sexta-feira, 18 de novembro de 2016

GRIS

É fato que o calor só faz aumentar, mas já começam as manhãs gris, anunciando a chegada do inverno e do fim do ano. Ando pelas ruas e passam por mim estudantes, ainda de uniforme, mas felizes, certamente tendo acabado de sair de provas, comemorando a chegada das férias. Lembro de como era feliz quando ainda estudante. Quase sempre passando por média, acordava, como dizia o saudoso Rui Barata, para “o que ocorrer”. Pegava a bicicleta e partia para meu playground que era a Praça da República. Lá encontrava colegas, também de bicicleta e passeávamos descobrindo tesouros ou mesmo, brincando do que chamávamos de “tranca”, que significava trancar o adversário e ali permanecer, juntos, parados, mantendo o equilíbrio, para ver quem caía primeiro. Mais além, a casa de meu grande amigo Abílio, onde decidíamos o assunto do dia. Podíamos procurar outros moleques para jogar petecas. Ou ainda esticar até o colégio, onde muitos ainda faziam provas, mas sempre havia a oportunidade de jogar um futebol. Podíamos jogar botão. Chamamos os outros colegas para um grande torneio. Claro que meu time era o Flamengo. O hoje respeitável doutor Sérgio Zumero decidiu disputar com o Clube do Remo. Tudo bem. Era sua vez. Espalhou os botões sobre a mesa. A mim cabia irradiar a contenda. Ao divulgar a escalação do time, lá estava, de centro avante, a foto de Sérgio. Contestado, exigiu sua presença, no comando do ataque. Foram horas e horas de debate. Não sei ao certo quem ganhou. Mas foi muito criativo. Certa vez, descendo a Governador José Malcher, por algum motivo, tinha a caderneta escolar em mãos. Conferindo as notas, percebi que em uma matéria, apesar de ter notas para passar direto, havia a exigência, estúpida, de assinar a prova final. E eu estava de calção, chinelas, enfim, figurino de férias. Pior, a prova seria naquela manhã. Acompanhado de minha mãe e após longa negociação, permitiram que fizesse a tal prova. No mais, a falta de compromisso era a tônica. Quase sempre, havia um disco dos Beatles sendo lançado e invariavelmente, meu irmão Edgar já o tinha. Solenemente, sentávamos na sala de estar do apartamento e o ouvíamos contritos. Lá pela décima vez, nossa mãe protestava, mas a essa altura, já estávamos à frente de um espelho, tentando dublar as músicas. As mãos seguravam uma guitarra imaginária. Pobre de mim, irmão mais novo. A mim cabia sempre a segunda voz, quase sempre um George Harrison, afinal, o mais velho era Paul ou John nos grandes hits. Nessas manhãs gris, chego no trabalho e coloco Beatles para ouvir. E todas as memórias desabam no colo. E você? Tem alguma lembrança dessa época feliz de estudante? E com a caderneta nas mãos, com a aprovação comprovada, descia até o Comércio, no prédio em que funcionava o Basa, em que meu pai trabalhava. A busca era por uma recompensa. Imagino, hoje, seu constrangimento em ambiente de trabalho por aquele moleque a apresentar seus resultados e a exigir algum presente. Primeiro, franzia o cenho e dizia “não fez mais do que o seu dever”. Depois sorria, metia a mão no bolso e da surrada carteira tirava algum dinheiro para que eu fosse até a “Quatro e Quatro”, fazer um lanche, o que era uma grande novidade. Como era bom. Sei perfeitamente que o tempo passa e a garotada de hoje deve ter outras prioridades, mas quanto a mim, sinto a tristeza por ter ficado velho e com tantas responsabilidades. Aproveitem, tenho vontade de dizer. Aproveitem.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

