sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

ALGUÉM QUE MUITO TE AMA


A mulher do Leo é fogo. O cara demora a chegar em casa e ela já pega o carro e circula até encontrar. Aí ele ouve todos os desaforos e volta com ela, caladinho. Mas o Leo é boa gente, tranqüilo. Apenas gosta de passar um tempo com os amigos, jogando dominó, porrinha, bebendo umas cervejas, batendo papo. Essas mesas são absolutamente mansas. Os caras ficam ali, até mexem com algumas meninas que passam, mas não dá em nada. É apenas chinfra, nada de mais. Passam em revista os acontecimentos do dia, contam umas mentirinhas e é só. Mas a mulher do Leo queria o controle. Vamos combinar, talvez ele gostasse disso. Ia se atrasando, se atrasando, a galera incentivava, ela ligava algumas vezes para o celular, ele desconversava e após algum tempo, não atendia mais. Ficava ali, tocando e ele fazendo pose de “não to nem aí”, para gáudio da galera. De vez em quando, para despistar, procuravam um bar diferente, para dar trabalho à mulher do Leo. Mas a danada achava e quando chegava, já viu. “Minha mulher é uma santa. Ela apenas não gosta que eu fique na rua. Tem ciúmes. Imagina”. Pois é. Mas daquela vez, a situação escapou um pouco do controle. Era uma tarde de sábado. Estavam na mesa, descolando umas louras, rolando dadinho, jogando papo fora, essas coisas. Alguém disse que deviam ir para a Mercedes, aquela casa onde as garotas ficam à disposição dos fregueses. O Leo foi o primeiro a agitar. “Se é pra ir, vamos logo”. Chegaram, ficaram uns instantes. Estava fraco o movimento. Logo alguém sugeriu o Alfa Clube, mais animado, que segundo informações, estava “pegando fogo”. Lá se foi a caravana de bebuns conferir a dica. A mulher do Leo já havia ligado duas vezes. Agora ele não atendia mais, como de praxe. O Alfa estava ótimo. Um “sonoro” tocava brega e um locutor, a cada instante mandava mensagens, registrava presenças e fazia seu “chem”. Não havia condição para porrinha ou qualquer outro jogo. Sentaram em uma mesa, pediram bebida e ficaram apreciando o ambiente, cheio de garotas das mais diversas faixas etárias e promessas. Não que eles fossem atacar. Perigava serem chamados de “tios”. Mas a remota possibilidade já justificava estar ali. Quem sabe? O Leo era dos mais animados. Até acenou para umas duas, que devolveram sorrisos enigmáticos. “E aí, vou ou não vou até lá?”. Pois é. Pede mais umas louras e já fico no ponto. Foi quando o locutor interrompeu a aparelhagem para um recado romântico: Atenção Leonardo. Atenção Leonardo Rodrigues. Alguém, que muito te ama, está aguardando atrás do palco, para lhe dar muito carinho. Repetindo: Atenção Leonardo Rodrigues. Alguém, que muito te ama, está aguardando atrás do palco para lhe dar muito carinho”. “Tu ouviste? Era comigo. Vai ver é aquela morena que passou, aquela de calça apertadinha. Desculpa aí que o papai aqui vai se dar bem”. Os amigos ficaram entre o estupefato e o preocupado. Perguntaram se tinha camisinha. Se estava em condições. Se não havia bebido muito. “Vocês estão é com inveja. Eu vou me dar bem. Depois eu conto. Sorry, periferia..”. Todo confiante, andar malemolente, Leo foi atrás do palco onde encontrou sua esposa. Baixou a cabeça e foi ouvindo aquela torrente de reclamações, alguns pescoções, ameaças e tudo o mais, até o carro. A mulher do Leo é fogo.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

