segunda-feira, 4 de abril de 2011

Senna

Não gosto de assistir a corridas de F1, mas é evidente que nada tenho contra quem goste. Mas é que realmente não encontro fascínio em uma competição onde, para começar, não sabemos se o atleta é o piloto ou o carro. Depois, se na televisão, há pouco a conferir, mesmo colocando câmeras nos carros, tenho a impressão que a maioria está ali na possibilidade de acidentes espetaculares. Hoje, principalmente com todo o aparato eletrônico nos carros, quem vai ganhar já está decidido antes de bandeirada inicial. Não acho graça. e sobre os acidentes espetaculares, tudo me lembra a famosa a lendária cena da corrida de bigas no filme "Ben Hur". O melhor de tudo estava nos acidentes espetaculares. Outra coisa que não aceito é a transformação de corredores em símbolos da pátria. Não são. Profissionais com contratos de altíssimos valores. Uniformes cheios de marcas. Bonés, capacetes, carros. Nada mais internacional. Comercial. Mas é uma indústria potente a dos carros e motores. Pagam alto pelas transmissões. E os locutores seguem plantando a mentira da torcida pelo brasileiro. Ayrrrrton, Ayrrrrton, Ayrrrton Senna do Brasil! Grita Galvão Bueno. Bem, é uma democracia. Quem quiser que acredite.
O documentário é muito bem feito. Claro que toma o lado do brasileiro, sobretudo nas questões contra Ballestre, o presidente da Federação de Automobilismo e o super rival Alain Prost, este, francês, antipático, metido, mas nem sempre errado. Senna era excelente piloto, mas levava o limite de segurança ao impossível, movido pela vontade de ganhar. E ainda dizia que Deus entrava em contato e o fazia vencer. Menos, Ayrton, menos. Pode ser que ele, com muita energia pessoal, em algum momento da corrida, conseguisse como que entrar em transe, homem-máquina, sei lá, mas, menos, por favor. E lá vêm entrevistas com brasileiros anônimos, orgulhosos daquele brasileiro que dava tantas alegrias ao Brasil. E la vem a maluca da Xuxa, Adriane Galisteu e o acidente na curva de Tamburello. No documentário, o médico e amigo de Senna, revela sua morte, ainda na pista. A sorte o abandonara. Uma batida tão forte mas nenhuma fratura, além da peça que lhe entrou na cabeça. Na F1, ninguém morre na pista. Somente ao entrar no hospital. Foi interessante assistir ao documentário. E você, foi fã de Senna? Passava os domingos ouvindo os gritos de Galvão Bueno, vendo passar aqueles bólidos e vibrando com a bandeira do Brasil, enquanto engolia todos aqueles comerciais?

terça-feira, 29 de março de 2011

O pior lugar do mundo para estar

"Restrepo", posto avançado das forças americanas no Vale do Korengal, Paquistão. Em poucos meses, cinquenta jovens soldados voltaram para casa no caixão. O documentário é muito bom. Os caras participaram da aventura. Camera ligada. Os soldados, na ida, brincando de maneira juvenil e após, dando depoimento, o sorriso amarelo, tiques nervosos, pausas, olhos vermelhos. Um deles informa que os médicos ainda estudam a melhor maneira de acompanha-los, pois havia poucos soldados que passavam tão pouco tempo em um lugar e voltavam tão estressados. Uma média de cinco confrontos por dia, em um local inóspito, de dia calor abrasador, de noite frio de matar. Pouca vegetação, pedras, tudo cor de cinza. Americanos saudáveis, com suas máquinas modernas em um mundo que se diz moderno, vivendo no fim do mundo (ou começo), tudo cinza, conversando com lideranças das tribos, os velhos, de cócoras, mascando tabaco, cagando e andando para os americanos. Tudo vai continuar o mesmo. E tome tiro. Morre um. O amigo chora descontrolado. Os outros arrumam a mochila. Voltam para casa. Chamaram de "Restrepo" uma posição que assumiram e instalaram um posto, em homenagem ao primeiro companheiro que morreu, logo ao chegar, soldado médico, de sobrenome latino. É tudo muito estúpido. Como querer entender? Os americanos atrás de óleo, mandando seus jovens para um mundo tão diferente quanto a Lua, Marte, Plutão, sei lá. Outra cultura. Outro tudo. Como chegar lá e se impor? Só se for gastando muita bala. E recebendo. Os americanos com seu equipamento top de linha e os paquistaneses atirando pontualmente e acertando. Lembra da Guerra de Canudos. Choque entre Culturas. E eu é que não queria ir fazer turismo em Restrepo. O documentário foi feito pela National Geographic. Procurem.

