sexta-feira, 28 de abril de 2017
HOTEL FLORIDA
Após
ler “Hotel Florida”, de Amanda Vidal, Editora Objetiva, confesso ter ficado bem
impressionado. É um livro sobre a Guerra Civil na Espanha, que serviu como uma
introdução à Segunda Guerra Mundial. Muito bem documentado, o livro foca
principalmente em figuras ilustres que estiveram presentes, de alguma maneira,
divulgando tudo o que acontecia por lá. Em um momento tenso que todos vivemos,
com Putin, Trump, o garoto norte coreano, China, unidade da Europa, desmanche
total da esquerda na América do Sul, vale a pena ler. Também não sei porque até
hoje esse evento foi pouco utilizado seja pelo cinema ou livros, por tudo o que
o envolve. Poucos anos após a Primeira Guerra Mundial, após muitas pressões, o
Rei Afonso XIII deixa a Espanha e vai para o exílio e em seu lugar, surge a
Segunda República, de ideologia socialista, de alguma maneira ecoando os
acontecimentos de 1912, na Russia, com a deposição do czar e a chegada de
Lenin, Trotsky e Stalin ao poder. O novo governo espanhol inicia promovendo
mudanças sociais que agradam ao povo. Nem todos. A direita não se dá por
vencida e começa a reunir-se, principalmente com o general Jose Sanjuijo, para
dar um golpe. Agora percebam como estava o mundo. Além do comunismo na Russia,
Hitler assume a chancelaria da Alemanha em 1933. Dois anos depois, Benito
Mussolini, na Italia, vem com o fascismo e no mesmo ano, Stalin dá início ao
grande expurgo que o transformou em novo czar, embora o resto do mundo não se
desse conta disso. Pior, Estados Unidos, França e Inglaterra assinaram tratado
de não intervenção. Em 36, vem a revolta da direita, com apoio de alemães e
italianos, elegendo Franco como seu comandante político. Os socialistas do
governo mandam todo o ouro para a Russia, onde ficaria protegido.. Foi a última
guerra romântica, se é que se pode dizer isso, diante de uma mortandade
terrível, fome, frio e muitas outras dores para os civis. De todos os lados do
mundo, correram para defender o socialismo milhares de jovens, formando as
Brigadas Internacionais. E aí vêm as grandes figuras presentes. Entre
americanos, o escritor John dos Passos, sempre em litígio com Ernest Hemingway
e sua namorada Martha Gellhorn (seu romance virou um filme recente), Herbert
Matthews, correspondente do NY Times, Maxwell Perkins, editor de Hemingway,
Scott FitzGerald e também em filme recente. Entre os ingleses, um certo Eric
Blair, cognome de George Orwell. As peripécias são por conta do húngaro Andre
Friedmann e sua namorada Gerta Pohorylle, que sem conseguir publicar suas
fotos, mudaram seus nomes para Robert Capa e Gerda Tow e ficaram para a
história. Um grande amor. Outra história, a dos austríacos Ilsa Kulcson e
Leopold, marido e mulher, ela tornando-se figura de proa dos nacionalistas ao
lado de seu novo amor, Arturo Barsa, secretario de imprensa, ele, Leopold,
virando agente duplo. Querem saber, até Saint Exupery esteve em Madri para ver
o que acontecia. Andre Gide foi à Russia, escreveu um livro dizendo umas
verdades e poucos quiserem acreditar. Entre bombas e tiros, reuniam-se, à noite,
no Hotel Florida para beber, jogar, namorar e conversar. Até um filme americano
estava sendo feito, com intervenções de Hemingway. Lilian Hellman devia ter
sido roteirista. Pablo Neruda, consul chileno, teve a casa destruída. Erroll
Flynn apareceu pedindo uma bebida. Lorca foi fuzilado. Guernica foi bombarbeada
por ordem do alemão Göering e Picasso mostrou sua obra no Pavilhão Espanhol na Exposição
Internacional em Paris. Ufa! Amor, sedução, ódio, mortes, romance, está tudo em
Hotel Florida.
sexta-feira, 21 de abril de 2017
OS ESPECIALISTAS
Costumo ler os artigos escritos pelo jornalista Helio Schwartsman na “Folha de São Paulo”. Um desses dias, escreveu sobre um livro chamado “The Death of Expertise”, de Tom Nichols, que trata de um assunto que muito me interessou. Lembrei de um amigo jovem, que após passar um desses feriados prolongados ouvindo a discografia do King Crimson, começou a discorrer sobre a banda. O KG é um conjunto de rock progressivo que brilhou na década de 1970, sendo considerado por alguns, como eu, a melhor banda de todos os tempos. Não se trata de ciúme, como se meu jovem amigo quisesse me tirar a expertise, porque foi ao iTunes, baixou a discografia e agora já sabe tudo. É que, por mais conhecimento que possa passar a internet, há outras coisas que penso importantes, na construção do conhecimento.