HOUSE OF CARDS


Hesitei muito antes de assistir as temporadas de House of Cards, uma das séries mais vistas e premiadas da tv americana. Não sei a razão. Talvez uma antipatia, ou para não fazer o que todos estavam fazendo. Um erro. Quando enfim decidi conhecer Frank Underwood e sua esposa Claire, enfrentei maratonas até chegar ao fim. Agora, aguardo a nova temporada, ainda no primeiro semestre. As atuações de Kevin Spacey e Robin Wright são perfeitas. A série recebeu 33 prêmios Emmy, incluindo premiações individuais para Kevin e Robin. Ganhou também oito Golden Globe Awards, e novos prêmios para o casal. Uma história de pragmatismo, manipulação, cinismo e poder. Um casal disposto a tudo. Uma festa de ódio, roubos, assassinatos, infâmia e arrogância. Com a chegada de Hillary Clinton às eleições, houve até espaço para sugerir Claire Underwood. Não sei o que virá. Beau Willimon adaptou a partir de uma série inglesa, de mesmo título. Esta, a partir dos livros de Michael Dobbs. Estreou em 2013. Underwood foi um dos artífices do presidente eleito. Esperava o cargo de Secretário de Estado. Foi-lhe negado. A partir daí começa uma grande vingança. No cargo que ocupava, no Senado americano, Líder da Maioria, tinha em arquivo todos os podres de seus colegas. A partir daí, usando engenhosidade e maldade, vai derrubando os oponentes até chegar à Casa Branca. Não sabia da série inglesa. Vou procurar. Mas recentemente li os livros, achados na Fox. O autor é membro da Câmara dos Lordes no Parlamento britânico. Foi conselheiro de Margaret Thatcher, John Major e David Cameron. Li que após todo esse trabalho, teve férias longas, quando veio a idéia do livro. Sabia o que tinha de escrever. Aqui é Francis Urquhart, líder da bancada governista do Parlamento, que também ao ser preterido após uma eleição, decide vingar-se de todos e chegar ao cargo máximo. Tal como nos EUA, desperta a curiosidade de um jornalista. Usando todos os seus truques e deslealdade, é eleito Primeiro Ministro. Curioso que aqui, sua esposa não tem o mesmo destaque da série americana. Agora, Dobbs insinua que a Rainha Elizabeth abdicou em favor do filho, Charles, que tem idéias próprias para o governo, mesmo que nada possa mandar. É motivo de aborrecimento e outro obstáculo para Francis. No terceiro livro, ‘Último Ato”, há bom tempo decorrido e ele já está cansado, extenuado de tantas brigas. Vai bater o recorde de permanência no cargo no século XX. Pretendentes ao cargo, mais jovens, surgem de todos os lados. Quer largar tudo e ao mesmo tempo, não pode perder, sair, entregar os pontos. Uma luta consigo mesmo. É impossível deixar de notar as semelhanças nas patifarias que vemos todos os dias nos jornais, sobre a política brasileira. Acho, mesmo, que o modo de fazer política, e aí serve para a Inglaterra e EUA, está falido completamente. Não elegemos representantes, mas baronetes que formam uma grande quadrilha onde se abastecem de muito dinheiro e poder, claro. Em uma outra série que acompanho, “Designated Survivor”, um presidente que nunca fez política, parece um ingênuo em meio a trapaças, vinganças e cobiça dos que o cercam, cada um com uma idéia diferente para se dar bem. Quanto aos três livros de Michael Dobbs, editora Benvirá, sugiro vigorosamente. São muito bons.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

