sexta-feira, 10 de março de 2017
PSSICA NA FRANÇA
A Literatura,
mais uma vez, me levou a lugares bem distantes e melhor ainda, ao encontro de
pessoas interessadas naquilo que escrevo. Em todos os lugares onde passei,
havia mais que curiosidade. Antes do encontro, todos fizeram seu “trabalho de
casa”, lendo, pesquisando. Meu livro mais recente, “Pssica”, foi lançado na
França. É o quarto romance editado por lá, pela querida Asphalte Editions,
comandada pelas adoráveis Estelle e Claire, que além de profissionais
competentes, são apaixonadas por seu ofício, criando verdadeiros objetos de
arte. E traduzido pelo genial Diniz Galhos. A convite do amigo Pierre-Michel
Pranville, grande tradutor, amante do que eles chamam de “Polar” e professor, e
da professora Brigitte Thiérion, especializada em Estudos Lusófonos, da
Université Sorbonne Nouvelle, Paris 3, fui recebido por um grande grupo de
estudantes de nível adiantado para falar sobre minha Literatura e demais
aspectos. É realmente algo a deixar qualquer um emocionado e orgulhoso. Depois,
fui à Livraria Le Comptois de Mots para apresentar “Pssica” aos leitores e
perceber seu interesse pelos escritores brasileiros. Adiante, estive também em
Toulouse, ampliando mais ainda o conhecimento que passo a ter por esse fabuloso
país onde ler é decididamente importante, exercício que começa nos primeiros
anos de vida das crianças, seja através de seus pais, seja da escola. Lá, fui
recebido pelos amigos Jean Paul e sua esposa Dominick, que me levaram à
Livraria Renaissance para conversar com grande público. Discutimos Literatura e
a vida no Brasil. Interessante encontrar lá duas paraenses, uma senhora da
família Travassos e outra, a jovem Marilene, que estuda Antropologia. Como
tradutora, a professora Emanuelle, que trabalha na Universidade de lá na área
de Teatro, com impressão em livro de peças teatrais, traduzidas e discutidas
com os alunos. Já iniciamos démarches para também trabalhar na área de Artes
Cênicas, inclusive com festival em agosto. Em outubro, Jean Paul dirige um
grande Festival especializado em Literatura Policial. Querem levar até lá meu
amigo Leonardo Padura. Tomara que consigam. Toulouse é uma bela cidade de 350
mil habitantes, junto aos Pireneus, próxima à fronteira com a Espanha. É lá,
também, que os franceses fabricam os gigantescos Airbus que voam pelo mundo,
além de satélites. O clima é sempre ensolarado e a temperatura,
agradabilíssima. Passear pelo centro da cidade é circular por um casario antigo
belo, ruas perfeitas, limpas e jovens, muitos jovens a festejar a vida. Em
Paris, desta vez, havia muita chuva, vento, e uma sensação térmica de 3 graus.
Os aviões da Latam são novos e muito bons. As viagens são sempre completamente
lotadas, o que me faz perguntar a razão para tanto choro das empresas. O que,
definitivamente é muito ruim, pela falta de concorrência e fazer passageiros
cansados da longa travessia, chegando aqui lá pelas seis da manhã, enfrentar,
após a alfandega, longas e desgastantes filas, que duram mais que uma hora de
espera, para fazer as conexões para as outras cidades. Pior é chegar à querida
cidade e enfrentar novamente o horror que vivemos. Imundície, buracos,
pichações, agressão aos mais pobres e tudo o que causa infelicidade. Por quê se
reelegeu? O que já é trágico ainda ficará pior?
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017
PARA BERNARDO PROENÇA
Quando era criança, andava
muito com meu avô Edgar. Os amigos nos paravam, nas ruas e ele me apresentava a
todos. Um deles me apelidou de “Miniatura de Edgar Proença”. Eu era baixinho,
magrinho, cabeçudo, orelhudo”. Não sei se era um elogio a mim ou a ele. Vovô
começava a deixar de ser aquele homem de todos os instrumentos. O empreendedor,
trabalhador, líder de turma. “Seu Colega”, ele dizia, “a velhice é uma merda”.
