sexta-feira, 16 de março de 2018

INTERROMPIDOS

Era uma noite linda de verão. As filas eram enormes, mas lá dentro, dava para ouvir a alegria reinante. Edu e Márcia já estavam aguardando o show de Anete, cada um com sua latinha de cerveja. Edu, 18 anos, deu um tempo nos estudos para o vestibular. Aproveitou o show de Anete para dar uma relaxada, chutar o balde. Márcia, 16, faria vestibular no ano seguinte. Deixou para estudar no domingo, quando acordasse, Matemática, prova na segunda. Quando Alfredo chegou, Anete estava entrando no palco. Edu e Márcia estavam bem na frente. Alfredo, 27, foi rodeando até ficar próximo. Comprou duas latinhas. Na fila, já havia aberto os trabalhos. Ia passando um trenzinho. Foi atrás de Linda, de quem roubou o primeiro beijo da noite. Ã frente dela, José Carlos e Otávio, bem animados, roubando beijos. Era hit atrás de hit. Paravam apenas para reabastecer de cerveja. Veio Raimundo e botou um comprimido no copo de José Carlos. Alfredo era bancário e estava preocupado com o chefe novo que se apresentaria na segunda feira. Mas naquela noite, era tudo para Anete. Linda, 25, era realmente linda. Promotora de eventos, no dia seguinte, de emendada, ia trabalhar no lançamento de um produto no shopping. Mas quando se é jovem, ninguém se poupa de nada. José Carlos, 20, não trabalhava. Repetia vestibular ano após ano, mas ficava mesmo era em casa, ouvindo os discos de Anete. Os pais esperavam quando, enfim, iria amadurecer. Otávio, 32, era vendedor. Engravidou a namorada, casou, deixou os estudos para trabalhar. Descasou. Juntara dinheiro para o show. Raimundo, 23, traficava ecstasy. Bundeava pela cidade, aguardando os shows para faturar.
Linda estava passando mal. O trenzinho seguiu adiante, menos Otávio, que ficou preocupado e foi ajuda-la. Vomitou muito, pediu um tempo e saíram da muvuca. Ela o abraçou procurando conforto e ele gostou. Quando melhorou, tomou uma granada de água e o beijou. Ficaram se amassando num canto. José Carlos pulava como se não houvesse amanhã. O ecstasy pegou forte, misturado com a cerveja. Acabou esbarrando em um casal e o cara, malhado, deu um soco. Abriu clarão, mas José Carlos, caído, não oferecia perigo. Levantou e seguiu pulando e cantando. Edu e Márcia deram um tempo porque Márcia ia ao banheiro. E também porque o Edu achava que Márcia estava olhando para um bonitão, ao lado. Encontraram Linda e Otávio. Edu conhecia Linda. Já haviam paquerado. Então Márcia voltou e juntos, foram lá para a frente. A Márcia de olho no Edu e na Linda, que voltou a beber e Otávio já estava bem ligado. O show terminou. Mas continuou rolando som mecânico. O público foi saindo, mas Edu, Márcia, Linda e Otávio continuaram. Tá bom, vamos. Na saída, encontram José Carlos, com o rosto inchado, mas feliz. Alfredo estava encostado em um Gol. Era o carro de Linda. Já haviam se visto. Quem quer carona? Nós estamos indo lá para a Cidade Velha, continuar, sem hora pra acabar. Todos vibraram. José Carlos avisou que ficaria antes, em Nazaré. Fica no caminho? Vai todo mundo! Compraram mais umas latinhas. Vocês vão ficar aí, bebendo? Vamos no carro! Sentaram Linda e Otavio na frente. Atrás, quatro se apertaram, sendo que Márcia sentou no colo de Edu. Alfredo se acomodou no bagageiro. Uma farra. Linda ligou o som do carro e ouviram, novamente, Anete. Márcia estava apagando no colo de Edu, mesmo que rolasse uma leve excitação em ambos, prometendo, mais tarde, sexo. Os outros contavam piadas. Riam alto. Gritavam. Era um carro de festa. Linda dirigia rápido. Otávio com a mão em suas coxas. Na primeira curva, cantaram pneu. Oi! Todos gritaram, felizes. Sem hora pra terminar! Agora estavam na Avenida João Paulo, em alta velocidade. Havia um calombo na pista. Para quem estava dentro do carro, não houve tempo para nada. O mundo virou de cabeça para baixo, choques, tudo ficou escuro.

