sexta-feira, 13 de março de 2015

SAUDADE DAS MINHAS PRETINHAS

“Minhas pretinhas”, assim Millor Fernandes chamava as teclas de sua máquina de datilografar. Na transição para o teclado de computador, houve muita resistência. O Jornal do Brasil imprimiu uma cartilha ensinando a lidar com a novidade. Millor, em uma crônica, disse que o que mais o irritava era um som que o teclado emitia quando ele pressionava alguma tecla errada. “E ele ainda te chama a atenção”. O ruído, na agora silenciosa redação, era a revelação de inabilidade.
Na época, fiquei chateado, mas agradeço à minha mãe por ter feito minha matrícula em um curso de datilografia. Hoje, passo a maior parte do tempo em frente a um monitor e teclado. Peguei as mudanças todas. Meu pai tinha uma portátil, Royal, linda. Veio uma Lettera, grande e me divertia em travar suas teclas escrevendo com rapidez superior ao movimento mecânico de imprimir as letras no papel. Não lembro o que veio antes, mas houve uma Facit elétrica, com tecla de limpar erros. Era lenta. A de esfera, IBM, maravilhosa. E então, avassalador, veio o computador. As primeiras máquinas de datilografar surgiram na segunda metade do século XIX, por Christopher Latham Sholes, juntamente com o teclado “Qwerty”, que se impôs no mercado. Um longo caminho a partir da descoberta de Gutemberg. Meu irmão resistiu até onde pôde. Rendeu-se. Meu pai, já depois dos 70, comprou um computador e começou a aprender escrevendo suas crônicas. Muitas vezes me ligou desesperado porque, de repente, tudo o que havia escrito sumia e no lugar, um espaço em branco. É que ele, velocíssimo no teclado, acabou adquirindo o vício de deixar o dedo mindinho tocando alguma parte. Na máquina de datilografar, nenhum problema. No computador, era exatamente no lugar da tecla que abria um novo documento, em branco, evidente. “Vou jogar essa pinoia fora, dizia.
Tenho algumas manias. Embora use um Mac, uso o programa Word, do Windows, para escrever textos. Também tenho uma família de letras que uso sempre, no caso a Letter Gothic 12. Coleciono algumas máquinas antigas. Tenho umas quatro, de diferentes épocas, uma delas, presente uma grande amiga. Pertenceu a seu avô e foi fabricada em Leicester, Inglaterra. Sim, elas funcionam, algumas muito bem, outras, nem tanto. É curioso como minha letra foi diminuindo de tamanho e se assemelhando a um texto impresso. E também com algumas linhas escrevendo, tanto há dores na mão que empunha a caneta, como também impaciência por não conseguir seguir o raciocínio. Para não perder a delícia da escrita à mão, mantenho uma agenda com os compromissos, embora vários gadgets contenham agendas eletrônicas. E a diferença de geração quanto ao uso dos dedos? As pequenas teclas do smartphone, aperto com os dedos indicadores, com pouca velocidade. A garotada usa os polegares, com grande rapidez. As mídias sociais trouxeram de volta a escrita. As pessoas se comunicam. Infelizmente, há muitos erros gramaticais, de concordância, perturbando as idéias. A Educação não evoluiu como os aparelhos. No mais, saudades das minhas pretinhas..


