sexta-feira, 23 de setembro de 2016

O HOMEM QUE DIZ DOU, NÃO DÁ

Eu dou. Estou falando de presentear os outros fora das datas comemorativas, como aniversário e natal. Às vezes, estamos em uma livraria, por exemplo e nos deparamos com um lançamento que não nos interessa de todo, mas sabemos que alguém gostaria muito. É uma visita em sua casa e você percebe o brilho nos olhos de seu convidado quando olha para algum objeto de sua propriedade. Naturalmente tudo deve ter limites, se me entendem, mas é muito provável ofertar aquilo ao outro. Qual a razão dessa vontade de presentear o outro? Quer ver a satisfação? Espera um agradecimento que lhe acalentará a alma? Será um reflexo de sua carência afetiva, pronto a oferecer qualquer coisa por um pouco de carinho? E aqueles que não dão presentes? Serão, por algum motivo menos interessantes em qualquer escala de valores que inventar? Você costuma presentear o amigo com cds, livros, bobagens, enfim. Mas ele, nada o ofertará em retorno. Sim, algumas vezes ficamos um pouco magoados. Nada sério, mas é que o retorno encheria nosso coração de felicidade. São pessoas que sequer notam essa coisa de “é dando que se recebe”. Hoje, aprendi a lidar com isso. Elas recebem os presentes de maneira natural, como quem acha que por alguma qualidade invisível, merecem receber. Estão ali para serem presenteadas e não têm nenhuma obrigação de devolver. Obrigação não têm, mesmo. Mas seria tão bom se retornassem!

Você é desses que acha aniversário e natal, por exemplo, datas apenas consumistas? Compra uma meia aqui, um cinzeiro ali, garrafa de vinho, automaticamente, sem pensar naquele que vai ser presenteado? E acha tudo uma grande farsa, com as pessoas fingindo gostar uma das outras, na verdade irritadas por estar ali, convivendo, naquelas poucas horas, com uma turma nada a ver? Você vai a uma loja, vê um cd que seu amigo adoraria e pensa: “ah, vou apenas avisar que vi e ele que venha comprar”. Fico pensando no momento em que recebemos o presente. Há que abrir o embrulho, feito tão cuidadosamente pelo vendedor. Há quem saia rasgando e queimando etapas. Outros sentam e vão desamarrando, abrindo o pacote. Ficamos levemente aflitos, aguardando sua demonstração de alegria e enfim, viva! Nos abraçamos. Estamos felizes com a felicidade do outro. É isso. Talvez seja carência, consumismo, sei lá, you name it. Não foi tão rápido perceber isso. Houve um espetáculo do Cuíra, “Toda minha vida por ti”. Dizia “faça, faça antes que lhe passe a vontade”. Me levou a pensar em faça apenas porque quer. Somente por isso. Ninguém lhe deverá nada por isso. Foi apenas por vontade de fazer. E nada de ficar aguardando o sorriso do outro, o abraço. Faça sua parte e pronto. Vá feliz por si próprio, pelo gesto. Nada mais interessa. E nem precisa alardear. Guarde para si a satisfação. Não foi por ela que você deu? Para ser exato, a crônica de hoje nada tem a ver com o “Canto de Ossanha”, de Baden Powell e Vinícius de Morais. A poesia vai em outra direção. Aqui, o homem não precisa dizer que dá. Dá porque quer e pronto. E você? De que lado está? É dos que presenteiam e ficam magoados com nenhum retorno, dos que pensam que nasceram para ser presenteados e não é nada fora do comum receber gifts? Como diz William Shakespeare, para tudo é preciso estar pronto. Às vezes esses pensamentos resolvem muitos problemas que a vida nos apresenta no dia a dia. Se está estressado, chateado, cheio da vida, chutando o vento, que tal presentear alguém?

