A
mim, deu-me tudo. Toda a imaginação que me fez escrever livros, peças teatrais,
músicas, enfim, tudo, veio dela. De suas palavras, sua imaginação, seus sonhos
de grandeza, talvez sem perceber que seu maior mérito, seu grande galardão foi
criar cinco filhos naturais e depois, centenas de “filhos” que chegaram
nervosos, temerosos à sua sala de trabalho e saíram para vencer no mundo. Isso
não tem preço. E como disse no início, imagine tudo o que ela viu. Televisão,
computadores, aviões a jato, foguetes para a lua, internet, ufa, Celeste, você
foi demais. Como você brilhou! Você estará comigo, em meu coração, para sempre.
Afinal, eu nunca passarei de ser o seu Kuí de farinha. Tudo o que faço, fiz ou
farei é para você. Não quero outra coisa na vida.
quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018
CELESTE CAMARÃO PROENÇA DISSE ADEUS
Minha
mãe faleceu. Prestes a completar 96 anos de idade, Celeste Magno Camarão
Proença despediu-se de nós pouco depois das duas da tarde da segunda feira
passada. Penso em tudo o que uma pessoa, nessa idade, viu em toda sua vida.
Nasceu alguns anos depois da Primeira Guerra, da Revolução Russa, com alguns
inventos surgindo. Filha da nobreza marajoara de Muaná foi irmã, entre várias
outras, de Adalcinda Camarão, a grande poeta. Jovem, circulava no meio cultural
como cantora, destacando-se quando passou a ser crooner de um conjunto chamado
Bando da Estrela. Um de seus integrantes, Edyr Proença, tornou-se seu marido. E
aí veio a Segunda Guerra Mundial, mais inventos e os filhos chegando. Cinco
filhos. A cantora se tornou a grande mãe, assumindo crianças bastante danadas,
envolvendo-as com a Cultura, através da poesia, da música, do teatro. Para
aguentar o rojão, o pai tinha vários empregos e ela cuidava da retaguarda.
Inventou até um jornal semanal que circulava com as aventuras da casa. Havia
expedições à casa no Lago Azul, que àquela época parecia muito distante. E ali
inventava de uma tribo de índios com um pajé que fazia mágicas incríveis. Ou
então as expedições ao Mosqueiro, pelo Presidente Vargas, onde chegava levando
a turma, com malas especiais, como aquela em que havia escrito “Farmácia”,
muito importante, com moleques tão levados. Íamos à Ilha dos Amores e ouvíamos
poemas. Nós adolescemos e os pais, também. Meu pai, antes tão assoberbado de
trabalho, agora tinha mais tempo e retomou o violão. Ela retomou o canto. E
tocavam, cada um dos filhos precisava cantar algo. Imagino a paciência deles,
comigo. Comecei a compor letras e dar ao pai para musicar. Ela completava. Os
dois saiam pela noite, circulando na casa de amigos em longas noites de seresta
em que cantavam não somente clássicos, mas músicas de sua autoria. Quando
cantava, sua voz tinha os volteios de uma Carmen Miranda, como estilo, o que
era cheio de charme. Também compunha, letra e música. Publicava poemas
amazônicos em A Província do Pará e Diário do Pará. Lançou dois livros, um
deles dedicado ao primeiro neto, meu filho, Felipe Augusto. Participou de
associações de escritoras e jornalistas. Mais do que tudo, reinventou-se. Os
filhos casaram, bateram asas e ao invés de ficar jururu pelos quartos vazios do
apartamento, tornou-se uma das mais elogiadas professoras de Redação para
Vestibular, da cidade. Um sem número de jovens passou por suas mãos e até hoje
lembram dela com carinho. Mais do que simplesmente ensinar as regras
gramaticais, ela tinha o talento de puxar de cada um deles, a vontade de se
expressar corretamente, em um aprendizado cuja vitória no vestibular era só um
detalhe, pois essa Cultura, levamos para a vida toda.
sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018
CEMITÉRIO DE VIVOS
O que aconteceu conosco? Nosso país vive um de seus piores momentos. Sempre achei que nossa mistura de raças era positiva e ao longo do tempo seríamos uma terra onde todos gostariam de viver. Ao contrário de alguns países que investiram em Educação e hoje já confirmam enormes melhoras na qualidade de vida, permitimos que a política, após a volta da democracia, se voltasse contra nós. Elegemos bandidos que, a partir de eleitos, passaram a pertencer a outro mundo, na capital, Brasília, onde disputam jogos de poder e enriquecimento ilícito. O resultado estamos vendo.
