sexta-feira, 1 de dezembro de 2017
TENHO UM MEDO DE MORTE DA VIDA
Caetano
Veloso, na letra que fez para a melodia de Beto Guedes, diz “o medo de amar é o
medo de ser livre”. Concordo, mas gostaria de emendar e dizer “o medo de viver
é o medo de ser livre”. Isso me ocorreu após assistir a um filme onde a
mocinha, que desafiara a família conservadora, morreu de Aids. Já não sou mais
criança e posso dizer que até agora, vivi sem medo da vida. Fui educado para
fazer o que quisesse e respondesse por isso. Mesmo assim, ainda demorei um
tanto para encontrar meu caminho. Hoje, olho para trás, contemplo as minhas
peripécias, minhas aventuras, desafios, vitórias e derrotas e fico satisfeito.
Talvez quisesse fazer um pouco mais ainda. E penso em dizer aos meus filhos,
que sejam amigos, protejam-se uns aos outros para que possam viver e ser
livres. Sejam amigos. Sejam bons. Ao longo do tempo, vi garotos, nem bem com 16
anos e já preocupados, sem viver a melhor fase da vida, estudando para se
formar com 22 anos. E vão se matar de trabalhar, porque realmente nada está
fácil, mas esqueceram de viver. Ganham dinheiro, compram carros gigantescos,
apartamentos, viajam para Miami, tudo de maneira sôfrega, como quem quer
compensar um tempo não vivido plenamente. Gente rica e infeliz na profissão. Um
médico que gostaria de ter sido filósofo, engenheiro que gostaria de ter sido
músico. Ao contrário, conheço médicos que apenas são felizes em seus
consultórios ou salas de cirurgia, onde seu mundo está perfeito, com os
aparelhos e sua técnica. Aqui fora, a vida é muito complicada. Há outra música
que lembro, diz “de vez em quando me vou a algum lugar”. Sim, precisamos
respirar. Ouso dizer, que mesmo a imensa quantidade de brasileiros que enfrenta
terríveis dificuldades para viver, no dia a dia, também precisa respirar. E
assim, afogueados de tanta luta, não há onde desabafar, dar um tempo, viver
para ser livre. Os compromissos nos prendem como grilhões. A sociedade cobra
comportamentos, atitudes. Engolimos e cumprimos o papel que já está escrito.
Não sou expert, tampouco pesquisei em livros, inclusive de auto ajuda, para
escrever isso. Convivi com minhas dúvidas, lutei, trabalhei incessantemente,
mas vivi e consegui ser livre. Esse caminho encontrei na arte. Fiz música,
escrevi peças de teatro, livros. Em todos esses gêneros, apresentei meu
trabalho ao público, me expus. Fui e sou livre. Conheci e frequentei grupos de
pessoas dos mais diferentes comportamentos e opiniões. Hoje, posso dizer que
não pertenço a nenhum grupo específico, mas a todos eles. De cada um, tiro o melhor
para a minha liberdade de espírito e pensamento. Procuro contribuir não com
críticas, mas com argumentos na direção daquilo em que acredito. Sou
imperfeito, erro muito, como todos nós, mas a idade me deu a condição de
refletir a respeito de meus atos. Por isso, neste instante, escrevo como diriam
“ao sabor da pena” ou “ao sabor dos dedos nas teclas”, que nosso principal
compromisso deve ser este, de viver para ser livres. E de vez em quando escapo
para Mosqueiro, Farol e ali reencontro uma vida inteira, no cenário, em todas
as pessoas que ali estavam na minha infância/adolescência. Olho para o nada e
as vejo na praia, jogando futebol, empinando papagaios, dançando no Netuno Iate
Club e namorando. Fico no Hotel Farol e aproveito para respirar, desanuviar,
lembrar, contemplar e sorver um tempo sem tempo para nada a não ser viver o
dia, carpe diem, naquele vento que despenteia e o sol que se põe tendo a Ilha
dos Amores como moldura. Como é bom!
