quarta-feira, 22 de maio de 2013

Você jurou que eu ia ser feliz


 A crença de que a felicidade é um direito tem tornado despreparada a geração mais preparada
ELIANE BRUM
   Divulgação
Ao conviver com os bem mais jovens, com aqueles que se tornaram adultos há pouco e com aqueles que estão tateando para virar gente grande, percebo que estamos diante da geração mais preparada – e, ao mesmo tempo, da mais despreparada. Preparada do ponto de vista das habilidades, despreparada porque não sabe lidar com frustrações. Preparada porque é capaz de usar as ferramentas da tecnologia, despreparada porque despreza o esforço. Preparada porque conhece o mundo em viagens protegidas, despreparada porque desconhece a fragilidade da matéria da vida. E por tudo isso sofre, sofre muito, porque foi ensinada a acreditar que nasceu com o patrimônio da felicidade. E não foi ensinada a criar a partir da dor.
Há uma geração de classe média que estudou em bons colégios, é fluente em outras línguas,viajou para o exterior e teve acesso à cultura e à tecnologia. Uma geração que teve muito mais do que seus pais. Ao mesmo tempo, cresceu com a ilusão de que a vida é fácil. Ou que já nascem prontos – bastaria apenas que o mundo reconhecesse a sua genialidade.
Tenho me deparado com jovens que esperam ter no mercado de trabalho uma continuação de suas casas – onde o chefe seria um pai ou uma mãe complacente, que tudo concede. Foram ensinados a pensar que merecem, seja lá o que for que queiram. E quando isso não acontece – porque obviamente não acontece – sentem-se traídos, revoltam-se com a “injustiça” e boa parte se emburra e desiste.
Como esses estreantes na vida adulta foram crianças e adolescentes que ganharam tudo, sem ter de lutar por quase nada de relevante, desconhecem que a vida é construção – e para conquistar um espaço no mundo é preciso ralar muito. Com ética e honestidade – e não a cotoveladas ou aos gritos. Como seus pais não conseguiram dizer, é o mundo que anuncia a eles uma nova não lá muito animadora: viver é para os insistentes.
Por que boa parte dessa nova geração é assim? Penso que este é um questionamento importante para quem está educando uma criança ou um adolescente hoje. Nossa época tem sido marcada pela ilusão de que a felicidade é uma espécie de direito. E tenho testemunhado a angústia de muitos pais para garantir que os filhos sejam “felizes”. Pais que fazem malabarismos para dar tudo aos filhos e protegê-los de todos os perrengues – sem esperar nenhuma responsabilização nem reciprocidade.
É como se os filhos nascessem e imediatamente os pais já se tornassem devedores. Para estes, frustrar os filhos é sinônimo de fracasso pessoal. Mas é possível uma vida sem frustrações? Não é importante que os filhos compreendam como parte do processo educativo duas premissas básicas do viver, a frustração e o esforço? Ou a falta e a busca, duas faces de um mesmo movimento? Existe alguém que viva sem se confrontar dia após dia com os limites tanto de sua condição humana como de suas capacidades individuais?
Nossa classe média parece desprezar o esforço. Prefere a genialidade. O valor está no dom, naquilo que já nasce pronto. Dizer que “fulano é esforçado” é quase uma ofensa. Ter de dar duro para conquistar algo parece já vir assinalado com o carimbo de perdedor. Bacana é o cara que não estudou, passou a noite na balada e foi aprovado no vestibular de Medicina. Este atesta a excelência dos genes de seus pais. Esforçar-se é, no máximo, coisa para os filhos da classe C, que ainda precisam assegurar seu lugar no país.
Da mesma forma que supostamente seria possível construir um lugar sem esforço, existe a crença não menos fantasiosa de que é possível viver sem sofrer. De que as dores inerentes a toda vida são uma anomalia e, como percebo em muitos jovens, uma espécie de traição ao futuro que deveria estar garantido. Pais e filhos têm pagado caro pela crença de que a felicidade é um direito. E a frustração um fracasso. Talvez aí esteja uma pista para compreender a geração do “eu mereço”.
Basta andar por esse mundo para testemunhar o rosto de espanto e de mágoa de jovens ao descobrir que a vida não é como os pais tinham lhes prometido. Expressão que logo muda para o emburramento. E o pior é que sofrem terrivelmente. Porque possuem muitas habilidades e ferramentas, mas não têm o menor preparo para lidar com a dor e as decepções. Nem imaginam que viver é também ter de aceitar limitações – e que ninguém, por mais brilhante que seja, consegue tudo o que quer.
