quarta-feira, 29 de setembro de 2010
Os Frenemies
Nenhuma amizade é perfeita. Meus amigos me decepcionaram muitas vezes. Me faltaram. Tenho apenas três ou quatro amigos de verdade. Não incluo familiares na lista, claro. É outra categoria. Minha mãe, irmãos, meus filhos. Mas também não sei onde colocar aqueles que estão sempre por perto, que não chegam a ser apenas colegas, mas também não são amigos. Mas é certamente nesse bloco maior que estão os que hoje são chamados de Frenemies, uma junção de friend e enemy, amigo e inimigo. Sabe aquele cara que está sempre por perto, participa da conversa, é até chamado pra festinha de aniversário, faz parte da turma, mas que não deixa de jogar farpas em tudo o que você faz? Ele até diz "sabe, eu só quero ajudar, mas.." e esculhamba conosco. Esse é o frenemy, um inimigo disfarçado de amigo ou alguém que é ao mesmo tempo, amigo e inimigo. Mas vamos combinar, somos todos tão vários, que realmente, nenhuma amizade é perfeita. Um amigo ficou bem chateado comigo por ter escrito um conto a partir de algo que lhe aconteceu. Eu não imaginei isso. Achei que o efeito seria contrário. Escritores são vampiros de histórias. Pulam no pescoço e roubam, mesmo. Nunca é exatamente o que foi dito, mas está lá. E veio a queixa. Devia ter pedido permissão. Sensação estranha, sua história, sua vida, aquele momento, agora, ali, no papel. Mas acho que tergiversei. Esse desentendimento foi outra coisa. E o Frenemy? Você conhece algum?
Pato Fu para crianças grandes
Grande idéia a do Pato Fu, uma banda que de indie passou a ser estrela da música pop, até dar uma parada. Fernanda e John tiveram filho, deram um tempo e na primeira tentativa de retorno, fracassaram. Mudou o mundo, o mercado, mudou tudo. Num mundo de novidades o tempo todo, ninguém quer gravar nada novo, com medo de rejeição. Então veio a idéia de gravar um cd com músicas que gostam, música pop, tipo Tim Maia, Rita Lee, Paul McCartney, mas com instrumentos de criança. O resultado é brilhante, nada de infantil no que pode significar algo menos importante, mas totalmente infantil em questão lúdica, a transformação de instrumentos simples, ou sua adequação a um som adulto, mas também festivo, naquilo que a música tem de natural, alegre, infantil. Será que me expliquei ou virou lero? É muito bom. Tomara que receba prêmios tipo Grammy, premiando a inventividade, mas melhor que isso, tomara que muita gente escute.
Baarìa
É o filme a ser assistido. Como um retorno aos anos 70, quando formei minha consciência cinematográfica, assistindo no Cinema Palácio e também no Catalina, da Base Aérea, obras de Visconti, Fellini e Buñuel, entre outros. Baarìa parece autobiográfico de Giuseppe Tornatore, contando a história do garoto Giuseppe, ou Peppino, morando na Sicília, Palermo, antes da Segunda Guerra Mundial, que também assiste, com a chegada dos fascistas do Duce Mussolini. Cresce, casa com a menina mais linda, tem filhos, torna-se político, Partido Comunista, é candidato em belíssimas e poéticas cenas de uma Itália que sofre com a fome, falta de Educação, Cultura, Saneamento, mas que em um dado momento, começa a encontrar seu caminho. E ao final, retornamos à mesma rua, mesma casa, agora com tudo asfaltado, prédios e a casa, sim, a casa, sendo totalmente reformada, muito lindo. E lembro de mim, criança, passeando de bicicleta sobre o asfalto da Presidente Vargas, a mesma por onde, hoje, vou e volto de casa para o trabalho. A vida é um piscar d'olhos.