OS ROMÁNOV

Compramos o livro de Simon Sebag Montefiore ao mesmo tempo, eu e Tenório, o mais famoso bibliófilo de Castanhal. Uma semana depois ele me perguntou se já havia encarado o calhamaço de quase mil páginas. Disse que somente chegara ao prefácio. Ele também. Talvez pelo desafio, resolvi ler. Montefiore é um dos grandes biógrafos europeus. Já havia lido, de sua autoria, “Stalin, a corte do czar vermelho”, maravilhoso e também longo. Ler a história dos Románov é ler sobre a Europa a partir de 1613, com Ivan, o Terrível, até 1917, com o assassinato de Nicolau e toda a família. Um país imenso, com áreas inexploradas. Línguas e religiões diferentes. Um relato de conquistas e derrotas. Mortes e nascimentos. Incompetência brutal, hesitações, feiticeiros, mulheres fortes, homens acreditando em uma ligação com Deus e muito, muito sexo. É impressionante como todos tinham amantes. Todos. No meio de tudo, passam Tolstoi, Tchaikovski, Puchkin e vários outros. E vem Pedro, o Grande, com uma corte bizarra que tinha até famílias de anões, usados inclusive para arremesso à distância. Os tsares ao assumir assinavam um contrato com a religião, o império, o nacionalismo e o exército. Achavam-se instrumentos de Deus. Vêm Alexandre e os irmãos Constantino e Nicolau. E sempre presente o desejo de anexar a Ucrânia e os Balcãs, do Cáucaso à Criméia, Síria e Jerusalém e Extremo Oriente (China e Japão), além da Índia e principalmente a Turquia, Constantinopla, por conta do estreito de Dardanellos. Não é engraçado como até hoje nada mudou, com o novo Tsar Putin? A decadência inicia com Alexandre III e vai a Nicolau II, chamado de Nicky. Mas saiba que Alexandre chegou a visitar os Estados Unidos, caçando em Nebraska com o General Custer e Bill Cody. Principalmente, Alexandre ficou encantado com Napoleão. Ficaram amigos, mesmo sabendo da incompatibilidade. Ambos eram conquistadores. Quando o francês invadiu a Rússia, cometeu o grave erro de confiar na sagrada incompetência dos militares, o atraso nos armamentos e falta de industrialização. Chegou a Moscou. Incendiou a cidade, vazia a essa altura. Veio o “general inverno” e Napoleão começou a retirada, açoitado pelos russos. Alexandre entrou em Paris vitorioso, montando um cavalo que havia sido dado pelo general, que foi enviado para a ilha de Malta. O tsar seguinte, Nicolau, Nicky, incompetente, começou cedendo territórios e depois que nasceu seu filho e herdeiro sofrendo de hemofilia, permitiu a chegada de malucos como Rasputin, que ficou famoso na história por mandar no Tsar e Tsarina, além de qualidade sexuais. A Revolução Francesa havia deixado interrogações. Agora havia os livros de Karl Marx. O distanciamento do Tsar e as necessidades do povo aumentaram. A cobiça, corrupção e traição também, não adiantando quantos foram mandados para a Sibéria. Começaram as manifestações. Bombas jogadas por terroristas. Lênin, Trotsky e o camponês Stalin comandando. Prenderam o tsar e a família. Decidiram mata-los. O sentimento pelo tsar, apesar de tudo era arraigado demais. Era preciso. O curioso é que Stalin, adiante, percebe que os russos somente acreditariam na autoridade de um novo tsar. É o que se tornou, deixando de lado a ideologia do comunismo. Matou milhões. Uma geração inteira. Precisava recomeçar. Tantos anos depois, temos um novo tsar, Putin. E o mais interessante: Tire o Ras de Rasputin. O que fica?

