segunda-feira, 21 de junho de 2010

A dança africana

Nesta Copa do Mundo, com tantas táticas a realçar técnicos e futebol de menos, exatamente por conta dos técnicos, assisti a uma das mais belas cenas de minha vida. É até compreensível que os atletas, no túnel que dá entrada ao campo, à arena de leões, onde poderão deixar até suas almas, estejam com rostos crispados, nervosos, aborrecidos, tensos. Também não é necessário ser um estúpido como Dunga. Bonito, mesmo, foi assistir a entrada dos Bafana Bafana, a seleção da África do Sul, em campo. Cantando, felizes, em uníssono, uma melodia forte, alguns abraçados, demonstração de amizade, alegria por estar ali, vivendo aquilo, o ápice de sua profissão, de seu amor pela profissão. Muito bonito.

Honoráveis Bandidos

O livro escrito por Palmério Dória é bastante dolorido. Do começo ao fim, uma sequência de roubos, maldades, bandidagens que são cometidas diariamente - agora mesmo - contra o povo brasileiro e a favor de uma quadrilha, há longos anos instalada em cargos chave da administração pública, sob o comando, no caso da nossa região, do maranhense José Sarney, imaginem, o Presidente do Congresso Nacional. Somente a qualidade do texto de Palmério, seu bom humor, suas ironias, nos conseguem fazer continuar a leitura deste mar de crimes onde estamos, o país, afogados, sem vomitar de nojo. E basta apenas ler com atenção o noticiário e juntar os fatos, as pessoas, para perceber a quadrilha que atua à luz do dia.

The September Issue

Acabei de assistir em DVD "The September Issue", documentário feito sobre a famosa edição de setembro da revista Vogue, bíblia da moda mundial. Por questões mercadológicas, a edição de setembro é a que concentra os lançamentos do próximo inverno, comenta as semanas de moda em NY, Londres e Paris. Por isso, o expressivo número de páginas vendidas. Precisa ser sensacional. A issue em questão teve 840 páginas, demonstrando a pujança da publicação. Um dos segredos da Vogue está na qualidade de sua Editora Chefe, Anne Wintour, figura que causa calafrios, mesmo nos mais famosos barões das griffes. Uma opinião pode fazer mudar tudo, tal sua influência. Pensem, então, no tamanho da responsabilidade dessa mulher, que já foi mostrada, em ficção, no "Diabo veste Prada". O documentário vai para a redação da revista, visita os shootings, flagra discussões de diferentes níveis. O bambambam da Condè Nast, pedindo, com muito jeitinho, para não atrasarem os prazos de impressão. A principal auxiliar de Anne, ela própria, ex modelo, que acaba de produzir um ensaio maravilhoso e mesmo assim, o vê preterido, ficando muuuito aborrecida, mas contida. O grande fotógrafo Mário Testino, rindo amarelo, ouvindo erros cometidos nas fotos de Siena Miller. Anne nos desfiles, sentada na primeira fila, grandes black shades e o rosto inexpressivo. Ela sabe que qualquer expressão será captada no mundinho e poderá significar tendências e bobagens. Também penso que gosta de fazer o personagem.
Quanto a mim, gosto de moda. Assino revistas. Gosto de comprar roupas para minha mulher. Não tenho estudo algum para dar opinião, mas sei o que gosto. Assino a Vogue e adorei o documentário. Perceber a força de Anne e principalmente, a qualidade de sua equipe. Acordar, todos os dias e conseguir ser a melhor, em uma cidade como NY, em uma revista de alcance mundial. Nível de exigência máximo. Encerrar uma edição e já acordar, no dia seguinte, pronto para ser novamente number one.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Mudar as regras do futebol?