sexta-feira, 24 de novembro de 2017
A OUTRA IRMÃ
Sempre
fui fã de Saulo Sisnando, desde as primeiras peças, lá no Teatro Cuíra, onde
ainda tateava uma linguagem que agora está sólida e pronta. Talvez por ser tão
urbano quanto eu, ou pela influencia clara dos filmes em p&b, da década de
40, das grandes estrelas de Hollywood. Gosto do humor de seus textos, sutil,
ferino, elegante. Não tem medo do melodrama e até do efeito engraçado que gera,
quando misturado a tentativas do gênero “Terror”. Saulo já surgiu dentro da
escuridão cultural em que vivemos há mais de vinte anos. Por isso, acho, o nome
de seu grupo é “Teatro de Apartamento”, pois é lá que ensaia, com sua turma,
seus espetáculos. Já foi encenado com sucesso no Rio de Janeiro e suas series,
filmadas e postadas no Facebook também são ótimas, corajosas, ousadas. Eu
próprio já escrevi um texto, que se juntou a outros dois em uma peça. A parceria com a Casa Cuíra já
estava anunciada há tempos. Logo que a Casa foi aberta, ali na Cidade Velha,
Dr. Malcher 287, conversamos a respeito de um texto que iniciaria com um
personagem entrando na casa e caindo, ensanguentado, em frente à platéia.
Crime, assassinato, mistério. Ele se encantou. Quando voltou, já foi com um
texto que reúne todas essas possibilidades. É preciso pensar na Casa. Em seus
espaços. Até pode ter um palco italiano, mas pode muito mais. Salas amplas, pé
direito alto, tábuas compridas, um mundo de possibilidades. Chamaram Patrícia
Gondim, Grazi Ribeiro, Alexandre Baena, Dani Cascaes, Maria Luiza Marillac e
Gisele Guedes e a coisa foi tomando forma. Junta, como somente o Teatro é capaz
de juntar, generosamente, gerações diferentes de atores. Olinda Charone, Zê
Charone e Sônia Alão, contracenam com Leoci Medeiros, Leonardo Moraes, Flávio
Ramos, Pauli Banhos e o resultado é maravilhoso. Tem ator fazendo personagem feminino
e vice versa. Tem ator fazendo dois personagens. Tem trecho filmado, projetado
na parede da casa. Saulo, que adora Agatha Christie, foi influenciado pelo
livro “O Caso dos Dez Negrinhos”. Saiu um texto de mistério, vingança, ciúme,
crime e ambição. A famosa escritora de livros de terror, Elizabeth Wilcox, há
muitos anos vive enfurnada em uma mansão à beira mar, próxima a Los Angeles. Tem
a companhia de alguém, muito misteriosa, criada e tratada como serviçal, mas
que ainda poderá herdar toda a fortuna da escritora. Mas há mais mistério
envolvendo a morte de uma das filhas, o nascimento de duas netas, playboys e
caçadores de dotes ambiciosos. Convidada, essa malta estará presente em um
fatídico final de semana, com Wilcox. É claro que contracenar com duas atrizes
famosas na cidade, deixou inicialmente nervosos Leoci Medeiros e Leonardo
Moraes. Mas a troca de energias, o tal famoso processo que permeia toda montagem
teatral, fez com que o elenco formasse novamente o que chamamos de “família do
teatro”. Ali, todos ficam tão unidos, confidentes, que às vezes os colegas
sabem mais de suas vidas do que a própria família. E no entanto, após a
temporada, provavelmente vão se separar, seguindo para novos compromissos, “novas
famílias”, em outras montagens. “A Outra Irmã” é, principalmente, mais um grito
do teatro paraense, que mesmo com toda a maquina trabalhando contra, continua e
se mostrar. O show não pode parar. Os espetáculos são em Casas, como a Casa
Cuíra. São em praças, até em ônibus, com foi recentemente em “Auto do Coração.
Não temos acesso aos palcos da cidade, destinados a qualquer coisa que não
artistas paraenses. Ano que vem está chegando. Amanhã vai ser outro dia.
