Sei que me repito, mas não há o
que fazer. Desejo um bom Círio a todos. Meu pai, que adorava, escreveu uma
música “Belém está tão bonita, é o Círio que chegou, vejo carros, vejo gente,
gente que não sei quem é”. O centro fica cheio. A “santinha” já passou na casa
da minha mãe e também na Casa Cuíra. As arquibancadas já estão instaladas na
Praça da República. Há comitê de recepção no aeroporto. Apesar dos esforços de
Fafá de Belém, a maioria dos turistas é de paraenses que voltam à terrinha para
matar as saudades. A programação é extensa. Há a procissão que leva Nossa
Senhora em longo percurso a Icoaraci de onde sai na manhã de sábado até a
escadinha do cais do porto. E então o ronco insuportável de milhares de
motocicletas até a Basílica. Enquanto isso, uma turma sai no Cordão do Peixe
Boi até a Praça do Carmo. A cidade finalmente mergulha em um frenesi. Há quem
acompanhe a Trasladação. Outros visitam casas de amigos. O Roxy Bar fecha
somente pela manhã de domingo. A Festa da Chiquita começa enquanto os foguetes
dos estivadores iluminam o céu. Até que ela chegue à Sé, dando a volta na Praça,
já temos quase meia noite. Nova espera. Romeiros chegam cedo para pegar lugar
na corda. Lá vem ela. Aqui em Belém ou é a chuva, ou é Nazica. Moro no percurso
do Círio. Nunca perdi um. Os foguetes voltam a explodir no Boulevard Castilhos
França e todos acordamos mal dormidos, às pressas, visitas tocando na campainha
e surgimos assim, meio assustados ao sol da manhã. A rua já está apinhada. Já
passaram quantos carros? Procura na app pra saber onde Ela está. Experimentam
salgados. Quando meu pai era vivo, bebida somente após a passagem Dela. Vem a
corda. Gostava mais antes com dois lados. Paciência. É um chicote elétrico que
vem sinuoso, como se cada movimento dependesse de muitos cálculos. Jovens e
velhos. Homens e mulheres. Não acredito em promessas pagas com sofrimento. Não
penso que Deus deseje nosso sofrimento. Enfim. Antigamente, autoridades
desfilavam dentro da corda, acenando. Recebiam vaias, também. Os padres,
derretendo no calor de seus paramentos vistosos. Lá está, finalmente. Pára em
frente ao prédio. Olho em volta e não há espaço para ninguém. Mar de gente. A
berlinda brilha como uma pilha, recebendo e devolvendo energia. É tão intenso
que fico zonzo. Abraço os meus. Peço. Agradeço. O tempo literalmente para
naquele instante. Sol a pino. Penso às vezes se os terraços, lotados, não
correm risco de desabar. Ela não deixaria. Há um silêncio ensurdecedor, diria.
Energia contra energia. E enfim ela se vai. Acompanhamos até sumir na cobertura
das mangueiras. E então vem o grosso do povo. Vários minutos e minutos passando
gente. Equipes da Cruz Vermelha, formadas por rapazes e moças abrem caminho na
multidão. Um repórter de rádio, ao invés de transmitir a passagem da Santa,
chora copiosamente, de emoção. Nos entreolhamos. Estamos todos com rostos
inchados de choro e emoção. Voltamos a nos abraçar. Batemos palmas. Alguns,
liberados, correm para as bebidas. Antigamente, meu pai trazia o violão.
Convidados, artistas, todos cantávamos até a fome apertar. Vem o almoço do
Círio, uma pequena sesta e lá se ia meu pai trabalhar no campo de futebol que
tinha Remo e Paysandu. Hoje ele não está conosco, embora em pensamento. Sim,
ele está lá. Um beijo, meu pai. Feliz Círio.
sexta-feira, 7 de outubro de 2016
sexta-feira, 30 de setembro de 2016
SUGESTÃO AO PREFEITO
Acompanho o JP e o blog de
Lucio Flavio Pinto. Ele decidiu lançar uma candidatura virtual, estimulando
leitores a enviar contribuições. Que pena, não tive mais de três comentários em
minha postagem. A Cultura, em Belém, realmente, não vale mais nada. A
Prefeitura está alheia à área há mais de vinte e cinco anos. Virou sinônimo de
diversão, bebedeira e beijos roubados à força nas micaretas e quejandos. Decidi
publicar hoje, dias antes da eleição, uma sugestão. Pela falta de espaço, tudo
é muito sintético. Há muito o que conversar. Pensar em algo é pensar em
processo, algo que inicia e se desenvolve na direção de um mercado cultural
onde as pessoas tenham pleno acesso ao que os artistas produzem e estes, total
condição de mostrar seu produto. Envolver as comunidades, levar os artistas
para perto, fazer com que todos os reconheçam. Como é uma proposta virtual,
diria que a Rádio Cultura e a Tv seriam uma grande força, utilizadas de maneira
profissional, como espalhadoras, como convencimento de todo o processo. Como
não são do Município, fica impossível.