quinta-feira, 12 de março de 2015

UM CULTO NO CINEMA PALÁCIO

Depois de ler um post de Carlos Barreto, no facebook, resolvi publicar esta crônica que escrevi para uma revista que nunca saiu. Fui assistir a um culto, na companhia de minha amiga Rejane Barros. Alguns bons anos atrás. Mas ainda vale, pela indignação, profanação em uma casa de artes, uma igreja da cultura.
Um Culto no Cinema Palácio
Dor, decepção, frustração. Impossível entrar no Cine Palácio e não sentir. Lembrei daquela música, “Almost Paradise”, que tocava para abrir as cortinas. Entrei, vestido sobriamente, para não despertar atenções. No lugar dos cartazes anunciando as próximas atrações, cartolinas com a “Corrente da Felicidade”, “Corrente Contra as Drogas” e outras “novidades”. Ao entrar na sala, a dor foi mais forte. Desânimo de estar em uma cidade tão anestesiada para com a Cultura. Ainda estão lá as luzes nas paredes laterais. Mas não estão ligadas. Agora há enormes fosforescentes. As cadeiras vermelhas, desiguais, culpa da última administração. E NÃO HÁ TELA! Ficou tudo devassado. O palco, quase nu e ao fundo, escadas mal feitas. Sobre o palco, foi construído há pouco e ainda está sendo pintado, uma espécie de pórtico e lá dentro, sob uma cortina de tule, parece um altar com cálice, algo assim. Mas tudo se passa embaixo.
Ao invés dos espadachins de “Scaramouche”, passam engravatados, solenes, sérios, imagino, pastores. Há um pequeno púlpito e um deles ouve o relato de suas senhoras. À minha direita, um senhor, humilde, de joelhos, gesticula para ninguém. Parece desesperado em suas preces. Chega outro. Primeiro, ajoelha com a cabeça no assento e ali fica vários minutos. Outros fazem a mesma coisa. Poderia estar em um filme de Buñuel, daquelas sessões inesquecíveis às 22.30, sextas feiras. Mas não. Está chegando a hora. O Palácio é grande e está quase lotado. Nos últimos tempos não conseguia isso. Ligam o sistema de som. Lá do alto, dois holofotes estão ligados e conforme a intensidade das orações aumentam e baixam. Ilusão. Truque. Como no cinema. Um piano toca uma melodia. O pastor pede a todos que estendam os braços para o alto. Obedeço mas, abrigado pela multidão, baixo. A prece começa lenta. Todos acompanham, não sei se repetindo as palavras, ditas lentamente, ou repetindo seus pleitos. As vozes vão ganhando volume. O pastor também acelera e de repente, canta um trecho da música. Todos acompanham. Ele sabe o break, pára e reinicia a oração. Agora fala dos desvalidos, dos que comem o pão que o diabo amassou, dos incompreendidos, dos que não têm chance, dos que vivem à margem, sem dinheiro, com as dívidas, as ameaças. E todos se encontram. A voz do pastor é teatralmente chorosa, ele diz o que todos sentem. Desespero. As vozes aumentam de volume, os holofotes aumentam a intensidade, estão quase gritando, chorando e vem mais um trecho da canção. Intervalo. Alguns enxugam os olhos. À minha frente, um homem forte, bíceps à mostra, não baixa os braços, firmes, olhando para o alto (os holofotes?), clamando. Os pastores passam reparando em quem está emocionado. Futuras vítimas? Como em “Amarcord”, de Fellini, onde a Gradisca está à disposição do príncipe.. Noto, pelo corredor lateral, a entrada de um homem forte, pasta tipo de representante de remédios. Vai para o interior do palco, onde antigamente era a saída pela Ó de Almeida. Rápido, retorna por dentro do palco, segurando sua Bíblia. Sem titubear, pega o microfone do pastor que até então chorava e comovia. Com uma voz forte, firme, transforma aquilo que era um choro, uma lamentação em uma certeza. “É Hoje! Hoje tudo vai mudar, hoje tudo vai acontecer, hoje tudo vai se transformar!”. Imediatamente as pessoas entram em transe. Gritam “é hoje!” e estão confiantes. Os holofotes piscam, o pastor fala forte, as ovelhas estão domadas. Lembro as bruxas de “McBeth” o filme de Polanski, sobre Shakespeare. A energia está no ar e ele, ciente do seu domínio, pega o break da canção que não cessa e canta, dando uma esfriada na galera. Bacanagem. Cessa a música. Ele vai começar outra jogada e de repente, lembra de “homenagear” os que pagam dízimo. “Correndo, vamos, venham deixar o seu dízimo”. Correm para pagar. Não têm medo de mostrar ternos bem cortados, poder. Afinal, Deus lhes deu a riqueza por serem fiéis. Não é isso o que todos querem? Então façam como eles. Paguem para receber em dobro. Achei que era suficiente. Saí discretamente, mas alguns olharam reprovando. Sair naquele instante? Paciência. Peguei um folheto, do Grupo Jovem, contra as drogas e perguntando se meu problema é espiritual, familiar ou sentimental. Há reuniões aos sábados e domingos. Agora reparo, na saída, uma cartolina onde está desenhada uma máquina registradora e pelos lados, sacos de dinheiro como aqueles do Tio Patinhas. É a “Corrente dos Empresários”, às segundas feiras, não lembro o horário. Vou saindo, uma mão me pega o ombro. Assustado, penso “pronto, o Edyr Macêdo mandou me pegar”. Não, era um pastor, lógico, ninguém ali passa despercebido, me perguntando se havia gostado, a que horas havia chegado e se voltaria. Perguntei pela sessão da Sexta feira, meia noite. Agora não tem mais. Pensei comigo que as sessões de cinema, aqui em Belém, também não deram certo. Disse que apareceria. Lá dentro, o clima fervia. E na esquina, fica a sede da Fininvest, onde também todos vão se ajoelhar, depois. O Cinema Palácio não merecia isto que todos nós deixamos acontecer como se não fosse com a gente. Imagino que ali, quando fecham a porta, devem aparecer os espectros de Fellini, Buñuel, Scaramouche, os grandes personagens, grandes diretores, se batendo, andando trôpegos em várias direções, perguntando “o que aconteceu?” ou “por quê???”. Não há resposta. Mais um já teve.