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

LUZ BRAGA

A “Retumbante Natureza”, tema da exposição retrospectiva de Luiz Braga, no Museu do Estado, é um espetáculo. Lá está o seu melhor, como sempre, em suas várias fases. Sou amigo dele há mais de 40 anos e vi sua genialidade surgir, desde os primeiros momentos em que, junto com meu irmão Janjo, fez seus primeiros shots. Juntos, fizemos o Zeppelin, jornal de amenidades que circulava encartado no jornal de domingo. Além das fotos de capa e algumas seções, Luiz publicava alguns ensaios que até hoje parecem perfeitos. Ele já tinha “o olhar”, o que considero mais importante para qualquer fotografo, muito mais que a técnica, a qual ele já dominava. Fiquei feliz em ter a capa de uma fita cassete com áudio poemas, “Mr. Bentley”, incluída na exposição. Mas não foi somente isso. Há algumas de suas fotos emblemáticas nos livros “Surfando na Multidão”, “Incêndio nos Cabelos” e “Ávida Vida”. Sou um felizardo. Ele sempre fez o seu melhor, repito. Uma vez, chegando para se inscrever a um prêmio fotográfico no Rio de Janeiro, acho, a pessoa que o recebeu, anotando seus dados, percebendo que vinha de Belém, perguntou se ele sabia dos cuidados e detalhes com o material a ser inscrito. Prontamente mostrou seu portfolio, de alto nível. Em sua primeira exposição, creio, no local onde funcionou a boate Signo’s, com trabalhos em p&b, causou tremores por apresentar em fotos modelos com seios desnudos. Logo ele, que, na época, para se sustentar fazia portraits de figuras da sociedade e fotos que ganharam prêmios com agências publicitárias! Ao invés de negar sua procedência, dentro de uma estética que dizia não haver nada, aqui que pudesse ser fotografado, escolheu justamente sua gente, seu lugar. E isso fez diferença. Retratou seu lugar, retratou o mundo. Tornou-se um mestre da luz e principalmente, do olhar. Saía pelos subúrbios, clicando. É preciso muita atenção, velocidade e domínio da máquina para não perder o instante do objeto fotografado. Ao mesmo tempo pensar em enquadramento, tirar partido da luz e o melhor ângulo. Os índios americanos não gostavam de tirar fotos porque achavam que assim teriam roubadas suas almas. É por aí. Nos rostos da mistura indígena, negra e portuguesa está todo o drama da existência humana. Felicidade, tristeza, raiva, atenção, indiferença, escolha. É como se ele roubasse aquelas almas por instantes, preenchendo todo o espaço com aquele momento mágico, o clic. Eles parecem nos olhar. Nos encarar. Fazem perguntas. Procurou os carrinhos de ambulantes e suas luzes difusas, estourando, pintando, até encontrar o tom certo. Essas nossas cores que gritam por socorro, por mais atenção, saúde, segurança, trabalho, educação. Gritam poesia. A primeira parte da exposição mostra trabalhos mais recentes. Já não é Belém, porque ficou difícil andar pelas ruas, com uma máquina poderosa, sem ser atacado. Ou porque a inocência também foi embora. Foi ao Marajó encontrar seu povo, seu mundo, sua alegria. São retratos de homens e mulheres orgulhosos de ser marajoaras, um sentimento superior que notam somente os que vão até lá. Seus olhares buscam o infinito, acostumados que estão a olhar pelos campos sem fim, onde o tempo não se pode, nem se deve contar. E no entanto, repito, eles nos encaram. E percebemos que são como espelhos. Que nos vemos, ali. Nossa essência. Nós somos aquele que está lá. As cores, o parque de diversões, carrinhos de raspa raspa. Sua fase intermediária com filtro noturno para fotos em dias de sol. Costumo chama-lo de “Luz Braga”. Quanta alegria em ver a admiração no rosto dos que estavam lá, apreciando. Saímos de lá querendo mais. Saímos nos reconhecendo. Nossa caboquice, como ele diz. Um retumbante sucesso.

