sexta-feira, 6 de abril de 2012

Wish you were there

Estou em um avião retornando de quatro dias em férias na cidade de São Paulo. Não há quem possa achar ruim estar na grande metrópole. O número de pessoas nas ruas, lotando restaurantes na segunda feira, lojas e teatros. Livrarias cheias de gente interessada em Cultura. Assisti a dois espetáculos fantásticos, realmente inesquecíveis. O primeiro foi “The Wall”, com Roger Waters, do Pink Floyd e sua banda, tocando o repertório de um dos álbuns mais vendidos e reverenciados de todos os tempos. Quando fiz 50 anos, dei-me de presente assistir ao mesmo Roger Waters, no gramado do estádio do Morumbi, tocando músicas de “Dark side of the moon”. Agora que chego próximo aos 60, vim revê-lo. Curioso notar a maciça presença dos “tiozinhos”, pais e filhos, curtindo, sem nenhuma confusão ou alteração em tão grande plateia. Tive a sorte de estar a poucos metros do gigantesco palco, com uma parede (wall) de 134 metros onde sensacionais projeções mostraram trabalhos de Banksy e outros grandes artistas em uma sincronia perfeita. Na fileira de trás, dois tiozinhos grisalhos, barrigudos, fumam um imenso tarugo de maconha e estão deliciados, um mostrando ao outro o braço arrepiado.
The Wall, curiosamente, é o resultado de um tempo de muita discussão e sofrimento. O começo do Pink não me afetou. Estava mais ligado no rock progressivo e a banda fazia algo mais cósmico, viajante, como em “Ummagumma”. Foi com “Dark side” que o sucesso começou a chegar. Depois, na maior dúvida, quando tentaram gravar a partir de instrumentos domésticos como escovas de dente e liquidificadores, inclusive a visita perturbadora, ao estúdio, de Syd Barret, veio “Wish you were here”, misturando a história de Syd e problemas conjugais de Waters. E assim veio “The Wall”. A banda discutia. Roger Waters, o baixista, disputava com David Gilmour, guitarrista, a liderança. Roger fazia as músicas. Gilmour acrescentava seu instrumento de maneira tão brilhante que o resultado era como Lennon e McCartney. “The Wall” mistura a dor de Waters pela perda do pai durante a Segunda Guerra Mundial; as agruras dos grandes artistas, que atuam diante de grandes multidões como ditadores, sendo inteiramente obedecidos, mas quando voltam para casa, estão solitários, mal amados; a pressão e as drogas que fazem artistas de boa índole virarem feras, quebrando quartos de hotel e precisando cuidados médicos para subir ao palco; o protesto contra as grandes corporações e os professores contra crianças indefesas. Waters se aborrecia com os companheiros, acusando-os de má vontade e incompetência. Gravava com músicos de estúdio. Ninguém sabia no que ia dar. O produtor Bob Ezrin botou as fitas de debaixo do braço e foi para seu estúdio particular de onde retornou com a idéia do álbum. Até para excursionar foi difícil. Tudo custava muito caro. Waters parecia querer que os companheiros fossem meramente acompanhantes. Gilmour revoltou-se. Mesmo assim, compareceu com solos que se tornaram clássicos. Saiu um filme, genial, dirigido por Alan Parker e desenhos de Gerald Scarf. É o que assistimos em São Paulo, seja em projeções, com gigantescos marionetes, uma banda sensacional, três guitarristas, mais os teclados do filho de Waters. E sim, Roger não canta todas, em algumas há lipsync. Quando em “Comfortably Numb, surge, sozinho, do alto da parede, o guitarrista para fazer o solo de Gilmour, é impossível deter as lágrimas. Muita emoção. Fico pensando naquele músico, vivendo seu grande momento, todas as noites, sozinho, no alto de uma parede, encarando estádios lotados e emocionados, tocando o solo que é o sonho de todo guitarrista, o som no mais alto volume. O grande segredo é, como no filme, mas agora ali, ao vivo, teatro puro, ópera popular, a circunstância, compreender a sequência e vibrar junto. E ainda compramos os gadjets, claro.
Fantástico também foi assistir “Vale Tudo”, o musical escrito por Nelson Motta, a partir da biografia de sua autoria, sobre Tim Maia, estrelada por Thiago Abravanel, em tudo cativante. Na incerteza do sucesso, já que contava com elenco competente, mas pouco conhecido, o produtor Chaim negociou com todos na base da percentagem. Estão todos ricos. Atuam de terça a domingo com casa lotada. É tudo muito simples, nada de riqueza em recursos técnicos. É a louca história de Tim e principalmente, a força de sua música. Impressionante. As letras, como as de Roberto e Erasmo em início de carreira, com palavras e imagens fáceis, mas certeiras. As melodias ricas, fortes, o arranjo pensado, metais, groove, irresistíveis. O elenco está adorável e o garoto que até ano passado era figurante em musicais, é um grande show, cantando divinamente. Vamos assistir ao espetáculo como a um show de Tim, de volta, vivo novamente. Claro, irreprimível o choro de emoção, juntando memórias nossas, vividas com aqueles clássicos, mais a força do que assistimos. E a circunstância, mostrando o que há por trás de cada música, como amor e brigas com suas mulheres. Era uma quarta feira e a casa estava lotada. Que beleza. Valeu a pena. Valeu tudo. Wish you were there.

2 comentários:

Francisco Rocha Junior disse...

Maravilha de post.
Abs.

Érika Castilho Brasil disse...

Os jornais tão carentes de uma escrita dessa!