Posso imagina-lo, após tantas conquistas, desafios e situações, lidando com a
passagem inexorável do tempo. E sim, é claro que ele tinha razão, embora minha
geração venha quebrando paradigmas, alongando essa questão da “melhor idade”,
postergando ao máximo o que eles chamam de “nova adolescência”. Os filhos
cresceram, saíram de casa, há mais segurança na vida e agora podemos viajar,
passear, ir a cinema, teatro, jogos de futebol, enfim, curtir mais a vida. Sim,
eu sei, não está nada fácil, com a crise que enfrentamos. Mas pensem em seus
avós e digam se hoje não vivemos mais intensamente, ainda participando do giro
do mundo. Naquele pouco tempo em que fui a “miniatura de Edgar Proença”,
percebi, apreendi um mundo de conhecimento, gestos, ironias, inteligência e
vida, principalmente, vida. Isso me moldou. Não sei se ele se dava conta disso.
Passava muito tempo lendo livros e os pacotes de Lux Jornal, que era uma
assinatura que lhe enviava recortes de jornais de todo o país com os assuntos
que ele previamente escolhera. O gosto pela leitura. Notícias. Jornais. Tenho
sonhado com jornais. Muitos. Hoje, fora os daqui, leio diversos pela internet,
diariamente. Mas há alguns anos atrás, o amigo Edwaldo Martins me cedia, às segundas,
os jornais da semana anterior. Jornal do Brasil, O Globo, Estadão, Folha de São
Paulo, Jornal dos Sports, e vários outros. Depois, passei a compra-los. Meu
sonho é que por algum motivo, vou à Banca do Alvino, depois passo na Banca do
Plínio, atrás de jornais. Há um monte sob meus braços e não estou satisfeito.
Em casa, mergulhava naquele mundo maravilhoso. Isso veio de meu avô. Lembrei
disso nesses dias em que ele faria mais um aniversário. Edgar Proença, nome de
estádio, pioneiro em tantas coisas, trabalhador incessante. Como ele, também
faço rádio, jornal, escrevo livros e peças de teatro. Meu amado e idolatrado
avô. E assim como lembro do “Maguenhéfico”, quero registrar a passagem de mais
um aniversário do meu neto, Bernardo Proença. Ele nem se dá conta disso, mas
ilumina toda minha vida, me enche de orgulho, meramente por existir. Por conta
de seus quatro anos, deixando de ser dependente de alguns cuidados, ainda não
nos tornamos “unha e carne”. Os netos são nossa continuação. Eu o observo manuseando
gadgets eletrônicos com especial confiança. Liga para mim através de Facetime.
Basta ouvi-lo dizer “vovô Edyr” e me derreto todo. É como se uma paleta
completa de cores fortes invadisse meu céu. Suas palavras são ordens, mesmo que
tolices infantis. E saímos de mãos dadas pelas ruas, como atletas que acabam de
ser campeões em algum torneio importante, “como um Deus e um poeta”, como diz
Fernando Pessoa. Confiantes, orgulhosos. Chega e ocupa meu computador. Tecla
com facilidade, sabe os caminhos. Sua paixão atual são carros de corrida, suas
miniaturas adquiridas semanalmente para mantê-lo feliz. Não, por falar em
miniaturas, ele tem a sorte de parecer com o pai, Felipe e não comigo. Mas sua
capacidade de apreensão de tudo o que o cerca já demonstra ter a genética da
família. Meu neto querido, pelo presente, pelo futuro, por infinita felicidade,
parabéns pra você!
sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017
VOU BEIJAR-TE AGORA , NÃO ME LEVE A MAL
Talvez
eu tenha utilizado, alguma vez, quando criança, em Bailes Infantis de Carnaval,
uma lança perfume. Mas certamente para jogar o líquido gelado nas costas dos
coleguinhas. Minha melhor lembrança já vem do tempo de adolescente. Ao
contrário dos rapazes de hoje que aos 13 anos já sabem de tudo, nós éramos
ingênuos, entrando em contato com a vida aqui fora. Tempo dos bailes de
carnaval. Pará Clube, Iate, Assembléia Paraense, AABB, Clube do Remo e algum
outro que esqueço, promoviam suas festas, lotadas. Para entrar na AP era
necessário smoking. Mas quem teria um smoking, na nossa idade? Algum de nós
entrava e jogava pela janela, da sede da Presidente Vargas, as jaquetas,
gravatas e faixas. E era assim, mesmo, afinal, após entrar, todos ficavam
apenas de camisa, suados de tanto pular carnaval. Talvez os mais velhos
utilizassem cheirinho da loló e outros, mas eu não via. Meus olhos estavam no
salao de danças, onde um cinturão em volta se fazia, com rapazes de olhos compridos,
esperando a vez de poder dançar com alguma garota. E já não era apenas Baile
dos Brotinhos e sim um Baile das Máscaras, por exemplo. A orquestra podia ser
de Orlando Pereira. Lembro dele, sorridente, à frente da banda, marcando o
compasso com os braços. Os pares passavam dançando como em um carrossel. E
aquela garota com a qual você sonhava a semana toda, passava, às vezes dançando
com uma amiga, em outra com aquele bonitão, mais velho, experiente, cantando e
sussurrando em seus ouvidos. Um sofrimento. Mais do que isso, minha timidez
evitava que em ato de extrema coragem, saísse daquele cordão, atravessasse o
salao e, impávido, fosse até a mesa em
que ela estava sentada com mãe, pai e irmãos, pedindo para dançar. Significava
passar por um exame completo, como um scanner feroz. Pior, o altíssimo risco
dela dizer que estava cansada. O retorno, arrasado, humilhado por não conseguir
tirar nem uma menina para dançar era terrível. Para dar coragem, íamos em grupo
e comprávamos meia garrafa de rum e algumas cocas. Aos poucos íamos inflando o
ego e achando que éramos invencíveis. Às favas as possibilidades. Atravessarei
este salao e direi a ela: vamos dançar? Estenderei a mão que ela pegará e
ficaremos juntos a noite inteira. Um dos bons momentos de abordagem é quando
começavam a tocar marchas rancho. O ritmo diminuía, alguns iam tomar alguns
drinques e se nào fosse ali, era melhor ir embora para casa, derrotado. Então,
cheio de coragem você olha e nem percebe que ela o aguardou a noite inteira por
aquele convite. Que passava dançando com a irmã somente para provocar. A voz
falha na hora do “vamos dançar”, mas logo nos encaminhamos ao salao. Bandeira
Branca, amor, nào posso mais. Na mesma máscara negra que esconde teu rosto, eu
quero matar a saudade. E então vêm as marchinhas mais animadas e ela não pede
para parar. Agora nos olhamos e rimos, andando no círculo e cantando. O tempo
que durou, não faço idéia. Veio mais uma sequencia de marcha rancho e ela
continuou. Deveria convida-la a ir até o terraço, sei lá, outro canto, para
conversar e, vocês sabem como é.. Mas não. E então tocou “Viva o Zé Pereira,
viva o carnaval”. A mãe fez sinal. Ela virou para me dizer adeus. Estávamos com
os rostos tão próximos que o beijo foi natural e também um susto para ambos.
Olhamo-nos perguntando um ao outro. Consegui balbuciar: na porta do Colégio
Moderno?