Como escrevo para minha aldeia, não posso deixar de pensar no Pará. Em Belém. Todos os nossos números são baixíssimos, quando deviam ser altos; altíssimos quando deviam ser baixos. O Pará é potencialmente o estado mais rico e economicamente um dos pobres. Nosso tecido civilizatório está esgarçado, quase rasgando. A barbárie impera. Em todas as atividades, a corrupção é meio de sobreviver ao mercado. Liquidaram com a Cultura. Com as câmeras de segurança, assistimos diariamente a assaltos, sequestros, assassinatos, toda sorte de violência, feita com tranquilidade e autoridade. Não há o menor receio da Polícia. As pessoas que passam ao lado desviam o olhar, certas que se manifestarem qualquer gesto também serão atingidas.
Há um egoísmo brutal nas classes mais favorecidas, construindo para si torres cada vez mais altas, onde vivem com grande luxo. No entanto, ao saírem em seus SUVs, trafegam em ruas de lama, buracos, sentindo-se mais seguras apenas por terem blindagem. Viajam pelo mundo, passeiam, desfrutam e, quando voltam, não trazem nada para a comunidade, somente para si.
Grande parte da população, diariamente, é massacrada, humilhada, ao utilizar os meios de transporte, indo ou voltando, na região da Augusto Montenegro. Nestes dias de grandes chuvas, a cidade enche, a água invade as casas levando doença, desespero e prejuízo.
De um lado, uma Prefeitura que não está nem aí para a população. De outro, o resultado dessa soma de desastres. Some a falta de emprego, alimentação, escolas, cultura, violência e o descaso das autoridades, e terá um povo conformado. Um povo que joga lixo nos piores lugares, como se suas casas, sua saúde, não fossem as primeiras a ser atingidas pelo caos e doenças resultantes.
Não sei o quanto mais baixo deveremos chegar. É a ignorância. Retrocedemos. A selva invadiu a cidade, tomando de volta seu mundo, selvagem, onde a lei do mais forte impera. Já temos mortes diárias suficientes para rebaixar a nada muitos lugares que estão em guerra. O tráfico dita as leis. Os donos de ônibus, vans, táxis e motos também. Agora acabaram com o carnaval. A classe média inventou de brincar na Cidade Velha. Não se preocupou em perguntar se os moradores gostariam. Um caos. E quando deviam brincar o carnaval, nos próximos dias, viajam todos para Salinas, Mosqueiro ou Miami.
Liga e Prefeitura agem contra o carnaval, humilhando a Cultura, segregando as escolas de samba a um trecho de rua invadida pela água. Antes, propositalmente, deixaram a Aldeia Amazônica apodrecer. Ódios pessoais que, mais exatamente, são contra o povo, contra a cidade. Enquanto todos ganham dinheiro em impostos e comerciantes com vendas, nos dias da festa Belém vira um cemitério. Um cemitério de vivos, se me entendem.
Se o Brasil vive um momento terrível, sem saber o que virá, o Pará está pior ainda - e Belém já nem sei mais. As cidades, hoje, são organismos, sistemas complexos de administrar. Não podem estar entregues a políticos, principalmente nossos políticos incompetentes, despreparados. Eles continuam agindo tranquilamente e nós assistindo, conformados. O que os cabanos dizem, lá de cima, olhando para nós? Égua do povo frouxo.
sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018
GARRA, MUITA GARRA
Juscelina
e a mãe sempre sonharam com aquele concurso de fantasias no carnaval. Mas tudo
às escondidas do pai que morria de ciúmes da filha. Soube de um rapaz que
indicava candidatas aos clubes. Era chegado o momento. Não podia esperar mais.