Edu tinha prova na segunda. Márcia, prova de Matemática. Alfredo teria um novo chefe na agência. José Carlos não tinha nada para fazer. Otávio pensava em bater o recorde de vendas. Raimundo tinha dinheiro no bolso. Eram. Tinham. Que pena. Vidas interrompidas.

sexta-feira, 9 de março de 2018

ELA NÃO MORA MAIS AQUI

O apartamento está vazio. Ela não mora mais aqui. Saíram móveis, quadros, lembranças. Estão arrancando o carpete. Ressurge o piso de tacos, antigo e perfeito. O salão de entrada, vazio, parece ainda maior. Construção antiga. Janelas grandes, pé direito alto. Olho para o canto onde armava a árvore de natal. Do corredor vem um vento interessante, ao mesmo tempo levando para longe tudo o que ali aconteceu, mas também trazendo aquelas crianças levadas, correndo pela casa, circundando a grande mesa de jantar em algazarra. Lembrei de Adalcinda, certa noite, de pé sobre uma cadeira, declamando para convidados. Meu pai, após a passagem da Santa, distribuindo bebida e já com o violão, para iniciar os “trabalhos”. E agora, de onde assistirei o Círio? Nunca perdi nenhum. Sempre dali, abraçado a ela. Passo à sala de refeições onde não há mais nada, apenas um armário velho. O pai chegava mais tarde, da Radio, por causa do programa de esportes. Ela comandava. Os danados, se provocando. Vocês sabem. Sabem? Sigo um itinerário nào planejado. Deixo-me levar pelo vento, quem sabe, que desnuda os aposentos, já desnudados. As paredes também estão nuas. Ela gostava de pintores regionalistas. Amazônia, sempre. Um foto gigante, feita na fatídica final Brasil e Uruguai em 1950, na entrada. Em breve vocês a encontrarão em um bar/restaurante famoso. Existe um lugar. Passaram tantas empregadas, mas a rainha foi Adelina, a nossa Biá, que nos criou e encheu de afetos e mimos. Entro e me ponho a lembrar. Então percorro os quartos enormes, mais ainda, sem móveis. Revivo as brincadeiras, lembranças boas de uma infância e adolescência feliz. Uma vez, tão criança, outra mocinha, que trabalhava, me pedia para chutar uma bola. Eu hesitava. “Achuta, bestão!”. Recebeu graves reprimendas. Imaginem. Ou a cômoda, que não há mais, transformada em diligência de filme de  cowboys, perseguida por índios terríveis. A cama em que meu pai sentou e tocou, ao violão, a melodia que fez para meus versos, no samba enredo “Cobra Norato, Pesadelo Amazônico”, do Quem São Eles, cantado pelo irmão. Outros dois quartos já estavam divididos há muito, um escritório para cada um, pai e mãe. Seguro, apaixonado, uma máquina datilográfica “manual”, as aspas são pelo peso que tem, onde meu pai teclava rápida e velozmente, usando uns dois dedos de cada mão. Previdente, ela me inscreveu em um curso de Datilografia. Ia emburrado, hoje agradeço. Penso se devo entrar em seu quarto. Ela esteve ali nos últimos meses. Mesmo morando só, com cuidadoras, sua presença ocupava todo o apartamento. Passo uma vista d’olhos em seus escritos, à mão ou datilografados. Amazônia, sempre Amazônia. O quarto era lotado. Móveis, santos, livros, tv, penteadeira. No criado mudo, um verdadeiro exército, um time perfeito de imagens sagradas. Santo Antonio sempre foi o preferido. Agora é um vazio. Posto-me ao centro e giro memorizando cada coisa que ali fez a vida. O vento circula, talvez comece a chover. Será que vou embora? Estático, a mente cheia de recordações. Meu pai dublava em casa, trancado em um quarto, jogos do Brasil na Copa de 62. Ameaçados de torturas terríveis, não podíamos fazer barulho. Horas terríveis para crianças tão danadas. Nasci nesse prédio, onde passei infancia e adolescencia. Adulto, vim duas vezes por dia, todos os dias. Agora é como se alguém estivesse apagando o cenário em que vivi. Cenário físico. Na mente, nunca me esquecerei. Muito menos dela. Minha mãe.

