segunda-feira, 7 de outubro de 2019

A MELHOR BANDA DO MUNDO

Eu sei que soa pretensioso. Antes do show, ao lado de jovens, percebi olhares pacientes, com o tiozinho empolgado. Algumas horas depois, eles é que pareciam espantados. E eram poucos.
Eu fazia 15 anos e decidia com meu irmão, o que ele poderia comprar para mim como presente. Foi “In the court of Crimson King”, com sua capa gritante até hoje. Um momento de transição. Brian Jones dos Rolling Stones havia morrido. Tchau Beatles. Garotada frequentando conservatórios. A abertura grita com uma guitarra distorcida, iniciando o que seria um heavy rock, antes do heavy rock como estilo. Greg Lake, que em seguida iria para o Emerson, Lake & Palmer em perfeita forma. E lá no meio vem um free jazz de fazer vibrar Miles Davis. Não, o disco não foi para as paradas de sucesso, mas firmou um estilo que passou a ser conhecido como rock progressivo, apresentando a seguir bandas como Yes, Genesis e o próprio ELP, que chegaram a tocar em grandes arenas para 150 a 200 mil pessoas. O King Crimson seguiu sendo a banda preferida dos mais atentos. Já era a melhor banda do mundo, por tudo. E, na verdade, sempre dependeu de uma só pessoa, o guitarrista Robert Fripp, tímido, exigente, no palco limitando-se a tocar de maneira incrível, sem os meneios das grandes estrelas. Para o segundo disco, a maioria dos músicos foi mantida. Daí em diante, mudanças contínuas. Flertes com diversos estilos. Dificuldades em manter a idéia, por conta de pouca afluência de público. Os outros grupos eram mais populares. Dois grandes músicos chegaram bem próximo em participações: o baixista John Wetton, talvez o melhor cantor do KG e o baterista Bill Brufford, que tocou nos primórdios do Yes. Houve uma possibilidade de sucesso com Fripp, Wetton e Brufford fazendo um power trio em “Red”, lançado nos EUA. Não. A banda nos anos 90 tomou direções ainda mais difíceis, examinando riffs, percussão e compassos. Curiosamente, alguns fãs mais jovens, gostam mais dessa fase, mais recente. Tudo parecia caminhar para o encerramento da carreira, quando surgiu um site, um selo, vendendo gravações ao vivo e de repente, Fripp anunciou grande turnê mundial, com a adição de três bateristas, uma novidade. Mel Collins, saxofonista dos primeiros trabalhos foi chamado. Tony Levin, grande baixista, atualmente o âncora também está lá. Daí então, vários discos foram lançados registrando a formação em diversos formatos. Cinquenta anos depois, chegaram ao Brasil. Ao primeiro show, em São Paulo, estive presente. Não podia perder nem me sujeitar ao público bobo do Rock in Rio, onde tocou dois dias depois.

Um mar de cabeças brancas. Todos sentados. No intervalo, banheiros lotados. Tiozinhos precisam urinar. Eles surgem super britânicos, alguns com paletó e gravata. Fripp deixa-se ficar sentado, na ponta do palco, meio encoberto. Os três bateristas dão um show que levanta a plateia. Daí em diante vão mostrando seus hits. Há momentos em que todos cantam, levantam, choram. A música é riquíssima. Os músicos, magníficos. Todos solam e tiram dos instrumentos, o máximo possível, e no entanto, o som é coeso, harmonicamente encaixado. Tony Levin domina seu baixo axe. Mel enlouquece com seus sopros. Um dos bateristas assume o mellotron. Fripp concentrado, perfeito, nas mais intrincadas notas. Casais bem caretinhas, velhinhos, balançam a cabeça como metaleiros. Outros correm até diante do palco, fazem reverência e voltam correndo. “Making easy Money”, gritamos! O vocalista, bom guitarrista, sorri espantado. Do outro lado do mundo que conhecem, encontram esses possíveis aborígenes cantando juntos hits de uma banda quase desconhecida da grande mídia. Ao final, aquela que iniciou tudo, “21st Century Schizoid Man”, cantada a plenos pulmões. Em muitos trechos, todos choramos emocionados. Passam cinquenta anos de nossas vidas em que essas músicas foram tão importantes. Puxamos ar, tentamos cantar o refrão, mas as lágrimas não deixam. Deixa pra lá. Estava liberado chorar. Ao final, após o bis, a plateia recusava-se a sair. Eles não voltaram. Vou ao banheiro. Entra alguém comentando que agora vem aí o Van der Graaf Generator. Conhece? Pois ali, todos conheciam e começam a comentar a possibilidade. Por uma noite, voltamos a ter 15 anos de idade, ouvindo a melhor banda do mundo, tocando seu repertório que guardamos em nossos corações, como tesouros preciosos, essas jóias que nem todos percebem o brilho. E damos graças a Deus por isso.

