Essa é a infeliz conclusão de uma pesquisa revelada hoje pelo Datafolha e Fundação Getúlio Vargas, com 2.400 entrevistas feitas em 82 cidades do Estado de São Paulo. Notem bem, estamos nos referindo ao mais rico Estado do Brasil, com inúmeras ações, nas mais variadas esferas, federal, estadual, municipal, iniciativa privada, inúmeros espaços culturais, incluindo desde galerias até teatros, por exemplo, enfim, o resultado é desolador.
A grosso modo, 40% dos entrevistados não vai ao cinema, enquanto 60% não vai a teatro e 61% não vai a museus, misturando, basicamente, três motivos: não me interesso, não gosto e não me sinto bem fazendo. Antigamente, havia a crença em uma pressão social para que todos fôssemos cultos, bem informados e consumidores de Cultura. Respondiam, eu bem que gostaria, mas está tão caro, ou então, é tão longe de casa, mas hoje, nada disso. Hoje, a resposta é, sou cretino e tenho orgulho disso. Pior, 84% acha que as cidades deveriam ter mais espaços culturais, enquanto que 38% somente consome cultura quando viaja para outra cidade. Há outros números, como 97% ouve música em casa, 87% assiste filmes em DVD em casa, 71% acham que consome Cultura quando vai a shoppings, 68% lê livros (ééééé????) e 66% somente vai a festas. Ficou evidente, também o consumo doméstico, levado principalmente pela compra de filmes piratas.
Trazer os resultados da pesquisa para Belém do Pará nos leva para uma situação absolutamente desesperadora. Andei há semanas atrás pela Santo Antônio, coalhada de vendedores de Dvds piratas. Diria que 98% mistura filmes de sangue, violência, terror e pornô. Se é isso o que as pessoas consomem em casa, estamos feitos. Em termos de música, há uma alegria, no ar, tocando o brega mais pornô possível. Na questão de quem vai ao teatro, nem sei o que dizer. Hoje, felizmente, há muita produção local sendo apresentada, mas um público diminuto. Fiel, mas diminuto. O grande público se perdeu do Teatro. Há muitas razões, mas a falta de Educação e Cultura, espelhada em 16 anos de administrações desastrosas, refletem isso. Imaginem museus. Dois exemplos, o primeiro, o Teatro Cuíra, cem lugares. Estamos lá com As Gatosas. Felizmente os colegas jornalistas publicam reportagens. Mas quem está lendo jornais, hoje em dia? Estamos na televisão, mas as pessoas parecem temer se aproximar do Teatro local. Acham que é menor, ruim, amador. Só vão quando é no Teatro da Paz, com artista global. E nem querem assistir a peça, e sim fotografar o astro. Ou então vêm comentar que viajaram e foram todos os dias ao teatro. Outros logo perguntam se é comédia. "De problemas bastam os meus". E museus? Nosso próximo espetáculo, em novembro, é sobre o amor do Governador Magalhães Barata e Dalila Ohana. Para poder ver as roupas de Barata, junto com figurinistas e cenógrafos, tivemos uma longa negociação e procura, entre vários órgãos, até acharmos, no Museu do Estado, onde fomos muito bem atendidos. Tudo guardado, encaixotado. O museu de Barata, ridicularizado pelas pessoas que não sabem sua história, o significado de seu formato arquitetônico, está fechado há vários anos, sem qualquer previsão de retorno.
E temos Belém, temos o Pará, com zero de Cultura, governos do Estado e do Município que estão, perdoem o palavrão, cagando para a Cultura. Então, sinto-me, muitas vezes, quase sempre, pregando no deserto, mas continuando por acreditar no que faço. Está claro na cara das pessoas, "eu não me interesso pelo que você faz", mas e daí, eu acho importante. Agora me chega um email, enviado há muitos outros, onde a governadora Ana Júlia chama para uma "conversa sobre Cultura". Quá quá quá. Pois eu digo, desculpem, nem fodendo!