sexta-feira, 2 de março de 2018

QUARAQUAQUÁ

O excelente narrador Guilherme Guerreiro, da Rádio Clube do Pará, aos chegar aos últimos minutos regulamentares de uma partida, diz essa quase onomatopeia, que deixa ainda mais ansiosos os torcedores, conforme o placar, para uns ou outros. Sobre a crise dos 40 anos, assisti um filme francês, estrelado pela maravilhosa Marion Cotillard. Um casal de atores. Ele filma e seu personagem é o pai de uma bela e jovem atriz. Vão conceder entrevistas. É uma espécie de Tony Ramos francês, sempre fazendo o galã direitinho, certinho e romântico. Tanto a repórter quanto a atriz comentam, naturalmente, a chegada dele à faixa da, digamos, maturidade, não estando mais na lista dos jovens galãs do país. Isso o deixa revoltado e passa a enfrentar a famosa crise dos 40. Muda o figurino, cria problemas com o papel, vai para a night e começa a discutir com a esposa. Esta, pratica o sotaque francês de Quebec, para um filme que faria no Canadá. Em todas as discussões, a sério, fala com o sotaque. Coisas de quem é casado com uma atriz. Eu sei muito bem o que é isso. Ele está com raiva de sua imagem de “bonzinho”. Agora quer ser algo mais “rock”. O filme vai adiante. É uma comédia que, para os que estão naquela idade ou até já passaram, é de um humor ácido. Há muitas peripécias e ao final, separados, ela pede sua presença aos prantos. A essa altura, anda mancando porque praticava para um papel em que a personagem tinha problema nos pés e também era gaga. Chorava porque havia perdido o papel. A desculpa é que era velha demais. De fato, é um problema grave para grandes atores que se acostumaram a ser desejados e festejados por sua beleza e jovialidade. A transição para outros papeis, talvez até sem ser o protagonista é sofrida. Muitos homens e mulheres passam por isso, mas creio que a minha geração vem superando a crise com galhardia. Lembro de fazer os 40 anos e meu pai me ver um tanto melancólico. Perguntou a razão e lhe disse que era por ter entrado na casa dos “enta”, da qual não sairia mais. Nunca esqueço da resposta. Já na casa dos 70 anos, ele me disse “eu era tão jovem quando tinha 40 anos..”. Uma lição. Hoje, mulheres com 40 a 50 anos, são tão competitivas e lindas que passou a ser a tal crise dos “30 anos”. Enquanto isso, os homens chutaram os 40 e agora, aos 60 também participam de tudo. Sim, na música tenho me sentido à parte. Não consigo gostar do baixo nível do que hoje é sucesso. Meu pai, que veio de outro tempo, em alguns anos compreendeu os novos padrões e gostava de vários artistas como Paulinho da Viola, João Bosco, Chico e Caetano, por exemplo. Mas eu não consigo achar qualidades em Anitta, Pablo, Ludmila e outros. E olha que trabalhei a vida inteira no ambiente musical, identificando sucessos. Mas meus colegas de idade até devem ir aos shows. Usamos jeans e t shirts, os quais trocamos com nossos filhos, talvez até netos. O israelense Yuval, aquele do livro “Homo Deus, disse que as próximas gerações viverão até os 150 anos. O problema é a geração seguir bem viva e participando. Minha mãe faleceu aos 95, queixando-se que a maioria das amigas já havia morrido, que o mundo mudou muito, os costumes, a maneira de pensar. Se é para viver tanto, que seja com a sua galera de faixa etária. Assim como minha mãe viu toda a modernização da humanidade, imagino que ainda possa assistir até os carros voadores, quem sabe? E lendo, vendo, ouvindo, jogando meu futebol e namorando, por certo. Se o tempo de futebol tivesse 60 minutos, Guerreiro narraria “Sesserentatá”.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

