sexta-feira, 26 de agosto de 2016

QUERIDO

Walter Bandeira foi um querido. Talvez o tenha visto pela primeira vez cantando com Guilherme Coutinho na antiga boate “Tic Tac”. Mas foi na boate da Assembléia Paraense, primeiro aos domingos, depois aos sábados, que o tenho na lembrança. O hit “Curtição”, uma mistura de samba e balada, com Guilherme fazendo Cesar Camargo Mariano e ele fazendo Simonal. No entanto, para mim, funcionava “eu e eu, neste amor que só vive em mim, que nem mesmo pode morrer, sendo eterno na dor, de amar..”, romântica, fundo musical de meus sonhos de amor na adolescência. Sim, naquela época, dançávamos juntos, havia um pequeno intervalo preenchido com música mecânica e pasmem, tocava até “Whole Lotta of Love”, do Led Zeppelin. Naquela época, os gays já saíam do armário, primeiro como “engraçados”, aqueles que diziam gracinhas com um fundo de verdade. E Walter se colocou muito bem. Cantor preferido do soçaite, sua performance era cheia de gestos femininos e xistes na direção dos homens, ironias, tudo provocação. Ele vestia essa persona para dizer que estava ali por dinheiro e aproveitava a liberdade para dizer algumas verdades. Quanto a mim, gostava de conversar. Nos aproximamos na base da provocação. Satisfeito com as respostas, estendia os temas, discutia a evolução ou involução da cidade e seus costumes. Professor de dicção, foi um grande locutor e apesar de se tornar marca da Rádio Cultura, foi por mais tempo funcionário da Rádio Rauland. Nunca o vi atuando no Teatro, mas assistia a quase tudo o que era apresentado. Seu estilo pessoal era desleixado, na base do “se dependesse de mim, nào estaria aqui”. E fazia isso mesmo que a festa onde cantava fosse black tie. Todos diziam que devia seguir para o sul e tentar uma carreira nacional. Preferiu ficar. Produzi um show dele, parceria com o saudoso Eduardo Silva. “50 Caetanos”. Agora não lembro se o baiano fazia 50 ou ele. Depois, Eduardo o convenceu a fazer um show bem produzido, bem vestido, com orquestra, no Teatro da Paz, onde não fizesse as piadas e ironias de sempre. Escrevi no jornal que era um Walter “lobotomizado”.

Ele nem deu bola, mas Eduardo não gostou. Trabalhamos juntos produzindo a cantora Ana Cristina. A convivência era ótima, séria e com bom rendimento. Era descuidado. Adotou como idéia de vida. Bebida, cigarros, tudo o que não prestava para sua voz. Sem estranhos por perto era uma pessoa doce, inteligente, que gostava de conversar e era atento a tudo o que acontecia no mundo. Com outras pessoas, fazia o personagem. Pintava aquarelas lindas. Estava gravando um disco. Me disse que era pra fazer sucesso. Canções fáceis, na linha pop. Uma tarde, compus uma música. Na época, a italiana Cicciolina era política e sofria grande rejeição. “Eu to do lado da Cicciolina”, escrevi. Gravei demo. Enviei. Acho que não vai dar, disse. O repertório está pronto. Está bem, gravaremos como uma vinheta, tá? Tá. Que bom, foi a música que mais fez sucesso do disco. Gravou alguns jingles que compus, um deles, um tango para o lançamento do edifício Las Leñas. O tempo foi passando. O Cuíra achou de encenar um texto “Quando a sorte te solta um cisne na noite”. Compus umas músicas. Chamei Walter, Nilson Chaves e Marco Monteiro para gravar. Deve ter sido sua última gravação. Ele faz falta. Queixou-se quando ficou insuportável. Foi muito rápido. Sem espaço para bis. Um amigo, grande cantor, personalidade da cidade. Talvez tenha achado que a farra lá no céu precisava dele.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