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

UM PAÍS QUE SE CHAMA PARÁ

Eu nunca tinha estado em Parauapebas. Em Carajás, sim, com uma peça de teatro, mas trata-se de uma cidade cercada. Semana passada, a convite da Secretaria de Estado de Cultura, que lá promoveu uma Feira Literária, iniciando um projeto que pretende alcançar todo o Estado, fui falar sobre minha carreira e meus livros. Fui de jato, com escala em Marabá. Pela janela, nota-se logo a mudança na paisagem, agora com muitos morros, serras. Começo a perceber a imensidão deste Pará, com o tamanho de um país. Conversei com muitas pessoas. Há naturais queixas contra o prefeito, como sempre acontece, mas nas áreas principais da cidade, tudo bem limpinho, apesar do sol inclemente, a queimar a grama dos canteiros. Raro encontrar um paraense. São quase todos piauienses, maranhenses, goianos e daí em diante. Grandes fazendas, grandes conflitos, grandes riquezas e muita pobreza. Há uma farmácia em cada esquina, como aqui. Lojas Americanas. Cada uma das pessoas conta sua história de vida, de como trocou de profissão e foi parar lá para ganhar dinheiro. O motorista é formado em Nutricionismo. Ou estudantes da Universidade lá com um campus. O trânsito é intenso e vez por outra flagro um Porsche Cayenne, desfilando pelas ruas. Fiquei hospedado em um hotel mais afastado, simplesmente porque todos os hotéis estão sempre lotados. Quase sempre com três andares, tudo limpo, simples, mas sem grande conforto. As pessoas não estão lá por turismo, a passeio. Vão trabalhar. À noite, no estacionamento, havia 32 carros estacionados. Acordam cedo e vão resolver seus assuntos. Penso que nenhum deles se considera paraense. Apenas parauapebenses. Por todos os motivos, o Pará, Estado, com sua cultura, seus costumes, seu sotaque, não chega, o que é um desperdício brutal. Vou a um restaurante, almoçar e jantar. À noite, ninguém sai para jantar fora, encontrar amigos e conversar. Comem rápido, churrasco, comida forte, para dormir e no dia seguinte, trabalhar. Entram três funcionários da Vale. Imagino que nós, paraenses, devíamos ser muito metidos a bestas, orgulhosos, pretenciosos, ricos, principalmente, se os contratos que até hoje vicejam, pagassem o que deviam pela retirada de todos os nossos minérios, deixando um buraco no lugar. Produzimos energia para todo o país e pagamos as taxas mais altas. Nossas fazendas têm o maior número de bois. Nossa produção de cacau, tudo enfim. Nossa floresta com sua brutal riqueza. Mas não somos. A Feira está lotada. Há interesse, mas não há uma livraria na cidade. Os autores locais formam Academias de Letras. Recomendo que ao invés de se fecharem, abram as portas e promovam encontros, onde possam mostrar suas obras. Após a palestra, dou entrevista para três emissoras de televisão. Há algum jornal? É uma cidade que cresce a cada segundo, pujante, mesmo. Deve ter uma das maiores arrecadações de impostos do Brasil. E só a Cultura pode unir todo esse imenso espaço. A Secult inicia seu trabalho. Os planos são bons. O Pará não é somente Belém, que agora, parece tão distante. Ninguém fala da capital por lá. Depois da escuridão que passamos na Cultura, por mais de vinte e tantos anos, é um trabalho hercúleo. Agradeço ao convite. No tempo da escuridão, nunca me chamaram. Atrapalharam mas não parei de produzir. Há muito a ser feito. Contem comigo.