O livro de Tom Nichols é exatamente sobre isso. Meu cachorro está doente. Vou ao Google, pesquiso e quando chego no médico, passo a discutir com ele os sintomas e melhor tratamento. A internet seria a morte da especialização?
Há pouco tempo esteve em Belém ministrando uma oficina um diretor de teatro russo. Em uma entrevista, disse que em pouco tempo, as universidades fecharão as portas. Tudo estará no Google, na internet. Quem quiser saber, que estude. Frases como essa me fazem pensar. De início, parece ter muita razão, mas, após refletir, penso que esse conhecimento não é algo que possa ser, digamos, injetado em alguém em cursos de final de semana, ou em ampolas, sei lá. O conhecimento não vem apenas dessa informação, publicada e passada por outros.
O ser humano está sempre em progresso, principalmente quando jovem. Volto ao meu pobre exemplo, sobre a banda King Crimson. Era adolescente. Tempo do vinil. Há o tempo de ouvir, descobrir, ouvir novamente várias vezes. A vida que segue correndo. Os acontecimentos. O mundo à volta. A música maturando. E no ano seguinte, vem outro disco. Notamos o desenvolvimento, novos integrantes, outros sons. E assim por diante. E a Medicina, por exemplo? Como ser expert sem experiência dentro de consultório ou sala de operação? O conhecimento teórico está lá e certamente, em vídeos, quem sabe, projeções holográficas, o acompanhamento de operações. Mas será a mesma coisa que estar ali, verdadeiramente, tocando no paciente e, depois, maturando sobre o que aconteceu, recapitulando mentalmente, desenvolvendo sua expertise aos poucos?
Vi recentemente o filme sobre Elis Regina. Tinha a voz, mas nada mais sabia sobre o palco. O fantástico Lennie Dale a ajudou, mas diria que, anos depois, já casada com César Camargo Mariano, é que surgiu a verdadeira maior cantora do Brasil. A que sabia o que dizia a letra e a interpretava, mistura de técnica e emoção, domínio absoluto do palco. Aos poucos. A vida passando paralela com todos os seus acontecimentos.
Então você aprende na internet a cantar como Elis? A operar como um experiente neurocirurgião e tantas outras profissões? Sim, é um perigo que atravessamos no momento, esse momento que hoje muda a cada instante, proporcionando novidades, novas perguntas que precisamos saber responder. E como evitar que alguém, realmente curioso, vá à internet informar-se sobre tudo? Meu outro amigo tem oito anos de idade e pergunta tudo ao Google. O que é estupro? A máquina responde. O futuro chegou e já passou. Precisamos responder a essas questões. Informação nunca é demais, é verdade, mas o tempo de maturação da informação ainda é importante?
sexta-feira, 14 de abril de 2017
A TRAVESTRISTE
Quando
o mundo discute a questão da aceitação normal na sociedade dos trans e demais
siglas, penso que conheço o travesti mais triste, ou talvez nem seja isso e eu
apenas tenha criado um personagem a partir do pequeno contato que tive, e
também por vê-la nos arredores de meu prédio, a partir de sábado e às vezes
ainda no domingo. Pensei nela e resolvi escrever alguma coisa ao passar de
carro, domingo, meio da manhã, pela Riachuelo e encontrar Blake e ela,
discutindo. O Blake vocês conhecem, um moreno baixinho, meia idade, grisalho,
que certamente por conta de poliomielite na infância, tem duas pernas
prejudicadas. Por seu andar, o apelido deveria ser “Break”, por conta daquela
dança nos anos 90, talvez. Mas como a pronúncia fica difícil, acabou sendo Blake.
Como mantêm-se vivos esses personagens, confesso que não sei. Consumindo o que
consomem, não comendo o que deveriam comer, dormindo ao relento, sujeitos a
todas as intempéries, por muito menos eu já estaria em uma UTI. Mas estava
falando do, vamos chamar de “Travestriste”. Infelizmente não sei o nome dela.