sexta-feira, 6 de março de 2015

MARCHA PARA CONVENCER QUEM?

Muitas pessoas participaram, domingo, da Marcha Contra o Trabalho Infantil, iniciativa de vários órgãos. Pessoas alegres, políticos, crianças, gente bacana, todos com camisas alusivas, mais show do Arraial do Pavulagem. Creio que voltaram para suas casas com a alma leve, por participar do evento. Não quero ter razão, muito menos ser melhor que qualquer um que participou, mas considero mínimo, muito pouco, quase nada, estar nessa marcha. Ninguém em sã consciência pode ser a favor do Trabalho Infantil. Qual a razão para sair em marcha, patrocinada por diversos organismos, quase todos envolvidos diretamente no assunto que até hoje não foi resolvido? Ao mesmo tempo em que a marcha passava, ali mesmo, na Presidente Vargas, pouco antes de chegar na Praça da República, conheço uma criança que estava trabalhando, ajudando sua avó que tem um carrinho em que vende refrigerante, água e biscoitos. Certamente, algumas pessoas devem até ter adquirido qualquer coisa. Uma família inteira vive da renda desse carrinho. Durante a semana, a menina vai ao colégio e depois, ao invés de brincar, cuida de um sobrinho que deve estar com dois anos, se tanto. Seus sábados e domingos são no centro da cidade. Ninguém, muito menos os mais pobres é a favor do Trabalho Infantil, mas há algo terrível que se impõe que é a necessidade. A falta de emprego falta de dinheiro, renda, para comprar a comida diária, fazendo com que todos trabalhem, alguns pedindo esmolas, limpando vidro dos carros ou em funções mais pesadas e de responsabilidade. A passeata queria gritar para as autoridades, enfim, resolverem esse desequilíbrio em nossa sociedade? Devíamos era exigir do governo em todas as esferas, oferta de emprego, formação de mão de obra, espalhar escolas e dota-las de professores de alto nível, enfim, devíamos fazer tanta coisa e não fazemos nada. Achamos que não vale a pena, o governo não está nem aí, mas a verdade é que votamos nessas autoridades. Damos o voto e não cobramos? Vejo, da janela do meu prédio, grupos de pessoas, às vezes de igrejas, chegando de carro e distribuindo alimento às pessoas homeless. Servem, rezam e voltam para casa com a alma leve, certos da boa ação feita. Os sem teto, crackeiros, vagabundos, em cinco, oito horas, estarão com fome novamente. É preciso agir. Ter coragem de sair do seu conforto e agir. Individualmente ou em grupo. Tome uma criança dessas, ou um grupo. Construam uma creche. Procurem seus pais. Juntem dinheiro e paguem médico. Ou professores. Dêem uma chance. Insistam. Comprem o material pedido na Escola. O uniforme, por exemplo. Sapatos. Façam uma escola. Arranjem empregos. Assistência psicológica. Acompanhem. Tenham notícias. Ajam. É preciso agir. O governo não vai sair do seu imobilismo, seja por incompetência ou malícia. Se não vamos às ruas e exigimos sua renúncia, nas três esferas, façamos grupos e vamos agir, junto a esses que precisam de uma ajuda. Domingo, além da criança citada, muitas outras, estavam trabalhando ali mesmo, na Praça. Políticos foram ao microfone. Pessoas felizes. Fizeram fotos. Publicaram nas mídias sociais. Não tiro o mérito de ninguém. Não sou nada. Posso até não ter razão. Mas a quem se queria atingir com essa marcha? Será que alguém é a favor do trabalho infantil, repito. Saia do seu conforto, se puder. Um pouco de cada um, dado com coração, já ajuda muito. Dessa maneira, o resultado aparece. Aí vamos correr para o abraço.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