CORRERIA

Acordo com o som irritante do despertador. O quarto está escurinho, friozinho. Penso em dormir mais um pouco. Tão gostoso. Ah, ninguém vai morrer se eu chegar um pouco tarde, hoje. Não posso. Há cheques para assinar, tarefas a cumprir. Pessoas aguardando comandos. Faço a higiene matinal, visto-me rapidamente. Pra quê tanta pressa? Rápido estou na banca pegando os jornais. Todos. É preciso saber tudo o que acontece. Troco duas palavras com o jornaleiro. Tenho pressa, vou trabalhar. Falo com tomador de conta de carro, engraxates que me perguntam se desta vez nosso time vai vencer. A resposta é a mesma. Na portaria, aguardo o elevador. Penso em tomar a escada. É chato esperar elevador. Assino cheques, delego serviços, leio jornais, ligo o computador. Checo facebook, aniversários, declarações e os costumeiros haters. Leio jornais de fora pela internet. Cumpro tarefas. Volto aos jornais e blogs. É preciso saber de tudo. Caiu um elevado em Brasília. Ligo a tv. Acompanho. Cumpro minhas tarefas. Acabo de ler jornais no computador. Saio para almoçar. Vou cedo porque assim o restaurante ainda está vazio e encontro mesa fácil. Chego rápido. Como rápido. Aproveito o espaço de tempo e resolvo ir à livraria. Pode ter chegado algum livro que preciso ler. Há muitos carros circulando. Há mais carros que ruas. É horário de saída ou entrada de alunos nos colégios. Buzinas. Bikes na contramão. Motos cruzando a frente. Fila dupla. Fila tripla. Também buzino. Tenho pressa. Que pressa? Olho o relógio. Penso que até chegar e voltar da livraria posso me atrasar. Não me interesso por nenhum dos livros novos. Há algum filme lançamento? Mas quando vou assistir, se hoje há jogo na televisão? Antes, tenho uma leitura dramática, tenho a namorada. Estamos todos com muita pressa, afoitos, ansiosos. Temos fome de consumir tudo. Todos os dias há jogos na tv. No Brasil, na cidade, no mundo. Não há tempo. É preciso ter tempo. Entro no carro. Ligo o som. É no carro que ouço minha música. Pesquiso e sei o que saiu e o que me interessa. Quando não há novidade, ouço os antigos. Vou andando até o trabalho e ouço nos fones mais música. Há tarefas a cumprir, textos para criar e escrever. Sinto falta daquela roda de amigos que se reúne, todos os dias, fim da tarde, para jogar conversa fora. Hoje, quando nos reunimos, o papo dura até soarem os celulares. Há tarefas a cumprir e cada um vai pro seu lado. Conversamos mais pelo zap zap. Meu grupo de amigos dos tempos de colégio é intenso. Um envia mulheres nuas e maravilhosas. Outro, em seguida, uma oração e a imagem de Nossa Senhora de Nazaré. Normal. Checo facebook, zap zap, e-mails. Desligo a tv porque a cobertura em Brasília já acabou. Odeio mas vou à academia. Som alto, pessoas conversando aos berros, jovens marombados passando como em uma catwalk. Ninguém tem tempo para instruções. Faço meus exercícios e escapo. Em casa, ligo a tv e passa um jogo na Inglaterra. No canal de notícias, a lava jato segue. Prefiro o jogo. Checo e-mails. Tenho pressa. Por isso achamos que o tempo está passando mais rápido. É muita coisa para processar. Tenho livro novo para ler. Bom, lerei depois de mais um capítulo de uma das séries que acompanho. Seria melhor ver todos os capítulos de uma vez, a madrugada inteira? Em cenas mais lentas tenho vontade de teclar Fast Forward. Tenho pressa. Todos passam correndo. Uns pela saúde. Outros pela pressa. Pressa para o quê? Correm para onde? Chegar primeiro onde? Penso que quando me aposentar, acordarei e pensarei no que farei naquele dia. Será que me aposentarei? Somos todos muito sós, vivendo essa pressa. Fechados nos carros, ouvindo fones, cabeça dobrada vendo celular. Olho o relógio, hora de dormir. Deito, fecho os olhos e durmo. Amanhã, repete tudo. Corro para quem?