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017
ODEIO VOCÊ, CULTURA
Assisti
ao espetáculo “5 Vezes Comédia”, semana passada, no Teatro da Paz. Foram três
sessões gloriosas, lotadas. Em um cálculo apressado, seriam três mil pessoas a
R$100. Uma boa soma, mesmo descontando as despesas. No palco, comediantes
conhecidos em programas da Tv Globo. E curioso perceber um padrão ditado pela
emissora, no humor feito pelos atores. Esse padrão domina hoje o cinema
nacional em comédias leves que conseguem milhões de espectadores. São cinco
monólogos rápidos. Engraçado como, ao final, em poucos minutos, esquecemos o
que assistimos, assim como acontece nos programas de tv. Divertem no momento.
Nada para pensar ou refletir. Pior, a propaganda do departamento de Seguros do
Banco do Brasil. Um casal senta na plateia. Ele vira para a mulher e diz que
após uma semana de stress, um trânsito pesado até chegar ali, espera que a peça
não seja daquelas “sérias”, e faz uma voz gutural. Emenda dizendo que deveria
haver um “seguro-teatro”, para prevenir “peças ruins”. E creio que todos, ali,
concordaram. A classe média paraense lota o Teatro da Paz a cada vinda de
artistas globais e suas comédias baratas. Não é somente um fenômeno paraense. A
Cultura saiu do cotidiano das pessoas. Fernanda Torres, entrevistada por Bial
no GNT disse que antigamente, íamos ao cinema assistir Fellini, Buñuel,
Kubrick, sei lá quem mais e saíamos tão impressionados que ficávamos na porta
do cinema querendo falar sobre e depois conversávamos noite adentro em algum
restaurante ou bar. Havia um impacto. E no Teatro? E na Música? A própria Globo
recorre, agora, a músicas dos anos 80 e até Caetano Veloso das antigas em suas
trilhas de novela. O que é produzido hoje é lixo. Saudosista? Será? Hoje, aqui
em Belém, nosso teatro é feito em casas, como os primeiros cristãos em Roma,
orando nas catacumbas. Somos vítimas de uma crueldade produzida por insensatez,
boçalidade e ignorância, em mais de vinte anos de governo. Uma geração inteira
foi desmantelada. Hoje, se perguntasse a uma daquelas pessoas no TP se
assistiria a uma peça com artistas locais, ela talvez risse, debochando. Os
governantes acabam de dar outra demonstração do seu ódio pela Cultura, nomeando
uma advogada que talvez nunca nem tenha entrado em um teatro. Bom, talvez
estivesse na plateia do TP. Ela própria confessou sua ignorância quanto ao
tema. Somos vítimas? Somente porque deixamos que nos vitimassem. Somos
desunidos. Muitos de nós, para sustentar a família, conseguiram emprego no
Estado. Participar de manifestação? Nem pensar. O Estado é vingativo. Onde está
a Escola de Teatro da Universidade, que tem como professores alguns dos mais
brilhantes expoentes de Belém? E para quê, a cada semestre, apresentam novos
profissionais? Para quem? E esse jovens, no fulgor da mocidade, quedam-se na
base do não é comigo a cena que se apresenta? Desculpem a expressão, mas seja o
Estado, a Prefeitura e nós mesmos, parecemos estar “cagando” para isso. Deixemos
que tudo morra. Assistimos esses cretinos fazerem festivais de ópera, para
cinco mil pessoas, enquanto milhões no Pará nada tem. Que um empresário de
brega comande a Fumbel. Os algozes enfiam a faca sorrindo e sorrimos de volta
para eles? Não me calei. Me prejudicou mas não evitou que seguisse com minhas
obras. E vocês? Onde estão os jovens com sua força, lutando por uma brecha para
mostrar seu valor? Vão ficar calados por quanto tempo?
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017
NA GALERA
A
primeira vez em que fui a um campo de futebol assistir a um jogo, fiz vergonha.