A INESPERADA VIRTUDE DA IGNORÂNCIA

Já sonhei que podia voar. Sonho intenso, gostoso. Voar era um largar o corpo no ar. Simples, assim. Quando acordei, fiquei decepcionado. Logo na primeira cena de “Birdman, a inesperada virtude da ignorância”, Michael Keaton está levitando. Faz um ator que ficou famoso em Hollywood fazendo filmes no papel de um super herói, homem pássaro. Move objetos de lugar em cinestesia. Mas ninguém sabe disso. A voz do personagem o acompanha, convencendo aquele ator medíocre de sua superioridade. Gosto dos filmes do mexicano Alejandro Iñárritu. Lembro de “21 gramas”. Seus trabalhos falam e mostram pessoas. É curioso que os magnatas de LA que gastam dinheiro em grandes produções de Capitão América, Homem Aranha e outros, tenham arriscado em “Birdman”. Anos após os filmes ficarem para trás, o ator está em New York, ensaiando uma peça com a qual visa recuperar o prestígio, mostrando-se um ator completo. Nesse momento Iñárritu mostra os bastidores de um teatro, a maquinaria, as pessoas, em seu ofício de ourives, trabalho artesanal, novamente em contraponto ao cinema de hoje, cheio de trucagens sensacionais. Os bastidores de um teatro nos momentos que antecedem a abertura das portas é um dos lugares mais fascinantes para se estar. É o melhor lugar. Será que eles vêm? Nos perguntamos. Como será a plateia de hoje? O ator chegou rouco? Zê Charone, sábado à tarde, dá uma topada com o dedo mindinho na ponta de um sofá. À noite faz o espetáculo. Depois a levamos ao hospital. Fratura. A adrenalina a empurrou para a cena. Os truques. As cortinas. Os cenários. As mesas de iluminação e sonoplastia. Atores conversando assuntos triviais, aguardando o momento de entrar em cena com brutal intensidade. Entre os atores, craques como Michael Keaton, Emma Stone, Edward Norton e a maravilhosamente linda Naomi Watts. Não é curioso que Michael Keaton, que já fez Batman, agora tenha, atrás de si, o Birdman? O super herói tem coragem, determinação para enfrentar tudo. O ser humano, não. Há espaço também para espicaçar os críticos. Ela diz que nem vai assistir a peça, mas vai destruí-la em sua coluna, somente porque não gosta dele, está entendendo? Não gosta dele. E o pobre ator ainda argumenta que colocou tudo de si, entre dinheiro e dedicação àquela peça. Tem mais? Para contracenar no palco, surge Edward Norton, um ator radical, que gosta de improvisar, se é para beber, é de verdade. Um revólver precisa ter balas, mesmo. O ator teatral, em um palco onde não é possível mentir, não há truques, intervenções virtuais, mas sem fama nacional e internacional enfrentando um ator sofrível, mas que todos teimam em reverenciar por conta de ter feito o papel de Birdman. Iñárritu fala das pessoas. Isso me interessa. Os maiores prêmios conquistados na noite do Oscar, por um filme que discute as pessoas, cinema e teatro, trucagem e arte, pessoas e pessoas, foram uma surpresa. Curioso que o filme tenha acabado de estrear em Belém. Creio que aqui até o Birdman desistiria e acabaria com os outros urubus no Ver o Peso, aguardando a hora da viração. A Belém de hoje acaba com os menores sonhos que ainda podemos ter. Penso no subtítulo do filme, “A inesperada virtude da ignorância” e penso na ignorância que caracteriza nossos gestorese o imenso orgulho que têm por ela. E espezinham os que ainda têm coragem de pensar, estudar, tentar compreender. Quanto a mim, apenas sonhei, uma noite, que podia voar.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

