segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Dois mundos

Todo começo de ano vêm passar as férias conosco duas crianças, uma de Abaetetuba, outra que morava em Benevides e agora está morando mais próximo. O convívio é sensacional e altamente enriquecedor do que significa um outro mundo, outro universo que existe e funciona ao nosso lado. Eu diria que se fosse demonstrar naquela "teoria de conjunto" das aulas de Matemática, o nosso mundo estaria contido no deles. Começa pelo figurino, pela linguagem, pelos gostos, pela alimentação. Em tudo é diferente do nosso. O dos meninos geralmente inclui camisa de clube, bermudão e chinelos, cabelo pintado de louro. Bem, não é o caso do "nosso" menino, mas geralmente é assim. As meninas, vestem-se de dançarinas do calypso, da maneira mais absurdamente sensual/grotesca, bustiês mínimos, brilhosos, casacos jeans com tachas, saiotes ou mini shorts e tamancos de salto, não interessa se têm um, dois ou quinze anos de idade. Não têm nenhuma informação do mundo, porque não lêem jornais nem assistem a noticiários. Uma menina de quinze anos, estudando no melhor colégio de Abaetetuba, não sabe o nome das capitais brasileiras, sequer que existem continentes, nada de matemática, nada de nada. Mas conhecem toda a programação do SBT e Record, assistem clips na Rauland, não digo isso de maneira pejorativa aos meios de comunicação, mas falo de estética. É uma falácia o tal Ibope, medido no Estado de São Paulo. Audiência, mesmo, é do SBT e Record. Anos atrás, a menina que fez Tainá 2 foi ao programa do Faustão. "Quem é Faustão?" A alimentação é a mais condimentada possível, à base de mortadela, quilos de extrato de tomate e o que pintar, de Cheetos a peixe frito com açaí. A linguagem é um dialeto, mas penso que pelo número muito maior de pessoas, dialeto é o nosso. Têm concordância própria, figuras de linguagem diferente, enfim, difícil entender. Estética.
Estamos no estacionamento da Estação das Docas e lá fora, na pracinha, um vendedor de lanches toca a pleno volume (claro), um tecnobrega, acompanhado com grande prazer pelos meninos. Sabem todas as letras. São normais aquela rotação elevada, a voz do cantor ou cantora parecendo gasguita, as letras absurdas/grotescas. É o pessoal que lancha o "completo", por 1 real e eu pergunto o que pode ser completo por apenas 1 real, salgado e suco.. O cara do Media Lab está estudando o tecnobrega e como tiraram proveito dos equipamentos tecnológicos, do ritmo, sem entender nada, saber inglês, ter instrução, nada, apenas dando jeito, se virando, adaptando para sua linguagem, para seu grito por Educação, Cultura, querendo também participar do grande prato. As revistas nas bancas estão cheias de mulheres nuas. Nas novelas o sexo rola na hora do jantar. Nos programas infantis, o consumo desenfreado é estimulado e o sexo permeia as questões. Então as meninas se vestem de "periguetes" embora tenham oito, nove anos, namoram mais cedo, engravidam mais cedo, são estupradas por pedófilos, enfim, a série é longa. E desse mundo não queremos participar. Nós que estudamos em bons colégios. Que somos da classe média, falamos duas línguas, viajamos nas férias para Salinas ou Miami. Que passeamos no Boulevard Shopping e compramos roupas de griffe. Que ouvimos a Jovem Pan com suas Beyoncés e Rhiannas, falando de sexo, mas em inglês. Ou então de sertanejo universitário, ouvido bem alto nos caminhões/carros importados que passam. Que assistimos tv a cabo ou Tv Globo, com sotaque de Ipanema. Creio que deve haver diversos trabalhos em nível de universidade a respeito. Apenas não temos acesso a eles. Que merece estudo, isso merece. Depois de escrever sobre Gaby Amarantos, as crianças chegaram e penso sobre tudo isso. Penso que nossos músicos perdem seu tempo ainda influenciados por Milton, Caetano, Djavan, Chico. Influenciados por Nilson Chaves, nosso grande artista, que nunca deixou de tocar carimbó, adaptado a seu estilo. Penso que todos deviam mergulhar nesse tecnobrega, não para fazer igual, com vozes aceleradas, agressivamente agudas, pedindo socorro, as letras explícitamente sexuais, nada disso, mas fazer melhor, cantar melhor, tocar melhor, com melhores melodias e letras e estabelecer um canal de conexão, uma ponte que penso, seria muito estimulante para ambos os lados. Como está, não pode ficar. Convivemos, dois mundos, mas não nos comunicamos no que é essencial. Paralelo ao nosso que pensamos ser o verdadeiro mundo, há outro mundo de pessoas absolutamente deixadas à parte, sem Educação, Cultura, Saúde e Saneamento, mas dando seu jeito, dando nó em pingo d'água para aparecer. Quando ano pelas ruas do Centro, ouvindo os "falares", ouvindo os tecnobregas tocando de todos os lados, sinto-me estrangeiro, sinto que ando naquele outro mundo, este sim, dono do lugar.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Gaby no Faustão