Dennis Hopper morreu
Uma pena. Um super ator. Morreu aos 74 anos, câncer de próstata. Deu algumas entrevistas bem esclarecedoras sobre sua vida, coisas que não sabia e quero dividir com vocês. Estreou no cinema em Gant, de 1956, mas fez Rebel without a case, o clássico, um ano depois, ao lado de James Dean, Natalie Wood, Sal Mineo e Nicholas Ray. Tá pra vocês? Ele também achava que Dean era um milagre, alguém que iria reinar como melhor ator e diretor de cinema. E então ele queria fazer um filme com Peter Fonda e não conseguia dinheiro. Alguém veio e quis filmar Easy Rider. Ele dirigiu e atuou. Foi o que foi. Retrato de época. Jimi Hendrix na trilha sonora. On the road. Motos, fumo, psicodelia. E lá em frente ele está em Apocalypse Now, de Coppola. Tá pra vocês? Um ator intenso, de gênio terrível, o que lhe valeu problemas e como direi, uma marca, um tipo de atuação. Virou um grande colecionador de arte moderna. Filmou com Babenco Ironweed, muito bom. Pouco visto. Pouco americano, quem sabe, o filme. Ressurgiu em Blue Velvet, fazendo aquele gangster viciado, fazendo o público nervoso, desconfortável. Creio que Nicholas Cage, recentemente, será em Vício Frenético? um policial também viciado, conseguiu o mesmo efeito. Que grande figura nós perdemos. Nas mesmas Rolling Stone e Interview, via iPad, li uma entrevista com Bret Easton Ellis, um cara que escreveu alguns romances bem chocantes e modernos. Muitos não gostam, sei lá, mas eu gosto, me inspirou muito na escrita. Começou com Less than zero, romance sobre garotos angelenos, filhos de pais da indústria cinematográfica, ricos e malucos. Teve O Psicopata Americano, que também virou filme, mas nem perto do livro, tão chocante em violência, seja em atos, seja em marcas de roupas e artigos de luxo. Muitos outros, como Glamurama e Os Informantes. Seu livro novo é Imperial Bedroom e trata como uma volta ao primeiro livro, reencontrando alguns personagens e o momento que vivem, hoje. Espero ansiosamente.
Andando pelas ruínas da cidade
Por motivos diferentes, dei boas caminhadas pelo centro da cidade. Na primeira vez, ao sair da Estação das Docas, resolvi tomar a direção da João Alfredo, passando pela frente da Igreja das Mercês, tão bonita, históricamente tão importante e ali cercada pelos apaches. Pior ainda a Praça em frente, com belas estátuas, absolutamente ignoradas pelos camelôs que lhe ofendem com a presença, sujam e denigrem a história. Olho em volta. Olho para cima. Belas e antigas casas, tantas coisas a contar. E embaixo, essa chusma que grita, mija, caga e fode com a ordem. Nenhum deles desejará ter um emprego no qual use uniforme, tenha relógio de ponto e obrigações. Como "marreteiros", passam o dia jogados, conversando, rindo, arengando, sem horário, sem pagar impostos, vendendo produtos piratas. A inversão de toda a Ordem que chamamos de Civilização, maneiras que encontramos para conviver, um respeitando o direito do outro. Olho o tabuleiro dos cds e dvds piratas. Dos artistas, nunca ouvi falar. Dos filmes, apenas de terror, violência, monstros, um grito de socorro que dão, pedindo, mesmo que não saibam, Educação, Cultura, Saúde e Saneamento. Ali, estamos descendo muitos degraus retornando à selva.
Da segunda vez, voltando do Pátio Belém, da Padre Eutíquio para a Presidente Vargas. Hora de almoço. De um lado, o shopping e sua praça de alimentação. Fora, inúmeras barraquinhas, lotadas, vendendo algo que não se posso chamar comida, tamanha a falta de higiene e qualidade. O fosso, mais uma vez presente. Será que há quem vá passear no shopping e saia para comer onde pode pagar? Será que são funcionários do shopping? Lá dentro, vendem artigos de qualidade, mas têm de sair e comer o que há de pior? E as casas? Há casas lindas ali, em uma delas, meu pai nasceu, quando a rua ainda era São Mateus. Passo na Praça Barão de Rio Branco, bem cuidada, felizmente. Nas paradas de ônibus, uma miríade de camelôs oferece de tudo e joga os restos no chão. As casas são imundas, depredadas, com outdoor na frente, machucadas, ofendidas, agredidas. A beleza esmurrada. e todos no meio da rua, ou expulsos pelos camelôs, ou porque estamos voltando à selva e lá, não há calçadas. Onde está Belém, tão linda, que sobrevive em nosso coração?