PILATOS X JESUS

A Quaresma já começou a estamos rumando para a Semana Santa. Acabei de ler “Pilatos e Jesus”, de Giorgio Agamben, pela Editora Boitempo. O filósofo mostra com diversos argumentos o julgamento que termina sem uma sentença definitiva, mas com Jesus sendo crucificado. Esse “enfrentamento” é importante por opor o temporal contra o eterno, quando Jesus responde à pergunta se é rei dos judeus com a famosa frase “O meu reino não é deste mundo”. Curioso também citar o livro “Zelota”, de Reza Aslan, que reluta em acreditar que o encontro existiu da maneira como é apresentado. Reza escreve que Pilatos, há dez anos governador de Jerusalém, passava o dia assinando crucificação de judeus sem nenhuma pena ou preocupação. Mas recebe Jesus em sua sala. Seria uma invenção. Acha que é puro teatro, como que para mostrar o momento final do ministério de Jesus, o ápice. Diz que não há prova alguma que durante o Pessach, havia o costume de liberar um preso, no caso, quando trouxe Bar Abbas e o colocou ao lado de Jesus para que a multidão dissesse quem ficaria livre. Pilatos tinha ódio dos judeus. Foi também uma maneira de absolver os romanos e culpar os judeus, por conta que isso foi descrito muitos anos depois, para o público romano. Será?
Pilatos recebe as queixas dos judeus e interroga Jesus. Alguém diz tratar-se de um galileu e dá a desculpa para passar adiante o caso. Que Herodes Antipas resolva a situação. O problema é de vocês. Mais tarde, quando Jesus retorna a Pilatos, vem o conflito. “O que é, com efeito, um processo sem juízo? E o que é uma pena – nesse caso, a crucificação – que não segue a um juízo? Pilatos, o obscuro procurador da Judéia, que devia agir como juiz em um processo, refuta-se a julgar o acusado: Jesus, cujo reino não é deste mundo, aceita submeter-se ao juízo de um juiz, Pilatos, que se refuta a julgá-lo?” Pilatos e Jesus, o vicário do reino mundano e o rei celeste, frente a frente num mesmo e único lugar, o pretório de Jerusalém. Ele -  que não veio para julgar o mundo, mas para salvá-lo – encontra-se, talvez justamente por isso, tendo de responder a um processo, submetendo-se a julgamento que, aliás, seu alter ego, Pilatos, não proferirá, nem pode proferir.
Pilatos e sua mulher Procla, teriam compreendido a divindade de Jesus e somente por fraqueza teria cedido às insistências dos hebreus. Eles já seriam cristãos no seu íntimo. Seu final foi terrível. Tibério, o César, doente, havendo sabido da existência de Jesus que curava doentes, o havia mandado buscar, mas Jesus já havia sido crucificado. Pilatos foi levado a Roma acorrentado, despojado do cargo e lá teria sido decapitado. Outros dizem que no último momento, sacou uma faca e se matou. Segundo o Evangelho de Gamaliel, Pilatos foi decapitado, mas um anjo recolheu sua cabeça decepada. Procla, ao ver o anjo que leva aos céus a cabeça, “cheia de beatitude, deu o último suspiro e foi enterrada com seu marido, por vontade de nosso Senhor Jesus Cristo. Houve uma cristianização de Pilatos. Estaria Jesus ao comando de tudo, inclusive forçando sua crucificação?