quarta-feira, 20 de outubro de 2010
O inimigo agora é outro
Fui assistir Elite da Tropa 2, no Pátio Belém, no primeiro horário, 12.00 hs e me dei bem. Nem meia casa e tudo certo. À saída, já havia imensa fila para a sessão seguinte. Gostei muito como do primeiro. Muito bom roteiro. A Montagem, maravilhosa. Diálogos. Preparação de elenco. Fátima Toledo não precisa de atores. Cinema é feito de takes. Ela prepara a pessoa, seja com exercícios físicos ou psicológicos para que, no momento de filmar, esteja na pulsação, respiração, no clima necessário. E o clima, ali, é sempre intenso, olhos rútilos, maxilar travado, carótida saltando. Desta vez, Padilha quis mostrar algo mais recente, no Rio de Janeiro, mas extremamente atual: as milícias. Aconteceu há pouco tempo. Um ex policial, Secretário de Segurança, com uma rede que misturava políticos, governador, pms, detetives, policiais, expulsando traficantes e entrando com sua galera. Matando de maneira escandalosa, para todos verem e ficarem com medo. Todos se protegendo e ganhando dinheiro. Mas aí a casa começou a cair. O Secretário era Alvaro Lins, o Linho, cujo grupo de asseclas era apelidado de Os Inhos, pois se tratavam apenas por diminutivos. Houve dois jornalistas de O Dia que foram barbaramente torturados por se meterem onde não deviam. E um defensor de Direitos Humanos que acaba de se eleger com a segunda maior votação do Estado, de sobrenome Freixo, parecido com Fraga, do filme. Ou seja, para que trocar tiros com traficantes? Melhor é tomar conta de tudo. Sergio Cabral se reelegeu com facilidade. Ele e suas UPAs, nos morros cariocas. Mas a pergunta que fica é: quem está faturando o dinheiro da Gatonet? Ou todos deixaram de assistir tv a cabo pirata? Quem está faturando com o dinheiro da venda de botijões de gás? Por exemplo..
Mas é apenas um filme. Por ter tido tanto sucesso e agora mesmo já comemorar 3 a 5 milhões de espectadores, procuram em Elite da Tropa 2, um sinal para onde se dirigir. E é apenas um filme. Como cobrar de Bruce Willis pelos filmes que fez e faz, liquidando milhares, sem perguntar a razão? Já li em O Globo gente dizendo ser um filme fascista. Lá, Fraga, o defensor dos direitos humanos, mostra em uma palestra, que pela progressão da população brasileira, em comparação com os números crescentes de adolescentes presos, em 50 anos, seremos 570 milhões de brasileiros, e 520 presidiários, ou seja, apenas 50 milhões estariam livres.
Coitado do Coronel Nascimento, pois agora, sua mulher o deixou e namora, exatamente, o tal Fraga, defensor de Direitos Humanos, e enchendo a lata do seu filho. Há embate entre Nascimento e Fraga, a rejeição do filho, a virada de mesa, quando Nascimento é traído pela galera da milícia, o herói contra o sistema e por fim, a reconciliação com a mulher e o filho. E o final, dizendo que o inimigo agora é outro, ou seja, o inimigo é o Estado, o Sistema, o inimigo somos nós todos, com sobrevôo na Praça dos Três Poderes em Brasília. E olha que estamos em eleições. Talvez por isso tenham botado, contra a sua vontade, o nome do Padilha como artista apoiando Dilma. Padilha rejeita. Nem um, nem outro. Enfim, Elite da Tropa 2 é apenas um filme, mas é muito bom.
Mas é apenas um filme. Por ter tido tanto sucesso e agora mesmo já comemorar 3 a 5 milhões de espectadores, procuram em Elite da Tropa 2, um sinal para onde se dirigir. E é apenas um filme. Como cobrar de Bruce Willis pelos filmes que fez e faz, liquidando milhares, sem perguntar a razão? Já li em O Globo gente dizendo ser um filme fascista. Lá, Fraga, o defensor dos direitos humanos, mostra em uma palestra, que pela progressão da população brasileira, em comparação com os números crescentes de adolescentes presos, em 50 anos, seremos 570 milhões de brasileiros, e 520 presidiários, ou seja, apenas 50 milhões estariam livres.