Tanto investimento, tantos gastos para essa festa planetária e em campo, vemos equipes com medo de ser feliz. Técnicos que pensam em tudo, menos em fazer gol. Como manter o futebol como atração de primeira linha, levando multidões, seja em estádios, seja na frente de monitores de tv?
Meu amigo e comentarista Gerson Nogueira, de O Diário do Pará, que está lá na África do Sul, em seu comentário de hoje, chega a sugerir acabar com o impedimento. Com todo respeito ao Gerson, mas isso seria acabar com o futebol. Não melhorar. A regra do impedimento é a mais inteligente de todas. É o que diferencia de tudo, inclusive porque ética. A regra faz com que as equipes "se amassem" no espaço demarcado do campo. Mas, se ambas estão preocupadas apenas em se defender, realmente, fica difícil, porque as equipes concentram em espaços cada vez menores, o maior número de homens, possível, para defender. Difícil sair gol. Por outro lado, creio que tem faltado às seleções como Espanha e Brasil, por exemplo, um princípio utilizado no basquete e no futebol de salão, que mistura precisão, rapidez, deslocamento e a jogada pessoal, para trabalhar em pequenos espaços. No jogo atual, o número de gols originados da cobrança de alguma infração cresce. Há alguma coisa errada. E sim, imagine se acabarem com a regra do impedimento. Sabe aquela pelada em que você joga e que, com quinze minutos, já tem perna de pau com a língua pra fora, cansado? Então, formam dois magotes, nas cercanias da grande área de cada lado. No resto do campo, um vazio ocupado por alguns poucos mais resistentes. Imagine no futebol profissional. Seriam escalados jogadores altíssimos, que ficariam, o jogo inteiro, dentro da área, onde seriam despejadas as bolas, de todos os lados, para tentar o gol. Entre as duas áreas, um vazio imenso.
Sim, acho que o futebol precisa mudar, atualizar, trabalhar para seguir sendo um bom espetáculo, competindo com as emoções contínuas do basquete e do vôlei. Acho que o lateral deve ser cobrado com o pé. Acho que é preciso haver limite de faltas. Acho que talvez deva ser cronometrado um tempo mínimo para uma equipe ultrapassar o meio de campo. Mas acho, principalmente, que a atitude pró gol deve prevalecer, como manda a Fifa, mas ao contrário do que é considerado. Hoje, para pênalti, impedimento, qualquer coisa é motivo para não marcar, para não ser gol. E gol não é detalhe. Gol é tudo.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

No mais alto volume

Não me peçam explicações. Meu método de leitura dos incontáveis livros que compro é caótico, mas eu sei por onde começar. Somente agora li o livro "De A-Ha a U2", do jornalista Zeca Camargo, hoje reporter e apresentador do Fantástico. Egresso da MTV, Zeca é um dos poucos a conseguir sobreviver na Grande Irmã. Lista, em ordem alfabética, os artistas que já entrevistou, seja para MTV, seja para Globo. Também comenta discos importantes. Nada assim imprescindível. Talvez uma boa leitura para avião. Mas escreve fácil, leve, divertido. Me deixou pensando, lembrando da minha carreira liliputianamente diferente, como entrevistador de artistas que por aqui passaram, e também em viagens. Fui ao Recife para o lançamento do novo disco de Elba Ramalho. Hotel 5 estrelas em Olinda, farra e festa de graça. Foi bom porque compus a trilha sonora de "A Terra é Azul", para o Experiência. Fui ver Wando no Olympia, São Paulo, distribuindo calcinhas. Elymar Santos no Asa Branca, Rio de Janeiro. Oasis no Credicard Hall, acho, Rio. Lembro, na van em que íamos para o show, uma gaúcha metida e cheia de sotaque, dizendo que aceitara o convite somente por causa da viagem, uma vez que trabalhava na FM Atlantida, PoA, e considerava o Oasis, muito farofa. Aos primeiros acordes de Roll with it, mudou de idéia e dançou. Bons tempos.
Assisti ao documentário "It might get loud", que flagra o encontro entre Jack White (White Stripes), The Edge (U2) e Jimmy Page (Led Zeppelin). Uma delícia. Muita guitarra. Page tocando alguns compactos de sua coleção de blues. Jack construindo o que chamamos "pau elétrico", com o auxílio de uma garrafa de vidro. O estúdio de Edge e a descoberta do riff de um clássico do U2 em uma fita cassete, com demos. E finalmente, a melhor tomada. Page toca o riff de "Whola Lotta of Love" para seus dois companheiros que ficam embasbacados, olhar distante, como qualquer um fica ao lado de um deus da guitarra, como Page.