Uma vez, estava andando, sábado, pela manhã, na Praça da República, com meu
golden Antonio e ela estava lá, lânguida, estirada em um dos bancos. Mexeu
comigo por dever de ofício. O rosto melado da noite, olhos vermelhos, cansados,
um bafo de bebida terrível, foi pelo costume. Ao agradecer e recusar, ela, como
todos os moradores da rua, pediu um cigarro. Aproveitei para perguntar se
trabalhava durante a semana, em um ofício, digamos, menos radical. Sou
cozinheiro em um restaurante próximo daqui. Só me monto no final de semana.
Penso que inicia sua história, seu filme, seu enredo, na sexta à noite.
Depila-se, faz maquiagem, unhas e sai, orgulhosa, certa de sua sedução. É agora
uma mulher magérrima e creio que esconde pernas finas em calças com boca de
sino. Sapatos de salto altíssimos. Uma camisa de manga comprida, colares,
brincos gigantescos e um enorme rabo de cavalo no aplique. Sai por aí, rondando
bares e inferninhos como um que dá a frente para o Boulevard e o fundo para a
Manoel Barata. Para meu próximo livro, vou visitar esse antro, claro. Aquele
centro da cidade é sua Broadway, o lugar onde desfila. Quando a vejo é sempre
no sábado, virada, como se diz de alguém que não dormiu. No sol quente das nove
da manhã, ela às vezes está jogada na calçada, guardando um mínimo de charme.
Em outras, lutando contra o cansaço, a bebida, a ressaca, faz gestos em direção
aos homens e motoristas que passam. Palavras doces, convites ao sexo, propostas.
Gestos estudados no espelho, super femininos, lânguidos, repito a palavra.
Quando a vi, no tal domingo, Blake a empurrou e ela deixou-se chocar com a
parede de uma casa, mas lá caiu em uma pose de foto, lembrei da expressão
“Strike a pose”. Ri. E no entanto seu olhar encerra uma tristeza imensa.
Tristeza de não viver plenamente sua feminilidade? Tristeza do mundo que vive,
ante seus sonhos de grandeza? Por saber que no dia seguinte estará de volta a
uma cozinha cheia de fumaça e cheiro de alho? O que pensa quando sai, toda
semana, montada, rebolando, pelas ruas escuras e perigosas do centro?
Essa
falta de tempo me impede de chegar próximo, mais uma vez, resistir à cantada de
hábito e perguntar por sua vida, suas crenças, seus amores. O que somos nessa
vida sem os nossos sonhos, nossos objetivos? O que nos faz, todos os dias,
levantar, tomar uma chuveirada e sair para o mundo? Penso que se dermos tudo o
que ela gostaria de ter, roupas, sonhos realizados, um amor, um mundo, ela nem
saberia o que fazer. É preciso cuidado com o que sonhamos. Ela estará lá, a
travestriste, neste final de semana, novamente.
sexta-feira, 7 de abril de 2017
QWERTY
Eu ia emburrado para o curso de
datilografia. Minha mãe me matriculara, prevendo (talvez) meu futuro como
jornalista. Foi uma das melhores ações em relação a mim. Também aprendi inglês
a partir dos oito anos. As pretinhas, como chamava as teclas o grande Millor
Fernandes, fazem parte da minha vida. Tenho até uma mania. Ao ouvir
determinadas palavras que me interessam, as escrevo com os dedos tocando a
palma das mãos. Tique nervoso, sei lá. Meu pai tinha uma portátil, Royal,
belíssima. Minha primeira máquina, penso que era uma de trabalho, negra,
difícil de domar. Depois, quando comecei a trabalhar em rádio, era mais
moderna, estrutura em plástico, onde desenvolvi a habilidade usando todos os
dedos. Lembro, redigindo o jornal Zeppelin, da velocidade que alcançava. Houve
a breve experiência com uma Facit, elétrica, mas que constantemente dava
problemas em imprimir o texto. Já era o tempo da fita de correção. Mas ainda
não era o fim do revisor de texto. Antes, riscávamos o erro, acrescentávamos às
laudas, comentários paralelos, enfim, um borrão. Então vieram as máquinas
elétricas com esfera redonda. Eram uma delícia de escrever. Lembro do meu irmão
Edgar e de meu pai Edyr escrevendo. O primeiro fez curso de datilografia, mas
meu pai, velocíssimo, usava apenas dois dedos de cada mão, um pouquinho do que
hoje é feito pela maioria, nos computadores. Então os PCs invadiram nossas
vidas. Millor reclamava do silêncio que agora havia nas redações, antes tão
barulhentas, com as máquinas manuais. O Jornal do Brasil lançou um manual.