Assisti a participação da cantora paraense Gaby Amarantos, no programa do Faustão, na Globo. Foi algo imposto, pago pela Som Livre, a gravadora da casa. O apresentador fez seu trabalho de maneira correta, mas não entusiasmada. A paraense e sua banda, completa, tiveram direito, ainda, às bailarinas do programa. Três músicas foram mostradas. Não entendi a ausência de "Xirley", que parece ser o que chamamos de "single", ou "música de trabalho". De qualquer maneira, as duas primeiras são muito ruins. A terceira, "Bebadoida", sob o ponto de vista pop, é muito boa. Se ela "representa" o Pará? Não. Não representa. Quando muito, representa a si própria, cantora brigando por espaço e representa a gravadora que está apostando em uma novidade para o mercado, no tecnobrega.
Não, eu não gosto de tecnobrega, mas compreendo o que acontece. Ouço por onde passo. Sei que é a expressão, o grito por socorro cultural de toda uma população, o que se pode sacar no volume, nas melodias em notas altas, ritmo intenso, vozes que guincham. Mas quando vêm produtores de fora, se juntam com os daqui, pegam o ritmo, dão uma burilada no instrumental que ganha peso e colocam uma cantora com voz, personalidade e visual, sei que isso é música pop e pode dar certo.
Acabo de ler uma página da Folha de São Paulo entrevistando Joinchi Ito, que está à frente do famoso e badalado Media Lab, que estuda novas formas de cultura e tecnologia. Ele diz, textualmente, estudar o tecnobrega. É pouco ou quer mais?
Já havia o brega. Não me demorarei explicando. E então coloque jovens que crescem ouvindo no rádio, de um lado, bregas rasgados e merengues, do outro, Beyoncé e Rhianna. Eles querem fazer algo. Não falam nem compreendem inglês, mas compram computador e programas. Aprendem na marra. No chute. Sampleiam as batidas, os instrumentais. Fazem versões. Fazem letras. Não satisfeitos, alteram a rotação para ficar mais dançante, as vozes esganiçadas. Sem nenhum contato com um mercado local que também não existe, muito menos chegar às grandes gravadoras, eles se espalham nas aparelhagens, distribuindo gratuitamente seus produtos que logo passam a ser vendidos por camelôs e assim, alcançam o Pará inteiro. O mercado mundial em crise, sem saber o que fazer com os discos, com direitos autorais e a galera do tecnobrega faturando apenas nos cachês, implantando seu próprio mercado, de maneira informal. Os camelôs faturam vendendo mídia pirata e os artistas, nos shows. Antes, a banda Calypso já havia feito do seu jeito, sem intermediários, vendendo direto ao público.
Gaby Amarantos foi notada. Produtores se interessaram. Viram o potencial da banda Calypso. O tecnobrega tem batida dançante, mistura ideal de pop e pode enfrentar, quem sabe, o axé que ninguém aguenta mais, o forró bosta e o tal do sertanejo universitário.
Há muito acho que outros artistas com potencial musical e poético deviam pegar essa batida tecnobrega e fazer algo melhor, seja na qualidade, seja na direção do pop, como Gaby. A versão original do "Bebadoida" é irritante de tão ruim, mas o refrão, com Gaby, é irresistível. O problema é que nossos artistas de maior qualidade têm preconceito contra o pop e insistem num estilo ainda preso aos anos 60, 70, dos festivais. O mundo mudou. A música. O mercado. Quanto a representar ou não o Pará, deixo de lado. Nossa Cultura está abandonada há mais de vinte anos e não é a Gaby que vai resolver.
Que a iniciativa da Funtelpa, que levou alguns artistas a São Paulo propiciou mais pessoas a avaliar os artistas, sem dúvida alguma. Agora, sem querer dar uma de sabichão, o que precisamos, para que vivamos uma nova "Belle Epoque", como disse Paes Loureiro na "Bravo", é um programa profissional para toda nossa Cultura, de valorização, criação de mercado local. Esses artistas que foram a São Paulo e muitos outros, apareceram na marra, na luta, e ainda não se impuseram a não ser para meia dúzia mais antenada, mais ligada na internet e pequenos shows aqui e ali. Como conquistar outros mercados se não conquistamos nem o nosso? Se nem existe o nosso mercado? E o Estado tem a missão de por um lado, dar ao povo todas as condições para ter acesso às diferentes formas de Cultura e do outro lado, dar ao artista todas as condições para mostrar sua arte ao povo. É preciso técnica, profissionalismo, seriedade, a se juntar com o entusiasmo que sobra, felizmente, na atual equipe de Cultura, comandada por Nilson Chaves, na Fundação Tancredo Neves.
No mais, Gaby está apoiada por todos. No mesmo dia em que esteve no Faustão, em outro programa, Nelson Mota dizia os destaques de 2011 e ao final disse que em 2012, o nome é Gaby.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Bookends