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

BOB

Quando era bem criança, havia em casa um boneco chamado Bob. Ao que parece, minha avó tinha trazido da América, de presente, para o mais velho. Agora ele ficava meio esquecido, sobre um guarda-roupa, de onde me encarava. De pano. Não tinha pescoço. As feições eram desenhadas com tiras de pano. Não sei se aprovava os acontecimentos. Estava sempre ali, impassível, sério, observador. Mais tarde, tive miniaturas de cowboys e soldados Balila. Me ajudaram a exercitar a imaginação. Nem por isso fiquei agressivo. Bom, aos sábados, de pé, nas cadeiras de pau do Paramazon, despejava toda minha munição em espoleta, acompanhando as vitórias de Bill Eliott. Minha amiga, criança, andava adoentada, fraquinha e foi levada a uma senhora rezadeira. Após as cerimônias de costume, passou a ter uma boneca, sob sua rede, ou cama, por um ano, talvez, tempo suficiente em que se recuperou. A boneca sumiu. Parece ter sido parte das instruções recebidas. Outra amiga me procurou e disse que tinha uma história para contar. Criança, tão pobre que a família era de carapirás. Ganhava a cada ano uma boneca de presente. Curiosamente era o mesmo modelo, sendo que se caracterizava por ter um buraco na cabeça. Imagino que fosse onde estava um artefato de borracha que colocado ali, permitia que, amassando o corpo da boneca, emitisse um som. Apenas imagino. Todo ano minha amiga recebia a boneca do furo na cabeça. Ela detestava a boneca. Sei lá, talvez o buraco, talvez a pobreza extrema que nos impede de ter sentimentos felizes. Minha amiga contou que além de detestar, riscava a boneca o mais que podia. Imaginei que anos depois, adulta, atende à porta da casa uma mulher misteriosa, com o rosto riscado, como que arranhado, quem sabe, por unhas. Pediu um copo de água e ficou ali, fitando-a, terminando por separar os longos cabelos e mostrar um buraco. Diante da estupefação silenciosa, lenta e estudadamente disse que a protegia desde criança. Que sofria com os maus tratos que recebia mas mesmo assim não desviou de sua missão, simplesmente por amor. Outra amiga. Parece que tenho muitas, não é? Família pobre. Não havia presentes no natal. Ao lado da casa em que moravam, havia uma enorme, que servia de depósito para uma grande loja. Um dia a casa foi vendida e lá chegaram operários para fazer uma grande reforma, a principal delas, trocar o belo assoalho de tabuas corridas, bem deteriorado, por lajotas. Minha amiga e seus irmãos correram, curiosos. Acompanharam a retirada das tábuas, aos poucos descobrindo que, tendo em vista falhas no assoalho, encontravam brinquedos à farta, certamente fazendo parte do estoque antigo da loja, agora ali, à sua disposição. Havia mini cozinhas, bolas e bonecos Cláudio, um que tinha nos olhos uma espécie de adesivo, coincidentemente objeto de consumo de minha amiga. Como era a de menor tamanho, bem franzina, esgueirava-se por baixo das tábuas, sendo, após dar sinal, puxada pelas pernas pelos sôfregos irmãos, a cada vez voltando com um brinquedo novo, para gozo geral. E claro, um Claudio, embora com um dos olhos desgastado, digamos, caolho. Pois foi esse Cláudio que a acompanhou por toda a vida, como se Noel houvesse lembrado daquelas crianças e providenciado presentes de vários natais, de uma vez. São os bonecos da nossa vida. Seriam nossos guardiões? Nossos protetores, mesmo passando por momentos bem difíceis em nossas pequenas mãos? Anjos? Quem sabe?