HOMEM BOM

Não é que eu queira me meter na vida de ninguém. Cada um vive como quiser, é claro. Há quem nem pense nisso. O sujeito cresce, faz vestibular, se forma, casa, tem seu emprego, dois filhos, vai à missa aos domingos, ao futebol mais tarde e está tudo certo. Quando morrer, pode deixar a viúva com lugar para morar, algumas economias, dois filhos criados. Isso será seu legado? Lembrarão dele apenas como um cara bacana, ou houve alguma realização marcante de sua passagem por aqui? Ela nunca foi tão bonita e encontrou outro mais ou menos. Enquanto os bonitos brigavam entre si, eles eliminaram esse problema, namoraram e casaram. Ela, do lar. Quando perguntam como vai a vida ela diz que vai levando. Só. É suficiente? Qual foi sua marca, algo para lembrar aos outros daquilo que você foi? Eu me pego pensando nisso. Repito que não quero me meter na vida de ninguém, mas quais suas expectativas? O que te faz levantar nas manhãs e realizar alguma coisa realmente relevante, digamos, para a sociedade, para si próprio, algo em que acredite, mesmo que não acreditem em você? Algo pelo qual valha uma briga incessante, para chegar a um resultado. Eu já passei dos 60. Li no facebook que após os 50, devemos dar um break. Parar de pagar qualquer coisa para os outros. Sustentar filhos. Faltarão menos anos para o fim. Qual a razão para não aproveitar a vida, viajar, simplesmente não fazer nada? Mas o que terá feito até então? Já fiz algumas coisas. Trabalhando com Cultura, Rádio e Jornalismo, cheguei a alguns resultados que, olhando para trás, me agradam. Olho e percebo que há registros de minha passagem por aqui. Não sou bom em datas, teria problemas em localizar cada pequena vitória, para mim tão importante, nessa trajetória. Há quem leve uma vida apagada, meramente tranquila e, de repente, no clube, seja festejado por ser bom de futebol. Passa o dia completamente anônimo e à noite, no clube, transforma-se em herói. Todos querem estar no seu time, abraça-lo a cada gol. Depois, volta para sua obscuridade. Mas é feliz. Descobriu no esporte um caminho para a realização. Quando se for, não dirão que foi um grande economista, por exemplo, mas que jogava muito. É alguma coisa? Depende de cada um e sua expectativa. E é mesmo necessário fazer alguma coisa? Se não houver público, o que será do artista? Se não houver ciclistas, o que será do mecânico de oficinas? E o que se intitula O Rei dos Churrascos. Quem há de desmenti-lo? Tudo isso me leva ao início. O que ficará, depois de mim, nesse mundo? Hoje tudo é tão veloz, descobertas imediatas, um futuro que já chegou e talvez até já tenha ido. Na velocidade em que vivemos, o presente elimina o futuro a cada segundo que passa. O terrorista islâmico, além de ter à sua disposição mil virgens, terá seu nome lembrado pelos companheiros como um mártir. O que pode querer um carrasco a ser lembrado? Ou aquele matador, cheio de orgulho por tantos crimes. Em nossa bondade, após a morte, lembramos sempre os melhores momentos dos que se foram. Bem, às vezes há muito pouco a recordar. Meu pai ficava incomodado, a partir de uma certa idade, em ter visitas a velórios cada vez mais frequentes. Era uma geração que estava trocando. E ali, quase os mesmos, sempre, se entreolhavam e pensavam quem seria o próximo. E o que ficaria de sua trajetória? O que sei é que uma vez perguntei ao meu pai como queria ser lembrado e ele me disse: como um homem bom. Só isso importa. Pensei muito nesse conceito. Concordo. Às favas com as conquistas. Quero é ser um homem bom.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

