sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Como você se vê?

Essa vem da lembrança de dois papers que escrevi. O primeiro, na extinta Província do Pará e o segundo, no texto de uma crônica em que comentava meus 50 anos de idade, que já vão longe...
Esse "Como você se vê", surgiu há pouco tempo. Em alguns lugares, com vários espelhos, podemos nos perceber em ângulos improváveis. Já começa uma surpresa. Hoje, com a profusão de câmeras e processos de filmagem, qualquer pessoa pode ver-se em uma tela. Não é algo simples. Como nos vemos? Quem pensamos que somos? Então nos vemos, aquela pessoa, na tela, ganhando volume, uma pessoa que tem gestos, um corpo, uma voz, andar, expressões. Nós. Em ângulos que nunca imaginamos. Percebemos, talvez, uma cabeça em desacordo com a elegância, gordurinhas, andar estranho, uma voz que se ouve diferente. Como você se vê, é para mim, algo para discutir muito mais. Gosto do tema. E como se veste? Ih, você percebeu que parece um velho, barrigudo, se vestindo como se tivesse 25 anos.. Bem, hoje qualquer um pode fazer isso. O problema é se cabe. Fit. E você percebeu isso naquele momento. Voltar para casa, refazer tudo? É, companheiro, a verdade é dura e pior, todos sempre viram isso, menos você, até agora. O problema é outro e aí, entro no que escrevi no texto dos 50 anos. Homens e mulheres, a maioria, diariamente, botam a cara em um espelho. No caso dos homens, para barbear-se. São alguns minutos se encarando. Mas, não é assim, simples. Olhamo-nos e imaginamos a cara de sempre, uma imagem, e nos barbeamos onde já sabemos, ser necessário. Vemos mas não vemos, não sei se me faço entender. Experimente olhar-se para valer. Examinar seus ângulos. Agora é ali, onde está chapada, sua face. Vêm as imperfeições. Bochecha caída, rugas, marcas no rosto, enfim, um desastre. Sabem o que me acontece? O cara que mora dentro de mim, o cara que me habita, digamos, é muito mais novo do que a carcaça. Ele não havia percebido a passagem do tempo. E as pessoas em volta, no dia a dia, também não percebem. É como deixar de ver alguém por um tempo e no reencontro, notar cabelos brancos, barriga, ou magreza, sinais de mudança, passagem do tempo, rejuvenescimento, sei lá. Mas o cara que me habita é danado. Ele ainda gosta de rock, é curioso, está sempre esfomeado atrás de novidades, dorme porque tem horário de dormir, quer jogar futebol todos os dias e emite um brilho pelos olhos que deve confundir estranhos. E então ele precisa raciocinar se não avança muito os sinais. Se a roupa que escolheu para sair combina com o resto. Já comprei várias camisas e calças que após a euforia da compra, passaram, direto, para meus filhos. Pena. Mas fico feliz em vê-los com elas. Me realizo, também. Enfim, bom de discutir isso, não?

Complexo de Vira Lata?