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

O BRASIL NÃO CONHECE A AMAZÔNIA

Há muito tempo, quando trabalhava em rádio e estava no Rio de Janeiro, conversando com dirigentes de gravadoras de discos, me irritava quando perguntavam se eu era da Amazônia ou estava na Amazônia. Achavam, certamente que eu deveria ter traços indígenas mais fortes e talvez alguma ignorância do “mundo dos brancos”. Quando pela primeira vez, na França, Saint Malo, diante de grande plateia, juntamente com dois outros grandes escritores brasileiros, precisando falar de minha obra, compreendi o quanto estava distante e o quanto havia de desconhecimento sobre minha terra. Os dois escritores, um falou sobre sua obra em São Paulo e o outro, situando seu romance no Rio de Janeiro. Eu pensava no que dizer. Afinal, talvez esperassem as praias, samba, mulatas, carnaval, Salvador, Copacabana, sei lá. Eu senti o que é ser um amazônida, como um General Custer, cercado pelos sioux. Comecei dizendo que ao contrário de meus colegas, que eram de um Brasil mais fácil de reconhecer, eu vinha de outro mundo, e ainda assim, tão Brasil quanto eles. Venho da maior floresta tropical do mundo. Venho de uma selva de concreto plantada pelo homem no meio da floresta. Da janela da minha casa vejo o outro lado do rio e aquele verde imenso. Falo da perplexidade do homem que sai de seu casebre, à beira do rio, atravessa e desembarca em uma floresta de concreto, com máquinas por todos os lados. Talvez seja difícil de acreditar, mas temos os mesmos confortos que vocês têm aqui. Assisto a todos os campeonatos de futebol na Europa. A internet, os telejornais, sabemos de tudo ao mesmo tempo, sem atraso. Mas somos insulares. Para visitar nosso vizinho mais próximo, Maranhão, Amazonas, Tocantins, é preciso pegar um Boeing. Para visitar nossas maiores cidades, ou pegamos um Boeing ou vamos pela estrada, oito horas, ou no barco, dois dias. Nos maiores centros, muitos acham que o Pará fica no nordeste. Que a capital é Fortaleza. Para eles, Amazônia é aquilo verde no mapa, que a moça do tempo diz que joga água neles. Ou técnicos inventam hidrelétricas gigantescas, pouco se importando com os fatores sociais que geram. Alguns fazem fortunas. A maioria esmola. O Pará é o Estado potencialmente mais rico do Brasil e economicamente um dos mais pobres. Fornecemos imensas riquezas e por contratos espúrios, ficamos com um quase nada. Há muita cobiça, violência, roubo valendo-se de um espaço tão grande que ninguém consegue fiscalizar. Dois, três helicópteros para aquilo tudo? E a madeira apreendida, serve para quê? E como somos insulares, precisamos criar tudo. Nossos artistas em todas as áreas são geniais. Passamos mais de vinte anos onde apenas alguns conseguiram vencer a bolha. Foi somente ao ganhar um prêmio na França que jornais do Rio e SP se interessaram em avaliar meu trabalho. Acontece com todos os outros. Agora, essa questão das queimadas, tão antiga, mas que voltou ao noticiário por conta de ações do presidente que irritaram alguns. Sting, o músico, fez vários shows cuja renda era para uma ong de apoio à Amazônia. Nunca vimos esse dinheiro. Noruega, Alemanha, dando dinheiro para estudos. Amazônia, celeiro do mundo. A Amazônia como uma coisa. Aquilo lá. Nunca sentiram nossa umidade. Nunca olharam para o céu e não o viram, coberto pelas copas das árvores. No Brasil de hoje, há muita coisa errada, certa e uma multidão de “inocentes” querendo se dar bem. Nào tenho preparo técnico para discutir, mas a verdade é que não sabem o que é Amazônia.

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

AOS ATORES, SERES DE LUZ

Em verdade eu vos digo, não há melhor lugar no mundo do que nos bastidores de uma peça de teatro, após tocar a terceira campa e todos se darem as mãos para um “merda” coletivo. Lido desde muito com esses seres de luz. Minha mulher é atriz. Nesses minutos que antecedem o abrir das cortinas, há de tudo. Quem tenha vontade de fazer xixi, número dois. Os que oram de frente para a parede. Os que procuram buracos na cortina para olhar a plateia. Um olhar distante, que esconde uma mente frenética, última passada em flash de tudo o que fará em seguida. Batidas aceleradas no coração. Suor, um olhar no espelho para conferir o já conferido um milhão de vezes. E então eles vão fazer a mágica. Dos maiores teatros aos menores, como na Casa Cuíra, o teatro ao alcance do tato, como diz Wlad Lima. Dá-se a mágica. O público levado a acreditar que naquela pequena sala está um mundo a se mover e dizer. Cacá Carvalho, entre uma e outra sessão, relembrando o texto. Para decorar, ele escreve, incansavelmente. Outros usam pontos de referencia, até encaixar. Há uns dias atrás, escrevi sobre a observação como qualidade do escritor. Do ator também. Eles são esponjas. Observam o mundo, as sensações. Vão buscar emoções no seu mais profundo. Enquanto ensaiam, procuram, oferecem possibilidades, lidam com a dúvida. Há os que dizem o texto, mas no seu interior estão em outro lugar, vivendo outra experiência. O público não sabe. Vê o resultado. A partir do texto, vivemos um período de intensa convivência. Teatro é família. Sabemos mais uns dos outros do que nossos parentes. Todos opinam, ofertam, sugerem. Da iluminação ao cenário. O resultado é coletivo. Ah, os artistas como seres especiais. Eles fazem tudo isso porque desejam mudar o mundo para melhor. É claro que atores são de esquerda. São gauche. E não é para quebrar as regras, oferecer novas possibilidades, novas leituras? Eles empurram o mundo três degraus à frente. Depois o mundo volta dois. Mas avança um ao menos. A querida Mendara Mariani, segundos antes de abrir a cortina, me chama de lado e me sussurra pqp Edyr Augusto, porque tu me metes nessas merdas! Corre para a cena e dá mais um show. Como é que eles conseguem decorar tudo aquilo? Não sabem que tudo é marcado. Não há improviso. Parece que é, parece natural, mas é tudo bem estudado, pensado. Aquela atriz que fará o papel de uma nordestina e agora o marido precisa aguenta-la, dia após dia, com aquele sotaque, em casa, praticando. Às vezes temos um tema e desenvolvemos juntos. “Laquê” foi assim. Metade do elenco de mulheres profissionais, a outra de jovens atores. Contem as histórias. Em “Quando a sorte te solta um cisne na noite” houve um assassinato de um gay. No dia seguinte, estávamos ensaiando a cena. Atores podem parecer histriônicos em cena, e fora do palco, absolutamente tímidos. Têm a força de um tufão, crescem enormes diante dos nossos olhos. Lembro de Cleodon Gondim fazendo Malcher, em “Angelim”, sobre a Cabanagem. Com a espada em riste, eu, dos bastidores o via forte e ao mesmo tempo, uma folha ao vento. Claudio Barradas, 90 anos, ensaia feliz e comove em “Abraço”, que vem aí. Nesta semana, comemoramos o Dia Nacional do Ator de Teatro. Todo meu amor e homenagem a esses seres de luz. Essa luz, nunca ninguém irá apagar. Toda minha felicidade em conviver com eles. Meu orgulho em ter meus textos interpretados. Viva o Teatro!

