apenas 50 minutos de duração, embora intensos. Até agora, dos amigos blogueiros, somente Carlos Barreto passou por lá, pelo que lhe agradeço muito. Venham, gente!
segunda-feira, 10 de agosto de 2009
O primeiro abraço
Foi muito bom o primeiro final de semana de apresentações da peça "Abraço", lá no Cuíra. E muito interessante, também. Problemas na estréia. Os programas atrasaram. Caso de morte na família de um grande amigo, dono da gráfica. Afinal, entregaram. Não. Trocaram os pacotes. Até que chegaram. Pouco antes de começar, uma chuva torrencial. E o telhado do Cuíra é de zinco, tipo "chapa quente"... Carlos Barreto me chama "Edyr, eu sou o Barreto". Eu querendo conversar tanta coisa, e naquela pressa de início de espetáculo, subir uma escada difícil para a minha idade, e dar início a algo tão importante para mim, para o Cuíra e todos os envolvidos, após meses de muito trabalho. Metade da platéia formada por paroquianos do Padre Cláudio, lá da Marambaia. O que acharam? Conseguiram separar o padre do ator? Ficaram chocados? Pessoas diferentes estão assistindo, alguns pela primeira vez por lá. O professor Meirevaldo Paiva e meu amigo Rui, seu filho. Professor Ubiratan do Rosário, que também foi meu professor na faculdade. Uma peça de teatro, quanto mais vezes é feita, melhor. E nós avançamos muito. Identificamos as reações da platéia, alguns risos nervosos. Estamos felizes, fazendo o que gostamos, com quem gostamos e como gostamos. Uma equipe pequena, mas multitarefas. E é o nosso teatro, agora com pano de boca, gentileza do amigo Gerson Araújo, do Centur, que também deu outra ajuda maravilhosa. Imagino que não houve maldade no comentário do Comendador Mário Sobral, ao dizer que Cláudio Barradas merecia um retorno a um palco mais importante, como o Teatro da Paz, e não o cuírazinho, ali na zona do meretrício. O que ele não sabe, tenho certeza, é da real situação do teatro paraense e o que faz Barradas ir para o Cuíra com o maior amor e disposição, após passar o dia inteiro rezando missa. Sei o que quis dizer, Sobral, mas o Cuíra é o nosso templo, nosso lugar sagrado, tanto quanto um Teatro da Paz, onde estaremos, em outubro, com PRC5 a voz que fala e canta para a planície, por conta da "sensacional política cultural para o teatro", que não nos irá cobrar a taxa de ocupação do local.
Barreto, espero estar com você em outra situação, para que possamos conversar. Todos os outros flanares, também. Que tal marcar um fim de tarde, começo de noite, em uma cantina, por exemplo. Vai quem quer, cada um paga o seu, todos se divertem. Que tal? Vocês são amigos virtuais muito queridos, pois estou em contato todos os dias. O primeiro abraço, foi bom.
Barreto, espero estar com você em outra situação, para que possamos conversar. Todos os outros flanares, também. Que tal marcar um fim de tarde, começo de noite, em uma cantina, por exemplo. Vai quem quer, cada um paga o seu, todos se divertem. Que tal? Vocês são amigos virtuais muito queridos, pois estou em contato todos os dias. O primeiro abraço, foi bom.
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