FRANK SINATRA

Acho que a primeira vez que prestei atenção em Frank Sinatra foi com “Strangers in the Night”, grande sucesso. Depois vieram todas as outras. Sim, eu adoro sua voz, seu charme, os arranjos. Uma vez vi um filme onde havia uma viúva que matava as saudades do marido ouvindo “It was a very good year”. Talvez seja essa a que mais goste. Já era no tempo do cd, mas estando em Nova Iorque, fui à Tower e desci até a seção de jazz. Não sabia o título da música. Cantarolei para um vendedor velhinho, que rapidamente me trouxe o disco. Ganhou Grammy. Disse tudo isso para finalmente revelar que fui invadido por Sinatra. Comprei um de seus últimos lançamentos, gravação ao vivo no Sand’s, Las Vegas, com Quincy Jones nos sopros e Count Basie ao piano e orquestra. Na época, estava lançando “The Shadow of your Smile”, grande hit. Olho para a estante e vejo, enfileirados, Sinatra – o chefão” e “Frank Sinatra – A Voz”, de James Kaplan e “Sinatra”, de Anthony Summers, livros grossos, com tudo sobre a vida do “old blue eyes”. Pensei se encarava quando caiu no colo o documentário “All or nothing at all”, que passa no Netflix. Preguiçoso, preferi a tela. Repleto de depoimentos, cenas de bastidores, shows e fotos, em dois capítulos, cada um com duas horas de duração, dá realmente toda a idéia da grandiosidade de sua carreira. O garoto de Hoboken consegue um lugar com Benny Goodman, atravessa para a orquestra de Tommy Dorsey e se torna o ídolo do público feminino. Fez filmes bobos, mas de sucesso. Casado, mas sempre viajando, tem várias namoradas. A principal, Ava Gardner, belíssima e geniosa. Viviam às turras. Vai em uma espiral que combina com drogas e bebida. Ninguém mais queria sua companhia. O filme nega a cena do “Poderoso Chefão”, que vai até Harry Cohn e diz a famosa frase “gonna make you an offer you can’t refuse”, para que contratasse Sinatra. Se foi mentira, Ava disse que também pediu por ele. Pois foi bem, ganhou até Oscar. E agora assinou com a Capitol. Ressurgiu e as ligações com a Máfia (negadas) o levaram a ser um dos fundadores de Las Vegas, onde fez shows e recebeu convidados. Com Dean Martin e Sammy Davis Jr formou o “Rat Pack”. Foi muito próximo de John Kennedy e sua morte o abalou. Veio o rock e ele foi levado de roldão. Animou novamente, viajou, esteve no Brasil, cantando no Maracanã para sua maior plateia (o filme não conta), chamou Tom Jobim e criou uma gravadora, Reprise. Nelson Riddle, seu melhor arranjador, dizia que era Sinatra quem criava tudo. Ele dava o apoio e arredondava as idéias. Também apareceu Mia Farrow em sua vida. O cara gostava de uma confusão. Ficou careca, botou peruca e foi adiante. Fumava e bebia em cena, embora, duas semanas antes do show, parasse com tudo. Um profissional. Um solitário, principalmente depois do período de baixa em que raros lhe estenderam a mão. Abandonou a carreira. Dois anos depois, lá estava de volta. E veio com “New York, New York”, que nem precisa apresentar. Além da citada lá no começo, gosto de ouvi-lo cantar “I’ve got you under my skin. Dos filhos, Nancy teve um brilhareco com “These boots are made for walking”. O Jr ainda está por aí, cantando o repertório do pai. Quando morreu, teve enterro de rei. “The Voice” ou “old blue eyes” é eterno. Quando era criança, meu irmão Edgar ganhou o disco com a trilha de “High Society”, um luxo com Frank, Bing Crosby, Louis Armstrong e a futura rainha de Mônaco, Grace Kelly. Um luxo. O maior cantor de todos os tempos? Não sei, mas seguramente passa perto.