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

3 DIAS DE AMOR, PAZ E MÚSICA, NUNCA MAIS

Neste agosto, completam 50 anos da realização do Festival de Woodstock, realizado em 1969, em um descampado da fazenda de Max Yasgur, em Bethel. Há pouco tempo havia acontecido o Festival de Monterrey, onde a juventude da época iniciou o que se chamou de “Flower Summer”. Os Estados Unidos estavam em guerra no Vietnã e havia passeatas e movimentos combatidos ferozmente pelas autoridades. Era a geração pós Segunda Guerra Mundial, que se levantava contra a caretice dos tempos. A idéia dos hippies era paz e amor. Havia comunidades onde tudo era de todos, inclusive sexo. Alguns estacionados, outros vivendo em kombis que circulavam pelo país. Michael Lang resolveu fazer o festival. Teve dificuldade em fechar contratos por conta da inexperiência. Havia ingressos sendo vendidos, mas de repente, como um tsunami, multidões jovens começaram a se dirigir até a tranquila cidade de Bethel, cujos moradores viviam da criação de animais e agricultura. O primeiro problema foi conter aqueles sem ingressos. As cercas foram ultrapassadas. Agora era gratuito. Aos poucos, juntaram-se 300 mil pessoas para assistir aos shows, em uma época em que as caixas de som não davam conta daquele espaço todo, muito menos o delay da música. As autoridades determinaram estado de sítio. As estradas ficaram imprestáveis. Até artistas não conseguiram chegar. Joni Mitchell voltou para casa e compôs “Woodstock”, um de seus maiores sucessos, sem ter estado lá. Outros tiveram de ir de helicóptero. Houve algumas overdoses, nascimentos, namoros rápidos e permanentes e um quase nada de violência. Veio a chuva e tudo virou lamaçal. Foram todos tomar banho nus, homens, mulheres e crianças. Havia quem desse aula de yoga, meditação transcendental e se apresentasse tocando suas músicas. Alguém não havia chegado. Jon Sebastian, que era do Lovin Spoonful estava lá e foi cantar. Dedicou aos nenéns e mães de Woodstock. Crosby, Stills, Nash & Young nunca haviam tocado ao vivo. Tremiam. Santana tinha um horário. Anteciparam em oito horas. Estavam relaxados, drogados. Foram ao palco e arrasaram. Grateful Dead tocou muito. The Who e “Tommy”. Janis. Michael Wadleigh decidiu filmar. Quando viu o tamanho da coisa, voltou a NY e catou todos os carretéis de filmes da cidade. Ganhou Oscar. Um gravador na beira do palco registrou o som. Incrível como até ficou bom. Hoje, 50 anos depois, tudo está restaurado e relançado. Jimi Hendrix fechou, com atraso, manhã cedo, o festival. Testou nova banda que não foi adiante. Tocou celebremente o hino americano na guitarra, com sons de bombas e aviões. O mundo nunca mais foi o mesmo. Para lançar o álbum triplo, as gravadoras que não a Atlantic, liberaram apenas canções menos famosas de seus artistas. Por causa delas, do filme, da trilha, muitos desses artistas estouraram mundialmente. Os Beatles tinham acabado. Os Stones estavam de férias. Agora imaginem um moleque magro, cabeçudo, orelhudo, curioso, 16 anos, assistindo sete vezes no Olímpia esse filme. Mudou minha vida. Houve outro festival, que terminou com brigas, incêndio e drogas pesadas. Michael Lang quis festejar os 50 anos. Lutou muito, mas não conseguiu. Artistas cancelaram, patrocinadores caíram fora. Os tempos são outros. Vivemos um tempo de guerra, animosidade e infantilismo musical. Paz, amor e música, nunca mais.