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

AS QUATRO ESTAÇÕES DE HAVANA

Sou amigo de Leonardo Padura, o escritor cubano que recebeu há uns dois anos o prêmio “Princesa das Astúrias”, o mais importante da língua espanhola. Estivemos juntos em algumas apresentações em São Paulo e Recife, eu com meu “Pssica” e ele com “O Homem que Amava os Cachorros” e ainda “Os Hereges”, todos lançados pela Boitempo. É claro que as maiores atenções eram para ele. Um homem tranquilo, observador, inteligente, que sabe usar as palavras e como bom cubano não deixa nada sem resposta ainda que pouco tenha dito, se o assunto é o regime da ilha. Mas sobretudo, digno. Estávamos em Recife, na Feira Literária, abertura. Um senhorzinho fez nossa introdução, quer dizer, dele. Apaixonado por Cuba, desandou a falar dos talentos de Padura. Diria, cantou em prosa e verso. Esqueceu de mim. Fiquei sem graça. Não sabia o que fazer. Pomposamente, o senhorzinho passou a palavra a Leo e ele: Senhoras e Senhores, o que há em comum entre minha obra e a de Edyr Augusto é isso e aquilo. Eu e o Edyr escrevemos desta e daquela maneira, enfim, Leonardo me repôs em cena com seu talento, educação e generosidade. Quando terminamos, fomos aplaudidos de pé, ele mais merecedor, claro. Poderia contar muito mais. Visitamos a sinagoga do Recife, a primeira da América do Sul, mencionada em seu “Os Hereges”. Escreve mensalmente uma crônica para a Folha de São Paulo. Vive viajando, mas retorna sempre para sua casa em Havana. A Boitempo acaba de lançar quatro obras no gênero policial, uma ou duas, não sei, anteriormente lançadas sem o destaque necessário. Em todas está presente o Detetive Conde, seu alter ego. E por escreve-las quase encadeadas, chamou-as de “As Quatro Estações de Havana”, localizando-as em 1989, ano terrível para os cubanos, com a queda do Muro de Berlim e outros. Através de sua linguagem leve, gostosa e precisa, temos idéia da realidade cubana, mais do que qualquer propaganda tendenciosa, seja para que lado for. A Padura, interessa mais como os casos se desenvolvem do que sua resolução, quem cometeu o crime. Interessa a convivência, a temperatura, as pessoas. Agora, melhor ainda, a Netflix apresenta a série, com mesmo título, reunindo em quatro capítulos, “Passado Perfeito” (que se passa no inverno), “Ventos de Quaresma”(primavera), “Máscaras”(verão) e “Paisagem de Outono”. É uma produção da Tv espanhola com a Tornasol Filmes, de Gerardo Herrera, com direção de Félix Vistanat e o melhor, roteiro de Padura e sua esposa, Lucía Lopez Coll. Cenas magníficas, casario muitas vezes parecido com Belém. Calor, suor. Mulheres cubanas adultas, lindas e cheias de personalidade. E o Detetive Conde, que afoga mágoas com bebida, divide acontecimentos com uma roda de amigos, assiste a um deles partir com a família para Miami, desejando um futuro. O detetive é interpretado por Jorge Perugorría, muito bem. Aconselho a lerem primeiro, para depois desfrutar da série. Há muito nas entrelinhas, um mundo de fofocas, corrupção, o eterno medo da turma “lá de cima”, que dá as ordens e muitas vezes sufoca as investigações. Gostaria de ir a Cuba para conversar com Leonardo. Ele me levaria aos locais certos, tenho certeza. Ah, esqueci de dizer que em cada um dos capítulos/livro, há boleros apaixonantes, belissimamente tocados e cantados, principalmente por cantoras. Metais, orquestras, cheguei a procurar uma das músicas no iTunes, mas não achei. Se acharem, me contem.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