Tiraram o dinheiro da poupança. Pagou por um book com fotos. “Sem book eu nem
começo a trabalhar”, disse o rapaz. Foi aprovada. Uma comissão do clube foi à
sua casa, pedir permissão. O pai deu um show no início, mas depois, foi
docemente convencido, após a promessa de uma ação de sócio do clube. O namorado
foi mais difícil. Preferiu terminar. A mãe adorou. Ele poderia atrapalhar logo
no início da sua carreira. Se dá problema agora, imagina mais tarde. O
estilista veio com uma fantasia da fada que reinava sobre a Estrada de Ferro
Bragantina. Ela protegia os viajantes. “Mas eu nunca ouvi falar que tinha trem
em Belém..” Mas tinha. O coreógrafo queria uma estilização entre carimbó e
funk. Uma luta. A menina gostava de sertanejo. Agora aprende carimbo. Tu não és
daqui? E funk, basta esfregar a bunda no chão. Isso tu sabes muito bem.. O que
tu precisas, minha filha, é garra, muita garra! No dia do concurso, no camarim,
aguardavam o estilista com a fantasia e os últimos retoques. O tempo foi
passando e nada. Celular fora de área. Essa biba me paga! Faltava uma hora!
Chegou. Mas espera aí, esse trem com essa maria fumaça vai passar pelas costas
de um braço a outro? Vai ser um choque, mana! Os jurados vão enlouquecer.
Espera aí, tem de carregar essa bateria pesada, também? Te concentra, pensa nos
flashes, pensa no prêmio, jornais, pretendentes cheios de dinheiro e carinho
pra ti, mana. E vai! Ligaram a bateria e o trenzinho se movia com luzes
piscando. Quando vestiu, deu um gemido profundo. Garra, minha filha, esse é o
meu, digo, nosso grande momento! Foi pra isso que eu te criei! Vai lá e
arrebenta! Quando a gente voltar com o prêmio vamos pisar na cara daquelas
invejosas da rua! Gemendo, pisou na passarela. Tentou voltar. Não. Manteve o
sorriso nos lábios, mas os olhos lacrimejavam. Tentava executar a coreografia,
mas o peso não permitia. Olhou, buscando socorro para os bastidores, mas lá
estava a mãe repetindo Garra! Garra! Então começou a sentir choques. A bateria
dava choques. Aquilo a fez dar saltinhos. Poderiam pensar que faria parte da
coreografia. A biba, lá dentro, gritava que isso não tinha sido ensaiado. Na
plateia, diretores e parentes levantavam estandartes, gritavam pela vitória,
enlouquecidos. Olhava os jurados por entre lágrimas. Havia, neles, uma curiosidade,
não pela fantasia, mas pelo que poderia acontecer. Algo começou a descer pelas
costas. O equilíbrio, frágil. A estrada de ferro, com o trenzinho piscando,
descendo uma ladeira rumo ao chão. Por um lado tentava trazer de volta à
posição. De outro, pulava a cada choque e chorava de dor. Mas foi à passarela
atender ao público. Voltou aos bastidores com tudo desmanchando, após negacear
duas vezes uma queda terrível. O pai queria agredir o estilista. A mãe,
enfurecida. Pensa que é só chegar e ganhar? Tem de sofrer, tem de ter garra! Tu
viste aquela pequena com o Teatro da Paz nas costas? Se ela aguentou, tu
aguentas! Volta lá e ganha essa porra! Tira a bateria e as luzes! Mas é o meu
resplendor, gritou a biba. Nào deu. Na volta pra asa, o pai dizia que tudo era
carta marcada, que a filha merecia ganhar. Sabe de uma coisa, vamos viajar e
relaxar em Fortaleza. Silêncio. A mãe olhou para a filha, a filha olhou para a
mãe. Choraram mais.
sexta-feira, 26 de janeiro de 2018
NOSSOS 15 ANOS
É
impressionante como, mesmo nos dias de hoje, com redes sociais, internet e
outras modernidades, ainda aconteçam festas de 15 Anos. Nem os Bailes de
Debutantes passaram de moda. Então me ocorreu uma crônica divertida. Um ou dois
anos antes, anunciou que queria festa de 15 Anos. No mínimo, igual a da prima.