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

CELESTE CAMARÃO PROENÇA DISSE ADEUS

Minha mãe faleceu. Prestes a completar 96 anos de idade, Celeste Magno Camarão Proença despediu-se de nós pouco depois das duas da tarde da segunda feira passada. Penso em tudo o que uma pessoa, nessa idade, viu em toda sua vida. Nasceu alguns anos depois da Primeira Guerra, da Revolução Russa, com alguns inventos surgindo. Filha da nobreza marajoara de Muaná foi irmã, entre várias outras, de Adalcinda Camarão, a grande poeta. Jovem, circulava no meio cultural como cantora, destacando-se quando passou a ser crooner de um conjunto chamado Bando da Estrela. Um de seus integrantes, Edyr Proença, tornou-se seu marido. E aí veio a Segunda Guerra Mundial, mais inventos e os filhos chegando. Cinco filhos. A cantora se tornou a grande mãe, assumindo crianças bastante danadas, envolvendo-as com a Cultura, através da poesia, da música, do teatro. Para aguentar o rojão, o pai tinha vários empregos e ela cuidava da retaguarda. Inventou até um jornal semanal que circulava com as aventuras da casa. Havia expedições à casa no Lago Azul, que àquela época parecia muito distante. E ali inventava de uma tribo de índios com um pajé que fazia mágicas incríveis. Ou então as expedições ao Mosqueiro, pelo Presidente Vargas, onde chegava levando a turma, com malas especiais, como aquela em que havia escrito “Farmácia”, muito importante, com moleques tão levados. Íamos à Ilha dos Amores e ouvíamos poemas. Nós adolescemos e os pais, também. Meu pai, antes tão assoberbado de trabalho, agora tinha mais tempo e retomou o violão. Ela retomou o canto. E tocavam, cada um dos filhos precisava cantar algo. Imagino a paciência deles, comigo. Comecei a compor letras e dar ao pai para musicar. Ela completava. Os dois saiam pela noite, circulando na casa de amigos em longas noites de seresta em que cantavam não somente clássicos, mas músicas de sua autoria. Quando cantava, sua voz tinha os volteios de uma Carmen Miranda, como estilo, o que era cheio de charme. Também compunha, letra e música. Publicava poemas amazônicos em A Província do Pará e Diário do Pará. Lançou dois livros, um deles dedicado ao primeiro neto, meu filho, Felipe Augusto. Participou de associações de escritoras e jornalistas. Mais do que tudo, reinventou-se. Os filhos casaram, bateram asas e ao invés de ficar jururu pelos quartos vazios do apartamento, tornou-se uma das mais elogiadas professoras de Redação para Vestibular, da cidade. Um sem número de jovens passou por suas mãos e até hoje lembram dela com carinho. Mais do que simplesmente ensinar as regras gramaticais, ela tinha o talento de puxar de cada um deles, a vontade de se expressar corretamente, em um aprendizado cuja vitória no vestibular era só um detalhe, pois essa Cultura, levamos para a vida toda.

A mim, deu-me tudo. Toda a imaginação que me fez escrever livros, peças teatrais, músicas, enfim, tudo, veio dela. De suas palavras, sua imaginação, seus sonhos de grandeza, talvez sem perceber que seu maior mérito, seu grande galardão foi criar cinco filhos naturais e depois, centenas de “filhos” que chegaram nervosos, temerosos à sua sala de trabalho e saíram para vencer no mundo. Isso não tem preço. E como disse no início, imagine tudo o que ela viu. Televisão, computadores, aviões a jato, foguetes para a lua, internet, ufa, Celeste, você foi demais. Como você brilhou! Você estará comigo, em meu coração, para sempre. Afinal, eu nunca passarei de ser o seu Kuí de farinha. Tudo o que faço, fiz ou farei é para você. Não quero outra coisa na vida.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