Após o devido concurso de
projetos, edificaria em todos os bairros, usando madeira apreendida pelo Ibama,
centros culturais com espaço para biblioteca, oficinas teatrais de dança e
musicais, teatros com no máximo 200 lugares, funcionando com folga apenas na
segunda feira, de manhã, à tarde e à noite e galeria de arte. Haveria
realização de espetáculos musicais e teatrais da comunidade. Essas áreas, que
são mais específicas, teriam um processo de ocupação e disseminação durante todo
o ano. Construção de um teatro para 500 pessoas, que seria o Teatro Municipal.
Lembram da promessa de Zenaldo de um teatro com 3 mil lugares?
Edital para diversas
categorias. Para teatro, montagem de espetáculo. Para música, montagem de show.
Para dança, idem. Para literatura, relançamento de quatro obras de grandes
autores paraenses, importantes, fora de catálogo. Lançamento, após concurso, de
livros de autores estreantes. Poderiam variar a cada ano, romance, poesia, ou
lançar, no mesmo ano, quatro autores novos, um em cada categoria.
Espetáculos de teatro, música e
dança, iniciariam um périplo pelas casas de cultura, nos bairros, com tempo
para oficinas, conversas e outros com as comunidades, tudo acabando em
temporada no Teatro Municipal. Na Literatura, levar os autores da atualidade
para mostrar seus trabalhos nessas casas de cultura. E quanto às casas, verba
para espetáculos, de pessoal da comunidade, festivais de música, também
circulando. Festivais anuais de música, teatro e dança, juntando todo o pessoal
e adiante, festival com nomes brasileiros, de maneira a todos poderem comparar,
trocar experiências, assistir as novidades. Feira de Literatura destacando os
livros antigos, novos e os autores da atualidade centro das atenções, trazendo
uns dois autores nacionais para troca de experiências etc
Nada disso é tão difícil. Há
que precisar algum dinheiro, o que sempre nos é negado. Agora, o principal, o
mais difícil, o que é raro em muitos outros Estados, nós temos. Mão de obra.
Temos artistas nas mais variadas áreas, precisando de estímulo, carinho,
receptividade e ser conhecidos pelos próprios belemenses.
Infelizmente, não vi ou ouvi,
em nenhum lugar, qualquer promessa ou programa na área de Cultura. Ao lado de
falta de trabalho, educação e saúde, a Cultura está na base de uma nova
sociedade. Mas isso eles não sabem. Pena.
SUGESTÃO AO PREFEITO
Acompanho o JP e o blog de
Lucio Flavio Pinto. Ele decidiu lançar uma candidatura virtual, estimulando
leitores a enviar contribuições. Que pena, não tive mais de três comentários em
minha postagem. A Cultura, em Belém, realmente, não vale mais nada. A
Prefeitura está alheia à área há mais de vinte e cinco anos. Virou sinônimo de
diversão, bebedeira e beijos roubados à força nas micaretas e quejandos. Decidi
publicar hoje, dias antes da eleição, uma sugestão. Pela falta de espaço, tudo
é muito sintético. Há muito o que conversar. Pensar em algo é pensar em
processo, algo que inicia e se desenvolve na direção de um mercado cultural
onde as pessoas tenham pleno acesso ao que os artistas produzem e estes, total
condição de mostrar seu produto. Envolver as comunidades, levar os artistas
para perto, fazer com que todos os reconheçam. Como é uma proposta virtual,
diria que a Rádio Cultura e a Tv seriam uma grande força, utilizadas de maneira
profissional, como espalhadoras, como convencimento de todo o processo. Como
não são do Município, fica impossível.