Casamento por contrato é uma boa idéia?

Uma boa idéia, sem dúvida, o mote da comédia-romantica-despretenciosa que assisti, com o título, acho, "Casamento por Contrato". David Duchovny e Demi Moore chegam a um subúrbio chic de alguma cidade americana, acompanhados pelo casal de filhos adolescentes. Recebem vizinhos, frequentam o clube e são de tal modo simpáticos, dados, bonitos, charmosos e sobretudo elegantes, up to date, que em pouco tempo todos os homens usam as mesmas roupas, o mesmo taco de golf, bebem cervejas importadas, jogam games em monitores gigantescos e andam de Audi. As mulheres usam os mesmos cremes, mesmas roupas de ginástica e assim com os filhos adolescentes. Só tem uma coisa: eles não formam uma família e sim uma equipe escalada cuidadosamente e plantada no lugar para estimular o consumo. Vender produtos. Suas vendas são monitoradas com mão de ferro e eles precisam vender, vender e vender. Não é uma boa idéia de marketing? Se estou sendo idiotamente ultrapassado, desculpem. Claro, para derrubar uma idéia como essa, que brinca com a instituição do casamento, pior, da célula familiar, nos Estados Unidos, seria preciso que os vendedores fossem seres humanos. Duchovny apaixona-se por Demi que após resistir, adere. A "filha", que uma noite é flagrada pela "mãe" na cama do "pai", tem um affair com um coroa casado. O filho, que namorava uma gata, apaixona-se pelo irmão da garota e assume-se gay. Mas o pior, mesmo, é o vizinho que resolve disputar com Duchovny. Vai à falência. Suicida-se. Claro, o filme nem é bem feito, nem queria chegar muito longe na boa idéia. Imagino que em livro seja bem melhor. Mas recomendo. Pela idéia.

quarta-feira, 23 de março de 2011

É Permitido Estacionar

Os flanelinhas e a egolatria mandam nas ruas de nossa cidade sem lei. Há alguns dias fui até a Fox Livros, ali na Dr. Moraes. Não havia vagas. É um trecho, entre Conselheiro e Mundurucus, bem complicado. Há uma loja Pet, um Mecânico de Carros que sempre trabalhou na rua, um edifício comercial, lavanderia, Fox e um restaurante bem frequentado. O estacionamento, em ambos os lados da rua, por imposição dos flanelinhas é feito na diagonal, deixando para o forte tráfego apenas uma nesga de rua. Dei a volta e consegui espaço na Benjamin. O flanelinha da área me disse que uma fiscalização havia passado e guinchado alguns carros que estavam na diagonal. Ele, flanelinha, achava isso um absurdo. Me calei. Argumentar era pior. E todos os carros, na Dr. Moraes, já estavam na diagonal. Os flanelinhas mandam. Na Boaventura é um problema. Além de carros na diagonal, a rua tem recebido, nos últimos cinco anos, vários edifícios em construção. Em todos, as construtoras deixam caminhões gigantescos à porta, fazendo concreto ou em outras atividades. Pior, há duas ou três escolas e os civilizados pais dos alunos estacionam em filas triplas, porque não se dignam estacionar mais distante para buscar seus rebentos. Na Osvaldo Cruz, que margeia a Praça da República, chega a ser um escandalo. Pior, coisa de uns dois anos, um flanelinha faz fortuna na Riachuelo, entre Presidente Vargas e Primeiro de Março. Além do antigo estacionamento em diagonal, sem razão alguma, instituiu, porque assim desejou, o estacionamento na outra margem da rua, dificultando quem vai entrar na garagem do edifício Renascença e deixando uma nesga para um brutal tráfego que ali passa. Além disso, ególatras, na Osvaldo Cruz, param em fila dupla para atender os potentados que moram nos prédios de luxo que ali ficam. Quem regula isso? Ninguém. O próprio serviço de guincho é mais um rentável negócio para seu explorador do que um ato que faz parte de uma ampla determinação para obedecer a lei, agir com civilidade na direção de uma cidade feliz. Pena.