Enquanto isso, te convido a assistir “A Outra Irmã” e garanto diversão e
entretenimento. Sobretudo, a mágica ali, na sua frente, à distância do tato. O
Teatro.
sexta-feira, 17 de novembro de 2017
O LUGAR DA EMOÇÃO
Estava
ouvindo o último cd de Guinga, com o Quarteto Carlos Gomes e devaneando,
pensando na emoção que seria ouvir músicas de minha autoria, a maioria trilhas
de teatro, por um quarteto de cordas. Uma de minhas melhores recordações foi
assistir, no Teatro da Paz, Nilson Chaves e Vital Lima, cantando e sendo
acompanhados por uma orquestra. A casa de meus pais sempre esteve envolta em
música. Havia discos em 78rpm e ouvíamos algumas árias lindas e inesquecíveis.
Adiante, apaixonado pelo tal rock progressivo, após Emerson, Lake & Palmer
gravar “Quadros de uma Exposição”, de Mussorgsky, corri para ouvir o original.
Fui atrás de “A Sagração da Primavera”, de Stravinsky, após o Yes abrir seus
concertos com um trecho.
Não
queria ser David Gilmour, que inventou e gravou o solo de “Comfortably Numb”,
clássico do Pink Floyd em “The Wall”, mas queria ser o guitarrista trazido por
Roger Waters, que assisti em São Paulo. Do alto de um cenário onde estava o
“muro”, ele sola deliciosamente, apaixonadamente para profunda emoção de todos
os que ouvem e assistem. A construção da cena é perfeita e atinge nossos
corações. Me pergunto a respeito da emoção pessoal desse músico, que executa
com maestria, várias vezes, nos shows realizados, o tal solo. Lá em cima,
sentindo o vento da noite, iluminado por potentes holofotes e tendo abaixo uma
multidão emocionada, será que ele sente arrepios ou apenas executa
profissionalmente, com precisão? Uma vez, em NY, assistia ao musical “Tommy”,
na primeira fila. Dava para ver, no fosso, os músicos da orquestra. Entre eles,
uma violinista, que lia um livro, até aguardar seu momento de tocar, o que
fazia perfeitamente. Qual o distanciamento ideal para o artista, porque sem
emoção, tudo vira automático e o público, mesmo sem perceber, sentirá. Um ator,
muitas vezes, durante a peça que interpreta, “assiste” ao público. Sabe quem
está dormindo, bocejando, conversando. Mas são momentos em que sabe que pode
fazer isso. Sabe dosar. Quando vem aquele momento em que é necessária a emoção,
ele tem técnicas para buscar dentro de si a motivação que encantará a plateia.
Não sou músico. Se estivesse no alto do cenário de “The Wall”, aguardando para
solar “Comfortably Numb”, provavelmente cairia lá de cima, as pernas tremendo,
o coração pulsando, os olhos lagrimando de emoção. E o músico? Tanto no show
quanto na peça de teatro, repetem as mesmas notas e textos, mas cada noite,
cada show, é diferente. Somos humanos. Temos motivações diárias e particulares.
O público também vibra diferente, em conjunto. Dizem que a plateia de sexta é
curiosa, a de sábado é crítica e a de domingo é ótima. Eu fazia sonoplastia em
“Toda minha vida por ti”, do Cuíra, dirigida por Cacá Carvalho. Havia o que
chamamos de “golpe teatral”. Magistralmente, ele preparou uma cena intensamente
hilariante, seguida de outra, profundamente emotiva. Trabalhamos em conjunto.
Atores, iluminação e som. Naquele instante, tal como no show de Nilson Chaves,
no TP, lembrei de meu pai, que havia morrido há pouco tempo e me emocionei. No
palco, um dos atores, por exemplo, dizia palavras bonitas, mas objetivamente,
para ele, sem que o público soubesse, estava repetindo uma cena pessoal e
emotiva, de sua vida. Assim, havia organicidade em sua fala. A plateia que ria,
agora chorava. Onde colocar a emoção? Pensei nisso e resolvi dividir com vocês.
sexta-feira, 10 de novembro de 2017
FEIOS, RUINS, CAFONAS E POBRES
Fui assistir “A Mulher de Bath”, com
Maitê Proença, dirigida por Amir Haddad, semana passada, no Teatro da Paz.