A questão, como poderia formular o filósofo Garrincha, é: “Estes pais e estes filhos combinaram com a vida que seria fácil”? É no passar dos dias que a conta não fecha e o projeto construído sobre fumaça desaparece deixando nenhum chão. Ninguém descobre que viver é complicado quando cresce ou deveria crescer – este momento é apenas quando a condição humana, frágil e falha, começa a se explicitar no confronto com os muros da realidade. Desde sempre sofremos. E mais vamos sofrer se não temos espaço nem mesmo para falar da tristeza e da confusão.
Me parece que é isso que tem acontecido em muitas famílias por aí: se a felicidade é um imperativo, o item principal do pacote completo que os pais supostamente teriam de garantir aos filhos para serem considerados bem sucedidos, como falar de dor, de medo e da sensação de se sentir desencaixado? Não há espaço para nada que seja da vida, que pertença aos espasmos de crescer duvidando de seu lugar no mundo, porque isso seria um reconhecimento da falência do projeto familiar construído sobre a ilusão da felicidade e da completude.
Quando o que não pode ser dito vira sintoma – já que ninguém está disposto a escutar, porque escutar significaria rever escolhas e reconhecer equívocos – o mais fácil é calar. E não por acaso se cala com medicamentos e cada vez mais cedo o desconforto de crianças que não se comportam segundo o manual. Assim, a família pode tocar o cotidiano sem que ninguém precise olhar de verdade para ninguém dentro de casa.
Se os filhos têm o direito de ser felizes simplesmente porque existem – e aos pais caberia garantir esse direito – que tipo de relação pais e filhos podem ter? Como seria possível estabelecer um vínculo genuíno se o sofrimento, o medo e as dúvidas estão previamente fora dele? Se a relação está construída sobre uma ilusão, só é possível fingir.
Aos filhos cabe fingir felicidade – e, como não conseguem, passam a exigir cada vez mais de tudo, especialmente coisas materiais, já que estas são as mais fáceis de alcançar – e aos pais cabe fingir ter a possibilidade de garantir a felicidade, o que sabem intimamente que é uma mentira porque a sentem na própria pele dia após dia. É pelos objetos de consumo que a novela familiar tem se desenrolado, onde os pais fazem de conta que dão o que ninguém pode dar, e os filhos simulam receber o que só eles podem buscar. E por isso logo é preciso criar uma nova demanda para manter o jogo funcionando.
O resultado disso é pais e filhos angustiados, que vão conviver uma vida inteira, mas se desconhecem. E, portanto, estão perdendo uma grande chance. Todos sofrem muito nesse teatro de desencontros anunciados. E mais sofrem porque precisam fingir que existe uma vida em que se pode tudo. E acreditar que se pode tudo é o atalho mais rápido para alcançar não a frustração que move, mas aquela que paralisa.
Quando converso com esses jovens no parapeito da vida adulta, com suas imensas possibilidades e riscos tão grandiosos quanto, percebo que precisam muito de realidade. Com tudo o que a realidade é. Sim, assumir a narrativa da própria vida é para quem tem coragem. Não é complicado porque você vai ter competidores com habilidades iguais ou superiores a sua, mas porque se tornar aquilo que se é, buscar a própria voz, é escolher um percurso pontilhado de desvios e sem nenhuma certeza de chegada. É viver com dúvidas e ter de responder pelas próprias escolhas. Mas é nesse movimento que a gente vira gente grande.
Seria muito bacana que os pais de hoje entendessem que tão importante quanto uma boa escola ou um curso de línguas ou um Ipad é dizer de vez em quando: “Te vira, meu filho. Você sempre poderá contar comigo, mas essa briga é tua”. Assim como sentar para jantar e falar da vida como ela é: “Olha, meu dia foi difícil” ou “Estou com dúvidas, estou com medo, estou confuso” ou “Não sei o que fazer, mas estou tentando descobrir”. Porque fingir que está tudo bem e que tudo pode significa dizer ao seu filho que você não confia nele nem o respeita, já que o trata como um imbecil, incapaz de compreender a matéria da existência. É tão ruim quanto ligar a TV em volume alto o suficiente para que nada que ameace o frágil equilíbrio doméstico possa ser dito.
Agora, se os pais mentiram que a felicidade é um direito e seu filho merece tudo simplesmente por existir, paciência. De nada vai adiantar choramingar ou emburrar ao descobrir que vai ter de conquistar seu espaço no mundo sem nenhuma garantia. O melhor a fazer é ter a coragem de escolher. Seja a escolha de lutar pelo seu desejo – ou para descobri-lo –, seja a de abrir mão dele. E não culpar ninguém porque eventualmente não deu certo, porque com certeza vai dar errado muitas vezes. Ou transferir para o outro a responsabilidade pela sua desistência.
Crescer é compreender que o fato de a vida ser falta não a torna menor. Sim, a vida é insuficiente. Mas é o que temos. E é melhor não perder tempo se sentindo injustiçado porque um dia ela acaba.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Edyr Proença - 19 de maio