ALCEU VALENÇA - VIVO/REVIVO

“Eu desconfio dos cabelos longos de sua cabeça se você deixou crescer de um ano pra cá. Eu desconfio no sentido estrito, eu desconfio no sentido lato”. Alceu Valença apareceu como um furacão. Já havia gravado um disco em parceria com Geraldo Azevedo. Ambos iniciantes. Então veio um festival de música e lá estava ele, com roupas maravilhosas, cabelos longos, juntamente com Paulo Rafael, Zé da Flauta e Zé Ramalho, tocando “Vou danado pra Catende”, um galope que conquistou a todos instantaneamente. Era rock and roll e era o mais puro nordeste. As letras misturando imagens belas, tortas, instigantes e um cantor agitado, olhos em brasa, como um guerreiro que toma posse de tudo ao seu redor. Veio o disco gravado ao vivo, com poucas condições técnicas e lá estava a banda maravilhosa com um repertório inesquecível. Pouco tempo depois, via Projeto Pixinguinha, Alceu desembarcou em Belém onde passou, talvez, uma semana, circulando pelo centro da cidade, fazendo amizades (ia na discoteca da Rádio Clube escutar discos locais) e principalmente, soando de maneira estrondosa no Teatro da Paz. Sozinho, sobre um praticável, com seu violão, trajes, cabelos longos e o canto, não deixava ninguém quieto. Poucas vezes a música pop brasileira foi tão bem representada naquela mistura de nordeste e rock, mais ainda, no TP, de maneira acústica, fazendo percussão com imensas botas. Alceu prosseguiu grande e é realmente estranho, talvez seu gênio, sei lá, que ele não seja lembrado juntos aos grandes da mpb como Chico, Caetano, Gil e Milton. Tornou-se um artista popular, de inúmeros sucessos. Mas creio que retomar o repertório daquele disco “Vivo”, agora “Revivo”, com praticamente toda a banda original, com toda a tecnologia que temos vem matar a vontade de muitos, até porque no disco original, muitas músicas do show ficaram de fora, por conta da duração do vinil. O verso citado no início é como uma declaração de intenções para quem era adolescente nos anos 70. É claro que desta vez a voz não tem mais aquele tônus de juventude e vontade de conquistar. Mas Alceu é maravilhoso em relembrar tanta coisa boa. São repentes, galopes, baiões, maracatus com um cantador acompanhado por guitarra elétrica e flauta. Preciso dizer que a mixagem tirou muito da força da guitarra de Paulo Rafael, preferindo viola e flauta. Isso foi errado. Mas adorei “Espelho Cristalino”, “Punhal de Prata”, “Descida da Ladeira”, “Pontos Cardeais”, “Casamento da Raposa com o Rouxinol, “Papagaio do Futuro” e “Sol e Chuva”. “Não, não quero mais brincar de sol e chuva com você. Para o seu dedo tenho dedal. Pro seu conselho cara de pau. Tenho janeiro, tenho fevereiro, se essa vida é um desmantelo, me mate que eu sou muito vivo, vivo, vivo!

E sem sair de Pernambuco, mas mundo afora, recomendo “The Bridge”, com Lenine acompanhado pela Martin Fondse Orchestra, ao vivo no Bimhuis, Holanda, creio. Som maravilhoso e Lenine desfilando seus sucessos tendo como acompanhamento arranjos lindos, violinos fazendo rabecas, saxofones cruzando o ar feito cometas, piano e percussão na linha do jazz. “A Ponte”, “A Rede”, “Hoje eu quero sair só”, “Relampiano”, “Leão do Norte” e muitas outras são cantadas. No mais festejar a riqueza dos pernambucanos. Alceu e Lenine já são veteranos mas o número de cantores, músicos, atores e filmes feitos por lá mostram o resultado de uma política cultural feita de maneira profissional e técnica. E nós ficamos a chorar.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

PAPAI NOEL PORNÔ






Honesto, íntegro, mas amante das piadas de sacanagem. Boca suja naturalmente. Desses que dizem palavrão com tanta naturalidade que são perdoados gostosamente. Era a atração das reuniões de família, procurando cabelos nas mãos dos pré adolescentes, contando suas piadas indecentes, como as definia sua esposa, que sempre fazia a chocada, parte do número. Aposentou-se e na falta do que fazer, descia para a portaria do prédio onde ficava contando suas piadas, seus causos, para quem se interessasse. Boa pessoa, não tinha filhos, adorava crianças. Elas também gostavam do velho boca suja mas carinhoso. Veio o Natal e decidiu comprar uma fantasia de Papai Noel. Percorreria todos os andares distribuindo presentes, sonhos e recebendo carinho. Era conhecido e todos gostariam. Dito e feito. Desceu do último até o primeiro andar, não esquecendo de aceitar os drinks oferecidos, às escondidas das crianças. Eram 22 andares. Três apartamentos por andar. Quando chegou no terceiro, 302, havia moradores novos. Entrou fazendo seu número. Notou certa formalidade, mas com um sem número de doses de whisky, champagne, cerveja, conhaque e até alexander, a boca suja estava absolutamente solta. Abraçava as crianças dizendo Feliz Natal, porra. Vem cá seu caralhinho, vem pegar o teu presente, viadinho do papai, vem cá. Não deu certo. Os vizinhos eram crentes. Foi posto para fora. As crianças ficaram chorando. Não sabe se foi dos palavrões ou por não terem recebido os presentes. Perdeu a graça. Voltou correndo para seu apartamento, tirou a fantasia e ficou ali pela sala, aguardando seus parentes. Tocaram à porta. Era o síndico, meio sem graça, pois o conhecia e também lhe tinha oferecido uma dose e o vizinho, querendo dar queixa. Falaram. Explicaram. Já estavam saindo. Não agüentou. Resmungou alto: tanta confusão por causa de uns caralhinhos, ora porra...