Veneza Belém

Acabo de assistir um filme que junta Angeline Jolie e Johnny Depp em um thriller que se passa em Veneza. Dois atores bonitos e famosos, a cidade maravilhosa de fundo, um enredo bobo mas bem conduzido e tudo bem. Mas Veneza e seus canais, lembrando o que Belém poderia ser. Em uma das cenas, os atores desembarcam em um cais, coisa simples, bem feita, limpa, nada de suntuosidade e atrás, o aeroporto com seus grandes jatos. E novamente lembramos de Belém e seu aeroporto com sua saída, de carro, passando por favelas, pobreza, vida miserável e violenta, ao invés de oferecer a possibilidade de vir pela Baía do Guajará, mesmo que com novas cenas da nossa orla horrorosa. O que dá raiva é perceber que são toques simples, totalmente simples, onde o que mais aparece é a civilidade, a correção, a honestidade das coisas sendo o que têm de ser. E nada disso acontece aqui. Choro.

A Cosanpa completamente equivocada?

Ontem, Dia da Água, o assunto tomou conta das pautas jornalísticas. Assistia ao Jornal da Record, local, muito bom, e há uma reportagem, mostrando o desperdício da água em Lava a Jatos, canos defeituosos despejando nas vias e nas torneiras, quando jorra é em cor amarelada, cheiro putrefato. Sei o que é isso. Na casa de um amigo, ali na Duque, próximo à Dr. Freitas, depois de jogar futebol, fui tomar uma chuveirada. Fiquei parecido aqueles operários de campos de petróleo. Em seguida, a reportagem traz um professor da Ufpa que, com voz mansa, declara que a Cosanpa está completamente equivocada. Que armazena, trata e distribui água de maneira errada, utilizando equipamentos ultrapassados e pior, em uma operação muito cara, pois utilizada água de superfície, ao invés do lençol freático subterrâneo. O quê? Está tudo errado? É um professor garantindo. Penso que a galera encontrou um grande gancho para a reportagem. O que é isso? Tudo errado? Equivocado? Equipamentos obsoletos? Tratamento errado? Caro? Equivocado? A repórter está agora com um porta voz da Cosanpa, que responde a perguntas genéricas. Os apresentadores ainda arriscam uma ou duas perguntas, nada relativo ao grande gancho dado pelo professor. Fiquei sem saber. Ainda há tempo. Juntemos o professor, naturalmente com mais provas do que disse e do outro lado, alguém da Companhia com material para responder. O assunto é seríssimo e importante.

terça-feira, 22 de março de 2011

Quem lê tanta notícia?