OS JOGOS OLÍMPICOS

Até o momento em que escrevo, espero que as Olimpíadas no Rio de Janeiro decorram da melhor maneira. Um amigo, que chegou da Cidade Maravilhosa, me diz que apesar de todos os problemas, os benefícios para a cidade são sensacionais, sob o ponto de vista do transporte público e atrações para turistas. O chamado legado das Olimpíadas. E que chegando de volta a Belém, vem uma tristeza e consternação com nossa situação. Não sei quantas medalhas conquistamos, mas a cada uma delas, raras, as emissoras de televisão chamam os atletas de heróis, 
“a menina da comunidade tal”, e outros títulos buscando o emocional de suas vitórias. O pior é que se trata de heroísmo, sempre. Enquanto potencias mundiais usam o esporte como formação de bons cidadãos e principalmente, como força de propaganda, movimentando também milhões de dólares em patrocínios, nossos atletas - heróis – passam fome, têm dificuldade de transporte e treinam com aparelhos antiquados ou adaptados. Nunca vou entender a razão da falta de um apoio total, planejado, adequado ao esporte. Sei que há, aqui e ali, alguns patrocínios e por parte do governo, algum incentivo, pequeno. Qual a razão para não ser grande? Isso ao mesmo tempo em que ouvimos milhões sendo desviados na Lava Jato e outras. Há também o futebol, com meninos mimados, desde cedo elevados a craques, cheios de tatuagens, piercings, brincos, relógios de marca e carrões importados. Quando sofrem a vaia, olham perplexos, sem entender. Descarregamos nossas decepções de “gênios do futebol” em Neymar, grande jogador, mas que se deixa flagrar em farras e aviões particulares, o que é seu direito. Mas aqui no Brasil, o sucesso que às vezes não corresponde em campo a toda riqueza que ostenta, termina em vaia. E vem o olhar perplexo. Marta! Chega de queixas. Imaginem se os jogos fossem em Belém. Lançamento de disco seria com o mano Edgar Augusto. Às torcidas organizadas de Remo e Paysandu, deixo o lançamento de peso, tentando acertar os juízes. Imbatíveis. E o tiro ao alvo? Resisto em mencionar o candidato delegado. Corrida de obstáculos seria fácil com os pivetões do centro da cidade, correndo entre as barracas de camelôs, após arrancar cordões de senhoras desatentas. Ciclismo evitaria para começar comentar sobre pedaladas. Mas esses que sempre estão na contramão, desafiando taxis e ônibus são campeões por antecipação. Salto à distância poderia ser disputado na hora do rush, ali na Almirante Barroso, a caminho de Icoaraci e com a ameaça constante do BRT. Deixaria a ginástica olímpica para a galera do Treme, já homenageada na cerimônia de abertura. Nas lutas marciais, creio que nossas gangues seriam medalha de ouro. Na corrida dos cem metros, em que Usain Bolt é campeoníssimo, colocaríamos torcedores de Remo e Paysandu, após os jogos, fugindo das brigas e ameaças. Duvido que alguém chegue na frente. Acrescentaria outras práticas como prova de paciência, para nós que aguardamos ficarem prontas as obras da Prefeitura. Prova de resistência para os passageiros dos ônibus caindo aos pedaços, todos os dias na volta para casa. Prova de desperdício para todos os que deixam o lixo na rua, amontoando. Prova de agressividade para aquele Sectario de Cultura que conseguiu matar a Cultura no Pará e sequer conseguiu impor sua Ópera, mesmo gastando milhões. Prova de calor aos que se dirigem ao aeroporto, com taxas tão altas e sem ar refrigerado. E finalmente, prova de amor à cidade, que nos testaria individualmente. Dizemos que amamos Belém, mas nada fazemos para melhora-la. Sim, seriam jogos bem interessantes.