É porque eu estava no carro e tocou "Bookends", com Simon & Garfunkel, uma canção que me leva para a adolescência, a alegria, esperança e melancolia pela timidez que me caracterizava. Eu gosto do Natal. Não me interessa se é uma data consumista. Também sou consumista. Me policio quando meu consumo se aproxima de uma atitude contra a ansiedade que tenho, muita. Mas minha família me acostumou ao Natal. Família grande. Quando éramos crianças, a entrega de presentes acontecia na manhã do dia 25. Então ganhei um "papafilas", que havia pedido. Um ônibus, puxado por um "cavalo de aço". E depois fui desfilar com ele no Lago Azul. Meu pai estranhou, quando voltei. Ao invés do "papafilas", eu puxava pelo fio um caminhão artesanal, feito com latas de óleo de cozinha, rodas com tampas de refrigerante. Eu trocara meu "papafilas" com Cícero, um dos filhos do caseiro. Paciência.
Também na minha infância, lembro do primeiro contato com Papai Noel. No térreo do Edifício Renascença ficava a loja Salevy, de Samuca Levy, a quem chamava de tio. Na época do Natal, a loja, que era uma espécie de shopping da cidade, invadia a calçada com barraquinhas e em um determinado dia, fazia a "chegada do Papai Noel". Durante a semana, corriam boatos que Noel chegaria de helicóptero ao teto do prédio. Quanta imaginação. Era um senhor apelidado de "Buraco", que ganhava a vida fazendo propaganda volante, pelas ruas do comércio, aproveitando para cumprimentar os amigos que passavam. Pai da família dona da Rauland. Ele era Noel. Chegava mais cedo e ficava escondido, aguardando o momento. Para passar o tempo, tomava umas e outras. Lá fora, uma multidão vibrava, enquanto Noel descia e em cada andar ia até o pátio para jogar bombons. E quanto mais ele se aproximava do quinto andar, maior era meu sofrimento. Noel em pessoa? Quando enfim ele entrou, me joguei embaixo de um sofá e o deixei entrar e sair livremente. Depois, Edgar veio me contar, curioso: Papai Noel conhece o papai. Chegou, falou com ele e olha, Papai Noel bebe! Papai deu a ele um copo de whisky. Mas como meu pai o conhecia? Será que poderíamos abusar daquela amizade e escolher alguns presentes?
Algum tempo depois quebrei a inocência de meu irmão Janjo ao leva-lo a esconder-se comigo atrás de uma poltrona e assistir nossos pais arrumarem os presentes. Foi mal.
O Natal começava nos primeiros dias de dezembro, na montagem da árvore. Claro que ficávamos distantes e ameaçados, já que certamente quebraríamos as bolas, na época, de vidro. Havia miniaturas, presépios e toda a cerimônia e estórias contadas por minha mãe. Estávamos de férias e aproveitávamos tudo. Hoje penso como ela dominava nossas mentes, povoando-as de imaginação.
Mas houve, mais tarde, um Noel bem interessante. Era Acelino Campos, a quem chamávamos de tio. Já velhinho, aposentado, vestia a roupa vermelha e ia de apartamento em apartamento fazendo carinho nas crianças. O problema é que o Tio Campos também gostava de beber umas e outras e quando chegava no quinto andar, já estava bem "encharcado", dizendo palavrões, xingando todo mundo, até que sua esposa, cuidadosamente o retirava do ambiente.
Eu gosto do Natal. Eu e meus irmãos sempre fomos calorosos e irônicos em nossas brincadeiras. Meus pais. O velho vinha com um envelope e entregava um cheque de presente. Coisa pouca, uma lembrança, claro. Como sinto falta dele!
Um dia me dei conta que era um perfeito adulto. Agora, eu recebia cartinhas de meus filhos. Dava dinheiro para as listas de natal. Mandava preparar bolos, doces, a ceia. É uma sensação diferente, mas confesso que acho um grande barato sair e comprar presentes. Gosto de presentear. Faço isso com amor. Quero presentear meus próximos. Fico feliz, assim. Não me queixo nem fico insuportável por conta do exagerado consumo, como gritam. Neste Natal dois irmãos estarão fora, bem como suas famílias. Eu mesmo estarei sem um de meus filhos que está longe, viajando. Eu e os irmãos somos todos de meia idade para cima mais cônjugues, namoradas, filhos e suas esposas. Um grupo mais heterogêneo. Mas quando chega a meia noite, rezamos e distribuindo presentes, os nomes cantados em voz alta, descubro-me a mesma criança que pediu o "papafilas" de Natal e o trocou por um caminhão artesanal, feito com latas de óleo. Sinto uma melancolia gostosa que nada mais é do que nostalgia pelos Bookends e a emoção de poder estar aqui, com as pessoas que amo, principalmente minha mãezinha querida.