Se estivesse vivo, Edyr Paiva Proença completaria 93 anos neste domingo, dia 19. Pena, faleceu no dia 5 de maio de 1998, há 15 anos atrás. A Rádio Clube do Pará fez uma festa para comemorar 85 anos de existência. Sim, havia retratos dele e de meu avô em totens espalhados no salão. Mas fora isso, não houve menções maiores. Vivemos outro tempo, a emissora tem outros donos e muitos números positivos a festejar. Mas seja o que for, é impossível dissociar a Prc5 de Edyr Proença. Mesmo sendo o rádio o veículo do imediatismo, onde tudo que é produzido vai ao ar e após recebido ou não pelo público, perde-se, os feitos de Edyr Proença ficaram. Sua acuidade, cultura, respeito, palavra fácil e equilibrada. Sua honestidade, retidão de caráter. Todos sabiam suas preferencias clubísticas e no entanto, não imagino ninguém com mínimo razoabilidade, emitir conceito ruim sobre suas locuções.
Curiosa sua trajetória. Filho de Edgar Proença, esfuziante, mestre da comunicação, do empreendedorismo, jornalista, radialista, escritor, enveredou pela música, montando o grupo Bando da Estrela, onde Celeste Proença era cantora. Mas na medida em que inicia os trabalhos e adiante, casa e começam a chegar os filhos, transforma-se no homem sério, trabalhador, jornalista e radialista preciso, assessor de imprensa no Basa. Claro, entre amigos, permanece o excelente conversador, contador de anedotas. Um tanto ausente para nós, pois trabalhava de manhã, à tarde e à noite, para dar conta das contas da molecada. De vez em quando tirava o violão da caixa e tocava suas serestas para o mais seleto dos públicos, seus filhos. O Edgar Augusto fuçou e descobriu um acetato com as gravações do Bando da Estrela. Adolescemos e de repente, o pai que era enérgico, duro e exigente, também começou a adolescer. Já havia companheirismo. Passei minha infância e adolescência acompanhando-o aos jogos de futebol. Milhares. Aprendendo a ler o que acontecia. A ser equilibrado. Acompanhando-o às peladas noturnas no Lago Azul. Puxa, como convivemos nessa época. E agora, as conversas sobre Cultura, que explodia no mundo. Política, não. Detestava. Meu irmão Edgar ainda ouviu e foi ver algumas cenas. Eu não podia. Estava mergulhado na Cultura. Veio um festival universitário. Inscrevi duas músicas. Não passaram. Mas escrevi uma letra, pensando no universo de meu pai e entreguei. Hesitou. Há quantos anos não compunha? Pensou que era para o festival. Não. Virou “Amor Imperfeito”, sucesso nas rodas de seresta, com a participação ativa de minha mãe que acrescentou versos. E despertou de uma vez por todas o Edyr artista. Vieram muitas e muitas. E “Bom dia Belém”, sobre versos de minha tia Adalcinda. Aposentado, dizia, agora, não ter tempo para mais nada. E compunha, tocava e queria opinião. Escreveu livros. Comprou computador. Estava diariamente em minha sala, conversando sobre tudo. Vida, velhice, amigos, futebol, claro, amava sua vida renascida, o Edyr do Bando da Estrela de volta. Parou de jogar futebol ali pelos 60 anos. Hoje, estou às vésperas dos sessenta e descubro, em meus papéis, um texto, poema, sei lá, que lhe entreguei, junto com presente, nos seus 60. Ufa, tempo que passa. Não, ele não era caloroso em gestos. Era a intensidade do olhar e da fala. Só o vi chorar uma vez. Um desastre. Uma perda. Eu e ele, juntos, na situação.
Agora está sendo gravado um cd com músicas suas que ficaram inéditas, cantadas por Andréa Pinheiro e arranjos de Luiz Pardal e Jacinto Kahwage, com o patrocínio da Fundação Tancredo Neves, onde trabalhou como Diretor do Museu da Imagem e do Som e que hoje mantém um Hall com seu nome, no quarto andar.
Entrou com seus próprios pés no hospital. Era uma bobagem. A infecção o pegou. Foi como se o cérebro fosse desligando aos poucos, aquele computador Hal, tipo. Aquele gigante, meu herói, exemplo, tudo. Já não respondia mais. Ultrapassei todos os limites impostos até então. Passei a mão em seus cabelos, acariciei sua cabeça e chorei.
Ele passou a me acompanhar, muito mais do que antes. O consulto sobre tudo. E também lembro de acaricia-lo. Sinto os dedos passando sobre os fios ralos e finos. Naquele momento, estive tão junto, tão colado a ele, quanto nunca. Às vezes, erram ao me chamar de Edyr Proença. Não. Sou Edyr Augusto. Mas não conserto. Gosto disso. Ouvir os amigos dizendo “de Paiva Proença”, embutindo amizade e respeito. E tudo o que ele queria, me disse, era ser um homem bom. Foi. E é tudo o que também almejo.