A mãe adorou, o pai enlouqueceu. Os 15 Anos da minha filha serão devidamente
comemorados. Desde já começamos uma economia de guerra nesta casa. Farei
pessoalmente os enfeites de mesa. Os brindes. Lista de convidados. Alugaremos o
melhor buffet. Esses bregas aqui da rua vão morder a calçada de inveja!, disse
a mãe. O pai tirou a poupança. Chamaram o “profissional de 15 Anos”, ao invés
de um cerimonialista. Um erro. O fotografo, meu Deus, o fotografo para o book!
A modista e o vestido! Ah, ela precisa emagrecer. Onde já se viu? Tranca em
casa, nada de Roxy Bar, Mormaço, boates, até pra não ficar com a cara “batida”.
E olha, nada de whisky nacional, viste? E a mulher circulando de braços dados
com a biba profissional. E o dinheiro saindo. E a debutante, com cara de “sabe
que eu mereço isso?” A avó veio do interior. Vou preparar minha famosa salada
de frutas. Acho uma besteira gastar dinheiro com salão de festas. Por mim,
fazia lá no quintal. Bastava passar uma vassoura.. A avó era uma preocupação.
Nervosa, impressionável, adorava um escândalo. Toma conta da tua mãe. Olha que
ela vai aprontar! Hum, melhor que a tua que é toda fresca e nem vem ajudar.
A
festa começou. Receberam convidados. Crianças correndo e destruindo a
decoração. A biba, profissional, de um lado para o outro, falando no rádio. A
garotada querendo funk. Só depois da valsa! E então vem a cerimônia, tipo “Esta
é a sua vida”. Passa filme. A menina desfila com modelos diferentes. Os caras
fotografam e filmam. Quase duas da manhã, a ceia esfriando, todo mundo com fome
e o show continua. O DJ toca “Carruagens de Fogo”, o ápice da festa. A
aniversariante surge diáfana, brilhante, uma rainha e a biba corre dando
ordens. O pai foi sugerir e levou safanão. Agora não, tá? Aqui mando eu. O pai
contou até mil. Fumaça! Fumaça! A biba ordena e os ajudantes ligam a máquina de
fumaça, para fazer o cenário. Luzes! Música! Fumaça! E lá vem a menina,
obedecendo as rígidas marcações da biba profissional. Dona Menina, a avó,
percebe algo acontecendo. Leva um choque. Ao ver a neta em meio àquela fumaça
toda, levantou gritando Fogo! Fogo! Vocês não estão vendo que o vestido da
minha neta está pegando fogo? Façam alguma coisa! As pessoas, paralisadas, sem
compreender onde estava o problema. Dona Menina, célere, no salvamento da neta,
pensa rápido, vai até as mesas onde a ceia e a sobremesa estavam postas. Pegou
a terrina, sim, a terrina onde estava sua famosa salada de frutas. A biba
percebeu em um relance. Agarrou-se às ancas de Dona Menina. Lutaram por alguns
segundos. Dona Menina ganhou. A biba rolou no chão chorando de raiva. A
aniversariante finalmente olhou, curiosa. Tarde demais. Dona Menina derramou a
terrina sobre a neta, para apagar o incêndio. Ensopada, cabelo desgrenhado,
vestido lambuzado e ante o ridículo da situação, voltou desesperada para os
bastidores. A biba tinha seu décimo terceiro desmaio de raiva. Ganhou um
bofetão do pai, que lavou o peito. Chorou copiosamente. A mãe foi confortar e
levou esculhambação. A discussão foi geral e sobrou para a biba que saiu
correndo. Acabaram todos no quintal da casa, enchendo a cara até de manhã. E
olha que nem passaram uma vassoura, pensou Dona Menina, cheia de razão.
sexta-feira, 19 de janeiro de 2018
BELÉM TEM SAMBA NO CARNAVAL
Talvez,
pelo texto da semana passada, muitos pensem que fui ou sou um folião extremado.