Após o devido concurso de
projetos, edificaria em todos os bairros, usando madeira apreendida pelo Ibama,
centros culturais com espaço para biblioteca, oficinas teatrais de dança e
musicais, teatros com no máximo 200 lugares, funcionando com folga apenas na
segunda feira, de manhã, à tarde e à noite e galeria de arte. Haveria
realização de espetáculos musicais e teatrais da comunidade. Essas áreas, que
são mais específicas, teriam um processo de ocupação e disseminação durante todo
o ano. Construção de um teatro para 500 pessoas, que seria o Teatro Municipal.
Lembram da promessa de Zenaldo de um teatro com 3 mil lugares?
Edital para diversas
categorias. Para teatro, montagem de espetáculo. Para música, montagem de show.
Para dança, idem. Para literatura, relançamento de quatro obras de grandes
autores paraenses, importantes, fora de catálogo. Lançamento, após concurso, de
livros de autores estreantes. Poderiam variar a cada ano, romance, poesia, ou
lançar, no mesmo ano, quatro autores novos, um em cada categoria.
Espetáculos de teatro, música e
dança, iniciariam um périplo pelas casas de cultura, nos bairros, com tempo
para oficinas, conversas e outros com as comunidades, tudo acabando em
temporada no Teatro Municipal. Na Literatura, levar os autores da atualidade
para mostrar seus trabalhos nessas casas de cultura. E quanto às casas, verba
para espetáculos, de pessoal da comunidade, festivais de música, também
circulando. Festivais anuais de música, teatro e dança, juntando todo o pessoal
e adiante, festival com nomes brasileiros, de maneira a todos poderem comparar,
trocar experiências, assistir as novidades. Feira de Literatura destacando os
livros antigos, novos e os autores da atualidade centro das atenções, trazendo
uns dois autores nacionais para troca de experiências etc
Nada disso é tão difícil. Há
que precisar algum dinheiro, o que sempre nos é negado. Agora, o principal, o
mais difícil, o que é raro em muitos outros Estados, nós temos. Mão de obra.
Temos artistas nas mais variadas áreas, precisando de estímulo, carinho,
receptividade e ser conhecidos pelos próprios belemenses.
Infelizmente, não vi ou ouvi,
em nenhum lugar, qualquer promessa ou programa na área de Cultura. Ao lado de
falta de trabalho, educação e saúde, a Cultura está na base de uma nova
sociedade. Mas isso eles não sabem. Pena.
sexta-feira, 23 de setembro de 2016
O HOMEM QUE DIZ DOU, NÃO DÁ
Eu
dou. Estou falando de presentear os outros fora das datas comemorativas, como
aniversário e natal. Às vezes, estamos em uma livraria, por exemplo e nos
deparamos com um lançamento que não nos interessa de todo, mas sabemos que
alguém gostaria muito. É uma visita em sua casa e você percebe o brilho nos
olhos de seu convidado quando olha para algum objeto de sua propriedade.
Naturalmente tudo deve ter limites, se me entendem, mas é muito provável
ofertar aquilo ao outro. Qual a razão dessa vontade de presentear o outro? Quer
ver a satisfação? Espera um agradecimento que lhe acalentará a alma? Será um
reflexo de sua carência afetiva, pronto a oferecer qualquer coisa por um pouco
de carinho? E aqueles que não dão presentes? Serão, por algum motivo menos interessantes
em qualquer escala de valores que inventar? Você costuma presentear o amigo com
cds, livros, bobagens, enfim. Mas ele, nada o ofertará em retorno. Sim, algumas
vezes ficamos um pouco magoados. Nada sério, mas é que o retorno encheria nosso
coração de felicidade. São pessoas que sequer notam essa coisa de “é dando que
se recebe”. Hoje, aprendi a lidar com isso. Elas recebem os presentes de
maneira natural, como quem acha que por alguma qualidade invisível, merecem
receber. Estão ali para serem presenteadas e não têm nenhuma obrigação de
devolver. Obrigação não têm, mesmo. Mas seria tão bom se retornassem!
Você
é desses que acha aniversário e natal, por exemplo, datas apenas consumistas?
Compra uma meia aqui, um cinzeiro ali, garrafa de vinho, automaticamente, sem
pensar naquele que vai ser presenteado? E acha tudo uma grande farsa, com as
pessoas fingindo gostar uma das outras, na verdade irritadas por estar ali,
convivendo, naquelas poucas horas, com uma turma nada a ver? Você vai a uma
loja, vê um cd que seu amigo adoraria e pensa: “ah, vou apenas avisar que vi e
ele que venha comprar”. Fico pensando no momento em que recebemos o presente.