terça-feira, 16 de abril de 2013

Sozinho em Abbey Road


Aos que passam por aqui, de vez em quando, perdão pela ausência. Preguiça e cansaço. O ano passado foi intenso na área da escrita e fui deixando, deixando. Se volto é por que não consigo evitar escrever e, talvez, argumentar comigo próprio, usando a escrita, algo com que não me conformo. Meu pai dizia que o Pará é terra onde se cansa cedo. Pode ser. Há momentos em que o cansaço invade brutalmente e quase desistimos. Dura um tempo, mas passa. Há medo de atingir amigos, aqui e ali, de algum jeito, envolvidos, mas decidi escrever. Creio haver muito pouca oposição às atitudes tomadas pelo Governo do Estado e Prefeitura, na área da Cultura. E no entanto, sou totalmente contra. Por favor, ponham de lado essas coisas de “má vontade, inveja, ciúme, oposição política”, enfim. Não é por aí. E se publico o texto é porque se trata da coisa pública e pronto. Eliana Jatene chega ao quarto mês à frente da Fumbel e nada sabemos sobre qualquer política cultural a ser desenvolvida. A Prefeitura tem estado ausente da área por uns 30 anos. Zenaldo avisou que a Cultura ia esperar. Que tivesse paciência. Essa é boa. Não vê que toda a situação de violência, tensões sociais, são reflexo exatamente da falta de Cultura e Educação. Quem sabe ache Cultura, o mesmo que Lazer. Talvez a Fumbel esteja ocupada preparando o concurso de quadrilhas juninas. E tanta coisa poderia ser feita, gastando o mínimo de verba!
Quanto ao Estado, consegue piorar a cada ano que passa. Não sei onde vamos parar. Em Saturno, Marte, talvez. Conseguem ir de encontro a todas as possibilidades sensatas. Um dos casos é o Terruá Pará. Primeiro, deveria haver, por parte da Secretaria de Cultura, uma política cultural em relação à Música, que aos poucos, constituísse um mercado. Aí, então, viria a Secretaria de Comunicações e escolheria, sabe lá como, artistas para levar a outros Estados, nossa arte. Sem conquistar sua aldeia, como querer conquistar o mundo? O Secretário de Cultura parece estar no cargo apenas para construir o Parque da Pirelli e outros berloques. Nada existe. Mas não cessa a vontade de fazer acontecer. Nada de um, dois, três e quatro. É preciso fazer cinco, de imediato, correr para o abraço. Então escolhem músicos segundo um critério qualquer e os embarcam em grande, caríssima e luxuosa empreitada, que resulta até em filme, quem sabe, Buena Vista Social Club. Para aplacar algumas críticas, o novo Terroir agora abre edital para shows locais e uma nova excursão. Quais serão os critérios para a nova turma se apresentar? Mas, um momento, nada disso é feito pela Secretaria de Cultura? Edital? Shows locais? O pior é a certeza que todos parecem ter em estar realizando a grande ação, injetando vida na música paraense, finalmente realizando todas as suas possibilidades. Chegam a ter semblantes messiânicos. Tenho amigos, pessoas a quem admiro o trabalho, envolvidas. Nada contra. Profissionalmente, tudo certo. Mas talvez tenha sido o clima ideal, tudo à mão, na hora, custe quanto custar, a fraternidade entre as pessoas, que parece também conquistar todos. Sinceramente, cheguei a refletir se seria “má vontade, ciúme, inveja”, de minha parte. Não é. Enquanto não houver uma política cultural que garanta a construção de um mercado, seja de shows, por todo o Estado, seja de programas e programação em Rádio e Televisão, de maneira profissional, a realidade dos nossos músicos é a gaiola da Estação das Docas, tocando parabéns pra você para quem pedir. Quem dera que todo o dinheiro que está sendo empregado, seja em viagens, produção, equipamento, material de divulgação, ótimos profissionais, fosse gasto na direção certa. Uma coisa é certa: enquanto não conquistar sua aldeia, como querer conquistar o mundo? Tirando Gaby, Felipe, Eletro e poucos mais, quem lotaria o Hangar para um show? Lotaria uma praça pública em Marabá, Santarém? Apostar nessa música pop paraense é maravilhoso. Estou do lado, aplaudindo. Adoro todos eles. Mas bota pra rodar aqui, vamos trabalhar profissionalmente e não querer correr pro abraço, para as fotos, realizar sonhos pessoais, com algo tão grandioso, tão sério, mais ainda, com a vida e a carreira de pessoas.
É pouco? E a tal Feira Pan Amazônica do Livro, que agora é realizada no primeiro semestre? E tudo isso, para não incomodar financeiramente o Festival de Ópera! Tira os tubos! Nada contra se um empresário aluga o Hangar e depois subloca espaços para editoras e livrarias. Contrata alguns escritores, cobra ingresso, faz a Feira e ganha o seu. Parabéns. Mas quando é o Governo do Estado, não. Aí, fazer uma Feira seria o coroamento, o ápice de toda uma atuação anual, lançando novos escritores, relançando livros importantes, fora do catálogo e tornando mais conhecidos os escritores da atualidade, fazendo com que circulem pelo Estado, enfim, não vou ensinar. Nada disso. Os autores locais têm um pequeno espaço onde ficam pirangando atenção, que somente recebem Luís Veríssimo, Zuenir Ventura e outros grandes nomes da Literatura Nacional que ganham cachê, fazem palestra, vendem livro, são levados para passear e saem daqui felizes da vida. Aos escritores locais, nada. Que Feira é essa? As últimas parecem um camelódromo, com stands horríveis, livros empilhados, duas ou três editoras fazendo boa figura e só. E qual a razão para Pan Amazônica? Onde estão as delegações dos Estados, dos Países Amazônicos? E homenageiam, desta vez, Ruy Barata e Raimundo Jinkings. Mas não relançaram seus livros, não realizaram, ao longo do ano, colóquios no Estado, debatendo suas obras. Não fizeram nada. Sei que há umas duas ou três Feiras sendo realizadas no interior, mas se tomam por base a “Pan”, não posso considerar. Pior, deveria ser no final do ano, como ápice do trabalho realizado. Não. O segundo semestre é do Festival de Ópera. Desliguem os tubos! Nada contra a ópera, naturalmente, mas se você tivesse um dinheiro contado para usar na área da música, iria destinar ao fomento de um mercado popular, no mínimo para conquistar seu povo, ou iria jogar tudo na Ópera, mesmo ela, por diversos motivos, sendo absolutamente impopular? E você tem cinco, seis apresentações, de graça, com mil pessoas por sessão. Será esse número competitivo ou um delírio pessoal que todos bancam, alegremente, com seus dinheiros bem pagos? Com o orçamento da ópera, todos os nossos artistas teriam feito suas carreiras, inteiras, ao longo de suas vidas.
Meu pai tinha razão, aqui a gente cansa cedo. Há momentos em que me sinto sozinho em Abbey Road. Me sinto apartado da realidade, como se meus pensamentos, conexos, fossem exatamente ao contrário. Penso em nada dizer, porque há até amigos envolvidos, artistas respeitados, a caravana está alegre, feliz, ensaiando, recebendo uma atenção anormal, todos os profissionais envolvidos. E no entanto, está tudo errado! O Côro dos Contentes passa fazendo barulho e eu não digo sim. Então vim até aqui e escrevi este texto. Na boa. Por acreditar no Bem. Querendo o melhor para o Pará. Sem ganhar PN com isso. Enfim, escrevo para mim. Para pensar escrevendo. O que acham?