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

PARA CAIO FERNANDO ABREU

Primeiro decidi chamá-lo por “Rino”. Depois, simplesmente por “Ri”. Foi uma manhã em que acordei meio fora de hora, e me deparei com aquele animal gigantesco, me olhando com aqueles olhos melancólicos. Lógico, levei um grande susto. Pensei que era um pesadelo. Não me perguntem como, mas nos comunicamos. Ainda não sei se realmente falo com ele e o escuto. Ou se é telepatia, coisa que nunca imaginei poder fazer. Ele também não sabia o que estava fazendo ali. E não havia como sair. Era grande demais para passar pela porta. Pelo corredor. E ir embora para onde? Deveria chamar os bombeiros? O Museu Emílio Goeldi? Ele me acalmou. Devíamos lidar com a situação. Era necessário dar-lhe um banho. Arredei a cama, busquei um balde, gastei duas barras de sabão. Precisava ir trabalhar. Antes, deixei leite, no balde, claro, para ele tomar. Depois, pensaria no que fazer. Claro que não disse nada a ninguém. Poderiam me encaminhar a um psiquiatra, no mínimo. Quando voltei, ele disse que estava com câimbras. Era difícil ficar naquela posição, meio deitado, de lado, entre o guarda roupa e a cama, o dia inteiro. Perguntei o que comia. Qualquer coisa. Então lhe fiz uns sanduíches. E agora? Havia a faxineira que trabalhava às quintas. Era quarta. Ele não parecia ter idéia da estranheza daquilo tudo. De ser algo estranho, bizarro, ali. Queixou-se do calor. Liguei o ar condicionado e ele suspirou, feliz. Levei a tv para lá e gostou, embora parecesse enfadado com tantos humanos na tela. Sei. Conversamos, e chegamos à conclusão que era necessário emagrecer. Precisava passar pela porta, tomar banho, andar pelo apartamento. No fundo, eu manobrava para, um dia, ver-me livre dele. Optamos por uma alimentação light, leite desnatado, nada de massas e muita salada. Assim, em poucos dias, já se movimentava melhor, até que saiu do quarto e embora um pouco espremido, atravessou o corredor até a sala. Ida, a faxineira, assustou-se no início, mas depois se apaixonou. Preparei seu banheiro com chuveiro particular, desses com vários jatos de ducha. Imagino que no verão deva sentir mais calor que o normal. Mas leva vida boa. Quando saio para trabalhar, já está na sacada, tomando sol, de óculos escuros, tomando laranjada com adoçante. É um ótimo ouvinte. Conversamos por horas, quer dizer, fora o tempo em que ele está dedicado a assistir ao Discovery Channel. Um esnobe, o Ri. Tem até facebook. Ri não sai de casa. Não sei se o velho elevador agüentaria seu peso e ele também tem muito medo do trânsito. Acha que ninguém respeita a faixa de pedestres e se aborrece com os milhares de ciclistas na contramão. O jeito foi comprar uma esteira, do maior tamanho, para ele se exercitar. É meu grande amigo. Aquele corpo gigantesco e seu casco duro, sua estética, como um animal pré histórico que permaneceu na terra, após todos os seus semelhantes desaparecerem, esconde, na verdade, um cérebro ágil, moleque, ladino, inteligente. E seus olhos melancólicos tentam disfarçar a vontade de ser bípede, leve, livre, comum, talvez. E eu lhe digo que talvez essa seja sua grande qualidade. Não ser comum. E exigir, dos amigos, a descoberta de tudo de bom que ele guarda na alma. Ter a coragem de furar aquela casca grossa e encontrar alguém tão receptivo. Até hoje não temos explicação para ter surgido, de repente. Ele também não sabe. Como se uma maquina o tivesse sugado de seu habitat e o despejado na selva de concreto.
Um dia sumiu. Tal como tinha vindo. Acordei e estranhei o silencio na casa. Procurei por todos os quartos e nada. Pensei em um acidente, que havia desmoronado a sacada. Sumiu. Talvez tenha voltado para onde veio. Ou foi surgir surpreendentemente na casa de algum outro solitário, como eu. Talvez ele fosse isso. Um preenchimento. Com seu jeito pré histórico, olhos melancólicos, seu casco grosso. Mas ágil, inteligente, compreensivo e sobretudo, bom ouvinte. O vazio que havia antes, não voltou. Agora tenho mais facilidade em me relacionar com outras pessoas e procuro namoradas com algo mais a oferecer, como amizade, companhia, cultura e inteligência. E também não me isolo, não me deixo como um casco grosso, impossível de ser alcançado. Quando sinto que a solidão pode chegar e se instalar, lembro do Ri, tomo um banho, visto uma roupa e vou à procura de amigos. Sei que, onde quer que ele esteja, pensa em mim. E eu nele.