Ao terminar o primeiro tempo, fui chamar meu irmão para que ele contemplasse o
tamanho das orelhas de uma pessoa, na arquibancada. Depois, passei grande parte
da infância e adolescência assistindo a jogos, sentado ao lado de meu pai, que
primeiro era o locutor e depois comentarista. Estava no Leônidas Castro quando
Amoroso fez aquele gol em que toda a torcida bicolor avisava o goleiro Omar e o
zagueiro Abel que ele estava furtivamente vindo tomar-lhes a bola e fazer o
gol. Estava no Evandro Almeida, na inauguração dos refletores, com Pelé em
campo e vestindo o manto sagrado azulino. Também quando Eusébio esteve aqui com
o Benfica. Grandes vitórias, grandes derrotas. O importante para mim foi
aprender a “ler” o que se passava em campo. A dinâmica do jogo, as estratégias,
formação e jogadas. Tudo isso me valeu para, mais tarde, escrever sobre futebol
e comentar partidas para a Mais Tv. Também serviu para me tornar um espectador frio,
muito diferente de estar na torcida. Sim, já estive em arquibancadas, poucas
vezes, na companhia de amigos do colégio. Junto ao alambrado, xingando o
bandeirinha. Uma vez, garoto, estava no Maracanã. Era Flamengo e Vasco. O rubro
negro venceu, com gol de Espanhol, cujo nome era José Ufarte. Após o gol, com o
estádio em festa, correu na direção da torcida. Naquele momento de emoção,
compreendi tudo o que o futebol provoca nas pessoas. Uma mistura de gozo,
vitória, consagração e a desgraça do rival. Há uns que pulam e se abraçam.
Outros, de joelho, erguem-se cabisbaixos, outro reclama com o bandeirinha,
aquele parece culpar o companheiro. Era um jogo interestadual. Equipes de rádio
de fora presentes. Não havia lugar para mim, nas cabines. Meu pai me deixou
junto aos conselheiros do Remo. Aqueles senhores me receberam com carinho, me
ofereceram picolés, refrigerantes. Senti-me seguro. Mas então o juiz apitou, a
bola veio na nossa direção, o jogador azulino dividiu e levou a pior. Então,
como uma onda vibrante, aqueles senhores bonachões, bonzinhos, feito lobos
ferozes se atiraram à grade proferindo os piores palavrões que já havia
escutado, xingando juiz, jogador e quem mais aparecesse. Fiquei encolhido no
canto. Todas essas palavras vos escrevo porque meu cunhado esteve no “Edgar
Proença” assistindo ao jogo Remo x Cametá, levando seu filho. Mineiro, sem nada
entender do jogo, fez a vontade de Gabriel, remista doente, mesmo morando em
Brasília. Emocionado, conta do clima a partir da ida ao estádio, com ônibus carregados
e cantando hino. Como engenheiro, prestou atenção aos detalhes da obra.
Encantou-se com a emoção presente. Jovens, mulheres com crianças de colo,
senhores com filhos e netos. Os hinos cantados antes do jogo. Os xingamentos
aos juízes, ao atacante que perdeu a chance, ao rival que quase marcava. E na
volta, a mesma festa. Li que ao contrário disso tudo, houve também violência,
roubos, o de sempre em terra sem Segurança. Do jogo e suas estratégias, pouco
pode dizer. O Remo venceu de goleada, mas foi a emoção, aquelas vozes cantando
em côro improvável que lhe marcou. Esse é o segredo do amor ao futebol. Não é
possível que continuemos em nossa terra a ser tão amadores, incompetentes,
ladinos, com algo que provoca a enchente de gente para assistir equipes fracas,
sem jogadores de nível, sem um regulamento, gramados em condição e pior,
transmitindo a partida para a cidade. É incrível. É insuportável. Mas o
torcedor vai e se emociona. É isso.
sexta-feira, 27 de janeiro de 2017
ARISTIDES, O SANTO
Lembro de meu pai, um dos
maiores contadores de anedotas que vi em ação. É preciso saber dosar as
palavras, a pontuação, a melodia sendo o detalhe mais importante. Ser ator,
sim, saber mostrar um personagem com mudança no tom da voz, talvez um ou outro
movimento do corpo e no ritmo certo, chegar ao final retumbante. Meu pai tinha
a mania de dar pequenos tapas ao final, nos ombros daqueles que ouviam a piada.