O Curso de Jornalismo, ainda que exista briga sobre a validade do diploma, é sempre um dos mais disputados. Os blogs se multiplicam aqui e ali. Jornalistas são presos, assassinados ou torturados trabalhando em terras distantes, reportando guerras absurdas. Estive por alguns dias em Londres. Além dos seus famosos jornais, impressos ou na internet, um sem número de publicações é distribuída gratuitamente, com notícias de todos os tipos. À noite, assisti a uma mesa redonda maravilhosa, reunindo os editores dos principais jornais ingleses, além da presença de um jornalista do Google. Lembrei do meu Pará, onde a Cultura e a Educação agonizam e com isso, o interesse pelo noticiário, fora corpos despedaçados sangrando, talvez o meu choro por tanta violência a caminho do final do abismo, porque no abismo já estamos. Em uma cidade com quase 2 milhões de habitantes, a tiragem diária talvez não alcance, hoje, dia de semana, a uns dez mil exemplares. E com poucas propagandas veiculadas. Quase todos também já estão na internet, mas eu diria que sua leitura ainda é exígua, comparada ao número de habitantes. O que fazer para chamar de volta esse leitor em papel ou na internet? Talvez falar da vida local. Transformar as grandes pautas nacionais ou internacionais em regionais. Mas para isso, é necessário investir em pessoal. Sem jornalista até se faz jornal, mas muito mal. E nossas empresas jornalísticas preferem apostar em equipamento. Ambos jornais compraram recentemente máquinas moderníssimas, que imprimem jornais em uma velocidade espantosa. Para quê? Para quem? Para que tanta velocidade se imprime apenas dez mil exemplares? Servem os jornais para um exercício fantasioso de poder. Uma ciranda onde o anunciante paga alto e mostra ao cliente. Mas quantos leram? Uma minoria formada por leitores de idade avançada, acostumados aos impressos, agências de propaganda, naturalmente interessadas e funcionários públicos em sua eterna modorra. E mandam recados, criticam o governo, recebem verba oficial, apoiam candidaturas, tão focados em seu jogo que esquecem o principal, a razão de sua existência: o público.
Em Londres, a reportagem acompanha um senhor que distribui jornais em algumas casas de manhã, bem cedo. Entrevista alguns leitores, esses senhores que acordam bem cedo e aguardam avidamente o jornal, como um ritual. Depois, alguém mais novo diz que não lê impressos porque as notícias são antigas, de ontem, demoraram várias horas até serem impressas e entregues. Por exemplo, essa guerra na Líbia. Até o jornal impresso chegar na minha mesa, as notícias já estão velhas. Isso é verdade. Mesmo uma análise sobre a guerra pode estar obsoleta. Na mesa redonda, alguém diz que nenhuma mídia é obsoleta. Sim. É verdade. Às vezes, para raciocinar melhor, é bom ler e reler, com o conforto de um impresso às mãos. Ler um artigo mais longo. Outro jornalista argumenta que o grande problema hoje, com internet, é que ninguém quer pagar para ler. O New York Times, por exemplo, tem uma grave discussão interna sobre o assunto. O jornalista do Google é a favor de highlights das notícias gratuitos. Quem quiser se aprofundar, que pague por um noticiário mais abrangente, afinal, para fazer jornalismo é preciso jornalistas e alguém há que pagá-los. O bom de ter uma assinatura é que você também tem os dados do seu leitor, sabe suas preferências e pode oferecer essas garantias aos anunciantes. E sobre essa profusão de blogs? Achei a resposta muito boa. Hoje, quem quiser tem um blog. Mas quem sabe em quem acreditar? Qualquer um pode postar o que quiser. Emitir opinião. A diferença está no bom jornalismo. O texto bem escrito e acurado. Sim, o jornalista perdeu o monopólio da notícia. Qualquer um pode postar. Há como que uma promiscuidade de notícias. Em quem acreditar? E afinal, iPad e Website, não juntam papel, vídeo e som, um complementando o outro? É sobretudo jornalismo bem feito, por bons profissionais e boa apuração de fatos. Sim, hoje não dá para mentir. Está tudo no You Tube, Orkut, Facebook, Google. Quem vai mentir? Mas também tem uma coisa: não se faz jornalismo somente com twitter. Fazer jornalismo leva tempo para apuração e sobretudo, custa caro. Mas é assim que deve ser feito. Infelizmente, nenhuma dessas opiniões serve para Belém do Pará, onde vivemos uma acelerada volta à selva.