Há que abrir o embrulho, feito tão cuidadosamente pelo vendedor. Há quem saia
rasgando e queimando etapas. Outros sentam e vão desamarrando, abrindo o
pacote. Ficamos levemente aflitos, aguardando sua demonstração de alegria e
enfim, viva! Nos abraçamos. Estamos felizes com a felicidade do outro. É isso.
Talvez seja carência, consumismo, sei lá, you name it. Não foi tão rápido
perceber isso. Houve um espetáculo do Cuíra, “Toda minha vida por ti”. Dizia
“faça, faça antes que lhe passe a vontade”. Me levou a pensar em faça apenas
porque quer. Somente por isso. Ninguém lhe deverá nada por isso. Foi apenas por
vontade de fazer. E nada de ficar aguardando o sorriso do outro, o abraço. Faça
sua parte e pronto. Vá feliz por si próprio, pelo gesto. Nada mais interessa. E
nem precisa alardear. Guarde para si a satisfação. Não foi por ela que você
deu? Para ser exato, a crônica de hoje nada tem a ver com o “Canto de Ossanha”,
de Baden Powell e Vinícius de Morais. A poesia vai em outra direção. Aqui, o
homem não precisa dizer que dá. Dá porque quer e pronto. E você? De que lado
está? É dos que presenteiam e ficam magoados com nenhum retorno, dos que pensam
que nasceram para ser presenteados e não é nada fora do comum receber gifts?
Como diz William Shakespeare, para tudo é preciso estar pronto. Às vezes esses
pensamentos resolvem muitos problemas que a vida nos apresenta no dia a dia. Se
está estressado, chateado, cheio da vida, chutando o vento, que tal presentear
alguém?
sexta-feira, 16 de setembro de 2016
LUZ BRAGA
A
“Retumbante Natureza”, tema da exposição retrospectiva de Luiz Braga, no Museu
do Estado, é um espetáculo. Lá está o seu melhor, como sempre, em suas várias
fases. Sou amigo dele há mais de 40 anos e vi sua genialidade surgir, desde os
primeiros momentos em que, junto com meu irmão Janjo, fez seus primeiros shots.
Juntos, fizemos o Zeppelin, jornal de amenidades que circulava encartado no
jornal de domingo. Além das fotos de capa e algumas seções, Luiz publicava
alguns ensaios que até hoje parecem perfeitos. Ele já tinha “o olhar”, o que
considero mais importante para qualquer fotografo, muito mais que a técnica, a
qual ele já dominava. Fiquei feliz em ter a capa de uma fita cassete com áudio
poemas, “Mr. Bentley”, incluída na exposição. Mas não foi somente isso. Há
algumas de suas fotos emblemáticas nos livros “Surfando na Multidão”, “Incêndio
nos Cabelos” e “Ávida Vida”. Sou um felizardo. Ele sempre fez o seu melhor,
repito. Uma vez, chegando para se inscrever a um prêmio fotográfico no Rio de
Janeiro, acho, a pessoa que o recebeu, anotando seus dados, percebendo que
vinha de Belém, perguntou se ele sabia dos cuidados e detalhes com o material a
ser inscrito. Prontamente mostrou seu portfolio, de alto nível. Em sua primeira
exposição, creio, no local onde funcionou a boate Signo’s, com trabalhos em
p&b, causou tremores por apresentar em fotos modelos com seios desnudos.
Logo ele, que, na época, para se sustentar fazia portraits de figuras da
sociedade e fotos que ganharam prêmios com agências publicitárias! Ao invés de
negar sua procedência, dentro de uma estética que dizia não haver nada, aqui que
pudesse ser fotografado, escolheu justamente sua gente, seu lugar. E isso fez
diferença. Retratou seu lugar, retratou o mundo. Tornou-se um mestre da luz e
principalmente, do olhar. Saía pelos subúrbios, clicando. É preciso muita
atenção, velocidade e domínio da máquina para não perder o instante do objeto
fotografado. Ao mesmo tempo pensar em enquadramento, tirar partido da luz e o
melhor ângulo. Os índios americanos não gostavam de tirar fotos porque achavam
que assim teriam roubadas suas almas. É por aí. Nos rostos da mistura indígena,
negra e portuguesa está todo o drama da existência humana. Felicidade,
tristeza, raiva, atenção, indiferença, escolha. É como se ele roubasse aquelas
almas por instantes, preenchendo todo o espaço com aquele momento mágico, o
clic. Eles parecem nos olhar. Nos encarar. Fazem perguntas. Procurou os
carrinhos de ambulantes e suas luzes difusas, estourando, pintando, até
encontrar o tom certo. Essas nossas cores que gritam por socorro, por mais
atenção, saúde, segurança, trabalho, educação. Gritam poesia. A primeira parte
da exposição mostra trabalhos mais recentes. Já não é Belém, porque ficou
difícil andar pelas ruas, com uma máquina poderosa, sem ser atacado. Ou porque
a inocência também foi embora. Foi ao Marajó encontrar seu povo, seu mundo, sua
alegria. São retratos de homens e mulheres orgulhosos de ser marajoaras, um
sentimento superior que notam somente os que vão até lá. Seus olhares buscam o
infinito, acostumados que estão a olhar pelos campos sem fim, onde o tempo não
se pode, nem se deve contar. E no entanto, repito, eles nos encaram. E
percebemos que são como espelhos. Que nos vemos, ali. Nossa essência. Nós somos
aquele que está lá. As cores, o parque de diversões, carrinhos de raspa raspa.