Deu escândalo. Os vizinhos se mudaram. Papai Noel continua.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

NUM SÁBADO MODORRENTO

Era um sábado comum. Depois da hora do almoço. Calor, modorra, bate papo furado. Atriz, ela estava em temporada. Naquela noite, o penúltimo espetáculo de grande sucesso. Trabalhador, ele fora ao comércio comprar dois terçados para sua lavoura. Ao invés de pegar o ônibus no começo da Presidente Vargas, pensou em ir até as Lojas Americanas, ver alguma coisa para a filha. Na Riachuelo, um casal começa uma briga. Ele, desses que toma conta de carros. Ela, prostituta. Têm filhos e boa relação com eles. Mas quando brigam, junta gente. Escutei o começo da discussão. Essa gente que mora na rua, fala muito alto, claro, a casa deles é o mundo. Fui até o pátio ver o que estava havendo. O casal se enfrentava em círculos. Acusações, respostas, um ou outro tapa. Os passantes incentivavam. Mas é que o trabalhador, com os terçados, resolveu intervir. Logo o casal esqueceu a briga e passou a discutir com o interventor. Chamei a atriz. Barulhão. Gritos. Buzinas. Ela não veio. Então os dois homens começaram a brigar. Caíram os terçados do pacote. A cena seguinte era na faixa de segurança de pedestres na Presidente Vargas. No melhor estilo capa espada, os dois duelavam com os terçados. Troquei de janela para ver melhor. No caminho, a atriz gritava de dor pegando o dedo mindinho. O que houve? Uma topada no pé do sofá, na pressa de ver o que estava acontecendo. O sinal abriu, nenhum carro avançou. Um dos terçados caiu no chão. O outro saiu correndo. As árvores me impediram de continuar assistindo. Ouço uma freada brusca. Meus amigos engraxates, taxistas, vendedores de balas, carimbo da sorte, traficantes, prostitutas, olhadores de carro, todos correram. Sem pensar, peguei o elevador e também desci. Foi na esquina com a Ó de Almeida, que na época tinha outra mão de tráfego. Um fusca vinha apressado. O trabalhador estava correndo. O outro atrás de terçado em riste. Atropelamento. Agora o fusca estava ofegante, saindo fumaça e o trabalhador estava no chão, morto. O motorista abriu a porta, mãos à cabeça, desesperado. Alguém chamava o Samu. O agressor sumiu em alguma esquina. A vida é um piscar d’olhos. A atriz louca de dor. Saco de gelo. Remédio. Tem espetáculo à noite? Tem, sim senhor. De sapato de bico fino e salto? Exatamente. Tudo aconteceu normalmente. A plateia foi ótima. Agradeceu, foi para os bastidores e largou o sapato no caminho. Sentou e uivou de dor. Ainda chegavam pessoas para cumprimentar. Só então o pé começou a inchar para valer. Na hora da cena, nem se pensa nisso e o corpo parece compreender a urgência do instante. Direto para o Pronto Socorro. Bate chapa. Mindinho quebrado. Doutor, eu tenho espetáculo amanhã. É a última noite. Preciso fazer. Minha senhora, não vai haver espetáculo. A senhora quebrou o dedo. Vai fazer uma proteção. Não põe gesso. A senhora é que sabe. Não houve espetáculo. No dia seguinte, inchou ainda mais. Voltou ao Pronto Socorro para engessar. Isso foi o de menos. Num sábado modorrento, perde-se a vida em poucos instantes, sem saber nem o nome da mulher que tentou socorrer e que, em seguida, também ficou contra si. Esse povo da rua é mesmo complicado. Na hora da confusão, é melhor ficar apenas observando. Eles têm códigos diferentes. Em um momento estão brigando como se fosse o fim do mundo e logo em seguida se abraçam, trocam baseados, petecas e vida que segue.