Isso me ocorreu de repente e divido com vocês meus pensamentos. O paraense sempre foi tomado como hospitaleiro. Pessoas de outros Estados passam por aqui e fazem muitos elogios. Dizem que "os paraenses, nem bem te conhecem e já vão te levando para casa, fazer refeição, passear". Isso é verdade. Às vezes, está uma visita na cidade e de repente, não nos contentamos em levá-la para passear, não deixá-la pagar nada. Chega a segunda feira e deixamos de trabalhar para levá-la até Mosqueiro, Salinas, sei lá. Antigamente, Belém era uma cidade portuária. Havia muitos estrangeiros nas ruas. Li que mais de 30 consulados. Mais tarde, até a Segunda Guerra, fomos uma cidade onde os aviões faziam escala e muitos ficavam. Normal, então, essa facilidade do povo em lidar com visitas, com estrangeiros, inclusive. Mas o tempo passou e hoje, tenho a impressão que temos complexo de vira latas, como dizia Nelson Rodrigues do Brasil. Creio que desejamos, ardentemente, ser aceitos. Queremos, ardentemente que a visita diga que somos pessoas bacanas. Que nossa cidade é linda. Que não vêem a hora de retornar. Que nunca esquecerão os passeios, a hospitalidade. Creio que depois de ouvir isso, respiramos fundo e nos aliviamos. Ufa. Tudo isso porque sabemos que somos esquecidos. Com o tempo, o Sul ficou forte e se segura. Minas, São Paulo e Rio. Há Salvador e Pernambuco. Recentemente, o turismo em Fortaleza. Manaus arrebentou e levou a Copa. Ficamos para trás. Nas pesquisas nacionais, não somos citados. Os aviões que vêm aqui, chegam de noite ou madrugada. Vôos internacionais? E espera lá, quem vem a Belém fazer turismo? Talvez turismo de negócios, os números provam. E o que mais? Para ver santos barrocos, há 365 igrejas na Bahia. Sabemos disso, mas adoramos nossa terra. Assim, ficamos nos arrastando, pirangando um elogio, largamos tudo, paparicamos a visita até vir o tal elogio. E isso me leva a outra pergunta: realmente amamos nossa cidade? Se a resposta é sim, eu digo que é mentira. Um sentimento antigo, que não resiste a uma atualização. Porque se amamos, qual a razão de não fazer nada para a destruição que assistimos, sem querer nos meter, ou não podendo, ou na base do deixa pra lá. Nós votamos nessas autoridades, ou trabalhamos de maneira ao nosso opositor não se eleger também, preferindo o caos, que é o caso atual. Realmente amamos a cidade? Não. E então, qual a razão de ficar nessa "hospitalidade", que na verdade é complexo de vira latas? Por favor, goste de mim.. Gostar pelo quê?

Ainda em Woodstock?

Pois é, virou uma obsessão. Bem, sou um pouquinho obcecado por algumas coisas. Primeiro assisti aos 4 DVDs sobre Woodstock, contendo shows que nunca haviam sido vistos. Depois, ouvi seis Cds contendo outros shows que haviam ficado de fora nas comemorações pelos 30 anos, quando saíram apenas 4 cds. Então, li Woodstock, de Pete Fornatale, dj e jornalista novaiorquino que estava lá e então, analisa show por show, na ordem correta em que foram feitos, diferente do documentário que criou seu próprio roteiro, bem como me posicionou sobre onde os músicos ficavam, o que diziam, os atrasos, alguns bem chapados, achando que se apresentariam quatro horas mais tarde e no entanto, chamados na hora e simples hippies que estiveram lá. Muito legal. E então veio "Aconteceu em Woodstock", de Elliott Tiber. Resumindo: Bethel foi uma região, nos anos 50, onde muita gente de NY ia jogar nos cassinos. Inventaram Atlantic City, Miami e a região entrou em decadência. Mark Lang, depois de investir uma nota em um terreno em Woodstock, recebeu uma negativa. Desesperado, achou Elliott. Este, com seus pais, tinham um hotel decadente. Mais ainda, Elliott, gay ainda não assumido, anos 60, fazia alguns shows de verão, tentando animar a galera. Era presidente da Câmara de Comércio da região e concedeu a si próprio a licença para promover um festival. Lang foi até lá. O terreno não servia. Em frente, havia a fazenda de Max Yasgur, perfeita. O livro conta todas as demarches, os obstáculos colocados por diversos moradores, os artistas, enfim, o ambiente em que se desenvolveu o festival. Agora virou filme, também. Acho que vou assistir e depois, dá um tempo, né?
Mas acabei de ler "Passageiro", de Cesário Mello Franco, muito bom. Linguagem rápida, orientação total da zona sul carioca, Ipanema, Leblon, bares, ruas, hum, acho que conheço esse estilo. Um garoto inteligente mas tímido, perde o pai, riquíssimo, self made man, a quem pouco conhecia, mas antipatizava. Descobrem que havia uma mulher com o pai. Atrás disso, ele vai conhecendo a vida e a luta do pai, que aos poucos, vai melhorando sua imagem, à medida em que ele também vai amadurecendo, inclusive com as meninas que adorava, mas tinha medo de chegar junto. Bacana.