Sua fase intermediária com filtro noturno para fotos em dias de sol. Costumo
chama-lo de “Luz Braga”. Quanta alegria em ver a admiração no rosto dos que
estavam lá, apreciando. Saímos de lá querendo mais. Saímos nos reconhecendo.
Nossa caboquice, como ele diz. Um retumbante sucesso.
sexta-feira, 9 de setembro de 2016
LIVROS A MANCHEIA
O
escritor Raphael Montes publica uma crônica semanal em O Globo e, na mais
recente, escreveu sobre sua paixão por livros e livrarias. Diz também que todo
escritor é um leitor compulsivo. Concordo. Meu medo é morrer sem conseguir ler
todos os que eu compro. Luiz Veríssimo também escreveu algo assim: “esses
livros maravilhosos que compramos e não vamos conseguir ler”. Mas batalhamos,
todos, nessa utopia. Fico um tanto amargurado ao ler em rápidas perguntas a
personagens que por alguma maneira se destacam, a resposta quase constante
sobre o que acabou de ler. Invariavelmente é livro de auto ajuda. Nada contra.
Assim como Paulo Coelho, os livros de auto ajuda fazem consumidores entrar em
livrarias e de lá poderem sair com o que procuram e mais, quem sabe, algum
romance, poesia, com a curiosidade despertada pelo título, pela capa, sei lá.
Atualmente, em Belém, frequento três livrarias, a Fox, Saraiva e a Leitura,
esta, no Pátio Belém. As duas últimas são grandes cadeias nacionais, que
trabalham visando especificamente o lucro, sem atentar para um público menor,
talvez, mas fiel, que é dos consumidores constantes de Literatura. A Visão
também tem livros mas, ouvi falar, estaria disposta a desistir. Pena. Comprei
dois leitores de livros eletrônicos, mais pela novidade. Os utilizo quando
viajo para ler no avião. Ir a uma livraria é uma delícia. Folhear, ler orelhas,
achar o que procurava, apostar em uma curiosidade. Nessas casas maiores, os
vendedores praticamente não sabem de nada. Correm ao computador. Na do Pátio, a
expressiva maioria dos livros aposta em uma corrente lucrativa de livros
escritos por mulheres, para mulheres, com romance e muito sexo. Há também
grandes mesas de auto ajuda e religião, mais livros para adolescentes, com
aventuras. A loja do Boulevard deu uma mexida na arrumação dos livros, mas a
preocupação com a venda do que é mais comercial é evidente. Livros didáticos,
auto ajuda, religião e os tais romances femininos são a maioria. Os vendedores,
sempre mudando, tudo bem impessoal, correm aos computadores. Tudo ao contrário
da Fox. Sei que parece artigo de encomenda, mas quem compra livros sabe o que
estou dizendo. Os vendedores têm empatia com clientes, têm memória dos
compradores e apesar de conceder algum espaço aos romances femininos (amor e
sexo), e a livros didáticos, é onde encontramos lançamentos importantes e
inexistentes nas outras lojas. É possível encontrar amigos para tomar um café e
falar de Literatura, inclusive. Mesmo assim, percebam que as três livrarias
estão na parte mais rica da cidade, duas protegidas por shopping centers. Há
uma Fox no Park Shopping, ali na Augusto Montenegro. Que bom seria se,
espalhadas pela cidade, uma, ao menos, por bairro. Além delas, bibliotecas
públicas. Bem, sou um leitor compulsivo. Em outras crônicas já revelei minhas
primeiras leituras. Houve alguns anos em que, envolvido em outros episódios, deixei
os livros de lado. Mas então veio a Brasiliense, apresentando os escritores
beat, os malditos franceses, enfim, os grandes provocadores e voltei a consumir
vorazmente. Livraria é como casa. Precisa de aconchego, conforto, ambiente.