Millor escreveu mais. Da vergonha de uma máquina nos corrigir a cada vez que
cometêssemos um erro. Naquele silêncio, ao ouvir o som, todos na redação
olhavam e ele ficava humilhado. Maldita máquina. Então me entregaram um
computador e o programa Carta Certa, ancestral do Word. Preguei acima da
máquina, a sequencia de botões necessárias para liga-lo. Havia também
AltControlDel. Era tudo muito difícil, diferente, o que hoje qualquer criança
faz. A leveza do toque, em comparação à violência das manuais. Outro mundo.
Vieram os notebooks, os padrões diferentes e hoje não conseguimos viver sem um
teclado, seja no relógio, celular, iPad e outros. Ao contrário de mim, os
jovens usam os dois polegares para teclar no celular, mais rapidamente. Sou da
geração do dedo indicador. E não é que acabo de ter uma grande surpresa? Algo
que nunca pensei que existisse. Estive na França e pensei em comprar um novo
notebook, com mais possibilidades. Em Toulouse, tarde de folga, circulei pelo
centro da cidade, tão bela. Dou de cara com uma revendedora da máquina
pretendida. Havia um ainda mais moderno. O rapaz cheio de orgulho, me
explicando. Comprei. Feliz, ansioso, retornei ao hotel para usar a novidade. Os
primeiros toques, ensinando a máquina a seu jeito, são com teclas indicadoras. Finalmente,
tentei escrever. Havia algo errado. As teclas fora de lugar. Como assim? Com
defeito? No preço que paguei? Voltei correndo. Todos ficaram loucos. Haviam
errado. Não me disseram. Na França, ao contrário de quase todo o mundo
ocidental, a posição das teclas é AZERTY e não QWERTY, como sempre trabalhei.
Pena, para conseguir um como queria, somente fazendo encomenda. Não havia
tempo. Devolvi o notebook. Pensamos às vezes saber de tudo, mas não. Há sempre
o que aprender no mundo. QWERTY e não AZERTY.
sexta-feira, 31 de março de 2017
BELÉM, A CIDADE QUE APODRECEU
Hoje
volto a um tema sobre o qual já escrevi. Mas é que há algumas semanas, voltando
de viagem, saudoso dos meus, das minhas coisas e da cidade, levei logo uma
bofetada ao trafegar em direção à minha casa. Talvez nunca Belém tenha estado
tão mal. Após duas administrações seguidas, uma delas (será que chegará ao
final?) mal iniciada. Após um Átila, rei dos hunos, passar pela Prefeitura,
temos outra figura que se destaca pela inação. Onde foi parar o dinheiro de
Belém? Faliu? Logo após a reeleição, discutida na Justiça que, ao que parece,
está docemente convencida a perdoar os erros, esperou-se pelas promessas. Nada
veio. As ruas estão esburacadas, sem sinalização, sem fiscalização, com fiscais
preocupados apenas em multar. Não há lei com um número de mortes, no centro e
na periferia, superior ao de guerras no Oriente Médio. Diariamente. Há poucos
dias, onze da noite, ouço cinco tiros na Riachuelo. Tá lá um corpo estendido no
chão. Convenientemente alguns minutos depois, uns dez carros de Polícia
chegaram para conferir. É a Polícia que está matando, sem uniforme e com a
aquiescência dos superiores? São os traficantes? O povo no meio disso. E balas
zumbem em nossos ouvidos. A falta de lei reflete nos mínimos deveres
civilizatórios. É a lei da selva. Faz-se o que quer. Penso que, de maneira
pensada, se alguém decidir sair nu e cometer toda a série de crimes, nada lhe
acontecerá, sequer aparecerá alguém reclamando. Lojas fecham. Camelôs se
instalam onde bem entendem. São avisados da alguma blitz. Está tudo dominado. O
governador sumiu. Se não há mais nada a fazer, qual a razão da reeleição?
Pergunto o mesmo ao prefeito. Em alguns bairros, a lei do silêncio e o toque de
recolher é decretado por outros poderes. E o que fazemos aqui? Tive várias
chances quando jovem, de ir embora. Boas tentações. Não fui. Devia ter ido? Sei
lá. Mas hoje, novamente, vem a vontade de “capar o gato”. Ir para outro país,
como Portugal. Estávamos em uma cidade estrangeira. Minha mulher sai e tem a
bolsa firmemente segura, braços cruzados até que, de repente, cai na risada e
deixa a bolsa em seu lugar normal. Não estamos em Belém. Claro, nenhum lugar é
um paraíso, mas aqui estamos longe, muito longe de ter qualquer segurança. Pior
para os jovens. O que há para eles? Nada. Os que escapam para São Paulo, por
exemplo, amargam longa procura por emprego. Um deles declarou : nos disseram
que bastava estudar muito para depois ter um emprego muito bom. Não é verdade.