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Selva Concreta no Le Monde Diplomatique, que chique!

Selva Concreta
Edyr Augusto, Ed. Boitempo Editorial


“Tei, tei, tei.” O estrondo ecoa na Amazônia. Não, não é nenhum som de uma tribo da floresta; é o som dos tiros que matam um dos personagens de Selva concreta, novo livro de Edyr Proença.
Gil, o condutor da narrativa, é um jovem delegado que trabalha em Belém do Pará, em uma cidade completamente diferente da imagem idílica que algumas canções entoam sobre o lugar. Não se engane, meu caro leitor. Você não vai encontrar na “selva” de Proença o Círio de Nazaré, o Ver-o-Peso, as mangueiras, o açaí. A cidade sobre a qual ele escreve é feita de assassinos, traficantes e corruptos. Tem-se Mariella, a menina do interior que, vendida pela família a um traficante, vira DJ de festa de tecnomelody na capital e vive a vã esperança de reaver o filho. Tem-se o vingador, um serial killerque, através da internet, seduz jovens meninas e as mata em um ritual de magia negra. E Urubu, o jornalista que está sempre pronto a devorar e exibir para o público sua carniça do dia.
Com uma escrita de parágrafos curtos, entremeados por ações simultâneas e linguagem coloquial, vamos passando pela Belém que, de certa forma, é aquela que surgiu nos últimos vinte anos. As histórias são típicas, mas de uma tipicidade do cotidiano contemporâneo, dos fatos que enchem os jornais, da decrepitude de uma cidade que já se quis a Paris dos trópicos. É lamentável? É. Mas a literatura de Proença não lamenta a cidade, ela a representa. Repleta de gente e do mal. É claro que Belém não é apenas isso, mas esse isso não é mera invenção literária.
Selva concretapode não ser literatura densa, pode não perscrutar as dimensões profundas da existência, como na obra de Dalcídio Jurandir sobre Belém. Mas talvez seja uma literatura possível para uma realidade que já não se preocupa tanto em desvelar algo, já que tudo está à mostra, tudo está diante de nossos olhos, ao mesmo tempo atônitos e acostumados, como olhos diante do barulho de tiros. “Tei, tei, tei.”