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

LIVROS A MANCHEIA

O escritor Raphael Montes publica uma crônica semanal em O Globo e, na mais recente, escreveu sobre sua paixão por livros e livrarias. Diz também que todo escritor é um leitor compulsivo. Concordo. Meu medo é morrer sem conseguir ler todos os que eu compro. Luiz Veríssimo também escreveu algo assim: “esses livros maravilhosos que compramos e não vamos conseguir ler”. Mas batalhamos, todos, nessa utopia. Fico um tanto amargurado ao ler em rápidas perguntas a personagens que por alguma maneira se destacam, a resposta quase constante sobre o que acabou de ler. Invariavelmente é livro de auto ajuda. Nada contra. Assim como Paulo Coelho, os livros de auto ajuda fazem consumidores entrar em livrarias e de lá poderem sair com o que procuram e mais, quem sabe, algum romance, poesia, com a curiosidade despertada pelo título, pela capa, sei lá. Atualmente, em Belém, frequento três livrarias, a Fox, Saraiva e a Leitura, esta, no Pátio Belém. As duas últimas são grandes cadeias nacionais, que trabalham visando especificamente o lucro, sem atentar para um público menor, talvez, mas fiel, que é dos consumidores constantes de Literatura. A Visão também tem livros mas, ouvi falar, estaria disposta a desistir. Pena. Comprei dois leitores de livros eletrônicos, mais pela novidade. Os utilizo quando viajo para ler no avião. Ir a uma livraria é uma delícia. Folhear, ler orelhas, achar o que procurava, apostar em uma curiosidade. Nessas casas maiores, os vendedores praticamente não sabem de nada. Correm ao computador. Na do Pátio, a expressiva maioria dos livros aposta em uma corrente lucrativa de livros escritos por mulheres, para mulheres, com romance e muito sexo. Há também grandes mesas de auto ajuda e religião, mais livros para adolescentes, com aventuras. A loja do Boulevard deu uma mexida na arrumação dos livros, mas a preocupação com a venda do que é mais comercial é evidente. Livros didáticos, auto ajuda, religião e os tais romances femininos são a maioria. Os vendedores, sempre mudando, tudo bem impessoal, correm aos computadores. Tudo ao contrário da Fox. Sei que parece artigo de encomenda, mas quem compra livros sabe o que estou dizendo. Os vendedores têm empatia com clientes, têm memória dos compradores e apesar de conceder algum espaço aos romances femininos (amor e sexo), e a livros didáticos, é onde encontramos lançamentos importantes e inexistentes nas outras lojas. É possível encontrar amigos para tomar um café e falar de Literatura, inclusive. Mesmo assim, percebam que as três livrarias estão na parte mais rica da cidade, duas protegidas por shopping centers. Há uma Fox no Park Shopping, ali na Augusto Montenegro. Que bom seria se, espalhadas pela cidade, uma, ao menos, por bairro. Além delas, bibliotecas públicas. Bem, sou um leitor compulsivo. Em outras crônicas já revelei minhas primeiras leituras. Houve alguns anos em que, envolvido em outros episódios, deixei os livros de lado. Mas então veio a Brasiliense, apresentando os escritores beat, os malditos franceses, enfim, os grandes provocadores e voltei a consumir vorazmente. Livraria é como casa. Precisa de aconchego, conforto, ambiente. Isso a Fox tem. Nas outras duas livrarias, sinto-me em super mercado. E não se esqueçam que vem aí a 3a. Flipa!

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

EU NÃO MATEI JOANA D'ARC

Desculpem o título chamativo. Não resisti à frase do grupo Camisa de Vênus. Vocês sabem que eu adoro ler romances de capa e espada, gosto adquirido ainda na infância. O livro “A Donzela e a Rainha”, de Nancy Goldstone não é  romance, mas uma biografia bem detalhada sobre a vida de Joana D’Arc e da Rainha da Sicília, Iolanda de Aragão. Já passei algumas vezes pela estátua da francesa em Paris e claro, já tinha lido alguma coisa e visto filme sobre sua vida, mas nada assim tão bem narrado. Permite que nos dias de hoje, tenhamos uma idéia da mentalidade da época em que houve a “Guerra dos Cem Anos”. Um breve cenário para localizar o leitor: a Inglaterra mandava na maior parte da França. Havia uma certa dúvida sobre o rei do país. Seria Carlos VII, hesitante, permanentemente escondido, com medo de ser capturado e morto ou Filipe, o Bom, Rei da Borgonha e aliado dos ingleses? Havia Iolanda de Aragão, sagaz, política, que defendia Carlos VII, casado com uma de suas filhas. Em uma diminuta e desprezada aldeia, havia uma menina chamada por um nome que ao longo do tempo se chamou Joana. Virgem, pura, assistindo missa todos os dias, analfabeta, pastora, começou a ouvir vozes. Elas diziam que deveria ir até o rei Carlos VII, à frente de um exército levantar um cerco à cidade de Orleans e depois coroa-lo em Reims. Deus dizia, através do Miguel Arcanjo. De alguma maneira, isso chegou aos ouvidos de Iolanda que a mandou buscar. Joana atravessou a França e vários perigos. Vestiu roupas masculinas, de maneira a ser confundida e diminuir riscos à sua integridade. Na corte, a lenda diz, sem nunca ter visto o monarca, foi até ele, diretamente, que procurava esconder-se. Nancy Goldstone comprovou que ela foi guiada até o rei. À frente de exército, com armadura e tudo, levantou o cerco a Orleans. Nancy diz que a vitória foi mais dos generais do rei, sendo que ela animou os combatentes.  Coroou o rei. Queria mais. Veio a política. Inveja. Rei fraco. Foi por conta própria atacar outra cidade. Foi capturada pelos ingleses. Jogo de interesses. Durante longos meses, acorrentada, foi interrogada por mestres em teologia. Espantosamente contra argumentava e desarmava a todos. Usaram de estratagema. Assinou sem saber ler que nunca mais vestiria roupas masculinas. Uma noite, querendo urinar, esconderam seu vestido. Por pudor vestiu o traje anterior. Foi queimada. Tinha 19 anos. A guerra continuou por mais vinte anos. Como predisse, Carlos VII virou Rei da França e os ingleses expulsos. Finalmente, o francês mandou rever seu julgamento. Até papas foram envolvidos. O povo lembrou e a adotou. O dia em que foi inocentada, marca o fim da Guerra dos Cem Anos, embora alguns combates ainda acontecessem. Joana foi fugaz, mas Iolanda esteve envolvida em todos os acontecimentos. Casamentos entre reis, guerra, mortes, resgates e para encerrar as confusões, casou sua neta Margarida com Henrique VI, da Inglaterra. É muito curioso perceber que Joana, quase claramente, era esquizofrênica, ouvia vozes que interpretava à sua maneira. E Deus não iria tomar partido nas brigas daquela época em que tantos morriam a troco de glórias, dinheiro e poder. Mas o livro de Nancy deixa toda a história bem clara. Há vilões, sim, como o primeiro ministro de Filipe, o Bom, que agia como um cardeal Richelieu para Alexandre Dumas. E antes de terminar, deixa evidente que, desde aquela era medieval, a política já era algo horroroso.