Apenas a plateia e uma ou duas frisas ocupadas. Direção correta, atriz
esplêndida, usando de todos os seus recursos, sobre um texto literário, em
versos, longo e difícil. Que memória! Mas exatamente por ser mais literário,
não funciona como teatro, mesmo com tanta gente boa. E nosso público de TP,
hoje, ou vai para ver o galã da Globo ou para rir. Houve discretas risadas,
mais pela ansiedade em rir do que pelo texto. Fiquei ali pensando em quantas
vezes esteve ali uma peça de minha autoria, com teatro lotado. Já em minha
estréia com “Foi Boto, Sinhá”, depois com “Angelim, o outro lado da Cabanagem”
e, finalmente, com “Convite de Casamento”, esta última já dentro do período negro
que atravessamos há mais de vinte anos. Fomos recebidos pela direção com alguma
ironia. Quando topamos pagar o preço por noite, risinhos sem graça. Menos dos
funcionários que pareciam torcer por nós. Pois lotamos o final de semana. Uma
peça paraense. Muitos vinham perguntar se éramos de fora ou daqui, mesmo.
Imaginem. Naquele mesmo domingo, nos jornais, uma pesquisa sobre as
preferências culturais do povo paraense. Que bom que a Literatura apareceu mais
ou menos. Mas o Teatro, no rabo da fila. É claro que o Teatro sempre esteve em
crise. Mas eu lotava o Teatro da Paz, como fiz no Schivazappa, Líbero Luxardo e
quem mais se apresentou. No decorrer desses anos todos, a concorrência aumentou
muito em atrações artísticas. A música, se resolverem ligar os aparelhos na
hora e se apresentar em improviso, conseguem. O Teatro é mais artesanal, mas é
a base de tudo. Infelizmente, o povo paraense foi apartado do Teatro. Hoje,
vamos ao TP para assistir espetáculos por artistas globais e principalmente,
comédia. “Se não é comédia, não vou. De problemas, já bastam os meus”, pareço
estar ouvindo. E o funcionário público incompetente, que há mais de vinte anos
destrói nossa Cultura, considera que somos feios, ruins, cafonas, pobres,
enfim. Incapazes de pisar no TP. Essa é boa. Mas hoje, realmente não dá. Não
porque não tenhamos condições, ou sejamos feios, ruins, cafonas, mas pobres,
certamente. O preço do aluguel é alto. E sem global no elenco... Mas o Teatro
não morreu. Estamos em locais alternativos. Saulo Sisnando, um dos ótimos novos
autores está ensaiando um espetáculo para estrear no fim do mês, na Casa Cuíra,
chamado “A Outra Irmã”, excelente. Será que lhe fará levantar da poltrona em
casa, sair da novela das nove, ou dez, botar uma roupa e ir assistir? Ou também
acha que somos feios, pobres, ruins e cafonas?
LES VALSEUSES
Maiween Le Nedellec, diretora da
Aliança Francesa, matou a charada que perseguia há anos, querendo saber o
título de um filme que aqui se chamava “Loucos de Amor”. Eu o assisti no Cinema
1, creio, anos 70, quando tudo era possível. Gerard Depardieu cabeludo,
magérrimo e Patrick Dewaere, lindos, em uma corrida louca por Paris e
arredores, como um easy rider francês, dirigidos por Bertrand Blier e música de
Stephane Grapelli, ainda com participações de Miou Miou, Jeanne Moreau e
Isabelle Ruppert. Que time! Hoje parece um tanto naïve, mas na época era tudo
de bom. Sair por aí, sem lenço, sem documento, sem hora para nada, sem lugar
para ficar, aproveitando a juventude, cometendo pequenos roubos, pequenos delitos
e rindo, rindo muito. Sim, eu sou da turma dos 70’s, que ajudou a revolucionar
o mundo em costumes. Aprecio a turma dos 80’s, sobretudo em Belém, na área do
Teatro. Grandes nomes, hoje, ainda, mas precisando, novamente, quebrar tudo e
mostrar uma direção para jovens de agora que me parecem acomodados, preferindo
estar na plateia do que no palco, fazendo o mundo girar.
sexta-feira, 3 de novembro de 2017
GIL ENGENDRA EM GIL ROUXINOL
Leio
no Estadão que Gilberto Gil vai lançar uma caixa contendo três gravações de
shows que realizou no começo dos anos 70, pouco depois de retornar do exílio na
Inglaterra, para onde foi “delicacamente” enviado pelos militares, no poder,
naquele tempo. No primeiro deles, Gil vem de guitarra elétrica em punho, um
band leader, cantando “Back in Bahia”. Ao contrário de Caetano Veloso, dedicado
ao violão, Gil gravou em inglês um álbum já com a guitarra e seguia o caminho.