Surpresa?

Quem tem tv a cabo ou é meramente mais curioso além dos jogos de futebol que passam nos canais abertos, sabe perfeitamente o tipo de futebol que vem sendo jogado na Europa, principalmente na Espanha, precisamente pelo Barcelona. Hoje, muitos jovens já torcem abertamente por Barça ou Real, Arsenal ou Manchester, atraídos pelo bom e moderno jogo, os gramados perfeitos e a ética posta em prática. Tudo ao contrário que acontece no Brasil. Durante a semana que antecedeu ao jogo entre Santos e Barcelona, não me preocupei com as manchetes enchendo a bola de Neymar & Cia. Tudo era promoção do jogo. Mas parece ter sido necessário os brasileiros levarem o previsível baile para que todos se dessem conta do abismo em que nos encontramos. O que melhor tem saído é que a derrota fez o futebol brasileiro ir para o divã. Agora, todos querem mudanças. O técnico do Santos, com a estupidez usual, fez de conta que não levou uma lição atordoante. Pepe Guardiola ainda deu a última bofetada, dizendo que o Barcelona tenta jogar como os brasileiros jogavam. Na América do Sul, recentemente, o tipo da Universidade Católica do Chile tornou-se campeão da Copa Sulamericana de maneira invicta. Deu surras no Flamengo e Vasco desmoralizantes. Seu técnico, desconhecido, argentino, copia o modelo catalão de jogar. Quanto menor a distância entre o último defensor e o último atacante, mais compacto estará a equipe. Toque de bola. Toque de primeira. Toque rasteiro. Não desperdice a bola. Controle da bola pelo maior tempo possível. Circulação da bola, como no basquete ou futsal, aguardando uma infiltração, geralmente na diagonal, para driblar o impedimento. E gente que sabe jogar bola. Todos. Um zagueiro como o esforçado Durval, não poderia estar ali, naquele jogo. Não sabe jogar. Está nervoso. Neymar é melhor que Messi? Não brinquem. O brasileiro até pode chegar a ser como o argentino, mas vai precisar jogar competições importantes, suportar pressão, jogar para o time, ter toda ética do mundo, disputar Copa do Mundo e ser um gênio. Ainda falta muito. Fiquei com pena de Ganso. Não conseguiu jogar. Ainda assim, foi autor dos poucos passes, dois ou três, que representaram perigo para Baldez. E Mano Rodrigues, o que diz? Até agora sua seleção serviu apenas para vender o passe de corinthianos ruins de bola. Não tem seleção, não tem esquema, não tem nada. Será que há porvir para nós?