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

QUERIDO

Walter Bandeira foi um querido. Talvez o tenha visto pela primeira vez cantando com Guilherme Coutinho na antiga boate “Tic Tac”. Mas foi na boate da Assembléia Paraense, primeiro aos domingos, depois aos sábados, que o tenho na lembrança. O hit “Curtição”, uma mistura de samba e balada, com Guilherme fazendo Cesar Camargo Mariano e ele fazendo Simonal. No entanto, para mim, funcionava “eu e eu, neste amor que só vive em mim, que nem mesmo pode morrer, sendo eterno na dor, de amar..”, romântica, fundo musical de meus sonhos de amor na adolescência. Sim, naquela época, dançávamos juntos, havia um pequeno intervalo preenchido com música mecânica e pasmem, tocava até “Whole Lotta of Love”, do Led Zeppelin. Naquela época, os gays já saíam do armário, primeiro como “engraçados”, aqueles que diziam gracinhas com um fundo de verdade. E Walter se colocou muito bem. Cantor preferido do soçaite, sua performance era cheia de gestos femininos e xistes na direção dos homens, ironias, tudo provocação. Ele vestia essa persona para dizer que estava ali por dinheiro e aproveitava a liberdade para dizer algumas verdades. Quanto a mim, gostava de conversar. Nos aproximamos na base da provocação. Satisfeito com as respostas, estendia os temas, discutia a evolução ou involução da cidade e seus costumes. Professor de dicção, foi um grande locutor e apesar de se tornar marca da Rádio Cultura, foi por mais tempo funcionário da Rádio Rauland. Nunca o vi atuando no Teatro, mas assistia a quase tudo o que era apresentado. Seu estilo pessoal era desleixado, na base do “se dependesse de mim, nào estaria aqui”. E fazia isso mesmo que a festa onde cantava fosse black tie. Todos diziam que devia seguir para o sul e tentar uma carreira nacional. Preferiu ficar. Produzi um show dele, parceria com o saudoso Eduardo Silva. “50 Caetanos”. Agora não lembro se o baiano fazia 50 ou ele. Depois, Eduardo o convenceu a fazer um show bem produzido, bem vestido, com orquestra, no Teatro da Paz, onde não fizesse as piadas e ironias de sempre. Escrevi no jornal que era um Walter “lobotomizado”.