Relivaldo Pinho
Professor da Universidade da Amazônia

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Helena Beatriz Kup

Ela foi minha primeira professora de Inglês. Adolescente, chegada de colégio interno, se dispôs a me ajudar, por indicação de seus pais, Bolivar e Yara, ele sendo Cônsul da Inglaterra e executivo da Booth Line em Belém. Moravam em um prédio lindo, arquitetura inglesa, três ou quatro andares, corredores largos, piso de tábua corrida, que foi criminosamente derrubado para levantar no local um monstrengo dito moderno, onde está a Caixa Econômica, na subida da Presidente Vargas. 
Linda, animada, feliz e cheia de imaginação, ela facilmente obteve minha atenção e meu amor, mesmo que a tenha decepcionado. Em uma reunião social, chamou o pai para me apresentar. Ele perguntou How are you? Apanhado de surpresa, resmunguei um "ainda não dei isso" e caí fora, para seu desgosto. Que  nada, era uma pessoa leve, de riso fácil. Eu tinha meus oito, nove anos. Talvez tenha ido para férias longas no Rj com minha avó, sei lá. Não falamos mais. Casou, mudou. Parece mentira, mas ficamos 50 anos sem falar. Eu sempre com a lembrança bonita, feliz, de Beatriz, agora, sem que soubesse, chamada apenas por Helena. Casou com militar, morou na Inglaterra, Estados Unidos, França e finalmente no Rio de Janeiro, em um prédio antigo, tombado, elevador clássico, lindo, apartamento gigantesco, móveis deslumbrantes. As filhas casadas, agora com netos. O marido aposentado, mas ainda dando cursos na FGV. Como sei? Incrível.
Escrevi alguma coisa neste blog e a mencionei. Um neto, morando em Paris, pesquisando sobre o bisavô, deu com o artigo. Foi para o facebook e me encontrou. Em seguida, pelo telefone. Imaginem a emoção de ouvir sua voz e lembrar da infância. Logo chegamos ao chat do facebook, com direito a imagem. Agora uma senhora, mas dessas cariocas, de idade impossível de cravar, falante, dando conta de tudo. Leu meus livros. Vamos marcar de nos encontrar quando for aí? Almoçamos em sua casa, bela, ampla, com móveis sensacionais. Havia tanta coisa a dizer! Conversamos, rimos, relembramos e havia muita coisa ainda a dizer. Conversa fluida, como se nos víssemos o tempo todo. Ela descobrindo um amigo mais jovem, podendo conversar sobre qualquer assunto. Eu, admirando a pessoa tão marcante para mim. Continuamos a conversar via facebook. Mas na semana passada, um dia ela me procurou e eu não estava. No outro, procurei e não estava. Puxa, não falei com ela, esta semana! Vem uma mensagem no face, de sua filha Georgiana. Lamento informar, mas minha mãe faleceu repentinamente. Estava com uma embolia pulmonar, nada séria, foi ao hospital, tomou injeções, fez um avc e partiu. Sabe quando se está lendo o facebook, a sala cheia de gente conversando, rindo, você começa a ler, vai dando conta do assunto e termina sem graça, a boca em um esgar, tipo como-assim? Primeiro não quer aceitar, depois fica pensativo, melancólico. Uma pessoa tão viva e tranquila, sem grandes problemas de saúde. Foi um reencontro tão bom! Rezei por ela. Foi uma mulher que me ensinou muito e hoje, já na meia idade, me confortou encontrá-la. Pena que tão rápido. Puxa.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Cracolândia