Coitado do Coronel Nascimento, pois agora, sua mulher o deixou e namora, exatamente, o tal Fraga, defensor de Direitos Humanos, e enchendo a lata do seu filho. Há embate entre Nascimento e Fraga, a rejeição do filho, a virada de mesa, quando Nascimento é traído pela galera da milícia, o herói contra o sistema e por fim, a reconciliação com a mulher e o filho. E o final, dizendo que o inimigo agora é outro, ou seja, o inimigo é o Estado, o Sistema, o inimigo somos nós todos, com sobrevôo na Praça dos Três Poderes em Brasília. E olha que estamos em eleições. Talvez por isso tenham botado, contra a sua vontade, o nome do Padilha como artista apoiando Dilma. Padilha rejeita. Nem um, nem outro. Enfim, Elite da Tropa 2 é apenas um filme, mas é muito bom.
Se eu fechar os olhos agora
É o título do mais recente romance do jornalista Edney Silvestre, que embora conhecido por apresentar excelente programa de entrevistas voltadas para a Literatura na Globo News, acaba de conquistar um prêmio que o leva ao posto mais alto do setor, em 2010. Houve um momento em que quase fui chamado para o programa. Meus livros foram entregues à produção, pela Boitempo, mas sei lá a razão, não rolou.
Tendo em vista ser fã do programa, me apressei em ler Se eu fechar os olhos agora, que saiu pela Editora Record. São dois garotos que brincando em terreno baldio, encontram o cadáver de uma mulher que foi assassinada. Edney mistura em uma torrente de palavras a vida dos rapazes, a curiosidade que os move em relação ao crime, o encontro com um idoso em um asilo, estranhamente, também, interessado. Pouco a pouco, descortina-se uma grande armação, na pequena cidade, misturando sexo, pedofilia, chantagem e poder. Confesso que no final, quando há uma série de revelações, fiquei um tanto confuso, mas não há como elogiar o trabalho.
Tendo em vista ser fã do programa, me apressei em ler Se eu fechar os olhos agora, que saiu pela Editora Record. São dois garotos que brincando em terreno baldio, encontram o cadáver de uma mulher que foi assassinada. Edney mistura em uma torrente de palavras a vida dos rapazes, a curiosidade que os move em relação ao crime, o encontro com um idoso em um asilo, estranhamente, também, interessado. Pouco a pouco, descortina-se uma grande armação, na pequena cidade, misturando sexo, pedofilia, chantagem e poder. Confesso que no final, quando há uma série de revelações, fiquei um tanto confuso, mas não há como elogiar o trabalho.
quinta-feira, 14 de outubro de 2010
Sem dizer adeus
SEM DIZER ADEUS
Adaptar um livro não é fácil. É preciso encontrar o conflito, localizar dramaticamente os pontos certos. Dar dinâmica, encantar o público e acima de tudo, contar uma história e com ela, fazer a roda do mundo girar, seja o mundo, seja sua aldeia. A história de Dalila Ohana e a morte de Magalhães Barata conquista de início o público feminina que se deixa envolver pelas atitudes tomadas contra ela, que deseja apenas ficar ao lado de seu amor. E vice versa. Aos homens, a imagem de um líder que se fazia respeitar e era temido e aos poucos, alguém sem poder algum, de quem todos se aproveitam por diversos motivos.
Zê Charone e Cláudio Barradas formam o casal Dalila e Barata, eles que vêm de um feliz encontro em “Abraço”. A primeira em seu melhor momento, talento, experiência e beleza a serviço do teatro. O segundo, nosso maior ator, a própria história do teatro paraense. Zê apaixonou-se por Dalila. Cláudio, a reverência pura a alguém que conheceu quando foi redator em O Liberal.