Edyr Augusto

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

POBRE GAROTINHA

Janis Joplin e Jimi Hendrix surgiram na minha vida no momento exato. Teria meus quinze, dezesseis anos, o mundo lá fora estava mudando, aqui no Brasil havia uma ditadura e o que eu queria, mesmo, era estar pronto, provar de tudo, a experiência de viver. Quando ouvi “Cheap Thrills”, pirei. A capa de Robert Crumb. Eu não sabia quem era, mas me conectei imediatamente. Até então, tudo de bom estava na Inglaterra e no entanto, Big Brother and the Holding Company era da cena de San Francisco. “Combination of the Two” abre o disco e rompe com o escudo de qualquer um. E lá vem “Summertime”, agora uma nova canção. A voz oscilando entre terna e agressiva, interpretando os versos, dando novos significados. E há também “Turtle Blues”, “Ball and Chain”, clássicos imediatos. Janis e Jimi me ensinaram o sentimento do blues. Eu, paraense, branco, jovem, louco para conhecer as novidades e tendo de descobri-las em raras notas que chegavam via radiofoto. As harmonias, as nuances, solos de guitarra ou vocalizes. Notícias, críticas. Penso nessas pessoas que parecem trazer dentro de si uma tristeza que nunca passa. Já nasceram assim? Janis tinha família, irmãos, todos certinhos, em Port Arthur, Texas. Era diferente. Como diria Sandra Perlin, esquisita. Por isso, sofria bullying na escola. Apelidavam, jogavam coisas. Não foi convidada para a festa de formatura. Achavam-na feia, desbocada, gorda. Ela olhava no espelho e queria ser magra, bonita, como as modelos. Quando frequentou a universidade, o jornalzinho da turma a escolheu como “o homem mais feio do ano”. Chorou. Deu o fora. Em San Francisco encontrou outros “esquisitos”. Cantou folk songs, descobriu a voz. Os caras do Big Brother a convidaram para cantar. Já rolavam drogas. Era uma época de experimentação. Houve o Monterrey Festival, que revelou Jimi. Janis. Todos boquiabertos. Vieram as viagens, o sucesso. A banda era fraca, quase amadora, não aguentou. Os agentes, a gravadora. “Cheap Thrills” já saiu pela Columbia. Formou outro grupo, mas não funcionou. Cantou em Woodstock, chapada. Tirou férias. Veio para o Brasil. Enamorou-se, finalmente. Pra valer. Outro americano. Viviam juntos. Serguei? Não. O amor não suportou à heroína. A tristeza, esse sentimento que sempre esteve no fundo, emergiu. Cantava e mandava mensagens para esse amor. Formou a Full Tilt Boogie Band. Gravava disco novo. Estava limpa. O telegrama do cara, que estava em Katmandu, chegou tarde. Talvez ela tenha tentado apenas dar um tapa simples, coisa rápida. Que pena. Mais uma que foi embora aos 27 anos. Ao contrário de Jimi Hendrix, que até hoje tem lançado discos, mantendo a lenda, Janis, com o tempo, ficou quase esquecida. Esse documentário “Poor Little Girl”, que passou em circuito alternativo aqui em Belém, foi para mim a possibilidade de reavaliar meu amor por ela, sentir, nos takes obtidos em shows, inclusive Monterrey e Woodstock, o ambiente dos anos 60, a extrema liberdade e ousadia dos jovens, em contraste com essa cena de hoje em que parecem preferir mais ser plateia do que estar no palco. Para mim, as duas melhores músicas que ela gravou são “Turtle Blues”, do “Cheap Thrills” e “Maybe”, do disco “Kosmic Blues”. Jimi e Janis foram dois furacões na mente de um garoto em uma cidade ao norte do Brasil, América do Sul. Até hoje, essa febre não passou.

