sexta-feira, 15 de abril de 2011

Meu irmão faz 60 anos

Edgar Augusto, meu irmão mais velho, completa 60 anos de idade nesta segunda feira. Como irmão, posso dizer que muito me orgulho dele, de sua trajetória, de tudo aquilo que conseguiu realizar até agora. Ser o irmão mais velho não é fácil. Pega pais de primeira viagem. No caso dele, pior ainda, pois veio a revolução de costumes, anos 60, 70, política, ditadura, guerras, rock and roll. Lembro que para usar cabelo grande e botas, precisou refugiar-se na casa de meus avós e de lá retornar somente após longas negociações. Os que apenas o conhecem do rádio e tv podem acha-lo sério, com aquela voz de locutor bem colocada, precisa na dicção. A família, amigos mais próximos, sabem de seu gênio extremamente doce, às vezes meio fechado, sentimental, abraçando o passado com paixão, no amor desmedido pelos Beatles. Eu, que acompanhei bem de perto esse amor, que conheço, também todas as músicas, sei o que é isso. Quando somos muito novos, uma diferença, como a nossa, de três anos, é algo bem forte, que se dilui com o passar do tempo. Mas o que eu prefiro fazer, neste blog, é uma reparação pessoal, no que diz respeito à veia artística, revelada em mim na escrita, seja em Literatura, Teatro, Música. Na maioria das vezes em que toco no assunto, dou créditos ao meu avô Edgar, minha tia Adalcinda e acima de tudo, à minha mãe e meu pai, ambos bem opostos, ela nos devaneios maravilhosos, ele na precisão e equilíbrio. Mas não. Meu irmão Edgar tem tudo a ver. Mais velho, sofreu bastante comigo, seja incomodando-o quando brincava, organizado, com seu trem elétrico inglês, seja procurando acompanha-lo no passo, feito soldado, na ida para o colégio. O que poucos sabem é que, desde cedo, ele me influenciou. As primeiras histórias em quadrinhos quem trouxe para casa foi ele. E adiante, começamos a desenhar nossas próprias Hqs. Nos apelidos que dava a todos. Nas paródias e jingles criados por ele, com letras cheias de comentários, apelidos, ironias para com os outros irmãos. Na parceria do jogo de botão, onde praticou a locução, que mais tarde o consagrou, deixando com que eu assistisse aquilo, participasse, processasse e enfim, mais tarde, também trabalhasse na área. Nos Beatles, que imitávamos em frente ao espelho, ele permitindo que eu fosse, no máximo, George ou Ringo, afinal, ele seria sempre John ou Paul. Antes, bem antes, nas brincadeiras de cowboy, ele sempre sendo o mocinho, Bill, e eu, o bandido, algo que ele pronunciava como Brôu, que mais exatamente seria Brown, ficando minha irmã mais velha sendo a dona do Saloon, que chamávamos Madí, mais exatamente, Maggie. E o Janjo, na falta de melhor meliante para me acompanhar, chamado de Robin Hood. E naquele apartamento grande, na Praça da República, no Farol, Mosqueiro, Casa Celina, no Lago Azul, Maracangalha, inventávamos nossas diversões, comandados por ele e sua fértil imaginação. As músicas! Para tudo havia a música. E jornalismo pois, em nossa pré adolescência, passou a circular, incerto, o jornal A Girafa, por ele escrito e editado, com acontecimentos recentes envolvendo os irmãos, naquilo que havia de pior em suas performances, amizades, namoros e foras. O título em homenagem à irmã, cujo crescimento se deu mais rapidamente que os outros. Um dia o flagrei, no recreio do Nazaré, fumando. Fiz ameaça de contar tudo, como um perfeito pentelho. Foram preciso negociações dignas do Conselho de Segurança a Onu para evitar o pior. E as aulas de piano, onde a professora percebeu que ele tocava tudo de ouvido, por falta de vontade de aprender solfejo? Os apelidos! Não apenas para conosco, mas para todos os personagens que nos cercavam. No futebol, oscilava entre o lateral direito de chute forte, "colherada" e o goleiro "Manga". No Lago Azul, cansávamos de jogar gol a gol na piscina e íamos dar uma volta no campo onde meu pai e amigos jogavam. Faltava goleiro. Lá vinham em comitiva, chamando "Manga! Manga!", suplicando por sua participação. E ele retrucava "não vou porque sou frangueiro". Quanta saudade. Começou a trabalhar bem cedo, fascinado pela locução. Desculpem, mas o considero, depois de meu pai, o melhor narrador esportivo que já ouvi, seja pelo bom humor, correção, precisão verificada nos lances de área, onde muitos ficam nervosos e perdem palavras. Era o "locutor minucioso"! Ele me fez começar a trabalhar. Irritado por me encontrar, com 16 anos, bobando pela casa, deu corda em meu pai e lá fui eu, aborrecido, encontrar a grande maravilha da minha vida que é a radiodifusão. Seu incômodo era porque, já trabalhador, gastava seu dinheiro em camisas crepon, na moda, à época. Com tanta camisa, nem notava, ou notava bem depois, que eu as tomava emprestadas para ir a festas. Juntos, fizemos a Feira do Som e muitas outras coisas. Pensamos tão diferente e no entanto somos tão parecidos! Ele me puxou para o Quem São Eles, onde entrei na ala de compositores por sua exigência, já que chegou em casa e pediu a mim e a meu pai, letra e música para o concurso de samba enredo. Fizemos Cobra Norato, pesadelo amazônico e nunca mais paramos. E tantas outras coisas. Vejam só o quanto ele influenciou em minha vida. Serve este como reparação. Como glorificação de seu talento. O tempo, as modificações na personalidade, por alguma razão, não permitiram que se tornasse um grande escritor ou compositor e sim um grande jornalista e radialista. Grande irmão, grande pai, grande figura do Pará. Eu o amo muito. E o respeito, admiro. E aqui, agora, faço esta reparação. Viva Edgar Augusto, 60 anos e muitos mais!

2 comentários:

Diva disse...

Que linda homenagem!!!! Tenho a impressão de que esta declaração de amor e tanta admiração, deve ter sido o melhor presente que o Edgar poderia ganhar no seu dia.
Emocionante! Parabéns ao aniversariante, e ao "mano" admirador!

Papoula Girl disse...
Este comentário foi removido pelo autor.