Era um arremate, um chamamento, uma provocação ao riso, que era o aplauso. Eu o
assisti, seja em anedotas “familiares”, seja nas mais sujas e impublicáveis,
estas, contadas em círculos masculinos, a maioria das vezes nas rodas que se
formavam após trabalhar transmitindo alguma partida de futebol. Uma dessas
piadas, antiga, tentarei contar. Claro, a voz, os gestos, tudo isso fica
faltando. É necessário também não fazer análise crítica sobre os
acontecimentos. Procurar nexos, precisões, enfim. Será que vão gostar?
Aristides era um boêmio.
Conhecido em todas as boates que percorria durante a semana. Em casa, no
entanto, portava-se como um santo. À mulher, compreensiva, queixava-se que
tinha o azar de ter agradado ao chefe. Que este o sobrecarregava de obrigações.
Tinha serão quase todos os dias. Isso está me acabando, querida, choramingava.
Mas certo dia, sabendo que o aniversário da esposa estava chegando,
antecipou-se e a convidou para comemorar pegando um cineminha, ou jantar bem
cedinho, enfim, querida, é o jeito, porque já fui convocado por este maldito
chefe! Tide, eu não quero nada disso. Poxa, há quanto tempo a gente não sai e
vai a uma boate, dançar agarradinho, tomar algumas e depois voltar para casa e
fazer um amorzinho gostoso? Aristides tentou evitar. Querida, essas boates,
hoje, são um antro de marginais, vagabundos e prostitutas perigosas. Eu tenho
até medo de me aproximar delas. A gente nunca sabe. Não preferes um jantarzinho
gostoso, com aquele prato que tu adoras, ou então um filminho desses
românticos? Não, Tide. Dessa vez eu quero ir a uma boate! Mas querida, pode ser
perigoso. Você é uma mulher educada, de nível, pode ficar chocada com o que
pode ver? E como tu sabes disso, Tide? Trabalhas que nem um cavalo e não te
divertes também, não é? Pois eu já decidi. Vamos a uma boate. Se não for assim,
também não quero mais nada. Aristides, desesperado, teve de concordar. Pensou
em uma casa noturna na qual já não ia há muito tempo. Quem sabe, não seria
reconhecido. Os problemas começaram na chegada. O porteiro abriu a porta do
taxi, solícito. Aristides, meu querido, há quanto tempo! Pensei que tivesse
esquecido da gente! A mulher perguntou o que era aquilo. Respondeu que era
alguma confusão. Na porta, o maitre abriu o sorrisão. Aristides, mon ami! Vou
te levar pra tua mesa de sempre, reservada! Foram para a mesa. Trago aquele
drink famoso que leva teu nome? Apreensivo, Aristides disse que queria apenas
uma cerveja. Passou a moça que vende bombons e cigarros. Tidinho, querido, vai
me dar aquela gorjeta de sempre, hoje? Fez que não ouviu. A mulher, no entanto,
já começava a tufar de raiva. Quando a cantora disse que ia cantar aquele
bolero que a gente gosta de ouvir e namorar, ela explodiu. Sacripanta,
mentiroso, patife! Todo esse tempo me enrolando com essa história de serão! Tu
vinhas era para a farra! E começou a dar bolsadas no Aristides que, cabisbaixo,
levantou e se encaminhou em fuga para a porta. Luzes acenderam. E a mulher
gritando e batendo. Entraram no primeiro taxi que viram. Rodaram uns dois
quarteirões. A mulher batendo e xingando. O motorista freia o carro: Porra
Aristides, bota pra fora essa puta maluca e vamos procurar uma melhor! Mais não
conto por ser muito traumático...
sexta-feira, 20 de janeiro de 2017
ALGUÉM QUE MUITO TE AMA
A
mulher do Leo é fogo. O cara demora a chegar em casa e ela já pega o carro e
circula até encontrar. Aí ele ouve todos os desaforos e volta com ela,
caladinho. Mas o Leo é boa gente, tranqüilo. Apenas gosta de passar um tempo
com os amigos, jogando dominó, porrinha, bebendo umas cervejas, batendo papo.