Agora de tarde, o carro reportagem da RBA TV estacionou na Riachuelo, entre Presidente Vargas e Primeiro de Março. Nesta, estacionou uma viatura da PM, com dois soldados e um comandante. O comandante estava em uma ligação. É impressionante como falam ao celular. Vocês estão aqui para dar segurança ao carro da Tv? É uma reportagem sobre a Cracolândia? - Eles chegaram aos poucos, mas rápido formaram um time consistente. Jovens, pivetões, meia idade, homens e mulheres. Quase não dormem. Passam o dia à mercê de doses de crack. Não sei de onde vieram, expulsos. Adotaram a saída lateral do Cuíra, entrada e saída dos artistas, como seu ponto, meramente porque o recuo até a grade, é espaço suficiente para desviarem do vento e acender o cachimbo. Imagino que o incêndio há poucos dias em uma casa ali no Reduto, tenha como estopim os fósforos que acendem sem parar. A área do portão do Cuíra fica cheia de fósforos queimados. Tratam-nos muito bem, com respeito. Mas entre si, há disputas selvagens, com socos, facadas e tiros. Ficam amontoados feito percevejos, com suas roupas imundas, rostos macilentos. Pedem desculpas por não ter coragem de largar o vício. Disse-me isso um homem feito, seus 28 anos, talvez. Deslocaram de lugar as prostitutas da área, raras, com alguma idade e clientela de aposentados. Uma vez, tive o número e liguei para o Coronel Solano, tipo vice chefe da Polícia, algo assim. Queria pedir-lhe uma solução, um susto, que fosse, para que saíssem dali, por conta do prejuízo nos serviços do Cuíra, na área social e artística. Pra quê. Ouvi um sermão de vários minutos sobre ser um problema social, que estoura nas mãos da Polícia e  escambau. Assim o comandantezinho da patrulha que está lá no Cuíra agora, tarde de quarta feira, 30 de janeiro.
É uma reportagem sobre a Cracolândia? Que Cracolândia? Aqui não tem isso. Não tem? Tem sim, senhor comandante. São apenas umas cinco pessoas consumindo crack. Cinco pessoas? O senhor então não sabe. Trabalho aqui com o Teatro e posso lhe dizer que são uns cinquenta, talvez, tá bom, uns trinta, quem sabe. Olha aqui, esse é um problema social, entende? Nós estamos sempre passando por aqui. Passam e eles saem. Vocês dobram a esquina, eles retornam, vão até a Praça da República e voltam. Pronto, tocou novamente o celular. Ia dizer a ele que do meu prédio, podemos ver até o traficante agindo. Quando aparece a Polícia, certa vez, o guarda o conhecia. O traficante foi até lá, deu abraço e saiu na boa.
Leio que em SP, há discussão a respeito. Paulo Faria, que tem um teatro instalado no centro, região da Luz, é contra a tal internação compulsória. Drauzio Varela acha que precisa internar. Não tenho preparo para responder, mas, mais do que atrapalhar a paisagem, incomodar quem passa, até ameaçar os transeuntes, a sociedade precisa encontrar rápidamente uma saída para esses infelizes viciados.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Vale a pena ler

Rituais de sofrimento
Silvia Viana
Já em pré-venda aqui e aqui!
Professora de sociologia na Fundação Getúlio Vargas (FGV) e doutora pela USP, Silvia Viana leva a sério o aparente escárnio da designação “reality show” emRituais de sofrimento, novo livro da coleção Estado de Sítio a ser publicado pela Boitempo.

“Não lidamos aqui com um ritual como outro qualquer, não se trata de uma festa ou do consumo, ambos cerimoniais oferecidos aos deuses do prazer. Trata-se de algo mais perturbador, pois o que se vê nos reality shows é a proliferação de rituais de sofrimento”, afirma a pesquisadora no primeiro capítulo.

Silvia Viana analisa tais rituais e mecanismos de dominação em vários produtos televisivos da indústria cultural brasileira, com especial atenção ao maior deles, o Big Brother Brasil, no ar há treze anos.
O estudo também abrange programas e filmes de Hollywood que perpetuam a mesma lógica brutal. Assim como no BBB, o assassino Jigsaw da franquia Jogos Mortais, por exemplo, não almeja a morte/eliminação de suas vítimas: ele quer que elas sobrevivam. Mais que isso, que sobrevivam a qualquer preço.

Quais são as molas que movem esse lado fake e nem por isso menos real do mundo em que vivemos? Onde estão as roldanas que dirigem as cordas, quem são as figuras que elas agitam, como o conjunto se fecha sobre si mesmo sem deixar lacunas? Silvia reflete sobre essas questões em um relato clínico, com traços firmes e finos, sem poupar nada nem ninguém. Segundo o sociólogo e professor da USP Gabriel Cohn, a fatura desse livro parece seguir uma regra básica: quanto mais o tema se revela repugnante, tanto mais refinada deve ser a sua exposição. O resultado é uma escrita em que não cabe o gesto banal da indignação moral nem a repulsa à má qualidade estética – ambas provocações já programadas no espetáculo –, mas algo mais fundo.