CEMITÉRIO DE VIVOS

O que aconteceu conosco? Nosso país vive um de seus piores momentos. Sempre achei que nossa mistura de raças era positiva e ao longo do tempo seríamos uma terra onde todos gostariam de viver. Ao contrário de alguns países que investiram em Educação e hoje já confirmam enormes melhoras na qualidade de vida, permitimos que a política, após a volta da democracia, se voltasse contra nós. Elegemos bandidos que, a partir de eleitos, passaram a pertencer a outro mundo, na capital, Brasília, onde disputam jogos de poder e enriquecimento ilícito. O resultado estamos vendo. 
Como escrevo para minha aldeia, não posso deixar de pensar no Pará. Em Belém. Todos os nossos números são baixíssimos, quando deviam ser altos; altíssimos quando deviam ser baixos. O Pará é potencialmente o estado mais rico e economicamente um dos pobres. Nosso tecido civilizatório está esgarçado, quase rasgando. A barbárie impera. Em todas as atividades, a corrupção é meio de sobreviver ao mercado. Liquidaram com a Cultura. Com as câmeras de segurança, assistimos diariamente a assaltos, sequestros, assassinatos, toda sorte de violência, feita com tranquilidade e autoridade. Não há o menor receio da Polícia. As pessoas que passam ao lado desviam o olhar, certas que se manifestarem qualquer gesto também serão atingidas. 
Há um egoísmo brutal nas classes mais favorecidas, construindo para si torres cada vez mais altas, onde vivem com grande luxo. No entanto, ao saírem em seus SUVs, trafegam em ruas de lama, buracos, sentindo-se mais seguras apenas por terem blindagem. Viajam pelo mundo, passeiam, desfrutam e, quando voltam, não trazem nada para a comunidade, somente para si. 
Grande parte da população, diariamente, é massacrada, humilhada, ao utilizar os meios de transporte, indo ou voltando, na região da Augusto Montenegro. Nestes dias de grandes chuvas, a cidade enche, a água invade as casas levando doença, desespero e prejuízo. 
De um lado, uma Prefeitura que não está nem aí para a população. De outro, o resultado dessa soma de desastres. Some a falta de emprego, alimentação, escolas, cultura, violência e o descaso das autoridades, e terá um povo conformado. Um povo que joga lixo nos piores lugares, como se suas casas, sua saúde, não fossem as primeiras a ser atingidas pelo caos e doenças resultantes. 
Não sei o quanto mais baixo deveremos chegar. É a ignorância. Retrocedemos. A selva invadiu a cidade, tomando de volta seu mundo, selvagem, onde a lei do mais forte impera. Já temos mortes diárias suficientes para rebaixar a nada muitos lugares que estão em guerra. O tráfico dita as leis. Os donos de ônibus, vans, táxis e motos também. Agora acabaram com o carnaval. A classe média inventou de brincar na Cidade Velha. Não se preocupou em perguntar se os moradores gostariam. Um caos. E quando deviam brincar o carnaval, nos próximos dias, viajam todos para Salinas, Mosqueiro ou Miami. 
Liga e Prefeitura agem contra o carnaval, humilhando a Cultura, segregando as escolas de samba a um trecho de rua invadida pela água. Antes, propositalmente, deixaram a Aldeia Amazônica apodrecer. Ódios pessoais que, mais exatamente, são contra o povo, contra a cidade. Enquanto todos ganham dinheiro em impostos e comerciantes com vendas, nos dias da festa Belém vira um cemitério. Um cemitério de vivos, se me entendem. 
Se o Brasil vive um momento terrível, sem saber o que virá, o Pará está pior ainda - e Belém já nem sei mais. As cidades, hoje, são organismos, sistemas complexos de administrar. Não podem estar entregues a políticos, principalmente nossos políticos incompetentes, despreparados. Eles continuam agindo tranquilamente e nós assistindo, conformados. O que os cabanos dizem, lá de cima, olhando para nós? Égua do povo frouxo.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