Essas mesas são absolutamente mansas. Os caras ficam ali, até mexem com algumas
meninas que passam, mas não dá em nada. É apenas chinfra, nada de mais. Passam
em revista os acontecimentos do dia, contam umas mentirinhas e é só. Mas a
mulher do Leo queria o controle. Vamos combinar, talvez ele gostasse disso. Ia
se atrasando, se atrasando, a galera incentivava, ela ligava algumas vezes para
o celular, ele desconversava e após algum tempo, não atendia mais. Ficava ali,
tocando e ele fazendo pose de “não to nem aí”, para gáudio da galera. De vez em
quando, para despistar, procuravam um bar diferente, para dar trabalho à mulher
do Leo. Mas a danada achava e quando chegava, já viu. “Minha mulher é uma
santa. Ela apenas não gosta que eu fique na rua. Tem ciúmes. Imagina”. Pois é.
Mas daquela vez, a situação escapou um pouco do controle. Era uma tarde de
sábado. Estavam na mesa, descolando umas louras, rolando dadinho, jogando papo
fora, essas coisas. Alguém disse que deviam ir para a Mercedes, aquela casa
onde as garotas ficam à disposição dos fregueses. O Leo foi o primeiro a
agitar. “Se é pra ir, vamos logo”. Chegaram, ficaram uns instantes. Estava
fraco o movimento. Logo alguém sugeriu o Alfa Clube, mais animado, que segundo
informações, estava “pegando fogo”. Lá se foi a caravana de bebuns conferir a
dica. A mulher do Leo já havia ligado duas vezes. Agora ele não atendia mais,
como de praxe. O Alfa estava ótimo. Um “sonoro” tocava brega e um locutor, a
cada instante mandava mensagens, registrava presenças e fazia seu “chem”. Não
havia condição para porrinha ou qualquer outro jogo. Sentaram em uma mesa,
pediram bebida e ficaram apreciando o ambiente, cheio de garotas das mais
diversas faixas etárias e promessas. Não que eles fossem atacar. Perigava serem
chamados de “tios”. Mas a remota possibilidade já justificava estar ali. Quem
sabe? O Leo era dos mais animados. Até acenou para umas duas, que devolveram
sorrisos enigmáticos. “E aí, vou ou não vou até lá?”. Pois é. Pede mais umas
louras e já fico no ponto. Foi quando o locutor interrompeu a aparelhagem para
um recado romântico: Atenção Leonardo. Atenção Leonardo Rodrigues. Alguém, que
muito te ama, está aguardando atrás do palco, para lhe dar muito carinho.
Repetindo: Atenção Leonardo Rodrigues. Alguém, que muito te ama, está
aguardando atrás do palco para lhe dar muito carinho”. “Tu ouviste? Era comigo.
Vai ver é aquela morena que passou, aquela de calça apertadinha. Desculpa aí
que o papai aqui vai se dar bem”. Os amigos ficaram entre o estupefato e o
preocupado. Perguntaram se tinha camisinha. Se estava em condições. Se não
havia bebido muito. “Vocês estão é com inveja. Eu vou me dar bem. Depois eu
conto. Sorry, periferia..”. Todo confiante, andar malemolente, Leo foi atrás do
palco onde encontrou sua esposa. Baixou a cabeça e foi ouvindo aquela torrente
de reclamações, alguns pescoções, ameaças e tudo o mais, até o carro. A mulher
do Leo é fogo.
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