Ele nem deu bola, mas Eduardo não gostou. Trabalhamos juntos produzindo a cantora Ana Cristina. A convivência era ótima, séria e com bom rendimento. Era descuidado. Adotou como idéia de vida. Bebida, cigarros, tudo o que não prestava para sua voz. Sem estranhos por perto era uma pessoa doce, inteligente, que gostava de conversar e era atento a tudo o que acontecia no mundo. Com outras pessoas, fazia o personagem. Pintava aquarelas lindas. Estava gravando um disco. Me disse que era pra fazer sucesso. Canções fáceis, na linha pop. Uma tarde, compus uma música. Na época, a italiana Cicciolina era política e sofria grande rejeição. “Eu to do lado da Cicciolina”, escrevi. Gravei demo. Enviei. Acho que não vai dar, disse. O repertório está pronto. Está bem, gravaremos como uma vinheta, tá? Tá. Que bom, foi a música que mais fez sucesso do disco. Gravou alguns jingles que compus, um deles, um tango para o lançamento do edifício Las Leñas. O tempo foi passando. O Cuíra achou de encenar um texto “Quando a sorte te solta um cisne na noite”. Compus umas músicas. Chamei Walter, Nilson Chaves e Marco Monteiro para gravar. Deve ter sido sua última gravação. Ele faz falta. Queixou-se quando ficou insuportável. Foi muito rápido. Sem espaço para bis. Um amigo, grande cantor, personalidade da cidade. Talvez tenha achado que a farra lá no céu precisava dele.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

HOMEM BOM

Não é que eu queira me meter na vida de ninguém. Cada um vive como quiser, é claro. Há quem nem pense nisso. O sujeito cresce, faz vestibular, se forma, casa, tem seu emprego, dois filhos, vai à missa aos domingos, ao futebol mais tarde e está tudo certo. Quando morrer, pode deixar a viúva com lugar para morar, algumas economias, dois filhos criados. Isso será seu legado? Lembrarão dele apenas como um cara bacana, ou houve alguma realização marcante de sua passagem por aqui? Ela nunca foi tão bonita e encontrou outro mais ou menos. Enquanto os bonitos brigavam entre si, eles eliminaram esse problema, namoraram e casaram. Ela, do lar. Quando perguntam como vai a vida ela diz que vai levando. Só. É suficiente? Qual foi sua marca, algo para lembrar aos outros daquilo que você foi? Eu me pego pensando nisso. Repito que não quero me meter na vida de ninguém, mas quais suas expectativas? O que te faz levantar nas manhãs e realizar alguma coisa realmente relevante, digamos, para a sociedade, para si próprio, algo em que acredite, mesmo que não acreditem em você? Algo pelo qual valha uma briga incessante, para chegar a um resultado. Eu já passei dos 60. Li no facebook que após os 50, devemos dar um break. Parar de pagar qualquer coisa para os outros. Sustentar filhos. Faltarão menos anos para o fim. Qual a razão para não aproveitar a vida, viajar, simplesmente não fazer nada? Mas o que terá feito até então? Já fiz algumas coisas. Trabalhando com Cultura, Rádio e Jornalismo, cheguei a alguns resultados que, olhando para trás, me agradam. Olho e percebo que há registros de minha passagem por aqui. Não sou bom em datas, teria problemas em localizar cada pequena vitória, para mim tão importante, nessa trajetória. Há quem leve uma vida apagada, meramente tranquila e, de repente, no clube, seja festejado por ser bom de futebol. Passa o dia completamente anônimo e à noite, no clube, transforma-se em herói. Todos querem estar no seu time, abraça-lo a cada gol. Depois, volta para sua obscuridade. Mas é feliz. Descobriu no esporte um caminho para a realização. Quando se for, não dirão que foi um grande economista, por exemplo, mas que jogava muito. É alguma coisa? Depende de cada um e sua expectativa. E é mesmo necessário fazer alguma coisa? Se não houver público, o que será do artista? Se não houver ciclistas, o que será do mecânico de oficinas? E o que se intitula O Rei dos Churrascos. Quem há de desmenti-lo? Tudo isso me leva ao início. O que ficará, depois de mim, nesse mundo? Hoje tudo é tão veloz, descobertas imediatas, um futuro que já chegou e talvez até já tenha ido. Na velocidade em que vivemos, o presente elimina o futuro a cada segundo que passa. O terrorista islâmico, além de ter à sua disposição mil virgens, terá seu nome lembrado pelos companheiros como um mártir. O que pode querer um carrasco a ser lembrado? Ou aquele matador, cheio de orgulho por tantos crimes. Em nossa bondade, após a morte, lembramos sempre os melhores momentos dos que se foram. Bem, às vezes há muito pouco a recordar. Meu pai ficava incomodado, a partir de uma certa idade, em ter visitas a velórios cada vez mais frequentes. Era uma geração que estava trocando. E ali, quase os mesmos, sempre, se entreolhavam e pensavam quem seria o próximo. E o que ficaria de sua trajetória? O que sei é que uma vez perguntei ao meu pai como queria ser lembrado e ele me disse: como um homem bom. Só isso importa. Pensei muito nesse conceito. Concordo. Às favas com as conquistas. Quero é ser um homem bom.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