Um estratagema interessante foi encontrado para a participação de outros personagens importantes do livro. Atores como Henrique da Paz, Olinda Charone, Saulo Sisnando, Flávio, André Mardock, Roni Hofstatter e Flávio Ramos surgem em imagens projetadas no cenário, contracenando com Zê e Barradas. Isso também acarretou um esforço extra para obter o sincronismo ideal para as cenas. Há também filmes mostrando Magalhães Barata em ação, seu enterro e até mesmo um áudio onde garante que sua doença é algo simples, que logo passará, feitos por Milton Mendonça e Líbero Luxardo, cedidos gentilmente pelo Museu da Imagem e do Som em edição e montagem de André Mardock. E música, em vários momentos, composta e arranjada por Edyr Augusto Proença, com execução de Luiz Pardal.
É como um sonho de Dalila, vista na primeira cena, sentada em um banco, abraçada ao livro, pensando. Uma adaptação livre que visa contar uma boa história, fazer justiça a uma mulher que amava seu homem e deixar ensinamentos.
Adaptar um livro não é fácil. É preciso encontrar o conflito, localizar dramaticamente os pontos certos. Dar dinâmica, encantar o público e acima de tudo, contar uma história e com ela, fazer a roda do mundo girar, seja o mundo, seja sua aldeia. A história de Dalila Ohana e a morte de Magalhães Barata conquista de início o público feminina que se deixa envolver pelas atitudes tomadas contra ela, que deseja apenas ficar ao lado de seu amor. E vice versa. Aos homens, a imagem de um líder que se fazia respeitar e era temido e aos poucos, alguém sem poder algum, de quem todos se aproveitam por diversos motivos.
Zê Charone e Cláudio Barradas formam o casal Dalila e Barata, eles que vêm de um feliz encontro em “Abraço”. A primeira em seu melhor momento, talento, experiência e beleza a serviço do teatro. O segundo, nosso maior ator, a própria história do teatro paraense. Zê apaixonou-se por Dalila. Cláudio, a reverência pura a alguém que conheceu quando foi redator em O Liberal.
Um estratagema interessante foi encontrado para a participação de outros personagens importantes do livro. Atores como Henrique da Paz, Olinda Charone, Saulo Sisnando, Flávio, André Mardock, Roni Hofstatter e Flávio Ramos surgem em imagens projetadas no cenário, contracenando com Zê e Barradas. Isso também acarretou um esforço extra para obter o sincronismo ideal para as cenas. Há também filmes mostrando Magalhães Barata em ação, seu enterro e até mesmo um áudio onde garante que sua doença é algo simples, que logo passará, feitos por Milton Mendonça e Líbero Luxardo, cedidos gentilmente pelo Museu da Imagem e do Som em edição e montagem de André Mardock. E música, em vários momentos, composta e arranjada por Edyr Augusto Proença, com execução de Luiz Pardal.
É como um sonho de Dalila, vista na primeira cena, sentada em um banco, abraçada ao livro, pensando. Uma adaptação livre que visa contar uma boa história, fazer justiça a uma mulher que amava seu homem e deixar ensinamentos.
Cuíra por Memórias
CUÍRA POR MEMÓRIAS
O Grupo Cuíra, prestes a comemorar 30 anos de atividades nas Artes Cênicas, passou a ocupar um casarão, na esquina das travessas Primeiro de Março com Riachuelo, no centro da cidade, desde 2006. O local tornou-se o Teatro Cuíra. Desde o primeiro dia, a força de sua localização e de sua história, fez-se sentir, de tal forma que o primeiro espetáculo gerado a partir daquele lugar se chamou “Laquê”, contando a trajetória da zona do meretrício que funcionou ali e ainda funciona, de maneira incipiente. Metade do elenco foi formado por moradores e profissionais do entorno. Depois, veio “PRC5 A Voz que Fala e Canta para a Planície”, sobre os 80 anos da Rádio Clube do Pará e a história desta Belém até o início dos anos 60, começou a ser contada. Chegou ao grupo o livro “Eu e as últimas setenta e duas horas de Magalhães Barata”, conquistando a todos, vindo a decisão de adaptá-lo sob o título “Sem Dizer Adeus”, com Zê Charone e Cláudio Barradas. História, história, história, de uma Belém que hoje não mais se reconhece. Um chão onde pisamos sem saber onde, como se cada geração inventasse um mundo novo, uma cidade nova. E não é assim.