A Feira Canalha, mais uma vez

Mais uma vez, a Feira do Livro. O secretário Edson dá entrevista mostrando a grandiosidade do evento. Que beleza! O número de participantes e o público estimado. Os escritores convidados, grandes nomes nacionais e alguns artistas da música, creio que estes, por conta do Hangar, extremamente generoso em trazê-los, por qualquer motivo. Todos parecem felizes, muito felizes. Até, talvez, os escritores locais, desinformados, frágeis, ingênuos, inscrevendo-se alegremente para participar do stand do escritor local. Será que eu é que estou errado? Desafino o côro dos contentes? Tento evitar sentir raiva, mas, idealista, não posso evitar. Essa Feira é canalha desde seu surgimento, retrato fiel da administração passada, absolutamente ignorante de seu papel e no entanto, imbuída dos melhores ou piores sentimentos na direção do sucesso de público, do evento, sem nenhuma preocupação com os alicerces. Creio que a mesma equipe prosseguiu à frente, na atual administração, que mais uma vez caracteriza-se pelo mais absoluto desconhecimento de sua função, de sua obrigação, trocando tudo por um projeto que pretende eleger seu dirigente máximo nas próximas eleições. Nos primeiros meses, compreendia-se a falta de ação, pois após doze anos de destruição, havia muito a construir. Com o tempo, deu para perceber que ninguém queria construir nada, a não ser uma candidatura.
Para os que somente agora podem me acompanhar, em poucas palavras, a razão de chamar a Feira do Livro de canalha. Se uma empresa particular decide promover uma Feira de Livros e para isso, aluga um lugar e por conta disso, aufere dinheiro vendendo espaços para livrarias, recebendo percentagens ou não; se traz escritores de fora, famosos, artistas da música, outros que tais e até, por boa vontade, abre inscrições para autores locais participarem de um stand do escritor local, tudo bem. Nada a opor. Agora, quando é uma ação de uma Secretaria de Estado da Cultura, está tudo errado. Porque é fundamental que não se esteja perseguindo ou apenas lucro, ou meramente sucesso de vendas ou de público, mas principalmente, um resultado cultural. Uma Feira de Livros é uma coroação anual de todo um trabalho desenvolvido, em todo o Estado, dividido, por exemplo, em três fases: relançamento de livros esgotados e importantes; lançamento de novos autores; popularização dos atuais escritores; diversos outros processos que popularizem de uma maneira geral a Literatura e os escritores locais. Assim, na Feira, teríamos o ápice de tudo e até podemos convidar algumas estrelas, que dividiriam palco com os locais. A festa é nossa. Enfim, o assunto é longo. Claro, assumo que sou suspeito para falar. Afinal, venho sendo censurado há 15 anos nessa feira, mesmo tendo escrito e publicado 11 livros, quatro deles com distribuição nacional, um deles traduzido e lançado na Inglaterra, além de compilações com outros autores, algumas internacionais. Mas, quem quiser que acredite, se não fosse escritor e atingido, também acharia a mesma coisa. É uma Feira canalha.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Eu e Verequete

Desculpem o título, vocês verão que não é nada demais. Mas é que ainda imerso na dor pela morte do nosso Verequete, lembrei de um encontro que tivemos, há mais de dez anos, quando exercia o cargo de Diretor ou Coordenador (coisa que o valha) da Secretaria de Estado de Cultura, no Centur. Não lembro as circunstâncias, mas estávamos gravando um disco ou cassete com Verequete, que mais uma vez, há muito andava sumido. Cheguei para trabalhar e o encontrei na sala de espera, querendo falar comigo. Preocupado se alguém o havia tratado mal, sei lá, fui logo perguntando, afobado, ao que ele me acalmou. "Eu vim aqui lhe fazer uma pergunta, que está me deixando muito atazanado. Agora que eu sou "contratado" aqui do Centur, queria saber se o senhor vai permitir que eu continue com a minha vendinha de churrasquinho, na porta de casa.. Sabe, é que além do dinheirinho, eu fico ali, conversando e vou levando o tempo, né?" Agora, ele está enchendo de ritmo a galera lá do alto.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Brownie Augusto