OS JOGOS OLÍMPICOS

Até o momento em que escrevo, espero que as Olimpíadas no Rio de Janeiro decorram da melhor maneira. Um amigo, que chegou da Cidade Maravilhosa, me diz que apesar de todos os problemas, os benefícios para a cidade são sensacionais, sob o ponto de vista do transporte público e atrações para turistas. O chamado legado das Olimpíadas. E que chegando de volta a Belém, vem uma tristeza e consternação com nossa situação. Não sei quantas medalhas conquistamos, mas a cada uma delas, raras, as emissoras de televisão chamam os atletas de heróis, 
“a menina da comunidade tal”, e outros títulos buscando o emocional de suas vitórias. O pior é que se trata de heroísmo, sempre. Enquanto potencias mundiais usam o esporte como formação de bons cidadãos e principalmente, como força de propaganda, movimentando também milhões de dólares em patrocínios, nossos atletas - heróis – passam fome, têm dificuldade de transporte e treinam com aparelhos antiquados ou adaptados. Nunca vou entender a razão da falta de um apoio total, planejado, adequado ao esporte. Sei que há, aqui e ali, alguns patrocínios e por parte do governo, algum incentivo, pequeno. Qual a razão para não ser grande? Isso ao mesmo tempo em que ouvimos milhões sendo desviados na Lava Jato e outras. Há também o futebol, com meninos mimados, desde cedo elevados a craques, cheios de tatuagens, piercings, brincos, relógios de marca e carrões importados. Quando sofrem a vaia, olham perplexos, sem entender. Descarregamos nossas decepções de “gênios do futebol” em Neymar, grande jogador, mas que se deixa flagrar em farras e aviões particulares, o que é seu direito. Mas aqui no Brasil, o sucesso que às vezes não corresponde em campo a toda riqueza que ostenta, termina em vaia. E vem o olhar perplexo. Marta! Chega de queixas. Imaginem se os jogos fossem em Belém. Lançamento de disco seria com o mano Edgar Augusto. Às torcidas organizadas de Remo e Paysandu, deixo o lançamento de peso, tentando acertar os juízes. Imbatíveis. E o tiro ao alvo? Resisto em mencionar o candidato delegado. Corrida de obstáculos seria fácil com os pivetões do centro da cidade, correndo entre as barracas de camelôs, após arrancar cordões de senhoras desatentas. Ciclismo evitaria para começar comentar sobre pedaladas. Mas esses que sempre estão na contramão, desafiando taxis e ônibus são campeões por antecipação. Salto à distância poderia ser disputado na hora do rush, ali na Almirante Barroso, a caminho de Icoaraci e com a ameaça constante do BRT. Deixaria a ginástica olímpica para a galera do Treme, já homenageada na cerimônia de abertura. Nas lutas marciais, creio que nossas gangues seriam medalha de ouro. Na corrida dos cem metros, em que Usain Bolt é campeoníssimo, colocaríamos torcedores de Remo e Paysandu, após os jogos, fugindo das brigas e ameaças. Duvido que alguém chegue na frente. Acrescentaria outras práticas como prova de paciência, para nós que aguardamos ficarem prontas as obras da Prefeitura. Prova de resistência para os passageiros dos ônibus caindo aos pedaços, todos os dias na volta para casa. Prova de desperdício para todos os que deixam o lixo na rua, amontoando. Prova de agressividade para aquele Sectario de Cultura que conseguiu matar a Cultura no Pará e sequer conseguiu impor sua Ópera, mesmo gastando milhões. Prova de calor aos que se dirigem ao aeroporto, com taxas tão altas e sem ar refrigerado. E finalmente, prova de amor à cidade, que nos testaria individualmente. Dizemos que amamos Belém, mas nada fazemos para melhora-la. Sim, seriam jogos bem interessantes.