Um grande momento. Meu herói de geração foi Caetano Veloso. Me identificava com
suas ações, cabelo grande, roupas coloridas e influencias musicais. Mas, sem
dúvida, Gil, além de ser ótimo, com uma voz maleável e perfeita, violão
certeiro, letras e músicas, foi mais atuante, sem dúvida. Mesmo nos primeiros
discos, antes da Tropicália, era Gil que arrebentava com “Roda”, que dizia “não
é obrigado a me ouvir, quem não quiser escutar”. Assumia posições. “Domingo no
Parque” era super incisiva, misturando guitarras, orquestrações sensacionais de
Rogério Duprat e viola. E no disco seguinte, havia “Coragem pra suportar” e,
principalmente, “Marginália 2”, esta, um primor de colagem, frases
emblemáticas, melodia e arranjo. No disco do movimento, lá estava Gil em
“Geléia Geral”, o grande hino. No movimento da “abertura política”, gravou a
versão de “No Woman no Cry”, cantada por todos. Eu me lembro de alguns shows
aqui em Belém. Lembro do “Momento 68”, maravilhoso happening, no Teatro da Paz,
misturando moda, teatro e música, patrocinado pela indústria Rhodia. Em outro
momento, bem ensaiado, Gil coçava a cabeça, ensejando algum comentário racista,
como se um macaco. Bingo, alguém se manifestava e ele abria o discurso,
pertinente toda a vida. Mas, tenho certeza, a delícia de Gil é cantar. Sua voz
se moldando a qualquer tipo de ritmo e harmonia. Alongava-se em improvisos.
Chamava a platéia a participar. Agora estão festejando 40 anos de “Refavela”
onde mergulhou ainda mais na cultura negra, provocado por uma viagem à Angola.
E depois veio “Refazenda”, que reputo, um de seus melhores momentos. Foi antes
ou depois dos “Doces Bárbaros”? E a prisão por porte de maconha? Ele se
mostrou, se apresentou, desafiou com argumentos, antenado com a mudança dos
costumes. Ali nos anos 80, voltou à guitarra, ao bandleader e houve “Palco”,
“Realce”, “Toda Menina Baiana”, e várias outras. E adiante, “Nos Barracos da
Cidade”, “O Eterno Deus Mudança”, “Extra”, sempre à frente de tudo, botando a
cara pra bater. Chegou a internet e ele fez o “Parabolicamará”. A experiência
política, veio junto com problemas na garganta. Adiante, nos rins. No começo do
ano que vem, mostra disco novo. De verdade, e talvez seja absurdo cobrar tanto,
caiu um tanto a potencia de sua produção musical. Exigentes, cruéis, ouvimos seus
novos trabalhos querendo a genialidade de sempre. Nos decepcionamos com a voz
rouca, sem grande alcance, não mais as evoluções vocais deslumbrantes, o grande
e orgulhoso vocalmente Gilberto Passos Gil Moreira. Seu par, Caetano, apesar de
manter a performance vocal excelente, também caiu em sua produção autoral.