O sinal digital e um olhar para a doca

Desculpem se pareço um bobo, mas fiquei chocado com a qualidade da imagem digital em meu televisor. Comprei exatamente por isso, mas ao chegar em casa, por pura preguiça, preferia assistir os outros canais através da Orm. Minha namorada apertou o botão do digital. Ficamos assistindo ao Jornal Nacional e a novela das oito. Quando acabou o capítulo, decidi retornar ao cabo e fiquei chocado. Mais de uma hora, seguida, assistindo em digital. O retorno é difícil. A diferença é chocante. Os jogos da Copa, excetuando o futebol até agora jogado, ficaram ótimos de assistir. O problema é Galvão Bueno. Só de ouvir sua voz, fico de mau humor. Quando emite conceitos, me desperta os mais primitivos instintos, se me entendem. O jeito é desligar e ouvir na Rádio Clube. Enfim, fora isso..
Pensei nisso quando, outro dia, lanchando no Doca Boulevard, peguei uma mesa ao lado da parede de vidro que dá vista para a Doca de Souza Franco. Aquela vala imunda, cercada por alguns dos prédios mais luxuosos da cidade. Por aquele shopping luxuoso. Que hoje é local de grandes festejos. Fiquei pensando no desamor que temos por esta cidade. Em nosso extremo e imperdoável egoísmo. O célebre caso de viver em um castelo, dotado de todos os confortos, mas ao inevitavelmente ir até a rua, mergulhar o pé na lama. Nossos apartamentos são luxuosos, caros. Nossos carros são mini caminhões. Mas ao sair do castelo, do carro, mergulhamos na lama. Dela, nada queremos. Não é nossa, diremos, ao mesmo tempo em que jogamos a embalagem do sorvete, que acabamos de sorver, pela janela. Não pensamos coletivamente. Não estamos aptos a viver em sociedade. Não temos mais noção de civilidade. Onde iremos parar?

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Pra frente Brasil!

Já estão todos nas ruas, com camisas amarelas, os carros pintados, foguetes, um clima de alegria no ar por conta da estréia do Brasil na Copa do Mundo. Sinto muito, mas não participo disso. Sou alucinado por futebol, mas minha compreensão do que se passa é outra. Me acostumei, desde criança, a acompanhar uma partida sem torcer, procurando perceber o que se passava no gramado. Confesso que hoje, em casa, grito em gols do Flamengo. E só. O que se passa no gramado é muito rico para misturar com festa. E é claro que todos estamos envolvidos pela brutal e violência mídia veiculada de maneira ampla, geral e irrestrita. Somos induzidos ao comportamento. Diria até que a maioria sequer sabe a escalação do time. Estamos nessa pela festa, as roupas, bebidas, companhia e vibração.
Assistirei aos jogos sozinho em casa. Talvez minha namorada esteja comigo, mas como não se interessa pelo assunto, temo que fique puxando conversa fora de hora, se me entendem. Não concordo, como muitos, tradicionalmente, com a convocação e escalação do time do Brasil. Não concordo sequer com a escolha do "técnico", entre aspas porque, estranhamente, saiu do 0 ao 1000, dirigindo nossa seleção. Só no Brasil. E Argentina. Compreendo a grande diferença entre nossa seleção, aquela que acreditamos representar nosso futebol, nosso coração alegre, cheio de fintas, bonito, que vibra mais com uma bela jogada do que gol mixuruca, e a seleção de um treinador que absorve todas as pressões e está naquele banco de reservas com o coração na mão, querendo, primeiro, não perder, depois ganhar, se der. Pior se é um gaúcho aborrecido e chucro, sem condições de manter um debate em alto nível. Mesmo assim, é a nossa seleção em campo. Como disse um confrade na tv, outro dia, agora esta é a nossa seleção. Sem essa de viúva de quem não foi. Vamos discutir nossa seleção. E ela é péssimamente escalada. Ainda assim, nossos talentos são tão bons que podemos seguir vencendo. Se jogar bonito, vibrarei. Se jogar feio e vencer, empatar ou perder, estarei assistindo com cara fechada. O que não posso é sair pelas ruas, fazendo a maior festa, sem realmente saber a razão dela. Para um brasileiro, não basta ganhar. Precisa vencer e jogar bonito. É a nossa alma.