Nunca havia tido um cachorro pra chamar de meu. Até então, passaram pela casa de meus pais algumas figuras, que minha mãe deve saber o paradeiro. Mas é que vimos, em São Paulo, um labrador lindo, chocolate, atendendo pelo sugestivo nome de Brownie. Pesquisei e encomendei. O meu Brownie chegou com 45 dias, lindo, gordinho, calado, ainda comportado e instantaneamente, tomou conta de nossas vidas. Estava com quase sete meses, uns 33 quilos, gordinho, mimado. Nós o comparávamos a esses garotinhos com o cabelo partido ao lado, roupas vincadas, mauricinho total. Destruiu parte de nossas casas. Certamente concluiria o serviço. Aos finais de semana, vinha para o Edifício Renascença. Na sala não havia mais tapete, caixas de som, cds, livros e filmes subiram nas prateleiras. Mesas de centro, pés de mesa, cômodas e camas roídos. E logo na manhã de sábado nos acordava com a guia à boca, sugerindo seu passeio pela Praça da República, onde encontrávamos Zé Filé, Jambu, Rocky, Clark, seus amigos. No domingo, nem era um passeio, mais um desfile. Passava, majestoso, recebendo elogios, no local onde são vendidos cachorrinhos e adiante, onde são doados. Enorme, dengoso, lindo, adaptou-se às nossas vidas, com todas as danações de um filhote de labrador, amigo de todos.
Na última sexta feira, ele se foi. Chegou na garagem do prédio pouco depois das três da tarde, e em sua curiosidade absurda, engoliu pedaço de potente veneno para rato. Brincou conosco e ficou na cozinha, enquanto fomos ao Teatro da Paz para o ensaio geral do PRC5, a Voz que Fala e Canta para a Planície. Pouco antes das seis, fui apanhá-lo para dar de comer e passear. Encontrá-lo morto foi uma das coisas mais chocantes da minha vida. Ainda quente. Onde antes havia tanta energia e jovialidade, nada mais estava. E fazer os procedimentos. Deixa-lo até o dia seguinte, enrolado em toalhas, não mais ele, apenas o corpo e aguardar pela remoção. E conter a dor para consolar Z, tão apegada, apaixonada. Vivemos o vazio que ele deixou. Ainda não sabemos se queremos outro. Melhor deixar passar uns dias. Sonhei com ele. Como dói.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Eric Clapton não é nada disso

Acabei de ler Clapton, a autobiografia de Eric Clapton, um dos maiores guitarristas de todos os tempos. Estou decepcionado. Ao mesmo tempo em que popularizou o blues, mesmo sendo inglês e branco. Tocou com os Bluebreakers, Yardbirds, explodiu com o Cream e Blind Faith, era também um alcoólatra e viciado em cocaína e heroína. Na maior parte do tempo, nem sabia o que estava fazendo nos palcos. Apaixonado por Pattie Boyd, mulher de George Harrison, seu amigo, sofria e fazia propostas que ela ignorava. No meio do caminho, namorou outra mulher, a quem viciou em heroína e alcool de tal maneira que, internados separados, quando saiu do hospital, suicidou-se por não conseguir mais, viver sem drogas. Quando gravou I Shot The Sheriff, não conhecia Bob Marley e nem acreditava que faria sucesso. Tocava tão mal, por conta das drogas, que deixou os solos e ficou fazendo guitarra base. Roubou de JJ Cale a voz, a guitarra e as músicas, como Cocaine. Recentemente pagou a dívida, gravando um album inteiro em dueto. Quando Pattie separou de George, voltou à carga. Ficaram juntos. Ela, alcoólatra e cocainômana. Ele, na heroína. Fez um filho em uma italiana. Uma filha em uma mulher de Antigua. Trancou-se em casa até arrombarem a porta e o tirarem, totalmente drogado. No Festival de Bangladesh, chegou totalmente dopado no palco. Nem sabe o que tocou. O filho morreu. Foi um toque. Ficou apenas bebendo. Depois, casou com uma moça de vinte e poucos. Parou de beber. Ela engravidou. Aos 50 anos, começou a viver de verdade. Incrível que enquanto isso, tenhamos gostado tanto do que gravou. É estranho. Pensei em Jim Morrison, Janis Joplin, Jimi Hendrix. Será preciso estar no limite, ou inconsciente, viajando, sei lá, para fazer brilhar o genio? Sempre me perguntei isso, talvez porque escreva e não me drogue, nem beba. Já bebi, já experimentei drogas. Não gostei, nem gosto. Parece clichê, mas quanto mais sóbrio, mais meu cérebro viaja em suas loucuras, é o que penso. Não posso estar nem por um instante, fora de mim, sem controle. e há quem procure, exatamente, isso. Mas Clapton, que teve problemas de infância, é um doente. Uma decepção.