Achei todas essas leituras interessantes. Gosto de pensar e discutir sobre o assunto. Em tempo, sou mais cristão que católico, o que considero muito mais difícil. Bom final de semana.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

O CARNAVAL DO JÁ TEVE

“Acabou nosso carnaval, ninguém ouve cantar canções, ninguém passa mais, cantando feliz...”. Cito a maravilhosa “Marcha da Quarta Feira de Cinzas”, de Carlos Lyra, para chorar o fim do nosso carnaval. Hoje é sexta feira gorda e na verdade, instala-se na cidade, até a quinta feira, um sentimento de tristeza, solidão, abandono. Enquanto as ruas do Recife, Salvador, São Paulo e Rio de Janeiro, para citar as mais animadas, estão lotadas de gente cantando feliz, as ruas de Belém estão desertas. É o carnaval do já teve. Ainda passam, aqui e ali, pequenos grupos batendo lata. Só. Posso falar. Criança, tendo de dormir cedo, ainda via, circulando pela Riachuelo, o pessoal dos Boêmios da Campina em seus ternos vermelhos, calça e sapatos brancos. E por chamado de meu irmão Edgar, eu e meu pai fizemos sambas de enredo e desfilamos pelo Quem São Eles. As rodas de samba eram lotadas. Gente do povo e, principalmente, da classe média, descobrindo o carnaval. Belém teve samba porque, cidade portuária, tinha sempre tripulações de navios ancorados no carnaval, que vinham para a zona brincar. Chegaram a dizer que era o segundo melhor carnaval do Brasil. Balela. Acabou. Houve também blocos. Jovem, saí em um dos mais famosos, o Bandalheira. Aos domingos, desde janeiro, a Praça da República lotava com blocos desfilando. Blocos de bairros, de ruas, reunião de amigos. Acabaram os blocos. E os clubes? Em toda a cidade, as festas eram lotadas. Jovens e adultos. Formavam blocos. Havia desfile de fantasias mais bonitas. Até o Sol Raiar, “Baile das Máscaras”, o baile do Clube do Remo, AABB, Tuna. Namoros de carnaval, alguns duraram para sempre. Onde estão? Sobrevive o Baile dos Artistas onde, mais do que artistas, encontramos foliões saudosos, de fantasia, lindos vivendo seu momento. Onde estão, então, os foliões que lotavam as micaretas com músicas baianas? Onde estão? O desfile das Escolas de Samba aconteceu na semana passada. Como assim? Alguns grupos têm se juntado em blocos para desfilar nas ruas da Cidade Velha. Poucos, muito poucos, comparado ao movimento de antes. Onde foi parar nossa alegria? O carnaval era uma maneira de extravasar. De juntar os amigos. As famílias. Bairros. Ruas. Lamento informar, já teve. Reina, a partir de hoje, uma grande tristeza. As ruas, os salões, choram a ausência daquela turba cantando em pleno século XXI marchinhas como “Olha a cabeleira do Zezé, será que ele é”. E não se enganem, o número de pessoas que sai da cidade para descansar nas praias, até para brincar em cidades do interior, é ínfimo em comparação com aqueles que ficam, trancados em casa. Querem assistir ao desfile das escolas do Rio de Janeiro, hoje, um programa de tv que não anima a mais ninguém. E qual a razão de ficar em casa? Parece que a própria cidade ficou triste. Os problemas do dia a dia. Dançar e pular para quê? Perdemos a inocência, a vontade de soltar o corpo no ar e cantar a plenos pulmões. Abandonamos a cidade, abandonamos o carnaval em troca de quê? Uma comunidade que não festeja suas datas e ao inverso, pula carnaval nas três horas de agonia da Sexta Feira Santa. Que vibra com os feriados, sem tomar conhecimento de seu significado, apenas por ter sua folga. Individualidade ao invés de grupo, rua, bairro, vizinho, que não respiram mais. Desconhecidos que moram parede com parede. Meu pierrô, rôto, empoeirado, me olha de soslaio, desconsolado. Sim, hoje, Sexta Feira Gorda, para a cidade, é Quarta Feira de Cinzas.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