Têm pós graduação e outros e conseguem emprego com nível de primeiro grau. Mas
ficar aqui? Vivendo no quarto, ligado na internet, tv a cabo, a garota que
dorme com ele e dependendo dos pais? E a galera da periferia? Muito pior. Universidades
soltam a cada semestre um sem número de próximos desempregados. Não há mercado
de trabalho. Talvez como camelô, tão adorados pelos prefeitos. Não produzimos
nada. Nossa elite passa finais de semana em Miami, pelo mundo, e não traz nada
para usar aqui. Vive em mansões de 50 andares, palácios, mas quando sai à rua,
pisa na lama. Esse BRT é um erro brutal, grandioso, que nunca ficará pronto.
Dane-se a cidade. Vêm aí novas eleições. Nova chance para, mais uma vez,
errarmos. E dizemos que amamos Belém? Ouvimos Fafá cantar a música do pai e da
tia Adalcinda e choramos. Devíamos era chorar de raiva. Ir para as ruas.
Quebrar tudo. Botar pra fora esses incompetentes. Esses caras têm sorte de
sermos um povo frouxo. Que pena, Belém. O último a sair, apague a luz, se já
não estiver cortada.
sexta-feira, 17 de março de 2017
A FEIRA DO SOM
Tive a sorte de dar o nome ao “Feira do Som”, programa que está completando 45 anos em atividade. Além disso, são 50 anos de profissão de Edgar Augusto, meu irmão mais velho. Quando um programa de rádio atinge essa longevidade, e na comemoração ganha páginas e colunas em jornal, além de programa em televisão, é porque realmente é importante.
Foi ali nos anos 1970. Havia várias sugestões. A minha foi acatada. Era uma época fantástica. A Cultura reagia maravilhosamente à ditadura e censura. Cinema, Artes Plásticas, Literatura, Teatro e Música viviam momentos incríveis. Os Beatles pararam. Hendrix e Janis morreram. Mas havia o rock progressivo e muita gente boa surgindo. Aqui tínhamos os baianos, Chico, Milton, pernambucanos como Alceu, mais Elba, Geraldo, Ramalho, cearenses como Fagner. Muita coisa boa. Talvez tenha uma inspiração no programa do Flávio Cavalcanti, que falava de música, embora de maneira tragicamente retrógada. Bem, havia Nelson Motta.
Edgar já era apresentador do “Cantinho dos Beatles”, com fã-clube e tudo. E também, um dos melhores narradores de futebol que ouvi, perdoem se sou totalmente suspeito. Havia também o “Sábado Gente Jovem”. E a “Feira do Som” inovando, ousando com as novidades, fazendo a cabeça de tanta gente, principalmente pela informação.
Veio a FM e o programa foi para a Rádio Cidade Morena. O estúdio era pequeno, como são hoje os estúdios onde o locutor também opera a mesa, põe músicas e comerciais. Tive a dádiva de dividir com ele o microfone. Ficava manobrando a mesa de som, enquanto ele, sentado no chão do estúdio, espalhava as notícias. Muita gente boa foi entrevistada ali e sentou no chão. Era tudo muito à vontade. Lembro de Nara Leão, que veio lançar o disco em que canta “Nasci para Bailar”, de Donato e Paulo André. Ela voltou com Roberto Menescal, cantando bossa nova. Lembro de Geraldinho Azevedo, Flávio Venturini, tanta gente...
Mas a rádio era comercial e o programa acabou por ocupar sua melhor posição na Rádio Cultura, da qual, permitam-me, Edgar já fazia parte desde a Cultura Ondas Tropicais, em uma equipe por mim montada. Com uma voz especial e vocabulário de “dia de semana”, ele usa várias técnicas para prender os ouvintes. As novidades a cada dia. A menção aos músicos presentes em cada música executada. O noticiário local, muito importante para os artistas da terra, criando inclusive apelidos que duram até hoje, como “Operário da Noite”, para Pedrinho Cavallero. Os bordões, repetidos diariamente, estão no pensamento dos ouvintes. Outra técnica de fidelização.