Isso a Fox tem. Nas outras duas livrarias, sinto-me em super mercado. E não se
esqueçam que vem aí a 3a. Flipa!
sexta-feira, 2 de setembro de 2016
EU NÃO MATEI JOANA D'ARC
Desculpem
o título chamativo. Não resisti à frase do grupo Camisa de Vênus. Vocês sabem
que eu adoro ler romances de capa e espada, gosto adquirido ainda na infância.
O livro “A Donzela e a Rainha”, de Nancy Goldstone não é romance, mas uma biografia bem detalhada
sobre a vida de Joana D’Arc e da Rainha da Sicília, Iolanda de Aragão. Já
passei algumas vezes pela estátua da francesa em Paris e claro, já tinha lido
alguma coisa e visto filme sobre sua vida, mas nada assim tão bem narrado.
Permite que nos dias de hoje, tenhamos uma idéia da mentalidade da época em que
houve a “Guerra dos Cem Anos”. Um breve cenário para localizar o leitor: a
Inglaterra mandava na maior parte da França. Havia uma certa dúvida sobre o rei
do país. Seria Carlos VII, hesitante, permanentemente escondido, com medo de
ser capturado e morto ou Filipe, o Bom, Rei da Borgonha e aliado dos ingleses?
Havia Iolanda de Aragão, sagaz, política, que defendia Carlos VII, casado com
uma de suas filhas. Em uma diminuta e desprezada aldeia, havia uma menina
chamada por um nome que ao longo do tempo se chamou Joana. Virgem, pura,
assistindo missa todos os dias, analfabeta, pastora, começou a ouvir vozes.
Elas diziam que deveria ir até o rei Carlos VII, à frente de um exército
levantar um cerco à cidade de Orleans e depois coroa-lo em Reims. Deus dizia,
através do Miguel Arcanjo. De alguma maneira, isso chegou aos ouvidos de
Iolanda que a mandou buscar. Joana atravessou a França e vários perigos. Vestiu
roupas masculinas, de maneira a ser confundida e diminuir riscos à sua
integridade. Na corte, a lenda diz, sem nunca ter visto o monarca, foi até ele,
diretamente, que procurava esconder-se. Nancy Goldstone comprovou que ela foi
guiada até o rei. À frente de exército, com armadura e tudo, levantou o cerco a
Orleans. Nancy diz que a vitória foi mais dos generais do rei, sendo que ela
animou os combatentes. Coroou o rei.
Queria mais. Veio a política. Inveja. Rei fraco. Foi por conta própria atacar
outra cidade. Foi capturada pelos ingleses. Jogo de interesses. Durante longos
meses, acorrentada, foi interrogada por mestres em teologia. Espantosamente
contra argumentava e desarmava a todos. Usaram de estratagema. Assinou sem
saber ler que nunca mais vestiria roupas masculinas. Uma noite, querendo
urinar, esconderam seu vestido. Por pudor vestiu o traje anterior. Foi
queimada. Tinha 19 anos. A guerra continuou por mais vinte anos. Como predisse,
Carlos VII virou Rei da França e os ingleses expulsos. Finalmente, o francês
mandou rever seu julgamento. Até papas foram envolvidos. O povo lembrou e a
adotou. O dia em que foi inocentada, marca o fim da Guerra dos Cem Anos, embora
alguns combates ainda acontecessem. Joana foi fugaz, mas Iolanda esteve
envolvida em todos os acontecimentos. Casamentos entre reis, guerra, mortes,
resgates e para encerrar as confusões, casou sua neta Margarida com Henrique
VI, da Inglaterra. É muito curioso perceber que Joana, quase claramente, era
esquizofrênica, ouvia vozes que interpretava à sua maneira. E Deus não iria
tomar partido nas brigas daquela época em que tantos morriam a troco de
glórias, dinheiro e poder. Mas o livro de Nancy deixa toda a história bem
clara. Há vilões, sim, como o primeiro ministro de Filipe, o Bom, que agia como
um cardeal Richelieu para Alexandre Dumas. E antes de terminar, deixa evidente
que, desde aquela era medieval, a política já era algo horroroso.
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