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

A SOMBRA DA GUILHOTINA

Como vocês sabem, adoro romances. Acabei de ler “A Sombra da Guilhotina”, de Hilary Mantel, Editora Record, com a história da Revolução Francesa, a partir de três de seus mais destacados personagens, Georges Danton, Camille Demoullins e Maximilian Robespierre. Jovens provincianos, Max e Camille foram amigos de colégio. Estavam no lugar certo, na hora certa. O orçamento do Estado não batia com os gastos, havia fome, pobreza e enquanto isso, o rei passeava com sua entourage. Danton era o farrista, cheio de mulheres. Sua esposa morreu de parto, casou com Louise, de 17 anos, que morava no andar de cima e gostava de seus filhos. Danton era apaixonado por Lucille, ou Lolotte, mulher linda, ativista, esposa de Camille. Robespierre era o “incorruptível”. Adotado por uma família, morava em um quartinho espartano. Uma das mulheres da casa se apaixonou. Rolou, claro, mas ela era tratada por ele quase como uma empregada. Ele era casado com a Revolução. Os caras fizeram o movimento que mudou o mundo, decapitaram o rei e a rainha, com assinatura do Dr. Guillotin, que inventou a máquina de matar e começaram a legislar. Enquanto isso, as monarquias vizinhas declararam guerra, claro. Imaginem a confusão. Bem, Danton enriqueceu. Camille estava bem. Robespierre, nem pensar. Vieram os inimigos, pessoas descontentes, invejosas, outras, cheias de razão. Danton cercado e festejado pelo povo onde aparecia. Um grande orador. Fizeram denuncias. Veio o Terror. Delações, execuções. Queriam se livrar de Danton. Ele e Camille começaram campanha para acabar com o Terror. No centro, Robespierre segurou até onde pôde. Prenderam. Como levar a julgamento um herói do povo? Danton estava tranquilo. Se o deixassem falar acabava com eles. Retrate-se, si vous plais, pediu Robespierre aos dois. Não. Danton ria. Estava seguro de si. Gritava: eu que inventei este Tribunal Revolucionário. Como podem me condenar? Ficou rouco de tanto gritar. Foram condenados. Antes da decapitação, pediu ao carrasco para mostrar a sua cabeça para o povo. Algum tempo depois, Robespierre também foi executado. Lucille Demoullins também. Mais algum tempo e aparece um baixinho invocado, chamado Napoleão Bonaparte. Mas isso já é outro romance. Meu amigo Marco Moreira conseguiu o dvd de “Danton”, do polonês Andrej Wajda, que havia assistido em 1983. Gerard Depardieu em grande papel título. Homens cansados, estressados, dormindo, no máximo, duas horas por dia. Fazia frio, mas estavam sempre suados, conspirando à luz de velas. O filme de Wajda também é político, em uma época em que a Polônia aspirava livrar-se da Rússia, primórdios do Solidariedade e Lech Walesa. Aqui no Brasil, ditadura. Imaginem reinventar o mundo, como os caras tentaram. Mataram o rei. Houve guerra dos outros países monarquistas. Novas leis, constituição, declaração dos direitos humanos. O momento em que Maria Antonieta será executada. Veste uma bata branca. Cabelos cortados na nuca. Mãos amarradas para trás. Antes de seguir, pede, acocora-se e faz xixi em um canto. Ela, a grande e charmosa Rainha da França. O grande líder popular que enriqueceu ilicitamente, mas pensa que o povo o salvará para sempre. Pensou em alguém? O escritor de discursos que não queria morrer. O incorruptível encostado contra a parede, tendo de assumir a autoria do assassinato de dois dos mais importantes homens que fizeram a Revolução Francesa. Adoro o assunto. Se puderem, revejam “Danton” e leiam “A Sombra da Guilhotina”.