Não, acho que não. Claro que se penso no ontem com a mentalidade de hoje, posso
fazer mau julgamento. Enfim, falava mais alto a juventude, o entusiasmo, as
meninas e a vontade de se mostrar com mais idade do que tinha. Publiquei no
Facebook, como sempre e muitos lembraram gostosamente daquele carnaval. Todos a
partir de uma faixa etária. Hoje, o carnaval que brincam é completamente
diferente daquele. Completamente. As pessoas se divertem, bebem, beijam e
voltam para casa arrasadas. Antigamente, também, mas o que cantam, onde dançam,
como dançam, tudo diferente. Quando se escreve lembrando também as Escolas de Samba,
a turma de hoje duvida. Samba em Belém? Realmente, fora pequenos guetos, o
samba na cidade, principalmente no carnaval, não é mais ouvido. Quando criança,
morando na Presidente Vargas, dormia antes do Boêmios da Campina passar. Do
alto, via aqueles paletós vermelhos, calças brancas e sapatos brancos, zanzando
pela Riachuelo. Uma noite, Rosenildo Franco me levou a uma reunião na antiga
Lavanderia Paraense, onde hoje está o Pátio Belém. Tramavam a volta do Quemzão.
Artistas plásticos, poetas, músicos, publicitários,
atores,
envolvidos em um entusiasmo maravilhoso.
Lembro da construção da sede do Quem ali na Wandenkolk, essas mesmas figuras
carregando tábuas. Primeiro era espaço reduzido, um corredor. Depois ficou bem
maior. E eu conheci Luiz Guilherme Pereira, o eterno presidente, apaixonado por
aquilo. Vi Rubão sambar e desfilar, juntamente com Margarida, a Porta Bandeira.
E havia Katia, a sambista ou rumbeira, como chamavam, que tinha, como diz o
Chico, “um tufão nos quadris”. E o chefe da bateria, que infelizmente no
instante em que escrevo, não lembro o nome. E todos se entendiam por um bem
maior. Puxa, como era bom ver aquilo funcionando. O primeiro enredo homenageou
Eneida de Morais. O segundo, o Marajó. Na autoria dos sambas, grandes figuras,
como João de Jesus Paes Loureiro e Waldemar Henrique. Que dupla! Então criaram
o concurso de samba enredo. Meu irmão queria participar. Todas as figuras
importantes estavam compondo. O tema era “Cobra Norato, Pesadelo Amazônico”. Me
pediu uma letra. Meu pai fez a música e ele venceu. Uma das grandes emoções da
vida é ver uma obra sua sendo apresentada. O desfile era na Presidente Vargas.
Íamos na ultima ala, dos compositores. Agora lembro de mim, tentando esboçar
passos de samba. Impossível. Mas ali naquela festa de cores, a bateria
estourando, o povo cantando e batendo palmas, é uma das melhores coisas da
vida. Você criou e estão cantando. Anos depois, quando o enredo era o ilustre
Comendador Mário Sobral, os compositores se reuniram e criaram um samba
conjunto. Inclui a frase “é pai dégua doutor, pai dégua é fazer amor com meu
amor”. Novamente na avenida, agora na Doca, acho, passando pela emoção. E vocês
me perguntam como é que um compositor de samba enredo nào é folião? Não sou.
Fazia as letras. No desfile, tomava algumas e pulava de alegria. Outro orgulho
foi ter desfilado quando meu pai foi enredo do Quem São Eles. Foi muito legal. Uma
pena que as autoridades, por incompetência, não tenham percebido a
possibilidade de lucro com o desfile. E a Cultura tenha sido abandonada,
causando também o abandono das Escolas. Há, sim, possibilidade de
ressurgimento, com gestão profissional de todos. Mas isso é outra história.
Duas coisas são certas: não sou folião e em Belém, tem samba no carnaval, sim.
sexta-feira, 12 de janeiro de 2018
UM DOMINGO NO BANDALHEIRA
Aquele
domingo de carnaval prometia. A chuva caía e parava, caía e parava. O que
fazer? Afinal, é o tempo dela. Acabamos de almoçar mais cedo. Bastava calção e
camisa, por cima a mortalha que era o uniforme, a fantasia do bloco e todos
estavam prontos. A primeira parada era na casa do amigo, um dos líderes, para o
apronto final. O ambiente era de euforia, cada um tentando se mostrar mais
animado que o outro. Alguém trouxe uma garrafa de rum ou vodka, não lembro.