Da segunda vez, voltando do Pátio Belém, da Padre Eutíquio para a Presidente Vargas. Hora de almoço. De um lado, o shopping e sua praça de alimentação. Fora, inúmeras barraquinhas, lotadas, vendendo algo que não se posso chamar comida, tamanha a falta de higiene e qualidade. O fosso, mais uma vez presente. Será que há quem vá passear no shopping e saia para comer onde pode pagar? Será que são funcionários do shopping? Lá dentro, vendem artigos de qualidade, mas têm de sair e comer o que há de pior? E as casas? Há casas lindas ali, em uma delas, meu pai nasceu, quando a rua ainda era São Mateus. Passo na Praça Barão de Rio Branco, bem cuidada, felizmente. Nas paradas de ônibus, uma miríade de camelôs oferece de tudo e joga os restos no chão. As casas são imundas, depredadas, com outdoor na frente, machucadas, ofendidas, agredidas. A beleza esmurrada. e todos no meio da rua, ou expulsos pelos camelôs, ou porque estamos voltando à selva e lá, não há calçadas. Onde está Belém, tão linda, que sobrevive em nosso coração?
Luli Radfahrer
Não estive presente ao lançamento do Diário On Line, novo site do Diário do Pará, adaptando-se aos novos tempos, mas meu irmão voltou encantado com um dos palestrantes, Luli Radfahrer, embora nem tudo tenha escutado, uma vez que a balbúrdia do ambiente não permitia. Realmente, não era o melhor lugar. De qualquer maneira, acessamos seu blog. O cara é muito bom. Uma de suas preocupações no momento é com a possibilidade de termos a escolha única sobre o que desejamos saber. Luli diz que quem tem o controle sobre o que vai ver, acaba conscientemente evitando idéias, sons e imagens com as quais não concorda ou não gosta, e assim não exercita seu espírito crítico e imaginação para conhecer aquilo que é novo. Penso no jovem na frente da tela, evitando assuntos que lhe pareçam chatos, desagradáveis, mas que acabam sem a riqueza da informação, virando cdfs bitolados em apenas um assunto. Luli quer que a rede some simplicidade, acessibilidade, gente se exprimindo, se comunicando e se encontrando, mais idéias diferentes se misturando na tal ansiedade de inovação. E somente com Cultura se pode fazer frente aos tempos modernos, tão esquisitos, as coisas acontecendo tão rápido que nos fazem ficar paralisados e sem reação diante da novidade. O choque entre aquele que maneja seu iPad e o outro que é camelô. Um é interessado nos próximos lançamentos, sabe como tudo funciona. Outro, passa o dia na barraca, batendo papo, arengando com os outros, vendendo seus produtos, de repente vem um iPad e ele inventa um nome, aprende que arrastando o dedo na tela acontece isso e apertando o botão aquilo. Esse fosso é absurdo e está liquidando nosso Estado. É outro assunto? Então escrevo em outro post. Procurem conhecer o Luli.
quinta-feira, 16 de setembro de 2010
O Partido da Cultura
Recebi por email convite para participar do PC, Partido da Cultura, um grupo de pessoas interessadas em discutir e valorizar a Cultura do Pará. Li os nomes, alguns não conheço, mas estão realmente envolvidos no assunto. Depois, percebi que havia a idéia de ir em comitiva ao encontro de alguém, creio, do Governo, para ouvir suas propostas para o setor. Havia também uma entrevista com a governadora Ana Júlia. Prontamente neguei veementemente minha presença. Nunca mais participarei de qualquer iniciativa dessas, por ter sido enganado em todas as outras vezes por esses mentirosos faceiros em tempo de eleições.
Quero participar do PC e até me disponho frequentar reuniões e discutir melhores caminhos, mas sem a presença de candidatos de qualquer lado.
Estamos no fundo do poço. Trabalhei como técnico na Secretaria da Cultura, por dois anos, no Governo de Jáder Barbalho. Por isso, sobre o que foi feito, não me manifesto publicamente, mas na qualidade de cidadão, tenho o direito de me manifestar sobre os secretários que vieram nos governos seguintes. Nos primeiros oito anos do PSDB, atos absurdos e loucos foram cometidos, destruindo o pouco que havia de alicerces. Quando veio Jatene, forçado a manter uma pessoa no cargo, optou por retalhar a área Cultural, colaborando para implodir definitivamente o que já estava no chão. O governo do PT ainda fez pior. Colocou no cargo um vereador para que, nos quatro anos de Governo, estivesse em todos os municípios, de tal forma que se elegesse deputado nas próximas eleições. Quer dizer, Cultura, nem te ligo, só te uso.