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

FLIPA, SÁBADO E DOMINGO

Amanhã e domingo são dias de Flipa, a Feira Literária do Pará, já em sua terceira edição. Uma idéia que deu certo. Para ajudar a lembrar, há três anos, por ocasião da Feira mequetrefe promovida pelo Estado, que não tem nenhum programa voltado para a Literatura feita no Pará, o escritor Salomão Laredo postou-se na Livraria da Fox, cercado por seus livros, e promoveu uma feira particular. Sim, essa era uma forma inteligente de se apresentar. Aos sábados, pela manhã, há sempre uma reunião informal de escritores. A idéia de Salomão circulou e, de repente, tínhamos a idéia da Flipa, que já é vitoriosa. Além de mim, como organizadores, fazem parte da turma Roberta Splinder, Salomão Laredo e Andrei Simões, como escritores, além de Camila Andrade, como assessora de imprensa, Deborah Miranda, da Fox e Filipe Laredo, da editora Empíreo. Somos informais. Nossas reuniões são marcadas pela alegria, descontração e risos. E a Flipa vem se aperfeiçoando. Queremos apenas mostrar o nosso trabalho. Mais ainda, lançamos um Prêmio Nobre, e corajosamente escolhemos um livro importante, de autor local, que por qualquer motivo esteja esgotado e o relançamos. Assim, olhamos para trás com respeito. O primeiro premiado foi Alfredo Oliveira e agora, o historiador Ernesto Cruz. Olhamos para frente e realizamos um concurso de romances para autores estreantes. Assim, Flávio Oliveira e Ingo Miller, este, nesta edição, apresentam seus trabalhos. Ainda há patronos escolhidos e homenageados, o primeiro Jacques Flores, genial cronista, depois Adalcinda Camarão, poeta, primeira mulher na Academia Paraense de Letras e agora, o cônego Ápio Campos, de relevantes serviços prestados à Cultura local, através de livros, sermões e publicações na imprensa, que será saudado pelo amigo Fernando Jares. A Flipa é de uma ousadia sem igual. Não temos patrocínios. Temos muita vontade de fazer a coisa certa. Popularizar cada vez mais a Literatura feita aqui. Queremos, ao relançar clássicos, homenagear os grandes escritores. Queremos, ao lançar novos autores, dar a chance deles, através da Empíreo, realizar seus sonhos, apresentar-se ao público. Fazemos isso também porque após mais de 20 anos sem nenhum projeto sério para a Cultura, muito menos para a Literatura, decidimos fazer por nós. Decidimos nos unir, de maneira leal, amiga, sem espaço para protagonismos. A Flipa é para o bem da Cultura do Pará. A maior prova que é possível ter êxito, é o registro da venda de mais de mil livros em apenas dois dias. Livros de autores paraenses. E o número de inscrições de novos escritores. A procura de informações para participar do evento. Temos a agradecer aos proprietários e funcionários da Livraria Fox, que vibram conosco e apoiam nossa iniciativa. Ao Filipe Laredo da Empíreo, que aliou-se e lança os livros com um apuro incomum, resultando em objetos competitivos em qualquer mercado. Enfim, quero convida-los a dar uma passada, sábado ou domingo, na Fox. Grandes escritores estarão lá, alguns autografando livros inéditos, em lançamento e outros, prontos a conversar, esclarecer e autografar suas obras. Nessa escuridão cultural em que vivemos, a Flipa é um farol apontando para o bem. Tenho certeza que será por longo tempo. Espero vocês por lá.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