Por isso, “Cuíra por Memórias”, um projeto longo, aprovado pela Lei Rouanet, patrocinado pela Petrobrás, que contará, até 2012, mais um pouco da nossa história. “Sem dizer adeus”, é parte disso tudo
O Grupo Cuíra, prestes a comemorar 30 anos de atividades nas Artes Cênicas, passou a ocupar um casarão, na esquina das travessas Primeiro de Março com Riachuelo, no centro da cidade, desde 2006. O local tornou-se o Teatro Cuíra. Desde o primeiro dia, a força de sua localização e de sua história, fez-se sentir, de tal forma que o primeiro espetáculo gerado a partir daquele lugar se chamou “Laquê”, contando a trajetória da zona do meretrício que funcionou ali e ainda funciona, de maneira incipiente. Metade do elenco foi formado por moradores e profissionais do entorno. Depois, veio “PRC5 A Voz que Fala e Canta para a Planície”, sobre os 80 anos da Rádio Clube do Pará e a história desta Belém até o início dos anos 60, começou a ser contada. Chegou ao grupo o livro “Eu e as últimas setenta e duas horas de Magalhães Barata”, conquistando a todos, vindo a decisão de adaptá-lo sob o título “Sem Dizer Adeus”, com Zê Charone e Cláudio Barradas. História, história, história, de uma Belém que hoje não mais se reconhece. Um chão onde pisamos sem saber onde, como se cada geração inventasse um mundo novo, uma cidade nova. E não é assim.
Por isso, “Cuíra por Memórias”, um projeto longo, aprovado pela Lei Rouanet, patrocinado pela Petrobrás, que contará, até 2012, mais um pouco da nossa história. “Sem dizer adeus”, é parte disso tudo
Eu e as últimas setenta e duas horas de Magalhães Barata
EU E AS ÚLTIMAS 72 HORAS DE MAGALHÃES BARATA
Joaquim de Magalhães Barata, um dos politicos mais importantes da história do Pará, morreu como Governador em 29 de maio de 1959, vítima de leucemia. Um ano depois, sua companheira Dalila Nogueira Ohana lançou um livro chocante, relatando os últimos momentos do governador e, principalmente, um conjunto de ações conspiratórias, misturando ciúme, traição, ambição e maldade, que acabou por afastá-la do lado de seu amado, que morreu chamando seu nome.
Magalhães Barata foi casado oficialmente com Georgina de Oliveira Barata, tendo como filhas Jacyra Barata Araújo e Jandira barata Moura, além de Iberê e Ierecê, de outros relacionamentos. Separado desde 1930, iniciou relacionamento com Dalila Ohana em 1938, com quem viajou para servir no Paraná, Pernambuco e Paraíba. Voltou e elegeu-se Governador. Para evitar comentários em uma sociedade tão conservadora, ao invés de morar na residência official, alugou uma casa na Travessa Dr. Moraes, onde passou a viver com Dalila, que também evitou comparecer ao seu lado em qualquer cerimônia pública.
Quando Barata adoeceu, aos poucos passou a despachar em casa e por ultimo, não mais levantou da cama. Dalila teve a idéia de mandar chamar a ex-esposa, que morava no Rio de Janeiro, bem como as filhas, para uma despedida. Elas acabaram por exigir que saísse de sua residência, para que pudessem entrar. Desesperada, apelou para o Arcebispo Dom Alberto Ramos, que também exigiu sua saída, pela moral e bons costumes da Igreja. Vieram o Governador em exercício Moura Carvalho, o Senador Lameira Bittencourt e os Deputados Federais Armando Correa e Océlio Medeiros e exigiram sua saída por conta de pressões que seu Partido sofria.
Dalila saiu de sua casa de madrugada, às escondidas, atravessando para a casa de um irmão, que morava em frente, de onde acompanhou os acontecimentos, seja pelo rádio, seja por amigos que lhe relatavam o que ocorria. A ex-mulher e as filhas ficaram hospedadas em sua casa, ao invés de hotel ou a residência oficial. Quando pôde retornar, a casa havia sido como que saqueada, o que foi atestado pelo Dr. Aurélio do Carmo, que a acompanhou.