OLHEI PRO AMANHÃ E NÃO GOSTEI DO QUE VI

A bunda de Paola Oliveira foi trend topic nos últimos dias. Nada de escândalo de Petrobrás. A bunda de Paola Oliveira, aliás, uma injustiça com a bunda de Maria Fernanda Cândido, que também fez seu, digamos, “ass catwalk” de maneira competitiva. Escrevo sobre “Felizes para Sempre”, a série da Tv Globo, remake de “Quem ama não mata”, de Euclydes Marinho, com excelentes atores, à cores ou preto e branco, mudando de linguagem, câmera nervosa, flashbacks, tomadas feitas em drones sobre Brasília, a cidade símbolo do poder e da corrupção. Onde todas as relações se dividem entre a ganancia e a traição. E a libido reina. São três irmãos. O mais velho, líder, dono de uma empreiteira, corrupto até a alma, participando de licitações com cartas marcadas, propinas e também priápico, deixando pela companhia de prostitutas, ele próprio, um prostituto nos negócios. Sua mulher, linda, elegante, honesta, infeliz no sexo, mas incapaz de deixar aquele mundo de riqueza. Têm uma desgraça, um filho que se afogou na piscina da casa. O irmão do meio, que parece honesto, descobre que o mais velho falsificou sua assinatura em um projeto, por conta de aditivos espúrios. Indignou-se, mas após alguns dias, voltou por conta do dinheiro. Bebe desesperadamente para fugir da realidade. Sua mulher é famosa cirurgiã plástica, mas vai para a cama com outro médico, de quem precisava ser sócia em clínica. Têm um filho, 16 anos, descobrindo o amor, indo para passeatas, jogando pedras nos prédios públicos, simbolismo da inocência, quebrando os templos do pecado. Pior, o irmão do meio, descobre ser estéril e após muita discussão, descobre que o garoto é filho do irmão mais velho. O irmão mais novo não é de sangue e sim adotado. É pau mandado do mais velho. Apaixonado pela mulher que o troca pelo caseiro do sítio. Este, descobre que a mulher está grávida, possivelmente, do antigo marido. E os pais? Festejam muitos anos de casado. Ele encontra uma fotografa, amor antigo e com ela volta a fazer sexo apaixonado. Ela, professora, é assediada por um aluno. Doce família, não é?

E entra em ação uma prostituta, a princípio, convidada para apimentar a relação do irmão mais velho e esposa em ménage a trois. Vira amante do mais velho e amante da esposa. Paola de Oliveira, troca de nome, de peruca, vive uma outra pessoa, falsa, sendo aquela que pagam para ser. A corrupção reina. A traição. O desamor. Então vai à casa do irmão mais velho, namora sua esposa e sorrateiramente vai até o closet e fotografa documentos suspeitos. Para quê? Prostituta, espiã, policial? Saberemos hoje, no último capítulo. Quem morrerá? Ao contrário do título inicial, ninguém ama. Não precisava matar. Ninguém é feliz, pelo título atual. Quem vai matar? E a bunda de Paola de Oliveira? Metáfora da beleza calipígea, trazida ao Brasil pelas africanas? Sinônimo de sexo escravizador? Sexo anal? O ânus, excretor? E os filhos não declarados. O útero, o inverso, para filhos não declarados? Seria Cândido o Brasil inocente, enganado, roubado, vilipendiado? Mas o personagem foi seduzido. E onde fica o amor? A audiência da série terá a ver com a qualidade do trabalho ou com a patifaria reinante? Termina o Jornal Nacional e vem a série, como uma continuação? Que dias terríveis vivemos. Reféns são decapitados, incendiados e nos revoltamos, mas nos cadernos policiais estão todos, também, esfaqueados, baleados, estuprados, diariamente. Paulinho Moska disse “olhei pro amanhã e não gostei do que vi”.