Se os artistas locais conseguem, nessas trevas em que vivemos há mais 20 anos, ainda existir, apresentar-se, alguns com carreira, gravando CDs e shows em outras cidades, a “Feira” tem parte nisso. Trata os estreantes e os veteranos da mesma maneira, sempre com uma palavra de alento e incentivo. Recebe-os no programa, que ainda tem seções fixas, em que premia os ouvintes e, claro, o “Cantinho dos Beatles”, para os empedernidos.
Todo esse tempo no ar e com um público de A a Z, em várias faixas etárias, faz esse programa um patrimônio cultural de uma cidade tão sofrida nessa área. Quanto a mim, mesmo à frente de uma emissora comercial, não deixo de ouvi-lo. Edgar é um ídolo. Irmãos, somos amigos. Forneço discos, notícias. O som do programa é o meu preferido, entre outros. Mais do que nunca, continuemos a ouvir, de segunda a sexta, “aqui fala o Edgar Augusto!”. Parabéns!
sexta-feira, 10 de março de 2017
PSSICA NA FRANÇA
A Literatura,
mais uma vez, me levou a lugares bem distantes e melhor ainda, ao encontro de
pessoas interessadas naquilo que escrevo. Em todos os lugares onde passei,
havia mais que curiosidade. Antes do encontro, todos fizeram seu “trabalho de
casa”, lendo, pesquisando. Meu livro mais recente, “Pssica”, foi lançado na
França. É o quarto romance editado por lá, pela querida Asphalte Editions,
comandada pelas adoráveis Estelle e Claire, que além de profissionais
competentes, são apaixonadas por seu ofício, criando verdadeiros objetos de
arte. E traduzido pelo genial Diniz Galhos. A convite do amigo Pierre-Michel
Pranville, grande tradutor, amante do que eles chamam de “Polar” e professor, e
da professora Brigitte Thiérion, especializada em Estudos Lusófonos, da
Université Sorbonne Nouvelle, Paris 3, fui recebido por um grande grupo de
estudantes de nível adiantado para falar sobre minha Literatura e demais
aspectos. É realmente algo a deixar qualquer um emocionado e orgulhoso. Depois,
fui à Livraria Le Comptois de Mots para apresentar “Pssica” aos leitores e
perceber seu interesse pelos escritores brasileiros. Adiante, estive também em
Toulouse, ampliando mais ainda o conhecimento que passo a ter por esse fabuloso
país onde ler é decididamente importante, exercício que começa nos primeiros
anos de vida das crianças, seja através de seus pais, seja da escola. Lá, fui
recebido pelos amigos Jean Paul e sua esposa Dominick, que me levaram à
Livraria Renaissance para conversar com grande público. Discutimos Literatura e
a vida no Brasil. Interessante encontrar lá duas paraenses, uma senhora da
família Travassos e outra, a jovem Marilene, que estuda Antropologia. Como
tradutora, a professora Emanuelle, que trabalha na Universidade de lá na área
de Teatro, com impressão em livro de peças teatrais, traduzidas e discutidas
com os alunos. Já iniciamos démarches para também trabalhar na área de Artes
Cênicas, inclusive com festival em agosto. Em outubro, Jean Paul dirige um
grande Festival especializado em Literatura Policial. Querem levar até lá meu
amigo Leonardo Padura. Tomara que consigam. Toulouse é uma bela cidade de 350
mil habitantes, junto aos Pireneus, próxima à fronteira com a Espanha. É lá,
também, que os franceses fabricam os gigantescos Airbus que voam pelo mundo,
além de satélites. O clima é sempre ensolarado e a temperatura,
agradabilíssima. Passear pelo centro da cidade é circular por um casario antigo
belo, ruas perfeitas, limpas e jovens, muitos jovens a festejar a vida. Em
Paris, desta vez, havia muita chuva, vento, e uma sensação térmica de 3 graus.
Os aviões da Latam são novos e muito bons. As viagens são sempre completamente
lotadas, o que me faz perguntar a razão para tanto choro das empresas. O que,
definitivamente é muito ruim, pela falta de concorrência e fazer passageiros
cansados da longa travessia, chegando aqui lá pelas seis da manhã, enfrentar,
após a alfandega, longas e desgastantes filas, que duram mais que uma hora de
espera, para fazer as conexões para as outras cidades. Pior é chegar à querida
cidade e enfrentar novamente o horror que vivemos. Imundície, buracos,
pichações, agressão aos mais pobres e tudo o que causa infelicidade. Por quê se
reelegeu? O que já é trágico ainda ficará pior?
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