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

FESTA SURPRESA

Pois eu gostei de cara da Rosaly, a nova gerente. Talvez quase 40, elegante, rosto forte, olhar atento, se integrou rapidamente ao ambiente da agência, sem deixar de cobrar forte e assumir o comando. O pessoal comentava nas internas sua beleza. As meninas desdenhavam, mas não deixavam de concordar com sua simpatia. Foi em um happy hour,  num boteco próximo, que o Olinto disse que havia descoberto a data de aniversário da Rosaly. Era costume festejar essas datas e sempre aprontar alguma coisa engraçada. Servia para nos unir ainda mais. E o que faremos para Rosaly? Apesar de toda sua simpatia, nunca dera muito espaço para intimidades. Sabíamos que já fora casada e atualmente estava solteira. Dizia-se casada com o trabalho. Vamos fazer uma festa surpresa, em seu apartamento. Mas como entrar lá? A Graça, secretaria, disse que faria um molde da chave com um sabonete. Olha, ela pode não gostar. Isso é invasão de domicílio. Ah, não estraga, não complica. Quando acontecer a surpresa ela vai ficar é feliz. E depois, nós somos bem animados, né? Bom, não digam que não avisei. Fizeram uma cópia da chave. Coleta para o bolo, bebidas, salgadinhos, balões, enfim, tudo discretamente. Chegou o dia. Ela tinha uma reunião que ia durar até umas nove da noite, talvez. Que bom. Dá para aprontar tudo após o expediente. Difícil controlar a ansiedade. E lá fomos nós. A chave funcionou. Entramos. Todos estávamos excitados, rindo, arrumando, quando ouvimos um barulho. Gritos. Me soltem! Abram a porta! Socorro! As meninas gritaram de medo. Nós, temerosos, sem saber o que fazer. O Bob tomou a iniciativa. Abriu a porta. Dentro, uma menina cheia de marcas, hematomas e sangue, amarrada com correntes. Instrumentos cortantes, de tortura e fotos de gente sofrendo nas paredes. Recuamos assustados. A menina pedia para ser salva. Estava ali há dois meses sendo torturada por aquela sádica. As meninas choravam. Nem coragem para fotografar tivemos. Desamarramos. A menina não conseguia andar. Estava nua, abalada. Alguém providenciou um cobertor. Perguntávamos e ela não conseguia responder. Coitadinha, está em choque. E o que é que a gente faz? Chama a Polícia, as meninas disseram. Bem que eu sabia que ela tinha cara de sonsa. Sonsa? Ela é uma serial killer! Olha o risco que nós corremos! Não pode ser, deve haver algum engano. Ela é que nunca me enganou! Liga Alfredo, liga pra Polícia agora ou eu vou começar a gritar! Ligamos. Eles estão vindo. Talvez seja melhor ligar pro Samu socorrer a menina. Então ouvimos o barulho da chave na fechadura da porta. Veio aquele frio na barriga de todos. Uma das meninas correu para vomitar no banheiro. E a Rosaly entrou. O que significa isso? O que era para ser uma recepção festiva, virou, sei la o quê. Silêncio sepulcral. Ela olhava para nós. Nós olhávamos para ela. A Olga disse que era para ser uma festa surpresa, mas agora.. Então a Rosaly disse que era sim uma surpresa! Imediatamente a menina que estava em choque se levantou rindo e se abraçou com ela. Feliz aniversário! Ninguém respondia. Era tudo uma brincadeira, gente! Vocês armaram pra cima de mim, eu armei pra cima de vocês! Ei, gente, é tudo brincadeira. A Emília, aqui, é uma atriz. Vocês acreditaram? Dêem parabéns a ela! Parabéns nada, as meninas disseram. Você é uma louca. Vamos embora! Gente, vamos festejar.. Saíram todos para o corredor. O elevador chega e nele, uma equipe de policiais cheios de urgência. Olha, foi difícil explicar, ouvir a esculhambação por termos feito uma denúncia inexistente, enfim. Todos foram embora. Eu fiquei. A noite foi ótima com Rosaly e Emília.