Apesar de permanecer na sociedade o debate em torno de um de seus discursos de origem, o mote do espetáculo da realidade e seu maior apelo junto aos telespectadores é a concorrência, não o voyeurismo. “É esse o fundamento que atrai o nosso olhar, pois é o fundamento de nossa reprodução social”, afirma Silvia.

Para além dos inúmeros recordes acumulados pelo programa Big Brother Brasil, é digno de atenção o espírito que, ao longo de três meses anuais, toma o público. A disputa hipnotiza as cidades como um espectro: sem entender como, sabemos nomes e acontecidos, o programa toma o ar e sufoca. É onipresente; está em todas as mídias e em todas as conversas; suscita contendas nos ônibus e táxis. Mas é na internet que o comprometimento do público toma corpo: sites, grupos de debate, blogs, salas de bate-papo, tuitagens, comunidades virtuais e campanhas inflamadas para a eliminação de fulano ou beltrano proliferam e deixam o rastro do dinheiro, trabalho e tempo oferecidos gratuitamente ao show de horror. Em espaços de reclusão, que pela própria dimensão já inspiram pesquisas acadêmicas, é unânime o desejo do embate feroz entre os aprisionados. Neles, impera o princípio muito bem formulado pelo organizador da rinha: importa muito mais a queda que a salvação.

O princípio violento do BBB não é oculto, pelo contrário, o próprio programa faz questão de afirmá-lo constantemente – e funciona inúmeras vezes como propaganda – ao enfatizar o caráter eliminatório e cruel do jogo. Cada edição impõe a seus participantes situações mais árduas. “Não é um jogo de quem ganha. É um jogo de eliminação. Esse saber generalizado, no entanto, não impede que uns se submetam e outros castiguem, nem que aqueles que se submetem também castiguem. Pelo contrário, a participação é a pedra fundamental do espetáculo. Mais que a aceitação passiva desse princípio nem um pouco subjacente, o programa conquista o engajamento ativo, frequentemente maníaco, nessa engrenagem de fazer sofrer”, afirma Silvia.

Dividido em quatro partes, “Show de horror”, “Das regras”, “Dos jogadores” e “Das provas”, o livro conta também com o posfácio “Breve história da realidade: sofrimento, cultura e dominação”, do professor-adjunto de filosofia da Universidade Federal de Juiz de Fora Pedro Rocha de Oliveira, e com texto de orelha assinado por Gabriel Cohn.
Trecho do livro
“A dificuldade de se escrever a respeito da ideologia hoje é que para o juízo bastaria a descrição, mas essa já não o (co)move. Se uma pessoa se mostra crítica ou mesmo condoída diante do sofrimento que se avoluma nesse tipo de programa de TV, a ela caberá a pecha de idiota (ou invejosa!). A dominação se mostra a céu aberto em dia claro, sem que se renuncie à sua prática. Todo discurso a respeito de justiça, liberdade, igualdade e até mesmo bondade é descartado com virilidade em nome de uma dura realidade. [...] Não são poucas as vezes em que coloco o problema do sofrimento ao qual são submetidos os participantes e a resposta é: “Mas foram eles que se voluntariaram”. Uma das ideias centrais que sustentam o estado de direito é a da inalienabilidade: não se pode abrir mão da dignidade, por exemplo, mesmo que se queira. Em tese, nenhum contrato assinado pelos participantes de reality shows poderia ser válido em qualquer lugar no qual a democracia e os direitos humanos vigoram. E o problema jurídico posto por essas produções não responde sequer ao paradoxo dos direitos humanos colocado por Hannah Arendt, segundo a qual tais direitos só podem ter vigência quando levados a cabo pelos estados nacionais, ou seja, os apátridas não os têm. Os participantes são cidadãos brasileiros, alemães, norte-americanos, holandeses, argentinos e um longo etc. A vida à disposição da produção de entretenimento a que se assiste em reality shows é um índice mais do que transparente de que vivemos em um estado de exceção permanente, pulverizado e onipresente.”
Sobre a autora
Silvia Viana é professora de sociologia na Fundação Getúlio Vargas (FGV), formada em ciências sociais e com mestrado e doutorado em sociologia pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). Suas áreas de estudos são sociologia, crítica cultural e filosofia, com ênfase em teoria crítica contemporânea, teoria sociológica e sociologia da cultura.
Ficha técnica
Título: Rituais de sofrimento
Autora: Silvia Viana
Posfácio: Pedro Rocha de Oliveira
Orelha: Gabriel Cohn
Páginas: 192
ISBN: 978-85-7559-309-7
Preço: R$ 37,00
Coleção: Estado de Sítio
Editora: Boitempo