Sem noção

Não é querer ser saudosista. Achar que o passado é melhor, mas creio que a juventude de agora, em Belém do Pará é simplesmente sem noção. Não posso acreditar quando jovens que estudam nas melhores instituições (se é que elas existem por aqui), viajam para os melhores lugares no exterior (se é que realmente vão aos melhores lugares), vestem as roupas de griffe e trafegam em pequenos caminhões brancos, reluzentes, importados, pois bem, não posso acreditar quando lotam lugares tidos como os mais badalados para ouvir música sertaneja! É demais. Mas acontece. Há comerciais na tv dos discos desses ninguéns (para mim). Ouvi alguém chamar de "sertanejo universitário", o que é muito pior. Seria o "agrobrega". Até o final dos anos 80, para não ir muito longe, a juventude optava pelo rock, mesmo o de bermudas dos Paralamas ou o político dos Titãs. O rock continua sendo exaustivamente usado por toda a propaganda jovem, por sugerir uma rebeldia que já não existe. O tal "rebelde sem causa" do Ultraje a Rigor. Mas o jovem brasileiro, com tantas causas a abraçar, prefere uma cerveja e um abadá para pular e beijar até cansar. Mas sertanejo, please, é demais. Estéticamente não consigo achar o ponto. Sei que depois do rock anos 80, veio a mistura de brega e balada. Que os sertanejos entraram na onda. Então houve uma queda, talvez por excesso de exposição de Chitãozinho (que apelido!!!!) e que tais. De repente, duplas de jovens bem apessoados, mas extremamente cafonas toma conta do Brasil e em Belém, muito mais. Sertanejo universitário!!! É o fim do mundo.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Ávida Vida que segue

1. Como foi pensado e produzido o livro. Quanto tempo levou para ser concluído?
Há um ou dois anos atrás, lancei “O Tempo do Cabelo Crescer”, uma seleção feita entre os poemas dos livros “Navio dos Cabeludos”, “Rei do Congo”, “Surfando na Multidão” e “Incêndio nos Cabelos”. É porque fazia muito tempo que não lançava nada em poesia, acabei me dedicando a outros gêneros e com o livro, quis me reapresentar. Já o “Ávida Vida” reúne poemas que escrevi ao longo de uns cinco anos, muitos deles por provocação de meu irmão Janjo, a quem o trabalho é dedicado, autor de todas as capas dos meus livros. Ele me provoca com imagens feitas para toalhinhas do Roxy Bar e eu escrevo. Achei que era o momento de reunir essas obras e pensei em uma frase de Pirandello, que ouvi na peça “O Homem com a Flor na Boca”, encenada pelo Cacá Carvalho: a vida é tão ávida de si mesma que não se deixa saborear”. Então virou “Ávida Vida”, que tem tudo a ver comigo. Sou curioso e ávido por informação. Faço várias coisas ao mesmo tempo. Estou sempre cheio de projetos. E a vida é tão veloz, há tanta informação pipocando aqui e ali que fazem acelerar mais ainda minhas sinapses.
A capa do livro é autoria de meu irmão Janjo, mas a foto é do amigo Luiz Braga. Fiquei feliz em perceber que ele usou a mesma técnica de seus últimos trabalhos, a partir de night shot. Foi feita na Praça da República, lugar importante para mim, em um obelisco feito para homenagear Magalhães Barata em sua Interventoria, creio, em 1930. É um lugar bonito, muito abandonado, mas que nos últimos dias vem recebendo uma maquiagem da Prefeitura. E é foto de Luiz Braga, não é?