Estão lá pelos 75 anos! E ainda exigimos a mesma genialidade, jovialidade e
agressividade de antes! Crueis, somos todos. Admito, sou cruel. Hoje, ao ler a
notícia no Estadão, fui ouvir “Domingo no Parque”, “Back in Bahia”, “Chuckberry
fields forever”, “Extra” e outras tantas maravilhas que ele compôs e gravou,
para o país inteiro ouvir, dançar e cantar. Aos mais jovens, sob todo o risco
de um tiroteio em favor das músicas atuais, minhas desculpas, mas a turma dos
anos 60 e 70 foi demais. Ainda está muito difícil chegar perto.
sexta-feira, 27 de outubro de 2017
NOS OLHOS, A LIBERDADE
Há alguns meses, a convite da professora Olga Silva, estive no prédio da Defensoria Pública para o lançamento do Projeto de Remição de Pena pela Leitura, uma parceria entre a Seduc, Defensoria Pública e Susipe. Fiquei fascinado. Lá mesmo, um coral formado por internas se apresentou. Doei alguns livros e também convidei meu amigo Salomão Laredo a fazê-lo.
Acredito no poder da leitura. Ela está na base da minha formação e tudo aquilo que conquistei. Um dos problemas mais sérios do nosso país - talvez o mais sério - é a falta de Educação, que faz com que várias gerações não se expressem corretamente, não consigam escrever sequer um bilhete e pior: não tenham capacidade de reflexão sobre seus problemas. Com isso, não conseguem bons postos de trabalho e, sem atividades, acabam, no pior caso, cometendo crimes.
Na sexta-feira passada, eu e Salomão, convidados, participamos, no Centro de Recuperação Feminino, do “1o Sarau Literário Flores, Sabores e Belezas do Meu Jardim”, onde fomos homenageados e nos emocionamos com tudo o que foi apresentado. O local é um belo jardim, com direito a lago para criação de peixes ornamentais, certamente onde as detentas podem “respirar” um ambiente diferente das celas que ocupam.
O projeto Remição de Pena pela Leitura garante a redução de quatro dias da pena por livro que for lido e feito resumo. Há outras iniciativas culturais como coral e balé, educação e panificação, por exemplo. A programação constou de apresentação do coral, seguido por balé, tendo como tema “Fênix” e, finalmente, uma entrevista, contato direto com as internas.
O primeiro detalhe que me impressionou foi na dança, realizada em um pedaço do jardim da melhor maneira possível, com plantas sendo pequenos obstáculos. A solista tinha nos olhos a Liberdade. Imagine-se, por um dia, horas que sejam, privada de sua liberdade, obrigada a conviver com outras pessoas que nunca viu. Deixar aqui fora filhos, mães, famílias e até companheiros - estes, infelizmente, em minoria. De mais de 500 detentas, apenas estão cadastrados uns 20 homens que fazem visita regularmente. Que pena!
A Cultura tudo pode. Ali, naquele palco improvisado, no belo jardim, driblando plantas, ela tinha em seus olhos a Liberdade. Assim como na Leitura ou no Canto. Quando estamos lendo, nossa mente vagueia, habita outros mundos, outras realidades, como um longo voo feliz e livre, absolutamente livre.
Outro detalhe que me impressionou muito foi o português correto empregado pelas detentas. Muitas vezes elas se expressaram de improviso e o que ouvimos foi o emprego correto das palavras, o que hoje raramente ocorre aqui fora. É claro que no dia a dia há muita tensão. Há a TPM das moças, quase todas com idades entre 18 e 22 anos, quase todas deixando os filhos lá fora, quase todas presas por tráfico. É o que lhes resta aqui fora, sem Educação, sem porvir, sem trabalho e o dinheiro do tráfico, parecendo fácil, dando sopa.
Para encerrar, apresentaram uma enorme colcha de retalhos. Cada uma apontou o seu retalho ali costurado e sua significação. E ainda houve roda de carimbó e degustação de pães fabricados internamente. Curioso, apesar de ser partícipe do projeto, a Seduc mandou apenas uma representante, a professora Idajane Monteverde. A Superintendência do Sistema Penal e a Defensoria Pública estavam presentes.