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

UM OBSERVADOR

Uma das melhores qualidades de um escritor é a observação. Quando alguém me chama a atenção, por qualquer motivo, observo. Assisto seus movimentos, tiques, fala, o jeito como anda. É quase uma mania. Lá adiante, em um romance, essas observações surgem na constituição de um personagem. Atores são grandes observadores. Cacá Carvalho usa um método interessante. Manda os atores escolherem alguém para seguir na rua, atentos aos seus movimentos. No dia seguinte, mostram no ensaio. Quando encenamos “Hamlet, um extrato de nós”, a primeira cena era o banquete do novo rei, elenco todo no palco. O público assistia a uma peça mas os atores, na verdade, embora dizendo seu texto, tinham outras motivações. Havia uma moça se maquiando no ônibus, um guarda noturno que teve a atenção chamada para um ruído, uma senhora pagando com cartão de crédito sua compra, outra pagando promessa para Nossa Senhora de Lourdes, enfim. Uma vez contou que em determinado espetáculo, em cena, ele dizia seu texto mas na verdade, estava na cozinha de sua casa, conversando com a mãe que passava a ferro algumas roupas. Fotógrafos, pintores, enfim, todos são observadores. Minhas melhores fotos, se é que uma figura tosca como eu pode gerar boas fotos, foram feitas por Luiz Braga. Amigo antigo, já diversas vezes o assisti fotografando. O que o fotografado não sabe é que, desde que entra no estúdio, está sob observação. Luiz pergunta, ri, relaxa, oferece cafezinho. Enquanto isso, vai encontrando aquele que mora dentro daquele corpo e seu melhor angulo. Em meu livro mais recente, que espero ardentemente lançar via Boitempo, aprendi sobre o poder da observação de um jogador profissional de pôquer. Você, pessoa comum, decide ir a um cassino, se divertir. Separa um dinheiro (sem dinheiro, nem chegue perto) e vai disposto a sentir a adrenalina, considerar se vai ganhar aquela “mão”, quem sabe blefar e ao final da noite, satisfeito, mas sem dinheiro, achar que valeu a pena. O profissional não está ali para se divertir e sim para trabalhar. Ele vai mirar em você, avaliando quanto tem para perder. Observará por tempo suficiente, seus tiques, expressões, corpo, tudo. Ganhará e perderá na medida certa, até que você aposta pesado com a certeza de ganhar. E ele ganha. Você vai feliz pelas emoções e ele com seu dinheiro.

Na madrugada de segunda, fui à janela do prédio fumar um cigarro. Rua deserta, as pessoas dormindo cansadas da farra do final de semana. Vejo ao longe uma pessoa. Pelo andar, era um homem. Mais próximo, percebi estar de vestido, saia curta. Um travesti. Rua deserta, sem ninguém para impressionar, andava de maneira masculina, inclusive parando atrás de um carro para ajeitar seus, digamos, atributos. Eu, observando. Notou. Olhou e pediu um cigarro. Joguei do terceiro andar. O cigarro caiu no asfalto e começou a deslizar para a vala. Rápida, com um gritinho, ciente da plateia, recolheu o cigarro, acendeu, tragou, soltou fumaça e agradeceu com um volteio bem feminino. Claro, saiu andando rebolando, exageradamente, para sua plateia. Quando passo de carro pela Manoel Barata, à noite, assisto às movimentações das “moças”. Algumas com um olhar distante, tipo modelos, outras agarradas a um poste, fazendo as carentes e sim, há despojadas, que mostram os seios e muito mais. Mais do que tudo, elas querem ser vistas, desejadas, observadas. Ih, acabou o espaço.