2. Faça uma breve descrição do livro.
A poesia é tão rica, tão vária, que me permite escrever. Li um escritor francês, jovem, dizendo algo maravilhoso: escrever é muito fácil. Por isso é tão difícil. Respeito muito os poetas que maturam anos e anos seus poemas, como ourives. Eles estudam, sabem as regras, e eu não sei nenhuma. Me tornei escritor por pura ousadia. Não sei bem se escrevo poemas. Quem sabe pequenas cenas teatrais com um vies poético? Como disse, é tão vária? O golpe poético nos atinge sem mais nem menos e emociona. Como abrir uma gaveta e encontrar pistolas adrianino, fazer a faísca e iluminar a noite de uma cidade cinza. Se são autobiográficos? Não sei, quem sabe? Às vezes. Um escritor escreve sobre o que vê, sobre o que quer dizer. Usa mascaras, personagens, mas às vezes usa mascara de seu próprio rosto. As palavras são navalhas.

3. Ele é distribuido por qual editora? Onde pode ser adquirido?
Não, este livro não é distribuído por ninguém. A poesia tem tido pouco mercado, pouco interesse. Acham chato, respeitável demais, difícil de entender. Queria que o poeta voltasse a ser como um cantor pop, identificado com o público. Queria excitar as pessoas, acertá-las com o golpe poético. Às vezes, um sorriso de canto de boca já me sacia. Como Haroldo Maranhão, sou como um cão hidrófobo que sai pelas ruas à procura de uma vítima, um leitor. Nesta terça, no Teatro Cuíra, onde será o lançamento, haverá no palco um microfone. Quem for até lá e ler um dos poemas do livro, o receberá gratuitamente. Quero que circule. Quero ser lido. Quero a poesia lida. O que sobrar, ainda vou pensar onde colocar à venda.

4. Fale sobre sua carreira como escritor.
Comecei escrevendo uma peça de teatro, “Foi Boto Sinhá”, com a ajuda do grande poeta José Maria Vilar Ferreira. Acho que venci a timidez de apresentar algo de minha autoria. Estava lendo os poetas marginais nos anos 70 e percebi que vinha escrevendo algo semelhante. Paes Loureiro, que fez a apresentação do meu primeiro livro, disse que eu trazia comigo a informação da música pop. Correto. Escrevi outros livros com poemas, duas fitas cassete, reuní meus textos de teatro, depois vieram romances, crônicas, contos e agora retomo a poesia. Com os romances, fui lançado nacionalmente. Um deles, “Casa de Caba”, foi traduzido e lançado na Inglaterra, com o título “Hornets’Nest”. Também participei de coletâneas nacionais e internacionais, estas, lançadas no Peru e no México. Tudo o que escrevo se passa em Belém, meu cenário, minha casa. Pretendo no ano que vem lançar mais um livro nacionalmente, “Selva Concreta, com short stories, episódios de uma fictícia série policial de televisão, claro, passada em Belém.