sexta-feira, 29 de julho de 2016

A MÚSICA PREFERIDA DE SEUS ARTISTAS FAVORITOS

Certo, você tem seus cantores e músicos preferidos, mas quais as músicas deles que você considera perfeitas, as preferidas? É difícil, bem difícil e  as músicas e artistas que citarei, tenho certeza que me escaparão várias outras. É que escrevi algumas semanas atrás sobre “This guy’s in love”, com B.J.Thomas, que a amiga Yvonne Mello postou em seu facebook. Uma torrente de lembranças me veio. E olha que o B.J. nem é assim um tão preferido, meu, como Caetano Veloso, por exemplo, um dos heróis da minha geração. Dele, curiosamente, além de “Terra”, creio que minha música preferida é “Paisagem Útil”, a primeira que ele compôs pensando na Tropicália. A primeira pessoa a ouvir foi Paulinho da Viola, que também morava no chamado Solar da Fossa, na entrada de Copacabana. E de Paulinho? Mesmo com todas as outras, gosto de “Sinal Fechado”. E se há Caetano, há também Gilberto Gil, claro, genial, de quem adoro “Eu preciso aprender a só ser” ou mais especificamente a gravação de “Marginália II”, que ele regravou no recente trabalho em dupla com Caetano. Gosto da exclamação “Ah!”, depois de cantar “aqui é o fim do mundo”. Ela soa como um susto, talvez lamento em uma letra sensacional, melodia e a orquestração inacreditável de Rogério Duprat. Gosto de Roberto Carlos em “Detalhes”. Gosto de Chico Buarque também e dele, que absurdo escolher uma, sei lá, “Vitrines” é bem legal, “Joanna Francesa”, e em parceria com Edu Lobo, “Beatriz”. Gosto de Fagner cantando “Asa Partida”, de Belchior em “Como nossos pais”, de Luiz Melodia em “Pérola Negra” e de Gal Costa em “Dê um rolê”. Gosto de Maria Bethânia declamando Fernando Pessoa em “Rosa dos Ventos”. E dos internacionais que fizeram minha cabeça desde cedo? Dos Beatles, gosto de “It’s only love” entre centenas e “A day in life”. Dos Rolling Stones, “Connection” e “Brown Sugar” também entre tantas. Janis Joplin abriu minha cabeça para a emoção e dela adoro “Maybe”. E de Jimi Hendrix, meu grande herói? Curiosamente, gosto de sua interpretação de “Like a Rolling Stone” no Festival de Monterrey onde chega, desconhecido, afina a guitarra e assombra toda a plateia, além é claro “Little Wing”. Gosto de “Stairway to Heaven” com Led Zeppelin, gosto de “And You And I” do Yes, de “21st Century Schizoid Man” do King Crimson, a maior banda do mundo, de “Entangled” do Genesis, de Johnny Rivers cantando “It’s too late”, Mamas and the Papas em “I saw her again”, dos Monkees em “Pleasant Valley Sunday” e ia esquecendo, Bob Dylan em “Like a Rolling Stone. Dessa gravação, lembro de estar andando pelas ruas de San Francisco, procurando uma loja de discos, quando ouvi no walkman, tocando em uma rádio, a música. Sózinho, estrangeiro, como uma rolling stone naquele instante, ouvir aquilo foi especial. Gosto de Françoise Hardy em “Comment te dire adieu”. Gosto de Emerson, Lake & Palmer em “From the beginning”. Gosto do Black Sabbath em “Paranoid”, de Grace Jones em “La vie en rose”, de Donna Summer em “This time I know is for real”, Trammps em “Disco Inferno”, de Tim Maia em “Gostava tanto de você”. Considero especial “Lugar Nenhum”, dos Titãs. Como é incrível a lembrança sensitiva que a música nos proporciona. Estava em Paris e ouvi em dois dias diferentes, ao entrar em uma loja, tocar “Lovefool” dos Cardigans, que nem é minha preferida. Ficou sendo. A lembrança. Puxa, faltou tanta coisa. Faltou jazz! Me deu vontade de lembrar com vocês, a quem sugiro também a mesma coisa.