Hoje, não temos nada. Cada órgão é comandado por um Partido, sem dotação orçamentária, com administrações quase sempre amadoras, cada um disparando para um lado e ninguém acertando o alvo. O discurso do PSDB ao assumir era acabar com o "paternalismo cultural". Quá qua qua. O PT diz querer "democratizar o acesso". Quá quá. Perdi, com o projeto de um cd com músicas inéditas do meu pai, uma Lei Semear. Perdi, com o Cuíra, outra Lei Semear. A razão? Falta de interessados. E olha que conheço muita gente e com elas estive. O empresário não acredita. Cultura sumiu do radar dele. Tem medo de ser fiscalizado e não faz, ainda que não vá gastar 1 centavo pessoal. E vem Ana Júlia a falar de PAC, PEC, francamente. E vem dizer que em quatro anos reuniu sei lá quantos gestores do Estado, para um Plano e tal, parecendo Gilberto Gil e seu Juca, oito anos e até agora a Rouanet ainda não é algo pronto.
Lá no Cuíra temos feito tudo a partir de prêmios aos quais nos habilitamos, como qualquer outro projeto. Acabamos de assinar o contrato com a Petrobrás e graças a Deus temos o que fazer em 2011 e 2012. Mas é muita lenha. Ganhamos seis máquinas de ar condicionado e agora a batalha é por dinheiro para pagar sua instalação. E depois? O cara da Celpa me disse que eu teria de pagar a conta como qualquer um, pois se desse isenção para cada projeto cultural que aparecesse, seria um inferno. O que vai ser depois? Não sei. Imagine quem não conseguiu patrocínio. Alguém dirá que isso é paternalismo, que o Teatro precisa viver de sua bilheteria e eu não discordo. Já cansei de lotar Teatro da Paz, com mil lugares, com direito a sessão extra, mas após tanto gol contra, a Cultura local está por baixo. Depois, é uma conversa longa, na direção da constituição de um mercado de Cultura. Outro dia eu escrevo isso.
Quero participar do PC e até me disponho frequentar reuniões e discutir melhores caminhos, mas sem a presença de candidatos de qualquer lado.
Estamos no fundo do poço. Trabalhei como técnico na Secretaria da Cultura, por dois anos, no Governo de Jáder Barbalho. Por isso, sobre o que foi feito, não me manifesto publicamente, mas na qualidade de cidadão, tenho o direito de me manifestar sobre os secretários que vieram nos governos seguintes. Nos primeiros oito anos do PSDB, atos absurdos e loucos foram cometidos, destruindo o pouco que havia de alicerces. Quando veio Jatene, forçado a manter uma pessoa no cargo, optou por retalhar a área Cultural, colaborando para implodir definitivamente o que já estava no chão. O governo do PT ainda fez pior. Colocou no cargo um vereador para que, nos quatro anos de Governo, estivesse em todos os municípios, de tal forma que se elegesse deputado nas próximas eleições. Quer dizer, Cultura, nem te ligo, só te uso.
Hoje, não temos nada. Cada órgão é comandado por um Partido, sem dotação orçamentária, com administrações quase sempre amadoras, cada um disparando para um lado e ninguém acertando o alvo. O discurso do PSDB ao assumir era acabar com o "paternalismo cultural". Quá qua qua. O PT diz querer "democratizar o acesso". Quá quá. Perdi, com o projeto de um cd com músicas inéditas do meu pai, uma Lei Semear. Perdi, com o Cuíra, outra Lei Semear. A razão? Falta de interessados. E olha que conheço muita gente e com elas estive. O empresário não acredita. Cultura sumiu do radar dele. Tem medo de ser fiscalizado e não faz, ainda que não vá gastar 1 centavo pessoal. E vem Ana Júlia a falar de PAC, PEC, francamente. E vem dizer que em quatro anos reuniu sei lá quantos gestores do Estado, para um Plano e tal, parecendo Gilberto Gil e seu Juca, oito anos e até agora a Rouanet ainda não é algo pronto.
Lá no Cuíra temos feito tudo a partir de prêmios aos quais nos habilitamos, como qualquer outro projeto. Acabamos de assinar o contrato com a Petrobrás e graças a Deus temos o que fazer em 2011 e 2012. Mas é muita lenha. Ganhamos seis máquinas de ar condicionado e agora a batalha é por dinheiro para pagar sua instalação. E depois? O cara da Celpa me disse que eu teria de pagar a conta como qualquer um, pois se desse isenção para cada projeto cultural que aparecesse, seria um inferno. O que vai ser depois? Não sei. Imagine quem não conseguiu patrocínio. Alguém dirá que isso é paternalismo, que o Teatro precisa viver de sua bilheteria e eu não discordo. Já cansei de lotar Teatro da Paz, com mil lugares, com direito a sessão extra, mas após tanto gol contra, a Cultura local está por baixo. Depois, é uma conversa longa, na direção da constituição de um mercado de Cultura. Outro dia eu escrevo isso.
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