4. Quantos livros publicados (nome + ano)?
Não sou muito bom em datas.
Navio dos Cabeludos, poemas
Rei do Congo, poemas
Surfando na Multidão, poemas
Incêndio nos Cabelos, poemas
Os Éguas, romance, Boitempo Editora
O Teatro de Edyr Augusto, textos teatrais
Moscow, romance, Boitempo Editora
Crônicas da Cidade Morena 1, crônicas
Casa de Caba, romance, Boitempo Editora
Crônicas da Cidade Morena 2, crônicas
Um sol para cada um, contos, Boitempo Editora
O Tempo do cabelo crescer, coletânea de poemas
Ávida Vida, poemas

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Era uma vez o melhor futebol do mundo

Acabo de assistir à derrota do Vasco, no Chile. Somente as circunstâncias próprias do futebol para garantir mera possibilidade dos brasileiros vencerem. O time chileno é melhor. Muito melhor. Agora, até o orgulhoso técnico da nossa seleção já declara estarmos defasados em relação ao futebol mundial. Inteiramente, eu diria. A culpa talvez ainda seja da derrota de nossa seleção inesquecível em 82 e a vitória em 94. Vieram nossos cabeças de área. Nossa preocupação em defender, destruir, justamente quando nossa melhor qualidade era atacar, criar. O futebol mudou. O Barcelona escalou em seu último jogo, dois volantes na zaga central e de quarto zagueiro (para usar nomenclatura antiga, difícil de entender para os mais novos, outro dia explico). Em artigos, desde que militava na imprensa esportiva, já dizia isso. Quem melhor para sair jogando? O primeiro passe é essencial. Disse o locutor da Globo que o técnico da Universidade Católica do Chile escalou laterais como volantes, dois pontas abertos e muita movimentação. É isso. O jogo ficou mais rápido. O passe, não de curva, espetacular, mas difícil de dominar, mas rasteiro, principalmente na Europa, se tornou preponderante. Drible no momento certo, que digam os jogadores do Barcelona. Os ingleses, com pouco menos talento, fazem o mesmo. A distância entre o último homem de defesa e o último atacante é a menor possível. Todos muito próximos. Era final de jogo e havia dois jogadores marcando os espantados vascaínos. Zagueiros hábeis, rápidos na cobertura. Ataque móvel, trocando de posições com os meio campistas. E marcação. Os zagueiros brasileiros ficam loucos quando são marcados, mas aqui no Brasil, parece vergonha atacante marcar zagueiro. Nossos jogadores de meio campo, quatro, cinco às vezes, não têm habilidade. Nossos zagueiros, mano a mano, apelam para a falta, pois são ruins. Quando La U esmagou o Flamengo no RJ, vi tudo. A distância em que estamos. Atrasados. Violentos. Ruins. Lentos. Fazendo ligação direta. Jogando no erro do adversário. Fazendo faltas por falta de categoria. Os chilenos e muitos outros ganhariam, creio, de todos os nossos times. Até do Santos, creio. Sim, eu também torço por Ganso e Neymar. Acho inclusive que há alguma chance contra um Barcelona menos interessado, preocupado porque está atrás do Real no campeonato espanhol. E o futebol tem suas circunstâncias. Mas mesmo com os dois craques, mais Borges na frente, dois ou três outros, o Santos joga antigo. Beques, armadores e atacantes distantes. E não é falta de preparo físico. Correm muito, mas correm para bater, derrubar. Não correm para trocar passes. Dizem que Messi não é o mesmo na seleção argentina. Não é. Cada argentino pega na bola e quer dar dois, três toques. Messi não joga assim. Fica diferente para ele. Outra velocidade. Outra logica. Coisa antiga. Os campos estão melhores. A bola rola. O passe rasteiro. A posse de bola. O domínio da bola sem medo do adversário, sabendo de sua condição técnica e do deslocamento dos colegas para dar o passe. O futebol ficou mais bonito, veloz, inteligente, com passes e dribles lindos, precisos. Ganso é o único armador brasileiro. Os outros são D'Alessandro, Montillo, aquele do Flamengo, todos não brasileiros. Não temos novos craques. Nossa seleção é ruim, mal conduzida, mal escalada, distante dos primeiros lugares no forum mundial. Nossos times também. É hora de acabar com nossa empáfia de ter o melhor futebol do mundo. Não temos mais.