Outro chegou com um pacote de Ki Suco, sabor morango. Pronto, a batida para
garantir o pique no resto da tarde/noite estava garantida. De lá, fomos para o
ponto de encontro, um bar/lanchonete que ficava na Generalíssimo, esquina com
aquela rua que passa ao lado da Basílica. A galera chegava aos poucos. Pronto,
agora também a banda contratada e, de repente, era hora da saída. O nome do
bloco era Bandalheira. Meu amigo, um dos líderes, não lembro dos outros, mas
Bosco Moisés acompanhava a turma, com um carro cheio de bebida,
preferencialmente de uma marca que, penso, ele era representante. A essa
altura, o teor etílico do grupo era bem alto. O percurso também não lembro, mas
o destino era a Praça da República, onde milhares de jovens esperavam a
passagem dos blocos, para dançar carnaval. Vários outros blocos também tinham a
praça como destino. O Vila Farah, Piratas da Batucada, muitos, todos muito
animados, meninos e meninas cantando as velhas marchinhas que duraram tanto
tempo e até hoje, dependendo da festa, ainda causam comoção. Durante o resto da
semana, os comentários dizendo que este ou aquele estava maior ou mais animado.
Isso fazia com que, em outros quarteirões, vilas, ruas, enfim, a galera se
animasse e constituísse outros blocos. Sim, havia muita paquera e muita gente
passando mal por excesso de bebida e outros baratos. Mas a bandinha rugia um
frevo e ia na base do “pega o meu cabelo pra não se perder e terminar sozinha”.
Havia um cordão de isolamento para evitar que gente sem fantasia se metesse e
desfigurasse a coisa. Os haters de hoje já vociferariam dizendo que era
preconceito contra o povão e tal. Havia alguns seguranças, porque é claro, onde
há meninas e meninos brincando e bebendo, pode haver alguma rusga. Minha prima
era a mais velha. Meus velhos a encarregaram de segurar a onda de “nosotros”,
por ter mais juízo. O problema é que ela emburacou na subida da Presidente
Vargas. Para passar na frente do prédio e acenar para a família que estava no
terraço, todos a amparamos, de tal maneira que pareceu que ela cumpria as
instruções. SQN. Passei comportado e bem postado na frente da Assembléia
Paraense, que começava o Baile dos Brotinhos. Na janela, a namorada. E na esquina
da Carlos Gomes, pintou a Turma da Bailique para estragar a brincadeira. Meu
amigo, bem forte, encarou, junto com os seguranças. Depois me contou que no
meio do frege, ao dar um “balão” no oponente, ao encara-lo, percebeu que era um
dos seguranças do bloco. Pior, era o “Cancão de Fogo”, famosa figura da luta
livre. O negócio foi pedir desculpas, piscar um olho e procurar outras vítimas.
Sem condição física para encarar um porradal daqueles, quedei-me entre uns
carros e fiquei assistindo. Ainda seguramos a prima que partia em direção a uma
desafeta, aproveitando para descontar qualquer parada antiga. Assim como
começou, acabou. O bloco seguiu seu caminho. Nós findamos no Pronto Socorro,
para uma injeção de glicose na prima, que sobreviveu. E ainda emendei para a
AP, ao som do Guilherme Coutinho. Evoé!
sexta-feira, 5 de janeiro de 2018
ESSE ANO NÃO VAI SER IGUAL AQUELE QUE PASSOU?
O carnaval não me
desperta a paixão. Talvez seja uma certa melancolia que me domina a maior parte
do tempo. Adolescente, participava de tudo, até mesmo do Bandalheira. Uma
noite, Rosenildo Franco me levou a uma reunião em uma Lavanderia que ficava ao
lado da Mesbla, onde hoje está o Pátio Belém. Eles começavam a reativar o Quem
São Eles. Mas foi meu irmão que participou intensamente. Vai rolar um festival
de samba enredo e eu quero participar. Faz uma letra e o pai faz a música.