sexta-feira, 22 de julho de 2016

O OUTRO LADO DO MURO

Acabo de ler um livro de título extenso:  “O outro lado do muro – ladrões, humildes, vacilões e bandidões nas prisões paulistas”, de autoria de Silvio Cavalcante e Osvaldo Valente, impresso em 2013 pela gráfica do Diário Oficial do Estado do Pará. Boa impressão, diga-se, embora o papel utilizado para capa seja muito ruim. Não sei onde esteve à venda, mas parece que o adquiri na livraria da Loja Visão. Silvio é o principal protagonista em um período terrível para sua vida. No começo dos anos 90, século passado, estava em São Paulo fazendo um curso de computação, ele que já era formado em Análise de Dados e compraria produtos para uma empresa que levaria adiante com um sócio que ficara em Belém. Hospedado em uma pensão, tal como um irmão que morava em SP, perdera ou tivera a carteira roubada, tendo saído para fazer o tal “BO”. Caminhando pelo centro, sentiu uma fisgada na perna. Tinha sofrido um tiro, não sabia de onde ou quem havia atirado. Procurou uma farmácia, os atendentes pareciam assustados. Chamou dois PMs e pediu socorro. Estes, imediatamente o prenderam como suspeito de um assalto que havia ocorrido instantes atrás, ali perto. Daí em diante, uma via crucis aterrorizante acontece. Ele é levado para um Distrito onde sofre torturas para confessar o que não podia. Consegue falar com um irmão que arranja um advogado sugerido por amigos. Nesse ínterim, é identificado por uma das vítimas do assalto, como participante. Pior, um menor de idade que verdadeiramente estivera no crime, torturado, garantiu que Silvio era cúmplice. Seu argumento que era de Belém e estava na cidade para fazer um curso não convencia ninguém. Pior, sem documentos. Com ferimento na perna e espancado, ele se vê de Distrito em Distrito até ser remetido para a lendária Casa da Detenção, convivendo com a escória humana e todas as pressões que se pode imaginar, durante sete meses, até finalmente ser libertado. Tudo isso é narrado em pouco mais de 400 páginas que calam fundo em quem as lê. A organização interna dos presos, a maneira de proceder, os riscos, ameaças, agressões. É um mundo inteiramente diferente daqui de fora, com regras próprias. Por isso, o subtítulo ladrões, humildes (os que não tinham dinheiro, família e até os que eram inocentes, mas presos), vacilões (haviam cometido erros em suas prisões e eram escravizados pelos outros detentos, inclusive sexualmente) e os bandidões, estes com longas penas, responsáveis pela vida ou morte dos outros. Há também estupradores, os quais, tinham raspados todos os pelos do corpo e eram humilhados diariamente. Uso o verbo no passado porque o presídio foi demolido.

Não entendo do assunto. Como qualquer outra pessoa, quero todos os bandidos presos, mas com a idéia de um plano profissional, técnico, para sua ressocialização, o que é brincadeira, comparado à realidade. Se isso acontece em SP, imaginem em Belém. Silvio, muitas vezes relata o olhar perdido de alguns, amassados pelo stress e falta de porvir dos presos. O comércio interno. A corrupção desenfreada. Os crimes. As desconfianças. Palavras que mal interpretadas significam vida ou morte. Há os que nem pensam em se regenerar. O que fazer com esses assassinos? Não sei. E quanto aos que erram, por motivos humanos, diversos? Impossível retornarem incólumes, física e psicologicamente. Lastimo também que este livro não tenha tido o destaque que merecia ao ser lançado. Apresenta uma discussão excelente sobre o assunto. Sugiro que o procurem. Uma leitura definitivamente impactante.