Dalila Ohana, pouco tempo depois, partiu para o Rio de Janeiro, onde morreu em 28 de março de 2001 em Niterói, onde morava em uma pousada. Durante esse tempo, voltou apenas duas vezes a Belém, muito rapidamente. Lançou em 1960, pela Livraria Freitas Bastos, Rio de Janeiro, “Eu e as últimas setenta e duas horas de Magalhães Barata”.
Joaquim de Magalhães Barata, um dos politicos mais importantes da história do Pará, morreu como Governador em 29 de maio de 1959, vítima de leucemia. Um ano depois, sua companheira Dalila Nogueira Ohana lançou um livro chocante, relatando os últimos momentos do governador e, principalmente, um conjunto de ações conspiratórias, misturando ciúme, traição, ambição e maldade, que acabou por afastá-la do lado de seu amado, que morreu chamando seu nome.
Magalhães Barata foi casado oficialmente com Georgina de Oliveira Barata, tendo como filhas Jacyra Barata Araújo e Jandira barata Moura, além de Iberê e Ierecê, de outros relacionamentos. Separado desde 1930, iniciou relacionamento com Dalila Ohana em 1938, com quem viajou para servir no Paraná, Pernambuco e Paraíba. Voltou e elegeu-se Governador. Para evitar comentários em uma sociedade tão conservadora, ao invés de morar na residência official, alugou uma casa na Travessa Dr. Moraes, onde passou a viver com Dalila, que também evitou comparecer ao seu lado em qualquer cerimônia pública.
Quando Barata adoeceu, aos poucos passou a despachar em casa e por ultimo, não mais levantou da cama. Dalila teve a idéia de mandar chamar a ex-esposa, que morava no Rio de Janeiro, bem como as filhas, para uma despedida. Elas acabaram por exigir que saísse de sua residência, para que pudessem entrar. Desesperada, apelou para o Arcebispo Dom Alberto Ramos, que também exigiu sua saída, pela moral e bons costumes da Igreja. Vieram o Governador em exercício Moura Carvalho, o Senador Lameira Bittencourt e os Deputados Federais Armando Correa e Océlio Medeiros e exigiram sua saída por conta de pressões que seu Partido sofria.
Dalila saiu de sua casa de madrugada, às escondidas, atravessando para a casa de um irmão, que morava em frente, de onde acompanhou os acontecimentos, seja pelo rádio, seja por amigos que lhe relatavam o que ocorria. A ex-mulher e as filhas ficaram hospedadas em sua casa, ao invés de hotel ou a residência oficial. Quando pôde retornar, a casa havia sido como que saqueada, o que foi atestado pelo Dr. Aurélio do Carmo, que a acompanhou.
Dalila Ohana, pouco tempo depois, partiu para o Rio de Janeiro, onde morreu em 28 de março de 2001 em Niterói, onde morava em uma pousada. Durante esse tempo, voltou apenas duas vezes a Belém, muito rapidamente. Lançou em 1960, pela Livraria Freitas Bastos, Rio de Janeiro, “Eu e as últimas setenta e duas horas de Magalhães Barata”.