GARRA, MUITA GARRA

Juscelina e a mãe sempre sonharam com aquele concurso de fantasias no carnaval. Mas tudo às escondidas do pai que morria de ciúmes da filha. Soube de um rapaz que indicava candidatas aos clubes. Era chegado o momento. Não podia esperar mais. Tiraram o dinheiro da poupança. Pagou por um book com fotos. “Sem book eu nem começo a trabalhar”, disse o rapaz. Foi aprovada. Uma comissão do clube foi à sua casa, pedir permissão. O pai deu um show no início, mas depois, foi docemente convencido, após a promessa de uma ação de sócio do clube. O namorado foi mais difícil. Preferiu terminar. A mãe adorou. Ele poderia atrapalhar logo no início da sua carreira. Se dá problema agora, imagina mais tarde. O estilista veio com uma fantasia da fada que reinava sobre a Estrada de Ferro Bragantina. Ela protegia os viajantes. “Mas eu nunca ouvi falar que tinha trem em Belém..” Mas tinha. O coreógrafo queria uma estilização entre carimbó e funk. Uma luta. A menina gostava de sertanejo. Agora aprende carimbo. Tu não és daqui? E funk, basta esfregar a bunda no chão. Isso tu sabes muito bem.. O que tu precisas, minha filha, é garra, muita garra! No dia do concurso, no camarim, aguardavam o estilista com a fantasia e os últimos retoques. O tempo foi passando e nada. Celular fora de área. Essa biba me paga! Faltava uma hora! Chegou. Mas espera aí, esse trem com essa maria fumaça vai passar pelas costas de um braço a outro? Vai ser um choque, mana! Os jurados vão enlouquecer. Espera aí, tem de carregar essa bateria pesada, também? Te concentra, pensa nos flashes, pensa no prêmio, jornais, pretendentes cheios de dinheiro e carinho pra ti, mana. E vai! Ligaram a bateria e o trenzinho se movia com luzes piscando. Quando vestiu, deu um gemido profundo. Garra, minha filha, esse é o meu, digo, nosso grande momento! Foi pra isso que eu te criei! Vai lá e arrebenta! Quando a gente voltar com o prêmio vamos pisar na cara daquelas invejosas da rua! Gemendo, pisou na passarela. Tentou voltar. Não. Manteve o sorriso nos lábios, mas os olhos lacrimejavam. Tentava executar a coreografia, mas o peso não permitia. Olhou, buscando socorro para os bastidores, mas lá estava a mãe repetindo Garra! Garra! Então começou a sentir choques. A bateria dava choques. Aquilo a fez dar saltinhos. Poderiam pensar que faria parte da coreografia. A biba, lá dentro, gritava que isso não tinha sido ensaiado. Na plateia, diretores e parentes levantavam estandartes, gritavam pela vitória, enlouquecidos. Olhava os jurados por entre lágrimas. Havia, neles, uma curiosidade, não pela fantasia, mas pelo que poderia acontecer. Algo começou a descer pelas costas. O equilíbrio, frágil. A estrada de ferro, com o trenzinho piscando, descendo uma ladeira rumo ao chão. Por um lado tentava trazer de volta à posição. De outro, pulava a cada choque e chorava de dor. Mas foi à passarela atender ao público. Voltou aos bastidores com tudo desmanchando, após negacear duas vezes uma queda terrível. O pai queria agredir o estilista. A mãe, enfurecida. Pensa que é só chegar e ganhar? Tem de sofrer, tem de ter garra! Tu viste aquela pequena com o Teatro da Paz nas costas? Se ela aguentou, tu aguentas! Volta lá e ganha essa porra! Tira a bateria e as luzes! Mas é o meu resplendor, gritou a biba. Nào deu. Na volta pra asa, o pai dizia que tudo era carta marcada, que a filha merecia ganhar. Sabe de uma coisa, vamos viajar e relaxar em Fortaleza. Silêncio. A mãe olhou para a filha, a filha olhou para a mãe. Choraram mais.