Como resultado, saibam que é muito pequeno o percentual de mulheres que retorna ao presídio. O que a Cultura não faz? O projeto está presente em outros presídios masculinos. Se você se interessar, procure a Seduc e doe livros. A ideia é muito boa.
sexta-feira, 20 de outubro de 2017
DEPOIS DO ÍRIOC, ACABOU O ANO
É
o que dizemos, aqui no Pará. O resto de outubro, novembro e dezembro vai num
piscar de olhos. O comércio já esta “dressado” de Natal, e os papais noel,
contratados, já já estarão sob aquele traje pesado, vermelho, o gorro, a barba,
distraindo crianças, cada vez menores, pois poucas ainda acreditam no “bom
velhinho”. Apesar da turma do tempo garantir que as chuvas só chegam em
janeiro, as tardes têm sido gris ou com chuva. Um ambiente natalino, para nós
que não temos neve. Comecei a usar, após muito tempo, esses fones de ouvido
para ouvir música, na rua. Sempre tive implicância. Parecem não se acomodar nas
minhas orelhas, causando desconforto. Esses agora estão bem melhores. E o som,
uma maravilha. Se já é inverno, se está gris e faltam poucos dias para 2018,
ouço Beatles, uma lembrança forte dos dias de infância e pré adolescência
quando, de férias escolares, passávamos as tardes de chuva ouvindo os caras de
Liverpool. Uma sensação maravilhosa, essa que a música nos apresenta, trazendo
de volta sentimentos tão puros. Caminho pelas ruas, até meu trabalho, na hora
do almoço, até o restaurante e o som que ouço é “hold me tight, let me be the
only one”, cantada por Paul McCartney. Antes, estive com meu neto, brincando de
carrinhos. Gosto de provocar as crianças, sua imaginação. O meu era uma moto,
dessas com o carrinho de passageiro ao lado. O dele, DJ, com som atrás,
felizmente sem funcionar, claro. Fiz de conta que o piloto da moto era ele e o
passageiro, seu primo. Vozes diferentes, passeios, corridas, festas onde ele,
como DJ tocava guitarra e piano. E ria, deliciado, quando o passageiro (seu
primo), caía no chão. “Levanta, cara”, “ele”, dizia ao primo. E ria. Será que
um dia lembrará disso? O fato é que sou apaixonado pelo Natal. Pelo clima,
pelas lembranças de família, a reunião com os irmãos, a distribuição dos
presentes. Já contei que acordei meu irmão menor de madrugada e ficamos
escondidos para mostrar a ele que eram papai e mamãe a deixar os presentes. Já
era a curiosidade que marca minha personalidade, falando alto. Do Papai Noel
que “descia de helicoptero” no alto do edifício e ia descendo, para deleite da
garotada, na Presidente Vargas, em ação da loja Salevy, do Tio Samuca. Em cada
andar, tomava um drink. O mais velho veio dizer, porque nós nos escondemos, com
medo, que Noel conhecia nosso pai. Pior, Papai Noel bebe! Ou da vez em que
troquei meu “papafilas” maravilhoso com o filho do caseiro, que me deu um
caminhão artesanal, em lata de querosene, com rodas de tampinhas de
refrigerante. Ah, meu pai e minha mãe! Ainda armo árvore de natal, embora passe
o dia e a noite na rua. Acho que representa a árvore da vida, luzes piscando,
enfeites, a árvore-família, uma história, um percurso gravado em minha alma, de
um tempo feliz. Hoje as pessoas parecem muito ocupadas. As crianças, também.
Nem ligo para quem diz que Natal virou consumo. Gosto de dar presentes. Me faz
bem. Mas não esqueço o Dono da festa. O significado da nova vida, do recomeço e
de seus ensinamentos. Sim, sou mais cristão do que católico, o que é bem
difícil. E gosto do Natal. À medida em que os anos passam, ficamos mais velhos,
filhos adultos, cada um com sua comemoração e sinceramente, ao final, mesmo
emocionado com as lembranças, sinto saudade daqueles tempos. É como se tivesse
o meu natal pessoal, a festa dentro do meu coração. Nós parecemos ter
dificuldade em ser felizes, mostrar felicidade, nos dias de hoje. Saí hoje de
casa, olhei para o prédio, lembrei do Noel descendo, lembrei de mim. Eu e as
minhas lembranças de datas felizes. E segui, falando com meus amigos da rua,
ouvindo “I wanna hold your hand”, murmurando e acertando o passo no ritmo.
Gente, depois do Círio, o ano acabou!
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