sexta-feira, 15 de julho de 2016

UMA NOITE NO SÉCULO PASSADO

Vocês não sabem o que é ter entre 14 e 15 anos, final da década de 60, século passado, em uma boate no Mosqueiro, Netuno Iate Clube, e depois de algumas músicas para dançar “solto”, ouvir os primeiros acordes de “This guy’s in love with you”, com B.J. Thomas. A luz negra está ligada, lá fora as ondas de maré alta batem no muro de arrebentação. É mês de julho, verão total. A pista que estava lotada, em um momento, esvazia e enche novamente de jovens com o rosto e as costas ardendo do sol que pegaram nas praias. Você olha para o outro lado do salão e vê a garota dos seus sonhos finalmente sentada na mesa, com seus pais e irmãs e considera se, finalmente, terá a coragem de ir até lá e com o olhar firme, convidá-la para dançar. Você ensaia mentalmente a cena. Passara os outros dias pensando nisso. Tomara algumas doses de cuba libre para descontrair. É agora, você decide. Sai do balcão do bar cheio de certezas e principalmente, dos sonhos de um adolescente ingênuo e apaixonado. E quando vai chegando, tremendo de emoção, vê aquele rapaz mais velho, mais seguro de si, chegar até ela, cumprimentar seus pais e leva-la para a pista. Você se sente entre o derrotado e um certo alívio pelo medo que sentia dela dizer não. Fica para outra vez. Outros sonhos. Vê-la, no dia seguinte, na praia, olho comprido e ela, talvez, continuando a conversa com aquele rival repentino e cruel. Ou não. Você chega, voz trêmula, dá boa noite aos pais e a convida para dançar. Ela aceita. Você a leva para a pista. Passa o braço. Sente aquele corpo de menina se juntando ao seu. O perfume, o cabelo que teima em entrar no seu olho. É pura mágica. Você balbucia algumas palavras, tipo “adoro essa música. Você também gosta?” Ela sorri apenas e diz que também gosta. E aos poucos, o corpo chega mais próximo, o que chamavam, antes, “colar” e agora você percebe sua respiração forte e imagina que deve dizer alguma coisa, quem sabe, “quer namorar comigo?”. Meu Deus, isso seria de uma audácia incrível. Talvez fosse melhor, ao final da música, conversar um pouco. Seus pais deixariam? Eles conhecem sua família, pode ser que sim. Todo esse tsunami de pensamentos cruzam a cabeça desse adolescente ingênuo e apaixonado. Acabou a música, e os Bee Gees são ouvidos com “I started a joke”. Incrivelmente ela não pede para parar de dançar. Continuam ali, rosto com rosto e até mesmo outros sinais que o corpo apresenta você ignora. O mais importante é sentir aquele corpo colado ao seu, a música, o lugar, o sonho. Os pais fazem um sinal e ela se descola e diz que precisa ir. Você pergunta se pode conversar com ela, no dia seguinte, na praia. Ela diz que sim e lhe dá um beijo no rosto, que fica em chamas. Você se despede, fica zanzando pela boate completamente tonto e sem palavras. Os amigos zoam e você nem dá bola. Vai para casa e não consegue dormir. Relembra, ponto por ponto, o que se passou. Você era uma criança até ontem e agora sente-se poderoso, orgulhoso da aceitação de uma menina. A coragem de convidá-la a dançar. E na manhã seguinte, você se encaminha para a praia, na direção da barraca da família e lá encontra o “gavião” de ontem e mais uns dois rapazes, por conta das irmãs de sua paixão. Você estaca, pensa se terá coragem de ir até lá e colocar-se em cena. Olha para si, para o rival, mais encorpado, cheio de gás e já não sabe o que fazer. E então, dezenas de anos mais tarde, outro século, você ouve “This guy’s in love with you”, com B.J. Thomas e toda uma época feliz e romântica, volta à lembrança.