sexta-feira, 8 de outubro de 2010
Bom Círio para todos
Acho que nunca perdi um Círio. Desde que nasci, morei no Edifício Renascença, na Presidente Vargas, na passagem da Santa. Acostumei, aos segundos domingos do mês de outubro, acordar com aquela barulheira, um frenesi no ar, foguetes nos estivadores e ao passar do quarto ao banheiro, já encontrar visitas animadas, falando alto. Meus pais contentes, recebendo amigos. Lembro de acompanhar a procissão com ele, duas vezes, talvez tenha sido mais. Em uma, fomos na contramão do fluxo até próximo à Santo Antônio. Ela passou e depois, seguimos atrás, até a sede do Clube do Remo, onde tomei um refrigerante, meu pai papeou com amigos e voltamos. Na maioria das vezes, meu pai estave em casa. É difícil, ainda hoje, dissociar o Círio de sua presença. Já na semana que antecedia o domingo, ele se mostrava entusiasmado com o movimento nas ruas. Ligava para desejar Bom Círio. Ficava preocupado se havia bebida, salgadinhos. Bebida, somente após a passagem da Dona da festa. Havia sempre um repórter da Rádio Clube para narrar os acontecimentos. Estava lá desde cedo, compenetrado, participando de flashes. E na hora de descrever a passagem, chorava. Amigos, parentes, artistas, todo mundo ia por lá. E nem bem a Nazica passava, alguém puxava o violão e todos começavam a cantar. Uma tia de minha mãe, bem idosa, aguardava um tempo, assim, teatral, e tocava, toscamente, um violão, para todos aplaudirem. Todo ano ela fazia isso. Acho que aguardava a data ansiosamente. Palmas para ela. As pessoas iam saindo e vinha o almoço. O Círio era meu pai, que compôs "Belém está tão bonita, é o Círio que chegou. Vejo caras, vejo gente, gente que nem sei quem é".. Lucinha Bastos gravou, creio.
Nunca acompanhei na corda. Acho que nunca fiz uma promessa, não lembro. Respeito quem faz, mas penso diferente. Penso que conseguir graças, alcançar objetivos, é coisa de pessoa boa, correta. Isso sim, é difícil. Isso é o certo. Enfim, penso assim.
Hoje estou de volta ao Renascença, em outro andar. Uma irmã é vizinha de minha mãe. Vão amigos, parentes, artistas. Menos. Meu pai era a grande figura. Há como que uma ausência que enche a casa inteira. Amigos vão em meu apartamento também no sábado, para a Trasladação. Mas no momento em que Nossa Senhora de Nazaré passa em frente ao prédio, estou ao lado de minha mãe, dos meus filhos, meus irmãos. É incrível como a cada palmo de asfalto que a berlinda vence, tanta energia seja dirigida para aquela imagem. O sol, a temperatura, as flores, as cores, formam como que um halo em que Nazaré está no centro. Ali, a mãe de Jesus, todas as Nossas Senhoras, recebendo e devolvendo tanta energia. Batem palmas, papéis picados caem dos prédios, cena bem teatral, super emocionante. Nunca perdi um Círio.
Aproveito para desejar a todos ótimos momentos com Nossa Senhora de Nazaré em seu passeio anual. É muito mais do que uma manifestação religiosa, algo que não consigo explicar. Tenho apenas a certeza que é bom, muito bom. Boníssimo. Saudades do meu pai querido.
Nunca acompanhei na corda. Acho que nunca fiz uma promessa, não lembro. Respeito quem faz, mas penso diferente. Penso que conseguir graças, alcançar objetivos, é coisa de pessoa boa, correta. Isso sim, é difícil. Isso é o certo. Enfim, penso assim.
Hoje estou de volta ao Renascença, em outro andar. Uma irmã é vizinha de minha mãe. Vão amigos, parentes, artistas. Menos. Meu pai era a grande figura. Há como que uma ausência que enche a casa inteira. Amigos vão em meu apartamento também no sábado, para a Trasladação. Mas no momento em que Nossa Senhora de Nazaré passa em frente ao prédio, estou ao lado de minha mãe, dos meus filhos, meus irmãos. É incrível como a cada palmo de asfalto que a berlinda vence, tanta energia seja dirigida para aquela imagem. O sol, a temperatura, as flores, as cores, formam como que um halo em que Nazaré está no centro. Ali, a mãe de Jesus, todas as Nossas Senhoras, recebendo e devolvendo tanta energia. Batem palmas, papéis picados caem dos prédios, cena bem teatral, super emocionante. Nunca perdi um Círio.
Aproveito para desejar a todos ótimos momentos com Nossa Senhora de Nazaré em seu passeio anual. É muito mais do que uma manifestação religiosa, algo que não consigo explicar. Tenho apenas a certeza que é bom, muito bom. Boníssimo. Saudades do meu pai querido.
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