“Cobra Norato, Pesadelo Amazônico”. Ganhamos. Virei integrante da ala de
compositores. Logo eu. Estive ainda em mais um enredo, sobre o ilustre
Comendador Raymundo Sobral. O carnaval foi sendo minado por confusões internas,
prefeitos não muito simpáticos e teve uma reanimada com a Aldeia Cabana, de
Edmilson Rodrigues. Ele teve a idéia correta. No começo de tudo, os desfiles
eram no Boulevard Castilhos França. Depois, na Presidente Vargas e ainda, na
Doca. Eram lugares importantes, embora ocupados por classes mais altas,
indiferentes à festa local, preferindo viajar. A falta de Cultura, durante mais
de vinte anos, que estamos vivendo, afastou as pessoas. Os intelectuais,
músicos, escritores, atores, que brilhavam nos desfiles e eram aplaudidos,
reconhecidos, não passam mais, salvo alguns renitentes. Mais uma vez a onda negativa
e política, deixou abandonada a Aldeia, seus projetos e crivou-a de críticas.
Durante o segundo semestre, acho, a turma do carnaval reuniu pontualmente aos
sábados, em uma livraria que também frequento. Tive vontade de ir lá dar uma
idéia, mas sabe, os caras são do ramo, estão preocupados e fiquei intimidado em
dar “pitaco”. Hoje, a maioria das pessoas acha absurdo haver samba em Belém.
Deviam fazer como em Manaus com os “bois”. Aqui é diferente. Os marinheiros que
estavam em terra, durante Momo, a partir da Riachuelo, tocavam samba e foram
formando platéia. Havia os “Boêmios da Campina”, maravilhosos. Criança, não me
deixavam assistir ao desfile, por tarde da noite. Mas via aqueles ternos
vermelhos e brilhantes, as calças e sapatos brancos, maravilhosos. Talvez essa
noite negra que se abateu sobre a Cultura tenha apartado os mais jovens do
samba. Talvez. O Estado ou o Município também não se interessam em receber turistas.
Então, quem é que se interessa pelo carnaval de Belém? O povão. Para essas
pessoas ávidas por uma diversão, o carnaval é grande atração. Deixa o pessoal
da Doca ir pra Salinas, sair em Escola do Rio de Janeiro, enfim. O povão
precisa se divertir. Embora exista a Aldeia Cabana, ouso sugerir o entorno do
Estádio Edgar Proença, o Mangueirão. As partes internas serviriam para oficinas
e construção de carros. Arquibancadas do lado de fora ficariam lotadas por
gente humilde, recebendo a festa da alegria genuína. Assim como o brega e o
tecnobrega se espalham, é preciso começar cedo, pelas mídias alternativas.
Enredos decididos, todos com prazo para apresentar o samba official. E então,
divulgados os concorrentes, vamos para um concurso para decidir quem é o melhor,
com a nota valendo para o desfile. Imaginem o local da festa, lotado com as
torcidas de cada escola. Imaginem o concurso para a melhor sambista, passsista,
rumbeira (que havia no início) , enfim, de cada escola. Isso daria outro
barulho. Mais ainda, cada escola poderia realizer ensaio em espaços próximos ao
Mangueirão, como forma de atrair mais simpatizantes. Isso renderia dinheiro,
grana, para ficarem menos dependents das esmolas do governo. Devo ter outras
idéias que não me ocorrem agora, mas finalizando, penso que os artesãos dos
carros alegóricos precisam ser respeitados. Após o desfile, esses carros são
deixados nas ruas, expostos a chuva e a ação de desocupados que os depredam
impiedosamente. E, no entanto, quem não pôde comparecer ou assistir pela
televisão, pode estar querendo conferir a riqueza e detalhes dos trabalhos. É
preciso levar os carros para um espaço aberto, para que fiquem em exposição até
a quarta feira de cinzas. Será mais uma crônica na direção do “Sonhos, sonhos”
e a música de Lennon, “You may say I’m a dreamer”? Que bom seria se algo assim
fosse acatado e a festa voltasse a ser resplandecente, como já foi, agora com
um público interessado, vibrante e agora, pleno de diversão.
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