É O CÍRIO QUE CHEGOU

Sei que me repito, mas não há o que fazer. Desejo um bom Círio a todos. Meu pai, que adorava, escreveu uma música “Belém está tão bonita, é o Círio que chegou, vejo carros, vejo gente, gente que não sei quem é”. O centro fica cheio. A “santinha” já passou na casa da minha mãe e também na Casa Cuíra. As arquibancadas já estão instaladas na Praça da República. Há comitê de recepção no aeroporto. Apesar dos esforços de Fafá de Belém, a maioria dos turistas é de paraenses que voltam à terrinha para matar as saudades. A programação é extensa. Há a procissão que leva Nossa Senhora em longo percurso a Icoaraci de onde sai na manhã de sábado até a escadinha do cais do porto. E então o ronco insuportável de milhares de motocicletas até a Basílica. Enquanto isso, uma turma sai no Cordão do Peixe Boi até a Praça do Carmo. A cidade finalmente mergulha em um frenesi. Há quem acompanhe a Trasladação. Outros visitam casas de amigos. O Roxy Bar fecha somente pela manhã de domingo. A Festa da Chiquita começa enquanto os foguetes dos estivadores iluminam o céu. Até que ela chegue à Sé, dando a volta na Praça, já temos quase meia noite. Nova espera. Romeiros chegam cedo para pegar lugar na corda. Lá vem ela. Aqui em Belém ou é a chuva, ou é Nazica. Moro no percurso do Círio. Nunca perdi um. Os foguetes voltam a explodir no Boulevard Castilhos França e todos acordamos mal dormidos, às pressas, visitas tocando na campainha e surgimos assim, meio assustados ao sol da manhã. A rua já está apinhada. Já passaram quantos carros? Procura na app pra saber onde Ela está. Experimentam salgados. Quando meu pai era vivo, bebida somente após a passagem Dela. Vem a corda. Gostava mais antes com dois lados. Paciência. É um chicote elétrico que vem sinuoso, como se cada movimento dependesse de muitos cálculos. Jovens e velhos. Homens e mulheres. Não acredito em promessas pagas com sofrimento. Não penso que Deus deseje nosso sofrimento. Enfim. Antigamente, autoridades desfilavam dentro da corda, acenando. Recebiam vaias, também. Os padres, derretendo no calor de seus paramentos vistosos. Lá está, finalmente. Pára em frente ao prédio. Olho em volta e não há espaço para ninguém. Mar de gente. A berlinda brilha como uma pilha, recebendo e devolvendo energia. É tão intenso que fico zonzo. Abraço os meus. Peço. Agradeço. O tempo literalmente para naquele instante. Sol a pino. Penso às vezes se os terraços, lotados, não correm risco de desabar. Ela não deixaria. Há um silêncio ensurdecedor, diria. Energia contra energia. E enfim ela se vai. Acompanhamos até sumir na cobertura das mangueiras. E então vem o grosso do povo. Vários minutos e minutos passando gente. Equipes da Cruz Vermelha, formadas por rapazes e moças abrem caminho na multidão. Um repórter de rádio, ao invés de transmitir a passagem da Santa, chora copiosamente, de emoção. Nos entreolhamos. Estamos todos com rostos inchados de choro e emoção. Voltamos a nos abraçar. Batemos palmas. Alguns, liberados, correm para as bebidas. Antigamente, meu pai trazia o violão. Convidados, artistas, todos cantávamos até a fome apertar. Vem o almoço do Círio, uma pequena sesta e lá se ia meu pai trabalhar no campo de futebol que tinha Remo e Paysandu. Hoje ele não está conosco, embora em pensamento. Sim, ele está lá. Um beijo, meu pai. Feliz Círio.